Beleza Pura (Caetano Veloso)

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Café com Letras

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May 18, 2012, 9:47:38 PM5/18/12
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CAFÉ COM LETRAS CLUBE

Cinema Transcendental

"Série: Grande Discoteca Brasileira"

(1979) Caetano Veloso

Texto: Ricardo Moreira 

Um roteiro que começa em Santo Amaro 

Na caça às bruxas insana que se seguiu ao truculento Ato Institucional nº. 5 (o AI-5), os "incômodos" Caetano Veloso e Gilberto Gil foram presos dois dias após o Natal de 1968, por terem usado nos shows da Boate Sucata uma suposta deturpação do Hino Nacional e da bandeira brasileira. De São Paulo são conduzidos ao Quartel de Marechal Deodoro, no Rio de Janeiro.

O ano de 1969 foi uma barra para Caetano e Gil. A dupla teve de esperar até a quarta-feira de cinzas para ser libertada, seguindo para o confinamento de Salvador, onde estavam proibidos de dar declarações públicas. Para respeitar as ordens de reclusão, foi montado pela gravadora um esquema de produção pouco usual. Caetano gravava na Bahia suas novas composições, acompanhado apenas pelo violão de Gil, e o tape seguia para São Paulo, onde o maestro Rogério Duprat fazia o arranjo e cobria com a base de instrumentos e orquestra. Para esconder a escassez de cabelo provocada pela raspagem feita na prisão, o disco Caetano Veloso sairia em agosto sem foto, apenas com sua assinatura num fundo branco. Dentro do álbum branco de Caetano havia a balada "Não Identificado", que se tornaria a preferida de seu pai, "Atrás do Trio Elétrico", o frevo precursor do formato carnavalesco que impera até hoje em Salvador, e a deliciosa ode à risada de sua irmã, "Irene". Três sucessos nacionais.

Tempo de exílio

Gravados precariamente e lançados três anos depois com o nome de Barra 69, dois shows de despedida foram permitidos nos dias 20 e 21 de julho no teatro Castro Alves, apenas para levantar dinheiro para que os dois artistas pudessem partir com suas mulheres, as irmãs Dedé e Sandra Gadelha, para o gelado exílio londrino.

Em 1970, uma canção do pernambucano Paulo Diniz estourava nas rádios brasileiras, dizendo "Via intelsat eu mando notícias minhas para o Pasquim...". Era mesmo assim que o homenageado da canção, Caetano Veloso, fazia. Escrevia para o tabloide carioca O Pasquim e, como o refrão da canção dizia, queria voltar para a Bahia. Apesar de atormentado pela saudade, continuava compondo, e alguns intérpretes foram privilegiados com suas primeiras cartas-musicais do exílio. As primeiras foram para Gal Costa, que gravou o frevo "Deixa Sangrar" e "London London". Elis recebeu "Não Tenha Medo", ainda em 1970, mostrando a tríade do exilado: a memória da alegria, a resistência e a nostalgia. Esses seriam, no ano zero da década, os postais musicais expedidos de Londres e gravados no Brasil.

Enquanto se apresentava amiúde em palcos europeus, Caetano gravava seu primeiro disco totalmente concebido e gravado em Londres. Produzido por Ralph Mace e Lou Reizner, da Famous/GW Records, Caetano Veloso, o disco deportado, trazia quase todas as canções em inglês. Entre elas "London London" e o SOS enviado em "Maria Bethânia". Até mesmo as raízes já vinham miscigenadas, como na releitura de "Marinheiro Só", que se transfigura em "If You Hold a Stone". A exceção à regra encerra o disco: a angustiada releitura de "Asa Branca", de Luiz Gonzaga. Na capa, um baiano a little more blue, como diz a faixa de abertura, com um olhar triste que tenta se proteger entre cavanhaque, bigode e casado de pele.


1. Lua de São Jorge (Caetano Veloso)

2. Oração ao Tempo (Caetano Veloso)

3. Beleza Pura (Caetano Veloso)

4. Menino do Rio (Caetano Veloso)

5. Vampiro (Jorge Mautner)

6. Elegia (Péricles Cavalcanti / Augusto de Campos)

7. Trilhos Urbanos (Caetano Veloso)

8. Louco por Você (Caetano Veloso)

9. Cajuína (Caetano Veloso)

10.Aracaju (Vinícius Cantuária / Tomas Improta / Caetano Veloso)

11. Badauê (Moa do Catende)

12. Os Meninos Dançam (Caetano Veloso)


Letra 

Não me amarra dinheiro não!
Mas formosura
Dinheiro não!
A pele escura
Dinheiro não!
A carne dura
Dinheiro não!...

Moça preta do Curuzu
Beleza Pura!
Federação
Beleza Pura!
Boca do rio
Beleza Pura!
Dinheiro não!...

Quando essa preta
Começa a tratar do cabelo
É de se olhar
Toda trama da trança
Transa do cabelo
Conchas do mar
Ela manda buscar
Prá botar no cabelo
Toda minúcia, toda delícia...

Não me amarra dinheiro não!
Mas elegância...

Não me amarra dinheiro não!
Mas a cultura
Dinheiro não!
A pele escura
Dinheiro não!
A carne dura
Dinheiro não!...

Moço lindo do Badauê
Beleza Pura!
Do Ilê-Aiê
Beleza Pura!
Dinheiro hié!
Beleza Pura!
Dinheiro não!...

Dentro daquele turbante
Do filho de Gandhi
É o que há
Tudo é chique demais
Tudo é muito elegante
Manda botar!
Fina palha da costa
E que tudo se trance
Todos os búzios
Todos os ócios...

Não me amarra dinheiro não!
Mas os mistérios...

Não me amarra dinheiro não!
Beleza Pura!
Dinheiro não!
Beleza Pura!
Dinheiro não!
Beleza Pura!
Dinheiro Hié!

A terceira faixa do disco é outra obra de Caetano que ressurge ciclicamente. "Beleza Pura" foi entregue originalmente inédita para A Cor do Som, grupo do "Leãozinho" Dadi e do guitarrista Armandinho, filho de um dos inventores do trio elétrico. No mesmo 1979, os meninos transformaram sua gravação em um grande sucesso nacional. No roteiro de Cinema Transcendental, Caetano a relê num formato ijexá com pitadas reggae, tornando-a uma segunda experiência imperdível. Em 2008, uma novela homônima da TV Globo abria com uma regravação da banda mineira Skank, completando a ponte aérea Salvador/Rio/BH.

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GRANDE DISCOTECA BRASILEIRA
1. TROPICALIA OU PANIS ET CIRCENCIS (Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Os Mutantes, Nara Leão) 2. MEUS CAROS AMIGOS (Chico Buarque)
3. IDEOLOGIA (Cazuza) 4. CLUBE DA ESQUINA (Milton Nascimento & Borges) 5. CINEMA TRANSCENDETAL (Caetano Veloso) 6. ACABOU CHORARE (Novos Baianos) 7. SECOS & MOLHADOS (Secos & Molhados) 8. CABEÇA DINOSSAURO (Titãs) 9. A TÁBUA DA ESMERALDA (Jorge Benjor) 10. FRUTO PROIBIDO (Rita Lee & Tutti Frutti) 11. EXPRESSO 2222 (Gilberto Gil) 12. TUDO AZUL (Lulu Santos) 13. A DIVINA COMÉDIA OU ANDO MEIO DESLIGADO (Os Mutantes) 14. FALSO BRILHANTE (Elis Regina) 15. PÉROLA NEGRA (Luiz Melodia) 16. A VOZ E O VIOLÃO DE DJAVAN (Djavan) 17. AS AVENTURAS DA BLITZ (Blitz) 18. GONZAGUINHA DA VIDA (Gonzaguinha) 19. SELVAGEM? (Os Paralamas do Sucesso) 20. DANÇA DA SOLIDÃO (Paulinho da Viola) 21. SOMOS TODOS IGUAIS NESTA NOITE (Ivan Lins) 22. CAÇA À RAPOSA (João Bosco) 23. CAVALO DE PAU (Alceu Valença) 24. CANTAR (Gal Costa) 25. ZÉ RAMALHO (Zé Ramalho)
25 DISCOS QUE FIZERAM HISTÓRIA!
 

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A todos, muito obrigado.
Roberto Ferro. robert...@hotmail.com

 
 
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