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Um
roteiro que começa em Santo Amaro
Na
caça às bruxas insana que se seguiu ao truculento Ato Institucional
nº. 5 (o AI-5), os "incômodos" Caetano Veloso e Gilberto Gil foram
presos dois dias após o Natal de 1968, por terem usado nos shows da
Boate Sucata uma suposta deturpação do Hino Nacional e da bandeira
brasileira. De São Paulo são conduzidos ao Quartel de Marechal
Deodoro, no Rio de Janeiro.
O
ano de 1969 foi uma barra para Caetano e Gil. A dupla teve de
esperar até a quarta-feira de cinzas para ser libertada, seguindo
para o confinamento de Salvador, onde estavam proibidos de dar
declarações públicas. Para respeitar as ordens de reclusão, foi
montado pela gravadora um esquema de produção pouco usual. Caetano
gravava na Bahia suas novas composições, acompanhado apenas pelo
violão de Gil, e o tape seguia para São Paulo, onde o
maestro Rogério Duprat fazia o arranjo e cobria com a base de
instrumentos e orquestra. Para esconder a escassez de cabelo
provocada pela raspagem feita na prisão, o disco Caetano
Veloso sairia em agosto sem foto, apenas com sua assinatura num
fundo branco. Dentro do álbum branco de Caetano havia a balada "Não
Identificado", que se tornaria a preferida de seu pai, "Atrás do
Trio Elétrico", o frevo precursor do formato carnavalesco que impera
até hoje em Salvador, e a deliciosa ode à risada de sua irmã,
"Irene". Três sucessos nacionais.
Tempo de exílio
Gravados
precariamente e lançados três anos depois com o nome de Barra
69, dois shows de despedida foram permitidos nos dias 20 e 21
de julho no teatro Castro Alves, apenas para levantar dinheiro para
que os dois artistas pudessem partir com suas mulheres, as irmãs
Dedé e Sandra Gadelha, para o gelado exílio
londrino.
Em
1970, uma canção do pernambucano Paulo Diniz estourava nas rádios
brasileiras, dizendo "Via intelsat eu mando notícias minhas para o
Pasquim...". Era mesmo assim que o homenageado da canção,
Caetano Veloso, fazia. Escrevia para o tabloide carioca O
Pasquim e, como o refrão da canção dizia, queria voltar para a
Bahia. Apesar de atormentado pela saudade, continuava compondo, e
alguns intérpretes foram privilegiados com suas primeiras
cartas-musicais do exílio. As primeiras foram para Gal Costa, que
gravou o frevo "Deixa Sangrar" e "London London". Elis recebeu "Não
Tenha Medo", ainda em 1970, mostrando a tríade do exilado: a memória
da alegria, a resistência e a nostalgia. Esses seriam, no ano zero
da década, os postais musicais expedidos de Londres e gravados no
Brasil.
Enquanto
se apresentava amiúde em palcos europeus, Caetano gravava seu
primeiro disco totalmente concebido e gravado em Londres. Produzido
por Ralph Mace e Lou Reizner, da Famous/GW Records, Caetano
Veloso, o disco deportado, trazia quase todas as canções em
inglês. Entre elas "London London" e o SOS enviado em "Maria
Bethânia". Até mesmo as raízes já vinham miscigenadas, como na
releitura de "Marinheiro Só", que se transfigura em "If You Hold a
Stone". A exceção à regra encerra o disco: a angustiada releitura de
"Asa Branca", de Luiz Gonzaga. Na capa, um baiano a little more
blue, como diz a faixa de abertura, com um olhar triste que
tenta se proteger entre cavanhaque, bigode e casado de
pele. |
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1. Lua de São
Jorge (Caetano Veloso)
2. Oração ao
Tempo (Caetano Veloso)
3. Beleza Pura (Caetano
Veloso)
4. Menino
do Rio (Caetano Veloso)
5. Vampiro
(Jorge Mautner)
6. Elegia
(Péricles Cavalcanti / Augusto de
Campos)
7. Trilhos
Urbanos (Caetano Veloso)
8. Louco
por Você (Caetano Veloso)
9. Cajuína
(Caetano Veloso)
10.Aracaju
(Vinícius Cantuária / Tomas Improta / Caetano
Veloso)
11. Badauê
(Moa do Catende)
12. Os
Meninos Dançam (Caetano Veloso)
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