Cajuína (Caetano Veloso)

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Café com Letras

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May 20, 2012, 9:03:53 PM5/20/12
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CAFÉ COM LETRAS CLUBE

Cinema Transcendental

"Série: Grande Discoteca Brasileira"

(1979) Caetano Veloso

Texto: Ricardo Moreira 

Um roteiro que começa em Santo Amaro 

A paz entre os fãs de festival de Caetano e Chico seria selada também naquele ano em Caetano e Chico Juntos e ao Vivo, gravado nos dias 10 e 11 de novembro no Teatro Castro Alves/Salvador. Ideia arquitetada por André Midani - presidente da gravadora dos dois artistas -, o disco é um monumento em homenagem à inteligência emocional. Canções são trocadas como flâmulas entre os dois: "Rita" é cantada por Caetano, e "Janelas Abertas nº. 2", por Chico. Há duetos sensacionais, como o marcante medley "Você Não Entende Nada/Cotidiano".

A versão rock para o samba "Partido Alto", de Chico Buarque, interpretada por Caetano e banda, é uma obra-prima. Apesar da notícia do suicídio de Torquato Neto na primeira noite do show e da vigilância dos órgãos de repressão, demandando uma pós-produção que encobria com palavras censuradas, criou-se ali um dos mais importantes registros ao vivo de toda a história da MPB. O disco saiu em dezembro, um mês depois do nascimento, em Salvador, de Moreno, filho de Caetano com Dedé.

Como Transa fora gravado ainda em Londres em 1971 e o disco com Chico era um projeto ao vivo, o lançamento do álbum Araçá Azul, em janeiro de 1973, é o primeiro disco de estúdio concebido e produzido depois de sua volta do exílio e por isso rodeado de expectativas. A decepção foi geral porque a proposta de Caetano era ir mais fundo na ruptura estética da Tropicália, quando todos imaginavam que uma nova página seria aberta. Como que de propósito, Caetano testava os limites de seu ouvinte e estes foram rompidos, provocando uma onda de devoluções do disco e sua retirada prematura de catálogo pela gravadora. "Júlia/Moreno", a dúvida paterna feita em música antes do nascimento de seu primeiro filho, chegou a tocar timidamente nas rádios brasileiras.

Caetano cai na estrada cumprindo a agenda de shows do circuito universitário até que se apresenta no projeto coletivo Phono 73, que aconteceria entre os dias 11 e 13 de maio no Palácio das Convenções do Anhembi, elaborado novamente por André Midani. Era um antifestival, no qual o artista mostraria músicas inéditas, sem precisar passar novamente pelo desgaste de competir com outro colega num momento em que, pelos tempos difíceis pelos quais todos passavam, a união era a ordem do dia.

A ideia era simples e genial: o artista entrava e cantava uma música recente de seu repertório e chamava outro e cantava com ele uma música inédita que haviam composto especialmente para a ocasião. O segundo artista ficava e assim por diante. Foi assim que nasceu "Cálice", de Chico e Gil. Os intérpretes também se lançavam em duos de canções inéditas, como aconteceu com Gal e Bethânia em "Oração de Mãe Menininha", de Dorival Caymmi. Excetuando a violência de censura no episódio do desligamento de microfones enquanto Chico e Gil tentavam solfejar a melodia com letra já proibida de "Cálice", o grande happening seria "Vou Tirar Você Desse Lugar", do "terror das empregadas" Odair José, em dueto com nada menos que Caetano Veloso. Mais um petardo escandalosamente tropicalista, desta vez à queima roupa. Sempre na mão e na contramão visionária de todas as correntes, Caetano produziria o disco Cantar, de Gal Costa (volume 24 desta coleção), também no ano de 1974, e faria o mesmo com Smetak, do músico suiço experimental-multimídia Walter Smetak, radicado na Bahia.


1. Lua de São Jorge (Caetano Veloso)

2. Oração ao Tempo (Caetano Veloso)

3. Beleza Pura (Caetano Veloso)

4. Menino do Rio (Caetano Veloso)

5. Vampiro (Jorge Mautner)

6. Elegia (Péricles Cavalcanti / Augusto de Campos)

7. Trilhos Urbanos (Caetano Veloso)

8. Louco por Você (Caetano Veloso)

9. Cajuína (Caetano Veloso)

10.Aracaju (Vinícius Cantuária / Tomas Improta / Caetano Veloso)

11. Badauê (Moa do Catende)

12. Os Meninos Dançam (Caetano Veloso)


Letra 

Existirmos: a que será que se destina?
Pois quando tu me deste a rosa pequenina
Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina
Do menino infeliz não se nos ilumina
Tampouco turva-se a lágrima nordestina
Apenas a matéria vida era tão fina
E éramos olharmo-nos intacta retina
A cajuína cristalina em Teresina

A bordo de Cinema Transcendental, a Teresina de "Cajuína" fica a pouco mais de dois minutos de "Aracaju", parceria do artista com Tomás e Vinícius, de A Outra Banda da Terra. Esta última, uma faixa pintada de urucum pelos sopros indígenas da flauta de bambu de Improta, tem sua calma de Brasil moreno despertada pelo batuque negro de "Badauê", de Môa de Catendê, uma quase vinheta de pouco mais de um minuto, que é como a passagem de um bloco afro deixando saudade.

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GRANDE DISCOTECA BRASILEIRA
1. TROPICALIA OU PANIS ET CIRCENCIS (Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Os Mutantes, Nara Leão) 2. MEUS CAROS AMIGOS (Chico Buarque)
3. IDEOLOGIA (Cazuza) 4. CLUBE DA ESQUINA (Milton Nascimento & Borges) 5. CINEMA TRANSCENDETAL (Caetano Veloso) 6. ACABOU CHORARE (Novos Baianos) 7. SECOS & MOLHADOS (Secos & Molhados) 8. CABEÇA DINOSSAURO (Titãs) 9. A TÁBUA DA ESMERALDA (Jorge Benjor) 10. FRUTO PROIBIDO (Rita Lee & Tutti Frutti) 11. EXPRESSO 2222 (Gilberto Gil) 12. TUDO AZUL (Lulu Santos) 13. A DIVINA COMÉDIA OU ANDO MEIO DESLIGADO (Os Mutantes) 14. FALSO BRILHANTE (Elis Regina) 15. PÉROLA NEGRA (Luiz Melodia) 16. A VOZ E O VIOLÃO DE DJAVAN (Djavan) 17. AS AVENTURAS DA BLITZ (Blitz) 18. GONZAGUINHA DA VIDA (Gonzaguinha) 19. SELVAGEM? (Os Paralamas do Sucesso) 20. DANÇA DA SOLIDÃO (Paulinho da Viola) 21. SOMOS TODOS IGUAIS NESTA NOITE (Ivan Lins) 22. CAÇA À RAPOSA (João Bosco) 23. CAVALO DE PAU (Alceu Valença) 24. CANTAR (Gal Costa) 25. ZÉ RAMALHO (Zé Ramalho)
25 DISCOS QUE FIZERAM HISTÓRIA!
 

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O PROJETO CAFÉ COM LETRAS CLUBE — UM SÍTIO SEM FINS LUCRATIVOS — tem como objetivo divulgar a música popular brasileira. Aguardamos dos amigos leitores e ouvintes críticas, comentários e sugestões.
A todos, muito obrigado.
Roberto Ferro. robert...@hotmail.com

 
 
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