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Um
roteiro que começa em Santo Amaro
A
paz entre os fãs de festival de Caetano e Chico seria selada também
naquele ano em Caetano e Chico Juntos e ao Vivo, gravado
nos dias 10 e 11 de novembro no Teatro Castro Alves/Salvador. Ideia
arquitetada por André Midani - presidente da gravadora dos dois
artistas -, o disco é um monumento em homenagem à inteligência
emocional. Canções são trocadas como flâmulas entre os dois: "Rita"
é cantada por Caetano, e "Janelas Abertas nº. 2", por Chico. Há
duetos sensacionais, como o marcante medley "Você Não
Entende Nada/Cotidiano".
A
versão rock para o samba "Partido Alto", de Chico Buarque,
interpretada por Caetano e banda, é uma obra-prima. Apesar da
notícia do suicídio de Torquato Neto na primeira noite do show e da
vigilância dos órgãos de repressão, demandando uma pós-produção que
encobria com palavras censuradas, criou-se ali um dos mais
importantes registros ao vivo de toda a história da MPB. O disco
saiu em dezembro, um mês depois do nascimento, em Salvador, de
Moreno, filho de Caetano com Dedé.
Como
Transa fora gravado ainda em Londres em 1971 e o disco com
Chico era um projeto ao vivo, o lançamento do álbum Araçá
Azul, em janeiro de 1973, é o primeiro disco de estúdio
concebido e produzido depois de sua volta do exílio e por isso
rodeado de expectativas. A decepção foi geral porque a proposta de
Caetano era ir mais fundo na ruptura estética da Tropicália, quando
todos imaginavam que uma nova página seria aberta. Como que de
propósito, Caetano testava os limites de seu ouvinte e estes foram
rompidos, provocando uma onda de devoluções do disco e sua retirada
prematura de catálogo pela gravadora. "Júlia/Moreno", a dúvida
paterna feita em música antes do nascimento de seu primeiro filho,
chegou a tocar timidamente nas rádios brasileiras.
Caetano
cai na estrada cumprindo a agenda de shows do circuito
universitário até que se apresenta no projeto coletivo Phono
73, que aconteceria entre os dias 11 e 13 de maio no Palácio
das Convenções do Anhembi, elaborado novamente por André Midani. Era
um antifestival, no qual o artista mostraria músicas inéditas, sem
precisar passar novamente pelo desgaste de competir com outro colega
num momento em que, pelos tempos difíceis pelos quais todos
passavam, a união era a ordem do dia.
A
ideia era simples e genial: o artista entrava e cantava uma música
recente de seu repertório e chamava outro e cantava com ele uma
música inédita que haviam composto especialmente para a ocasião. O
segundo artista ficava e assim por diante. Foi assim que nasceu
"Cálice", de Chico e Gil. Os intérpretes também se lançavam em duos
de canções inéditas, como aconteceu com Gal e Bethânia em "Oração de
Mãe Menininha", de Dorival Caymmi. Excetuando a violência de censura
no episódio do desligamento de microfones enquanto Chico e Gil
tentavam solfejar a melodia com letra já proibida de "Cálice", o
grande happening seria "Vou Tirar Você Desse Lugar", do
"terror das empregadas" Odair José, em dueto com nada menos que
Caetano Veloso. Mais um petardo escandalosamente tropicalista, desta
vez à queima roupa. Sempre na mão e na contramão visionária de todas
as correntes, Caetano produziria o disco Cantar, de Gal
Costa (volume 24 desta coleção), também no ano de 1974, e faria o
mesmo com Smetak, do músico suiço experimental-multimídia
Walter Smetak, radicado na Bahia. |
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1. Lua de São
Jorge (Caetano Veloso)
2. Oração ao
Tempo (Caetano Veloso)
3. Beleza
Pura (Caetano Veloso)
4. Menino
do Rio (Caetano Veloso)
5. Vampiro
(Jorge Mautner)
6. Elegia
(Péricles Cavalcanti / Augusto de
Campos)
7. Trilhos
Urbanos (Caetano Veloso)
8. Louco
por Você (Caetano Veloso)
9. Cajuína (Caetano
Veloso)
10.Aracaju
(Vinícius Cantuária / Tomas Improta / Caetano
Veloso)
11. Badauê
(Moa do Catende)
12. Os
Meninos Dançam (Caetano Veloso)
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A
bordo de Cinema Transcendental, a Teresina de "Cajuína"
fica a pouco mais de dois minutos de "Aracaju", parceria do artista
com Tomás e Vinícius, de A Outra Banda da Terra. Esta última, uma
faixa pintada de urucum pelos sopros indígenas da flauta de bambu de
Improta, tem sua calma de Brasil moreno despertada pelo batuque
negro de "Badauê", de Môa de Catendê, uma quase vinheta de pouco
mais de um minuto, que é como a passagem de um bloco afro deixando
saudade. |