CONTRASTE_ Discordar é uma arte

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Tim

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Jul 4, 2007, 6:55:33 AM7/4/07
to Caçadores de Gambozinos
Leonor Pinhão V Miguel Esteves Cardoso

REVISTA ÚNICA | 30 Junho 2OO7 | Expresso

Leonor Pinhão

Discordar é uma arte


«Não há pior do que as falanges da normalidade»

Para concordar é fácil arranjar indivíduos. Aliás, o que mais se vê é
pessoas a concordar. São uma praga. Concordam por tudo e por nada, por
dá aquela palha, por conveniência, por distracção, por preguiça, para
fazer número e engrossar as falanges de normalidade. Aliás, não há
nada pior do que as falanges da normalidade.

Dizer que sim com a cabeça, onde é que já se viu gesto mais obsceno?
Dizer «sim» pela boca fora já é um risco de consequências sempre
improváveis, agora fazê-lo por expressão do corpo, abandonando a
capacidade da fala que nos distingue em nome da representação do
consentimento que nos amarfanha, onde é que já se viu uma coisa
destas? Há uma grande diferença entre dizer que sim e em dizer que
não. É certo que para os românticos franceses dizer que não era o
mesmo que dizer que sim e, no fundo, tinham razão porque eram
franceses e o seu romantismo não era mais do que a apologia do
descaramento total, enroupado na ilusão do sofrimento.
Do sofrimento dos outros, claro está. Discordar dá trabalho. Há duas
maneiras de discordar: usar a palavra «não» ou dizer não com a cabeça,
gesto mais dignificante do que dizer sim com a cabeça. Quando alguém
diz que sim com a cabeça acabou-se a discussão e não há mais
pensamento. Instala-se o vazio.

Agora sempre que um indivíduo diz que não com a cabeça inicia-se um
corte na linearidade e, o mais certo,
é acabar em revolução. Já tem acontecido. Discordar exige toda uma
arte, concordar não exige nada.
Os preguiçosos dizem a tudo que sim porque não se querem dar ao
trabalho da altercação e, mais grave ainda, têm medo de perder na
discussão das ideias. Os que não têm medo até inventam discórdias
irrazoáveis só pelo prazer da refrega e da ginástica retórica. O que
cansa numa discussão não é a vontade de a vencer. É a dúvida sobre se
não estaríamos todos melhor na praia, construindo castelos à beira-mar
até que a maré encha e destrua placidamente o que fabricámos. Todos os
argumentos são de areia. Ou será que discordam?

Leonor Pinhão
ui...@expresso.pt


Miguel Esteves Cardoso

Em princípio, concordo

«Concordar dá mais trabalho e obriga a discutir mais seriamente»

Não é só da discussão que nasce a luz: o esforço de querer concordar
com alguém aproxima-nos do ponto
de vista dele. Discordar tem graça quando se é muito novo porque ajuda
a construir uma identidade onde,
a bem ver, não sobram características distintivas. A nossa cultura
favorece a discordância automática, associando-a à afirmação da
personalidade. Ser contrário é ser corajoso e livre e desobediente.
E assim se fomentam milhões de pequenas rebeliões quadradas, escusadas
e previsíveis.
A maioria destas oposições é puramente antitética e, como tal, só se
distingue da outra posição por inverter
o sinal. Vem dar ao mesmo, à maneira de um espelho. O que acrescenta
quem ouve propor, por exemplo, que se deve proteger os melros e
responde que melhor seria que fossem todos exterminados? É pena que
estas contraposições simplórias e parasíticas passem como provas de
«diferença». Mas que diferença fazem? Nenhuma. Tanto fazem - é uma das
consequências nada «paradoxais» da massificação mental dos nossos
dias. Cada ser humano deseja uma opinião diferente acerca de todas as
coisas: haverá maior condenação à uniformidade? É como viver num país
em que cada habitante, todo contentinho, insiste em usar um chapéu
diferente dos compatriotas. Mas, mal chega um estrangeiro, classifica-
o para todo o sempre como o estranho país em que toda a gente anda de
chapéu.

Este ambiente de pseudodistinções é tão concentrado que já se
desconfia de quem concorda connosco:
«Porque é que este está a querer dar-me graxa? Porque é que não diz o
que realmente pensa? Será para me calar? Julga que me engana ou quê?»
Assim sendo, só a discordância conforta, assegurando o culto
superficial da sinceridade. A concordância é tida como uma estratégia
- um fingimento para melhor poder adormecer a vítima e zurzir-lhe
depois. Na verdade, as pessoas evitam concordar porque dá mais
trabalho e obriga a discutir mais seriamente. Afinal, concordar é tão
difícil e complexo como formar uma opinião. E quem sabe quem tem
razão, sendo sabido que a razão é coisa sobre a qual é quase tão
difícil concordar? E quanto a tê-la, nem pensar.

Miguel Esteves Cardoso
unica @expresso.pt

Tim

unread,
Jul 4, 2007, 6:58:10 AM7/4/07
to Caçadores de Gambozinos

Para discordar é necessário ser-se um "artista" na arte da retórica.
Não tendo receio de perder a discussão, nem tentando fazer prevalecer,
a todo o custo os nossos argumentos, porque até somos mais
"iluminados" do que os nossos interlocutores. Mas devemos primeiro
ouvir, depois falar: é bom interlocutor, alguém que ouve bem. Um
diálogo frutífero, é aquele que; quer se ganhe ou se perca, tem o
condão de nos proporcionar uma nova perspectiva do olhar sobre um
determinado assunto

> u...@expresso.pt

Alfredo Abambres

unread,
Jul 4, 2007, 9:07:22 AM7/4/07
to cacadoresd...@googlegroups.com
<<
A: Já comentaste no meu blog?
B: Ainda não.
A: E do que estás a espera?
B: Q o tempo transforme os teus textos em meros "textos", para q sem remorsos e sem medos me possa dar por completo a eles, construir sobre eles.
A: Adeus...
B: Assim irei para além das meras palavras de circunstância ou da pura análise crítica (pq tu mereces).
A: Vai à... ou para onde quiseres.
>>

NOTA: E JULGAVA EU QUE ESTAS PALAVRAS ERAM O MAIOR DE TODOS OS ELOGIOS
--
Alfredo Abambres { Let's Play! }

"Moving, always moving, and living inside movement". Rainer Maria Rilke

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