O Estado do mundo_A beatificação do Actual

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Jul 4, 2007, 6:45:15 AM7/4/07
to Caçadores de Gambozinos
A beatificação do Actual

Maria Filomena Molder*
* Ensaísta e profª. do Departamento de Filosofia da Universidade Nova
de Lisboa

«Sem qualquer vislumbre de se ver ultrapassada, a contemporaneidade
compraz-se consigo própria e há quem ganhe fama e dinheiro com isso»


O estado do mundo tem um nome: contemporâneo. Demoremo-nos no
conceito, que nos últimos anos tendeu
a ocupar ad nauseam o centro de muitas discussões, programas e
teorias. Ser contemporâneo e à partida,
e sem mais outra consideração, uma declaração encomiástica de um
estado de coisas, a afirmação de uma prerrogativa em relação aos não-
contemporâneos, a que se associa uma noção benevolente da actualidade.
O que bem caldeado produz uma mistela insalubre: ao mesmo tempo que se
perspectiva
os não-contemporâneos com um olhar relativizado, atribui-se uma
validade indefinida àquilo que o momento segrega, os chamados temas da
actualidade, conceitos satisfeitos, com o seu coeficiente de
realidade.

Ora, «quando a esmola é muita, o pobre desconfia». Não é de afastar a
tese de que em cada geração seja difícil evitar esse erro de paralaxe,
só que nós temos notícia de quem o conseguiu combater e mesmo vencer.
Na verdade, a exigência a fazer a qualquer contemporâneo, entre os que
estão vivos e todos os outros que
o foram, é não confundir aquilo que cabe a cada um por estar vivo,
isto é, fazer frente ao momento escavar na sua fertilidade fazendo-lhe
justiça, e aderir ao que se está a passar no momento até à submissão e
adoração, convertendo em ídolo o que é um efeito da sua própria
parcialidade. Parafraseando Walter Benjamin
(ele referia-se ao moderno), o ser humano foi sempre contemporâneo,
ser contemporâneo é crónico n
a humanidade, isto é, o ser humano esteve sempre diante do seu próprio
abismo, o que no caso do moderno implica uma dupla consciência, por um
lado, a de ser o mais novo, o mais recente, por outro, a de celebrar
sempre algum enterro. Esta constelação tomou aspectos heróicos, o que
aponta para a inactualidade de alguns modernos. Baudelaire foi
seguramente a sua expressão mais genuína.

Quem se chamar a si próprio contemporâneo, como um traço distintivo em
relação a todos os que já existiram,
e quem estiver disposto a tomar como objecto de inquérito a
contemporaneidade, tem de se prevenir contra
o enfeitiçamento que o conceito arrasta, em que à arrogância próxima
de um decreto do juízo final se mistura uma indigência critica com
origem na sedução pela actualidade e pelo seu respectivo regime de
finalidades.

Contemporâneo, tal como moderno (aliás, a crítica de Nietzsche: aos
modernos pode sem solução de continuidade transitar para os
contemporâneos), supõe uma auto-designação ordenada por um imperativo
historicista - pretender que o facto de ter sido o último a nascer
coloca alguém acima daqueles que nasceram antes - e pela ilusão
correspondente de se assegurar da sua própria existência através de um
nome, que não deixa os seus créditos por mãos alheias.

Ao contrário de moderno, porém, essa auto-designação já não se
apresenta por contraste, perda e ousadia.
Ser contemporâneo aponta para uma coexistência glorificada fazendo por
ignorar que foram todos contemporâneos. Sê-lo-ão todos? Sem qualquer
vislumbre de se ver ultrapassada, a contemporaneidade compraz-se
consigo própria e há quem ganhe fama e dinheiro com isso. Não há
dúvidas de que, como diz Goethe, para aquele que vive o mais decisivo
é exercer uma influência sobre os que também estão vivos.
Pensamento muito antigo e sem mácula (da mesma família da compreensão
benjaminiana de moderno), que é exacerbado e desfigurado pela ausência
de qualquer restrição, distância e reserva, sobre o que seja essa
influência, confundida com a beatificação do actual.

«[...] o Sopro sopra onde quer, se eu o respiro ou não é ao Sopro
completamente indiferente», palavra de M. S. Lourenço, cuja evidência
parece extinguir-se no tempo presente, apagada cada vez mais por
aquilo a que também ele chama o "mito da liberdade" (reencontrando-se
tão surpreendentemente com as teses afins de Giorgio Colli), uma das
formas mais nocivas de idolatria a que o homem contemporâneo está
sujeito.


Fonte: Jornal de Letras, Artes e Ideias_6-9 de Junho de 2007
+ Informação sobre o «O estado do Mundo» em:
www.estadodomundo.gulbenkian.pt

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