O Estado do mundo_Três interrogações

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Tim

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Jun 29, 2007, 7:12:22 AM6/29/07
to Caçadores de Gambozinos
O Estado do mundo_Três interrogações

Boaventura de Sousa santos*
* Catedrático da Fac. de Economia de Coimbra, prof. nos EUA e no
Brasil, sociólogo, dirigente do Fórum Social Mundial, presidente do
Observatório da Justiça e do Centro de Documentação 25 de Abril


«Continuamos a ir às feiras da inovação da indústria
dos direitos humanos, mas a caminho delas temos de passar por
um cemitério cada vez mais inabarcável de promessas traídas.»


Vivemos num tempo de perguntas fortes e de respostas fracas. As
perguntas fortes são as que se dirigem não apenas às nossas opções de
vida individual e colectiva, mas sobretudo às raízes, aos fundamentos
que criaram o horizonte das possibilidades entre que é possível optar.
São, por isso, perguntas que causam uma
perplexidade especial. As respostas fracas são as que conseguem
reduzir essa perplexidade e que pelo contrário, a podem aumentar. As
perguntas e as respostas variam de cultura para cultura, de região do
mundo para região do mundo. Mas a discrepância entre a força das
perguntas, e a fraqueza das respostas parece ser comum. Decorre da
multiplicação, em tempos recentes, das zonas de contacto entre
culturas, religiões, economias, sistemas sociais e políticos e formas
de vida diferentes em resultado do que chamamos vulgarmente
globalização. As assimetrias de poder nessas zonas de contacto são
hoje tão grandes quanto eram no período colonial, se não maiores. Mas
são hoje muito mais vastas e numerosas. A experiência do contacto é
sempre uma experiência de limites e de fronteiras. Nas condições de
hoje, é ela que suscita a discrepância entre as perguntas fortes e as
respostas fracas.

Entre muitas outras, selecciono três interrogações fortes. A primeira
pode formular-se assim:
se a humanidade é só uma, por que é que há tantos princípios
diferentes sobre a dignidade humana, todos pretensamente únicos, e,
por vezes, contraditórios entre si? Na raiz desta interrogação esta a
constatação, hoje cada vezes mais inequívoca, de que a compreensão do
mundo excede em muito a compreensão ocidental do mundo. O regresso da
teologia política (islamismo, hinduísmo e cristianismo políticos) nas
três últimas décadas conferiu uma premência especial a esta
interrogação, dado que os monopólios religiosos tendem a fomentar
extremismos tanto entre os membros das diferentes religiões, como
entre os que lutam contra eles. A resposta dominante a esta
interrogação são os direitos humanos. E uma resposta fraca porque se
refugia na universalidade abstracta (um particularismo ocidental) e
não explica por que razão tantos movimentos sociais contra a injustiça
e a opressão não formulam as suas lutas em termos de direitos humanos
e, por vezes, aliás, as formulam segundo princípios que são
contraditórios com os dos direitos humanos.
Esta interrogação desdobra-se numa outra. Qual o grau de coerência
exigível entre princípios, quaisquer que eles sejam, e as práticas e
que têm lugar em nome deles? Interrogação que assume uma premência
especial nas zonas de contacto, porque é nestas que os princípios mais
tentam ocultar as suas discrepâncias com as práticas e que estas se
revelam com mais brutalidade, sempre que a ocultação não tem êxito.
Também aqui
a resposta dos direitos humanos é fraca. Limita-se a aceitar como
natural ou inevitável que a reiterada afirmação dos princípios não
perca credibilidade com a cada vez mais sistemática e gritante
violação dos direitos humanos por parte tanto de actores estatais,
como não-estatais. Continuamos a ir às feiras da inovação da indústria
dos direitos humanos (global compact, programas de luta contra a
pobreza, objectivos do milénio, etc.), mas,
a caminho delas, temos de passar por um cemitério cada vez mais
inabarcável de promessas traídas.

A segunda interrogação é esta: se a legitimidade do poder político
assenta no consenso dos cidadãos, como garantir este último quando se
agravam as desigualdades sociais, e se tornam mais visíveis as
discriminações sexuais, étnico-raciais e culturais? As respostas
dominantes são duas e são igualmente fracas: a democracia
representativa e o multiculturalismo. A democracia representativa é
uma resposta fraca porque os cidadãos se sentem cada vez menos,
representados pelos seus representantes; porque, nunca como hoje, os
partidos violaram tanto as promessas eleitorais, uma vez no poder
porque os mecanismos de prestação de contas são cada vez mais
irrelevantes; porque o mercado político (a concorrência entre
ideologias ou valores que não têm preço) está a ser absorvido pelo
mercado económico (concorrência entre valores que têm preço), tornando-
se assim sistémica a corrupção. Por estas razões, o poder político
tende a assentar mais na resignação dos cidadãos do que no seu
consenso. Por sua vez, o multiculturalismo hegemónico é uma resposta
fraca porque
é excludente em sua pretensão de inclusão: tolera o outro, dentro de
certos limites, mas em caso algum imagina ser enriquecido e
transformado pelo o outro. É, assim, uma afirmação de arrogância
cultural,

A terceira interrogação é a seguinte. Como mudar um mundo onde os 500
indivíduos mais ricos têm tanto rendimento como o dos 40 países mais
pobres ou o de 416 milhões de pessoas e onde o colapso ecológico
é uma possibilidade cada vez menos remota? As respostas dominantes são
o desenvolvimento, a ajuda ao desenvolvimento e o desenvolvimento
sustentável. São variantes da mesma resposta fraca, a de que os
problemas causados pelo capitalismo se resolvem com mais capitalismo.
Pressupõe que a economia do altruísmo não é uma alternativa credível à
economia do egoísmo e que a natureza não merece outra racionalidade
senão a irracionalidade com que a tratamos e destruímos.


Fonte: Jornal de Letras, Artes e Ideias_6-9 de Junho de 2007
+ Informação sobre o «O estado do Mundo» em:
www.estadodomundo.gulbenkian.pt/index.htm?no00001

Alfredo Abambres

unread,
Jun 29, 2007, 12:13:46 PM6/29/07
to cacadoresd...@googlegroups.com
NOTA PRÉVIA: Timo, não basta transcrever os artigos é preciso dar-lhe o toque pessoal - onde está a opinião?

O sr. Sousa Santos pediu respostas - não as deu, mas já demonstrou parte das q ele acha q não servem... aqui vai o meu contributo:

Pergunta (isto é uma pergunta forte?!):

se a humanidade é só uma, por que é que há tantos princípios
diferentes sobre a dignidade humana, todos pretensamente únicos, e, por vezes, contraditórios entre si?

Resposta:
Simples... experiências de vida diferentes, contextos diferentes.

Pergunta:

se a legitimidade do poder político assenta no consenso dos cidadãos, como garantir este último quando se agravam as desigualdades sociais, e se tornam mais visíveis as discriminações sexuais, étnico-raciais e culturais?

Resposta em forma de pergunta:
"se tornam mais visíveis" - quererá o autor dizer: por serem mais conhecidas, divulgadas, noticíadas OU pq estão a aumentar as ocorrências?

Pergunta:

Como mudar um mundo onde os 500 indivíduos mais ricos têm tanto rendimento como o dos 40 países mais pobres ou o de 416 milhões de pessoas e onde o colapso ecológico é uma possibilidade cada vez menos remota?

Resposta:
http://www.youtube.com/watch?v=Dtbn9zBfJSs
E talvez possamos voltar a conversar :)
E já agora, no tempo dos Faraós, Reis e Salazares, quanta da riqueza do mundo era partilhada?

"Moving, always moving, and living inside movement". Rainer Maria Rilke

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