O Estado do mundo_ Como não haveria de andar mal

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Jul 2, 2007, 9:30:50 AM7/2/07
to Caçadores de Gambozinos
O Estado do mundo

Como não haveria de andar mal

José Bragança de Miranda*
*Prof. de Ciências da Educação da Universidade Nova de Lisboa,
Ensaísta.


«Cansados de teorias,
indiferentes às especialidades,
avessos aos números
parecem sobreviver apenas os artistas
que sondam o «real» com os seus
olhares melancólicos, formando
este o espelho que lhes devolve o olhar»


A última vezes que o estado do mundo foi visto, a meu conhecimento,
foi em França nos anos 50. Isto se confiarmos no que nos conta
Beckett. Tendo encomendado umas calças ao seu alfaiate, este demorou
mais de seis semanas para as terminar, depois de infindáveis provas e
contra-provas. Quando por fim as entregou estavam perfeitas, mas o
escritor não resistiu a dizer-lhe que apesar de tudo Deus tinha
demorado 6 dias a fazer o mundo, ao que retorquiu
o alfaiate: «Mas caro senhor, veja bem estas calças e veja o estado do
mundo». Beckett contou esta história várias vezes, se calhar
surpreendido pelo facto de que finalmente um humilde alfaiate tivesse
conseguido ver o estado do mundo.

E tinha razão para estar surpreendido, Beckett sabia bem que do real
se ausentara aquele olhar absoluto que via totalidade. Para esse olhar
que nos acompanhou desde o princípio da história, cada acto decorria
numa paisagem viva e formigante, mas não obstante formando uma imagem
forte e perene. Podia ser assim dada a escala desse olhar. Sendo
absolutamente elevado, exterior, podia ver a figura sem se perder na
miríade das errâncias e dos actos, nos pormenores. Era esse o olhar de
Apolo segundo os antigos gregos, que permitiu a Platão ter a visão da
«alma do mundo». O cristianismo medieval fundiu esse olhar com cada
coisa, que servia de órgão da visão. A ubiquidade perfeita confundia-
se com os olhos inumeráveis, que cada homem ou coisa era. Apolo
desapareceu ou sobreviveu apenas na Missão espacial dos anos 60. A
ubiquidade do olhar absoluto foi assumida pela teoria,

Assim, para Hegel, o estado do mundo, aparentemente caótico e
contingente, expressava o espírito do mundo e do seu progredir, que
desembocava no império do conceito, da ideia.

A especulação teórica do real e a especulação financeira constituíam a
última visão, de facto desnecessária, pois o pássaro de Minerva, já só
via cinzento sobre cinzento. Mas havia ainda o «entretanto».
Entretanto ainda faltava um último passo, um último acto, o levar
«mesmo» até ao fim... E ainda não saímos deste «entretanto». Sabe-se a
violência que acarretou o facto de cada teoria e os seus proprietários
terem procurado capturar o que havia de mítico em tal olhar. Como se
deu conta Georg Büchner, no drama sobre A morte de Danton : «Os vossos
sistemas são construídos como Bajazet construiu as suas pirâmides, com
cabeças de homens»

Para evitar o que há de violento na teoria, ela pluraliza-se e o real
é olhado de todos os lados, com tantos lados quantas as teorias.
Olhando intensamente, no seu olhar de Medusa, vêm-se sempre as si
mesmas. Estarrecem o real, estarrecendo-se a si mesmas. A melhor forma
de evitar tais consequências ainda seriam as probabilidades e a
estatística, que se limitam a descrever o estado do mundo, em vez de
vê-lo. Claro que as imagens estatísticas dependem de uma outra imagem
que nos diz que o mundo é passível de ser descrito e, assim, visto.
Para evitar o que há de esquálido na estatística e nas probabilidades,
vão-se empilhando «especialistas» e especialidades, visões «plurais»,
cada um com
a sua descrição, rodeando e circulando em tomo do «real», olhando-o
como os cachorros saltitando à volta da mãe, por todo lado, mas sempre
à procura do que (lhes) é essencial.

Como escapar à sensação de que os especialistas e os teóricos são como
aquele imenso e minúsculo exército liliputiano que prenderam
cuidadosamente a Gulliver, com muito esforço e saber, enredando-o numa
teia que o gigante provisório despedaça mal tem vontade de se mexer?
Boa lição a de Swift, que se apreende em criança porque depois é
demasiado tarde.

Por qualquer razão pressente-se um perigo que assola o «mundo». Algo
urge. Será a «Urgência da Teoria?». Mas não dissera Já Marx. em teses
mais reprimidas do que olvidadas, que passara a «época das
interpretações do mundo», que tínhamos entrado na época da sua
«transformação»? Parece não ter-se dado conta que quando passa a época
das interpretações também desaparece a noção de mundo. Daí que autores
como Jean Clair se sintam melhor a criticar o carácter imundo do mundo
do que a actuar. Como se o «imundo» tivesse substituído o mundo,
palavra que significa «puro» e que foi criada pelas teologias e mitos
para descrever apenas o aspecto imundo do mundo. Acima de tudo tratava-
se de negá-lo. É claro que conta a maneira de o fazer. A negação
cristã era distinta da platónica, a negação dialéctica dos modernos
era diferente das outras duas. etc. O caso dos que só têm olhos para o
imundo do «mundo», que coleccionam misérias sobre misérias, não está
longe daqueles médicos antigos que numa prova de sublime clínica
bebiam a urina ou saboreavam as fezes dos reis. Mas com limites. Só o
médico principal o podia fazer, aos outros estava vedada tanta
proximidade. Ser principal tem ganhos e custos...

Cansados de teorias, indiferentes às especialidades, avessos aos
números parecem sobreviver apenas os artistas que sondam o «real» com
os seus olhares melancólicos, formando este o espelho que lhes devolve
o olhar. Dubitativos, atormentados, desfazendo-se em obras e projectos
- cada vez mais projectos do que obras -, são um pouco como aquela
personagem beckteana, encarnada por Buster Keaton, sempre a apalpar o
próprio pulso. Ah! O estado do mundo mede-se pela sua pulsação,
colesterol e tensão. Como não haveria de andar mal... Na verdade, o
que sempre foi difícil confrontar-se com o aspecto do real. O mundo
é a inconsciência do aspecto. Necessita ainda de um Freud, capaz de
ler sintomas? Nem isso, bastará uma personagem como o Palomar, de
Calvino, que curioso, à beira-mar, observa o vaivém das ondas, na sua
mecânica milenar. Olhando melhor, ele repara que as ondas deixam atrás
«a praia constelada de latas, de caroços, de preservativos, de peixes
mortos, de garrafas de plástico, de chinelos velhos, de seringas, de
veios negros de massa lubrificante». A natureza segue o seu ritmo
imparável, arrastando todos os fragmentos da história? Ou serão as
ondas da história que arrastam a natureza? Seria este o aspecto do
mundo, entreluzindo por trás ou à frente dele o «estado do mundo»? É
indiferente.
A questão é outra. Conta mesmo Calvino que o mesmo Palomar, esse misto
de todos os olhares e todas imagens, se apercebeu «há algum tempo que
entre ele
e o mundo as coisas já não correm como antigamente; se antes lhe
parecia que esperavam ambos alguma coisa um do outro, ele e o mundo,
agora já não se lembra do que havia a esperar, de mal ou bem, nem
porque é que este esperar
o mantinha numa perpétua agitação silenciosa» À percepção de um
desajustamento, de uma crise que alimenta. os incessantes relatos
sobre o «estado do mundo», com que os telejornais nos inundam, tudo
submergindo, substitui-se agora o esquecimento desse facto, a vaga
sensação de que algo foi esquecido, sem se saber bem o quê. Trata-se
de uma memória de algo vital que se esqueceu, mas que persiste como um
nome debaixo da Iíngua.
É isso que todos relatos dissimulam, desviam, recusam. Algo
insistente, que persiste, atravessando todos os Estados e o estado do
mundo. Trata-se da maneira como nos apropriámos da terra e a maneira
como gerimos e violentámos a carne. Basta olhar para ver. É que ambas
continuam expectantes... puras e duras.

Fonte: Jornal de Letras, Artes e Ideias_6-9 de Junho de 2007

+ Informação sobre o «O estado do Mundo» em:
www.estadodomundo.gulbenkian.pt/index.htm?no=00001

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