Eduardo Lourenço*
*Ensaísta, escritor. Prémio Camões
«Nenhum horror real
(tsunami ou serial killer
apocalípticos) tem o condão
de nos acordar. A única
caverna verdadeiramente platónica (a televisão)
continuará a emitir quando
já não houver ninguém
para a contemplar »
A nossa geração esperava que com o «fim da Utopia», quer dizer, com o
fim da ilusão não apenas de que
a História é portadora de um sentido que nós apreendemos podendo
modelar o nosso futuro em função dele, mas que o «estado do mundo»
fosse mais aceitável do que o que acabámos de viver até à implosão da
União Soviética. E não é o caso, os amanhãs do fim da utopia são tão
aceitáveis como o foram os do século passado. Isso não significa que
estejamos vivendo qualquer objectivo «fim da história». Significa
apenas o fim da história como a si mesma transparente.
Este facto pode e deve ser vivido como positivo, mesmo se nos deixa
nus. Podemos mesmo vivê-lo como um grau superior de lucidez se
estivermos à altura dos desafios que a morte das antigas utopias
mortíferas também significa. É mais aceitável saber que não existe
Sentido algum para a marcha humana, salvo aquilo que ela mesma fabrica
com a sua irresistível vontade de compreender e dominar o mundo - o da
natureza e o seu próprio para si mesma se compreender.
Uma leitura «metafísica» do estado do mundo é menos interessante - ou
ate inviável do que a consideração mais óbvia de que o estado do nosso
mundo se distingue de todos os que nos precederam, não tanto pelo grau
de caoticidade histórica, política, ética, religiosa, cultural e
social que o caracterizam como pelo facto de que esse caos é o inverso
do sucesso no limite do ainda inimaginável de uma manipulação hiper-
racionalizante de todos os conteúdos da experiência humana ou dos
dados sobre que se funda. Este controle da nossa vida em todos os seus
aspectos esteve sempre a caminho, pelo menos no Ocidente, mas o grau
de auto-manipulação que nos caracteriza autonomizou-se a tal ponto que
na verdade, nem tem verdadeiro sujeito. A acção genética
é só o símbolo da auto-manipulação da Humanidade por si mesma. Nada
nos escapa e, paradoxalmente, a título humano não somos donos de nada.
O famoso «estado do mundo» é pura exterioridade. Funciona não como
um super-ego (antigo Deus ou as suas monstruosas contrafacções) mas
como uma sociedade infinitamente anónima.
De uma maneira concreta, o estado do mundo é o nosso mundo como
televisão: um céu e um inferno portáteis ao nosso alcance, noite e
dia. Numa recente crónica n'O Público Nuno Pacheco fala de uma mulher
do Butão, onde a televisão acaba de chegar e que vive e dorme
literalmente colada a ela a todo o instante. É a melhor imagem do
estudo do mundo que se pode imaginar. Esta nova forma de vida virtual
é uma autêntica novidade.
É a imagem da nossa civilização como subproduto da mais fascinante
das invenções, aquela que, na aparência, como já o era a fotografia,
não nasceu para nos fazer esquecer a realidade, mas para conservar a
efémera realidade dela. O efeito foi inverso: nós prefe¬rimos a
virtualidade à realidade. A autêntica realidade, por exemplo, a da
inamovível miséria, torna-se irreal pelo seu tratamento televisivo, e
o crime, além de irreal, evapora-se pela sua contínua sublimação
tornada ren¬tável pela mesma tradição. É uma espécie de escândalo
obsoleto e absoluto de consumidores angélicos da pura e inexistente
virtualidade.
E a Cultura? Quem escreve ainda com maiúscula, se não a título
paródico ou póstumo? Durante séculos não teve nome. Foi a sua idade de
ouro, a de Homero a Dante. Depois, foi uma longa vigília e combate com
é a propósito da esfinge da realidade, foi a da sua idade da prata, de
Cervantes a Flaubert, que a «odiava»
(a Realidade), e nesse combate inventou a primeira versão da
virtualidade como realidade, quer dizer,
a Literatura.
Quando os horrores reais e neles a ainda realíssima existência a
suplantaram, só a fuga para a virtualidade pura
nos consolou ou nos serve de refúgio. O «estado do mundo» como jogo
permanente é a vida como televisão.
Eficaz, Nenhum horror real (tsunami ou serial killer apocalípticos)
tem o condão de nos acordar. A única
caverna verdadeiramente platónica (a televisão) continuará a emitir
quando já não houver ninguém
para a contemplar. Só a fuga para virtualidade pura nos consolou ou
serve de refugio. O «estado do mundo» como jogo permante é a vida como
televisão.
Fonte: Jornal de Letras, Artes e Ideias_6-9 de Junho de 2007
+ Informação sobre o «O estado do Mundo» em:
www.estadodomundo.gulbenkian.pt/index.htm?no=00001
www.o-estado-do-mundo.blogspot.com