Retórica, zero acção
Mário Soares*
* Presidente da Fundação Mário Soares, ex-presidente da republica e
primeiro-ministro
«Talvez a mudança de
paradigma comece onde menos se
esperaria: na América post-Bush,
que está a despertar. Desta vez não
é PangIoss que o afirma. É este
vosso interpelado, mais Sancho
Pança que Quixote...»
Perguntam-me como classificaria o estado do Mundo? Se há inquietações,
preocupações, necessidades dominantes? Será que estamos a assistir a
uma mudança no paradigma?
Vamos por partes, se me permitem. Não é preciso ser pessimista para
lhes responder: é deplorável! Em matéria de valores estamos a assistir
a uma tentativa de regresso à barbárie. O «darwinismo social», que
alguns pretendem impor nesta fase do capitalismo financeiro-
especulativo, mais virtual que produtivo, implica o regresso à lei da
selva, em que os mais fortes destroem, necessariamente, os mais
fracos, só que agora a força não
é muscular, tem a ver tão só com o recheio da carteira e sobretudo com
o peso dos cartões de crédito...
A pobreza alastra no Mundo - bem como as desigualdades sociais - ao
contrário do que prometeram os arautos da globalização neo-liberal. As
pandemias matam milhões de pessoas, de SIDA, por exemplo, em todos
os continentes. Doenças que estavam quase erradicadas, como a
tuberculose e a malária, voltaram a atacar amplas populações. A
crimi¬nalidade internacional organizada nunca esteve tão activa e
armada.
E pior - incluindo a droga - tem por agentes, em toda a parte,
colarinhos brancos, que actuam na maior
das impunidades. Os atentados, feitos pela ganância dos homens, contra
o Planeta, nunca tiveram efeitos tão devastadores e preocupantes. Veja-
se o que fizeram o Katrina em Nova Orleãs ou os tsunamis na Ásia.
O Dr. Pangloss, se saísse das páginas do Voltaire, do «me¬lhor dos
mundos», para nos interpelar,
perguntar-nos-ia: E então os «Objectivos do Milénio», subscritos por
147 Chefes de Estado e do Governo
dos países que participaram na sede da ONU, no ano de graça de 2000,
não estão aí para nos assegurar
que a luta contra a pobreza, as pandemias e os atentados ao Planeta
vão desaparecer, dada tão grande unanimidade altruísta? Ao que o pobre
Cândido, na sua inocência, teria que observar com verdade verdadinha:
«Fui tudo retórica, caro Dr, Pangloss, só retórica, zero de acção».
Assim vai o Mundo...
Há inquietações, necessidades dominantes? Então não tinha
necessariamente de haver? Só se a Humanidade tivesse toda, por um
passo de mágica, perdido o bom senso e o espírito critico. Ora já
dizia Descartes,
no século XVII: o bom senso é a coisa mais bem distribuída do Mundo...
Há humilhações, gente que sofre em silêncio e outra tem ainda a
coragem de protestar. Há terrorismo, con¬frontações, violência,
conflitos em cadeia. É inevitável! Pensando bem: como poderia deixar
de haver? Haverá uma mudança de paradigma cultural? Com certeza.
Vivemos hoje uma crise de civilização no Ocidente
e no Mundo. E como ninguém é o dono do Mundo e os erros colossais de
Bush, mas do que os atentados terroristas, provaram que a América não
é invulnerável (como até en¬tão pensávamos) e revelaram as suas
inúmeras fragilidades, talvez a mudança de paradigma comece onde menos
se esperaria: na América post-Bush, que está a despertar. Desta vez
não é Pangloss que o afirma. É este vosso inter¬pelado, mais Sancho
Pança que Quixote...
Fonte: Jornal de Letras, Artes e Ideias_6-9 de Junho de 2007
+ Informação sobre o «O estado do Mundo» em:
www.estadodomundo.gulbenkian.pt/index.htm?no=00001
www.o-estado-do-mundo.blogspot.com