O Estado do mundo_Como um palimpsesto

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Jun 27, 2007, 7:07:11 AM6/27/07
to Caçadores de Gambozinos
Como um palimpsesto

Viriato Soromenho-Marques*
*Catedrático de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de
Lisboa, ambientalista, ensaísta.

«Seremos capazes de responder
com complexidade aos novos desafios? Teremos a força para nos
reerguermos depois da queda, de
recuperar a esperança depois
do desanimo? »


Os historiadores associam os palimpsestos a épocas de escassez. Em
períodos de economia fechada, com
a falta de circulação dos materiais para registo da escrita, os
papiros e outros suportes gráficos eram deliberadamente reutilizados
num processo de escrita sobreposta, que é hoje um manancial para a
pesquisa
e interpretação do passado. O vasto Programa que a Fundação Calouste
Gulbenkian nos propõe sobre O Estado do Mundo sugere-me a imagem de um
palimpsesto. Mas um palimpsesto em que as sucessivas grafias
se acomodassem umas sobre as outras, umas ao lado das outras,
permitindo múltiplos ângulos de leitura.
Um palimpsesto, não da pobreza, mas da riqueza de um mundo cheio de
significações, configurações
e mensagens concorrentes. O nosso mundo. Por entre o pluralismo impõe-
se escolher um centro organizador.
A minha escolha vai para a oportuna e rica série de conferências
subordinada ao título A Urgência da Teoria. Começaria por destacar a
conferência de Filipe Duarte Santos que aborda a magna quaestio da
nossa época:
a questão da (in) sustentabilidade. Pela primeira vez na história da
humanidade temos, consciência de que o actual curso do mundo, numa
acelerada vertigem, conduz, caso não ocorram mudanças dramáticas e
sistemáticas, ao risco de colapso a uma escala global.

O que está em causa atinge o núcleo do próprio conceito de
civilização, que foi o objecto da conferência
de António Cícero. O caminho em aberto para todos aqueles que forem
capazes de cerrar os dentes e aguentar os frios álgicos da lucidez,
passa pela capacidade de apostar na inovação e na mudança. Não se
trata apenas
de inovação tecnológica. A ideologia do technological fix não faz
parte da solução. Pelo contrário, é uma das causas da situação
problemática em que nos encontramos. A principal inovação passara
pelas mutações na mente dos indivíduos e no software das
representações sociais. Sobre isso algumas interessantes conferências
devem ser indicadas. O jovem filósofo Mehdi Belhaj Kacem que abordou o
tema do niilismo e da democracia.
O niilismo como paisagem cultural da nossa época é por vezes uma manta
demasiado colorida para poder ajudar a encontrar respostas
fundamentais. Por isso devem também ser destacados os contributos de
Daniel Miller sobre Microsociedades e conferência de Paul Gilroy sobre
Multicultura e convivialidade.

Mas o futuro do estado do mundo implicará a resposta a duas questões
centrais, daquelas que afectam
a própria «condição humana». Seremos capaz de suportar a tensão e a
vertigem das diferenças,
das desigualdades, das tragédias que nos vão acometer? Seremos capazes
de responder com complexidade aos novos desafios? Teremos a força para
nos reerguermos depois da queda, de recuperar a esperança depois do
desânimo? Seremos capazes de encontrar o sentido e a harmonia sobre as
ruínas ruidosas que se estendem à nossa volta? A resposta a estas
questões foi, pelo menos parcialmente, aludida na conferência de Marc
Ferro sobre o ressentimento como força histórica. Já Freud descobria
sob o verniz e o glamour da civilização o trabalho tenaz e destruidor
das «pulsões de morte» (Todestriebe).

Segunda questão passa pela capacidade de nos organizarmos
politicamente para estar à altura destes novos desafios. Dentro dos
países, das regiões e das cidades. Mas também enquanto sociedade
internacional, enquanto sistema de Estados, enquanto novo sistema
internacional. Algumas das dificuldades da política
e da reflexão sobre a mesma foram abordadas na conferência Pedro
Magalhães. Deste mundo, que é o nosso,
e cujo estado vacila, tudo se poderá dizer, menos que abriga lugar e
tempo para o tédio.

Fonte: Jornal de Letras, Artes e Ideias_6-9 de Junho de 2007
+ Informação sobre o «O estado do Mundo» em:
www.estadodomundo.gulbenkian.pt/index.htm?no=00001

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