"Agradeço a gentileza de informarem qual ou quais são as regras para a formação das palavras compostas. Mais precisamente, quando é que se utiliza o hífen. Por que afrodescendentes e afro-britânico?" Jorge Luiz Gomes Madeira, Rio de Janeiro/RJ
Afro-brasileiro é hifenizado porque se trata de um ADJETIVO pátrio composto, isto é, um adjetivo formado de elementos designativos de duas ou três nacionalidades diferentes. No caso da consulta, temos os adjetivos
africano + brasileiro = afro-brasileiro. Os adjetivos pátrios são também chamados gentílicos ou étnicos quando designam raça ou região de origem, como asiático e saxão, por exemplo.
Normalmente, na formação do adjetivo pátrio composto, o primeiro elemento adquire uma forma reduzida derivada da origem erudita da palavra. E, de acordo com a regra de flexão dos adjetivos compostos, só o último elemento varia. Vejamos alguns exemplos:
- africano + americano = A dança com batuque é de tradição afro-americana.
- alemão + brasileiro = Em Santa Catarina é forte a integração teuto-brasileira.
- grego + romano = Estudar a antigüidade greco-romana é fascinante.
- italiano + alemão + japonês = A guerra eclodiu por conta de um acordo ítalo-teuto-nipônico.
- inglês + americano = Há muito tempo freqüento o instituto anglo-americano.
- espanhol + americano = A literatura hispano-americana é muito rica.
- europeu + africano = As relações diplomáticas euro-africanas estão mais estreitas.
- português + brasileiro = Não se deve descuidar dos interesses luso-brasileiros.
- chinês + brasileiro = O comércio sino-brasileiro aumentou depois da visita do primeiro-ministro chinês ao Brasil.
- japonês + brasileiro = Assinaram um protocolo visando a um intercâmbio cultural nipo-brasileiro.
- finlandês + brasileiro = Na distante Finlândia vivem alguns casais fino-brasileiros.
- indiano + europeu = As línguas indo-européias fizeram parte do nosso estudo.
- chinês + russo = Skovorodino visitou os seus parentes numa aldeia na fronteira sino-russa.
- austríaco + húngaro = Durante o império austro-húngaro, Viena teve uma vida cultural e econômica muito expressiva.
- romano + alemão = No Brasil temos uma tradição jurídica romano-germânica.
AFRODESCENDENTE
Aqui temos um SUBSTANTIVO. Não se trata do 'afro' forma reduzida do adjetivo 'africano' anteposto a outro adjetivo, como no caso anterior, mas da redução ou dedução do substantivo 'africano' utilizada como elemento de composição, caso em que não se usa o hífen (equivale aos elementos prefixados da Tabela II, cf. "Só Palavras Compostas - manual de consultas e auto-aprendizagem").
- Os pobres e desvalidos afrodescendentes, recentemente alforriados e abandonados, foram expulsos para a periferia das cidades.
Outros dois casos de composição semelhante ocorrem nos novos termos tecnocultura [cultura das tecnologias] e infovias [vias de informação], por exemplo.
CAPRICHOS DA LÍNGUA: EM BAIXO, MUÇARELA, GRAVIDEZ
O leitor carioca Salustiano F. Berta sugere um assunto: "a diferença de embaixo e em baixo". Aproveitaremos para ver também a locução adverbial em cima.
Há um par de advérbios que chama a atenção pela incoerência da grafia: embaixo e em cima, um junto e um separado. Mas é melhor observar a lista completa:
1) abaixo (rio abaixo) 2)acima (rio acima)
debaixo do tapete de cima do banco
embaixo da mesa em cima do balcão
por baixo dos panos por cima dos fatos
No 1º caso, escreve-se 3 vezes junto e uma vez separado, até pelo fato de que a preposição "por" tem mais evidência que as outras ("porbaixo" ficaria deveras estranho!); no segundo caso, 3 vezes separado e uma junto! Fazer o quê? É imposição oficial.
Mas há um caso em que se escreve vocábulo baixo separado da preposição a ou de: é na relação entre de ... a, como no título deste artigo e nos seguintes exemplos:
- A parede rachou de alto a baixo. / Pintou a escada de baixo a cima.
Já a seqüência "em baixo" está incompleta - para ser usada é preciso agregar-lhe um substantivo, pois aí a palavra 'baixo' é um adjetivo, portanto variável:
- Falou em baixo tom; vive em baixo astral; trafega em baixa velocidade.
Queijo Mozzarella
"Há 15 anos trabalhando como revisor, principalmente em agências de publicidade, quando ocorre num trabalho de um cliente querer grafar 'mussarela' como o nome daquele queijo muito utilizado em pizzas, tenho conseguido convencê-los a aceitar a forma 'mozarela', que consta no Michaelis (ao lado de 'muçarela', infelizmente) como aportuguesamento do italiano 'mozzarella'. Isso apesar da turma do 'mas eu sempre vi escrito assim'. Qual a sua opinião a respeito?" Celso Mattos, Mogi das Cruzes/SP
Entendo que se deve adotar ou o termo italiano original - mozzarella - ou uma das duas formas dicionarizadas (Michaelis, Aurélio, Houaiss, PVOLP): mozarelaM, aportuguesamento da grafia italiana; ou muçarela, grafia baseada na pronúncia brasileira, mas que ainda parece estranha, por ser pouco usada. Trocar o cê cedilha por dois esses (mussarela)? Até ficaria simpático, mas deixaria muito confuso quem recorresse ao dicionário em caso de dúvida, pois não encontraria ali essa grafia. Na verdade é uma questão de hábito. Já nos acostumamos, por exemplo, com o cê cedilha em palavras como maça (arma de ferro), maçaneta, maçante, maçarico, maçom, miçanga, moçárabe, moçoró, muçulmano, muçum.
Gravidez tem plural?
"Qual o plural de gravidez? Posso dizer que tive duas gravidezes?" Adriana, São Paulo/SP
Há uns meses me perguntaram se a palavra gravidez tinha plural e eu cheguei a dizer que não, até porque dois médicos a quem dirigi a mesma pergunta responderam que não há, e eu mesma não encontrei o plural nos livros de medicina que tenho em casa. Além do mais, "gravidezes" soa estranho, o que justifica o seu desuso ou raridade, embora em artigos médicos na Internet seja mais freqüente - também me informaram. Gramaticalmente o uso é correto, pois as palavras terminadas em 'ez' formam o plural com o acréscimo de 'es', caso de
xadrez - xadrezes. Entretanto, se o plural for necessário, o melhor é falar em gestação:
- Maria teve sete gestações em 10 anos.
Ainda é possível reestruturar a frase:
- Maria teve gravidez tubária duas vezes.
- Ela teve gravidez de risco nos quatro filhos. [em vez de 4 gravidezes]
VIDE, BARATO, POR SI SÓS, (SIC)
"Vide. Essa expressão é usada amiúde, como imperativo do verbo ver. Ex.: Vide rodapé; vide página 13 etc. Pergunto se o correto não seria 'vede' e em que hipótese devemos usar o 'vide' acertadamente." Aparecido Ladislau Favini, Campo Mourão/PR
Usa-se vide quando se quer remeter alguém a outro livro, capítulo, página, trecho. Abrevia-se v. ou V. - inicial maiúscula quando no início da frase.
O imperativo do verbo ver de fato é "vede", que se refere a "vós", pronome rarissimamente usado no Brasil, motivo por que preferimos o latim "vide", que se traduz por veja ou até mesmo pelo infinitivo, por exemplo: ver pág. 10.
Ver referência no final do capítulo.
"Gostaria de saber se a palavra barato, referente a preço, tem feminino; por exemplo, a roupa é barata." Wagner de Jesus Baptista, São Paulo/SP
O adjetivo "barato" tem o feminino "barata", sim. E tem plural. Ou seja, flexiona em número e gênero quando qualifica um substantivo na sua proximidade [exemplos 1 e 2] ou em frases com verbos de ligação, dos quais ser e estar são os principais [exemplos 3 a 6]. O mesmo vale para o adjetivo
caro:
1) Eles levam uma vida barata.
2) Encontraram diversões baratas na cidade.
3) A roupa é muito barata nos nossos estabelecimentos.
4) Os pãezinhos estão cada vez mais caros, quando deviam ser baratos.
5) As viagens internacionais ficaram mais caras com o aumento do dólar, o que não significa que as nacionais estejam mais baratas.
6) Com a redução do IPI, os carros podem ficar mais baratos.
"Barato" só não flexiona (permanece no masculino singular) quando é usado adverbialmente, isto é, junto com verbos que não sejam de ligação, como custar e sair:
- A roupa custa barato, mas os móveis custam caro.
- Os tapetes saíram barato; as aulas afinal saíram caro.
- O candidato promete que os itens da cesta básica custarão mais barato.
"A expressão 'por si só' é usada sempre no singular ou deve também ser flexionada no plural? Por exemplo: as provas apresentadas, por si só, não foram suficientes para caracterizar o dano." Caroline de Souza, Florianópolis/SC
Deve-se pluralizar a expressão de acordo com o substantivo em referência. Quando reforça o pronome "si" (que serve para singular e plural), a palavra "só" tem valor adjetivo e é portanto flexionável. É como se disséssemos "a ação por si mesma, as provas por si mesmas, os fatos por si próprios". Alguns exemplos:
- Os fatos por si sós recomendam a punição do infrator.
- Essas medidas por si sós resolverão o caso.
- As provas apresentadas, por si sós, não foram suficientes para caracterizar o dano.
"O que significa a expressão (sic) presente em diversos artigos de jornais e revistas?" D. P. B., Rio de Janeiro/RJ
O termo sic - advérbio latino que quer dizer "assim" - é usado entre parênteses depois de qualquer palavra ou frase que contenha um erro gramatical ou um dito absurdo que o redator quer deixar claro que não é dele, mas da pessoa que falou ou escreveu aquilo. Em resumo: ao colocar o
(sic), você mostra ao leitor que é assim mesmo que estava no original, por mais errado ou estranho que pareça.
Mas veja bem, não se deve usar (sic) a torto e a direito. Ao transcrever um trecho que contenha grafia antiga ou evidentes lapsos de datilografia ou digitação, é melhor consertá-los. A propósito, e para deixar bem claro: somente erros de ortografia podem ser alterados para conserto. Porém, se o autor cometeu muitos erros de outra natureza, é preferível não citá-lo!
LINGUAGEM JURÍDICA: usucapião, de cujus, causa-morte, inocorrer, desprovimento
"Gostaria de entender a origem da palavra "usucapião", pois no Código Civil Brasileiro vigente se encontra DO usucapião e no Código Civil Brasileiro que entrará em vigor no dia 1º de janeiro de 2003 se encontra DA usucapião." Wesley B. Peçanha, Macaé/RJ
Os dois casos estão certos. Quando o dicionário registra "usucapião. s.2g.", significa que se trata de um substantivo pertencente aos dois gêneros, portanto que se pode usar no masculino ou no feminino. Mas a tradição no Brasil é pelo gênero masculino.
A palavra nasceu feminina, do latim usucapione, tendo no entanto sofrido variações ao longo dos séculos, com predominância da forma masculina e português, não só pela terminação "ão" - porque afinal também temos vocábulos femininos em ão, como legião, união, obsessão, opinião, exceção, procuração etc., ao lado de masculinos como anfitrião, avião, cão, leão, peão, pião, campeão, Cipião - mas principalmente pelo fato de ser masculino o termo
uso (em latim usu), que forma e informa a palavra usucapião = "tomada (aquisição) pelo uso". De "o uso" para "o usucapião" foi um passo, bem se vê.
Por curiosidade: em espanhol, francês, italiano e alemão prevalece o feminino de origem. Vejamos: la usucapión, l'usucapion, l'usucapione, die Usukapion.
"Gostaria de saber se a expressão 'de cujus' recebe flexão de gênero ao nos referirmos a homem e mulher: o de cujus e a de cujus." Vânia, Brasília/DF
"De cujus" é uma expressão forense que se usa no lugar do nome do falecido, ou autor da herança, nos termos de um inventário (são as primeiras palavras da expressão latina "de cujus sucessione agitur" - "de cuja sucessão se trata"). Ela não recebe flexão de gênero. Funciona como cônjuge, em que também não há *a cônjuge, mas o cônjuge varão e o cônjuge virago, homem e mulher, respectivamente. Da mesma forma, há o de cujus varão/masculino e o de cujus virago/feminino. Portanto, sempre "o de cujus".
"Gostaria de saber como grafar a palavra causa-morte determinada pelo artigo, bem como a palavra resultado-morte, também grafada com o determinante. Se com hífen ou sem hífen, por quê?" Maria Janete Gonçalves Machado, Porto Velho/RO
A expressão "causa mortis" (latim), que significa a causa determinante da morte de alguém, tem sido aportuguesada para (a) causa-morte. O hífen é usado para unir os dois substantivos no lugar da preposição (causa
da morte), pois eles aí formam um substantivo só, uma palavra composta. É o mesmo caso, portanto, de o resultado-morte.
"Gostaria de saber se é correto o uso dos termos: inocorrer (ou inocorrência), desprovido (desprover) e improver (improvido)." A. K., Brasília/DF
O emprego de neologismos é mais uma questão de bom senso e senso comum do que de registro oficial, pois nem todas as palavras de uso corrente estão dicionarizadas. É o caso do verbo inocorrer, utilizado para exprimir a negação de ocorrer; daí deriva o substantivo
inocorrência (o mesmo que não-ocorrência). Sob o verbete in- pref., o dic. Houaiss trata de "inocorrer, inobstante, inacidente" como um uso "algo pedantesco".
No tocante a prover (um recurso), já está dicionarizada a sua negação: desprover, subst. desprovimento. Não haveria necessidade, portanto, de se criar o neologismo improvimento, a não ser que se quisesse lhe dar um outro significado. Geralmente as formas com in- correspondem a uma negação prévia [invalidar um concurso não validado,
e.g.], enquanto as com des- tendem a negar o que já está em curso ou o já havido, já iniciado [desvalidar um que tenha sido validado] (Houaiss, 2001:1588), o que me parece ser o caso de provimento/desprovimento.
NOS ANOS 80
"Tais fatos foram comuns nos anos 80. Haveria concordância com 80? Em caso afirmativo, como ficaria a mesma frase se, em lugar de 80, fosse 10?" U. R., Brasília/DF
Resumidamente, podemos afirmar que em português não se altera o algarismo [80s, 20s, vintes, dez] para fazer a concordância com "anos", porque em "anos 80" se subentende o termo "década", isto é, trata-se do período compreendido entre 1980 e 1989 =
nos anos (da década de) 80.
Leitor de Imperatriz/MA também discute a questão, asseverando que é legítimo o uso de "anos oitentas ou 80's", porque os numerais flexionam no plural: zeros, uns, noves etc. [o10 não muda no plural].
Em primeiro lugar me parece que o aparecimento do 's' se deve mais a uma imitação da língua inglesa do que à flexão dos números, pois esse plural é rarissimamente usado e não soa nada bem; quer dizer, não é por tradição nossa, nem por hábito que deveríamos falar em *anos vintes, anos trintas e anos dez.
Em segundo lugar, precisamos observar que nós já temos o plural assinalado na palavra antecedente ("anos" ou o coletivo "década"), o que não acontece no inglês. Vejamos, em frases extraídas da revista "My Generation", Mass./ USA, July-August 2002, que não aparece a palavra "years" ou "decade":
- In the mid-1980s he won city contracts.
- In the 1970s and '80s…
- By the early 1960s…
- Roberts had spent most of his 20s and 30s as a Krishna missionary to Brazil.
Bem, sabe-se que a língua é convenção. E até numa mesma língua as convenções podem diferir de um país para outro. Em Portugal também não se usa o s no numeral, mas ele é habitualmente escrito por extenso: nos anos sessenta, na década de quarenta
etc.
Já no Brasil preferimos a representação por algarismos, que é mais visual, e em geral usando apenas os dois últimos algarismos do ano:
- O livro traz a política e a memória do debate educacional dos anos 30.
- Desde o final dos anos 80, tínhamos cerca de um milhão de experiências de introdução do audiovisual no ensino superior para examinar e comparar.
- A obra de McLuhan ainda está viva - talvez hoje mais do que nos anos 60, embora em grande parte subsumida em escritos de outros autores.
- Entre as décadas de 30 e 40 começa a instituir-se o parque fabril nacional.
- Empenhou-se pelas liberdades civis na década de 70.
Com a entrada do séc. 21, já está havendo certa preocupação com a clareza dos textos a serem lidos no futuro, pois então se poderá questionar se a "década de 20" se refere a 1920 ou a 2020, para início de conversa. Assim - e especialmente em textos que tratem ao mesmo tempo dos séculos 19 e 20 -, visando evitar qualquer ambigüidade, pode-se escrever o ano por inteiro. Observe nos exemplos abaixo que há duas opções, com e sem a preposição de no caso de anos:
- Nos anos 1970, o Paraná foi marcado pela expulsão dos camponeses de suas terras.
- No início dos anos de 1980, seus apelos para o fim da Guerra Fria lhe deram notoriedade internacional.
- O ponto alto de sua obra se localiza nos anos de 1880 e 1890.
- Os grupos editoriais no final da década de 1950 foram influenciados por E. P.Thompson.
- Uma análise dos livros encontrados no Colégio Coração de Jesus, cuja publicação aconteceu entre os anos de 1933 a 1949, pode mostrar a eficiência da estratégia de regrar a sedução exercida pelo escolanovismo sobre o professorado.
*Maria Tereza de Queiroz Piacentini, autora dos livros "Só Vírgula" e "Só Palavras Compostas", é diretora do Instituto Euclides da Cunha -
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