Cara Karen
apud Franklin,
se vivo fosse, o poeta e escritor português Fernando Pessoa não concordaria com a origem da expressão "conto do vigário" consignada na sua mensagem eletrônica. Em 30/10/1926, no Diário Sol, de Lisboa, com o título "Um Grande Português", Fernando Pessoa narrou a procedência da expressão. Posteriormente, em 18/08/1929, a narrativa foi publicada novamente, no "Notícias Ilustrado", com o título de "A Origem do Conto do Vigário". Transcrevo, abaixo, a narrativa de Fernando Pessoa.
Abraços,
Arlan
P.s.: há o livro "Um grande português ou a origem do conto do vigário", de Fernando Pessoa (Ed. Ática).
"Vivia há já não poucos anos, algures, num concelho
do Ribatejo, um pequeno lavrador, e negociante de gado, chamado Manuel
Peres Vigário.
Da
sua qualidade, como diriam os psicólogos práticos, falará o bastante a
circunstância que dá princípio a esta narrativa. Chegou uma vez ao pé
dele certo fabricante ilegal de notas falsas, e disse-lhe: «Sr. Vigário,
tenho aqui umas notazinhas de cem mil réis que me falta passar. O
senhor quer? Largo-lhas por vinte mil réis cada uma.» «Deixa ver», disse
o Vigário; e depois, reparando logo que eram imperfeitíssimas,
rejeitou-as: «Para que quero eu isso?», disse; «isso nem a cegos se
passa.» O outro, porém, insistiu; Vigário cedeu um pouco regateando; por
fim fez-se negócio de vinte notas, a dez mil réis cada uma.
Sucedeu
que dali a dias tinha o Vigário que pagar a uns irmãos negociantes de
gado como ele a diferença de uma conta, no valor certo de um conto de
réis. No primeiro dia da feira, em a qual se deveria efectuar o
pagamento, estavam os dois irmãos jantando numa taberna escura da
localidade, quando surgiu pela porta, cambaleando de bêbado, o Manuel
Peres Vigário. Sentou-se à mesa deles, e pediu vinho. Daí a um tempo,
depois de vária conversa, pouco inteligível da sua parte, lembrou que
tinha que pagar-lhes. E, puxando da carteira, perguntou se, se
importavam de receber tudo em notas de cinquenta mil réis. Eles disseram
que não, e, como a carteira nesse momento se entreabrisse, o mais
vigilante dos dois chamou, com um olhar rápido, a atenção do irmão para
as notas, que se via que eram de cem.
Houve então a troca de outro olhar.
O
Manuel Peres, com lentidão, contou tremulamente vinte notas, que
entregou. Um dos irmãos guardou-as logo, tendo-as visto contar, nem se
perdeu em olhar mais para elas. O vigário continuou a conversa, e,
várias vezes, pediu e bebeu mais vinho. Depois, por natural efeito da
bebedeira progressiva, disse que queria ter um recibo. Não era uso, mas
nenhum dos irmãos fez questão. Ditava ele o recibo, disse, pois queria
as coisas todas certas. E ditou o recibo – um recibo de bêbedo,
redundante e absurdo: de como em tal dia, a tais horas, na taberna de
fulano, e «estando nós a jantar (e por ali fora com toda a prolixidade
frouxa do bêbedo...), tinham eles recebido de Manuel Peres Vigário, do
lugar de qualquer coisa, em pagamento de não sei quê, a quantia de um
conto de réis em notas de cinquenta mil réis. O recibo foi datado, foi
selado, foi assinado. O Vigário meteu-o na carteira, demorou-se mais um
pouco, bebeu ainda mais vinho, e daí a um tempo foi-se embora.
Quando,
no próprio dia ou no outro, houve ocasião de se trocar a primeira nota,
o que ia a recebê-la devolveu-a logo, por escarradamente falsa, e o
mesmo fez à segunda e à terceira... E os irmãos, olhando então
verdadeiramente para as notas, viram que nem a cegos se poderiam passar.
Queixaram-se
à polícia, e foi chamado o Manuel Peres, que, ouvindo atónito o caso,
ergueu as mãos ao céu em graças da bebedeira providencial que o havia
colhido no dia do pagamento. Sem isso, disse, talvez, embora inocente,
estivesse perdido.
Se
não fosse ela, explicou, nem pediria recibo, nem com certeza o pediria
como aquele que tinha, e apresentou, assinado pelos dois irmãos, e que
provava bem que tinha feito o pagamento em notas de cinquenta mil réis.
«E se eu tivesse pago em notas de cem», rematou o Vigário «nem eu estava
tão bêbedo que pagasse vinte, como estes senhores dizem que têm, nem
muito menos eles, que são homens honrados, mas receberiam.» E, como era
de justiça foi mandado em paz.
O caso, porém,
não pôde ficar secreto; pouco a pouco se espalhou. E a história do
«conto de réis do Manuel Vigário» passou, abreviada, para a imortalidade
quotidiana, esquecida já da sua origem.
Os
imperfeitíssimos imitadores, pessoais como políticos, do mestre
ribatejano nunca chegaram, que eu saiba, a qualquer simulacro digno do
estratagema exemplar. Por isso é com ternura que relembro o feito deste
grande português, e me figuro, em devaneio, que, se há um céu para os
hábeis, como constou que o havia para os bons, ali lhe não deve ter
faltado o acolhimento dos próprios grandes mestres da Realidade – nem um
leve brilho de olhos de Macchiavelli ou Guicciardini, nem um sorriso
momentâneo de George Savile, Marquês de Halifax."
Fernando Pessoa