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A grande convergência liberal-conservadora |
Qual a real diferença de projetos macroeconômicos entre Dilma, Aécio e Eduardo Campos/ Marina Silva?
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Qual a real diferença de projetos
macroeconômicos entre Dilma, Aécio e Eduardo Campos/ Marina Silva? Todos
defendem o tripé metas de inflação, juros altos e câmbio flutuante.
Todos defendem privatizações. Nenhum se dispõe a enfrentar o mercado
como ele é. As diferenças – e elas existem! – são de estilo, ênfase e
ritmo.
Um: surpresa, todos concordam!Ganha uma
compilação dos melhores textos de Adam Smith, David Ricardo, Karl Marx e
John Maynard Keynes sobre superávit primário quem apontar uma diferença
de fundo entre as propostas macroeconômicas de Dilma Rousseff, Aécio
Neves e a dupla Marina/ Eduardo Campos.
Há diferenças de ênfase, ritmo e estilo, obviamente.
Todos
falam publicamente em melhorar, em fazer mais, em gerar mais empregos
etc. Mas nenhum se arrisca a criticar as bases da política monetária
vigente desde o governo FHC, com juros elevados, metas de inflação e
câmbio flutuante.
As semelhanças não param por aí.
Dois: adeus ao desenvolvimentoDilma,
em seu governo, exacerbou características liberais das gestões de Lula,
sem acentuar nenhuma de suas políticas anticíclicas (aumentos reais do
salário mínimo, investimentos em infraestrutura e políticas sociais
emergenciais). Onde havia um esboço desenvolvimentista agora há uma
opção pelo aperto fiscal.
Seguidas elevações da taxa Selic em
2011 – apesar da redução observada em 2012 e logo revertida - se
materializaram em crescimentos medíocres do PIB.
Nesse quesito,
ela se iguala ao segundo mandato de FHC. Sua agenda guarda fortes
semelhanças com a gestão do príncipe dos sociólogos: privatizações,
leilão do pré-sal, perdão fiscal bilionário – R$ 680 bilhões – a bancos e
monopólios privados, desonerações ao capital, acertos com a grande
mídia, favorecimento ao agronegócio, paralisação da reforma agrária, uso
do BNDES para favorecer a concentração de capital, câmbio
sobrevalorizado e tendência à desindustrialização.
Três: mais é melhor e melhor é maisO
PSB de Eduardo Campos exibiu suas propostas em rede nacional na
quinta-feira, 10/10. Que alternativa propõe? “Fazer mais e melhor”.
Que
ligação há entre essas idéias e as da Rede, de Marina Silva? Campos
esclareceu, em artigo na Folha de S. Paulo do domingo (13/10), que "O
desenvolvimento sustentável é a releitura contemporânea mais próxima do
socialismo democrático".
Pode ser que faça algum sentido, embora não pareça.
Marina
mostrou o que pensa a respeito da economia em encontro com a nata do
capital financeiro, em São Paulo, na semana passada. A matéria de Talita
Moreira e Daniella Chiaretti, no Valor Econômico da segunda (14/10),
diz o seguinte:
“Marina Silva (PSB) fez duras críticas à política
econômica do governo Dilma Rousseff e defendeu o retorno do tripé -
geração de superávits primários nas contas públicas, câmbio flutuante e
metas para inflação - que vigorou nos governos Fernando Henrique Cardoso
e Lula. (...) Para a ex-ministra, o câmbio deve voltar a flutuar
livremente sem tantas intervenções do Banco Central. Além disso, é
preciso promover uma sinalização firme para que a inflação volte ao
centro da meta (4,5%) - na gestão atual, a inflação média anual está
girando em torno de 6%”.
Quem diria. A dama da sustentabilidade adora o neoliberalismo punk!
Quatro: sem medo de ser felizQuanto
a Aécio... Bem, Aécio traz o velho e bom programa tucano, eternizada na
máxima dos anos 1990, “O mercado quer sangue”. Trata-se de uma variante
black bloc da pauta privatizante petista, sem medo de ser feliz. Ou
seja, sem receio de dizer que concessão é privatização e sem freios nos
favores ao capital.
Embora existam diferenças de ritmos e
ênfases, as idéias-força dos distintos candidatos apresentam mais
convergências do que divergências, mas isso nunca é dito claramente.
A
esse respeito, a economista Elena Landau, ex-diretora do BNDES no
governo FHC e conhecida como “musa das privatizações”, escreveu o que se
segue, na Folha de São Paulo (2/10):
“Por que um governo decide
privatizar suas empresas e vender ativos? (...) Não há, como regra, uma
opção ideológica. Por isso, não só Lula continuou o processo da gestão
anterior, como Dilma o ampliou. Mas, para ficar bem com os eleitores,
abusa equivocadamente da ideia de que concessão é diferente de
privatização”.
Com a noção de que “não há uma opção ideológica”,
busca-se ocultar do distinto público o fato de que existe uma grande
convergência liberal-conservadora (doravante, a Grande COLICA), fruto de
escolhas conscientes e não um dado da natureza.
Parece que o
lema do ex-prefeito Gilberto Kassab, afirmando que o seu PSD não seria
“nem de esquerda, nem de direita e nem de centro” pegou para valer.
Cinco: Ideologia? Meu marqueteiro cuida dissoA
desideologização, a marquetização e a tecnicização da política nos
conduz a um perigoso senso comum, para o qual disputa é mais ou menos
embate de torcida.
A expressão cristalina disso foi dada por uma
pesquisa do Datafolha, divulgada na segunda (14/10). Na matéria,
publicada pela Folha de S. Paulo, é dito o seguinte:
“No Brasil,
há uma quantidade bem maior de eleitores identificados com valores de
direita do que de esquerda. O primeiro grupo reúne 49% da população,
enquanto os esquerdistas são 30%. Isso, porém, produz pouco impacto nos
índices de intenção de voto para presidente em 2014. (...) Conforme os
dados do instituto, a presidente Dilma Rousseff, candidata à reeleição
pelo PT e favorita na disputa, tem praticamente o mesmo padrão de
votação entre eleitores identificados com valores de direita,
centro-direita, centro e centro-esquerda”.
A sondagem mostra que
definições ideológicas pouco contam na hora do voto (embora exista um
núcleo mais à esquerda com Dilma e outro no espectro oposto com Aécio).
À
direita não interessa marcar nitidez ideológica de nada. Aliás, quando
alguém se apresenta como esquerdista, seus representantes se apressam a
acusar ali uma tentativa de “ideologizar” as coisas.
Seis: metamorfose perambulanteLula
e Dilma, no governo, nunca autodefiniram ideologicamente. Na prática,
se valem de um slogan cunhado pelos marqueteiros do ex-governador
paulista Mario Covas, que dizia estar “fazendo o que tem que ser feito”.
Se tem que ser, será, não cabe discutir.
As exceções debitam-se numa das citações preferidas de Lula: “Sou uma metamorfose ambulante”.
Essa indiferença é a base social para a Grande COLICA.
Sete: um pequeno interregno O
segundo mandato de Lula esboçou trilha diversa, justiça seja feita. Ali
se delineou o que poderia vir a ser um Estado desenvolvimentista, de
forma muito tímida e contraditória. Havia ventos favoráveis.
Aproveitando-se de um ciclo ascendente do preço internacional das commodities, Lula tomou algumas iniciativas expansionistas.
As
medidas principais foram a elevação do valor real do salário mínimo em
70% (!), a expansão do crédito e uma série de medidas sociais focadas.
Várias categorias profissionais tiveram aumentos reais e o BNDES abriu o
cofre para financiar projetos de variados calibres. Expandiu-se a rede
de universidades públicas e a Petrobrás investiu como poucas vezes
fizera. A política externa diversificou-se e buscou independência em
relação aos parceiros tradicionais.
A situação dos pobres
melhorou em termos reais, enquanto havia margem para a distribuição do
excedente gerado pelas exportações. Não foi pouco, diante de um mundo em
crise, a partir de 2008.
Ao mesmo tempo, Lula atravessou todo o
seu mandato com altíssimas taxas de juros e com o real perigosamente
valorizado. A Lei Geral de Desestatização, de 1991, renovada seis anos
depois, segue em vigor, impávida. Aliás, nenhuma das medidas
ultraliberais do mandato de FHC foi revogada.
A gestão dos serviços públicos privatizados segue tal e qual, com as agências reguladoras não fazendo jus ao nome.
Oito: A perigosa comapração com FHC
Dilma
nem isso tentou. Seu governo se definiu logo de cara. Preocupada com o
crescimento de 7,5% do PIB em 2010 e com possíveis gargalos na
infraestrutura, a presidenta atendeu ao lobby do mercado financeiro.
Depois
de passar a tesoura em R$ 55 bilhões das contas públicas e elevar cinco
vezes – entre janeiro e setembro – a taxa Selic, ela viu o crescimento
minguar para 2,7% em 2011, 0,9% em 2012 e algo em torno de 2% neste ano.
São números que a aproximam perigosamente dos resultados do segundo – e
pior – mandato de FHC: 0,3% em 1999, 4,4% em 2000, 1,4% em 2001 e 2,7%
em 2002.
Aliás, quem mostra identidades entre as gestões tucanas e
petistas não é nenhum esquerdista ensandecido. É Octávio de Barros, o
competente economista-chefe do Brasesco. Em agosto último, em palestra
na Universidade Federal do ABC, ele afirmou algo cristalino: “Os
governos Fernando Henrique e Lula foram complementares”.
Nove: eu sou você amanhãAlém de Barros, muita gente importante não vê diferenças entre as gestões.
O
PMDB – com Sarney, Renan Calheiros, Nelson Jobim e outros -, o PP – de
Paulo Maluf -, a bancada ruralista – com a senadora Katia Abreu à frente
– e tantos outros se aboletaram nos mandatos tucanos e petistas como se
em casa estivessem.
O caso mais significativo é o do Ministro da
Pequena e Média Empresa, Guilherme Afif Domigos. Sem fazer muita
ginástica, ele consegue ser vice-governador da mais reluzente gestão
tucana, a de São Paulo, e compor o primeiro escalão da governança
petista.
Certamente estarão com Campos e Marina, caso estes cheguem ao Planalto um dia.
Assim, voltamos à pergunta: qual a diferença estrutural do projeto macroeconômico como ele é de PT, PSDB e PSB?
Atenção: a pergunta é sobre a gestão fiscal e monetária!
Dez: as diferentes diferençasHá diferença entre as três postulações?
Sim, há. Mas tudo fica no acessório, em uma política focada aqui, outra ali e nada mais.
A candidatura de Dilma Rousseff, obviamente, tem vantagens sobre as outras.
A
velha direita perdeu espaço porque o PT soube habilmente incorporar
demandas da base social tradicional desses setores – capital financeiro,
comercial e agronegócio – às suas práticas de governo. O partido não
sabe ainda o que propor ao capital industrial, vitimado pela defasagem
cambial. Mas busca compensar as perdas com desonerações e perdões
fiscais.
A Grande COLICA precisa de alguns pressupostos para se manter como até aqui.
Um
deles é buscar evitar grandes solavancos na economia. Até agora, nada
parece indicar algo que não uma desaceleração paulatina até as eleições
de 2014.
Se a toada se mantiver, a formidável máquina do Estado e
a preferência aberta da grande burguesia darão toda vantagem a atual
presidenta. Para o grande capital, mudar seria um risco desnecessário,
diante da boa aplicação de suas diretrizes por parte da gestão petista.
Outro
é fazer de tudo para que as ruas não saiam do controle, como em junho
último. Embora manifestações assim tenham largo grau de
imprevisibilidade, distúrbios sociais às vésperas do pleito de 2014
podem ser fatais para quem estiver à frente das pesquisas.
É
preciso levar em conta que o PT apresenta uma vantagem inigualável: o
enraizamento popular nos setores organizados. Ou seja, uma administração
do partido dispõe de maior legitimidade que as demais para aplicar a
Grande COLICA, sem grandes faíscas com os de baixo.
Onze: Show de marquetagemA
campanha de 2014 promete ser um show de marquetagem, à falta de
diferenças marcantes entre grandes personagens da trama. Quem tiver os
melhores efeitos especiais, a melhor trilha sonora e mais dinheiro,
leva.
A convergência se consolida.
Mesmo assim, é possível destoar de um coro assim tão afinado.
Uma
candidatura de esquerda pode não conseguir alcançar grandes índices de
preferência num jogo em que o que conta é o financiamento privado.
Mas pode marcar um contraponto necessário, a depender da conjuntura do ano que vem.
LEMBRETE
1 – Para quem não acha que o PT consolidou seu giro rumo à Grande
COLICA, é bom acompanhar o processo de eleições diretas (PED), interno à
sigla. As correntes de esquerda – tudo indica – serão literalmente
tratoradas pelo que se convencionou chamar de “campo majoritário” nas
votações que ocorrerão dentro de um mês.LEMBRETE 2 –
Sobre o prêmio aludido no início desse texto, sentimos informar. Não
será possível entregá-lo. Nenhum economista clássico jamais falou em
superávit primário. Trata-se de uma pegadinha do mercado financeiro,
criada nos anos 1990.
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