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Enviadas: Quinta-feira, 17 de Dezembro de 2009 16:19:21
Assunto: CULPAR OS POBRES É A MELHOR EXPLICAÇÃO
Culpar os Pobres é A Melhor Explicação!
A sociedade tem assistido o caos instalar-se na mais importante
metrópole
do país. Alagamentos dividem espaço com os gols da rodada nos noticiários
de todos os dias; mortes por afogamento ou em conseqüência dos
desbarrancamentos competem com as notícias da repressão aos manifestantes
em Copenhagen.
Anuncia-se a catástrofe ao meio dia, nos boletins climáticos dos jornais e
as sete ou oito horas da noite os bombeiros procuram e contam os corpos;
os assistentes sociais entregam colchões e cestas básicas em colégios
desativados sugeridos como alojamento aos “culpados”.
Engraçado, o mesmo Estado que não combate a especulação imobiliária – que
toma para si todas as áreas ainda próprias para moradia que restaram na
cidade, mantendo-as vazias por longos anos para que se valorizem –
responsabiliza, diante das câmeras de TV, os parentes e familiares ainda
em luto pela morte de seus filhos e vizinhos.
Engraçado não; desgraçados. A solução que oferecem
às milhares de famílias
sertanejas que edificaram a riqueza deste Estado de São Paulo é o dinheiro
do “frete” para que voltem “ao seu lugar de origem”. Se dependesse dos
governos e dos burgueses, banqueiros e industriais paulistas os pobres
voltariam ao ventre de suas mães.
Na Zona Leste da cidade, bairros inteiros seguem submersos pela água das
chuvas há mais de dez dias; obra do ex Governador Mário Covas que criou a
barragem da Penha (localizada no Parque Ecológico do Tietê) para alagar os
pobres e “secar” as marginais. O pior é que nem isso deu certo; as
marginais e os pobres estão debaixo d’água.
Na cidade de Osasco o bairro Rochdale “deu três metros de água”; o povo
perdeu tudo, às vésperas do Natal; choram de desgosto, o pouco que tinham,
perderam nas águas. Mas o terreno que hoje aloja o Condomínio Parque dos
Príncipes não alaga, ele mesmo, o terreno que foi palco de
uma luta justa
por moradia digna em 2002. Pois é a terra ficou para os príncipes e o
povo que de lá foi despejado hoje está debaixo das águas das chuvas.
Esse quadro poderia descrever a situação de toda a região metropolitana de
São Paulo.
Os mais comedidos dizem que a “culpa” é das chuvas, que tem sido demasiado
intensas. Bobagem; não explicam eles porque tantas áreas vazias providas
de farta estrutura urbana seguem vazias sem alagar ou desbarrancar. Em
Itapecerica da Serra a morte de duas inocentes crianças pobres levou
muitas pessoas à um velório; tristeza e indignação se misturaram mais uma
vez; não será a última. Enquanto isso, o terreno de mais de um milhão de
metros quadrados que foi ocupado em 2007 por famílias desta região que
necessitavam de um lugar decente para viver, segue vazio. Os que foram
despejados dele, igual aos de Osasco e de todas as outras cidades
e
regiões pobres de São Paulo perdem seus poucos móveis, que parecem não
valer nada; perdem suas poucas mudas de roupa, que parecem não valer nada;
perdem suas vidas, que parecem também – para os governantes – não valer
nada. Já os donos do terreno valem tanto que mantêm para esta área o
projeto de criar um campo de golf!
Os mais reacionários dizem que a “culpa é dos que ocupam áreas precárias”.
Absurdo! Ao convocar os batalhões de nordestinos para o trabalho fabril
nas décadas de 60, 70 e 80 ninguém lhes deu outra alternativa que não a de
ajeitarem-se como podiam. Absurdo de novo! Na conta original do salário
mínimo um dos elementos que deveria por ele ser subsidiado era o da
moradia mas os capitalistas descobriram – na criatividade e resistência de
um povo que busca seus meios de sobreviver – que não precisavam pagar por
isso e já há muito tempo a dúvida é comer ou pagar o
aluguel.
Nós somos parte destas periferias, moradores destas áreas, sobreviventes
no Capitalismo. Nós não somos dos que assistem indignados as tragédias na
TV, somos os que aparecem nas telas das casas, chorando, pedindo ajuda,
clamando por socorro.
Talvez sejamos culpados, não por ter ocupado os únicos espaços da cidade
que deixaram para nós; talvez sejamos culpados de ainda não termos nos
organizado o suficiente para virar o jogo e mudar as coisas, que só
mudarão pela mão de quem precisa que elas mudem. Talvez sejamos culpados
de ainda não termos reunido as forças necessárias para transformar a
sociedade e construir um mundo mais justo para nós e para todos.
Mas quem pensar que a história acabou, cuide-se. Para esta culpa ainda
temos motivo e tempo para a redenção. Na tragédia reencontramos a força
para recomeçar, nas profundezas da injustiça social que só tem se
aprofundado
reencontramos a luz da solidariedade e o rumo da luta. A
história está aberta e o futuro dirá quem eram os culpados de hoje e de
ontem.
No futuro os noticiários darão outra matéria, a pauta será a insurreição
do povo para a construção do amanhã mais justo e mais igual.
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