"A Amazônia é uma área muito extensa e produtiva de plantações de soja e fazendas de gado, que fica um pouco seca. Aqui e ali você pode ver pequenos bolsões de árvores", escreveu Dom em uma troca de WhatsApp, em março de 2021, na qual ironizamos a cobertura jornalística simplista que via a Amazônia apenas pelas lentes do lucro do investidor estrangeiro. "Há muitas igrejas evangélicas. Faz calor e não chove muito além do dinheiro que cai diretamente nos bolsos dos fazendeiros."
Brincadeiras à parte, para Dom, o agro claramente não era pop, mas ele também não tinha muita paciência para posições pouco embasadas na prática real e mais inspiradas em teorias intangíveis e defasadas ou fantasias paternalistas de uma floresta intocada, habitada apenas por heróis indígenas místicos.
A Amazônia – lar de 29 milhões de pessoas, a maioria em cidades – é complexa, singular e surpreendente, e bem maior e mais interessante que os debates no Twitter.
Ele me contou que a maioria das pessoas que ele conheceu em suas inúmeras viagens está apenas tentando cuidar de suas famílias, sobrevivendo em pobreza, muitas vezes, extrema. "Quem somos nós para julgá-los por aproveitarem o que talvez seja a única oportunidade que têm pela frente para alimentar seus filhos, mesmo que seja cortando árvores para criar gado ou se juntando a garimpeiros?", ele me disse mais de uma vez.
Esse sentimento específico pairou na minha cabeça por meses depois que Dom foi assassinado por pessoas que ele provavelmente diria que se encaixam nessa descrição.
A ironia trágica de tudo isso é que ele estava lá naquele barco, naquele dia tentando ajudar o mundo a criar empatia por pessoas como seus agressores, e não criminalizá-las ou julgá-las. “Se esses caras soubessem o que tinha no coração do Dom, isso teria feito alguma diferença naquela manhã no rio Itacoaí?”, eu me perguntava.
Todos os habitantes da Amazônia merecem viver em segurança, com dignidade e empregos decentes que não contribuam ativamente para a destruição das chances de seus filhos terem uma vida boa e cheia de possibilidades.
Quaisquer propostas realistas que Dom apoiaria, portanto, não podem simplesmente abolir o comércio, nem permitir que ele continue seu curso atual, que não apenas destrói o meio ambiente, mas, na verdade, empobrece ainda mais as comunidades locais.
Os lucros extraídos dali se acumulam em poucas mãos e, cada vez mais, em contas de investimento de pessoas que nunca ouviram falar de uma jararaca, pororoca ou pirapitinga.
Mas, sejam quais forem as soluções, é certo que precisaremos lutar. Nas nossas conversas, Dom me inspirou a continuar acreditando no poder do jornalismo e lutando pelo que acredito. Tanto que, sem a sua influência, é provável que, quando soubemos que pretendiam encerrar o Intercept Brasil em 2022, em vez de lutar para salvá-lo e torná-lo independente, eu provavelmente teria deixado que fechasse.
Se você está buscando inspiração e orientação para fazer parte da solução, pode começar reservando o livro “Como salvar a Amazônia: Uma busca mortal por respostas”. Não podemos salvar Dom, mas ainda podemos salvar a Amazônia.