Brasil internacionaliza floresta, diz ecólogo norte-americano]

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Tatiane Marques

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Sep 29, 2005, 7:34:32 AM9/29/05
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Brasil internacionaliza floresta, diz ecólogo norte-americano
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u13682.shtml
IURI DANTAS
da Folha de S.Paulo, em Washington

A verdadeira internacionalização da floresta amazônica já começou e
avança a cada dia: ao transformar árvores em gás carbônico (CO2) e
alimentar o aquecimento global, os próprios brasileiros cuidam do assunto.

O autor da afirmação tem nome e reputação para fazer as críticas: Thomas
Lovejoy, ecólogo e estudioso da Amazônia há 40 anos. Pioneiro da
pesquisa sobre fragmentação florestal, presidente do Centro Heinz de
Ciência, Economia e Ambiente, em Washington, ele foi o primeiro
cientista a usar o termo "diversidade biológica", ainda nos anos 1980.

"Transformar a floresta em CO2 é uma forma de internacionalização da
Amazônia", afirmou.

O americano Lovejoy, que vem ao Brasil nesta semana para uma conferência
sobre ambiente e governança, diz que há uma "histeria" no país quando
estrangeiros pedem mais proteção da floresta.

"Sempre houve um tipo de histeria sobre biopirataria. E na prática a
única biopirataria é a destruição da floresta. É roubá-la de futuras
gerações de brasileiros. Cientistas são pessoas como qualquer outra.
Haverá um ou outro, ocasionalmente, que não seguirá as regras. Mas a
maioria é muito preocupada com isso."

Diante dos dados sobre desmatamento no norte do país, Lovejoy afirma que
a floresta está próxima de um ponto limite, a partir do qual a redução
da cobertura verde será incapaz de gerar a chuva necessária e,
consequentemente, secar. É uma questão de "poucos anos", avalia. Leia
abaixo trechos da sua entrevista à Folha.

Folha - Como o sr. avalia a expansão da fronteira agrícola no Brasil?

Thomas Lovejoy - Essa questão da fronteira agrícola é um assunto de
ganhos no curto prazo versus ganhos no longo prazo. Você pode fazer
muito dinheiro no curto prazo com a soja. Mas, no longo prazo, o valor
dos recursos genéticos e da floresta para o Brasil são muito, muito maiores.

Estudos muito elegantes mostram que a chuva da Amazônia é gerada no
local porque existe floresta. Isso significa que existe um ponto em que
a redução da floresta vai diminuir isso [a precipitação], e vai começar
a secar. E não seremos capazes de parar o processo. Ninguém sabe que
ponto é esse. Para mim, este é o tema mais importante neste momento.

Folha - A urgência puxa a necessidade prática de uma alternativa
econômica para os moradores da floresta. Como fazer?

Lovejoy - É muito importante oferecer qualidade de vida para o povo da
Amazônia. Não há nenhuma solução para o desenvolvimento econômico, a
menos que se resolva esse problema para a pessoas de lá. Por isso há
governos como o de Jorge Viana [do Acre] buscando alternativas
econômicas baseadas na exploração sustentável da floresta, em vez de
commodities agrícolas.

Folha - Embora elogiáveis, são iniciativas incipientes, não?

Lovejoy - Acreditamos que possam dar resultado também no curto prazo.
Mas o longo prazo é um valor gigantesco. Porque o Brasil e a floresta
têm uma porção significativa dos genes do mundo. E o investimento de
longo prazo em ciência e empreendedorismo vão encontrar algo incrível
por lá.

Folha - Na prática, vemos áreas enormes da floresta queimarem por
ausência de fiscalização. O governo atual avançou?

Lovejoy - É muito significativo como o Brasil tem conseguido proteger
partes da floresta. É uma história que precisa ser contada. Há a parte
destruída, mas também a conservada. Há um projeto em andamento chamado
Arpa, feito em conjunto pelo Banco Mundial e pela WWF, e quando se vê o
que foi feito, inclusive sobre a conservação de áreas indígenas...
Também o que vem sendo feito nos Estados, que não eram atores há dez
anos. Cerca de 40% da Amazônia brasileira está sob alguma forma de
proteção, o que é impressionante. E Estados individuais estão
construindo essa capacidade de zoneamento ecológico e econômico. O
problema é que no sul do arco de desmatamento não há fiscalização devida.

Folha - Quase metade da floresta sob proteção não é bem o senso comum.
Imagina-se um cenário pior que esse.

Lovejoy - Sim, ao mesmo tempo é verdade. Mas de uma forma, é uma corrida
para o fim. O assustador é o que vai acontecer se cruzarem o ponto de
equilíbrio. Porque então muito dos bons esforços terão sido por nada. E
acredito que estamos muito próximos. O número de incêndios que ocorrem
hoje. Florestas tropicais não queimam tão facilmente. E a quantidade de
incêndios parece ser evidência de secura local, não dá pra dizer
exatamente, mas é um sintoma, certamente.

Folha - O governo atual propõe alugar áreas de floresta para a
iniciativa privada. É uma boa idéia?

Lovejoy - Esse projeto tem um grande potencial. Por duas razões. A
primeira é que estende a proteção da floresta além das reservas que o
governo cria. E em segundo, está ligado a interesses privados,
basicamente constituindo uma base para o desenvolvimento sustentável. De
repente, torna-se interesse de alguém apoiar o desenvolvimento
sustentável. Na Costa Rica, por exemplo, não sei quantas centenas de
áreas privadas de conservação existem. Num lugar há uma fazenda de
borboletas, em outro, uma fazenda ecológica. É sempre empreendedorismo
empresarial.

Folha - O sr. enfrentou algum episódio de resistência à sua presença na
Amazônia, por ser estrangeiro?

Lovejoy - Algumas vezes. Ainda acontece. Sempre houve um tipo de
histeria sobre biopirataria. E na prática a única biopirataria é a
destruição da floresta. É roubá-la de futuras gerações de brasileiros.
Cientistas são pessoas como qualquer outra. Haverá um ou outro,
ocasionalmente, que não seguirá as regras. Mas a maioria é muito
preocupada com isso.

O foco real deveria ser preservar a floresta. Essa é a biopirataria
real. Transformar a floresta em CO2 é uma forma de internacionalização
da Amazônia.

Folha - É possível indicar qual é o vilão, singular ou plural, que
atrapalha a conservação?

Lovejoy - É muito difícil ter uma única solução. A solução no final
precisa incluir zoneamento ecológico e econômico, fiscalização e criação
de desenvolvimento com base na floresta. A minha impressão é que, quando
o governo central leva isso a sério, as coisas acontecem.

Folha - Como o sr. vê a equipe de Lula no Meio Ambiente?

Lovejoy - [A ministra] Marina é muito boa, mas o problema sempre foi
fazer com que a Casa Civil levasse a sério isso. Desde que o problema
[de desmatamento] veio à tona, eles têm conseguido.





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