Entre os dias 14 e 16 de fevereiro,
aconteceu em São Paulo o 42º SIMASP, Simpósio Internacional
Moacyr Álvaro, um dos maiores eventos da área de oftalmologia
promovido pela UNIFESP, Universidade Federal de São Paulo, que
reúne, anualmente, renomados médicos e profissionais da área da
saúde para debaterem os temas científicos mais recentes dentro
deste setor.
Em especial, destacamos o fórum "Olhos para Cidadania", que teve
início na manhã de sábado, dia 16, com a abertura de palestras
coordenada pela Profa. Dra. Juliana Maria Ferraz Sallum,
especialista em genética ocular.
Conhecido como o braço social do congresso, o "Olhos para
Cidadania" recebe todos os anos, não apenas profissionais da
área da saúde, mas, também, pacientes deficientes visuais,
profissionais interessados no assunto e, neste ano, organizações
do terceiro setor, que puderam expor um pouco dos seus trabalhos
ao fim da sessão.
Antes de dar início à manhã de palestras, a Dra. Juliana Sallum
dedicou alguns minutos para homenagear a Dona Marieta Epel
Boimel, uma das mais antigas pacientes e membro do Grupo Retina
São Paulo. Seu convívio com o grupo resultou em uma rica troca
de experiências e ela tornou-se um verdadeiro exemplo de
superação, pois, além de cuidar de toda a família, mostrou que a
vida continua, mesmo depois de perder a visão.
Após uma perspectiva geral sobre grupos de doenças oculares, a
Dra. Juliana Sallum pontuou alguns dados estatísticos
relacionados às doenças raras, como, por exemplo, a Retinose
Pigmentar, que atinge 1 paciente a cada 4 mil e a Amaurose
Congênita de Léber, que atinge 1 a cada 10 mil. Atualmente,
existem de 6 a 8 mil doenças raras, muitas delas, de origem
genética, infecciosa ou autoimune, e existem, ainda, cerca de 13
milhões de pessoas acometidas que, de forma individual,
apresentam características e necessidades específicas. A doutora
ressalta também a importância do diagnóstico oftalmológico e a
troca de experiências multidisciplinares entre os médicos para o
auxílio no tratamento de outros diagnósticos presentes e que
também estão relacionados entre si.
Na sequência, o fórum prosseguiu com o tema "Testes genéticos",
regido pela professora de genética da Universidade de Barcelona,
na Espanha, a Dra Roser Gonzalez Duarte. Ela destacou a
relevância da genotipagem para o avanço e aperfeiçoamento das
pesquisas relacionadas às doenças sem tratamento clínico. Por
meio de uma palestra cientificamente detalhada, a professora
expôs um breve histórico das terapias e pesquisas voltadas às
doenças de origem genética, bem como a sua complexidade nas
diversas etapas e resultados.
Há mais de 25 anos no ramo de investigações das distrofias da
retina, a dra Roser Duarte explica que o diagnóstico genético é
essencial para a identificação e ampliação da lista de novas
variantes e mutações, para que, desta forma, seja possível
alcançar um estudo mais preciso do gene causador da doença, bem
como as suas características e a forma como se manifesta. A
professora Duarte explica ainda que. atualmente, laboratórios
americanos engajam-se cada vez mais na busca de vetores capazes
de conduzir e substituir. com eficácia, genes defeituosos por
genes saudáveis. Embora ela admita que a perspectiva científica
ainda seja de que se levará anos de investigações, a dra Roser
garante que o futuro das pesquisas e das terapias gênicas é
bastante promissor.
Após a enriquecedora palestra da Dra Roser Duarte, o fórum
"Olhos para Cidadania" contou também com a presença do Dr Rene
Moya, professor da Universidade Los Andes, no Chile, que deu
continuidade ao assunto, discorrendo sobre o tema "Distrofias da
Retina". Ele salientou que o campo de investigação das
distrofias da retina é muito amplo, pois estas são causadas por
distintas enfermidades e apresentam sintomas variados,
dependendo do diagnóstico. Atualmente, no Chile, levando-se em
consideração a extensão territorial do país, existem cerca de 5
mil pessoas afetadas por alguma doença causadora de distrofia da
retina. Embora haja uma projeção de quantos pacientes são
afetados, não se tem ainda uma estatística que demonstre quais
são as enfermidades responsáveis pelas distrofias. Por este
motivo, o dr Rene Moya ressalta a importância de parcerias no
campo das pesquisas.
Segundo o professor, pelo ponto de vista genético, existem
inúmeros genes e muitas mutações que, consequentemente, se
manifestam e herdam distintos padrões de comportamento de acordo
com o diagnóstico, mesmo que este faça parte de um mesmo grupo
específico da doença. Ele exemplificou estes dados citando o
fato de que pacientes com Retinose Pigmentar podem não
apresentar o mesmo padrão de distrofia na retina, nem mesmo a
reincidência hereditária na família, devido à mutação ocorrida
no tipo de gene que causou a doença. Por este motivo, assim como
a dra Roser Duarte, o Dr Moya também destaca a importância do
teste genético e, principalmente, o acompanhamento deste
paciente para investigar de forma pontual como cada gene se
manifesta. Cerca de 570 pessoas no Chile já realizaram a
genotipagem e, dentre os principais resultados, 61% dos
pacientes apresentaram o diagnóstico de Retinose Pigmentar,
enquanto que apenas 7% apresentaram a doença de Stargadt.
Sobre a doença de Stargadt, o fórum "Olhos para Cidadania"
contou também com a presença da Dra Mariana Vallim Salles, que
apresentou os avanços das pesquisas relacionadas a este
diagnóstico. Dependendo do tempo em que a doença se manifesta ou
da gravidade da variante presente no gene causador, é possivel
observar que existem casos mais graves relacionados à atrofia da
retina, decorrente das alterações genéticas analisadas no
paciente.
A Dra Mariana Vallim também destaca a importância do teste
genético, justamente, para que se chegue ao diagnóstico e,
assim, seja possível a realização de um aconselhamento genético
e uma orientação ao paciente sobre qual a possível evolução da
doença. Atualmente, ainda não existe nenhum tratamento aprovado,
mas existem alguns protocolos em andamento.
Dentre as pesquisas, a dra Vallim elencou algumas terapias orais
destinadas a genes específicos da doença de Stargardt, que têm
como principais objetivos lentificar o avanço da doença, modular
o ciclo visual no fotorreceptor e reduzir os produtos celulares
que causam a lesão na retina. Existe também a terapia gênica,
como explanado nas palestras anteriores, que ainda se encontra
em avaliação, nas fases de segurança, tolerância e eficácia em
humanos. E, por fim, a terapia celular, que consiste na
introdução de células-tronco sob epitélio da retina via
cirurgia.
No bloco de perguntas, os participantes do fórum "Olhos para
Cidadania" puderam contemplar a presença de uma convidada
especial, a bióloga argentina, Marcela Ciccioli, que,
detalhadamente, explanou sobre tratamentos de terapia gênica,
ainda em fase de pesquisa, que obtiveram resultados positivos em
pacientes tratados na China, diagnosticados com Neuropatia
Óptica Hereditária de Léber.
Finalizando a manhã de palestras, o fórum seguiu com uma
sequência de palestrantes envolvidos no terceiro setor que, na
ocasião, puderam esclarecer dúvidas sobre captação de recursos e
diferenças entre as organizações, além de apresentarem seus
projetos, tão inspiradores para todos que pretendem fazer do
mundo um lugar melhor.