Aí vai uma tradução de um artigo muito bom.
namaskar,
Educador do oprimido: uma conversa com Paulo Freire
Maheshvarananda Avadhuta
Em 2 de Maio, 1997, um doce professor brasileiro com fala suave faleceu com um ataque cardíaco. Na manhã seguinte ao funeral de Paulo Freire, eu estava intrigado com as muitas ironias e paradoxos de sua vida. Mais de trezentos proeminentes membros da esquerda brasileira juntaram-se para prestar suas últimas condolências a um homem afetuoso reconhecido também como um revolucionário. Seu caixão foi coberto com o verde e amarelo da bandeira nacional e o vermelho e branco da bandeira dos militantes do Partido dos Trabalhadores. Membros da polícia militar carregaram seu caixão porque o presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso, cujas ações conservadoras Freire asperamente protestou, ordenou que ele merecia a honra de um funeral de Estado.
Após o padre católico finalizar a citação dos últimos ritos, as pessoas cantaram suavemente uma famosa canção de um ativista brasileiro que Freire adorava:
Vem vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora não espera acontecer
Quando o caixão foi baixado ao solo, eu me abaixei e colhi uma rosa das enormes guirlandas. Joguei a flor sobre o caixão com um sentimento de profunda gratidão.
Um dos repórteres de televisão pediu-me para explicar minha presença ali com o uniforme laranja. Eu disse: “Vinte e cinco anos atrás quando eu era um estudante universitário nos Estados unidos, o livro Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire era leitura obrigatória em nosso curso em estudos de paz. Ele me inspirou fortemente para dedicar minha vida para a causa da mudança do mundo, de criar uma verdadeira revolução baseada no amor, e na realização de serviço aos pobres. Tornei-me um monge de Ananda Marga que organiza diferentes tipos de projetos de caridade, especialmente escolas infantis em áreas pobres. Então de fato Paulo Freire é uma das razões de eu usar este uniforme.”
Freire começou
sua carreira dando cursos de alfabetização para os trabalhadores
das classes pobres do nordeste do Brasil. Ele desenvolveu um sistema
ensino através do diálogo, reconhecendo e respeitando o
conhecimento que aquelas pessoas já tinham. Ajudou-os
simultaneamente a questionar as razões de sua pobreza. Esse processo
de “conscientização” gradualmente tornou-se tão bem sucedido
que em 1963 ele foi convidado a encabeçar o Programa Nacional de
Alfabetização do Brasil.
Pai de todos
Para entender a força do estilo de trabalho de Freire, considere uma típica noite de abertura de um curso com trabalhadores de uma plantação de cana-de-açúcar. Assim que eles chegaram ele engajou-os em uma conversa descontraída até que repentinamente um silêncio desconcertante aconteceu.
Ele também permaneceu em silêncio e esperou. Finalmente um deles disse: “Desculpe-nos, senhor, por falar. Você é o único que deveria estar falando, senhor. Você sabe as coisas, senhor. Nós não.”
“Certo, eu sei algumas coisas que vocês não sabem. Mas por que eu sei e vocês não?”
Uma curiosidade subitamente foi instigada. A resposta não vinha.
“Você sabe porque é um doutor, senhor, e nós não.”
“Certo, eu sou um doutor e vocês não. Mas por que eu sou um doutor e vocês não?”
“Por que você foi à escola, leu coisas, estudou, e nós não.”
“E por que eu fui à escola?”
“Por que seus pais puderam mandá-lo à escola. Os nossos não.”
“E por que seus pais não puderam mandá-los à escola?”
“Porque eles eram ignorantes como nós.”
“E o que é “ser um ignorante”?”
“É não ter uma educação... não conhecer nada... trabalhar do amanhecer ao entardecer... não ter direitos... não ter esperança.”
“E por que um ignorante não tem nenhuma dessas coisas?”
“É a vontade de Deus.”
“E quem é Deus?”
“O Pai de todos nós.”
“E quem é pai aqui nesta tarde?”
Muitos levantaram as mãos. Freire apontou a um e perguntou, “Quantos filhos você tem?”
“Três”
“Você estaria disposto a sacrificar dois deles, e fazê-los sofrer suas vidas inteiras para que um deles possa ir à escola e ter uma vida boa na capital? Você poderia amar seus filhos deste modo?”
“Não!”
“Então se você, uma pessoa de carne e osso, não poderia cometer uma injustiça dessas, como Deus poderia? Poderia o Pai de todos realmente ser a causa destas coisas?”
Um tipo diferente de silêncio foi sentido. Então: “Não. Deus não é a causa de tudo isto. É o patrão!”
De uma abertura, Freire ensinou e discutiu as palavras que tinham maior poder para o grupo de pessoas com as quais ele estava trabalhando. Para trabalhadores da lavoura isto seria incluir “casa”, “terra”, “fome”, “escola”, “salários”, “saúde”, “dívida”, etc. Figuras simples de pessoas como eles cercadas de coisas de seu mundo, interagindo com outros, criou ferramentas para animadas conversações. Uma educação como esta tem uma grande importância em suas vidas, e suas técnicas foram capazes de ativar a leitura funcional no incrível período de 30 horas.
A importância de Freire
Os jovens soldados no funeral eram muito novos para lembrar que em 1964 os generais do país consideraram o “Método Paulo Freire de Alfabetização” muito perigoso para seu controle político, e declararam seu autor como “um diabólico, perigoso subversivo e inimigo de Deus”. Aprisionado por dois meses, ele foi mandado em exílio e não permitido a retornar por 17 longos anos. Ironicamente, foi justamente esta punição que permitiu a expansão de suas ideias ao redor do mundo.
Ele trabalhou para os ministros da educação no Chile e Argentina, lecionou por anos como convidado na Universidade de Harvard nos Estados Unidos, e dirigiu o escritório de educação do Conselho Mundial de Igrejas em Geneva. Em 1971 seu livro, Pedagogia do Oprimido, foi primeiramente publicado em inglês, depois traduzido para dezenas de outras línguas e finalmente republicado e distribuído mundialmente pela Penguin Books. Sua abordagem revolucionária para a educação para ajudar as classes oprimidas a reconhecerem a exploração tornou-se um guia para movimentos sociais ao redor do mundo. Ele foi nomeado doutor honorário em universidades na Grã-Bretanha, Bélgica, Suíça, El Salvador, Fiji e nos Estados Unidos.
Dr. Sohail Inayatullah do Paquistão, explicou a importância das ideias de Freire em seu trabalho:
Paulo Freire teve uma influência tão grande nos últimos 40 anos que praticamente toda educação progressiva utiliza sua base... para reconhecer autenticamente quais as necessidades do outro, para experienciar seu mundo. Isto é aprendizado na ação, conhecendo a visão de mundo dos outros e trabalhando com eles em muitos níveis. Enquanto eu aceito quem eles são, eu também desafio suas crenças correntes. Então isto é um encontro autêntico e um esforço para mover para um novo patamar de compreensão – conscientização, como ele denomina.
Um mês antes de sua morte, tive a honra que encontrar Paulo Freire na biblioteca de sua casa em São Paulo. Sua suave barba branca e cabelo longo acompanhavam suas bonitas expressões de hospitalidade. Nós conversamos por aproximadamente duas horas em uma graciosa atmosfera de respeito mútuo.
Discurso e prática
Paulo Freire: Minha questão fundamental para educação prática é sobre a relação entre o educador e o educando. Eu dou muita importância para o cumprimento dos valores. Não posso dar um discurso sobre bondade enquanto estou matando um animal na frente daqueles que estão ouvindo o discurso.
Um dos maiores esforços em todo indivíduo é para diminuir a diferença entre o que ele fala e faz, entre discurso e a prática.
Ética realmente é luta para diminuir a distância. Penso que entre os políticos encontrar-se-á a máxima distância entre as duas coisas. Você escuta a palestra de um candidato para prefeito, mas após ser eleito suas ações não parecem em nada com o discurso. Como o educador e como as pessoas, eu penso que um dos valores que devemos buscar é exatamente este – o valor da consistência.
Eu me lembro quando comecei a ser pai. Com minha primeira esposa, o que era mais importante era o exercício para diminuir a distância entre o que nós fazíamos e o que nós sonhávamos. Isto é uma luta, uma luta diária, mas uma luta bonita, uma luta deliciosa. Lembro-me que algumas vezes eu pedi perdão a um de meus filhos ou filhas para a contradição no que eu penso. É importante que as crianças saibam que o pai é incompleto, assim, ele está sujeito a cometer erros. Deveríamos estar satisfeitos com o conhecimento que nós estamos diariamente lutando para esta consistência.
Eu sempre digo, gosto de pureza, mas rejeito o Puritanismo. Gosto de moralidade, mas odeio moralismo. Penso que a luta diária das pessoas é para alcançar a sinceridade.
Fundamentalmente eu sou uma pessoa espiritual. Não digo que sou religioso, mas sou um homem de fé. Considero fé não necessariamente como religião. Em mim sempre existe uma mistura do mundano e do transcendental. Eu não posso alcançar completa transcendência e não ser parte do mundo. É na história, relembrando a história, que eu realizo meu infinito potencial de cair. É vivendo a possibilidade de cair que eu posso cair menos.
Por exemplo, eu costumava fumar muito até 1978. Naquele ano estava vivendo em exílio na Suíça e fumava três maços de cigarro por dia. Era absurdo de um ponto de vista saudável. Estava destruindo a mim mesmo. Quando refleti neste período vi que duas ou três vezes que pensei que deveria parar de fumar, estava fundamentalmente sem força de vontade. Quando você não decide, você não vai parar, porque afinal de contas, a decisão é uma ruptura no estilo de vida. Ninguém pode decidir sem romper com um e ficar com outro. A decisão não é neutra. Nenhuma decisão pode ser neutra. E eu quebrei o hábito com raiva.
Penso que é muito importante tomar decisões com a capacidade de sentir raiva. Minha verdade é que a raiva está em harmonia com o amor, não são antagônicos. Algumas coisas fundamentais que fiz em minha vida eu fiz porque tive raiva. E a raiva foi precisamente por amor. Uma raiva justa. O jovem Cristo que expulsou os agiotas do templo o fez com raiva, uma raiva justa.
Dada Maheshvarananda: Para mim sinto uma justa, revolucionária raiva no coração do livro PROUTist Economics, de Prabhat Ranjan Sarkar. Ele denuncia como o capitalismo é antiético porque não garante as necessidades mínimas da vida enquanto encoraja a super-acumulação de riquezas.
Ética do mercado
PF: Neste momento do capitalismo nós devemos ser esclarecidos com relação ao que é chamado de neoliberalismo. Em sua base é a ética do mercado. Eu gostaria de dizer que nossa ética fundamental deveria ser a ética do ser humano. Isto é totalmente oposto ao funcionamento da ética do mercado, que é uma ética má que não respeita a presença humana. Penso que nenhuma política tecnológica ou desenvolvimento científico que esquece os interesses dos seres humanos faz sentido para mim. Não defendo o fim ou regresso da ciência ou da tecnologia, porque penso que isto é uma postura reacionária. Porém penso que o desenvolvimento da ciência e da tecnologia não deveria perder sua visão.
O neoliberalismo é totalmente contra isto, e seu conceito de desenvolvimento é completamente desinteressado nos humanos. Hoje eu luto muito contra isto, combatendo contra isto. Um modo é minha recusa a participar de qualquer tipo de colaboração com o governo do presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso. Eu não votei nele, e não votarei para a sua reeleição. Sempre estarei deste lado na luta contra este homem, que conheci pessoalmente e que foi um grande intelectual, porque seu erro é muito sério. Ele foi um dos maiores marxistas deste país que repentinamente descobriu que seu caminho era na direita. Eu não aceito isto, então o critico. Sou muito amigo do Ministro da Educação, mas do ponto de vista da política nacional, não tenho nada a ver com ele. É uma pena, porque em meus 75 anos de idade, quando eu podia dar uma maior contribuição a este país, estou recusando isto. A contribuição que estou dando em contrapartida é escrever e criticar tudo isto.
DM: Capitalismo utiliza diferentes termos, diferentes formas. Em eras anteriores, o capitalismo utilizou exploração política através do imperialismo e colonialismo, mas depois da Segunda Guerra Mundial transformou toda exploração em exploração econômica. Atualmente utiliza muitas técnicas psicológicas. Por exemplo, a indústria do tabaco gasta bilhões e bilhões de dólares para convencer e criar novos consumidores entre a juventude. Para fazer isto utiliza técnicas muito psicológicas de propaganda, como cowboys com cavalos e outras expressões de liberdade.
PF: O que uma economia americana fundamentalmente quer é aprofundar e consolidar seu comando e dominação sobre outras economias. Eles chamam isto de democracia e globalização da economia. E o presidente Cardoso ainda diz que o povo brasileiro é atrasado e ignorante. Como pôde entrar na sua mente vender a companhia nacional de mineração, Vale do Rio Doce? É a terceira maior companhia no país, e é honesta, séria, tecnicamente eficiente e competente. O país está perdendo todo potencial criado porque o princípio do neoliberalismo e privatização é o que ele pensa que é correto.
DM: Uma coisa sobre a qual estou especialmente interessado é no conceito de invasão cultural. Você escreveu sobre isto 25 anos atrás em seu livro mais famoso, Pedagogia do Oprimido. Trabalhei no sudeste da Ásia por quatorze anos, e ali está muito claro que os capitalistas estão impondo pseudo-cultura norte-americana nas culturas locais.
Mas no Brasil é diferente, porque, por exemplo, a companhia multi-bilionária de televisão, Globo, descobriu técnicas para transformar a propaganda dos Estados Unidos e refazê-las de uma forma brasileira. Isto torna mais difícil para os brasileiros descobrirem este tipo de imposição cultural. Eu gostaria de saber sua opinião sobre isto.
PF: O atual processo de dominação é um processo que é necessariamente muito astuto. Existe um número muito grande de enganações, porque a um certo momento o processo de dominação é físico – ou seja, o explorador toma posse. O colonialismo foi assim.
Mas mais tarde tornou-se muito caro para os dominadores manter a estrutura colonial. Então tornou-se melhor remover seus soldados dos países invadidos para manipular países através da economia. Dominação através da economia e da política necessariamente toma a forma de um controle muito refinado ou uma invasão cultural. Assim os invadidos não percebem que são explorados.
O desenvolvimento de nossa capacidade crítica é sempre muito necessário, mas cada vez mais e mais difícil também.
DM: Isto é uma parte essencial do neohumanismo, uma filosofia que nossa organização ensina – estudar e analisar diferentes tipos de exploração. “Educação para liberação” é o mote de nosso sistema de educação. Através de nosso estudo e diálogo com outros nós podemos entender diferentes tipos de exploração. Individualmente e junto com outros nós podemos lutar contra isto.
A presença das pessoas
PF: Fundamentalmente eu penso que uma das coisas que está faltando em nós na experiência de aprendizado, em professores e estudantes, é o que chamamos de capacidade de meditar, assim como o sentimento de transcendência. É uma experiência crítica de reflexão sobre nossa presença no mundo.
O que é muito enfatizado nas escola brasileiras é a transferência de conteúdos. O ensinar é reduzido a técnicas de transferência de informação de pouca importância, um mecanismo de conhecimento de biologia, geografia, história e matemática que minimiza a presença do indivíduo no mundo. Meu crescimento não termina com o treinamento físico, treinamento técnico de conhecimento superficial de conteúdo. Ainda hoje uma das características da educação neoliberal, o que eles chamam de pragmatismo na prática acadêmica. Para mim, educação é mais do que isto e no meu ponto de vista envolve um caminho para permanente meditação.
O legado de Paulo Freire pode ser descoberto em suas dezenas de livros e através de mais de 900 páginas na Internet. Ainda pode ser visto nos olhos maravilhados das crianças e velhos que ganharam a força de ler as palavras que moldam suas vidas. Ele quis citar um outro famoso militante, Che Guevara:
Deixe-me dizer-lhe, correndo o risco de parecer ridículo, que o verdadeiro revolucionário é guiado por grandes sentimentos de amor.
Quando eu caminhava pela grama do cemitério, pensei o quanto se assemelhavam às palavras de P. R. Sarkar na dedicatória em seu livro, A Liberação do Intelecto: Neohumanismo:
Àqueles que pensam em todos...
Que oferecem seu lugar, em honra e respeito aos outros...
Que prestam homenagem aos outros,
ao invés de quererem ser homenageados.
A essas pessoas dedico este livro, com sincera estima e profunda saudação.