"Paramapurusha é meu pai e Parama Prakriti é minha mãe. O universo é
meu lar e todos nós somos cidadãos deste cosmo. Este universo é a
imaginação da Mente Macrocósmica, e todas as entidades estão sendo
criadas, preservadas e destruídas nas fases de extroversão e
introversão do fluxo imaginativo cósmico. No âmbito pessoal, quando
uma pessoa imagina algo em sua mente, naquele momento, essa pessoa é a
única proprietária daquilo que ela imagina, e ninguém mais. Quando um
ser humano criado mentalmente caminha por um milharal também
imaginado, a pessoa imaginada não é a propriedade desse milharal, pois
ele pertence ao indivíduo que o está imaginando. Este universo foi
criado na imaginação de Brahma, a Entidade Suprema, por isso a
propriedade deste universo é de Brahma, e não dos microcosmos que
também foram criados pela imaginação de Brahma. Nenhuma propriedade
deste mundo, mutável ou imutável, pertence a um indivíduo em
particular; tudo é o patrimônio comum de todos."
Depois de desenvolver a ideia da sociedade humana como uma família
integrada, ressaltando que a "a natureza não delegou nenhuma porção
dessa propriedade a qualquer indivíduo em particular", e de traçar
paralelos com os direitos tradicionais de propriedade de famílias
integradas na Índia antiga, Baba se lançou numa dura acusação ao
capitalismo, sem se preocupar em suavizar suas palavras:
"Os capitalistas deste mundo moderno são criaturas antissociais e
antidharma. Para acumular riquezas imensas, elas reduzem outras
pessoas ao estado de pele e osso, obrigando-as a morrer de fome; para
deslumbrar as pessoas com o glamour de sua vestimenta, outros se veem
forçados a vestir trapos; para ter mais energia vital, sugam a
vitalidade dos outros até o fim... Um membro de uma família integrada
não será considerado como um ser social, se não possuir o sentimento
de unidade com os outros membros dessa família, ou se não quiser
aceitar o nobre ideal dos direitos em conjunto e o princípio da
racionalidade."
A análise do capitalismo, feita em seguida por Baba, logo o levou a
ser rotulado na Índia como um revolucionário social:
"Uma vez que toda a propriedade do universo é uma herança comum de
todas as suas criaturas, como pode haver qualquer justificativa para
um sistema no qual alguns se esbaldam no luxo, enquanto outros morrem
de fome por falta de um punhado de grãos?... Considerando os
interesses coletivos de todos os seres vivos, é essencial que o
capitalismo seja erradicado."
Na opinião de Baba, a mentalidade capitalista - ou, como dizia ele, "a
ambição de se tornar rico pela exploração dos outros",- é uma doença
psíquica.
"Se os anseios da mente humana não encontrarem o caminho certo para a
realização espiritual e psíquica, a mente se ocupará em acumular
riqueza física excedente, em detrimento de outras pessoas... Quando os
capitalistas declaram que "Nós acumulamos riquezas por meio de nosso
próprio talento e trabalho; se os outros tiverem capacidade e empenho,
eles que façam o mesmo; ninguém os está impedindo de fazê-lo", eles
não se importam com o fato que o volume de recursos naturais do
planeta é limitado, enquanto as necessidades são comuns a todos. A
riqueza individual excedente, na maioria dos casos, priva outras
pessoas das necessidades mínimas da vida."
Baba prosseguiu, passando então a discutir quais métodos deveriam ser
adotados para pôr um fim ao capitalismo. Enquanto enfatizava que "nada
seria melhor, se fosse possível, do que a erradicação do capitalismo
através da persuasão amigável e de apelos humanistas", ele deixava
claro que os incontáveis milhões de pessoas que estavam sofrendo não
poderiam esperar indefinidamente "pelo dia em que o bom-senso
prevaleceria entre os exploradores". Sua argumentação foi diretamente
contrária ao ideal gandhiano de não violência, um ideal que é, como
Baba posteriormente explicou, uma distorção do antigo princípio iogue
de ahimsa, o de não causar mal a outros seres vivos.
"Embora a abordagem humanista funcione em certos casos, ela na maioria
das vezes não produz resultado algum; e mesmo quando funciona, demora
muito tempo a fazê-lo. Portanto, sempre que necessário, o capitalismo
deve ser forçado a abandonar sua ganância voraz por meio de medidas
drásticas... Uma enorme pressão circunstancial deverá criada. Para
criar essa pressão circunstancial, é absolutamente necessária
aplicação da força. Aqueles que acreditam que a não aplicação da força
por si só é ahimsa estão destinados ao fracasso. Nenhum problema neste
mundo pode ser resolvido quando se adota este tipo de ahimsa."
"Se qualquer país comete atrocidades contra suas minorias ou ataca
qualquer vizinho frágil, então os outros vizinhos devem reagir;
mobilizando a força necessária, eles devem deter o tirano para
estabelecer a paz sutil. Por isso, as pessoas que desejam restaurar a
paz sutil terão de fazer esforços contínuos para ganhar forças. É
impossível que as cabras estabeleçam a paz sutil numa sociedade de
tigres. Infelizmente, aqueles que acreditam que a não violência seja
evitar o uso da força não podem estabelecer a paz sutil, e nem
defender a liberdade conquistada a duras penas."
Num país onde o ideal gandhiano de não violência era reverenciado
igualmente pelo povo e pelos políticos, esse era um argumento que não
apenas colocaria Baba firmemente do lado dos mais radicais
revolucionários sociais, mas também lhe valeria entre as autoridades
governamentais a reputação de ser uma figura "perigosa" para a
sociedade indiana.
Após determinar que era para o bem maior dos seres humanos que o
capitalismo deveria ser erradicado, Baba continuou com a discussão de
como reorganizar a sociedade. Segundo ele, isso começa com a
descentralização econômica; a criação de regiões economicamente
autossuficientes; e o gerenciamento da indústria, da agricultura, do
comércio e negócios através de organizações cooperativas. Na visão de
Baba, somente as empresas pequenas demais ou grandes e complexas
demais para serem gerenciadas como cooperativas, por exemplo, os
negócios muito pequenos ou as indústrias de larga escala como energia
e aço, deveriam ser administradas por indivíduos ou pelo estado e
governos locais.
Conforme a discussão se desenrolava, Baba ia tocando em diversas
mazelas sociais, como o sistemas de castas, a discriminação contra as
mulheres, o provincianismo e o comunalismo, o uso indevido da ciência,
e outras. Ele ofereceu soluções para cada uma dessas áreas, e isso o
levou às questões políticas.
"As cores do provincianismo, do nacionalismo, do comunalismo e do
sistema de castas, vêm desbotando com o tempo. Os seres humanos de
hoje precisam compreender que num futuro próximo eles terão de aceitar
o universalismo. Aqueles que buscam promover o bem-estar social terão
que mobilizar toda a sua força vital e seu intelecto para o esforço de
estabelecer um governo mundial, abandonando todos os planos de formar
organizações comunais ou nacionais."
Ao apontar os diferentes obstáculos para a formação de um governo
mundial, Baba sugeriu que o maior empecilho era o medo dos próprios
líderes locais perderem seu poder e influência dentro de suas
respectivas comunidades. Para contornar tais obstáculos, ele propôs
uma transição gradual para o governo mundial, começando pela criação
de um fórum global para a reformulação das leis, com o poder
administrativo permanecendo temporariamente nas mãos dos diferentes
países, para em seguida avançar passo a passo até ceder todo o poder
para o órgão global:
"Como [o governo local] não terá qualquer poder de promulgar leis
arbitrárias, não será facilitada a nenhum governo a efetivação de
atrocidades contra suas minorias linguísticas, religiosas ou políticas
conforme os caprichos da maioria governante."
Ao mencionar as deficiências da política partidária, chamando-a de
"uma doença mais perigosa do que os germes", ele propôs o
estabelecimento de um futuro governo mundial formado por aqueles que
trabalhassem fora do âmbito dos conflitos políticos:
"O maior bem-estar social para a raça humana será concretizado se
aqueles que desejam estabelecer um governo mundial, ou Ananda
Parivara, se envolverem somente em atividades construtivas e serviços
altruístas, ao invés de desperdiçarem sua energia vital no turbilhão
da política, ou em conflitos políticos... Os estados que cooperarem
com esses missionários em suas atividades de serviço social serão
considerados favoráveis ao estabelecimento do governo mundial, ou
Ananda Parivara. As pessoas comuns dos estados que não cooperarem
ficarão inconformadas, e essas pessoas inconformadas vão formar o
governo mundial, ou Ananda Parivara, através da revolução."
Em sua análise política, Baba não hesitou em apontar os defeitos
intrínsecos à democracia. Ele enfatizou que "como sistema de governo,
a democracia não pode ser aceita como o melhor e mais nobre. Entre
todos os sistemas que os seres humanos foram capazes de criar até
hoje, a democracia pode ser considerada o melhor entre os piores".
Depois de discutir alguns desses defeitos, ele deu a pedra fundamental
de sua filosofia social. A liderança, ele apontou, pode ser confiada
apenas àqueles que atingiram um grande nível de perfeição ética,
mental e espiritual através de treinamento rigoroso. A estas pessoas,
ele chamou de sadvipras; e a eles, confiou a responsabilidade de guiar
a sociedade. Já tendo afirmado que uma sociedade sem classes é uma
ideia utópica e impraticável, Baba ofereceu uma análise da
movimentação cíclica da sociedade como um movimento gerado pelo
domínio de uma classe psíquica sobre a outra, numa sociedade humana
composta por quatro mentalidades predominantes: o shudra, ou a
mentalidade da classe trabalhadora; o kshattriya, ou a mentalidade
guerreira; o vipra, ou a mentalidade intelectual; e o vaeshya, ou a
mentalidade capitalista. Em qualquer época, umas dessas quatro classes
é a dominante. O ciclo social passa do shudra ao kshattriya, deste
para o vipra e deste finalmente para o vaeshya, sendo que a maioria
dos países avançados no presente se encontra na metade da primeira era
vaeshya, com a revolução ou a evolução provocando a transição de uma
era para outra. No passado, afirmou Baba, a classe governante sempre
explorou as massas. Sendo assim, a liderança da sociedade deve ser
confiada aos sadvipras, que assimilam as melhores qualidades de todas
as quatro classes, e possuem o sólido ideal do bem-estar de todo e
qualquer membro da sociedade.
- Somente eles, disse Baba, podem representar os seres humanos de
forma desinteressada.
Baba encerrou seu discuso com um antigo verso em sânscrito do Rig
Veda, a mais antiga literatura da humanidade. Ele o chamou de o coro
dos sadvipras:
Samgacchaduam samvadadhuam samvo manasijanatam
Devabhagam yatha purve samjanana upasate
Saman van acute samanah hrdayani van
Samanamaastuvo mynah yatha van susahasati
"Vamos nos mover juntos, vamos cantar juntos, vamos conhecer nossas
mentes juntos. Vamos compartilhar como os sábios do passado para que
todas as pessoas juntas possam desfrutar do universo. Unamos nossas
intenções. Que nossos corações sejam inseparáveis. Que nossa mentes
sejam uma só mente, enquanto nós, para conhecermos de fato uns aos
outros, nos tornamos um só."
"A problemática de hoje em dia", P. R. Sarkar. Publicado em "Histórias
de um mestre tântrico", página 168, Devashish
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"Lute pela sua ideologia. Seja um com sua ideologia. Viva pela sua
ideologia. Morra por sua ideologia" P.R. Sarkar
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