O barulho de São Paulo ainda não é de enlouquecer ou ensurdecer, mas
está chegando lá. "O ruído da cidade cresce dois decibéis por ano e
não há nenhuma política para reverter essa tendência", diz o médico
Pedro Luiz Mangabeira Albernaz. Segundo ele, a cultura do som alto
prevalece, porque a sociedade encara a poluição sonora como um efeito
secundário e às vezes desejável. "Os jovens costumam retirar o
silencioso dos escapamentos das motos, porque acham bonito, mas os
danos à saúde surgem muitos anos depois e são irreversíveis", diz
Albernaz, que é professor da Universidade Federal de São Paulo
(Unifesp).
O conforto acústico é visto em segundo lugar em todo o mundo. Albernaz
conta que foi surpresa a inauguração do Lincoln Center, de Nova York.
Os projetistas contrataram os melhores especialistas em acústica, mas
o som ficou horrível. "Descobriram mais tarde que os decoradores
decidiram trocar os revestimentos acústicos por outros materiais mais
bonitos", diz.
Segundo Albernaz, a opção pelo visual é a norma também no Brasil. "A
barulheira nos restaurantes seria menor se as paredes fossem
revestidas de superfícies mais ,porosas", diz. Há vários materiais que
impedem a reverberação. Como não são lisos, têm uma aparência rústica.
Além da surdez, os ruídos causam problemas de sono e aumentam o
estresse. "Pessoas submetidas a ambientes ruidosos têm mais problemas
de coluna", diz. A relação do barulho e as dores nas costas não é
direta. O incômodo das horas mal dormidas e o aumento da tensão
emocionai acabam por provocar a má postura.
Passar alguns momentos em situações ruidosas não é letal. Albernaz
lembra que o paulistano não fica o dia todo no trânsito da Paulista,
São João ou 23 de Maio. O som do trânsito é preocupante para quem
trabalha diretamente nas ruas, como motoristas e donos de bancas de
jornal. O problema é se pessoa não pode ir para algum lugar menos
ruidoso em seguida. O efeito é cumulativo. "Se o cidadão vive numa
cidade barulhenta, precisa mais do que ninguém de um sono reparador",
diz Albernaz.
Junto com a mudança cultural o médico acredita que deva existi uma
vontade de investir. "A indústria começou a proteger mais os
trabalhadores porque o custo das indenizações estava alto de mais",
diz. Para ele, nenhum controle de poluição é barato. "Há soluções
técnicas para tudo e os cuidados com a saúde compensam investimentos",
diz o médico AIbernaz, que é o coordenador da campanha Quem Ouve Bem
Aprende Melhor, de prevenção da surdez na infância