A POLUIÇÃO SONORA ATACA TRAIÇOEIRAMENTE O CORPO

30 views
Skip to first unread message

Marcelo

unread,
Feb 21, 2007, 10:16:34 AM2/21/07
to Barulho Urbano
A POLUIÇÃO SONORA ATACA TRAIÇOEIRAMENTE O CORPO

--------------------------------------------------------------------------------

Fernando Pimentel Souza
Professor Titular - UFMG, especialista em Neurofisiologia,
Membro do Instituto de Pesquisa do Cérebro, UNESCO, Paris.

A poluição química do ar, da água e da terra deixa muitos traços
visíveis de contaminação. Muitas doenças e mortes devido a alterações
do meio podem ser identificadas por qualquer pessoa. Mas, a poluição
sonora, mesmo em níveis exagerados, produz efeitos imediatos
moderados. Seus efeitos mais graves vão se implantando com o tempo,
como a surdez, que não tarda a se acompanhar às vezes de
desesperadores desequilíbrios psíquicos e de doenças físicas
degenerativas.

O mais traiçoeiro ocorre em níveis moderados de ruído, porque
mansamente vão se instalando estresse, distúrbios físicos, mentais e
psicológicos, insônia e problemas auditivos. Muitos sinais passam
despercebidos do próprio paciente pela tolerância e aparente adaptação
e são de difícil reversão. Muitas pessoas, perdidas no redemoinho das
grandes cidades, não conseguem identificar o ruído como um dos
principais agentes agressores, e, cada vez mais, menos se sentem e vão
ficando desorientados por não saber localizar a causa de tal mal. Por
isso nada se faz e vive-se sob o impacto de uma abusiva, portanto
ruidosa mecanização e sonorização, de ambiente fechados e abertos. Não
se avalia devidamente os efeitos somados pela poluição sonora por
desconhecer os trabalhos científicos, por não encontrar no dia-a-dia
provas suficientes de convencimento, por não poder captar a causa
pelos próprios olhos, nesta era considerada de predomínio visual, e
por ter-se tornado insensível ao dano na comunicação verbal. Está
colocado o enigma da civilização moderna: ou se decifra ou se é
devorado.

Se o ruído é excessivo, o corpo ativa o sistema nervoso, que o
prepara contra o ataque de um inimigo invisível, sem pegadas, que
invade todo o meio embiente pelas menoresfrestas por onde passa o ar
ou por toda ligação rígida à fonte ruidosa. O cérebro acelera-se e os
músculos consomem.se sem motivo. Sintomas secundários aparecem:
aumento de pressão arterial, paralisação do estômago e intestino, má
irrigação da pele e até mesmo impotência sexual.

Na antiguidade, os gregos indignados puseram os barulhentos
ferreiros para fora das cidades. Hoje, qualquer um tem seu aparelho
portátil ou estrondoso som.

Pesquisa nos EUA mostrou que jovens em ruído médio inferior a 71
decibeis, entremeados com pulsos de 85 decibeis só a 3% do tempo,
tiveram aumentos médios de 25% no colesterol e 68% numa das
substâncias provocadoras de estresse: o cortisol. Mas já a partir de
55 decibeis acústicos a poluição sonora provoca estresse, segundo a
Organização Mundial de Saúde. Pelo nível de ruído das nossas cidades e
casas, a maioria dos habitantas deve estar sob estresse prolongado,
surgindo ou agravando arterioscleroses, problemas de coração e de
doenças infecciosas, fazendo inúteis dietas e acabando precocemente
com suas vidas.

A ativação permanente do sistema nervoso simpático do morador da
metrópole pode condicionar negativamente a sua atuação com as
agressões. Muitas pessoas procuram se livrar dessa reação, por tornar-
se desagradável, (por exemplo duma palpitação), usando drogas
(tranquilizantes ou cigarro) para bloqueá-la. A falta de irrigação
muscular pode levar a gangrena nos membros. O corpo cai na pior
contradição: atacado sem saber bem porquê e como se defender, devido
ao bloqueio das reações naturais do organismo. É um conflito, gerador
de ansiedade, já que o nível de ruído em nosso ambiente urbano está
quase sempre acima dos limites do equilibrio, e abre caminho para
estresses crônicos. Certas áreas do cérebro acabam perdendo a
sensibilidade a neurotransmissores, rompendo o delicado mecanismo de
controle hormonal. Esse processo aparece também no envelhecimento
normal e ataca os mais jovens, que se tornam prematuramente velhos num
ambiente estressante. Os efeitos no sono não são menos importantes
pela sua nobre função.

Em São Paulo, a poluição sonora e o estresse auditivo são a
terceira causa de maior incidência de doenças do trabalho, só atrás
das devido a agrotóxicos e doenças articulares. Inúmeros trabalhadores
vêm-se prejudicados no sono e às voltas com fadiga, redução de
produtividade, aumento dos acidentes e de consultas médicas, falta ao
trabalho e problemas de relacionamento social e familiar.

O ruído estressante libera substâncias excitantes no cérebro,
tornando as pessoas sem motivação própria, incapazes de suportar o
silêncio. Libera também substância anestesiante, tipo ópio e heroína,
que provoca prazer, abrindo campo para o uso de fortes drogas
psicotrópicas. As pessoas tornam-se viciadas, dependentes do ruído,
paradoxalmente caindo em depressão em ambiente com silêncio salutar,
permanecem agitadas, incapazes de reflexão e meditação mais profunda.

Os países avançados, ao contrário, mantém o controle da poluição
sonora para não prejudicar as atividades psicológicas, mental e
física, e seus habitantes, beneficiados, atingiram um nível mais
refinado. Mesmo assim esse tipo de poluição subiu para a terceira
prioridade ecológica para a próxima década, pela Organização Mundial
de Saúde.

O Brasil não deveria permitir tantos danos da poluição sonora nos
insuficientes esforços na educação e saúde. Alguma coisa deveria ser
feita nas nossas cidades excessivamente barulhentas, hoje com quase
80% da população. As providências seriam: seguir a lei e melhora.la,
diminuir poluição das fontes ruidoras (veículos automotores, aparelhos
industriais e eletro-domésticos etcl, reordenar as cidades
ldesdentralizar e impedir crescimento excessivo, melhorar o uso do
solo, urbanismo, arquitetura etcl e até reeducar as pessoas a viver em
comunidade, porque, a nação, se não é capaz de reparar os danos da
poluição sonora, poderia pelo menos preveni-los.


Texto retirado de: http://www.icb.ufmg.br/lpf/2-14.html

Reply all
Reply to author
Forward
0 new messages