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Fábrica dos Sonhos
Blog da Comunidade de Ficção Científica
Mais informações sobre o livro, outras resenhas, etc.
Por: Ana Cristina Rodrigues
Editora: A1, 2009, 1ª edição
90 páginas
Com o sub-título de "Pequenos contos mágicos", a coletânea - primeiro livro "solo" de Ana Cristina - apresenta exatamente isso: textos rápidos, bem escritos, que transportam o leitor a um mundo de fantasia; mas sem com isso perder a veia irônica e sarcástica característica da autora.
Ana Cristina é uma das poucas pessoas multitarefa e onipresentes do "cenário" de literatura fantástica no país. Presidente do
Clube de Leitores de Ficção Cientifica (CLFC); palestrante; divulgadora de obras; fundadora e coordenadora da
Fábrica dos Sonhos - um coletivo virtual de escritores; organizadora da coletânea "
Espelhos Irreais"; "owner" - ou principal moderadora - da maior
comunidade de ficção científica, em português, no Orkut. Dá para passar
horas conversando com a Ana sobre as diversas atividades dela -

e eu só listei
algumas das atividades relacionadas com o "gênero fantástico". Ela ainda trabalha, estuda, é mãe, esposa e cuida de um número flutuante de gatos. Ah, eu mencionei os - no plural mesmo, pois são vários - twitters e blogs? Não? Estão linkados ali no "Veja Também".
Com tantas atividades, é de espantar que sobre tempo para que ela produza literatura, ainda mais com qualidade. Mas, de alguma forma inexplicável, Ana Cristina trabalha em um romance, com título provisório de "Finisterra", participa como autora em diversas coletâneas e ainda publicou em março o ótimo "AnaCrônicas - Pequenos contos mágicos", com capa e diversas ilustrações de
Estevão Ribeiro e apresentação de
Octavio Aragão.
Uma coletânea honesta, singela e corajosa
Os vinte contos falam de reinos distantes e homenageiam clássicos da literatura fantástica e da fantasia, mas também falam ao presente, tanto por figuras de linguagem como por descrições iluminadas de fatos reais. É o caso do melhor conto do livro, "O mapa para a terra das fadas", em que uma mãe ajuda o filho a lidar com o luto por perder seu coelho de estimação.

"O mapa..." não é o melhor conto apenas pelo componente tocante - fica claro que a história tem bases reais e aconteceu com a autora e seu filho - mas por ser escrito sem os sentimentalismos baratos e sem os clichês que poderiam acometer um autor ao escrever sobre uma experiência pessoal deste tipo. O conto tem o tamanho e ritmo certos, algo que, ainda bem, acontece com outras histórias do livro.
É também em "O mapa..." que Ana Cristina mostra a que veio. O conto tem a honestidade e coragem que são marca pessoal da autora. Ainda que algumas histórias soem amargas de tão irônicas, sarcásticas e ácidas, é na inocência, na singela coragem de ser honesta com sentimentos, impressões e homenagens que ela se destaca.
Fatos históricos e homenagens
"Os olhos de Joana", outro exemplo de conto com ritmo e tamanho exatos, apresenta um breve momento histórico recontado com maestria, mudando completamente a história como conhecemos em apenas seis páginas. Esta é uma habilidade na qual a autora deveria investir, basta lembrar o excelente
"A Morte do Temerário", que resenhei em conjunto com os outros contos da coletânea "Espelhos Irreais".
Ana também brinca com a "história" - agora utilizando-a apenas como base para o cenário e situações, sem personagens famosos - em "A Princesa de toda a dor", narrativa em primeira pessoa, utilizando de folclore e elementos indígenas brasileiros; também em "Feitiço sem Nome", onde uma feiticeira, ou bruxa, é acuada por inimigos e se vê obrigada a reagir para proteger a vida...

conto este que
parece, ou
poderia ser, uma continuação para o bom "Chiaroscuro", em que uma feiticeira em busca de vingança se vê envolvida de forma inesperada com um ser que convoca para ajudá-la - já
"mini-resenhei" este conto aqui em fevereiro de 2008, mas a versão do livro apresenta um texto mais fluido e é superior ao conto on-line.
As homenagens também estão distribuídas pelas histórias, algumas explícitas, como em "É tarde!", conto de abertura, onde vemos o coelho branco correndo e tropeçando nos personagens consagrados de "Alice no país das maravilhas", tentando não perder a hora para entrar na história da literatura universal; em "A Dama de Shallott", uma visão interessante de um pequeno pedaço da tão visitada lenda do rei Arthur - e aqui, novamente, há de se louvar o fato da autora não cair no clichê previsível de Avalon e do foco nos personagens já conhecidos e desgastados.
Outros gêneros, ou gêneros misturados
Nem todos os contos, porém, falam de magia ou feitiçaria, nem estão calcados em homenagens ou momentos ou personagens históricos. "A casa do escudo azul", por exemplo, é uma ficção científica sobre a construção de um novo mundo utópico após a humanidade quase se exterminar em guerra. "Apocalipse NOW!", outro dos melhores contos do livro, também pode qualificar como ficção científica, com a ironia e sarcasmo afiados da autora no anúncio do evento mais esperado de todos os tempos.

Alguns contos misturam gêneros - fantasia e ficção científica - e homenagens, como acontece no "conto bônus", o excelente "O Sábio de Osgoroth", onde uma garota, um leão, um espantalho e um homem de lata procuram ter seus desejos incomuns atendidos. Já "Borboleta", "Pelo espaço de um momento" e "O último soneto" são contos que se passam em ambientes "reais" ou, ainda, atuais. Os três compartilham a nostalgia dolorida daqueles que amam, buscam algo inalcançável ou que buscam sem saber a que, descobrindo apenas no derradeiro momento - uma homenagem clara da autora ao romantismo?
Há ainda alguns mini-contos, como "Vida na estante" e "Deus embaralha, o Destino corta", que não consigo classificar em algum gênero, sendo contos despretensiosos ainda que bem escritos; assim como "O Senhor do Tempo", que poderia ser menos literal em favor de uma leitura mais rica. O amor que salva ao mesmo tempo que amaldiçoa é o tema de "Como nos tornamos fogo?" e do excelente "Lenda do Deserto". Já "O Baile das Máscaras" e "O Eremita" falam com ironia ácida sobre hipocrisia e decepção com a vida adulta, a vida "em sociedade".
Não apenas uma coletânea, mas uma declaração de princípios?
É possível notar desde o título que esta é uma coletânea pessoalíssima - e isso não é, de forma alguma, um defeito. Em lugar de uma pomposidade empolada, de uma pretensa aspiração aos píncaros da literatura nacional, Ana Cristina escolheu honestidade e crítica, sentimentos expostos e ilusões idem.
Talvez o mais significativo conto nesse sentido seja "Viagem à terra das ilusões perdidas", que está ali com "O mapa para a terra das fadas" como o melhor conto do livro. É um relato irônico e esperançoso, triste mas que mantém algumas portas abertas: paradoxal, enfim - como bem apontou
Lúcio Manfredi em sua resenha.
"AnaCrônicas" fala de uma autora que vem amadurecendo seu texto diante do público, com muito trabalho mas também com talento, um potencial enorme que dá esperança de novas e excelentes histórias, tão boas quanto as desta coletânea, talvez o melhor livro de um autor iniciante no gênero fantástico nestes últimos - e "efervescentes" - meses.
Embora o encadernamento não seja a melhor coisa do mundo - e a falta de uma ficha catalográfica espante tanto quanto em "Espelhos Irreais" - o acabamento em geral não é ruim e a capa e as ilustrações de Estevão Ribeiro são ótimas. O livro pode ser
comprado diretamente com a autora, na
Livraria Cultura ou ainda na
Leonardo da Vinci, custando meros 23 reais.
PS: a autora ainda disponibiliza no livro um e-mail para aqueles que quiserem receber material adicional referente ao livro. Ainda estou aguardando o meu, mas pelo que soube, vale a pena escrever e pedir o seu.
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Postado por Fernando S. Trevisan no
Leituras em 6/19/2009 09:00:00 PM