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Universo Taikodom
Por: Gerson Lodi-Ribeiro
Editora: Devir, 2009, 1ª edição
360 páginas
Após estrear na literatura impressa com o romance "Despertar", de J. M. Beraldo (conferir a resenha anterior), a equipe do universo ficcional do jogo Taikodom volta à carga com esta ótima coletânea de contos, escritos por Gerson Lodi-Ribeiro.
A aposta que a maioria das desenvolvedoras de games fazem ao contratar escritores já conhecidos no gênero do jogo é a de ter obras de qualidade, com boa vendagem, além de consistentes com o que o jogo propõe. "Crônicas" é um livro que atende a todos os requisitos, além de trazer o melhor do estilo de Gerson Lodi-Ribeiro.
Em sete contos, somos apresentados a diversas peculiaridades desse futuro proposto: de pioneiros desbravadores do espaço até um comandante "louco" em combate a alienígenas inimigos; da relação improvável, e sexualmente diferente, entre uma "spacer" e um terráqueo ressuscitado a um novo Império nos moldes romanos.
Uma viagem pela "geografia" do Taikodom...

Passear pelo tempo e pelo "espaço" - aqui em diversos sentidos - do Taikodom através dos contos de Lodi-Ribeiro é o aspecto mais interessante do livro. Em "Despertar", a história se passa em uma região e, especialmente, tempo bem delimitados. Já em "Crônicas", viajamos para muito além do território do "Consortium", primeiro grupo humano organizado em algo parecido com um governo.
Em um conto curioso, "Guia Tertius do Taikodom para o Turista Independente", o leitor acompanha uma viagem turística pelo Taikodom, aprendendo tanto a "geografia" como muito da história e cultura que envolvem a humanidade no espaço. A narrativa em primeira pessoa, um monólogo da guia turística com o viajante, sem diálogos ou interações reais de outros personagens, é cansativa; mas a intenção de mostrar e contar sobre os planetas, regiões e culturas espaciais é bem sucedida.
O "Guia Tertius" também é um bom exemplo da idéia que, aparentemente, norteou a composição do livro: apresentar as características sócio-culturais (e geográficas, como indiquei anteriormente) vigentes nesta "nova era" da humanidade. Todos os contos, de alguma forma, seguem esta linha, mas "Guia Tertius" e "Despertar do Físico", são os que mais evidenciam suas intenções.
Este último, aliás, é uma história inusitada, pensando-se no provável público-alvo da coletânea: "ressuscitado" para ajudar a humanidade em um dilema, o físico Carlo Martino se vê em uma longa viagem com uma
spacer sedutora... o resultado é um conto
impróprio para menores, segundo o próprio livro. A inesperada dose de sexo explícito é bem-vinda no árido mundo da ficção científica "
hard", que é a veia do autor, especialmente depois de "Point of K(no)w Return".
Conto de abertura, "PKR" acompanha a primeira expedição "interestelar", que utiliza um "ponto de salto" para deixar o sistema solar e aventurar-se no desconhecido. A nítida referência ao seriado "Jornada nas Estrelas" (ou
Star Trek, série televisiva e de cinema que ganhou novo filme agora em maio) acaba aí. As informações científicas precisas e detalhadas fornecidas por Lodi-Ribeiro podem perder qualquer um que realmente se preocupe em captá-las todas sem o conhecimento necessário e não encontram paralelo na série criada por Gene Roddenberry.
Os "pontos de salto" - algo como supervias estelares, capazes de transportar uma nave de um ponto a outro da galáxia instantaneamente - são o tema dos três primeiros contos do livro, dando ênfase à expansão e exploração espaciais e os inevitáveis problemas e conflitos que trazem. Também pudera: nos falam do primeiro século e meio da humanidade "pós-Restrição", os dois contos iniciais em especial, que se passam em 52 e 53 ER (a sigla significa "Era da Restrição", ou a nova contagem dos anos após o planeta Terra ficar isolado por um campo de força misterioso), ou 2124/25 na nossa contagem atual. Mesmo "Morituri te Salutant!", que retrata uma obstinada tripulação do "Imperium" explorando o espaço às cegas, em 152 ER, trata, em última instância, dos pontos de salto e da expansão constante da humanidade.
Claro que o conto é utilizado para nos trazer mais informações sobre o Taikodom, na realidade, sobre uma dissidência do "Consortium" que segue regras culturais totalmente diversas das praticadas pelo núcleo "original" de humanos - a saber, uma sociedade análoga ao Império Romano. As dissidências tem motivação econômica e política, claro; mas a atenção ao fator cultural é bem-vinda.
A leitura do conto é difícil, especialmente para quem leu "Despertar" e os dois contos de abertura de "Crônicas". A mudança no jargão, hierarquia, cultura e conceitos dificulta a leitura, embora para o final a história ganhe em agilidade e interesse.
"Morituri te Salutant!" é seguido pelo "Guia Tertius" que, como eu já disse, é um conto bastante cansativo. Mas o encaixe dos contos é perfeito: iniciamos com a primeira viagem interstelar; continuamos acompanhando as desventuras da humanidade em compreender o funcionamento dos "pontos de salto" (enquanto aprendemos sobre sexo em gravidade zero); tomamos conhecimento de uma dissidência importante do Consortium, no conto situado mais próximo ao "presente do jogo"; e então somos levados a uma viagem turística para compreender melhor onde estamos.
...e também uma viagem pelo tempo
Os contos abarcam mais de 100 anos da história do game, inclusive indo
além do "presente ficcional", que seria o ano de 156 ER. O recorte temporal é importante pois permite observar a mudança de costumes, a expansão da humanidade pelo espaço e a crescente influência das consciências artificiais, tanto na tecnologia quanto na mediação dos conflitos humanos.
Ao mesmo tempo, ler histórias que se passam em um momento futuro ao que acontece agora no jogo evidencia duas coisas: que a Hoplon já tem um caminho, um planejamento para encaminhar o jogo em termos de história, mas também que os jogadores não têm tanta influência assim no desenrolar dos fatos realmente importantes do jogo.
Batalhas espaciais e alienígenas
Enquanto os três primeiros contos tratam de expansão, dos novos conceitos culturais e dos conflitos vivenciados pela humanidade, os três contos finais tratam, todos, da realidade do primeiro contato com vida inteligente - e beligerante - alienígena.
Mas, mesmo nessa etapa que poderia facilmente sucumbir para clichês, Lodi-Ribeiro não se deixa levar e inicia com "Escambos com Nativos", onde acompanhamos um geólogo especializado em etnografia, isto é, um estudioso das culturas tribais que sobreviveram na Terra isolada. Usando o único meio de comunicação que consegue atravessar o campo de força
e ser utilizado pelos nativos - o rádio - ele troca informações. Oferece ajuda técnica com os motores a combustão e outras tecnologias, já obsoletas para o "homem espacial", por informações sobre as mudanças no planeta.

Da mesma forma que temos em Ursulla Tertius um personagem constante e "âncora" para a primeira parte do livro, nestes três contos finais acompanhamos o Comandante Ruiz - Gary Liang y Ruiz ou Gary "Loco" Ruiz. Em "Escambos", é de Ruiz a idéia de utilizar a ficção científica (FC) como fonte de idéias para lidar com os ataques alienígenas que vitimam milhares de seres humanos, alguns sofrendo inclusive morte definitiva - um conceito que a humanidade já não sabe mais como lidar. O resgate futurístico da FC como fonte de idéias para lidar com alienígenas é uma dupla homenagem do autor, bem como um recurso metalinguístico interessante.
O conto seguinte, "Segunda Ressureição", acompanha os infortúnios da mulher amada por Ruiz, o primeiro ser humano a fazer contato direto e não belicoso com os alienígenas. Coincidentemente, Isadora é uma "restritivista", isto é, uma das pessoas que acreditam que a restrição da Terra por um campo de força foi obra de uma entidade superior, visando tanto punir quanto proteger a humanidade - e o próprio planeta.
Em "Encontro com Quimera", acompanhamos um saudoso Ruiz comandando uma das naves mais poderosas da frota humana, a Belerofonte - e se lamentando por ter perdido sua amada que, por ser restritivista, não aceitava ter sua personalidade "clonada" em outro corpo, caso morresse.
É nesse espírito, de vingança pela morte de milhares de seres humanos e de sua amada em especial, que Ruiz torna-se o primeiro comandante a dar combate a uma "nave-mãe" alienígena. Em sua caça, ele se dispõe a explodir um planeta inteiro para não deixar o inimigo escapar. Mas, se o leitor acompanhar a coletânea do início ao fim, sem pular contos, saberá que as coisas não são exatamente como Ruiz pensa.
Inovação literária, enfim?
Seria um exagero dizer que "Crônicas" é uma grande inovação literária para a FC, ou mesmo para a literatura de jogos. Não é, mas também não cai tão facilmente nos clichês como era o caso de "Despertar". É óbvio que a maior experiência de Gerson, bem como o fato de ser ele o "pai" dos conceitos e do universo do jogo, pesam a seu favor.
Não posso deixar de considerar, também, que apenas três dos sete contos são inéditos, infelizmente. "Point of K(no)w Return", "Escambos com Nativos", "Segunda Ressurreição" e "Confronto com Quimera" constam do
acervo on-line; enquanto "Despertar do Físico", "Morituri te Salutant!" e o "Guia Tertius" são os contos inéditos. Coincidentemente ou não, fora "Despertar do Físico", os melhores contos do livro são os que já tinham sido publicados anteriormente.

A atenção aos detalhes, especialmente às informações científicas, são características já conhecidas nos textos de Lodi-Ribeiro, que consegue atingir boas histórias mesmo quando precisa explicar muitos conceitos científicos ou pertinentes ao universo do jogo. O amplo apanhado histórico dá conta de como a realidade "alternativa" proposta em Taikodom foi planejada meticulosamente e dá base e força ao crescimento do jogo.
A capa tem um tratamento melhor que "Despertar", mas em geral a qualidade gráfica do livro é a mesma - boa. "Crônicas", porém, tem como bônus 16 páginas de ilustrações retiradas de telas do game, que ajudam a visualizar e a convidar o leitor ao jogo. O preço salgado, típico da Devir, e o fato de conter apenas três contos inéditos podem desanimar o leitor, mas para aqueles que não leram ainda os contos online, ou que gostam do universo de Taikodom, a compra é plenamente justificada. "Crônicas", assim como "Despertar", pode ser encontrado no site do
Universo Taikodom, na
Devir ou em livrarias.
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Postado por Fernando S. Trevisan no
Leituras em 6/13/2009 09:20:00 PM