Aiô
unread,Apr 7, 2011, 4:45:24 PM4/7/11Sign in to reply to author
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Oi pessoal! Aqui está o texto que vai da pg. 91 a 103 do livro A
invenção do Cotidiano, Michel de Certeau. Ele está marcado para a
próxima aula, mas como estamos atrasados, provavelmente será na outra.
Bom final de semana,
abraços.
CAPÍTULO III
FAZER COM: USOS E TÁTICAS
Apesar das medidas tomadas para reprimi-lo ou para escondê-lo, o
“trabalho com sucata” (ou seus equivalentes) se infiltra e ganha
terreno. Mas ele mesmo é somente um caso particular entre todas as
práticas que introduzem jeitos de artistas e competições de cúmplices
no sistema de reprodução e da visão em compartimentos pelo trabalho ou
pelo lazer. Corre, corre o furão: mil maneiras de “fazer com”.
Deste ponto de vista, o corte não passa agora entre o trabalho e os
lazeres. Essas duas regiões de atividades se homogeneízam. Elas se
repetem e se esforçam uma à outra. Nos locais de trabalho se vão
difundindo as técnicas culturais que camuflam a reprodução econômica
sob ficções de surpresa (o “happening”), de verdade (“a informação) ou
de comunicação (“ a animação”). Reciprocamente, a produção cultural
oferece um campo de expansão para as operações racionais que permitem
gerir o trabalho mediante a divisão (uma análise), mapeando (uma
síntese) e massificando-o (generalização). Outra distinção se impõe,
além daquela que distribui os comportamentos segundo seu lugar (de
trabalho ou de lazer) e os qualificam então pelo fato de se colocarem
nesta ou naquela casa do tabuleiro social – no escritório, na oficina
ou no cinema. Existem diferenças de outro tipo. Elas se referem as
modalidades da ação, as formalidades das práticas. Atravessam as
fronteiras que permitem as classificações de trabalho ou de cadeia
industrial ( é seu contraponto, no mesmo lugar), como variante da
atividade que, fora da fábrica (noutro lugar), tem a forma da
bricolagem.
Embora sejam relativas às possibilidades oferecidas pelas
circunstâncias, essas táticas desviacionistas não obedecem à lei do
lugar. Não se definem por este. Sob este ponto de vista, são tão
localizáveis como as estratégias tecnocráticas (e escriturísticas) que
vem criar lugares segundo modelos abstratos. O que distingue estas
daquelas são os tipos de operações nesses espaços que as estratégias
são capazes de produzir, mapear e impor, ao passo que as táticas só
podem utilizá-los, manipular e alterar.
É preciso por tanto especificar esquemas de operações. Como na
literatura se Poe diferencias “estilos” ou maneiras de escrever,
também se pode distinguir “maneiras de fazer” – de caminhar, ler,
produzir falar, etc. Esses estilos de ação intervêm num campo que os
regula num primeiro nível (por exemplo, o sistema da indústria), mas
introduzem aí uma maneira de tirar partido dele, que obedece a outras
regras e constitui como que um segundo nível imbricado no primeiro ( é
o que acontece com a “sucata”). Assimiláveis modos de emprego, essas
“ maneiras de fazer” criam um jogo mediante a estratificação de
funcionamentos diferentes e interferentes. Assim, as “maneiras” de
habitar (uma casa ou uma língua) própria de sua Kabília natal, o
magrebino que mora em Paris ou Roubaix as insinua no sistema que lhe é
imposto na construção de um conjunto residencial popular ou no
francês. Ele os superimpõe e, por essa combinação, cria para si um
espaço de jogo para maneiras de utilizar a ordem imposta do lugar ou
da língua. Sem sair do lugar onde tem que viver e que lhe impõe uma
lei, ele aí instaura pluralidade e criatividade. Por uma arte de
intermediação ele tira daí efeitos imprevistos.
Essas operações de emprego – ou melhor, de reemprego – se multiplicam
com a extensão dos fenômenos de aculturação, ou seja, com os
deslocamentos que substituem maneiras ou “métodos” de transitar pela
identificação com o lugar. Isso não impede que correspondam a uma arte
muito antiga de ‘fazer com”. Gosto de dar-lhes o nome de usos, embora
a palavra designe geralmente procedimentos estereotipados recebidos e
reproduzidos por um grupo, seus “usos e costumes”. O problema está na
ambigüidade da palavra pois, nesses “usos”, trata-se precisamente de
reconhecer “ações” (no sentido militar da palavra) que são a sua
formalidade e sua inventividade próprias e que organizam em surdina o
trabalho de formigas de consumo.
O uso ou o consumo
Depois dos trabalhos, muitos deles notáveis, que analisaram os “bens
culturais”, o sistema de sua produção, o mapa de sua distribuição dos
consumidores nesse mapa, parece possível considerar esses bens não
apenas como dados a partir dos quais se pode estabelecer os quadros
estatísticos de sua circulação ou constatar os funcionamentos
econômicos de sua difusão, mas também como o repertório com o qual os
usuários procedem a operações próprias. Sendo assim, esses fatos não
são mais os dados de nossos cálculos mas o léxico de suas práticas.
Assim, uma vez analisadas as imagens distribuídas pela TV e os tempos
que se passa assistindo os programas televisivos, resta ainda
perguntar o que é que o consumidor fabrica com essas imagens e durante
essas horas. Os 500 mil franceses que compram Information-santé, os
fregueses do supermercado, os praticantes do espaço urbano, os
consumidores das histórias e legendas jornalísticas. O que é que eles
“absorvem”, recebem e pagam? O que fazem com isso?
Enigma do consumidor-esfinge. Suas fabricações se disseminam na rede
da produção televisiva, urbanística e comercial. São tanto menos
visíveis como as redes do enquadramento se fazem mais apertadas,
ágeis e totalitárias. Proteiformes então, ou cor de muralha, elas
desaparecem nas organizações colonizadoras cujos produtos não deixam
lugar para os consumidores marcarem sua atividade. Uma criança ainda
rabisca e suja o livro escolar; mesmo que receba um castigo por esse
crime, a criança ganha um espaço, assina aí sua existência como autor.
O telespectador não escreve coisa alguma na tela da TV. Ele é afastado
do produto, excluído da manifestação. Perde seus direitos de autor,
para se tornar, ao que parece, u puro receptor, o espelho de um ator
multiforme e narcísico. No limite, seria ele a imagem de aparelhos que
não mais precisam dele para se produzir, a reprodução de uma “máquina
celibatária”.
Na realidade, diante de uma produção racionalista, expansionista,
centralizada, espetacular e barulhenta, posta-se uma produção de tipo
totalmente diverso, qualificada como “consumo”, que tem como
características suas astúcias, seu esfarelamento em conformidade com
as ocasiões, suas “piratarias”, sua clandestinidade, seu murmúrio
incansável, em suma, uma quase-invisibilidade, pois ela quase não se
faz notar por produtos próprios (onde teria o seu lugar?) mas por uma
arte de utilizar aqueles que lhe são impostos.
Já faz muito tempo que se vem estudando em outras sociedades as
inversões discretas e no entanto fundamentais ali provocadas pelo
consumo. Assim o espetacular sucesso da colonização espanhola no seio
das etnias indígenas foi alterado pelo uso que dela se fazia: mesmo
subjugados, ou ate consentindo, muitas vezes esses indígenas usavam as
leis, as práticas ou as representações que lhes eram impostas pela
força ou pela sedução, para outros fins que não os dos conquistadores.
Faziam com elas outras coisas: subvertiam-nas a partir de dentro – não
rejeitando-as ou transformando-as (isto acontecia também), mas por cem
maneiras de empregá-las a serviço de regras, costumes ou convicções
estranhas a colonização da qual não podiam fugir. Eles metaforizavam a
ordem dominante: faziam-na funcionar em outro registro. Permaneciam
outros, no interior do sistema que assimilavam e que os assimilava
exteriormente. Modificavam-no sem deixá-lo. Procedimentos de consumo
conservavam a sua diferença no próprio espaço organizado pelo
ocupante.
Exemplo extremo? Não, mesmo que a resistência dos povos indígenas
tivesse como base uma memória tatuada pela opressão, um passado
inscrito no corpo. Em grau menor, o mesmo processo se encontra no uso
que os meios “populares” fazem das culturas difundidas pelas “elites”
produtoras de linguagem. Os conhecimentos e as simbólicas impostos são
o objeto de manipulações pelos praticantes que não são fabricantes. A
linguagem produzida por uma categoria social dispõe do poder de
estender suas conquistas às vastas regiões do seu meio ambiente,
“desertos” onde parece não haver nada de tão articulado, mas se vê
prisioneira nas armadilhas de sua assimilação por um maquis de
procedimentos que suas próprias vitórias fazem invisível ao ocupante.
Por espetacular que seja, o seu privilégio corre o risco de ser apenas
aparente, caso sirva apenas de quadro para as práticas teimosas,
astuciosas, cotidianas que o utilizam. Aquilo que se chama de
“vulgarização” os “degradação” de uma cultura seria então um aspecto,
caricaturado e parcial, da revanche que as táticas utilizadoras tomam
do poder dominador da produção. Seja como for, o consumidor não
poderia ser identificado ou qualificado conforme os produtos
jornalísticos ou comerciais que assimila: entre eles (que deles se
serve) e esses produtos (indícios da “ordem” que lhe é imposta),
existe o distanciamento mais ou menos grande do uso que faz deles.
Deve-se portanto analisar o uso por si mesmo. Não faltam modelos,
sobretudo no que se refere a língua, terreno privilegiado para se
encontrar as formalidades próprias a essas práticas. Gilbert Ryle,
servindo-se de uma distinção saussuriana entre a “língua” (um sistema)
e a “palavra” (um ato), comparava a primeira a um capital e a segunda
as operações que ele permite de um lado um estoque, do outro, negócios
e usos. No caso do consumo, poder-se-ia quase afirmar que a produção
fornece o capital e os usuários, como locatários, adquirem o direito
de efetuar operações sobre este fundo sem serem os seus proprietários.
Mas a comparação vale apenas para a comparação entre um saber da
língua e atos da palavra (speech acts). A este título apenas, surge
toda uma série de questões e categorias que permitiram, sobretudo a
partir de Bar-Hillel, abrir no estudo da linguagem (semiosis ou
semiotic) uma secção particular (chamada pragmatics), consagrada ao
uso ou às indexical expressions, isto é, “as palavras e às frases cuja
referência não pode ser determinada sem conhecer o contexto do uso”.
Antes de voltar ulteriormente a essas pesquisas que esclarecem toda
uma região das práticas cotidianas (o uso da língua), basta observar
que elas se apóiam numa problemática do enunciado. Os “contextos de
uso” (contexto f use), colocando o ato na sua relação com as
circunstancias, remetem os traços que especificam o ato de falar (ou
prática da língua) e são feitos dele. Dessas características o
enunciado fornece um modelo, mas elas vão se encontrar na relação de
outras práticas (caminhar, morar etc.) mantêm como sistema não
lingüísticos. O enunciado, com efeito, supõe: 1. Uma efetuação do
sistema lingüístico por um falar que atua as suas possibilidades (a
língua só se torna real no ato de falar); 2. Uma apropriação da
língua pelo locutor que a fala; 3. A implantação de um interlocutor
(real ou fictício) e por conseguinte a constituição de um contrato
relacional ou de uma alocução (a pessoa fala a alguém); 4. A
instauração de um presente pelo ato do “eu” que fala, e ao mesmo
tempo, pois “ o presente é propriamente a fonte do tempo”, a
organização de uma temporalidade (o presente cria um antes e um
depois) e a existência de um “agora” que é presença no mundo.
Esses elementos (realizar, apropriar-se, inserir-se numa rede
relacional, situar-se no tempo) fazem do enunciado, e secundariamente
do uso, um nó de circunstâncias, uma nodosidade inseparável do
“contexto”, do qual abstratamente se distingue. Indissociável do
instante presente, de circunstâncias particulares e de um fazer
(produzir língua e modificar a dinâmica de uma relação), o ato de
falar é um uso da língua e uma operação sobre ela. Pode-se tentar
aplicar o seu modelo a muitas operações não lingüísticas, tomando como
hipótese que todos esses usos dependem do consumo.
É necessário ainda precisar a natureza dessas operações por outro
prisma, não mais a título da relação que mantém com um sistema ou uma
ordem, mas enquanto há relações de forças definindo as redes onde se
inscrevem e delimitam as circunstâncias de que podem aproveitar-se.
Sendo assim, de uma referência lingüísticas é preciso passar a uma
referência polemológica. Trata-se de combates ou de jogos entre o
forte e o fraco, e das “ações” que o fraco pode empreender.
Estratégias e táticas
Produtores desconhecidos, poetas de seus negócios, inventores de
trilhas nas selvas da racionalidade funcionalista, os consumidores
produzem uma coisa que se assemelha às “linhas de erre” de que fala
Deligny. Traçam “trajetórias indeterminadas”, aparentemente
desprovidas de sentido porque não são coerentes com o espaço
construído, escrito e pré-fabricado onde se movimentam. São frases
imprevisíveis num lugar ordenado pelas técnicas organizadoras de
sistemas. Embora tenham como material os vocabulários das línguas
recebidas (o vocabulário da TV, o do jornal, o do supermercado ou das
disposições urbanísticas), embora fiquem enquadradas por sintaxes
prescritas (modos temporais dos horários, organizações paradigmáticas
dos lugares etc.), essas “trilhas” continuam heterogêneas aos sistemas
onde se infiltram e onde esboçam as astúcias de interesses e de
desejos diferentes. Elas circulam, vão e vem, saem da linha e derivam
num relevo imposto, ondulações espumantes de um mar que se insinua
entre os rochedos e os dédalos de uma ordem estabelecida.
Dessa água regulada em princípio pelas redes institucionais que de
fato ela vai aos poucos erodindo e deslocando, as estatísticas não
conhecem quase nada. Não se trata , com efeito, de um líquido,
circulando nos dispositivos do sólido, mas de movimentos diferentes,
utilizando os elementos do terreno. Ora, as estatísticas se contentam
em classificar, calcular e tabular esses elementos – unidades
“léxicas”, palavras publicitárias, imagens televisivas, produtos
manufaturados, lugares construídos etc. – e o fazem com categorias e
segundo taxinomias conformes às da produção industrial ou
administrativa. Por isso elas só captam o material utilizado pelas
práticas de consumo – material que é evidentemente o que é a todos
imposto pela produção – e não a formalidade própria dessas práticas,
seu “movimento” sub-reptício e astucioso, isto é, a atividade de
“fazer com”. A força desses cálculos se deve a capacidade de dividir,
mas essa capacidade ana-lítica suprime a possibilidade de representar
as trajetória táticas que, segundo critérios próprios, selecionam
fragmentos tomados nos vastos conjuntos da produção para a partir
deles compor histórias originais. Contabiliza-se aquilo que é usado,
não as maneiras de utilizá-lo. Paradoxalmente, estas se tornam
invisíveis no universo da codificação e da transparência
generalizadas. Dessas águas se vão insinuando em toda a parte só se
tornam perceptíveis os efeitos (a quantidade e a localização dos
produtos consumidores). Elas circulam sem ser vistas, perceptíveis
somente por causa dos objetos que movimentam e fazem desaparecer. As
práticas do consumo são os fantasmas da sociedade que leva o seu nome.
Como os “espíritos” antigos, constituem o postulado multiforme e
oculto da atividade produtora.
Para dar conta dessas práticas, recorri a categoria de “trajetória”.
Ela deveria evocar um movimento temporal no espaço, isto é, a unidade
de uma sucessão diacrônica de pontos percorridos, e não a figura que
esses pontos formam num lugar supostamente sincrônico ou acrônico. De
fato, essa “representação” é insuficiente, pois precisamente a
trajetória se desenha, e o tempo ou o movimento se acha assim reduzido
a uma linha totalizável pela vista, legível num instante: projeta-se
um plano o percurso de um pedestre caminhando na cidade. Por mais útil
que seja essa “redução”, metarmofoseia a articulação temporal dos
lugares em uma seqüência espacial de pontos. Um gráfico toma o lugar
de uma operação. Um sinal reversível (isto se lê nos dois sentidos,
uma vez projetado num papel) substitui uma prática indissociável de
momentos singulares e de “ocasiões”, portanto irreversível (não se
pode remontar ao tempo primordial, não se pode voltar atrás e
aproveitar uma ocasião perdida). Tem-se então um traço no lugar dos
atos, uma relíquia no lugar das performances: esta é apenas o seu
resto, o sinal de seu apagamento. Essa projeção postula que é possível
tomar um (este traçado) pelo outro (operações articuladas em cima de
ocasiões. É um “qüiproquó” (um no lugar do outro), típico das reduções
necessariamente efetuadas, para ter eficácia, por uma gestão
funcionalista do espaço. E preciso recorrer a outro modelo.
Uma distinção entre estratégias e táticas parece apresentar um
esquema inicial mais adequado. Chamo de estratégia o cálculo (ou a
manipulação) das relações de forças que se torna possível a partir do
momento em que um sujeito de querer e poder (uma empresa, um exército,
uma cidade, uma instituição científica) pode ser isolado. A estratégia
postula um lugar suscetível de ser circunscrito como algo próprio e
ser a base de onde se podem gerir as relações com uma exterioridade de
alvos ou ameaças (os clientes ou os concorrentes, os inimigos, o campo
em torno da cidade, os objetivos e objetos da pesquisa etc.). Como na
administração de empresas, toda racionalização “estratégica” procura
em primeiro lugar distinguir de um “ambiente” um “próprio”, isto é, o
lugar do poder e do querer próprios. Gesto cartesiano, quem sabe:
circunscrever um próprio num mundo enfeitiçado pelos poderes
invisíveis do Outro. Gesto da modernidade científica, política ou
militar.
A instauração de um corte entre um lugar apropriado e seu outro é
acompanhada de efeitos consideráveis, alguns dos quais devem ser
apontados imediatamente:
1. O “próprio” é uma vitória do luar sobre o tempo. Permite
capitalizar vantagens conquistadas, preparar expansões futuras e obter
assim para si uma independência em relação à variabilidade das
circunstancias. É um domínio do tempo pela função de um lugar
autônomo.
2. É também um domínio dos lugares pela vista. A divisão do espaço
permite uma prática panóptica a partir de um lugar de onde a vista
transforma as forças estranhas em objetos que se podem observar e
medir, controlar portanto e “incluir” na sua visão. Ver (longe) será
igualmente prever, antecipar-se ao tempo pela leitura de um espaço.
3. Seria legítimo definir o poder do saber por essa capacidade de
transformar as incertezas da história em espaços legíveis. Mas é mais
exato reconhecer nessas “ estratégias” um tipo específico de saber,
aquele que sustenta e determina o poder de conquistar para si um
lugar próprio. De modo semelhante, as estratégias militares ou
científicas sempre foram inauguradas graças à constituição de campos
“próprios” (cidades autônomas, instituições “neutras” ou
“independentes”, laboratórios de pesquisas “desinteressadas” etc.)
noutras palavras, um poder PE a outra preliminar deste saber, e não
apenas o seu efeito ou seu atributo. Permite e comanda as suas
características. Ele se produz aí.
Com respeito às estratégias (cujas figuras sucessivas abalam esse
esquema demasiadamente formal e cujo laço com uma configuração
histórica particular da racionalidade deveria também ser precisada),
chamo de tática a ação calculada que é determinada pela ausência de um
próprio. Então nenhuma delimitação de fora lhe fornece a condição de
autonomia. A tática não tem por lugar senão o do outro. E por isso
deve jogar com o terreno que lhe é imposto tal como o organiza a lei
de uma força estranha. Não tem meios para se manter em si mesma, a
distância, numa posição recuada, de previsão e de convocação própria:
a tática é movimento “dentro do campo de visão do inimigo”, como dizia
Von Büllow, e no espaço por ele controlado. Ela não tem portanto a
possibilidade de dar a si mesma um projeto global nem de totalizar o
adversário num espaço distinto, visível e objetivável. Ela opera golpe
por golpe, lance por lance. Aproveita as “ocasiões” e delas depende,
sem base para estocar benefícios, aumentar a propriedade e prever
saídas. O que ela ganha não se conserva. Este não lugar lhe permite
sem dúvida mobilidade, mas uma docilidade aos azares do tempo, para
captar no vôo as possibilidades oferecidas por um instante. Tem que
utilizar, vigilante, as falhas que as conjunturas particulares vão
abrindo na vigilância do poder proprietário. Aí vai caçar. Cria ali
surpresas. Consegue estar onde ninguém espera. E astúcia.
Em suma, a tática é a arte do fraco. Clausewitz o observava a
propósito da astúcia, em seu tratado Da guerra. Quanto maior um poder,
tanto menos pode permitir-se mobilizar uma parte de seus meios para
produzir efeitos de astúcia: é com efeito perigoso usar efetivos
consideráveis para aparências, enquanto esse gênero de “demonstrações”
é geralmente inútil e “a seriedade da amarga necessidade torna a ação
direta tão urgente que não deixa lugar a esse jogo”. As forças são
distribuídas, não se pode correr o rico de fingir co elas. O poder se
acha amarrado a sua visibilidade. Ao contrário, a astúcia é possível
ao fraco, e muitas vezes apenas ela, como “ultimo recurso”: “Quanto
mais fracas as forças submetidas a direção estratégica, tanto mais
esta estará sujeita a astúcia”. Traduzindo: tanto mais se torna
tática.
Clausewitz compara ainda a astúcia à palavra espirituosa: “Assim como
a palavra espirituosa é uma espécie de prestidigitação em face das
idéias e das concepções, a astúcia é uma prestidigitação relativa a
atos”. Isto sugere o modo pelo qual a tática, verdadeira
prestidigitação, se introduz por surpresa numa ordem. A arte de “dar
um golpe” é o senso da ocasião. Mediante procedimentos que Freud
precisa a respeito do chiste, combina elementos audaciosamente
reunidos para insinuar o insight de outra coisa na língua de um lugar
e para atingir o destinatário. Raios, relâmpagos, fendas e achados no
reticulado de um sistema, as maneiras de fazer dos consumidores são os
equivalentes práticos dos chistes.
Sem lugar próprio, sem visão globalizante, cega e perspicaz como se
fica no corpo a corpo sem distância, comandada pelos acasos do tempo,
a tática é determinada pela ausência do poder assim como a estratégia
é organizada pelo postulado de um poder. Deste ponto de vista, a sua
dialética poderá ser iluminada pela antiga arte da sofística. Autor de
um grande sistema “estratégico”, Aristóteles se interessava muito
pelos procedimentos desse inimigo que pervertia, pensava ele, a ordem
da verdade. Desse adversário proteiforme, rápido, surpreendente, ele
cita uma fórmula que, precisando a força da sofística, pode enfim
definir a tática, tal como a compreendo aqui: trata-se – dizia Corax
- de “fortificar ao máximo a posição do mais fraco”. Em sua densidade
paradoxal, esta palavra destaca a relação de forças que está no
princípio de uma criatividade intelectual tão tenaz como sutil,
incansável, mobilizada a espera de qualquer ocasião, espalhadas no
terreno da ordem dominante, estranha às regras próprias da
racionalidade e que esta impõe com base no direito adquirido de um
próprio. As estratégias são portanto ações que, graças ao postulado de
um lugar de poder (a propriedade de um próprio), elaboram lugares
teóricos (sistemas e discursos totalizantes), capazes de articular um
conjunto de lugares físicos onde as forças se distribuem. Elas
combinam esses três tipos de lugar e visam dominá-los uns pelos
outros. Privilegiam portanto as relações temporais pela atribuição
analítica de um lugar próprio a cada elemento particular e pela
organização combinatória dos movimentos específicos a unidades ou a
conjuntos de unidades. O modelo para isso foi antes o militar que o
“científico”. As táticas são procedimentos que valem pela pertinência
que dão ao tempo – às circunstâncias que o instante preciso de uma
intervenção transforma em uma situação favorável, à rapidez de
movimentos que mudam a organização do espaço, ás relações entre
momentos sucessivos de um “golpe”, aos cruzamentos possíveis de
durações e ritmos heterogêneos etc. Sob este aspecto, a diferença
entre umas e outras remete a duas opções históricas em matéria de ação
e segurança (opções que respondam aliás mais a coerções que a
possibilidades): as estratégias apontam para a resistência que o
estabelecimento de um lugar oferece ao gasto de um tempo; as táticas
apontam para uma hábil utilização do tempo, das ocasiões que apresenta
e também dos jogos que introduz nas funções de um poder. Ainda que os
métodos praticados pela arte da guerra cotidiana jamais se apresentem
sob uma forma tão nítida, nem por isso é menos certo que apostas
feitas no lugar ou no tempo distinguem as maneiras de agir.