Faz quase um século e meio que a célebre
interpretação de um trecho do livro “Os Irmãos Karamazov”, do grande
escritor russo Dostoievsky tem sido copiosamente enfatizada pelos
teístas: Se Deus não existe tudo é permitido. Muitos religiosos
expressam com essa frase a idéia de que sem a crença em algo divino, os
homens não teriam um limite, nenhuma razão para fazer o bem. Sem a
promessa de uma vida eterna e feliz os homens não fariam o bem a fim de
buscá-la e sem a ameaça de um tormento eterno para quem não controlasse
seus instintos, os homens não conseguiriam controlar-se e perder-se-iam
em hedonismo. Mesmo que, como disse Bertrand Russell, uma virtude que
tem suas raízes no medo não seja lá muito digna de ser admirada, para
muitos ela é a única possível para nós, pecadores por natureza. Apontam
casos onde o ateísmo predominou e o que se seguiu foi uma série de
enormes barbáries, como na antiga União Soviética. Mas não poderia haver
mesmo possibilidades de se levar uma vida ética e justa sem Deus?
Segundo
o sociólogo norte-americano Phil Zuckerman isso é efetivamente
possível. De acordo com uma pesquisa que ele realizou e publicou em seu
livro "Society Without God – What the Least Religious Nations Can Tell
Us About Contentment" [Sociedade sem Deus – O que as nações menos
religiosas podem nos dizer a respeito da satisfação], os países menos
religiosos do mundo são os mais justos, mais éticos, possuem forte
economia, baixa taxa de criminalidade, os mais altos índices de
qualidade de vida, altos padrões de vida e igualdade social. Ao
contrário, os países mais religiosos são aqueles com maior desigualdade,
criminalidade, corrupção, injustiça e outras pragas sociais, como
Brasil. Com essa pesquisa ele provou que é errada a crença dos
norte-americanos e de outras pessoas (como os brasileiros) de que um
país sem Deus inevitavelmente cairia na criminalidade, na imoralidade e
na degeneração. Muito pelo contrário, os países mais éticos e justos são
a Suécia e a Dinamarca, que são países com baixíssima religiosidade
(recentemente outra pesquisa mostrou que os dinamarqueses são as pessoas
mais felizes e satisfeitas do mundo). Mostra algo que todos os ateus já
sabiam e que somente os crentes ignorantes sobre o assunto alimentam
com seu preconceito: é possível valorizar o bem, a justiça, o homem e a
vida por si mesmos, sem precisar acreditar que Deus nos castigará se não
o fizermos. Completa Zuckerman:
“Os dinamarqueses e os suecos
têm um respeito muito forte pela dignidade humana. Eles criaram
sociedades com as menores taxas de pobreza do mundo, as menores taxas de
crimes violentos do mundo e o melhor sistema de educação e de saúde do
mundo. Eles fizeram isso não como uma tentativa de agradar ou alcançar
Deus, mas porque vêem um valor manifesto na vida humana e acreditam que o
sofrimento é um mal em e além de si mesmo.”
(Entrevista na
íntegra:
http://integras.blogspot.com/2008/12/pas-menos-religiosos-so-os-mais.html)
Encontrei
números sobre países irreligiosos em um site evangélico:
“Suécia
(85%), Vietnam (81%), Dinamarca (80%), Noruega (72%), Japão (65%) e
República Checa (61%) respectivamente, encabeçam a lista, seguidos por
Finlândia (60%), França (54%), Coréia do Sul (52%), Estônia (49%),
Alemanha (49%), Rússia (48%), Hungria (46%), Holanda (44%), Inglaterra
(44%) etc. Todos esses países possuem alta renda per capta, exceto o
Vietnam, onde o ateísmo não é orgânico, mas coercivo, isto é, imposto ou
induzido pelo regime político ou religioso. Essa situação é encontrada
também nos países do continente asiático – o mais populoso do mundo –,
na Oceania e no Oriente Médio.”
(Fonte:
http://www.revistaenfoque.com.br/index.php?edicao=74&materia=837)
Outra
fonte vem de Sam Harris, famoso filósofo ateu norte-americano em “Carta
A Uma Nação Cristã”, onde ele mostra que os países mais desenvolvidos,
justos e igualitários do mundo são compostos, em sua grande maioria, por
ateus e não-religiosos. Nações desenvolvidas, mas que são muito
religiosas, como os Estados Unidos, possuem taxas de criminalidade,
injustiça, desigualdade, etc. menores que as dos países
subdesenvolvidos, mas no entanto ficam muito aquém dos países ateus da
Europa. Os Estados Unidos são um país com alta taxa de criminalidade, ao
contrário dos países “ateus” do norte da Europa. Sam Harris mostra que
na França, 70% (!) dos detentos nas prisões francesas são muçulmanos. A
quantidade de ateus nas prisões francesas é muito pequena. Ao contrário
do Brasil, onde o ateísmo não chega a 5%, portanto seria normal não
encontrar muitos presidiários ateus (e não encontram). Na França, no
entanto, existem muitos ateus, mas eles não saem por ai cometendo todos
os tipos de crimes. Sam Harris continua:
“Noruega, Islândia,
Canadá, Suécia, Suíça, Bélgica, Japão, Holanda. Dinamarca e Reino Unido
estão entre as sociedades menos religiosas da Terra. De acordo com o
Relatório do Desenvolvimento Humano das Nações Unidas (2005), essas
sociedades também são as mais saudáveis, segundo os indicadores da
expectativa de vida, alfabetização, renda per capta, nível educacional,
igualdade entre os sexos, taxa de homicídio e mortalidade infantil.”
Dostoievski
estava errado. É possível viver bem, justa e eticamente sem Deus.
Muitos acham que os ateus, por não acreditarem em Deus, também não
acreditam em valores morais, mas é justamente o contrário. Ateus
acreditam no bem, no amor, na igualdade e na justiça. Mas diferentemente
dos crentes, os ateus pensam em tais coisas como bens em si mesmos. Não
pensamos que devemos ser justos e morais porque, caso contrário,
seríamos punidos por um ser superior, mas devemos ser justos e morais
porque isso é o certo. Além do mais, acreditar em Deus não garante um
comportamento mais moral e justo, por isso existem as leis escritas, a
polícia e o Estado. Mesmo que todos acreditassem em Deus e freqüentasse a
Igreja todos os Domingos, muitos deles não cometeriam crimes, não por
fé em Deus, mas por medo da justiça dos homens mesmo.
Se os
descrentes são mesmo os monstros devassos pintados pela religião e pela
Bíblia, como eles conseguiram formar uma sociedade mais justa e
igualitária que os religiosos? Zuckerman responde:
“Não é
necessário acreditar em Deus para acreditar na justiça. De fato, se
poderia argumentar que aqueles que acreditam fortemente em Deus podem
ser mais indiferentes e assumir que “tudo está nas mãos de Deus”,
enquanto que os seculares sabem que a possibilidade de construir uma
vida e um mundo melhores está nas mãos deles e apenas deles. Então, os
dinamarqueses e os suecos contaram apenas com o seu próprio esforço –
não com orações a Deus.”