Conhecido por não poupar nem mesmo Madre Teresa de Calcutá, o
jornalista e crítico literário Christopher Hitchens agora mira em Deus. É
dele um dos lançamentos de 2007 que têm como tema o ateísmo, integrando
uma onda de intelectuais combatentes da fé atuando em pleno apogeu dos
conflitos religiosos. Hitchens estará em Porto Alegre na terça-feira
para participar do seminário Fronteiras do Pensamento. Os ingressos
estão esgotados, mas ele autografa na mesma terça, às 21h, no hall do
Salão de Atos da UFRGS.
O jornalista, ensaísta e crítico literário britânico Christopher
Hitchens está na lista negra criada pelo esquerdismo mundial para
enquadrar todos aqueles que se negam a comprar o seu pacote ideológico
completo, aquele que inclui ficar sempre do lado da Palestina, contra os
EUA e a favor do aborto - para citar apenas algumas questões que
integram o kit.
Aos integrantes desta lista negra, os que tentam negociar o pacote a
la carte, discutindo ponto a ponto, cola-se o rótulo de conservador -
ou neoconservador, termo bastante utilizado depois do 11 de setembro.
Hitchens não só nega o rótulo como redigiu um manual para aqueles que
pretendem fugir da patrulha esquerdista. Em Cartas a um Jovem
Contestador (Cia das Letras, 2006), o jornalista explica, em forma de
cartas escritas a um aluno imaginário, como se tornar um pensador livre
ao ponto de ficar à vontade para criticar figuras aparentemente
intocáveis - como Madre Teresa de Calcutá - e apoiar, de forma
cartesiana, determinadas ações de verdadeiras "encarnações do mal", como
George W. Bush.
Hitchens é um animal argumentativo, embora isso fique mais explícito
em seus artigos do que em entrevistas, fazendo com que questões
consideradas indiscutíveis - como a condenação à invasão do Iraque -
voltem à pauta, inclusive à luz de uma ética humanitária.
Em seu racionalismo radical, o jornalista bate de frente com
questões caras - e, freqüentemente, carregadas de demagogia - à
esquerda, como o relativismo cultural. O autor é implacável com os
métodos islâmicos, sejam eles justificados ou não pela religião ou pela
cultura, já tendo usado o termo "fascismo islâmico" para criticar as
ameaças do mundo oriental aos editores europeus que publicaram cartuns
de Maomé, por exemplo. Em 1989, quando um fatwah teocrático ameaçou de
morte o escritor Salman Rushdie, Hitchens denunciou a indiferença e as
hesitações ocorridas entre os intelectuais para negar apoio ao colega.
Tais tergiversações, para Hitchens, encarnavam a tendência da boa parte
dos pensadores para justificar qualquer ato islâmico - inclusive o 11 de
setembro.
Agora, com seu novo livro, Deus não é Grande - Como a Religião
Envenena Tudo (Ediouro, 286 páginas, R$ 44,90), o jornalista confirma
sua postura de livre pensador ao compartilhar uma bandeira típica da
esquerda: a ojeriza por religiões.
Em entrevista ao Cultura por telefone, direto de Washington, onde
reside, Hitchens optou por responder tudo de forma clara e direta. As
religiões são ruins porque elas mentem. Simples assim.
Cultura
- Deus não é Grande acaba de ser lançado no Brasil. Em que este se
difere de outros livros sobre ateísmo que estão chegando ao mercado?
Christopher Hitchens - A diferença é que eu não sou um
cientista. E eu acredito que o argumento contra a religião foi feito
antes de Darwin e antes de Einstein. Sou um crítico literário e um
correspondente estrangeiro. Em meus livros, eu argumento baseando-me em
exemplos que eu vi viajando pelo mundo, exemplos dos perigos da
religião.
Cultura - Richard Dawkins, no seu livro Deus, Um Delírio,
diz que pretende converter as pessoas ao ateísmo. Ele não corre o risco
de incorrer no mesmo erro das religiões ao tentar isso?
Hitchens - Eu não estou tentado converter pessoas. Não...
Cultura - O senhor concorda com aqueles que dizem que a
religião foi a responsável por importantes princípios morais para a
construção da civilização?
Hitchens - Não, isto está
errado. Religião não é a fonte da moralidade, a moralidade vem da
solidariedade humana, e ela surge em todas as sociedades, desde os
tempos antigos. Religião, pelo contrário, prega a imoralidade. Ela conta
mentiras para as crianças sobre céu e inferno, ela cria contos de fada
aos adultos. Mente sobre a morte concreta, que é algo inevitável e
inescapável. Eles praticam mutilação genital e repressão sexual, que
levam à perversão e à hipocrisia. Ou seja, é imoral, vai contra a
solidariedade humana e, é claro, é responsável pela subordinação das
mulheres.
Cultura - A religião pode ser substituída pelo quê na vida das pessoas?
Hitchens
- Não há um substituto, porque não queremos repetir o erro. Deixar de
se impressionar pelas mentiras e imoralidades da religião é algo que não
requer substituto. Se você consegue se emancipar da noção de
imoralidade da religião, você não precisa de nenhum substituto. A
emancipação é uma coisa boa por si só.
Cultura - Como você imagina politicamente um mundo em que ninguém acredita em Deus?
Hitchens -
Eu não consigo imaginar, porque não há o perigo de isso acontecer. A
espécie humana é programada de certa maneira para ser religiosa porque é
uma espécie muito egocêntrica. É facilmente persuadida de que é o
objetivo de algum plano divino. Em segundo, é uma espécie muito medrosa,
e tem particular medo da morte.
Cultura - O mundo oriental depende mais da religião do que o ocidental?
Hitchens
- Não. Acho que o problema é o mesmo para todos. O budismo não é
exatamente uma religião, mas uma prática espiritual. É difícil medir.
Cultura - Há o mito de que, em países corruptos e pobres
como o Brasil, as igrejas neopentecostais poderiam prestar um serviço às
camadas mais pobres, até mesmo facilitando a ascensão social. A
religião pode ser útil dependendo do contexto de uma sociedade?
Hitchens - Ninguém é tão pobre que precise aprender moralidade com os pentecostais.
Cultura - A religião não pode ter nenhuma utilidade?
Hitchens -
Não é útil ser enganado. Não é útil que te digam para acreditar em
coisas. É o mesmo problema em todos os lugares, sem diferença. As
escolhas entre razão e fé estão em todas as sociedades e entre todos os
indivíduos. Eles precisam decidir por si mesmos por que estão aqui. Por
causa da biologia ou por causa do divino. Mas a questão é a mesma em
Porto Alegre ou na Islândia.
Cultura - O senhor costuma criticar intelectuais de
esquerda, como Noam Chomsky. O senhor é um conservador, como dizem, ou
apenas um contestador?
Hitchens - Eu não sou um conservador. Não sou membro de nenhum partido ou movimento.
Cultura - Era mais difícil ser um pensador livre durante a Guerra Fria ou neste período de conflito contra o terrorismo?
Hitchens
- Na Guerra Fria era muito mais difícil para muita gente. Não apenas
por causa dos perigos físicos em alguns países, mas por causa da divisão
do mundo entre dois blocos entre os quais você tinha que escolher uma.
Isso teve um efeito muito nocivo para a atividade mental.
Cultura - Não é contraditório que você apoie fortemente as
ações de um governo tão identificado com a religião, como o de George W.
Bush?
Hitchens - Não. O ato de libertação do Iraque,
que passou pelo congresso e determinou que esta deveria seria a política
dos Estados Unidos, remover o regime de Saddam Russein, foi aprovado em
1998 com nenhum voto contra, sob a administração Bill Clinton e Al
Gore. Foi um consenso nacional, de que era preciso derrubar Saddam e seu
governo.
GABRIEL BRUST