A
internação compulsória de usuários de drogas em situação de rua foi instalada no
Rio de janeiro e 2011 e, agora, está prevista para acontecer também em São
Paulo, a partir do dia 21 de janeiro.
Esclarecemos que a internação compulsória já existia antes, prevista em
lei, porém como medida tomada em casos pontuais e específicos, respaldada por
ordem judicial, indicada apenas quando a pessoa está pondo em risco sua própria
vida ou a de terceiros.
Atentamos para o fato de que o que está sendo feito hoje é diferente,
criou-se uma política de massas para a internação generalizada e arbitrária, o
que abre precedentes para ações autoritárias que representam um retrocesso na
conquista histórica da humanidade por direitos
democráticos.
A internação compulsória surge agora como um sequestro a céu aberto da
parcela mais pobre da população. Sabemos que não serão os dependentes da classe
média, muito menos da classe alta que serão forçados a se internar, o que a
caracteriza como uma política claramente higienista.
Esclarecemos também que esta política ignora a particularidade dos
indivíduos. Uma internação é indicada somente para dependentes, minoria dentro
da população de rua. Pessoas que fazem uso ocasional ou abusivo serão internadas
da mesma forma. Uma generalização como essa não é capaz de contribuir para o
problema da drogadicção e claramente não é feita com essa
intenção.
É sempre mais fácil culpar uma substância do que olhar seriamente para a
complexidade causadora e mantenedora da exclusão social de pessoas alijadas de
seus direitos básicos. Se a intenção é “cuidar”, por que os planos estatais não
incluem garantia do acesso à moradia, trabalho, educação, saúde e
cultura?
A “guerra às drogas”, ou nesse caso mais especificamente a “guerra ao
crack” – como se fosse possível guerrear contra uma substância e não contra
pessoas –, mais uma vez é usada como pretexto para ataques estatais à população
pobre, jovem e negra. Quando não considerados criminosos e colocados em reclusão
nos cada vez mais lotados presídios, são considerados doentes e isolados em
abrigos psiquiátricos ou entidades conhecidas por comunidades terapêuticas,
muitas delas suspeitas de promoverem torturas físicas e psicológicas contra os
usuários.
Denunciamos o uso do discurso do cuidado para aplicar uma política que
não serve aos interesses da maioria da população, mas visa limpar terreno para
os lucros de segmentos do empresariado (que futuramente retornarão os favores do
governo com doações para suas campanhas eleitorais) sob o falso pretexto da
preocupação com a população de rua. Após o suposto tratamento, as pessoas serão
jogadas novamente nas ruas, na mesma realidade de antes, sem nenhum apoio, não
resolvendo o problema da dependência.
Entendemos também a política da internação compulsória como mais uma das
inúmeras formas hoje praticadas de repasse de dinheiro público a entidades
privadas, em muitos casos às comunidades terapêuticas, fazendo-o sair do
controle e da fiscalização popular.
Declaramos que a população em situação de rua vive para além das drogas,
responde sim por si própria, é capaz e deve ter o direito de escolher quando e
como fará seu tratamento, devendo, portanto, ser tratada com a mesma dignidade
de qualquer outro ser humano.
Essa política governamental não se configura como cuidado, mas como uma
violência do Estado à população. Não vamos legitimá-la.
Declaramos total repúdio a políticas repressivas como estas. Não há
solução imediata para o problema da dependência. Mas há outras
alternativas.
Reivindicamos educação e saúde públicas de qualidade e moradia digna para
a população não precisar morar nas ruas. Reivindicamos tratamento público e
gratuito humanizado aos dependentes de substâncias psicoativas, por meio de mais
investimento na rede de assistência social e saúde, fortalecendo os CAPS e
adotando ações de redução de danos como políticas
públicas.
Por dignidade à população de rua, nos colocamos também em luta e dizemos
não à internação compulsória.
Janeiro de
2013