Depende de quão grande este grupo é e também depende da heterogeneidade do grupo. O trabalho que vocês têm feito, além de uma turma limitada e com uma formação razoável, exige a presença em videochamadas (para não falar das câmeras abertas) e isto não é regra na EaD, acho que na verdade é uma grande exceção. Como sabemos, obviamente não é uma exceção por acaso.
O caso comum é o ETV-remoto que você descreveu: coloca-se as coisas na plataforma e marca um horário para tirar dúvidas. Há também aulas remotas expositivas onde o professor fala por horas, neste caso não se sabe se o aluno está ali ou não, há apenas o nome do aluno. Um colega por exemplo relatou um caso de uma aluna que confessou que estava dormindo.
Historicamente a EaD "resolve" o problema do aluno que quer se formar sem precisar ou poder estar presente diariamente nas aulas. Este é um problema de ordem econômica. É a isto que a EaD responde. Este é o aluno da licenciatura noturna. A farsa da presença já estava colocada antes da pandemia, como você bem descreveu: aulas de 4 tempos, chega atrasado, sai antes, intervalo alargado, etc... Eu já fiz este cálculo anos atrás e chegava a cerca de 40% do tempo previsto no currículo. Penso que um fenomeno parecido ocorre na educacao básica, há uma diminuição do numero de vagas, fechamento de salas, ao que tenho perguntado: mas e os índices de gente fora da escola, não explodiram ainda? Parece que há uma compensação com o aumento dos EJAs e similares. Estes já eram a distância, não é de agora.
Pois bem, a questão ainda é a mesma. Para as classes sociais que historicamente já tinham acesso e frequentavam a universidade com condições e recursos de qualidade é possível fazer a mesma coisa ou algo melhor via EaD ou híbrido, que será a grande tendência. E para quem historicamente tinha acesso precarizado, o acesso continua precarizado. O ponto que eu tenho insistido é que esta precarização não é um problema de ordem de limitação de acesso a tecnologia. O problema econômico não estará na aquisição de computadores e acesso a internet. Um computador e acesso hoje não é tão caro e universitário sem computador em casa em 2021 certamente já está em condição excluída (ou bastante precarizada), seja na EaD ou no presencial.
O problema parece-me que será justamente o contrário: assim como os EJAs, a EaD no noturno vai facilitar o "acesso" e "minimizar" algumas das dificuldades das camadas sociais que historicamente já tinham dificuldade de acesso e permanência na universidade. Ou seja, o problema é justamente o contrário do que se alardeia, isto é, a EaD vai facilitar e não dificultar o acesso. Mas, como já ocorria antes, o acesso será facilitado, mas a distinção estará dada pela "forma" como a EaD e o ensino híbrido serão operacionalizados. Lembrando: a EaD responde a uma pressão de acesso a certificação das classes sociais que historicamente não tem acesso a universidade, dito de modo mais direto e sintético: como alguem que trabalha o dia todo e que portanto não irá consultar nenhum material ou fazer qualquer coisa fora da sala de aula e, ao mesmo tempo, estará extremamente exausto em aula, com dificuldade de ir até a universidade (transporte) e com a cabeça cheia de problemas de ordem sócio-econômica pode obter um certificado academico?
A universidade sempre se esquivou de oferecer uma reposta a isto, oferecendo sempre paliativos ou fechando os olhos. É o próprio sistema que agora oferece algo diante do vácuo. É uma panaceia? Certamente, mas bem maquiado e diante do nada terá a potencia de se instalar e as próprias vítimas vão defender a instalação. Ao contrário do que se diz, a pressão não virá de um grupo conspiratório, mas será abraçada por todos os setores, inclusive e notadamente por aqueles que tem dificuldade de acesso ao ensino presencial. Lembrem-se que tradicionalmente a EaD já atende este público. É importante dizer isto para que o setor progressista não perca tempo dizendo aquilo que é melhor para quem não tem acesso, sem saber o que eles mesmo (os que não tem acesso) pensam.
Em termos de (AS) penso que preciso responder a seguinte questão: tradicionalmente o trabalho está associado a presença, não se pontuava o trabalho fora da aula, como valorar trabalho caso a realidade seja a não obrigatoriedade de presença em horário determinado?
Dentro das margens da minha instituição tenho feito assim:
A rigidez do horário de aula já era precária como dito anteriormente, a diferença é que agora há mais respaldo institucional para flexibilizar explicitamente isto. A tendência é "deixa na plataforma, faz quando pode e aparece caso queira". Por exemplo, não há respaldo para colocar falta para os alunos que não vêm a videochamada caso eles entreguem trabalho. Portanto, não há respaldo para rigidez em relação a presença em horário estabelecido. As vídeo chamadas não podem sequer serem exigidas. Eu tenho ainda conseguido sustentar o horario de aula da seguinte forma: No dia da aula tem uma ficha de trabalho na plataforma moodle. Para que não reclamem de 4 tempos em videochamada, eu deixo a primeira aula para que entrem na plataforma, leiam a ficha de trabalho e tentem resolver. A videochamada começa na segunda aula, ela não é obrigatória (porque nao tenho respaldo da instituição). A videochamada ocupa duas aulas e a última aula eles devem usar para enviar na plataforma o que realizaram da ficha de trabalho naquele dia. A videochamada ajuda aqueles que querem trabalhar na FT. Esta é uma forma de valorizar o trabalho realizado, ou seja, o esforço daqueles que se dedicam a noite, no horário de aula, para entrarem na plataforma, ir a videochamada e tentar realizar algo. No início os alunos insistiam para que pudessem entregar outro dia, então eu disse: "esta nota não é de avaliação de conteúdo, mas é uma nota para quem se dispõe trabalhar no suposto horário da aula". Para os que participam da videochamada fica bem mais fácil o trabalho, normalmente os que não participam da videochamada não entregam o trabalho. No horário da aula presencial, a aula terminaria as 22h30. Deixo o sistema de entrega aberto até as 23h59, o sistema ainda permite que seja entregue até as 19h00 do dia seguinte, mas neste caso fica marcado "com atraso". As notas serão calculadas exclusivamente a partir destes trabalhos.
Abraços
Marcelo Batarce