[Sbem-l] As plataformas de ensino

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Roberto R Baldino

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Dec 12, 2020, 9:52:38 AM12/12/20
to SBEM Lista, Professores-Efetivos-Uergs, gpa-r...@googlegroups.com

Ois

Essas plataformas de ensino tipo Kahn nos oferecem a resposta a dois questionamentos, um didático e outro pedagógico.

O questionamento didático nos chega pela pergunta: professor, por onde posso estudar isso que o senhor está dando? Esperta ou inconscientemente essa pergunta visa coibir a inovação. O professor fica obrigado a garantir a legitimidade do conhecimento que ministra. Essa legitimidade é dada é expressa de maneira vaga nas ementas e de maneira precisa nos manuais. Um livro é uma mercadoria; a legitimidade do conhecimento que ali está é garantida pelo investimento econômico da editora. Uma plataforma como esta, Kahn, de saída exibe um impressionante investimento e logo ameaça cobrar pela participação. O conhecimento ali expresso fica liminarmente legitimado pela base econômica. Um erro na expressão desse conhecimento, pode ser aproveitado pelas concorrentes e custar muito caro à empresa. As aulas da UNIVESP são mais sóbrias, não aparece ali investimento econômico. A legitimidade é dada pelas universidades de onde provém.  

O questionamento pedagógico nos chega pela via dos colegas dos anos seguintes: os alunos que você me mandou não sabem calcular; acho que é porque você trabalhou em grupos. Com as plataformas e o ensino remoto, essa ameaça desaparece; pode-se trabalhar com grupos grandes mantendo ou até superando a proximidade com o aluno que o grupo ´presencial oferece. Às vezes essa situação se inverte. Colegas do ciclo profissional interessam-se pelo ensino do pré-cálculo e nos enviam alunos que igualmente “não sabem calcular”. Poderíamos dizer-lhes: acho que é porque você deu aulas expositivas...

Porém, com as plataformas, corremos o risco de reproduzir de forma ampliada o distanciamento com o aluno que ocorre no ensino tradicional vigente (ETV). É só mandar o aluno para lá, determinar datas de entrega de “tarefas” (cópias da internet) e dizer que estamos à disposição para dúvidas num certo horário. É uma reprodução ampliada da prática de 4 tempos seguidos, com chegada atrasado, saída adiantado e intervalo. Qual aluno reclamará disso? Eles não reclamaram dessa falsificação durante o ensino anterior. (Suspender a aula para eleger a rainha da primavera no primeiro segmento, para reunir o conselho de classe no segundo e para ampliar os feriados no ensino médio.)

Evitar que as plataformas sejam ampliação do ETV dá trabalho. Porém, estamos descobrindo que a EaD nos dá instrumentos privilegiados para isso; gostaríamos de mostrá-los  a todos. Temos os registros em vídeo, mas estamos bloqueados pela legislação e as tais “comissões de ética”. Passar a boletins de vitória escritos para publicação, obedecendo às regras de anonimato, é amputar a chamada “riqueza”  da situação. A falcatrua do ETV está bem protegida. A luta contina.

Abraço

Baldino   

 

 

OS CABRALDINOS (Tânia Cabral e Roberto Baldino)

Computer Engineering & STEM Education Graduate Program, UERGS – Guaiba, RS, Brazil

Homepage: https://www.cabraldinos.mat.br

rrba...@terra.com.br

Marcelo Batarce

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Dec 13, 2020, 9:04:22 AM12/13/20
to SBEM Lista, gpa-r...@googlegroups.com, Professores-Efetivos-Uergs
Baldino,

" pode-se trabalhar com grupos grandes mantendo ou até superando a proximidade com o aluno que o grupo ´presencial oferece.   "
Depende de quão grande este grupo é e também depende da heterogeneidade do grupo. O trabalho que vocês têm feito, além de uma turma limitada e com uma formação razoável, exige a presença em videochamadas (para não falar das câmeras abertas) e isto não é regra na EaD, acho que na verdade é uma grande exceção. Como sabemos, obviamente não é uma exceção por acaso. 
O caso comum é o ETV-remoto que você descreveu: coloca-se as coisas na plataforma e marca um horário para tirar dúvidas. Há também aulas remotas expositivas onde o professor fala por horas, neste caso não se sabe se o aluno está ali ou não, há apenas o nome do aluno. Um colega por exemplo relatou um caso de uma aluna que confessou que estava dormindo.
Historicamente a EaD "resolve" o problema do aluno que quer se formar sem precisar ou poder estar presente diariamente nas aulas. Este é um problema de ordem econômica. É a isto que a EaD responde. Este é o aluno da licenciatura noturna. A farsa da presença já estava colocada antes da pandemia, como você bem descreveu: aulas de 4 tempos, chega atrasado, sai antes, intervalo alargado, etc... Eu já fiz este cálculo anos atrás e chegava a cerca de 40% do tempo previsto no currículo. Penso que um fenomeno parecido ocorre na educacao básica, há uma diminuição do numero de vagas, fechamento de salas, ao que tenho perguntado: mas e os índices de gente fora da escola, não explodiram ainda? Parece que há uma compensação com o aumento dos EJAs e similares. Estes já eram a distância, não é de agora.
Pois bem, a questão ainda é a mesma. Para as classes sociais que historicamente já tinham acesso e frequentavam a universidade com condições e recursos de qualidade é possível fazer a mesma coisa ou algo melhor via EaD ou híbrido, que será a grande tendência. E para quem historicamente tinha acesso precarizado, o acesso continua precarizado. O ponto que eu tenho insistido é que esta precarização não é um problema de ordem de limitação de acesso a tecnologia. O problema econômico não estará na aquisição de computadores e acesso a internet. Um computador e acesso hoje não é tão caro e universitário sem computador em casa em 2021 certamente já está em condição excluída (ou bastante precarizada), seja na EaD ou no presencial. O problema parece-me que será justamente o  contrário: assim como os EJAs, a EaD no noturno vai facilitar o "acesso" e "minimizar" algumas das dificuldades das camadas sociais que historicamente já tinham dificuldade de acesso e permanência na universidade. Ou seja, o problema é justamente o contrário do que se alardeia, isto é, a EaD vai facilitar e não dificultar o acesso. Mas, como já ocorria antes, o acesso será facilitado, mas a distinção estará dada pela "forma" como a EaD e o ensino híbrido serão operacionalizados. Lembrando: a EaD responde a uma pressão de acesso a certificação das classes sociais que historicamente não tem acesso a universidade, dito de modo mais direto e sintético: como alguem que trabalha o dia todo e que portanto não irá consultar nenhum material ou fazer qualquer coisa fora da sala de aula e, ao mesmo tempo, estará extremamente exausto em aula, com dificuldade de ir até a universidade (transporte) e com a cabeça cheia de problemas de ordem sócio-econômica pode obter um certificado academico?
A universidade sempre se esquivou de oferecer uma reposta a isto, oferecendo sempre paliativos ou fechando os olhos. É o próprio sistema que agora oferece algo diante do vácuo. É uma panaceia? Certamente, mas bem maquiado e diante do nada terá a potencia de se instalar e as próprias vítimas vão defender a instalação. Ao contrário do que se diz, a pressão não virá de um grupo conspiratório, mas será abraçada por todos os setores, inclusive e notadamente por aqueles que tem dificuldade de acesso ao ensino presencial. Lembrem-se que tradicionalmente a EaD já atende este público. É importante dizer isto para que o setor progressista não perca tempo dizendo aquilo que é melhor para quem não tem acesso, sem saber o que eles mesmo (os que não tem acesso) pensam.
Em termos de (AS) penso que preciso responder a seguinte questão: tradicionalmente o trabalho está associado a presença, não se pontuava o trabalho fora da aula, como valorar trabalho caso a realidade seja a não obrigatoriedade de presença em horário determinado?
Dentro das margens da minha instituição tenho feito assim: 
A rigidez do horário de aula já era precária como dito anteriormente, a diferença é que agora há mais respaldo institucional para flexibilizar explicitamente isto. A tendência é "deixa na plataforma, faz quando pode e aparece caso queira". Por exemplo, não há respaldo para colocar falta para os alunos que não vêm a videochamada caso eles entreguem trabalho. Portanto, não há respaldo para rigidez em relação a presença em horário estabelecido. As vídeo chamadas não podem sequer serem exigidas. Eu tenho ainda conseguido sustentar o horario de aula da seguinte forma: No dia da aula tem uma ficha de trabalho na plataforma moodle. Para que não reclamem de 4 tempos em videochamada, eu deixo a primeira aula para que entrem na plataforma, leiam a ficha de trabalho e tentem resolver. A videochamada começa na segunda aula, ela não é obrigatória (porque nao tenho respaldo da instituição). A videochamada ocupa duas aulas e a última aula eles devem usar para enviar na plataforma o que realizaram da ficha de trabalho naquele dia. A videochamada ajuda aqueles que querem trabalhar na FT. Esta é uma forma de valorizar o trabalho realizado, ou seja, o esforço daqueles que se dedicam a noite, no horário de aula, para entrarem na plataforma, ir a videochamada e tentar realizar algo. No início os alunos insistiam para que pudessem entregar outro dia, então eu disse: "esta nota não é de avaliação de conteúdo, mas é uma nota para quem se dispõe trabalhar no suposto horário da aula". Para os que participam da videochamada fica bem mais fácil o trabalho, normalmente os que não participam da videochamada não entregam o trabalho. No horário da aula presencial, a aula terminaria as 22h30. Deixo o sistema de entrega aberto até as 23h59, o sistema ainda permite que seja entregue até as 19h00 do dia seguinte, mas neste caso fica marcado "com atraso". As notas serão calculadas exclusivamente a partir destes trabalhos.

Abraços
Marcelo Batarce

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