Viabilidade e influência

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Irapuan Martinez

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Nov 30, 2005, 8:19:53 AM11/30/05
to ar...@googlegroups.com
A galera do Nominimo são um bando de jornalistas que apreciam muito
falar do seu próprio mercado - vantagem de um modelo por assim dizer
independente, é eles poderem escolher o que vão escrever. A entrevista
abaixo dá este tom, mas vi muita correlação sobre viabilidade de
qualquer projeto on line, independente de ser jornalístico.

Tentei resumir a estes pontos correlatos, porém se fosse condensar tudo
a uma frase apenas, seria esta no último parágrafo: "O modelo de
influência é o melhor modelo econômico".

http://nominimo.ibest.com.br/notitia/servlet/newstorm.notitia.
presentation.NavigationServlet?publicationCode=1&pageCode=31
&textCode=19704&date=currentDate&contentType=html

(...) Meyer sugere um novo modelo econômico para analisar a viabilidade
da imprensa: é o modelo da influência. O que a imprensa oferece é
influência, influência social e influência comercial. A influência
social está na divulgação daquilo que acontece na comunidade. O enfoque
nos problemas força mudanças de rumo. Esta influência não está à venda.
A influência comercial vai dos grandes anúncios aos classificados, e
vende-se. A relevância de um órgão de imprensa é dada por sua influência
social e é o público quem decide isto. Se o jornal for relevante,
venderá bem seus anúncios.

(...) Mas, para se sustentar, não basta influência social. É preciso que
os anunciantes se interessem pelo veículo. E se o veículo não atrai mais
leitores, há um problema. Em meados dos anos 90, o presidente da Knight
Ridder, Tony Ridder, reuniu vários dos editores de seus jornais para
conversar sobre os destinos do negócio. Um deles perguntou o que é que
mais lhe dava medo, o que fazia com que perdesse o sono. "Classificados
eletrônicos", respondeu Ridder.

(...) Nominimo: A Internet conseguirá financiar grandes redações e a
manutenção de um repórter numa pauta por meses a fio?

Meyer: Algum modelo precisará ser encontrado porque a sociedade precisa
disto. Se as empresas não conseguirem fazê-lo, então ONGs o farão. E
isso já está acontecendo aqui, posso citar duas organizações. Uma é o
Centro por Políticas Eficazes (http://www.crp.org/) e a outra o Centro
pela Integridade Pública (http://www.publicintegrity.org/). Eles fazem
reportagens investigativas. O Centro pela Integridade Pública foi
fundado por um repórter de televisão que estava frustrado por conta de a
empresa na qual trabalhava não permitir que investigasse o que ele
considerava importante.

(...) Nominimo: Como o senhor vê blogs e o jornalismo amador online?

Meyer: Eles são como os panfletários dos primeiros cem anos após a
invenção da imprensa. O que aconteceu com aqueles que escreviam
panfletos é que após um tempo se organizaram e formaram jornais. Acho
que os blogueiros vão acabar montando algum tipo de organização
hierárquica. Não sei que forma terá, mas potencialmente é ótimo. Eles
terão que dar forma a algum tipo de instituição que possa ser
responsabilizada pelo que publica.

Nominimo: Quando o blogueiro solitário vende seus próprios anúncios,
rompe-se a separação entre quem vende anúncios e quem produz o
editorial. Esta quebra da separação entre Igreja e Estado não é preocupante?

Meyer: Provavelmente sim. Mas não podemos nos esquecer de que o que
chamamos nas redações de separação entre Igreja e Estado é uma divisão
artificial criada para resolver abusos sérios que existiam. Se o modelo
da influência estiver certo, as fontes de informação confiável serão
premiadas. Então, o blogueiro solitário que puser informação a serviço
de seus anunciantes será penalizado.

Nominimo: De certa forma, cada blogueiro é um ombudsman da blogosfera,
eles estão sempre apontando os erros um do outro.

Meyer: Sim, pois é. Existe um sistema de autocorreção.

(...) Nominimo: Quando foi a última vez que o jornalismo mudou tanto?

Meyer: Quando a imprensa foi inventada. Porque antes de Gutenberg, a
maior audiência possível para uma notícia era a limitada pelo alcance da
voz humana. A imprensa não apenas aumentou o tamanho da audiência como
criou registros que podiam ser transportados de um canto para o outro.
Isto foi o que fez a Igreja perder seu poder.

Nominimo: A Reforma?

Meyer: Sim, porque quando as pessoas começaram a ler a Bíblia por elas
mesmas, deixaram de precisar da Igreja para interpretá-la. Então, aquela
foi uma mudança extremamente profunda. É possível que as mudanças
trazidas pela Internet venham a ser igualmente profundas, de maneira que
não conseguimos ver ainda.

Nominimo: Já dá para ver isto?

Meyer: Não ainda. A velocidade do tráfego de informação aumentou e tenho
a impressão que isto vai acelerar mudanças sociais. Mas poderia já estar
acontecendo e simplesmente estamos próximos demais para perceber.

Nominimo: Quais serão os sinais para que percebamos estas mudanças?

Meyer: Acho que será o aumento da demanda por democracia. Porque uma
população informada é uma população poderosa, acho que foi James Madison
(considerado o pai da Constituição dos EUA) que falou algo parecido com
isso. Conhecimento é poder.

(...) Nominimo: Existe uma maneira antiga de fazer jornalismo que está
morrendo e uma nova nascendo?

Meyer: Sim. O velho jornalismo era dominado por um único jornal local e,
mesmo no nível nacional, sempre foram alguns poucos jornais que não
respondiam a ninguém. Com os blogueiros ou mesmo com outros usos da
Internet, esta cobrança da qualidade da informação está vindo e forte.
Isto será bom para o jornalismo, o padrão de qualidade vai ser mais
exigente. Grande parte da imprensa está acostumada com o monopólio da
informação e ficou arrogante. A nova mídia será muito mais humilde e
mais disposta a aprender.

Nominimo: Este jornalismo do futuro será muito fragmentado, então.

Meyer: Sim, este híbrido de jornais, televisão e rádio na Internet será
fragmentado, mas imagino que terá algum tipo de um gerenciamento
centralizado. E este gerenciamento será mais inteligente.

Nominimo: Mas ainda falta um modelo de sustentabilidade.

Estamos num momento de transição agora. O velho modelo econômico já não
sustenta mais e um novo ainda não surgiu.

Nominimo: Quais foram as reações a seu modelo de influência?

Meyer: Bem, ele parece ser intuitivo para algumas pessoas. Certamente o
era para nós no grupo Knight Ridder dos anos 70. As pessoas nos jornais
gostam do modelo porque ele oferece um princípio econômico para aquilo
que fazem. Minha preocupação é com a turma de Internet, não sei se eles
entendem isso.

Nominimo: Não?

Meyer: Eles não têm a mesma tradição de responsabilidade social que os
jornais desenvolveram. Mas eu posso estar errado. Veja os caras do
Google, que são obviamente muito inteligentes, algumas das decisões que
eles tomaram mostram que eles são capazes de buscar mais recursos sem
pôr em risco a integridade editorial.

Nominimo: Por exemplo?

Meyer: A decisão de separar anúncios dos resultados de busca. Ou a
decisão de vetar anúncios pop-up. Na verdade, agora que você me fez
parar para pensar, talvez o conceito seja até óbvio. Se eu estiver certo
e este modelo de influência for o melhor modelo econômico, o mercado vai
premiá-lo. Então, mesmo as pessoas que venham de fora da tradição
jornalística vão segui-lo para ter sucesso.
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