Reinaldo Cesar
unread,Jun 20, 2012, 7:45:09 PM6/20/12Sign in to reply to author
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to Associação dos Pós-Graduandos da USP São Carlos (A.P.G.)
Haiti – Universidade/Minustah:
Capacetes azuis brasileiros perturbam as aulas na Faculdade de
Ciências Humanas
Porto Príncipe, 18 de junho de 2012 [AlterPresse] – Militares
brasileiros da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti
(Minustah) tentaram, por três vezes, penetrar no dia 15 de junho no
recinto da Faculdade de Ciências Humanas (Fasch) da Universidade do
Estado do Haiti, provocando perturbação das aulas e desordem, que
tiveram como saldo a quebra de vários para-brisas de carros, constatou
a agência AlterPresse.
“Não sabemos a razão desta visita delinquente e inoportuna. Foi um
pânico generalizado. Não sabíamos a quem recorrer”, declarou o
coordenador da faculdade, Hancy Pierre, à AlterPresse.
Pierre acredita, porém, que “eles se enganaram de endereço. Eles devem
ir ao Palácio Nacional, como força de ocupação, para fazer a segurança
do presidente Michel Martelly. É uma vergonha para o país”.
A Associação dos Comunicadores e das Comunicadoras Populares (Akp), o
Círculo Gramsci e o Círculo de Estudos e de Intervenção no Trabalho
Social (Ceits), com sede na Fasch, condenaram conjuntamente “a
agressão da Minustah contra um espaço inviolável do país e reclamam
uma explicação aceitável das autoridades do país”.
“Estamos prestes a encerrar o período letivo. Eu me pergunto se esses
ocupantes vieram para assistir às aulas. De toda maneira, eles
deveriam antes passar nas provas para entrar na faculdade. E suas
armas não são canetas para tomar notas”, ironiza Pierre, ainda que
visivelmente nervoso.
O coordenador convidou o presidente Martelly “a utilizar os soldados
da Minustah, especialistas em violações, roubos e cólera, na sua
segurança no Palácio Nacional, em vez de deixá-los perturbar as
atividades daqueles que fazem a educação com E grande”.
Pierre assinala que a faculdade pretende exigir explicações do
Conselho Superior da Polícia Nacional, porque “a força de ocupação não
pode vir intimidar os estudantes depois de haver contaminado o país
com o vírus da cólera e violentado mulheres e homens”.
“Nós não aceitamos este disparate da Minustah. Não vamos tolerar que
venham asfixiar nossas mulheres e nossas crianças com gás
lacrimogêneo. Se vierem provocar os estudantes na faculdade mais uma
vez, todo o bairro reagirá. Não havia nenhuma desordem no bairro”,
avisa Dieunord Joseph, morador do beco Le Hasard, onde se situa a
Fasch.
Eles sabem muito bem que não se pode penetrar no recinto de uma
faculdade com armas”, continua Joseph.
Os fatos da agressão - Os estudantes assistiam tranquilamente a suas
aulas quando foram alertados da presença dos “visitantes indesejados”.
Era por volta das 11 horas da manhã. Pânico geral. As aulas foram
interrompidas.
Diante dos soldados, os estudantes fecham o portal. Nervosos, os
brasileiros atiram balas de borracha e lançam uma granada de gás
lacrimogêneo para o interior da faculdade, quebrando, entre outras
coisas, persianas.
“Não deixamos de lembrá-los de que não há ninguém a violar na Fasch e
que não temos necessidade de que eles venham nos infectar com a
cólera”, explica uma estudante à AlterPresse.
Uma colaboradora da AlterPresse no interior do consórcio de mídia
“Ayiti Kale Je” se vê obrigada a interromper a aula de jornalismo
investigativo que dava a estudantes de comunicação social.
Quase 14 horas. Os militares voltam à carga. Eles deixam o jipe na
avenida Christophe e sobem a pé a pequena colina que dá acesso à
faculdade, munidos de capacetes, escudos e mantos. E, uma vez mais, a
barreira da faculdade é fechada.
“Nós íamos enfim conseguir o quórum de 30 delegados para poder
realizar a assembleia mista e decidir sobre o processo eleitoral e
outras questões relativas à faculdade, quando eles (os soldados)
vieram estragar tudo”, explica o professor Roosevelt Millard, membro
da direção da assembleia mista representativa da Fasch.
Quase 16 horas. O terceiro horário de aulas deve começar. Alguns
estudantes e funcionários traumatizados, temendo represálias por parte
da força da ONU, já deixaram o recinto da faculdade. Outros, reunidos
em pequenos grupos, discutem. “O que eles vieram fazer exatamente?”,
pergunta um deles.
Os professores chegam, entre os quais Ary Régis, que se espanta ao
saber da visita dos capacetes azuis da ONU. “Mas... o que eles vieram
fazer?” questiona-se o professor de grandes olhos, atrás do volante do
seu carro.
Essa questão está em todas as bocas e parece não encontrar resposta.
Todo mundo está na sala. Mais de uma dezena de aulas estão para se
iniciar, quando se veem estudantes a correr em todas as direções.
“Minustah! Minustah! Minustah! Eles voltaram para nos atacar!”,
gritam. E as salas de aula se esvaziam.
Mais uma vez... soldados brasileiros da Minustah voltam e tentam
entrar na faculdade. A barreira novamente é fechada. Eles permanecem
mais de trinta minutos em posição de tiro. E chovem xingamentos da
boca dos estudantes. “Vão embora! Vão meter a paz em seu país! Vão
acalmar a desordem nas favelas! Deixem-nos estudar. Não há cabritos
para roubar! Não há mulheres e rapazes para violar aqui. A Fasch é um
espaço inocupado”, gritam os estudantes.
Vaval Josué, professor do Departamento de Psicologia, quer sair para
falar com eles. Várias pessoas o dissuadem, com medo que ele não seja
bem tratado pelos soldados, que já haviam ameaçado um estudante que
filmara uma parte da cena da manhã.
A Fasch, um desafio para a Minustah - Desde o desembarque da força da
ONU no país, em 2004, várias personalidades da Fasch, entre as quais o
professor Jan Anil Louis-Juste, assassinado em 12 de janeiro de 2012,
qualificaram sua presença como “ocupação”.Varias organizações
estudantis manifestaram abertamente sua hostilidade à presença da
Minustah, por meio de notas de imprensa, cartazes, bandeiras ou faixas
erguidos na entrada da faculdade.
Um painel com as letras UN (de ONU) riscadas, ocupou durante muito
tempo a entrada da faculdade.