Coordenação do Cuidado: segundo Starfield é um atributo essencial da Atenção Primária à Saúde. Pode ser definida como "a articulação entre os diversos serviços e ações relacionados à atenção em saúde de forma que, independentemente do local onde sejam prestados, estejam sincronizados e voltados ao alcance de um objetivo comum".
Num sistema de saúde complexo e com uma demanda reprimida enorme, como é o caso do sistema municipal de saúde do Recife, o papel coordenador da atenção primária tem que ser potencializado a partir de práticas que consigam ofertar mais serviços a quem mais precisa deles, seguindo o princípio da equidade. Isso não se resume a preencher um papel de encaminhamento. Experiências exitosas têm aberto canais de diálogo entre médicos da APS e de outros níveis, como é o caso do telessaúdeRS.
Mas, infelizmente, no sistema municipal de regulação a prática é outra. Ao identificar dois casos numa mesma semana de pacientes com doenças potencialmente ameaçadoras da vida (um caso de hemorragia digestiva alta e outro de nódulo complexo de grande volume de tireóide), tentei abreviar os caminhos destes pacientes na rede e tentei ligar para o médico regulador.
Primeira batalha: o operador local do sisreg (da USF em que atuo) está de férias, e não temos outra alternativa que não represar os encaminhamentos até o seu retorno. Segunda batalha: o contato telefônico do sisreg não é facilmente acessível (na nossa unidade somente o operador possuia esse contato), e para conseguir o número do telefone tivemos que percorrer uma intricada rede de whatts app.
Descoberto o telefone (3334-6742), atende alguém do apoio técnico. Me solicita o número da senha do sisreg, explico que não tenho por causa das férias da operadora local. Ele então me pede o cartão nacional de saúde, verifica que não há nenhuma solicitação em aberto para aqueles pacientes (o que era óbvio, o operador local estava de férias). Ele então diz que NÃO vai me passar o contato para o médico regulador, mas vai me transferir para o apoiador setorial do distrito IV. Conto novamente toda a história, ele diz que eu preciso dar um jeito de inserir a paciente no sistema. Solicito que o mesma o faça por mim, ou que crie uma senha para que eu possa fazer. Ela diz que não pode, que eu teria que resolver isso com o meu distrito sanitário (pensei que ela era justamente a pessoa responsável pela regulação do distrito IV!). Beirando a arrogância, diz que eu deveria entrar em contato com meu gerente de território ou ir no distrito (que fica a 12 - doze - quilômetros do meu local de trabalho) para inserir a solicitação nos sistema!
Retorno a ligação para o DS IV (alguém da intricada rede de whatts app que nos deu o primeiro telefone). Essa pessoa diz que não pode criar uma senha para mim, nem para ninguém da minha USF, mas que eu mandasse uma foto do encaminhamento para ela colocar no sistema por email (
regulac...@gmail.com). Economizei doze quilômetros de viajem.
O email foi enviado, não recebi nenhuma resposta, não tenho número de solicitação, não posso ligar para o médico regulador porque não serei atendido.
É muito estranho que o médico regulador ou os apoiadores não possam inserir uma simples solicitação no sistema, afinal, eles estão no topo da hierarquia, não acredito que eles não tenham essa governabilidade. Essa atitude, por exemplo, destoa do serviço de telessaúde do próprio município, onde você coloca uma dúvida clínica por telefone, por whatts app, ou via plataforma healthnet, e os teleconsultores respondem sua dúvida, ou, ao perceber que o caso precisa de encaminhamento, inserem (eles mesmos) o paciente no sistema de regulação, otimizando o fluxo de casos complexos e graves na rede.
Não tenho nenhum interesse em "furar a fila". Os pacientes de quem cuido não são mais importantes que os outros usuários do SUS Recife. Enquanto essas barreiras burocráticas de acesso estiverem sendo impostas pelo sistema de regulação, nem coordenação de cuidado, nem equidade, nem acesso serão garantidos. Vamos continuar na lógica do: "pegue esse papel e se vire para marcar". Seria muito mais simples, se a gente não se importasse.
Bruno Pessoa
Médico de Família da USF Cosme e Damião.
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Bruno Pessoa
Médico de Família e Comunidade - SMS Recife