1 dois 3, era outra vez

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123eraoutravez

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Sep 2, 2016, 9:20:25 AM9/2/16
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é O Punhado de Pó é

 

(Tradição Judaica)

 

 

N

um certo país, numa dada aldeia, vivia um homem rico e importante, que tinha por hábito instalar-se todas as manhãs no patamar da sua grande e bela casa, para ver passar os transeuntes. Via, com frequência, passar um mendigo, que ia apanhar lenha na floresta, enquanto cantarolava. Via-o também voltar, ao fim da manhã, com as costas curvadas pelo peso dos molhos de lenha, que ia por certo vender no mercado por algumas moedas de cobre.

Certa manhã, o homem rico interpelou o homem pobre:

— A tua coragem comoveu-me, amigo. Podes vir pedir-me, todas as manhãs, tudo aquilo de que necessitares, desde que sejam pedidos razoáveis, claro. Assim escusas de ir trabalhar tão arduamente na floresta.

O homem pobre refletiu longamente, sempre com o dorso curvado. Quando ergueu a cabeça, fitou o homem rico com o rosto tisnado e disse-lhe, a sorrir:

— Dá-me um punhado de pó.

O rico ficou espantado e mudo por uns instantes. Depois, curvou-se e apanhou um punhado de pó, que deu ao pobre. Este agradeceu-lhe e foi-se embora, a caminho da floresta, cantarolando como de costume. A partir desse dia, todas as manhãs, o rico curvava-se e dava ao pobre um punhado de pó. Até ao dia em que se zangou:

— Meu Deus! Vens aqui todas as manhãs buscar um punhado de pó quando podes muito bem apanhá-lo tu mesmo?

O miserável desatou a rir e retorquiu:

— Prefiro que sejas tu a fazê-lo. Como a ti tudo foi dado, gosto de te ver suar um pouco todas as manhãs. Reconforta-me a alma e dá-me coragem para enfrentar o dia. Não quero as tuas riquezas, quero um pouco da tua atenção afetuosa. Não queres oferecer-me este tão pequeno prazer?

O homem rico ainda fez menção de protestar, mas só conseguiu resmungar. E, subitamente, desatou a rir. O seu coração tinha-se aberto a uma verdade essencial. Então, voltando a baixar-se, apanhou um punhado de pó e deu-o ao miserável.

 

ééé

Jean-Jacques Fdida

La naissance de la nuit et autres contes du monde entier

Paris, Didier Jeunesse, 2006

Tradução e adaptação

 

No intuito de darmos continuidade ao anterior projecto, “Um dois três era uma vez”, embora em moldes que se pretendem mais abrangentes, reiniciamos o envio semanal de pequenas histórias para crianças e adolescentes, por vezes acompanhados de textos dirigidos a um público adulto, convidando à reflexão, e também ao sonho, que tão necessários se tornam numa sociedade em que o materialismo tem crescido desmedidamente, a ponto de abafar os valores mais genuínos do ser humano: o respeito pelos outros, a ternura, a delicadeza, a compaixão pelos que sofrem, a generosidade.

Esperamos que o projecto, que agora passa a chamar-se “Um dois três, era outra vez”, continue a encontrar leitores assíduos entre aqueles a quem se dirige, e possa proporcionar agradáveis momentos de partilha entre pais e filhos.

 

 

 

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E…diga-nos o que pensa das histórias que lhe forem chegando!

 

Responda-nos para: 1...@isep.ipp.pt

 

Ideia: Teresa Tudela e Betina Campos Neves

 

 

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O Punhado de Pó - Jean-Jacques Fdida.pdf

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Sep 9, 2016, 1:25:28 PM9/9/16
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A aldeia de Todos-Reis

 

 

Há muitos, muitos anos, havia uma aldeia que se chamava Todos-Reis.

Na aldeia de Todos-Reis, os habitantes eram mesmo todos reis. Então, todos os reis dessa aldeia viviam num castelo real e todos levavam uma vida de rei.

 

Sem título

Na aldeia de Todos-Reis, ninguém recebia ordens de ninguém porque ninguém manda num rei.

Mas todos eles queriam dar ordens a toda a gente.

Assim, as discussões eram constantes.

 

Um dia, chegou um jovem à aldeia de Todos-Reis.

Não era um rei e não vivia num castelo...

Vinha de uma longa viagem e sentou-se à sombra de uma árvore para descansar.

O seu descanso foi logo interrompido quando chegou um rei.

— Eu sou o rei — disse. E acrescentou:

— Para descansares à sombra da minha árvore tens de me pagar uma taxa.

Surpreendido, o jovem desconhecido, preparava-se para pagar o montante devido.

Nem teve tempo de pegar na bolsa pois chegou outro rei que lhe disse:

— Não dês ouvidos a esse bandido com uma coroa na cabeça. Sou eu o rei da aldeia de Todos-Reis e é a mim que deves pagar.

O jovem forasteiro começou a esfregar os olhos, pensando que estava a ter visão dupla.

Pouco depois, um outro rei veio ter com eles.

— Nesta aldeia, não há nenhuma taxa para dormir à sombra de uma árvore. Mas há uma taxa para se deitar na relva do rei e, como aqui o rei sou eu, é a mim que tens de pagar.

 

Em pouco tempo, o jovem viu-se rodeado por todos os reis da aldeia de Todos-Reis que chegavam uns atrás dos outros para exigir o pagamento ora de um imposto, ora de uma taxa.

E logo começaram a discutir violentamente uns com os outros.

O forasteiro tentava acalmá-los.

— Isto é um disparate! — disse — Em todas as aldeias existe um rei, mas um único rei! Digam-me qual de vocês é o rei e eu pagarei o que lhe é devido.

Um dos reis disse:

— Ó forasteiro, já que não tens papas na língua, diz-nos, na tua opinião, quem de entre nós é o rei.

— Sim, diz-nos tu quem é o rei — empertigaram-se os outros em coro.

O forasteiro pensou um pouco:

— Pois bem, em primeiro lugar, um rei, para ser mesmo um rei, deve ter muita paciência.

Os reis responderam em coro:

— Certo! Isso é fácil! Todos nós aqui temos muita paciência. Diz-nos já qual de nós é o rei.

— Penso que um rei deve também ser inteligente. 

— Eu, uma vez, vi um livro!

— Eu tenho um primo médico!

— Eu sei distinguir um cavalo de um burro e nunca me engano!

— Eu sei falar com os olhos fechados!

— Eu sei contar pelos dedos até nove!

— Muito bem, muito bem! Vejo que são todos muito inteligentes e, assim, não consigo ainda decidir-me. Um rei deve ser também muito corajoso.

— Eu vi uma vez um rato e não gritei!

— Eu dei um salto muito alto!

— Eu, esta noite, vou dormir sem o meu ursinho!

— Eu sou capaz de comer brócolos crus!

— Eu não tenho medo de animais selvagens!

— Bem, já entendi. Na verdade, sois todos muito fortes, corajosos e inteligentes! Vou testar-vos pela última vez e assim, finalmente, poderei dizer quem é o rei da aldeia de Todos-Reis. Prestem muita atenção: o rei será o primeiro a sair da aldeia e o último a regressar.

Sem refletir, os reis partiram a toda a velocidade, cada qual determinado em ser o primeiro a partir e… o último a voltar.

O estrangeiro teve assim todo o tempo do mundo para descansar tranquilamente à sombra da árvore e, depois, ir embora sem pressas.

Só um último pormenor: na aldeia de Todos-Reis, já há muito tempo que não se vê um rei…

 

 

 

Tulio Corda

Le village de Tous-Rois

Paris, Minedition, 2005

(Tradução e adaptação)

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A aldeia de Todos-Reis - A4 - Tulio Corda.pdf

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Sep 16, 2016, 12:41:28 PM9/16/16
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UMA QUESTÃO DE BOTAS

 

 

Agasalhei bem a minha filha de seis anos, Renee, para a sua curta caminhada até à escola. Calças para a neve, casaco, cachecol, luvas, e as botas novas. Renee estava tão entusiasmada com as botas novas que as tinha usado dentro de casa durante todo o fim-de-semana, prescindindo apenas delas para tomar banho e para se deitar.

Quando saiu, acompanhada pelos dois irmãos mais velhos, servi-me de mais uma chávena de café, liguei o rádio e comecei a registar mentalmente as tarefas a fazer. Não estava muito adiantada na limpeza da cozinha quando fui interrompida pela notícia de que a escola ia encerrar mais cedo por causa de uma tempestade de neve.

Alguns minutos depois, os meus filhos entraram em casa.

Inclinei-me para ajudar a minha filha a descalçar as botas.

Renee, onde estão as tuas botas novas? perguntei, surpreendida com a bota encardida na minha mão.

Estas são as minhas botas novinhas sorriu.

Não, querida, estas não são as tuas botas novas. Olha, estão sujas. As fivelas estão partidas e a neve entrou pelo buraco lateral.

Sim concordou ela, não percebendo a pergunta implícita na minha afirmação. As roupas da minha amiga são todas assim e estas botas ficavam-lhe pequenas.

Mas, o que aconteceu às tuas botas?

Mãe, a minha amiga precisava de botas. As dela já estavam pequenas de mais e ela tinha os pés frios. As minhas botas estavam quentinhas, serviam-lhe, e ficavam-lhe bem. Como ela estava feliz, eu também fiquei feliz. 

De repente, a bota feia que tinha na mão pareceu-me tão bonita como o sapatinho de cristal dos contos. A clareza da verdade encheu-me o coração. Não só a minha filha tinha feito a coisa certa ao dar as botas novas a alguém que precisava delas, como o tinha feito da forma certa.

Ou seja, como uma doadora feliz.

Cynthia Hamond

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Uma questão de botas - A4 - Cynthia Hamond - Canja de Galinha.pdf

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Sep 23, 2016, 12:39:12 PM9/23/16
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Através dos olhos do meu avô

 

img693De todas as casas que conheço, a que eu prefiro é a do meu avô. O meu amigo Peter tem uma casa nova, em vidro, com passeios de pedras arredondadas no jardim que não levam a lado nenhum. E a Maggie vive ao lado, numa casa velha de madeira, com quartos atrás de quartos, todos com portas esculpidas e puxadores em metal. São casas bonitas, mas a casa do meu avô é a minha preferida.

Porque eu vejo-a através dos olhos do meu avô.

 

O meu avô é cego. Ele não vê a casa da mesma forma que eu. Tem a sua própria maneira de ver.

De manhã, o sol atreve-se através das cortinas e pousa nos meus olhos. Eu desapareço por debaixo das mantas, mas a luz persegue-me. Desisto, atiro as mantas para trás e corro até ao quarto do meu avô.

O sol acorda o meu avô de maneira diferente. Ele diz que o sol lhe toca e, aquecendo-‑o, desperta-o. Quando eu espreito, o meu avô já está a fazer os seus exercícios matinais, fletindo e esticando-se ao lado da cama. Para e sorri, porque me ouve.

 Bom dia, John.

 Onde está a avó? pergunto.

 Não sabes? Fecha os olhos, John, e vê através dos meus olhos.

Fecho os olhos.

Em baixo, ouço o som das panelas e da água a correr que antes não ouvia.

 A avó está na cozinha a preparar o pequeno-almoço respondo.

Quando abro novamente os olhos, vejo o avô a concordar comigo. É alto, com cabelo grisalho. E os seus olhos são de um azul intenso, ainda que não consigam ver.

Faço exercício com o meu avô. Para cima, para baixo. Depois, repito com os meus olhos fechados.

 Um, dois, diz o avô, três, quatro.

 Espera! peço.

Ainda estou no um, dois, quando o meu avô já vai no três, quatro. Deixo-me cair para o lado. Três vezes. O meu avô ri-se ao ouvir-me cair na carpete.

 Venham tomar o pequeno-almoço. Está pronto! diz a avó.

 Cheira-me a ovos fritos diz o avô.

Inclina a sua cabeça perto da minha e acrescenta:

E torradas com manteiga.

 

O corrimão de madeira da escadaria tornou-se macio, tantas são as vezes em que o avô o percorre com os dedos, para cima e para baixo. Caminho atrás dele, seguindo com os meus dedos o seu trilho. Entramos na cozinha.

 Cheira-me a flores diz o avô.

 Que flores? pergunto.

Ele sorri. Gosta de adivinhas...

 Não são violetas, John, não são peónias…

 São cravos! grito.

Eu gosto de adivinhar…

 Meu palerma!

O avô ri-se.

img692 São malmequeres. Não é, avó?

A avó também se ri.

 Demasiado fácil diz colocando dois pratos de comida à nossa frente.

Não é nada fácil protesto. Como é que o avô consegue adivinhar? Todos os cheiros se misturam no ar!

 Fecha os teus olhos, John diz a avó. Diz-me o que é o pequeno-almoço.

 Cheira-me a ovos. Cheira-me a torradas respondo com os olhos fechados. E a mais qualquer coisa. E há algo que não me cheira bem…

 São os malmequeres diz a avó a sorrir.

Quando comemos, o prato de comida do avô parece um relógio.

 Dois ovos no nove e a torrada no dois diz a avó para o avô. E uma colherada de compota.

 Uma colherada de compota no seis, digo ao meu avô.

Faço também um relógio com o meu prato de comida, e como através dos olhos do meu avô.

 

Depois do pequeno-almoço, sigo-o através da sala de jantar até à sala de estar. Abre a janela para sentir o tempo lá fora, dirige-se à mesa onde está o seu cachimbo, depois vai ao canto da sala e pega no violoncelo.

 Tocas comigo, John? pergunta.

Afina os violoncelos sem olhar. Eu toco com a partitura diante de mim. Sei tudo sobre agudos e bemóis. Eu leio-os, mas o avô toca-os com os dedos. Durante um momento, fecho os olhos e toco através dos olhos do meu avô. Dedilhando, a minha mão sobe e desce pelo braço do violoncelo, em direção às cravelhas para os bemóis, ao cavalete para os agudos. Com os olhos fechados, o meu arco desliza pelas cordas.

 Escuta diz o avô. Vou tocar um trecho que aprendi quando tinha a tua idade. Era o meu preferido.

Toca a melodia enquanto eu escuto. É assim que o meu avô aprende novas melodias. A escutar.

 Agora diz o avô vamos tocar juntos.

 Está ótimo elogia ele enquanto tocamos.

 

Mais tarde, a avó traz a argila para esculpir a cabeça do avô.

 Está quieto! resmunga a avó.

 Não estou! responde ele, imitando a voz resmungona e fazendo-nos rir aos três.

Enquanto a avó trabalha, o avô pega num bocado de madeira que segura enquanto pensa. Os seus dedos movimentam-se para trás e para diante, tornando a madeira suave como o corrimão das escadas.

 Também posso segurar um bocado de madeira enquanto penso? pergunto.

O avô vai ao bolso da camisa e atira um bocado de madeira na minha direção, que eu apanho. Está lisa, sem quaisquer farpas.

 O rio vai cheio diz a avó.

O avô acena levemente com a cabeça.

  Voltou a chover ontem à noite. Ouviste a água a gorgolejar na caleira?

img689Enquanto conversam, imagino um rio a formar-se, e vou passando os meus dedos pela madeira que vai passar o inverno no meu bolso… Quando não estiver em casa do avô, posso continuar a pensar nele, na avó e no rio.

 

Quando a avó termina, o avô percorre a escultura com a sua mão. Os seus dedos são macios e rápidos como as borboletas.

 Parece-se comigo diz, surpreendido.

Os meus olhos já me disseram que se parece com o avô, mas ele mostra-me como tocar primeiro o seu rosto com os meus dedos médios, e depois tocar o rosto de argila.

 Finge que os teus dedos são como água diz-me.

Os meus dedos de água deslizam pela cabeça de argila, enchendo os espaços ocos dos olhos como se fossem pequenas poças, antes de deslizarem até às faces. Desta vez são os meus dedos que o dizem.

Eu e o meu avô saímos, atravessamos o pátio e caminhamos pelo campo até ao rio. O avô não nasceu cego. Ele lembra-se do brilho do sol espelhado no rio, das cenouras bravas do prado e de cada dália do seu jardim. Mas toca suavemente o meu cotovelo enquanto caminhamos.

 Sinto um vento sul diz o avô.

Eu consigo dizer de que lado sopra o vento porque vejo para onde as árvores se inclinam. Já o avô sabe dizê-lo quando toca a erva do prado ou quando sente a agitação do sopro no seu cabelo.

 

img687Quando chegamos à margem do rio, vejo que a avó tinha razão. O rio vai cheio e a água já chegou ao salgueiro. Corre à volta e entre as raízes da árvore, abrindo caminhos, como os do avô no corrimão das escadas e no bocado de madeira. Vejo um melro com uma mancha vermelha na asa, sentado no morrão-dos-fogueteiros. Sem pensar, aponto com o meu dedo.

 Que pássaro é aquele, avô? pergunto entusiasmado.

 Um melro com a asa vermelha diz o avô prontamente.

Não consegue ver o meu dedo a apontar, mas ouve o canto do pássaro!

 E algures, atrás do melro continua está um pardal.

Ouço um canto áspero e olho, até descobrir um pássaro da cor da terra. A avó chama por nós da entrada da casa.

 A avó cozeu pão para o almoço diz o meu avô, feliz e fez o meu chá preferido, o das ervas aromáticas.

Fecho os olhos, mas tudo o que consigo cheirar é a terra molhada junto ao rio.

 

Quando estamos de regresso a casa, o avô para de repente. Inclina a cabeça para o lado, à escuta. Aponta um dedo para cima.

 Grasneiros murmura.

Olho para cima e vejo um bando de gansos, voando em V, nas nuvens.

 Gansos do Canadá digo-lhe.

 Grasneiros insiste o avô. E rimo-nos.

Subimos o caminho novamente até ao pátio, onde a avó está a pintar as cadeiras da entrada. O avô cheira a tinta.

 De que cor é, avó? pergunta. Não consigo cheirar a cor.

 Azul digo-lhe a sorrir azul como o céu.

 Azul como os olhos do avô diz a avó.

 

Quando era mais novo, antes de ficar cego, o avô fazia como eu. Agora, sempre que bebemos chá e almoçamos na varanda, o avô deita o seu próprio chá, enquanto passa o dedo pela borda interior da chávena. E assim sabe quando está cheio. E nunca queima o dedo! Depois, quando lavamos os pratos, ele sente-os enquanto os enxuga. E até me devolve alguns para os lavar novamente.

 Para a próxima diz o avô, fingindo-se zangado eu lavo e tu enxugas.

 

img685De tarde, o avô, a avó e eu, trazemos os nossos livros para fora e lemos debaixo da macieira. O avô lê o livro com os seus dedos, sentindo os pontos em relevo da escrita Braille. E, enquanto lê, o avô desata muitas vezes a rir às gargalhadas.

 Conta-nos o que é engraçado diz a avó. Lê para nós, avô.

E ele assim faz. A avó e eu fechamos os livros. Um esquilo cinzento desce pelo tronco da macieira, com a cauda levantada. E também parece escutar. Mas o avô não o vê. Depois do jantar, o avô liga a televisão. Eu vejo, mas o avô escuta, e a música e as palavras dizem-lhe quando algo é perigoso ou engraçado, feliz ou triste.

De uma maneira ou de outra, o avô sabe quando é noite e leva-me para cima, para o meu quarto, e mete-me na cama. Inclina-se para me dar um beijo, com as mãos a tocar a minha cabeça.

img684  Precisas de cortar o cabelo, John diz.

Antes de sair, o avô puxa o interrutor por cima da cama e apaga a luz. Mas, por engano, ela fica ligada. Deixo-me ficar um momento a sorrir, e então levanto-me para apagar a luz. Depois, quando está escuro para mim da mesma forma que está escuro para ele, tento ouvir os sons da noite que o avô ouve. A casa a ranger, as aves a cantar as últimas melodias do dia, o vento a murmurar na árvore junto à minha janela…

Então, de repente, ouço o som dos gansos no céu. Estão a sobrevoar a casa.

 Avô! chamo suavemente, esperando que ele também os ouça.

 Grasneiros responde ele.

 Dorme, John diz a avó.

O avô diz que a voz da avó sorri para ele. Ponho-a à prova.

 Como? pergunto-lhe.

 Disse-te para dormires responde ela.

Fala com firmeza, mas o avô tem razão. A voz dela também sorri para mim. Sei que sim. Porque também a vejo através dos olhos do meu avô.

 

Patricia MacLachlan

Through grandpa’s eyes

New York, HarperCollins, 1980

(Tradução e adaptação)

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Através dos olhos do meu avô - A4 - Patricia MacLachlan.pdf

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Sep 30, 2016, 12:39:56 PM9/30/16
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ë MANTÉM AS LUZES ACESAS, ABBIE ë

 

Nota dos Autores

 

Os faroleiros de hoje em dia têm eletricidade, radar, e rádio para os auxiliar na sua importante tarefa. Contudo, durante décadas, apenas simples candeias e faroleiros dedicados evitavam que muitos navios naufragassem contra rochas perigosas e pontiagudas.

Abbie Burgess e a família mudaram-se para Matinicus Rock, ao largo da costa do Maine, em 1853, quando o seu pai passou a ser faroleiro nesse lugar. A 19 de janeiro de 1856, o Capitão Burgess saiu em busca de provisões de que a família desesperadamente necessitava e de petróleo para as lanternas, deixando as luzes a cargo da filha Abbie. Pouco depois de ele ter saído com o barco, rebentou uma tempestade tremenda, que durou quatro semanas. Durante todo esse tempo, Abbie e as irmãs tomaram conta da mãe doente, e Abbie manteve sempre as luzes acesas.

Abbie Burgess continuou a cuidar de faróis até ao fim da sua vida. O seu túmulo está mesmo assinalado por um pequeno farol, uma cópia miniatura do farol de Matinicus Rock. A sua história é famosa na longa saga de faroleiros corajosos. Mantém as Luzes Acesas, Abbie baseia-se nos seus próprios relatos da tempestade e em informações provenientes de outras fontes históricas.

 

ëëë

 

Abbie olhou através da janela do farol. As ondas batiam com força nos rochedos lá em baixo. Ao largo, no mar, um navio passava em segurança.

Vais hoje de barco até à cidade, papá? perguntou Abbie.

Sim respondeu o Capitão Burgess. A tua mãe precisa de medicamentos. As lanternas precisam de petróleo. Nós precisamos de comida. Como o tempo está bom, é perfeitamente seguro sair no Puffin.

E se não voltares hoje? perguntou Abbie.  Quem vai cuidar das luzes?

O pai sorriu.

Tu, Abbie.

Nunca fiz isso sozinha.

Já preparaste as mechas antes disse o pai. Já limpaste as lanternas e colocaste o petróleo. A tua mãe está demasiado doente para o fazer. As tuas irmãs são ainda muito pequenas. Tens de manter as luzes acesas, Abbie. Muitos navios estão a contar com as luzes do nosso farol.

Abbie seguiu o pai escada abaixo. Num qualquer outro dia, teria ido a correr.

Esta manhã, porém, sentia as pernas demasiado pesadas para conseguir correr. Caminharam ambos até à costa.

O Capitão Burgess saltou para dentro do barco, içou a vela e afastou-se da costa.

Mantém as luzes acesas, Abbie! pediu o Pai.

Claro que sim, papá! assentiu Abbie.

Abbie sabia que o pai era um excelente marinheiro. Que conseguia velejar com chuva e nevoeiro. Contudo, se o vento voltasse a soprar com intensidade, não poderia voltar a Matinicus Rock nesse dia. As ondas seriam demasiado altas para o pequeno barco.

Então, Abbie teria de zelar pelas das luzes.

 

 

Abbie olhou para as duas torres do farol, que pareciam tão altas como o próprio céu. A casa de pedra da família ficava entre as duas torres. Não muito distante da casa, ficava o galinheiro. Abbie foi alimentar as galinhas. Atirou algum milho, que as galinhas, famintas, se apressaram a comer. E depois sentou-se numa rocha e ficou a observá-las.

Não comam tudo tão depressa, pois já não resta muito milho. Mas o papá vai trazer-vos mais.

 Abbie suspirou.

Espero que ele regresse a casa ainda hoje. Estou com medo de ter de cuidar das luzes sozinha.

Patience deu uma bicada no sapato de Abbie.

Hope virou a cabeça. Charity agitou as penas.

Abbie sorriu.

Vocês fazem-me sempre sentir melhor.

Abbie foi para casa. A irmã Esther abriu-lhe a porta e perguntou:

Quando é que o papá volta?

Esta tarde respondeu Abbie.

E se começa uma nova tempestade? perguntou a irmã Mahala.

Não te preocupes disse Abbie. O papá vai chegar assim que puder. Vocês as duas vão depressa buscar uns ovos. Como está a mamã? - perguntou Abbie à irmã Lydia.

Ainda está demasiado fraca para se poder levantar respondeu Lydia. Ainda bem que o papá saiu hoje, porque ela precisa de remédios e estamos a ficar sem comida.

Então temos que fazer render a comida disse Abbie. Se houver nova tempestade, o papá não vai conseguir voltar hoje.

 

Naquela tarde, Abbie ajudou Mahala a escrever cartas. Esther ajudou Lydia a fazer a ceia. Todas ajudaram a cuidar da mãe.

O céu ficou cinzento e o vento formou uma cobertura branca nas ondas. Era sinal de que vinha aí outra tempestade de inverno.

Quando o sol se pôs, Abbie vestiu o casaco para ir acender as luzes. Subiu as escadas do farol e, quando chegou lá acima, olhou lá para fora. As ondas pareciam enormes colinas e o vento fustigava com chuva as janelas. Nem sequer conseguia ver a Ilha Matinicus. Sabia que o pai não ia poder regressar e sentia-se assustada. E se não conseguisse acender as luzes? Desejou que o irmão Benjy estivesse em casa. Mas ele estava longe, na pesca.

Com as mãos a tremer, pegou numa caixa de fósforos. Acendeu um fósforo, que logo se apagou. Acendeu outro, que se manteve aceso. Abbie colocou o fósforo junto da mecha da primeira lanterna. A mecha acendeu. A luz fez com que Abbie se sentisse melhor. Acendeu todas as lanternas, uma a uma. Deslocou-se em seguida para a outra torre do farol, onde também acendeu todas as lanternas.

Lá fora, no mar, um navio viu as luzes e desviou-se para bem longe dos perigosos rochedos.

 

Nessa noite, o vento soprou com força. Abbie não conseguia dormir. Estava sempre a pensar nas luzes. E se se apagassem? Os navios podiam despedaçar-se!

Levantou-se, vestiu o casaco e subiu as escadas do farol mesmo a tempo. O gelo que se formara nos vidros das janelas não deixaria ver a luz das lanternas. Durante toda a noite, Abbie andou escada acima e escada abaixo, raspando o gelo das janelas e verificando cada lanterna. Nem uma só se apagou.

De manhã cedo, o vento ainda soprava e as ondas estavam encrespadas. Abbie apagou cada uma das luzes, limpou cada uma das lanternas e preparou as mechas de que iria necessitar mais tarde. Também acrescentou mais petróleo.

Depois foi tomar o pequeno-almoço e, finalmente, foi deitar-se.

Durante mais de uma semana, o vento e a chuva bramiram. A família chegou mesmo a ter de se abrigar numa das torres. Uma manhã, a água era tanta que passou por debaixo da porta.

As minhas galinhas! exclamou Abbie. Vão ser arrastadas pelo mar.

Não vás lá fora senão vais ser arrastada também! avisou Lydia.

Abbie pegou num cesto, decidida.

Não posso abandoná-las! disse.

Abriu a porta e saiu para a chuva. Foi com dificuldade até ao galinheiro. Pôs Patience debaixo do braço e colocou Hope e Charity dentro do cesto.

Mesmo nesse momento, ouviu o som de uma onda enorme a chegar.

Parecia o som de um comboio! Abbie correu para a torre.

Abram a porta! gritou.

Lydia abriu a porta. Abbie correu para dentro. A onda despedaçou-se sobre Matinicus Rock e arrastou consigo o galinheiro. As meninas empurraram a porta para que se mantivesse fechada, mas uma onda atingiu-a em cheio. Abbie sentiu o farol a abanar.

 

Dia sim, dia não, ou nevava ou chovia. Abbie estava cansada de vento, de ondas, de subir as escadas do farol. E estava farta de ovos.

 

 

Então, um dia, as ondas pareceram ser mais pequenas, o céu menos negro e o vento menos forte. Ao fim da tarde, as meninas ouviram uma voz lá fora.

Era o pai.

Correram para o ajudar a transportar as caixas, nas quais havia medicamentos para a mãe, petróleo para as lanternas, correio, comida. E milho para as galinhas de Abbie…

Tive medo por ti disse o pai. Procurei as luzes todas as noites. Quando as via, sabia que vocês estavam bem.

Abbie sorriu.

Eu mantive as luzes acesas, papá.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Peter and Connie Roop

Keep the Lights Burning, Abbie

Minneapolis, Millbrook Press, 1985

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Mantém as luzes acesas, Abbie - A4 - Peter and Connie Roop .pdf

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Como posso faltar,

se sou professor?

 

 

Não podemos ensinar nada aos outros.

Apenas podemos ajudá-los a procurar no seu interior.

Galileu

 

No início dos anos oitenta, eu trabalhava com um grupo de estudantes do ensino secundário, alunos esses que, a nível da leitura, se equiparavam aos do segundo e terceiro ano do básico. Embora tivesse de lutar constantemente contra o seu desinteresse, continuava a trabalhar com aqueles jovens que, praticamente, já tinham perdido toda a esperança de qualquer sucesso escolar. Na melhor das hipóteses, vinham às aulas esporadicamente. Acho que alguns deles só vinham porque os amigos naquele dia também vinham, e não com o intuito de aprender.

O comportamento era um desastre! A ira, o cinismo, o sarcasmo, a certeza do fracasso e de serem ridicularizados ou insultados era a tónica dominante do discurso destes rapazes. Tentei ensiná-los em pequenos grupos e individualmente, mas tenho de admitir que, na maior parte dos casos, os resultados não foram famosos. Apesar de haver alguns que pareciam reagir positivamente, era impossível prever até quando, porque, de um momento para o outro, ficavam mal-humorados, enfadados, sujeitos a um ataque de ira inexplicável.

Havia ainda um outro problema: naquela altura, quase não havia material de leitura para recuperar alunos do secundário assim tão fracos, sobretudo algo que os interessasse verdadeiramente: temas de relacionamento, namoro, desporto, automóveis…. Achavam os textos demasiado infantis e ultrapassados. Infelizmente, as leituras mais interessantes eram demasiado difíceis para o nível deles, o que só lhes trazia frustração. Muitos deles queixavam-se continuamente. José, um rapaz alto e magro, com um sotaque acentuado, resumia a situação da seguinte forma: “Sabe, prof., é muito chato. E estúpido. Porque é que temos de ler isto…?

Uma ideia começou, então, a germinar na minha cabeça. Perguntei ao diretor da escola se podia pedir uma bolsa para um projeto de ensino. O dinheiro que recebemos não foi muito, mas foi o suficiente para um projeto-piloto que teria a duração dos seis últimos meses do ano escolar. O projeto era simples e teve muito sucesso. “Contratei” os meus alunos como professores de leitura. Disse-lhes que a escola básica ali próxima tinha crianças do primeiro, segundo e terceiro anos que necessitavam de ajuda para aprender a ler. E que eu precisava muito de quem estivesse disposto a ajudar-me a ensinar aquelas crianças… Perguntaram logo se aquele trabalho era durante as aulas ou depois.

— Oh! Durante as aulas. É um trabalho que substitui algumas aulas. Só temos que lá ir 2 horas todos os dias e trabalhar com os miúdos. Importa não esquecer que as crianças vão ficar muito dececionadas se vocês, os “professores”, não aparecerem ou se não trabalharem cuidadosamente. A vossa responsabilidade será grande.

À exceção de um, todos os meus alunos aceitaram fazer parte do programa. O que tinha recusado mudou de ideias ao fim de uma semana, quando ouviu os colegas falar do quanto gostavam de trabalhar com as crianças. Os alunos da primária estavam reconhecidos pela ajuda, mas mais ainda pela atenção que lhes dedicavam os grandes…. Viam-nos como uns heróis. Cada estudante era responsável por duas ou três crianças. O trabalho consistia em lerem-lhes contos e depois fazê-los também ler em voz alta. E desenhar…

O meu objetivo era encontrar uma forma de motivar aqueles estudantes para lerem livros adaptados aos mais novos. Pensei que se conseguisse levá-los a ler com regularidade, acabariam certamente por melhorar as suas competências... E confirmou-se que eu tinha razão: no final do ano, os exames mostraram que a maior parte deles tinha feito um progresso de um, dois e até três níveis de leitura! Mas a mudança mais espetacular deu-se a nível da atitude e do comportamento dos meus alunos. Não esperava que se vestissem melhor, nem que cuidassem da sua apresentação. Também não esperava que diminuísse o número de rixas e aumentasse o número de presenças às aulas. Mas tudo isto aconteceu também…

Um dia, quando, pela manhã, cheguei ao parque de estacionamento da escola, vi o José dirigir-se para a porta. Tinha ar de doente.

— O que tens, José? — perguntei. — Parece que estás com dores de cabeça.

Aquele aluno era o segundo da turma com mais faltas às aulas.

— Não me sinto lá muito bem, Professora — respondeu-me.

— Então, porque vieste à escola nesse estado? Porque não ficaste em casa? — perguntei.

A sua resposta deixou-me sem palavras.

— Sabe, não podia faltar. Sou professor! Ia fazer falta aos meus alunos, não acha?

Sorriu e entrou na escola.

Hanoch McCarty

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O segredo de Ouma Ruby

 

Num subúrbio chamado Riverlea, vive Chris com os pais, dois irmãos e uma irmã. Chris adora ler. E lê de tudo: livros, banda desenhada, revistas, até mesmo os rótulos da garrafa da polpa de tomate.

Ouma Ruby, a sua avó, vive em Coronation, que fica bastante longe dali. Mas Chris adora visitá-la. A avó tem árvores de fruta no quintal e, no verão, os ramos vergam com o peso dos pêssegos, damascos e uvas. As amoras oferecem a todos um sorriso de cor púrpura. Em casa de Ouma Ruby vivem dúzias de primos e tios. E há sempre alguém a cantar, a tocar música numa guitarra artesanal, ou a contar piadas.

É por isso que Chris adora ir para casa da avó nas férias escolares.

Numa manhã de sol brilhante, Chris salta da cama. Empoleirados nos ramos das árvores e nos fios dos cabos elétricos, os pardais e as rolas bravas cantam. Chris está muito entusiasmado porque hoje é um dia especial. Tem de se encontrar com a sua avó na cidade, embora não saiba porquê. Tudo o que a avó disse foi “Logo verás.”

Chris toma banho e veste os calções pretos e a camisa azul. Depois, apanha um autocarro que vai para a cidade. Quando chega, dirige-se para a esquina das ruas Pritchard e Diagonal, onde ficou de se encontrar com a avó. Há centenas de pessoas a passar por ali, mas não há sinais dela. Será que ele se enganou no dia? Será que está na esquina certa?

De repente, a avó chega e dá-lhe um beijo.

— Qual é a surpresa, Avó? — pergunta logo Chris.

Mas Ouma apenas ri e diz:

— Já vais ver, já vais ver.

 

Pega-lhe na mão e caminham pela rua abaixo, passando pelas lojas e pelos vendedores ambulantes indianos, que estão sentados atrás de pequenas montanhas vermelhas de pó de caril e de montanhas amarelas de açafrão-das-Índias. Para, por fim, diante de uma livraria.

Entram na loja.

Há livros por todo o lado. Livros de aventuras, de viagens, livros sobre o sol e as estrelas, sobre as pessoas e os lugares de África. Ouma Ruby olha para o neto entusiasmado e sorri:

— Podes escolher dois — diz.

— Dois! Obrigado, Avó!

Chris escolhe dois livros e mostra-os à avó, que coloca os óculos para os ver. Em seguida, folheia cada página devagar.

— Boas escolhas! — concorda Ouma.

Mal paga os livros ao homem atrás do balcão, Chris começa logo a ler um deles.

 

Duas semanas depois chega um dia especial. É o dia 29 de maio, dia do aniversário da avó. Chris sente-se triste, porque não tem prenda para ela. Queria comprar-lhe uma carteira. Ou uns brincos. Ou um lenço azul. Mas não tem dinheiro. De repente, tem uma ideia. “Vou escrever-lhe uma carta”, pensa. “E na carta vou dizer-lhe o quanto a amo. Vou pedir-lhe que a leia na festa para que todos possam ouvir quanto gosto dela! Será a minha prenda!”

Então, Chris escreve:

 

Querida Avó

Desejo-te um bom dia de aniversário.

Obrigado por me comprares livros e por me deixares passar todas as minhas férias em tua casa.

Amo-te.

Chris

 

Depois de escrever a carta, Chris sente-se feliz. Toda a família foi convidada para a festa e, em cima da mesa, há uma enorme variedade de coisas boas: bolo de chocolate e bolo arco-íris, bolachas e docinhos, chamuças e bolinhas de caril, bebidas frescas e chá. A avó está sorridente e feliz, e todos cantam “Parabéns a você!” Depois, Chris tira a carta do bolso e vai entregá-la à avó.

— O que é, filho? — pergunta ela.

— É uma carta, Avó, para ti. Lê-a. Lê-a em voz alta.

— Agora não, Chris — diz ela. — Mais logo.

— Não, Avó. Tens de lê-la agora.

— Não tenho aqui os óculos — desculpa-se ela.

— Eu vou buscar-tos — oferece-se o neto.

A mãe de Chris tenta afastá-lo da avó.

— Deixa a tua avó em paz — diz.

— Mas eu só quero que ela leia a carta — diz o filho.

— A tua avó não sabe ler — explica a mãe.

 

Chris olha para a avó, estupefacto.

— Mas eu posso ler para ela — responde.

E assim faz. Quando termina de ler a carta, a avó diz:

— Eu também te amo, Chris.

 

E dá-lhe um abraço de parabéns.

 

Chris van Wyk

Ouma Ruby’s secret

Giraffe Books, 2006

(Tradução e adaptação)

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O segredo de Ouma Ruby - A4 - Chris van Wyk.pdf

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Oct 21, 2016, 1:07:21 PM10/21/16
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Uma Semente de Luz

 

 

No campo a vida era tranquila e havia trabalho para todos. À noite, os avós contavam histórias maravilhosas e, se alguma criança adoecia, todos ajudavam na cura.

Um dia, chegaram as máquinas que cercaram tudo e todos. E todos se esqueceram do que tinham aprendido… Porém, há sempre um raio de esperança, uma semente de luz que deixa que os homens se lembrem…

 

 

 

Pisavam a terra, ainda húmida do orvalho, em direção aos campos, todos eles. Homens e mulheres, grandes e pequenos. Para todos havia trabalho nas colheitas. Às vezes, um trabalho bem duro, mas reconfortante. Suavam, ao sol do outono, cálido e doce.

Havia maçarocas grossas para apanhar, cestos para carregar e levar. Os mais velhos apanhavam as mais altas, as crianças as mais baixas. Todos, ao ritmo das canções da apanha.

Por vezes, um pai inclinava-se para acariciar o filho. A mãe pedia que, se fossem brincar, não se afastassem muito dali.

E o dia ia decorrendo, ao sol, maçaroca a maçaroca.

E a terra sorria com as crianças.

Esboroar carros a transbordar demora horas. E enquanto os grãos iam caindo nas canastras, os avós contavam contos de encantar. Aprendia-se a origem e a história. A relação sagrada com as montanhas e os rios. A gula da raposa e a astúcia do coelho.

O lugar mais perto do fogo era para a criança aleijada, e ao lado da avó ficava a menina doente. Todos, fazendo parte de uma só vida. A celebrarem a generosidade da terra.

E a lua cobria os campos de uma cor azulada.

 

A cerimónia em que se dava o nome a uma criança durava vários dias. Os mais sábios, que conheciam os astros e a história, procuravam sinais: nas constelações, no primeiro animal que o pai viu no dia do nascimento, na flor que perfumou os sonhos da mãe. Tudo, porque o nome torna-nos únicos e escolhê-lo bem é mostra de respeito para a vida que começa. É este o maior tesouro…

E logo que a criança o recebe e o aprende, as águas do ribeiro parecem murmurá-lo…

 

Por vezes a dor surpreendia-os.

Não há pena maior do que ver uma criança doente! E todos davam o melhor da sua experiência: as mulheres traziam as ervas medicinais, os homens caçavam aves de carne tenra para se fazer um bom caldo, as avós cantavam canções de embalar enquanto tocavam com as mãos bondosas no doente. E se nada disso aliviasse a tosse ou a febre, acalmasse os enjoos ou a dor, intervinha o bento com os seus conhecimentos herdados dos cem bentos anteriores…

E todo o ser vivente sabia que nada há mais valioso do que a saúde de uma criança.

 

Mas, um dia, surgiram chaminés onde antes cresciam árvores. Os campos de cultivo foram invadidos por fábricas. E nelas a máquina foi crescendo.

A máquina que sorvia as horas e os dias e queria mais, cada vez mais…

Meses e até anos não bastavam para saciar o seu apetite, pois a máquina era dotada de braços e pernas e apenas produzia pressa e exigência. E avançava pela terra dentro, secando os rios e esmagando as flores.

E o seu fumo impedia que se visse a face do sol.

Já ninguém tinha nome, apenas três números e um ponto.

E os braços mecânicos da máquina separaram os adultos das crianças.

E a máquina obrigou-os à força a trabalhar em silêncio, e cada vez mais rápido.

Rejeitados, velhos e crianças não tinham lugar nas filas todas iguais que cada vez mais apressadas se dirigiam para as fábricas. E foram sendo atirados para a rua. E aí, sem casa nem comida, mendigavam um pouco de vida, de olhos apagados e voz dorida.

Já não se ouvia cantar nenhum pássaro.

Já ninguém sabia cuidar dos doentes.

A máquina ajudava só quem lhe pudesse ser útil, e os seus braços não regateavam remédios aos mais fortes. Mas os débeis ficavam desamparados, abandonados à sua sorte.

E das crianças ninguém se ocupava.

 

Uma manhã, um raio de sol atravessou o céu cinzento. Conseguiu infiltrar-se por entre as nuvens de fumo, entrar pelas grades da fábrica, e iluminou por um instante, um só instante, a cara de um condenado...

Ao sentir a carícia, a sua memória adormecida despertou. E lembrou-se dos campos, do trepar às árvores para apanhar fruta, do meter-se entre os juncos do lago, do cheiro a tortas de milho a fritar no barro… Começou a lembrar-se de que era um homem… porque se lembrou de já ter sido criança!

E, nessa noite, a lua cheia despertou a mulher adormecida. Que, banhada de azul, se imaginou a correr pelos campos, a apanhar chuva nos braços, e estranhou não ter neles o peso de uma criança.

E então soube que tinha que ir à procura daquela colheita que fazia crescer o sorriso das crianças.

 

E, nessa madrugada, antes que o apito das fábricas recolhesse as filas de condenados e sorvesse a última gota de amor, o homem e a mulher encontraram-se na rua e, reconhecendo a luz no olhar um do outro, acordaram os mendigos e recolheram os meninos abandonados.

E juntos começaram a andar, com passos rápidos de compaixão, um punhado de seres gastos e esquálidos…Mas cada um deles entesourando a esperança, como se fosse um grão de trigo entre as mãos…

 

Num certo recanto de terra a chuva caiu durante dias e a vida começou de novo a despontar… devolvendo rebentos de cor à terra, curando as feridas com sol e amor, dando a cada mulher, homem e criança, um lugar, uma tarefa, um sítio para descansar, e brincadeira em abundância.

E os mendigos voltaram a ser anciãos sábios.

E o seu primeiro conselho foi aprender com a experiência, recontar o que sucedera, refletir e partilhar o sofrimento para que pudesse ser apagado.

Para sempre.

E começou de novo a criar-se a história.

Juntos construíram um espaço amplo, com muita luz. Chamaram-lhe escola e encheram-no de contos e histórias. E disseram que lá seriam bem-vindos todos os meninos e meninas e que nenhum seria rejeitado. E insistiram para que nada fosse aprendido apenas de cor, mas que tudo fosse explicado e entendido. E que o conhecimento se fosse construindo, dia após dia, com o contributo de cada um, como se se estivesse a fazer um palácio de blocos de cristal.

 

E viu-se que a coisa mais bela era o facto de todos serem diferentes: altos, baixos, gordos e magros, com a pele de todas as tonalidades possíveis; uns ágeis e seguros nos seus movimentos, outros a precisar de ajuda para poderem andar, velhos muito idosos que mais parecia terem vivido desde sempre, e crianças ternas, com toda a vida pela frente.

E compreenderam que esta diversidade — que refletia a diversidade das flores, insetos, aves e plantas — era o seu maior tesouro e que a esperança se alimentava de respeito e de solidariedade.

E quiseram celebrar tudo o que tinham aprendido. E dançou-se e cantou-se.

Comeram e brincaram, contaram histórias e celebraram uns aos outros.

E, quando já estavam cansados de rir, de brincar e de dançar, puseram-se a conversar em grupos.

 

No final do dia, alguém em cada grupo, às vezes um velho, outras um jovem, ou ainda uma criança, escreveu, para que todos a vissem e ninguém se esquecesse, a grande promessa universal.

Nela falava-se de cuidar das crianças, de as proteger e dar-lhes um lar. Falava-se do direito a um nome e a uma nacionalidade, do direito à saúde e a ter casa, educação e igualdade. E, acima de tudo, da necessidade de amor.

E até hoje estes princípios são o caminho para a justiça e para a paz.

Como disse o homem culto e bom, nobre e simples, amante das crianças, que se chamou José Martí:

As crianças são a esperança do mundo.

 

As crianças nasceram para ser felizes

porque são elas

quem sabe amar.

 

Alma Flor Ada

Una semilla de luz

Madrid: Alfaguara, 2000

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Oct 28, 2016, 12:15:44 PM10/28/16
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A avó que salvou um reino

 

Era uma vez um imperador que tinha medo de envelhecer. Observava-se, muitas vezes, no metal do seu sabre. E, mal via um cabelo branco, arrancava-o furiosamente:

— Enquanto for jovem e forte, todos me respeitarão. Mas, quando for velho, já ninguém me obedecerá!

Num inverno, uma terrível fome abateu-se sobre o reino.

As reservas de arroz não chegavam para alimentar o povo.

— Que isso não seja um problema! Desembaraçamo-nos das bocas inúteis — declarou o imperador.— Os velhos já não servem para cultivar arroz. Para quê alimentá-los? Ordeno que, a partir de hoje, sejam abandonados na montanha. Deixados à sua sorte, longe de nós!

Logo de seguida foram enviados mensageiros para espalhar a ordem. E assim, em cada aldeia, cabisbaixas, as famílias seguiram o caminho da Grande Montanha dos Esquecidos para abandonar os seus avós.

 

Nesse reino havia um rapaz chamado Chôji que vivia sozinho com a avó que ele amava acima de tudo.

Moravam numa pequena casa, na margem de um lago, onde Chôji entrançava cestos de bambu que vendia na aldeia com os leques que a avó pintava.

E nesses objetos delicados havia sempre o motivo preferido da velhinha: flores de cerejeira.

Uma velhinha que era alegre como um passarinho e cujo pensamento era rápido como o vento…

Após a chegada dos mensageiros, com o coração repleto de tristeza, Chôji pediu à avó para vestir o quimono mais quente que tinha e pegou nela às costas para a levar para a montanha.

Por um caminho íngreme, no meio de muitos pinheiros, o rapaz seguia em silêncio.

Do outro lado do Templo do Ouro, numa encruzilhada, viu a avó começar a tirar ganchos do cabelo e a deitá-los para o chão. Um pouco mais longe, a velhinha repetiu o gesto.

Admirado, Chôji perguntou :

— Por que razão deitas esses ganchos para o chão?

— Para que encontres o teu caminho de volta, meu querido — respondeu a avó. — Olha como brilham no meio das pedras! Assim, não te vais perder ao seguires os teus passos.

Ao ouvir estas palavras, o rapaz desatou a soluçar.

— Querida avó, eu vou abandonar-te e, mesmo assim, tu preocupas-te comigo!...

Depois refletiu:

— Não quero saber da ordem do imperador! Levo-te de volta comigo! Não te preocupes, vou esconder-te no grande cedro, perto do lago, e ninguém vai descobrir.

 

Chôji esperou pelo crepúsculo. Depois, orientando-se pelos reflexos vermelhos dos ganchos, desceu a montanha com a avó às costas.

Já noite, com a luz de uma lanterna, arranjou um esconderijo para a velhinha.

O coração da árvore milenar, cheio de belas saliências, era um sítio confortável para ela ficar.

E todos os dias, às escondidas, trazia-lhe arroz e chá muito quente.

A velhinha continuava a pintar os seus leques… e os pássaros faziam-lhe companhia.

 

O tempo passou.

No início da primavera, o imperador recebeu uma carta de um rival vizinho que o ameaçava.

A carta dizia:

— Antes da próxima lua, tens de me trazer: uma concha de caracol atravessada por um fio desde a sua abertura até à extremidade, o ribombar da trovoada e uma borboleta tão feroz que consiga pôr um tigre a fugir. Caso contrário, invadirei o teu reino.

O imperador reuniu imediatamente os seus conselheiros para tentar resolver os enigmas.

Mas, apesar das muitas tentativas, não foi encontrada nenhuma solução.

Em seguida, mandou chamar os maiores especialistas do reino: alfaiates, músicos, domadores de borboletas… Mas, por sua vez, estes homens tão sábios tiveram de admitir que não entendiam nada. Então, desesperado, o imperador mandou anunciar que ofereceria uma boa recompensa àquele que resolvesse os três enigmas e assim evitasse a guerra.

 

Chôji ouviu a mensagem e foi procurar a avó.

— Avó, como devo fazer para passar um fio dentro de uma concha de caracol, desde a sua abertura até à ponta?

A velhinha, que observava a natureza há muitos anos, levou a noite inteira a pensar.

Ao amanhecer, exclamou:

— É tão fácil! Apanha uma formiga e amarra-lhe um fio de seda. Depois, procura uma concha de caracol vazia. Faz um buraco no seu topo, coloca lá um gão de arroz e põe a tua formiga à entrada da concha. Atraída pelo arroz, a formiga seguirá o caminho da espiral que se encontra por dentro e sairá pela extremidade, com o fio!

Chôji obedeceu. Apanhou uma formiga grande, atraiu-a com o grão de arroz e a formiga atravessou a concha com o fio atado. O rapaz soltou então a formiga e, fazendo uma grande vénia, não se esqueceu de lhe agradecer.

Choji voltou então para junto da avó:

— O que fazer, avó, para apanhar  o ribombar da trovoada?

A velhinha, que aprendera a escutar o mundo, levou a noite inteira a pensar.

Ao amanhecer, explicou:

— É simples! Primeiro, prende um enxame de abelhas. Levanta, em seguida, a pele de um tambor, fecha o enxame lá dentro e torna a esticar a pele por cima. O teu tambor vibrará como o céu com trovoada.

Seguindo estas indicações, o rapaz preparou o tambor.

Uma vez fechadas, as abelhas começaram a fazer um barulho ensurdecedor.

E pela terceira vez, Chôji foi perguntar à avó:

— Avó, onde posso encontrar uma borboleta tão feroz que ponha um tigre a fugir?

A velhinha, que conhecia tantas histórias fantásticas, levou a noite inteira a pensar.

Ao amanhecer, anunciou:

— É fácil! Arranja um rolo de fio, canas de bambu muito resistentes e dois retalhos de seda. Assim podes fazer dois papagaios. No primeiro, pintarás um tigre. No segundo, uma borboleta. Em seguida, amarra-os um ao outro com o fio, pondo o tigre por cima da borboleta. Quando voarem com o vento, a fera fugirá do inseto.

O jovem assim fez.

Pintou dois papagaios, uniu-os e, a sorrir, viu-os subir no ar: os três trabalhos estavam prontos!

 

Sem mais demora, Chôji colocou os três objetos num carrinho e dirigiu-se ao castelo para os mostrar ao imperador. Este observou-os atentamente: aproximou a concha de caracol dos seus olhos para seguir o caminho do fio de seda; encostou o tambor ao ouvido e recuou, assustado pelo estrondo do trovão; sorriu, por fim, como uma criança, quando viu um tigre a fugir de uma borboleta.

— Conseguiste! Graças a ti o nosso reino não será invadido! O que desejas como recompensa?

— Meu senhor! — respondeu Chôji. — Peço-vos a graça da vida da minha avó. Ela tem muita idade, mas eu gosto muito dela e não tive coragem de a abandonar na Grande Montanha dos Esquecidos como ordenastes.

— Seja — disse o imperador. — Estás perdoado e a tua avó será salva. Mas diz-me: como conseguiste resolver os três indecifráveis enigmas?

Chôji baixou a cabeça:

— Não fui eu quem descobriu a solução. Foi ela!

— Mas então... — murmurou o imperador, — uma velhinha pode ser mais inteligente do que todos os meus conselheiros e do que todos os meus sábios juntos? Custa-me a crer...

Envergonhado e arrependido, o imperador compreendeu que os mais velhos não são inúteis: a sua experiência e a sua sabedoria torna-os, pelo contrário, muito preciosos!

Ordenou então que todos descessem da montanha, e decidiu que, a partir de então, os mais velhos seriam acarinhados e bem alimentados.

E todos os dias alguém lhes iria levar um chá raro que prolongasse a vida, até mesmo aos mais fracos.

 

A partir de então, o imperador deixou de ter medo de envelhecer. E, quando descobria outro cabelo branco, ficava muito satisfeito:

— Olha! Estou sem dúvida um pouco mais sábio do que ontem!

 

Quanto a Chôji, correu para casa e libertou a avó do esconderijo. Para festejar esse grande dia, preparou algumas iguarias... Depois, os dois foram almoçar na margem do lago para admirar as cerejeiras em flor. Porque, no país onde o Sol nasce, não há espetáculo mais belo!

 

 

Este conto, como todos os contos, atravessou os séculos e viajou de boca em boca, de pais para filhos… Cruzou-se com outros contos, vindos de outras paragens…

E assim se foi perpetuando ao longo dos anos…

Claire Laurens

La grand-mère qui sauva tout un royaume

Voisins-le-Bretonneux, Rue du monde, 2012

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O meu tio e a sopa dos pobres

 

 

 

F

 

ala comigo — diz o tio Willie quando me vem buscar à escola.

E eu desço as escadas como se saísse de uma casa a arder.

— Corrida até à esquina! — grito eu sem parar.

O tio Willie finge oscilar nas suas pernas de feijão-verde.

E faz-me rir tanto que chega à esquina antes de mim. Enquanto a minha mãe está no emprego, a ocupação do tio Willie é tomar conta de mim. Isto é “fixe” para mim e também o é para ele. Mas, durante o dia e enquanto estou na escola, o tio Willie tem outro trabalho: ocupa-se da sopa dos pobres.

— Hoje alimentámos muita gente —diz ele. — Esparguete e almôndegas. Foi bom, o camião da padaria parou para nos deixar pão extra.

O tio Willie procura no seu bolso e espalha migalhas no passeio.

Também procuro no meu, e tiro de lá um telescópio de papel.

— Porque trabalhas lá, afinal? — pergunto.

— É importante — diz-me o tio Willie. — Às vezes, as pessoas precisam de ajuda.

 

Ao subir o quarteirão, ouço a chiadeira do carrinho do homem das latas, cheio das latas vazias que ele encontra por toda a vizinhança. A minha mãe diz que as troca por dinheiro no supermercado. Sempre que o vejo, lá vai ele a empurrar um carrinho de compras. Mas, hoje, empurra o carrinho em direção a nós.

— Vamos — sussurro para o meu tio. Mas penso que ele não me ouviu.

— Como vai o negócio, Frank? — grita o tio Willie.

— Mais um quarteirão e acabo por hoje — responde a gritar o homem das latas.

O tio Willie pega numa lata vazia e atira-a para dentro do carro.

— Dois pontos pelo cesto! — diz o homem das latas.

Depois, inclina-se de novo sobre o carrinho e dá-lhe um grande empurrão.

E ouço o som daquelas rodas barulhentas, até que estão muito, muito longe…

— Desde quando é que conheces este homem? — pergunto eu.

— Desde que o Frank foi comer pela primeira vez à sopa dos pobres — responde o meu tio.

— Mas porque é que o Frank não come na sua própria casa? — insisto. — Não tem um lugar para viver?

O tio Willie pega na minha mão e balança-a para cima e para baixo.

— Nunca perguntei ao Frank onde vivia — diz o tio Willie. — Na sopa dos pobres, só tem de se ter fome.

Quando a minha mãe, na manhã seguinte, me leva à escola, vejo uma mulher a dormir num banco do parque.

— Parece que está sozinha — digo.

E sinto uma certa tristeza quando a vejo. A minha mãe diz que hoje em dia há muitas pessoas solitárias.

— É por isso que me sinto orgulhosa pelo teu tio. Está a fazer algo para as ajudar.

— Como será trabalhar na sopa dos pobres? O tio Willie vai lá quase todos os dias e eu nunca fui nem sequer uma única vez com ele…

A minha mãe entrega-me o dinheiro para o leite e apressa-me a subir os degraus da escola.

— Porque não lhe pedes que te leve com ele na próxima segunda-feira? — diz ela. — Lembra-te que tens um dia de folga.

 

T

 

udo pronto? — pergunta o tio Willie, numa radiosa manhã de segunda-feira.

— Tudo pronto! — digo eu.

Apalpo o meu bolso e tiro o telescópio. O tio Willie agarra no seu boné e enche os bolsos com pão. A minha mãe dá-me um beijo de despedida e diz-nos a ambos para nos mantermos longe de sarilhos.

A sopa dos pobres não é muito longe de onde vivo, mas parece que o caminho é longo.

Passamos pela minha escola. Passamos o supermercado, a drogaria, a padaria, e a lavandaria. Quando chegamos ao mercado do Sr. Anthony, eu já estou a arrastar os pés.

— Vamos parar e ver se hoje o Sr. Anthony tem alguma coisa para nós — diz o meu tio.

 

A porta tem uma pequena campainha que toca sempre que ela se abre.

— Bom dia! — grita o tio Willie.

— Bom dia para si também! — responde o Sr. Anthony. — Tenho algo especial para si!

Quando o Sr. Anthony sai dos fundos, entrega ao meu tio um grande saco castanho. E também me entrega um saco castanho a mim.

— Frango para a sopa — diz-nos o Sr. Anthony.

— Comida para um festim! — exclama o tio Willie.

A pequena campainha toca outra vez quando a porta se fecha.

E eu aceno um adeus através da janela da frente.

Depois de contornarmos a esquina, o meu tio aponta para um pequeno edifício de tijolo. Do lado de fora parece velho e decadente.

— Chegamos — diz ele.

Uma mulher abre uma grande porta branca.

— Bom dia, Shanta! — diz o tio Willie.

— Muito bom dia! — diz Shanta a sorrir. — Hoje trazes contigo um ajudante!

Cumprimento Shanta e sigo o tio Willie.

 

A sala é pequena e luminosa. As quatro grandes panelas de sopa a ferver em cima do fogão deixam todo o espaço a cheirar lindamente. Há posters na parede que dizem: TENHA UM BOM DIA e POR FAVOR, NÃO FUMAR.

— Olha, tio! — digo eu. — As mesas do refeitório são iguaizinhas às da minha escola. Mas o que é que está a fazer aquela cadeira alta ali?

O meu tio pega no meu saco e pousa-o em cima da mesa.

— Também vêm cá criancinhas. Vou apresentar-te a todos os que cá estão — diz o tio Willie.

Primeiro conheci um gato.

— Este é o Underfoot — diz o tio Willie. — O Underfoot trabalha no turno da noite lá em baixo na cave. E além está o Irmão Mike.

O Irmão Mike abre os grandes sacos do armazém do Sr. Anthony e vira-os de cima para baixo.

— Frangos — diz ele, olhando para nós. — Ótimo! Obrigado por terem ido buscá-los.

 

Um homem lava uma grande caçarola prateada numa banca dupla.

— E este é o George — diz o meu tio. — Se não fosse pelo George, estaríamos todos em dificuldades.

O tio Willie coloca um avental e ajuda-me também a pôr um.

— Agora ao trabalho!

Vejo o tio Willie a cortar o aipo em pedacinhos finos e a partir os tomates em quartos. Corta as batatas, a salsa e as cebolas aos bocados, e atira-as para dentro de cada panela de sopa. Sorri para mim enquanto agita uma cenoura.

— Perfeito! — grita ele enquanto acaba com os feijões verdes.

— Ajudas-me a separar as frutas e os legumes? — pergunta-me Shanta. — O mercado deu-nos tanta fruta que hoje podemos fazer uma salada.

Eu separo a fruta e ponho-a na banca para lavar.

Enquanto Shanta a parte em fatias, eu misturo-a dentro da grande caçarola prateada com uma colher de madeira.

Tudo aqui tem um tamanho extra grande…

 

George sai de trás da banca e abre uma enorme lata de amendoins. Diz que toda a ajuda é bem-vinda. Em cada uma das mesas do refeitório ponho uma grande taça de amendoins, um grande prato de queijo fatiado, um grande prato de manteiga, e dois grandes cestos de pão.

Mmmmm, estou faminto — exclamo, quando o Irmão Mike dá mais uma mexida em cada panela.

— Intervalo! — diz ele. — Serve-te de uma tigela de sopa.

— Senta-te lá — diz-me o tio Willie. — E põe-te à vontade.

Deito um pouco da minha sopa numa taça para o Underfoot.

— Sopa de frango e legumes — digo. — A minha favorita!

Olho em volta para todas as cadeiras vazias.

— E se não houver sopa suficiente? — pergunto.

O tio Willie gesticula com as mãos.

— Parece mágico! — diz ele. — Há sempre mais um pouquinho!

E tira algo do bolso.

— Este pequeno comando vai dizer-nos quantas pessoas vêm cá hoje. Assim poderemos fazer comida suficiente para amanhã.

 

Quando acabo de comer a minha sopa, espreito lá para fora e vejo uma longa fila de gente desde a porta até à esquina.

— Antes, eu estava naquelas filas — diz o George. — Mas agora estou aqui, a ajudar.

Olho fixamente pela janela e depois procuro o tio Willie.

— Aquelas pessoas são todas sem-abrigo? — sussurro eu.  — O George também é um sem-abrigo?

O tio Willie inclina-se um pouco sobre mim e diz:

— O George tem um quarto arrendado num prédio aqui perto. Mas algumas daquelas pessoas não têm sequer um sítio onde viver. Se elas estão aqui é porque têm fome, e nós estamos aqui para as ajudar.

 

O Irmão Mike enche as tigelas de sopa fumegante, e coloca uma em cada tabuleiro. Shanta distribui as taças de fruta e põe-nas perto das tigelas. Quando estão prontos os primeiros tabuleiros com a sopa e a fruta, o tio Willie grita “Hora de almoço!”

Nós abrimos a grande porta branca e as primeiras pessoas apressam-se a entrar.

  — A sopa está boa e acaba de sair da panela! — grita o tio Willie.

Diz olá a toda a gente que entra.

— Como estás, Duplo Jim? — pergunta o tio Willie.

Duplo Jim aponta para a sua barriga e ri.

— Eu tenho duas vezes mais fome e sou duas vezes maior! — diz.

 

Há tanta gente a empurrar para entrar mais depressa que deixo de conseguir ver lá para dentro. Alguns dos sem-abrigo tentam cumprimentar-me, mas eu permaneço de pé, rigidamente encostado à porta.

— Ele teve um dia de folga na escola — anuncia o tio Willie, conservando a mão dele no meu ombro. — Por isso, veio até aqui para ver onde eu trabalho.

— Lá está o Frank, o homem das latas — murmuro.

— Olá Frank! — diz o tio Willie, apontando para as caixas de frutas e legumes. — Sirva-se à vontade. Hoje temos quantidade extra.

 

Em pouco tempo, a sopa dos pobres está cheia. Shanta enche as taças de fruta, uma atrás da outra, enquanto o Irmão Mike enche as tigelas. De repente, parece que toda a gente está a falar ao mesmo tempo. As pessoas vão ao balcão e dizem:

— Esta sopa está muito boa. Posso comer outra? 

Ou

— Deu mais galinha a ela do que a mim!

— Mas eu estava na fila primeiro.

— Nós precisamos de mais pão na nossa mesa, por favor.

— Nós queremos mais manteiga na nossa.

— Mais queijo na nossa, por favor!

Eu observo os sem-abrigo a entrar e a sair — primeiro com fome, depois satisfeitos.

— Anda cá para dentro agora — chama-me o meu tio.

 

George anda de um lado para o outro. Pega nos pratos sujos do balcão e leva-os para a banca. E eu posso ouvir as colheres de sopa clink, clink, clink.

Uma mulher arrasta os pés e enche os bolsos de bananas. Parece-se muito com a que vi a dormir no banco do parque. E espero que assim seja. Espero que ela venha comer à sopa dos pobres. Aqui já não está tão sozinha.

Antes que me aperceba, do lado de fora da porta a fila desaparece, assim como toda a fruta que estava dentro da caçarola prateada da Shanta. Alguns dos sem-abrigo ficam para ajudar a limpar tudo. Eu seguro a pá do lixo com firmeza enquanto o Duplo Jim varre uma pilha de migalhas para eu apanhar.

 

Quando o tio Willie e eu estamos prontos para sair, cumprimentamos todos os que ajudaram. O Irmão Mike abre para nós a grande porta da frente.

— Volta sempre, e em qualquer altura! — diz-me. — Precisamos bem de ajuda extra.

— Obrigado uma vez mais pela sopa! — grito eu para todos os que estão mais afastados. — O Underfoot também gostou da sopa.

 

No caminho de regresso a casa, o tio Willie mostra-me o contador.

— Hoje demos de comer a cento e vinte e uma pessoas — diz ele. — São muitos cidadãos!

Tiro o telescópio de papel do bolso e espreito pelo canto do olho o meu tio. Todo ele é sorrisos… A rir, pega numa lata vazia e entrega-ma. Pego na lata e aponto para o lixo. Viro-me. E falho. Salto então. E disparo outra vez.

— Ora diz-me lá… — diz o tio Willie.

E apita como se eu tivesse encestado mais dois pontos.

 

YYY

 

Acerca da Sopa dos Pobres

 

Todos os dias, em cidades de todo o mundo, voluntários e trabalhadores pagos preparam refeições para alimentar milhões de homens, mulheres e crianças com fome que vêm comer às sopas dos pobres locais. Organizações religiosas, armazéns da vizinhança, bancos alimentares, dinheiro de doações e subsídios governamentais apoiam estes esforços para prover refeições quentes aos mais pobres.

 

Neste país, uma em cada oito pessoas é pobre. Muitas delas são crianças.

E não é preciso que os que vêm alimentar-se às sopas dos pobres estejam desempregados ou sejam sem-abrigo. Às vezes, algumas pessoas que trabalham não ganham dinheiro suficiente para prover às suas necessidades básicas. Muitas são as pessoas idosas que vivem dos seus pequenos salários fixos que dependem das sopas dos pobres para a sua refeição principal. E não só.

“Bread for the World”, “Results”, “Second Harvest”, “National Network of Food Banks”, e “Food Hunger Hotline” — eis apenas algumas das centenas e centenas de organizações que existem no nosso país para fazer face à crescente necessidade dos que são pobres e têm fome.

DyAnne DiSalvo-Ryan

Uncle Willie and the soup kitchen

New York, Mulberry Paperback Book, 1997

(Tradução e adaptação)

 

 

 

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Emprego e desemprego no tempo do medo

 

 

O direito laboral está a reduzir-se ao direito de trabalhar pelo que quiserem pagar e nas condições que quiserem impor. Não existe no mundo mercadoria mais barata do que a mão-de-obra. Enquanto caem os salários e aumentam os horários, o mercado laboral vomita gente. É pegar ou largar, que a fila é comprida.

 

 

A sombra do medo morde os calcanhares do mundo. Medo de perder: perder o trabalho, perder o dinheiro, perder a comida, perder a casa. Até o mais ganhador pode, de repente, transformar-se em perdedor. As ondas, furiosas, batem: a ruína ou a fuga das indústrias locais, a concorrência de mão-de-obra mais barata de outras latitudes, ou o implacável avanço das máquinas, que não exigem salários, nem férias, nem reforma, nem indemnização por despedimento.

O desenvolvimento da tecnologia não está a servir para multiplicar o tempo de descanso e os espaços de liberdade, mas sim a multiplicar a desocupação e a semear o medo. Qualquer um pode cair, em qualquer momento ou em qualquer lugar. À entrada de Auschwitz, o campo de extermínio nazi, estava escrito: O trabalho liberta. Mais de meio século depois, o funcionário ou o operário que tem trabalho deve agradecer o favor que alguma empresa lhe faz, permitindo-lhe perder a alma, dia após dia, carne de rotina, no escritório ou na fábrica. Encontrar trabalho, ou mantê-lo, embora sem férias, por vezes sem reforma, e a troco de um salário insignificante, festeja-se como se fosse um milagre.

Cada vez há mais desocupados no mundo. Sobra cada vez mais gente. Que vão fazer os donos do mundo com tanta humanidade inútil? Vão mandá-la para a lua? Na europa ainda existem subsídios que aliviam a sina dos desempregados, mas o facto é que muitos jovens não arranjam emprego fixo.

A globalização é uma cartola na qual as fábricas desaparecem por artes de mágica, fugidas para os países pobres. A tecnologia, que reduz vertiginosamente o tempo de trabalho necessário para a produção de cada coisa, empobrece e subjuga os trabalhadores em vez de os libertar da necessidade e da servidão; o trabalho deixou de ser imprescindível para a replicação do dinheiro. São muitos os capitais desviados para os investimentos especulativos. Sem transformar a matéria, sem mesmo tocar nela, o dinheiro reproduz-se muito mais depressa a fecundar-se a si mesmo. A história está a andar um século para trás: a maioria dos trabalhadores não tem estabilidade laboral nem direito a indemnização por despedimento; e a insegurança laboral faz cair os salários.

 

O medo, pai de família numerosa, também gera desconfiança e hostilidade. Nos países do Norte do Mundo costuma traduzir-se em ódio aos estrangeiros que oferecem os braços a preços de desespero. É a invasão dos invadidos. Ele vêm das terras onde uma e mil vezes desembarcaram as tropas coloniais da conquista e as expedições militares de punição. Os que fazem, agora, esta viagem ao contrário, não são soldados obrigados a matar: são trabalhadores obrigados a vender os braços na Europa ou no norte da América, seja a que preço for. Vêm da África, da Ásia, da América Latina e até do Leste europeu. Nos anos de recessão, ou de crescimento doente e ameaçado pela crise, os hóspedes inevitáveis tornaram-se intrusos indesejáveis: cheiram mal, fazem barulho e tiram empregos.

 

Esses trabalhadores, bodes expiatórios do desemprego e de todas as desgraças, estão também condenados ao medo. Várias espadas lhes pendem sobre a cabeça: a sempre iminente expulsão do país a que vieram parar, fugindo da miséria, e a sempre possível explosão do racismo. Os imigrantes pobres executam as tarefas mais pesadas e mal pagas, nos campos e nas ruas. Depois das horas de serviço, vêm as horas de perigo. Nenhuma tinta mágica os cobre para os tornar invisíveis.

Paradoxalmente, muitos trabalhadores do Sul do Mundo emigram para Norte, ou tentam contra ventos e marés essa aventura proibida, enquanto muitas fábricas do Norte emigram para o Sul. O dinheiro e as pessoas cruzam-se no caminho. O dinheiro dos países ricos viaja para os países pobres, atraído pelas jornadas de trabalho a um dólar e sem horários, e os trabalhadores pobres viajam, ou quereriam viajar, para os países ricos, atraídos pelas imagens de felicidade que a publicidade oferece ou a esperança inventa.

Noutras épocas, enquanto Roma se apoderava de todo o Mediterrâneo e muito mais, os exércitos regressavam arrastando caravanas de prisioneiros de guerra. Esses prisioneiros transformavam-se em escravos e a caça ao escravo empobrecia os trabalhadores livres. Quanto mais escravos havia em Roma, mais caíam os salários e mais difícil se tornava arranjar trabalho. Dois mil anos mais tarde, um empresário fez um revelador elogio à globalização:

 

— Os asiáticos trabalham vinte horas por dia — declarou — por oitenta dólares por mês. Se quiser competir, tenho de recorrer a eles. É o mundo globalizado. As raparigas filipinas, nos nossos escritórios de Hong Kong, estão sempre disponíveis para trabalhar. Não há sábados nem domingos. Se tiverem de fazer diretas fazem-no e nunca cobram horas extraordinárias nem pedem nada.

 

Meses antes, tinha-se incendiado uma fábrica de bonecas em Banguecoque. As operárias, que ganhavam menos de um dólar por dia e que comiam e dormiam na fábrica, morreram queimadas. A fábrica estava fechada por fora, como os barracões no tempo da escravatura.

São numerosas as indústrias que emigram para os países pobres à procura de braços, que os há baratíssimos e em abundância. Os governos desses países pobres dão as boas-vindas aos novos postos de trabalho, trazidos pelos messias do progresso em bandejas de prata. Mas, em muitos desses países pobres, o novo proletariado fabril labora em condições que evocam o nome que o trabalho tinha na época do Renascimento: tripalium, que era também o nome de um instrumento de tortura. O preço de uma t-shirt com a imagem da princesa Pocahontas equivalia ao salário de toda uma semana do operário que coseu essa t-shirt no Haiti, a um ritmo de 375 t‑shirts por hora. O Haiti foi o primeiro país do mundo a abolir a escravatura; e dois séculos depois desse feito, que muitos mortos custou, o país padeceria de escravatura assalariada.

A caçada aos braços já não carece de exércitos, como acontecia nos tempos coloniais. Disso se encarrega, sozinha, a miséria de que padece a maior parte do planeta. É a morte da Geografia: os capitais atravessam fronteiras à velocidade da luz, devido às novas tecnologias da comunicação, que eliminaram o tempo e as distâncias. E quando uma economia arrefece em algum lugar do planeta, outras economias espirram do outro lado do mundo.

Os países pobres estão metidos, de alma e coração, num concurso universal de bom comportamento, para ver quem oferece salários mais raquíticos e maior liberdade para eliminar o meio ambiente. Os países competem entre si para seduzirem as grandes empresas multinacionais. As melhores condições para as empresas são as piores condições para o nível dos salários, da segurança no trabalho e da saúde da Terra e das pessoas.

 

A globalização tem ganhadores e perdedores, adverte um relatório das Nações Unidas. Supõe-se que uma maré de riqueza em ascensão levantará todos os barcos. Mas alguns podem navegar melhor do que outros. Os iates e os transoceânicos estão de facto a levantar-se, em resposta às novas oportunidades, mas as balsas e os barcos a remos estão a meter água e alguns estão a afundar-se rapidamente.

 

Os países tremem perante a possibilidade de que o dinheiro não venha, ou de que o dinheiro fuja. Se não se portarem bem, dizem as empresas, vamos para as Filipinas, ou para a Tailândia, ou para a Indonésia, ou para a China, ou para Marte. Não se portar bem significa: defender a Natureza ou o que resta dela, reconhecer direitos laborais, exigir o respeito pelas normas internacionais e pelas leis locais.

 

Em 1995, uma cadeia de lojas vendia, nos Estados Unidos, camisas made in El Salvador. Por cada camisola vendida a vinte dólares, os operários salvadorenhos recebiam dezoito cêntimos. Os operários, ou, melhor dizendo, as operárias, porque eram maioritariamente mulheres e crianças que se matavam a trabalhar mais de catorze horas por dia no inferno das oficinas, organizaram um sindicato. A empresa contratista despediu trezentas e cinquenta. Veio a greve. Houve espancamentos e prisões. Em finais de 95, as lojas anunciaram que se iam embora para a Ásia.

 

Os vencedores não têm deveres e os vencidos não têm direitos.

 

 

Eduardo Galeano

De pernas para o ar,

Lisboa, Caminho, 2002

(Adaptação)

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Emprego e desemprego no tempo do medo - A4 - Eduardo Galeano.pdf
O meu tio e a sopa dos pobres - A4 - DyAnne DiSalvo.pdf

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Nov 11, 2016, 11:58:49 AM11/11/16
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A moça tecelã

 

Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite.

E logo sentava-se ao tear.

Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte. Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava.

Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos do algodão mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido.

Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela.

Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza. Assim, jogando a lançadeira de um lado para outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias.

 

Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranquila. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer. Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou em como seria bom ter um marido ao lado.

 

Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado. Estava justamente acabando de entremear o último fio do ponto dos sapatos, quando bateram à porta. Nem precisou abrir. O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma, e foi entrando em sua vida.

 

Aquela noite, deitada no ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar ainda mais a sua felicidade. E feliz foi, durante algum tempo. Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Porque tinha descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a não ser nas coisas todas que ele poderia lhe dar.

— Uma casa melhor é necessária — disse para a mulher.

E parecia justo, agora que eram dois. Exigiu que escolhesse as mais belas lãs cor de tijolo, fios verdes para os batentes, e pressa para a casa acontecer.

Mas pronta a casa, já não lhe pareceu suficiente.

Resultado de imagem para moça tecelã— Para que ter casa, se podemos ter palácio? — perguntou.

Sem querer resposta imediatamente ordenou que fosse de pedra com arremates em prata.

 

Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, e pátios e escadas, e salas e poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira.

Afinal o palácio ficou pronto. E entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da mais alta torre.

— É para que ninguém saiba do tapete — ele disse.

E antes de trancar a porta à chave, advertiu:

— Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos!

Sem descanso tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos, os cofres de moedas, as salas de criados. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer. E tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros.

E pela primeira vez pensou em como seria bom estar sozinha de novo.

 

Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear.

Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins. Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela.

 

A noite acabava quando o marido estranhando a cama dura, acordou, e, espantado, olhou em volta. Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu.

Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte.

 

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Marina Colasanti

“A moça tecelã” in

Contos Brasileiros Contemporâneos

São Paulo, Editora Moderna, 1991

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123eraoutravez

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Nov 18, 2016, 12:15:51 PM11/18/16
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Ternura

 

Era uma vez um violino. Tinha música azul. Tocava-o um músico de cabelo muito negro e longo e mãos longas e brancas. Pegava no arco e todo o azul se desenrolava no ar. Quando a música era mais triste, o azul ia ficando roxo e depois vermelho cor de sangue. Se a música era mais alegre, o azul ficava claro, verde, às vezes até amarelo.

Dirão os meus amigos: isto é uma história. Não é. Ou será história, talvez, mas uma história verdadeira.

O músico tinha um cão. Que se chamava Jagunço. Era preto e branco o Jagunço. Um rafeiro. O seu olhar meigo, como um luar castanho, todo ternura.

 

Um dia, o dono, o nosso músico – que se chamava Joaquim – sentou-se junto de uma janela de sua casa. Uma janela aberta. Era outono, as folhas das árvores estavam castanhas, quase douradas, como o olhar do Jagunço.

E Joaquim sentou-se com o seu violino. E começou a tocar. Triste. Azul, roxo, vermelho. Vermelho igual à rosa da primavera? Não. Um vermelho triste de uma ferida na nossa mão.

Jagunço olhou o dono. Olhar triste o do cão. Castanho‑dourado das folhas de outono. Perguntando sem ladrar, sem palavras da sua fala de cão:

— Que te apoquenta? Eu estou aqui e sou teu amigo.

Os sons continuavam. Azuis, roxos, vermelhos.

Joaquim estava triste. E Jagunço também.

E o violino tocava, tocava, tanto azul, tanto roxo, tanto vermelho…

Parou de repente de tocar. Jagunço deitou a cabeça nos joelhos do dono.

Perguntando sem ladrar, sem palavras da sua fala de cão:

— Que te apoquenta? Eu estou aqui e sou teu amigo.

O dono passou-lhe a mão branca e longa pela cabeça.

Com ternura. Igual à do olhar do cão.

Lá fora, nos ramos de folhas douradas, cantou um pássaro. Sons de todas as cores.

O Sol acabava de se pôr no horizonte.

Vermelho. Igual a uma rosa vermelha. A uma flor de sangue numa mão ferida.

 

Joaquim levantou a sua mão sobre a cabeça do Jagunço.

A mão que levara ternura trazia ternura. Todo o dourado do olhar.

E, como por um encanto, uma rosa vermelha, autêntica rosa de primavera, ficou-lhe na mão. Fugiu para o arco do violino. E o arco foi uma ramada de folhas verdes. Que o vento da música ia agitar.

E Joaquim começou a tocar. Azul, verde, amarelo.

Jagunço olhava-o admirado. Talvez os cães sorriam. Talvez. O seu olhar dourado tinha ouro claro de alegria. Era um olhar de rei, mas de rei bom. Rei que entende os rafeiros. Os homens. Todos os Joaquins que sabem dizer se estão tristes ou alegres. E dizê-lo aos outros homens.

E Joaquim tocou, tocou, até anoitecer.

Um dia, em papel branco de pautas de cinco linhas, escreveu toda aquela música que tinha tocado defronte da janela. Em clave de fá e de sol. De Sol!

Jagunço não a sabia ler mas sabia escutar.

Joaquim pôs um nome a essa música – Ternura.

E Jagunço tudo entendeu com os seus olhos bons.

 

Matilde Rosa Araújo

O Chão e a Estrela

Lisboa, Editorial Verbo, 2000

 

Eu sei, mas não devia…

 

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

 

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.

E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.

E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz.

E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

 

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.

A tomar o café correndo porque está atrasado.

A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem.

A comer sanduíche porque não dá para almoçar.

A sair do trabalho porque já é noite.

A cochilar no ônibus porque está cansado.

A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

 

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.

E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos.

E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz.

E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.

A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.

A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

 

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.

E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.

E a ganhar menos do que precisa.

E a fazer fila para pagar.

E a pagar mais do que as coisas valem.

E a saber que cada vez paga mais.

E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

 

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes.

A abrir as revistas e ver anúncios.

A ligar a televisão e assistir a comerciais.

A ir ao cinema e engolir publicidade.

A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

 

A gente se acostuma à poluição.

Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.

À luz artificial de ligeiro tremor.

Ao choque que os olhos levam na luz natural.

Às bactérias da água potável.

À contaminação da água do mar.

À lenta morte dos rios.

Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

 

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer.

Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.

Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.

Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo.

Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.

E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

 

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.

Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito.

A gente se acostuma para poupar a vida.

Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

 

Marina Colasanti

Eu sei, mas não devia

Rio de Janeiro, Editora Rocco, 1996

(Excertos)

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Nov 25, 2016, 1:03:38 PM11/25/16
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Salsa, a gatinha órfã

 

É meia-noite. A noite está escura como breu e a tempestade ruge. O Sr. Martinho anda às voltas na cama sem conseguir dormir. O vento que sopra em redor da casa acordou-o.

— Vou lá fora ver os gatos — sussurra à esposa, pegando nas pantufas. — Ficam sempre nervosos com as tempestades.

— Ora, estão abrigados no celeiro — diz-lhe ela a bocejar. — Mas, já que vais lá fora ao jardim, podes trazer-me do quintal um raminho de salsa? Preciso dela para amanhã.

— Vamos lá ver se dou com ela no escuro! — diz o Sr. Martinho a gracejar, já com os pés enfiados nos chinelos.

Momentos depois, anda às apalpadelas no quintal que está envolto numa densa escuridão. O Sr. Martinho luta contra o vento que lhe entra pelo pijama e lhe desgrenha o cabelo. Felizmente que os pés sabem o caminho de cor ou nunca o teria achado, de tão escura que a noite está.

O Sr. Martinho acende a luz. Aos pares ou em grupos de três, de patas misturadas, os gatos estão lá todos. Uns esticados ao comprido como um tapete às cores, dois a dormir no carrinho de mão e três enroscados no velho sofá comido pela traça.

Acordados pela luz, levantam todos a cabeça, mexem as orelhas e piscam os olhos.

Já são horas do pequeno-almoço? parecem perguntar.

Estão calmos, não aparentam ter medo nenhum.

— Boa noite, meus pequeninos. Durmam bem — murmura o Sr. Martinho antes de apagar a luz e fechar a porta.

Os gatos estão bem. Pode voltar para casa. Sossegado.

Ah! E o ramo de salsa que prometeu trazer?

 

Conhece o quintal como a palma das mãos e, mesmo no escuro, dá depressa com a salsa. Ao debruçar-se para colher um raminho, calca qualquer coisa macia. Parece pelo e não salsa! Assustado, levanta o pé… e perde um chinelo. Ao procurá-lo, às apalpadelas, a mão agarra na bola de pelo que solta uma miadela aguda. O Sr. Martinho ri: deve ser a Leontina, pensa ele de imediato. Aquela gulosa quer ser sempre a primeira a tomar o pequeno-almoço!

— Anda lá, vai deitar-te! — diz-lhe a rir. — Ainda é muito cedo para o pequeno-almoço, não achas?

Dá-lhe uma palmadinha para a fazer ir embora. A bolinha de pelo senta-se a tremer.

— Que tens? — pergunta o Sr. Martinho admirado.

Pega nela e solta um grito de espanto:

— Pobre Leontina! O que é que te sucedeu? Estás tão magrinha!

E nunca mais se lembrou de procurar o chinelo. A pé coxinho, o Sr. Martinho volta para casa o mais rápido possível e, sempre a saltitar, vai direito à cama:

— Olha o que te trouxe do quintal!

— Põe-na na água, se fazes o favor — diz a mulher com um bocejo e, quase a adormecer, tapa a cabeça com os lençóis.

— Nem pensar! — protesta o Sr. Martinho com uma voz comovedora. — Esta salsa não quer água, tenho a certeza!

A D. Marta acorda de vez e mal acredita no que vê:

— Não pode ser! Já temos onze! — queixa-se ela.

— E agora passam a ser doze! — replica o Sr. Martinho com um riso feliz. — Há espaço que chegue!

Uma minúscula gatinha preta treme na palma da mão do Sr. Martinho.

— Nem pensar! — protesta a esposa. — Depois de amanhã são treze e depois catorze… Tem juízo!

O Sr. Martinho abana a cabeça, suspirando.

— Amanhã de manhã a gata vai embora — repete a D. Marta agarrando nela. — Ora dá cá essa pequenita.

A gatinha treme e mia que mete dó.

— Precisa de um caixote e de alguma coisa para comer. Parece um espeto! — diz ela enquanto a afaga. — Esta noite dorme aqui, mas amanhã…

 

O Sr. Martinho traz um caixote e um pires com leite.

A gatinha órfã bebeu-o em três lambidelas e foi ao caixote fazer as necessidades.

E volta a tremer.

— Agora vem para a cama! — ordena a D. Marta. — Daqui a pouco estão os dois com frio, e eu também.

A gata fez várias tentativas desajeitadas até conseguir trepar para cima da cama. Depois aninha-se delicadamente nos cabelos da D. Marta a ronronar-lhe ao ouvido.

O casal pouco dormiu naquela noite, sobretudo o Sr. Martinho que não quis pôr na rua a gatinha. E se perguntar aos outros gatos?, pensa. Olhem, está aqui um bebé sem casa. Sejam simpáticos!

De certeza que os gatos hão de ficar contentes por terem um amigo mais para brincar.

E, nesse caso, a esposa vai ceder!

— Diz lá, concordas que sejam os gatos a decidir? — cochicha-lhe ao ouvido.

Mas ela dorme profundamente com a gata aconchegada ao seu cabelo.

No dia seguinte, pela manhã, os onze gatos reclamam, como todos os dias, diante da porta, de cauda erguida.

— Ora vejam, esta gatinha não tem casa, arranjem lugar para ela — diz o Sr. Martinho, com a gata ao colo que se escapa e vai a correr para junto de Leontina.

És tu a minha mamã?

Leontina dá um salto para trás, deita as garras de fora e cospe, cheia de raiva. As outras gatas seguem o exemplo.

Um bebé! Não queremos mais gatos aqui! Nós somos uma família e tu és uma intrusa! Desaparece e depressa, se não vais ver o que te acontece!

A gatinha fecha os olhos e encolhe-se a tremer. Agora é a vez dos machos, que se aproximam e a cheiram:

Quem é esta? É pequena como um rato mas cheira a gato! Ora chega aqui, vamos brincar ao gato e ao rato!

Os gatos empurram a gatinha, dão-lhe patadas. Um agarra-a pelo pescoço e atira-a ao ar:

Olha como mia e esperneia! Não é engraçado?, diz ele, rindo-se às gargalhadas.

A gatinha aterra com força no chão e fica quieta a tremer.

Que gata mais palerma!

Os gatos afastam-se em fila indiana num passo majestoso, de cauda orgulhosamente erguida. Um boceja, outro dá ainda uma patada na cabeça da gatinha como quem diz:

Não te apetece brincar, mas olha que quem manda aqui sou eu!

 

O Sr. Martinho e a esposa olham um para o outro, consternados e voltam para casa.

Ele suspira desolado. Ela abana a cabeça:

— Eu já sabia que isto ia ser assim. Já sabia…

Nada a fazer. A gatinha tem de ir embora. Mas para onde?

O Sr. Martinho vai continuar o quadro de um gato que começou a pintar.

Damo-la a alguém com bom coração, pensa ele enquanto mergulha o pincel na tinta.

O gato começado na tela é vermelho mas a tinta é verde…

— Conheces alguém? — pergunta a esposa, olhando pela janela. A gatinha escondera-se a tremer debaixo de um arbusto.

— Aqui já toda a gente tem gatos, ninguém vai querer mais um — continua ela.

O Sr. Martinho pensa e pinta, sem se aperceber, uma cauda verde ao gato vermelho.

— Se é assim, levo-a já para a aldeia! — diz, pousando, resoluto, o pincel. — Há lá muitos gatos abandonados, mas há sempre almas generosas que os alimentam.

— Mas não todos os dias! — diz a mulher, continuando a olhar pela janela. — Uma gata tão pequenina como esta tem de comer todos os dias.

— Vou levá-la para a floresta! — decide o Sr. Martinho já pronto a enfiar o casaco. — Lá, ao menos, pode caçar arganazes e musaranhos para comer.

— Queres tu dizer-me que a raposa não apanha primeiro uma gatinha do tamanho de um rato? — pergunta a mulher. — Olha! Ela desapareceu!

— É esperta. Escondeu-se dos outros gatos — diz o Sr. Martinho voltando a pegar no pincel.

— Ou de nós — diz a mulher fechando a janela. — Volta quando tiver fome. Mas temos de decidir….

 

A gatinha não dá sinal de vida durante todo o dia.

À noite, como habitualmente, o Sr. Martinho enche os pratos e chama os gatos.

Acorrem todos a quatro patas: Leontina, a mais gulosa, vem à frente, seguida de Virgílio, de Susana, de Canela, a descarada, de Fanela, do velho Tízio, de Tito e Tico, os gémeos e, por fim, Bruno, o mais tinhoso. Dominó, como sempre, fica um pouco afastado e Lavanda está empoleirada numa árvore.

Da gatinha preta, nem rasto.

— Voltou para a mãe! — diz o Sr. Martinho para a esposa. Os dois ficam a ver os gatos comer.

— Não digas tolices! A mãe certamente está morta, se não, não a tinha abandonado — responde-lhe a mulher, pegando em Bruno, que briga sempre com Leontina.

O Sr. Martinho e a esposa passam mais uma noite agitada, mas desta vez não foi a tempestade que teve culpa.

O dia seguinte de manhã é idêntico ao anterior: onze gatos reclamam o seu leite, mas a gatinha continua sem aparecer.

— Tanto melhor! — suspira a D. Marta dirigindo-se ao quintal para apanhar a roupa que está na corda.

É uma tarefa que faz com agrado. Gosta de sentir o cheiro da roupa a secar ao vento. Mas hoje algo a incomoda. Olha para a direita, para a esquerda, para as árvores e para a erva e as molas estão constantemente a cair-lhe das mãos. Dá uma olhadela ao cesto da roupa. Os gatos gostam de se meter lá dentro a brincar com a roupa.

O cesto está vazio.

A D. Marta encolhe os ombros, solta um suspiro e estende a mão para pegar numa toalha. A roupa tem de ser apanhada… Oh! Nasceu uma cauda preta à toalha, que abana de um lado para o outro.

— Salsa, sua malandra, com que então estás aqui! — diz a D. Marta a rir.

Dominó não compreende porque é que hoje lhe dão uma palmada.

É tão divertido baloiçar-se nas toalhas! Sempre o deixaram!

Na cozinha, o Sr. Martinho começa a preparar a refeição. Gosta daquele momento e é muito bom cozinheiro. Os gatos também acham, por isso não param de andar em volta das pernas, para o caso de cair algum pedaço!

 

Hoje a cozinha está vazia e o Sr. Martinho abre e fecha os armários todos.

Será que precisa de tantos tachos para cozinhar?

Talvez não, mas o que é aquilo a espreitar da terrina da sopa azul? Umas orelhas pretas!

— Salsinha! Não tenhas medo! — e deita as mãos à terrina.

Mimi não percebe porque leva uma palmada! É tão divertido esconder-se na terrina! E sempre a deixaram.

Os outros gatos fazem o que costumam fazer a estas horas: brincam e correm, dormem, ou caçam borboletas e depois lutam entre si pela pobre borboleta que já está morta há muito.

A amorosa da Susana lambe Bruno e morde-lhe a orelha. Ele não gosta e mordisca a barriga de Susana, que solta um mio agudo. Os gatos continuam com o seu dia-a-dia. A gatinha mal-vinda, desconhecida, continua desaparecida. Que sorte!

— Foi-se embora! Tivemos sorte — diz a D. Marta ao colocar o almoço na mesa. — Tudo está bem quando acaba bem.

— Felizmente — suspira o marido a remexer os ovos no prato. — Falta a salsa. Não gosto deles sem salsa. Vou depressa buscá-la.

E levanta-se.

— Ai sim? Onde? — pergunta a mulher, começando de repente a choramingar por cima dos ovos mexidos.

A gatinha bebé… a raposa na floresta… um carro na estrada… pessoas más que fazem mal a gatinhos pequenos…

— Se voltar, pode ficar — consola-a o marido, abraçando-a. — Até já tem um nome!

Porque quando se tem um nome é-se sempre bem-vindo!

— Temos de ir procurá-la — soluça a mulher. — Agora mesmo. Já perdi o apetite.

 

Meu dito, meu feito.

Os dois saem à procura da gatinha e deixam os ovos intactos em cima da mesa.

A D. Marta procura pelos quatro cantos do jardim e passa todos os arbustos e tufos de erva em revista. Abana tanto o lilás que as flores até caem.

O Sr. Martinho procura na rua e sempre que vê uma forma escura na valeta, teme o pior. Mas não, é só um pano velho ou um bocado de um pneu. Salsa não está no jardim nem na rua. Talvez na floresta? O Sr. Martinho e a D. Marta sobem às árvores, procuram nas tocas, chamam pela gatinha.

A D. Marta já está rouca e tem as pernas todas arranhadas. O marido tem as unhas pretas. A lua começa a subir, em breve vai ficar noite. Procuraram o dia todo, mas em vão.

— Anda, vamos — diz o Sr. Martinho. — Os gatos têm de jantar, não têm culpa….

A D. Marta acena com a cabeça. Choraminga a caminho de casa, só consegue pensar na gatinha, sozinha e perdida, com fome e sede. E medo. A gatinha rejeitada por todos: por ela, pelos gatos, até um pouco pelo marido. O Sr. Martinho engole em seco e pigarreia. E os gatos? Estão no barracão, claro, deitados uns em cima dos outros. À tardinha, antes de partirem à caça de ratos durante quase toda a noite, há sempre jantar. Mas hoje, embora não lhes tivesse sido servido nada, as barrigas estão cheias e a caça é adiada para mais tarde.

Tito ronrona à orelha de Tico, Leontina está meio abafada por Virgílio, a dormir em cima dela.

Os outros dormem pelo chão, agitando as patas a sonhar. Dominó ressona. Tízio, o gatarrão, está hoje sozinho no sofá velho comido pelas traças.

Sozinho?

Aninhada na sua barriga gorda está uma coisa pequena, preta como carvão, a lamber-se.

És um papá para mim!, mia, reconhecida.

Tízio ronrona e lambe três restos de ovos mexidos da cabeça preta de Salsa.

 

 

 

Gudrun Mebs

Ciboulette, le chaton mal aimé

Arles, Actes Sud Junior, 1998

(Tradução e adaptação)

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Salsa, a gatinha órfã - A4 - Gudrun Mebs.pdf

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Dec 2, 2016, 1:33:03 PM12/2/16
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O Natal do ratinho Mortimer

 

Um ratinho chamado Mortimer vivia numa grande casa, num buraco escuro debaixo das escadas.

Nunca ninguém reparava nele e Mortimer preferia que assim fosse.

Mas não gostava nada do seu buraco.

¾ É demasiado frio. Demasiado apertado. Demasiado assustador! ¾ guinchava o ratinho.

E todos os dias se esgueirava para fora do buraco à procura de petiscos e migalhas.

 

Um dia deparou-se com algo de novo.

E o que viu era simplesmente maravilhoso: uma árvore enorme coberta de luzes que brilhavam e, no cimo, uma estrela brilhante! Mas havia algo, em cima da mesa ao lado da árvore, que era ainda melhor do que a própria árvore.

Mortimer suspirou, deliciado:

¾ Uma casa mesmo do meu tamanho!

Só que a casinha ficava lá bem no alto e Mortimer era tão baixinho…

¾ Vou subir pela árvore ¾ disse ele com os seus botões.

Na verdade, a árvore parecia a escada ideal… para um ratinho... Mas, à medida que Mortimer subia, os enfeites, claro está, caíam…

Por fim, o ratinho chegou à altura da mesa.

¾ Excelente! ¾ exclamou. ¾ Aqui não está frio, e este lugar nem é apertado nem assustador. E que acolhedor! Mas… quem são vocês?

 

 

Mortimer nunca vira pessoas tão pequenas. Quase tão pequenas como ele! E nunca vira animais tão estranhos…

Toc… toc… toc…

Mortimer bateu à porta, mas ninguém respondeu.

Toc… toc… toc…

Ninguém mexia um dedo que fosse.

¾ Estou a ver ¾ disse. ¾ Vocês não são verdadeiros, não passam de figuras!

E então Mortimer empurrou... e empurrou…

E, uma por uma, transportou as pequenas figuras para fora da casa.

Quando chegou a vez da figura mais pequenina, o nosso rato viu que era… um bebé. Um bebé deitado numa cama de madeira que tinha precisamente o tamanho de Mortimer!

¾ Aqui não há lugar para ti ¾ disse ele. ¾ Vá, toca a sair.

E logo se enfiou na cama, adormecendo de imediato na palha fofa e quentinha.

 

No dia seguinte, Mortimer saiu de novo para procurar uns bons pedacinhos de biscoito, bolo de frutas e rebuçados de hortelã-pimenta.

Mas, quando voltou à sua nova casa, as figuras estavam novamente no mesmo sítio.

¾ Não, não e não!!! ¾ guinchou Mortimer. ¾ Assim não pode ser! Não há lugar para mim!

E então…

E então Mortimer empurrou... e empurrou… e de novo as pequenas figuras foram expulsas da casa.

¾ E nem se atrevam a voltar! ¾ avisou.

Mortimer meteu-se na cama e adormeceu de imediato na palha fofa e quentinha.

 

Todos os dias, porém, quando Mortimer saía para procurar comida, as figuras voltavam ao mesmo lugar.

E Mortimer novamente as empurrava e transportava para fora. Até que um dia…

Ao sair da casinha, Mortimer viu algumas pessoas reunidas à volta da árvore.

Como não podia chegar perto, escondeu-se no meio das figuras.

E um homem começou a falar.

Mortimer pôs-se à escuta. E o que ouviu era tão maravilhoso!

¾ Porque é véspera de Natal, vou contar-vos a história do Natal ¾ disse o homem. ¾ Há muito tempo atrás, numa pequena cidade chamada Belém…

E o ratinho ficou a saber muitas coisas sobre José, Maria e sobre uma estrela brilhante. Também ficou a saber que havia pastores que vigiavam os rebanhos de noite e homens sábios que tinham vindo do Oriente.

O homem continuava…

¾ E não havia lugar para eles na estalagem.

Foi então que Mortimer ouviu falar de um bebé.

Um menino nascido num estábulo, que não tinha uma cama verdadeira e que teve de dormir numa manjedoira…

Um bebé nascido para salvar o mundo!

¾ E o Seu nome será Jesus ¾  concluiu o homem.

Mortimer olhou para a estrela cintilante no cimo da árvore.

Olhou para a sua nova casa. E para a sua nova cama. Olhou para as figuras.

E, por último, olhou para o menino.

¾ Estou a ver ¾ suspirou ¾ não és uma figura qualquer. És a imagem de Jesus.

     

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Mortimer chiou e fungou.

E uma lágrima correu-lhe pelo focinhito abaixo…

¾ Não havia lugar para ti na estalagem… Mas eu cá sei onde há um lugar para ti!

E então…

Mortimer empurrou... e empurrou…

 

Em breve, todas as figuras estavam de volta à casinha que lhes pertencia. Por último, colocou o bebé na manjedoira.

¾ Esta é a tua cama ¾ disse.

E sorriu.

¾ Agora pareces bem mais quentinho e confortável!

Só restava a Mortimer voltar para o seu buraco frio, apertado e assustador.

 

Enquanto descia pela árvore, fez um pedido:

¾ Jesus, tu vieste salvar o mundo. Será que não poderias arranjar também uma casinha para mim?

Foi então que Mortimer avistou algo...

E o que viu era tão maravilhoso!

O ratinho suspirou, encantado:

¾ Uma casa mesmo do meu tamanho!

Não havia figuras em lado nenhum. E Mortimer mudou-se imediatamente.

¾ Obrigado, Jesus ¾ disse. ¾ Também tu arranjaste um bom lugar para mim!

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Karma Wilson and Jane Chapman

Mortimer’s Christmas Manger

New York, Margaret K. McElderry Books, 2005

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Dec 9, 2016, 1:29:35 PM12/9/16
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Mais precioso do que o ouro

Gaspar apontou para este.

− Vejam! Lá está ela de novo! Cada vez mais próxima e brilhante!

O céu noturno estava pejado de estrelas, mas a de Gaspar era diferente. Pairava pouco acima do horizonte, era enorme e brilhava como fogo. O velho Melchior pousou a mão no ombro de Gaspar.

− Ainda falta muito para lá chegarmos, irmão.

− Mais uma razão para não perdermos tempo! – disse Baltasar, cuja coroa brilhava à luz das estrelas.

E assim prosseguiram viagem: Melchior, o sábio, Baltasar, o bondoso, e o jovem Gaspar, amável e gentil. 

As selas de couro rangiam e os cascos dos camelos amorteciam o caminho por entre a areia. As três coroas cintilavam à luz das estrelas, enquanto as campainhas de prata dos arreios tiniam baixinho. Em breve seria tempo de descansar, antes que o sol escaldasse o deserto.

Quando chegou a madrugada, os viajantes estavam já abrigados à sombra das palmeiras. O velho Melchior em breve adormeceu, com os ossos doridos de cansaço. Gastar, contudo, deteve-se alguns momentos junto da água, sonhando com a sua estrela, a estrela que seguiam há já tanto tempo. Seria a mais excitante que o mundo alguma vez vira, pois prometia algo de maravilhoso: o nascimento da criança que viria a ser o Rei dos Reis. Apoiado numa pedra, Gaspar ficou absorto a pensar na maravilha da profecia.

Algum tempo depois, deu conta de que algo se movera. Era um lagarto que, esticando uma língua comprida, tentava escapulir-se por entre as pedras. As suas escamas reluziam, douradas, e Gaspar reparou num corte que o bichinho tinha numa das pernas.

− Que corte feio tens, pequenino!

Estendeu as mãos suaves e o lagarto deixou que ele lhe tocasse.

− Preciso de algum do teu unguento, Baltasar! – pediu Gaspar, levando o lagarto ferido até ele.

− Ora, ora! A minha preciosa mirra desperdiçada num lagarto! – lamentou-se Baltasar.

− Vá lá, irmão, só um pouco. Ainda sobrará muito para a criança.

Baltasar soltou uma gargalhada.

− Só tu te lembrarias de aplicar mirra num lagarto, Gaspar!

Baltasar dirigiu-se à sela e retirou o pote precioso. Quando desapertou os fechos de ouro, um cheiro estranho invadiu o ar. Gaspar tirou uma porção minúscula com a ponta do dedo e esfregou-a suavemente na ferida do lagarto. O bichinho estremeceu, mas não se moveu. Depois de o embrulhar em folhas, Gaspar depositou-o na frescura de um alforje.

Fizeram todos a sesta até o pôr-do-sol raiar a areia de vermelho e ouro. Depois, os três reis selaram os camelos, beberam água da nascente e partiram.

A estrela ergueu-se de novo no céu do oriente. Estava agora mais próxima e emitia uma luz estranha e azul. Os reis continuaram a avançar, embrulhados pelo silêncio estrelado, apenas quebrado pelo ranger dos alforjes e pelos cascos abafados dos camelos. Quando o céu se transformou em prata, deram-se conta de que pisavam ervas duras e que tinham iniciado a subida de uma colina.

− Vou procurar um riacho – anunciou Gaspar, saltando, ligeiro, de rochedo em rochedo. – Guardem-me algumas tâmaras para o pequeno-almoço!

Quando Gaspar atingiu o cimo da colina, avistou no vale em baixo o que parecia ser uma pequena cidade. Preparando-se para ir ter com os outros, viu, aos pés de uma oliveira, uma pomba que não dava sinais de querer voar. O rei baixou-se e tocou as penas brancas e macias ao de leve. O animal estava quente! Ergueu-o com cuidado e colocou-o debaixo do manto.

− Encontraste água, irmão? – perguntou Baltasar, ansioso.

− Não, mas vi uma pequena cidade que fica perto daqui, onde podemos arranjar de comer e beber. E também encontrei isto!

Gaspar mostrou a pomba, deposta nas suas mãos estendidas. Em seguida, deitou um fio de água numa taça de prata e afagou, com as mãos húmidas, o pescoço da ave, que estremeceu ligeiramente.

− Precisamos da água toda, Gaspar – disse Melchior, num tom de voz sério mas com um sorriso nos lábios.

Gaspar abriu o leque de penas da pomba com suavidade e disse:

− Tem a asa magoada. Vou fazer-lhe uma tala.

E começou a remexer no alforje.

− O que havemos de fazer contigo, Gaspar? – suspirou Baltasar.

E assim a pomba se juntou ao lagarto dentro do cobertor macio que forrava o alforje, e partiram todos em direção à pequena cidade.

A cidade do vale derretia agora sob o imenso calor do sol. Numa rua traseira, uma gatinha deslizou para dentro de uma porta aberta. Estava cansada e com fome. Esfomeada, mesmo. Há dois dias que não comia. O pelo prateado tinha perdido o brilho e a pele já deixava entrever os ossinhos. Cheirava bem e a bichinha saltou para cima de uma mesa. Finalmente, um prato de peixe fresco! A gatinha começou a comê-lo.

− Sai já daqui, seu animal nojento!

Uma pedra atingiu-a em cheio. A gata fugiu, com o pelo eriçado de medo e só parou quando não tinha forças para andar mais. Ofegante, deixou-se cair debaixo de um rochedo. Ficou deitada durante muito tempo até parar de tremer. Depois, rastejou em busca de água. Cheia de dores, coxeou pela colina abaixo até ao riacho. De repente estacou, com o focinho a tremer. Que cheiro estranho! Arrastou-se por entre as ervas, com medo de continuar. Que pena ter tanta sede!

− Estás magoada, pequenina! – exclamou uma voz.

A gatinha encolheu-se e arqueou o dorso, pronta a arranhar, receosa de mais pedras.

− Vem cá, gatinha, não vou magoar-te.

Há muito tempo, houvera na sua vida uma voz assim gentil e leite quente de cabra para beber. A memória fê-la salivar.

− Vem cá, pequena mãe – disse a voz suave, acariciando-lhe o corpo dorido.

Uma mão tocou-a com gentileza e a gatinha não fugiu. De repente, viu um pedaço de peixe seco no chão. Começou logo a devorá-lo de tanta fome que tinha. A mão gentil continuou a acariciar-lhe o pelo e a aquecê-la. 

 − O que se passa, Gaspar? – perguntou Melchior, suspirando.

− É uma gatinha gravemente ferida. Penso que vai dar à luz em breve. Vou precisar do teu unguento, Baltasar! 

A bichinha sentiu-se mais tranquila com as feridas limpas e untadas com mirra.

– Vou levá-la comigo quando ela estiver com mais forças.

− O que havemos de fazer contigo, Gaspar? – suspiraram Melchior e Baltasar.

Descansaram todos do calor do dia até a estrela aparecer de novo a oriente, enorme, brilhante, mais próxima do que nunca. Melchior, o sábio, Baltasar, o bom, Gaspar, o gentil, o pequeno lagarto da areia, a pomba branca e macia e a gata prateada prosseguiram caminho.

A estrela parecia mover-se diante deles, incitando-os a continuar. Dentro de um dos alforjes de Gaspar, a pomba e o lagarto dormiam, retemperando forças, enquanto a gatinha, enroscada, inspirava o perfume doce do incenso. Na noite aconchegante, nasceram três gatinhos: um dourado como a areia, um negro como o céu noturno e outro prateado como a estrela que pairava sobre eles.

Quando a estrela se deteve, Gaspar quase sentiu o coração rebentar de alegria. Embora estivessem diante de um pobre estábulo, todos souberam que aquele era o lugar que procuravam. 

Os camelos ajoelharam-se, os reis desmontaram e dirigiram-se à entrada. Encontraram a Criança deitada na manjedoura, acompanhada pela Mãe e por José, que velava sobre ambos.

Ajoelharam diante do Menino e ofertaram-lhe as dádivas que traziam: ouro, de Melchior, digno de um rei, mirra de Baltasar, para sarar feridas, e incenso de Gaspar, o perfume doce da gentileza.

Quando Gaspar se prostrou em adoração, a pomba voou do alforje e pairou sobre todos.

De repente, o estábulo pareceu ficar cheio de asas cintilantes.

Um lagarto de areia dourado saiu, agradecido, para o calor e para a luz, e uma gatinha prateada, acompanhada de três gatinhos, pestanejou diante do brilho que inundava o estábulo.

– Gaspar! – ralharam Baltasar e Melchior em uníssono.

Gaspar baixou a cabeça, envergonhado.

Mas a Criança sorriu e estendeu os braços, e a Senhora disse:

– Agradecemos todas as vossas prendas, mas sentimo-nos ainda mais gratos por estes nossos irmãos e irmãs, mais doces do que perfume, mais suaves do que o unguento mais caro, e pelo amor dos vossos corações, que é mais precioso do que o ouro.

 

Gillian Lobel

More precious than gold

London, Hodder Children’s, 2003

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O Elfo Mais pequenino

 

 

Oliver era um elfo que vivia com a família no Polo Norte. Havia muitos elfos na Aldeia do Pai Natal, mas Oliver era o mais pequenino.

Oliver estava muito entusiasmado, porque nesse Natal ia descobrir o seu dom especial. Para isso, tinha de visitar todas as lojas e descobrir qual era a tarefa mais apropriada para ele.

Na oficina dos brinquedos, onde a sua mãe trabalhava, Oliver tentou fazer amorosos ursinhos de peluche. Mas acabou por ficar perdido no meio dos enchimentos!

A mãe de Oliver disse:

Acho que ainda és demasiado pequeno para a oficina dos brinquedos. Porque não tentas ajudar o teu pai na oficina das bicicletas?

Oliver foi até à oficina das bicicletas do Pai Natal, onde observou os elfos a colocar rodas, selins, guiadores e campainhas.

Mas os instrumentos eram demasiado grandes para as suas mãozinhas.

Talvez fazer bolos seja o teu dom especial! disse o pai de Oliver.  – Devias ir ter com o teu irmão à padaria.

E lá foi Oliver até à padaria, onde os elfos faziam bolachinhas doces e bengalinhas de rebuçado.

Mas, quando Oliver tentou bater a massa das bolachinhas, caiu numa taça gigante.

Desculpa, Ollie disse o irmão. És pequeno demais para estar na padaria. Talvez devas ir para a loja dos livreiros.

Oliver chegou à última das oficinas do Pai Natal, onde a irmã trabalhava. Os livreiros escreviam histórias espantosas e faziam desenhos maravilhosos.

Posso ajudar? perguntou Oliver.

Claro que sim! responderam os elfos.

Mas era um tanto ou quanto difícil chegar ao tinteiro, e a pilha de papel era muito alta.

Fazer livros era mais difícil e mais confuso do que parecia!

Muito triste, Oliver pôs-se a vaguear pelo Polo Norte. Sabia que tinha de haver uma tarefa especial que pudesse fazer, mesmo sendo pequenino…

Foi então que ouviu o som de cascos dentro dos estábulos, onde uma manada de renas se tinha juntado para conhecer Dot,  pequena rena acabada de nascer. Dot era pequenina, tal como Oliver, e estava muito entusiasmada por ir ajudar o trenó do Pai Natal a voar. Contudo, por muito que treinasse e saltasse, não conseguia voar. Quando a viu triste, a mãe deu-lhe um beijo muito meigo. Dot era ainda tão pequenina…

Oliver quis então animá-la. Vasculhou nos bolsos a tentar encontrar uma prendinha para Dot. Mas, em vez disso, encontrou bugigangas vindas de cada uma das oficinas onde tinha estado. Foi nesse momento que teve uma ideia!

Oliver e Dot usaram os pequenos tesouros para fazer ornamentos, cartões e decorações divertidas para os elfos da aldeia. Afinal, bem mereciam, pois eram todos muito trabalhadores!

O elfo mais pequenino e a rena mais pequenina encheram assim um trenó com os seus presentes de Natal e entregaram-nos em todas as oficinas.

E todos os elfos adoraram os presentes tão especiais!

O Pai Natal foi ver o que se passava e viu como Oliver e Dot faziam todos sorrir. De repente, teve uma ideia.

Oliver e Dot perguntou ‒, querem ser meus ajudantes este ano?

Oliver e Dot tinham por fim encontrado a sua tarefa especial!

Mas, mais importante do que isso, cada um deles tinha encontrado um amigo…bem especial!

 

Brandi Dougherty

The littlest Elf

New York, Scholastic, 2012

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Histórias oferecidas à sexta-feira!

HOJE COM VOTOS DE UM FELIZ NATAL!!!!
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O Natal do pequeno violinista

I

 

— Jean — disse ao criado o Sr. Cappelle, da Casa Cappelle & Cª — vá ver que alvoroço é esse aí na rua.

— Não é preciso ir, Sr. Cappelle. É o pequeno mendigo a quem me mandou dar vinte cêntimos esta manhã — respondeu Jean olhando pela janela do gabinete.

— Quando é que estes mendigos nos vão deixar em paz! — exclamou o Sr. Cappelle. — Todos os anos dou cem francos ao burgomestre para os pobres da cidade. Diga-lhe isto da minha parte, Jean, e faça com que se vá embora.

— Deixe-me acabar de limpar o seu cadeirão, Sr. Cappelle, e vai ver como lhe digo. É incrível a quantidade de pó que há sempre no seu gabinete. Olha que esta! Cem francos para os pobres? Vou-lho dizer, pode estar descansado, e se teimar em ficar, vou fazer-lhe saber que não tenho tempo para andar todo o dia a mandar embora inúteis, pedintes e malandros, Sr. Cappelle…

E Jean acompanhava as suas palavras com golpes de espanador tão furiosos que até as penas voavam…

— Sim, Sr. Cappelle, que malandros! Cem francos por ano, nem parece verdade!

— Acalme-se, por favor, Jean, que ainda estraga o couro do cadeirão. Já está outra vez a tocar violino. Vai lá ou não?

— Sim, Sr. Cappelle — assegurou Jean, colocando o espanador debaixo do braço.— Chegue-se à janela e verá como resolvo isto.

E, plantado no centro do gabinete, de braços cruzados, olhando para o patrão com um ar enternecido, meneou a cabeça e disse:

— Como é possível, valha-me Nosso Senhor Jesus Cristo, que uns inúteis, uns pedintes, uns larápios, sim, larápios, Sr. Cappelle, venham incomodar à porta da sua própria casa um senhor tão honesto e que dá cem francos por ano aos pobres da cidade? Não, não dá para entender.

Tendo dito isto, Jean dirigiu-se lentamente para a porta, cabisbaixo e com os braços cruzados, como quem medita sobre o que acabara de dizer, mas no momento de sair, levantou o olhar e interpelou o patrão:

— Sr. Cappelle, digo-lhe da sua parte que... Digo-lhe exatamente o quê? Não se importa de repetir, senhor...?

— Jean, espere aí!— gritou então uma alegre voz de menina pequena.

E Helena, a quem todos em casa chamavam Leentje, entrou a saltitar no gabinete do pai. Oh, que linda menina! Tinha dez anos, faces rosadas, olhos castanhos, e a sua comprida cabeleira loira de tranças com laços de seda azul dançava sobre as costas como espigas de trigo entrelaçadas.

— Pai — suplicou — uma moedinha para o violinista que está em frente da casa. O Jean leva-lha.

Mas o Sr. Cappelle respondeu mal-humorado:

— E o que tens tu a ver com esse maroto? Estou farto da sua cantilena.

— Ai, pai, ele é tão lindo! — exclamou a menina juntando as mãos com grande doçura. — E toca tão bem! Se calhar nem tem pai... Tu deixavas-me andar a tocar violino de porta em porta, pai?

— Leentje, que pergunta disparatada... Que temos nós de comum com os pobres? És a filha de Jacob Cappelle, da Casa Cappelle & Cª.

— A casa mais rica da cidade, Leentje — acrescentou Jean ao mesmo tempo que cuspia disfarçadamente para o passeio, tapando a boca com a mão.

— Bem, pai... Queria dizer-te uma coisa sensata, mas já me esqueci... Espera... ah!, já sei: gostaria que nunca faltasse nada à minha boneca enquanto eu viver, e sou apenas a mãe dela. Vá, por favor, papá, se não tiro uma moeda do meu mealheiro.

— Toma, aqui tens dez cêntimos, Leentje, mas é a última moeda que esse pequeno mendigo recebe. Com a tua idade, minha menina, eu já era mais sério: preocupava-me com os interesses da casa, em vez de dar atenção aos fura-vidas de rua.

— Mas tenho muito bom aproveitamento, pai. Todos os dias aprendo a lição e ontem consegui mais três pontos positivos pela minha letra.

— Sim, meu amor, mas andas todo o dia atrás do meu bolso. Dez cêntimos são dez cêntimos, e dez moedas de dez cêntimos fazem um franco e um franco, juntamente com outros francos, fazem, ao fim do ano, uma bela quantia. Achas que, se fôssemos pobres e andássemos de porta em porta, nos dariam dinheiro assim sem mais?

Aqui Jean julgou-se obrigado a intervir e, após voltar a cuspir no passeio disfarçadamente, tapando a boca com a mão, exclamou:

— Claro que não, Leentje, não nos dariam nada. Uma pessoa tão bondosa, que todos os anos dá cem francos aos pobres! Claro que não. No seu lugar, eu diria ao mendigo: Vá-se embora! Já temos pobres que cheguem, a quem damos cem francos por ano. Vê-me a pedir? Sou criado em casa do Sr. Cappelle. Eu trabalho, está a ver? Trabalhe você também. Era isso o que eu lhe diria.

O Sr. Cappelle encolheu os ombros e, enquanto empurrava Leentje com um dedo para a porta, comentou:

— Vá lá, menina, vá com o Jean. Aproxima-se o fim de ano e tenho de ter em ordem os meus livros de contabilidade.

Desceram à porta e Jean pôs-se a gritar a plenos pulmões asperamente:

— Eh, tu, eh, mendigo, desavergonhado, inútil!

O arco deixou de rasgar as cordas do violino e o rapazito levantou-se do degrau de pedra em que estava sentado, na esquina de uma porta. Jean adotou então um ar majestoso e estendeu uma mão, como um advogado em tribunal:

— O Sr. Cappelle comunica-te que já dá cem francos por ano aos pobres da cidade e que...

— Anda cá, vem aqui — interrompeu Leentje, assomando à porta a sua linda cara rosada.

E com a mão fez um gesto para que se aproximasse.

O pequeno mendigo, que tinha tirado o chapéu e sorria desajeitadamente quando Jean começou a falar-lhe, entrou no grande vestíbulo pintado a imitar mármore branco, olhando surpreendido para o alto das abóbadas, com movimentos de cabeça lentos e repetidos, a modo de humilde saudação.

Jean fechou a porta, examinou o miúdo de cima abaixo e apontando para Leentje com o dedo, disse, com repentina indignação:

— Tens, porventura, ideia de com quem estás a falar? Leentje é a filha do Sr. Cappelle. Nem o próprio notário, o Sr. Meganck, é mais rico do que o Sr. Cappelle, embora o seu cocheiro ande de fraque e sempre com dinheiro.

Mas a menina tocou com um dedo nos farrapos do músico.

— Não tenha medo — disse-lhe — e responda-me: tem pai, menino?

Ele tinha agora o olhar fixo na ponta dos seus pobres e velhos sapatos, e encolheu suavemente os ombros para mostrar que não compreendia nada; e para fazer alguma coisa, pôs-se a assobiar entre dentes, com a mão na anca, com um ar ao mesmo tempo tímido e resoluto.

— Pronto, é surdo-mudo — exclamou Jean.— Já suspeitava. Vá, responde: és mesmo surdo-mudo?

— Como quer você que seja surdo-mudo, Jean, se ainda ontem cantava para acompanhar o violino?

Então o rapaz colocou o instrumento debaixo do queixo, e abriu a boca disposto a cantar; mas Leentje pousou a mão no arco e disse-lhe:

— Eu gosto de violino, mas o meu pai não. Perguntei-lhe se você não tem pai. Não me compreendeu?

Ele encarou Leentje com uns grandes e lindos olhos pretos, suaves como veludo. Encolheu de novo os ombros, embora desta vez o seu sorriso manifestasse tristeza.

— Ah! — exclamou de repente Leentje alvoroçada, batendo as mãos. — Quer dizer que é estrangeiro. De onde terá vindo, Jean?

Jean deu uma volta em redor do rapaz, com as mãos atrás das costas, erguendo e baixando o seu nariz comprido para ver melhor a roupa do pequeno mendigo, ao mesmo tempo que uma careta de desdém enrugava a sua cara obesa.

— Tome — disse-lhe Leentje. — Pedi ao meu pai estes dez cêntimos, e acrescento mais trinta cêntimos do meu dinheiro. Soma quarenta cêntimos, o que lhe permite comprar um bolo, já que esta noite é Natal. Ainda me ficam dois francos no mealheiro, mas prometi dá-los à velha Catherine. Divirta-se, que noutra altura irei apresentá-lo à minha boneca. Não a conhece? Custou vinte francos. É muito bonita.

E Leentje depositou os quarenta cêntimos na mão do rapaz. Ele fez um belo gesto de reconhecimento e bateu com tanta força no peito com o punho da mão que segurava as moedas que a menina ficou a olhar para ele, perguntando-se se não se teria magoado. O rapaz baixou em seguida os olhos e uma grande lágrima correu pela face pálida, ao mesmo tempo que levava as moedas aos lábios e as beijava devotamente.

— Il poverello! — gritou de repente com voz forte e enérgica.

E colocando rapidamente o violino debaixo do queixo, pousou o arco sobre as cordas e abriu a boca, olhando para cima, com a cabeça inclinada sobre o ombro.

— Leentje, Leentje!— gritou uma voz da escada.

E Mina, a criada, surgiu no corredor, ofegante.

— O que faz aqui, Leentje? Há que tempo que ando à sua procura pela casa toda. Acha bem obrigar uma pessoa a correr tanto? Meu Deus! O meu espartilho até rebentou, tenho de lhe pôr um grampo.

Mas a menina não saía do seu assombro:

— Olhe, Mina, que menino tão lindo! É aquele que nos seguiu no domingo quando a Nelle e eu fomos à loja do Sr. Pouffs, o que vende frangos; foi no dia em que você, Mina, foi a casa dos seus pais. Seguiu-nos a tocar violino. A Nelle quis mandá-lo embora ameaçando-o com o punho, mas ele não teve medo e limitou-se a guardar o violino debaixo do braço. Não o acha lindo, Mina?

— Como lhe pode parecer linda uma criança tão horrorosa e suja, enfarruscada, mal cheirosa e com o cabelo por cortar, Leentie? Nunca vi nada mais feio do que este pequeno macaco desprezível e peço-lhe que não me faça apanhar uma constipação por ter de esperá-la.

— Mas Mina, Mina! Porque se põe agora a dizer coisas tão feias do meu pequeno mendigo, se ainda ontem à noite me garantiu que era um encanto? Não se lembra? Quando lhe dei uma moeda nova de cinquenta cêntimos para que lha levasse e voltou a dizer que nunca tinha visto um cordeirinho tão doce e tão lindo.

— Está bem, Leentje, há bocado queria aborrecê-la. É mesmo um cordeirinho meigo.

— Um cordeirinho meigo e lindo, Mina.

— Sim, tudo o que quiser, Leentje, um cordeirinho meigo e lindo. Está contente? Bem sei que me deu uma boa moeda de cinquenta cêntimos novinha, com a efigie do rei Leopoldo. Parece-me que ainda a estou a ver.

Ao dizer estas palavras, começou a tossir, um tanto envergonhada, pois guardara a moeda para si. O pequeno mendigo nunca recebeu a moeda que Leentje lhe mandara pela astuta Mina, que fazia de conta que se lembrava perfeitamente de lha ter entregue.

— Mas tanto faz, Leentje. Melhor seria que não se preocupasse tanto com essas ratazanas de rua. São todos uns marotos e filhos do Diabo. Já vi muitos desses em Bruxelas, quando servia em casa do Sr. Schoreels, o fabricante de lata. Dizia-se por aí que vinham de muito longe, pelo menos de Macaroni ou de Italia, já não me recordo, mas de um sítio assim.

— Mas Mina, Mina! Isso é ainda mais longe do que Bruxelas. Ai, pobre menino! Vou guardar-lhe um pedaço do bolo de Natal, claro que sim.

— O seu pai está a chamá-la. Entre rápido, para que não a encontre no vestíbulo.

— Boa noite, pequeno mendigo — disse então a menina, acenando com as suas lindas mãozinhas.— A Mamã ensinou-me que é preciso rezar a Deus pelos pobres. Domingo, na missa, irei pedir para que continue a ser sempre um menino bonito.

Então Jean, que recuperara o seu ar altaneiro, começou a bater nos ombros do miúdo.

— Vamos, sai daqui. O Sr. Chappelle manda-te dizer que todos os anos dá cem francos aos pobres da cidade.

— Você é muito duro, Jean — disse Leentje.

— Como? Duro eu, Leentje? Se toda a gente diz que sou um sentimental.

— Está a tratá-lo mal!

— Tratá-lo mal, eu! Vais-te embora ou não, maroto?

O pequeno mendigo olhou para o dinheiro que tinha na mão, murmurou umas palavras que ninguém compreendeu e saiu para a rua. Enquanto caminhava, deitou a Jean uns olhos negros carregados de indignação.

— Anda lá, vai-te! — gritou Jean. — Rio-me dos teus olhares. Não podes fazer-me nada. Tenho um bom trabalho onde nada me falta e ganho um bom ordenado. Inútil. Delinquente!

E fechou a porta.

 

II

 

O pequeno mendigo voltou a enterrar o chapéu na cabeça, apertou à cintura o velho casaco azul que levava atado com uma corda e começou a caminhar rua acima golpeando com os pés gelados a calçada coberta de neve.

Caía a noite e ao longo das fachadas as janelas iam-se iluminando uma a uma. Nas mesas brilhavam luzes. De vez em quando abria-se uma janela que irradiava a cálida luz dos quartos, e um homem ou uma mulher assomava para fechar as portadas. A geada reluzia nas montras das lojas, que exibiam enfeites vaporosos. Os comerciantes iam e vinham, apressados por detrás do balcão, entre gargalhadas, porque nessa noite as moedas choviam nas caixas registadoras, enquanto os clientes batiam com as botas no chão para se aquecerem enquanto esperavam ser atendidos.

A charcutaria engalanava a sua montra com longos atados de salsichões, enlaçados com grinaldas de flores de papel dourado, e uma bela salsicha reluzente formava um O num prato, ao lado de um grande enchido de fígado de porco que o bom do charcuteiro estava a cortar em fatias.

O menino empurrou a porta, que tiniu, e com o dedo apontou para o fígado.

— O que queres, rapaz? Dou-te uma fatia, mas tens de ma pagar — disse-lhe o comerciante, esfregando várias vezes seguidas o polegar contra o indicador para dar mais peso às palavras.

O menino tirou do bolso uma das moedas de dez cêntimos e pô-la em cima do balcão, mantendo a mão por cima com medo que o homem a guardasse sem o servir. Este meteu a enorme faca reluzente no enchido e cortou uma rodela. O pequeno mendigo levantou a mão do balcão e saiu com a sua compra. Morto de fome, foi dando grandes dentadas no enchido, que desapareceu num abrir e fechar de olhos. Meteu então a mão no bolso para verificar quantos cêntimos lhe restavam, e seguiu caminho.

O pasteleiro dera largas à imaginação na decoração da sua montra.

Uns cramiques [1] exibiam as suas tostadas superfícies ponteadas de uvas passas, e um dourado e cremoso recheio. Um bolo imponente apresentava a forma de uma torre: a base era de pão-de-ló, e seguiam-se três andares circulares; no cimo do último, entre a fruta cristalizada que brilhava no açúcar da cobertura, uma pequena bailarina de saia branca, suspensa na ponta do pé esquerdo, erguia a perna direita de braços abertos, como se começasse a voar. O pequeno vagabundo deteve-se bastante tempo diante destas maravilhas, pois nunca vira coisa mais bela. Baixava-se, erguia-se, inclinava-se ora para a direita, ora para a esquerda, com o bafo fazia buracos no gelo do vidro para ver melhor. Saltitava sobre uma perna, depois sobre a outra, batendo com as suas velhas solas no pavimento enquanto cantava entre dentes uma melodia do seu país. E começou a lamber suavemente o gelo da vitrina, imaginando que estava a lamber a cobertura.

Mas o pasteleiro deu-se conta, de repente, de que havia alguém colado ao vidro e ameaçou-o com um gesto. O pequeno, travesso, desatou a correr mas, um pouco mais adiante, descobriu que o padeiro também tinha confecionado grandes figuras de biscoito, cramiques de farinha fina, tortas em forma de pássaro, com penas e tudo. De modo que o rapaz voltou a parar e ficou a olhar para todas aquelas maravilhas, cheio de vontade de as comer.

Em todo o dia não comera mais do que um pequeno pão de vinte cêntimos e a rodela de fígado. Por fim decidiu-se e empurrou a porta envidraçada do mestre padeiro, indicando com o dedo as figuras da vitrina, e entre elas a mais bonita. Mas a padeira esmagou o seu polegar direito na palma da mão esquerda, mostrando-lhe que primeiro tinha que pagar. Ele tirou a sua moeda e pô-la no balcão.

A insensível padeira encolheu então os ombros e exclamou com maus modos:

— Pensavas, maroto, que por dez cêntimos ias levar essa figura grande?

Mas recolheu a moeda, deitou-lhe uma vista de olhos e deu ao rapaz um pão, o mais seco da fornada.

Que bom que está o pão! Devorou-o em poucas dentadas e levou a mão à boca para recolher as migalhas que ficaram coladas aos lábios.

 

III

 

As campainhas das portas dos comerciantes tilintavam incessantemente, pois tanto os ricos como os pobres corriam nessa tarde às lojas para comprar as prendas de Natal. Donas de casa passavam a correr, com a cabeça baixa e as mãos enrugadas debaixo dos aventais devido à nevasca, que punha vermelhos os narizes e os dedos. Uma trazia um cramique que ia deixando atrás de si um delicioso cheiro a ovo, outra trazia na mão uma cesta donde sobressaíam gargalos de garrafa. Também passavam meninos e meninas pequenos, e alguns paravam para abrir os embrulhos e tirar cuidadosamente um bombom, um caramelo ou um biscoito.

Da igreja saíam anciãs embrulhadas em abafos e com os gorros puxados até às sobrancelhas, tiritando, murmurando entre dentes. Algumas levavam na mão um fogareiro através de cujos buracos o vento atiçava as brasas.

O pequeno músico viu luz nas janelas em forma de trevo da escura igreja, e como a porta tinha ficado aberta, um clarão chegou até aos seus pés pelo empedrado, acompanhado de um morno cheiro a incenso. Atravessou as abóbadas tingidas de amarelo pelo reflexo dos círios, e dirigiu-se para a braseira onde agonizava uma pequena fogueira de carvão. Estendeu com avidez as mãos e os pés em direção ao metal em brasa, passando depois as mãos pelas pernas e pelos braços para as impregnar do calor da braseira, enquanto o seu coração dirigia uma doce oração de agradecimento ao Criador por lhe conceder um lume com que se aquecer na grande Noite de Natal.

A igreja estava silenciosa. Nas naves emudecidas ressoavam apenas o arrastar de cadeiras sobre as lajes azuis, os passos do sacristão no coro e o bater dos socos das velhas mulheres com abrigos negros que se dirigiam à pia da água benta para molhar os dedos antes de sair. E de vez em quando alguma delas parava junto da braseira e aproximava do lume as suas pequenas mãos secas, olhando de esguelha e com desconfiança para o pequeno vagabundo. Este sentiu então uma cálida languidez invadi-lo; a cabeça inclinou-se sobre o peito e foi descaindo sobre o seu velho casaco esburacado do qual fizera uma almofada. Nesse momento ecoou aos seus ouvidos a voz irritada do sacristão a mandá-lo sair. Levantou-se, olhou de forma desafiadora o homem que o expulsava, pegou no seu violino e saiu lentamente, coxeando, com os pés inchados por causa das cintas de couro gastas que lhe prendiam os sapatos às pernas. Abriu a porta e a gélida tempestade voltou a esbofeteá-lo.

Então o rapaz deixou sair um lamento:

— Francesco, meu pobre Francesco, porque te foste embora das montanhas? Tinhas lá uma mãe e deixaste-a. Onde estão os outros, que me precederam na minha volta ao mundo? O Paolo morreu no campo, quando ainda fazia calor e as árvores estavam verdejantes. É feliz agora, o Paolo! Num dia de geada, quando as forças nos abandonam, olha-se para trás e perguntamo-nos de que lado do horizonte ficam as montanhas. É então, ai, Francesco!, que o caminho se torna comprido e uma pessoa pensa que nunca irá chegar. Perdi o Paolo pelo caminho, e também o Pietro, o meu querido Pietro, dois anos mais novo do que eu, enquanto os outros me abandonaram, desejando-me boa viagem. Buppo era o mais velho, mas tossia muito. Que terá sido dele e dos outros? Saudações a Buppo, Paolo, Prieto e aos outros. Já é noite de Natal; o céu cobre-se de festa e os das montanhas já terão descido até Nápoles. Todos os anos pelo Natal íamos a Nápoles, com gaitas e violinos, e as pessoas davam-nos bolachas, queijo, fruta e algum dinheiro à medida que passávamos. Ai, Nápoles, Nápoles! Ao longo do caminho havia presépios com o burro, os Reis Magos e o Nosso Salvador, diante dos quais as gaitas tocavam e os homens da planície cantavam. Aqui não há presépios e a gente não dá mais do que moedas de cobre. A minha mãe dizia-me: “Francesco, és carne da minha carne e despedaça-me o coração que te vás embora. Mas para onde tu vais as pessoas são muito ricas, por isso não quero reter-te. Vai com Deus! Quando voltares, poderei morrer tranquila. Vai, meu filho.”

Deu-me este violino e veio despedir-se de mim, juntamente com as outras mães, até às montanhas, que, vistas de longe, parecem azuis. Ficaram aí, de braços estendidos. Quando a noite caiu, tocámos flauta e violino para que ainda pudessem ouvir-nos. Agora vou regressar, mas ainda mais pobre do que quando parti, pois já não tenho esperança.

Nesse momento ouviu, perto do local onde se encontrava, três rapazes a cantar diante da porta de uma casa; um deles sustinha na ponta de um pau uma lanterna dentro da qual luzia uma vela. Eram pequenos camponeses, calçados com socos e com as cabeças envolvidas em cachecóis, que cantavam canções de Natal para ganhar algumas moedas. O mais velho punha-se em bicos de pés e cantava através do buraco da fechadura, para que os ouvissem melhor no interior da casa. O segundo cantava rodando sobre si, com as mãos nos bolsos, e via-se-lhe a boca bem aberta, pois gritava a plenos pulmões. O terceiro gritava também, mas parava a cada passo para fungar, e retomava os gritos com tal força que parecia que a voz lhe ia faltar. E um ou outro dizia: “Mais alto!”, enquanto o que tinha a cara pegada à fechadura dava pancadinhas com a ponta dos socos no fundo da porta, e começavam os três a gritar como loucos.

Cantavam em coro, mas, quando um acabava, o outro recomeçava, e o terceiro cantava atrás do primeiro, sem nunca o alcançar. A pequena e bruxuleante vela iluminava os seus narizitos vermelhos e fazia bailar as suas sombras por trás deles até ao fim da rua, e eles mesmos bailavam com as últimas notas da sua canção, saltando sobre os socos; mas não se riam. A sua canção dizia o seguinte:

 

Natal!, já chegaram os meninos,

Os pequenos e os mais pequeninos

A saudar o burro do Senhor

De nosso Senhor Jesus Cristo.

Há feno e nabos cozidos,

Cenouras e pão benzido.

Que a gente coma e os animais também

Biscoitos e pão cozido.

Natal, Natal, Ámen!

 

Natal!, eh!, disseram os Reis.

Para os nossos três cavalos queremos feno /

Mas para nós queremos biscoitos

Que haveremos de trincar com os nossos dentes.

E se algum bocadinho sobrar

Guardai-o para os porcos.

Que a gente coma e os animais também

Biscoitos e pão cozido.

Natal, Natal, Ámen!

 

Os três rapazinhos retomavam pela terceira vez a canção, quando, de repente, ouviram um violino perto de si. Era Francesco que, humilde e sorridente, os acompanhava, e com os tacões ia marcando o ritmo para se harmonizar com eles. Pararam de cantar e o mais velho mostrou os punhos a Francesco dizendo-lhe:

— Não queremos dividir o nosso dinheiro com ninguém.

Assim expulso, pôs-se a vaguear pelas ruas, tocando violino de porta em porta e diante das lojas, mas o arco mal deslizava pelas cordas pois as fibras estavam geladas.

Onde passar a noite? No fundo de um escuro pátio havia uma carroça cheia de palha guardada num alpendre. Atravessou silenciosamente o pátio e levantou um feixe de palha para se meter debaixo. Mas então um cão saiu da sua casota e principiou a ladrar furiosamente. Retrocedeu e dirigiu-se para a casa onde acabava de conhecer a caridade, a graça e a doçura, no rosto de Leentje. Avistou a branca fachada, a grande porta de carvalho pintada, com batentes de bronze em forma de cabeça de leão, por cima dos quais, no painel esquerdo, numa bela placa de cobre, reluzia o nome CAPPELLE & Ca, gravado em grandes letras. Olhou para as janelas, que estavam fechadas, exceto três, no primeiro andar, iluminadas.

Quem estaria acordado em casa? Pelas ranhuras das portadas saía o som de um piano, como uma música do paraíso, e uma doce voz dourada elevava-se no silêncio da noite. Esta voz lembrava-lhe as canções da sua mãe quando o embalava, as músicas das crianças das montanhas, o vento entre as árvores e mil coisas ternas e longínquas. Então a música parou, mas ele continuou a escutá-la durante algum tempo no fundo do seu coração, como uma canção de Natal.

De repente, abriram-se várias portas ao longo da rua, e saíram sombras andando com rapidez, algumas delas com pequenas lanternas que avermelhavam a neve, já que os lampiões da cidade se tinham apagado. Todas essas pequenas lanternas se dirigiam para o mesmo local: para onde os sinos anunciavam a missa do Galo. A porta da casa Cappelle & Ca também se abriu, derramando sobre a rua uma alegre luminosidade: alguns homens e mulheres cuidadosamente agasalhados apertaram a mão do dono da casa, e uma doce voz, a mesma que tinha cantado, desejou-lhes boas-noites. Então o grupo separou-se, entre risos, a porta fechou-se, e as janelas iluminadas pelas lâmpadas foram-se apagando uma a uma.

Ah!, o Sr. Cappelle quis festejar a Consoada e soube fazê-lo: beberam chá, vinho quente e ponche, a mesa ainda estava cheia de bons patés e deliciosas tartes encetadas. Mina despiu Leentje e, depois de um abraço, deitou-a entre os quentes lençóis. Já quase a adormecer, Leentje voltou a cabeça para a árvore de Natal, que fora levada para o seu quarto, a boneca, os estojos, a caixa de costura e os cartuchos de amêndoas. A luz que bailava no alto da casa, sobre as cortinas do seu quarto, como uma estrela na neblina, apagou-se por sua vez e a escuridão envolveu o doce sono da filha do Sr. Cappelle.

 

IV

 

Ah, que alegres eram os flocos de neve quando, como se fossem borboletas de inverno saltando no trampolim da tempestade, subiam, desciam, voltavam a subir, enquanto um menino na janela esticava a sua mão rechonchuda para tentar apanhá-los! Eram alegres para qualquer pessoa exceto para o pobre Francesco naquela gélida noite de Natal! Dos seus olhos deslizavam lágrimas, enquanto ia aquecendo as mãos com o seu bafo. O mundo era muito cruel! O que iria agora fazer? Viu então no escuro uma porta tão recuada que a neve não lhe havia coberto o umbral. Dirigiu-se para lá, sentou-se, tendo o cuidado de estender por baixo o casaco, e adormeceu com o queixo entre os joelhos.

De repente sentiu o chão fugir-lhe debaixo dos pés. Era ele que subia, ou o chão que baixava? Que importava. O que se apresentava aos seus olhos era muito mais bonito do que o que havia na Terra. Foi então que chegou até ele um aroma delicioso, como o que saía da cave do pasteleiro. O ar estava perfumado de baunilha, de açafrão, de canela, de limão, e uma brisa cálida espalhava estes maravilhosos aromas por toda a parte. Meu Deus, que embriagadores! Sentia-os a fluir pelas suas veias como o sumo da fruta madura.

Magníficas pradarias estendiam-se à sua frente, com tonalidades púrpura, esmeralda e turquesa, até ao horizonte de montanhas que salpicavam o azul celeste. E um damasqueiro brilhante como um sol derramava luz sobre as geleias, os xaropes e os cremes da paisagem. Nunca o autêntico sol lhe parecera tão brilhante e tão húmido ao mesmo tempo! “Senhor, Senhor!, como tudo isto é bom e que doce é viver!”, exclamou Francesco ao mesmo tempo que se banhava no creme e o comia às dentadas.

Então ergueu-se diante dele uma montanha de caramelo, coroada com a mesma torre que tinha visto na pastelaria. Quem vivia nessa torre? Só podia ser uma fada, que, sem dúvida, seria a rainha do país que acabava de percorrer. Mas como entrar nessa torre esplêndida e silenciosa? Procurou uma campainha mas em vão. Toc, toc, acabou por bater. E uma voz, doce como mel, respondeu-lhe do fundo da torre: “Entre”.

Entrou.

Uma grande escadaria de açúcar conduzia de uma galeria de biscoito até outra de torrão. Toc, toc, voltou a bater. E a mesma voz respondeu-lhe: “Mais acima”.

Deste modo chegou à última galeria, que era de maçapão, após ter passado por todo o género de maravilhas. E, de repente, encontrou-se diante da pequena bailarina da pastelaria que, sorrindo-lhe com muita ternura, disse:

— Estava à tua espera, meu pequeno Francesco.

Na verdade, já não se erguia na ponta do pé esquerdo, com a perna direita levantada, como a vira pela primeira vez no alto da torre, na loja do pasteleiro. Não, tinha os dois pés no chão e estendia-lhe a mão.

Francesco nunca vira uma menina tão formosa, tão encantadora e tão elegante. Toda de açúcar, com cores brilhantes que a tornavam ainda mais deliciosa. Oh!, era açúcar do bom e tão apetitoso que Francesco, não sabendo o que responder, começou a lamber-lhe o pescoço, sob os seus cabelos loiro e cinza. Porque lhe ocorreu de repente que esta linda menina era a mesma pessoa que havia sido tão caritativa com ele, quando ainda vivia na Terra? E a pequena bailarina, como se lhe adivinhasse o pensamento, disse:

— Sim, sou a mesma. Aqui tens a minha mão: casemo-nos. O meu reino será também o teu.

Então Francesco pôs a sua mão sobre a dela. Estavam já casados. O belo damasqueiro da cor do sol escureceu nesse momento: logo um tom crepuscular tingiu a crista das montanhas, e uma espessa camada de geleia escura cobriu a planície inteira.

— Já é de noite, Francesco — disse-lhe a rapariga de açúcar.— Temos de nos separar.

E Francesco viu como se derretia lentamente, como uma estrela na claridade crescente do amanhecer; a torre desfez-se, e as montanhas também, e toda a paisagem começou a derreter, ao mesmo tempo que ele próprio via como se ia desvanecendo, pouco a pouco.

Até que...

Na manhã seguinte, a criada da casa encontrou no umbral da porta, ao sair para ir à padaria, um pequeno cadáver congelado.

— Chiu! Não o acordemos.

O pobre Francesco partira nas asas do sonho, através da noite de Natal.

http://www.fondationtanagra.com/art/photo/1696/display/Violon.jpg?1350489387

 

[1] Bolinhos de passas típicos belgas (N.T.)

 

Camille Lemonnier

 

 

María Cuenca Ramón

Cuentos europeos de Navidad

Madrid: Clan, D.L. 2005

(Tradução e adaptação)

 

No intuito de darmos continuidade ao anterior projecto, “Um dois três era uma vez”, embora em moldes que se pretendem mais abrangentes, reiniciamos o envio semanal de pequenas histórias para crianças e adolescentes, por vezes acompanhados de textos dirigidos a um público adulto, convidando à reflexão, e também ao sonho, que tão necessários se tornam numa sociedade em que o materialismo tem crescido desmedidamente, a ponto de abafar os valores mais genuínos do ser humano: o respeito pelos outros, a ternura, a delicadeza, a compaixão pelos que sofrem, a generosidade.

Esperamos que o projecto, que agora passa a chamar-se “Um dois três, era outra vez”, continue a encontrar leitores assíduos entre aqueles a quem se dirige, e possa proporcionar agradáveis momentos de partilha entre pais e filhos.

 

 

 

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E…diga-nos o que pensa das histórias que lhe forem chegando!

 

Responda-nos para: 1...@isep.ipp.pt

 

Ideia: Teresa Tudela e Betina Campos Neves

 

 

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O Natal do pequeno violinista - A4 - Camille Lemonnier.pdf

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Dec 30, 2016, 1:09:32 PM12/30/16
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HOJE COM VOTOS DE UM EXCELENTE 2017!!!!

 

Tentando alcançar a lua

(conto tibetano)

 

Uma noite, o Rei dos Macacos reparou numa gloriosa lua dourada que repousava no fundo de uma lagoa. Não se apercebendo de que se tratava apenas de um reflexo, o Rei chamou os seus súbditos para que lhe fossem buscar aquele tesouro não reclamado.

O nosso macaco mais forte agarra-se a esta árvore ordenou o Rei. E o nosso segundo macaco mais forte agarra-se à mão dele, tenta alcançar a água e pega na lua dourada.

Assim fizeram. Mas o segundo macaco não conseguia alcançar a lua.

Quem é o nosso terceiro macaco mais forte? Agarra-te à mão do teu irmão e vai buscar a lua.

Mas a lua continuava fora do alcance deles.

Tragam o quarto macaco mais forte. Que desça até junto da lagoa e tente a sua sorte.

Os macacos formavam agora uma cadeia, cada um pendurado no braço do outro. O quarto macaco usou os braços deles como escada e ficou pendurado na mão do terceiro macaco… mas a lua continuava fora do seu alcance. E assim continuaram… cinco… seis… sete… oito… macaco após macaco, até que o último conseguia tocar já na superfície da água.

Estamos quase a conseguir! gritaram os macacos.

Deixem-me ser o primeiro a agarrá-la! gritou o Rei, que se lançou cadeia abaixo.

Mas o peso de toda esta loucura tinha-se tornado demasiado para as forças do macaco mais forte, que continuava agarrado ao topo da árvore. Quando o Rei ia a tocar a água para pegar na lua, o macaco mais forte largou o tronco. Um a um, caíram todos na lagoa e afogaram-se, juntamente com o Rei.

 

Aquele que segue um líder insensato é ele próprio um tolo.

 

Margaret Read MacDonald

Peace Tales

Arkansas, August House Publishers, Inc., 2005

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Tentando alcançar a lua (conto tibetano) - A4 - Margaret Read MacDonald.pdf

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A LOUCURA DA GUERRA

 

QUEM LUTA PERDE SEMPRE

 

U

m chacal recém-casado vivia perto da margem de um rio. Um dia, a esposa pediu-lhe uma refeição de peixe. O chacal prometeu trazer-lha, embora não soubesse nadar. Aproximou-se do rio com todas as cautelas e viu duas lontras a lutarem com um peixe enorme que tinham apanhado. Depois de matarem o peixe, começaram a lutar para dividir o peixe entre ambas.

─ Eu vi-o primeiro, por isso a parte maior pertence-me! ─ disse uma delas.

─ Mas ias-te afogando a pescá-lo e eu salvei-te ─ contrapôs a outra.

Continuaram a lutar até que o chacal se aproximou delas e se ofereceu para ajudar a regular a disputa. As lontras concordaram em acatar a decisão que ele tomasse. O animal cortou o peixe em três pedaços. A uma das lontras deu a cabeça e à outra deu a cauda.

─ A parte do meio é para o juiz ─ declarou.

Afastou-se dali todo contente e disse para consigo:

─ Quem luta perde sempre.

(conto indiano)

 

 

 

Margaret Read MacDonald

Peace Tales

Arkansas, August House Publishers, Inc., 2005

Tradução e adaptação

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Quem luta perde sempre - Peace Tales - Margaret Read MacDonald.pdf

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Jan 13, 2017, 12:55:52 PM1/13/17
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O maior segredo do metropolitano de Nova Iorque

 

As aparências iludem.

Provérbio

 

Estava grávida de quatro meses, sentia-me muito doente e só desejava regressar a casa e deitar-me na cama. Infelizmente, estava a trabalhar em Nova Iorque e a minha casa ficava em Long Island, a quarenta e cinco minutos de comboio. Pensei que eram enjoos, mas a enfermeira da empresa foi muito direta. Você apanhou um vírus. Tem de ir imediatamente para casa descansar.

Arrastei-me pelas escadas abaixo e apanhei um táxi para a Penn Station, onde podia apanhar o comboio para casa. Era hora do almoço e a estação estava apinhada. Havia uma multidão a dirigir-se para o trabalho e para as compras, e todos se precipitavam para dentro dos comboios e do metropolitano. Desalentada e vagarosa, afastei-me do seu caminho e encostei-me à parede. As minhas pernas pareciam de borracha. Antes que me apercebesse, os meus joelhos cederam e eu caí redonda no chão. Ali estava eu, de casaco comprido e fato impecável, sentada no chão da estação do comboio. Alguns passageiros passavam ao lado. Outros saltavam por cima das minhas pernas. Quase todos me olhavam com uma certa aversão. Não podia culpá-los. Eu estava num desalinho total e talvez pensassem que andava metida no álcool e na droga. Fechei os olhos. Quem dera acordasse em casa deitada na minha cama!

Senti que me puxavam pela manga e levantei os olhos. Uma sem-abrigo desdentada acercara-se de mim. Usava um gorro coçado enfiado na cabeça. Emanava um cheiro que era uma mistura de roupa suja e comida estragada. Não era um cheiro agradável para uma mulher grávida. Primeiro, retraí-me; depois, senti náuseas, mas esforcei-me por não vomitar.

Estás com mau aspeto disse ela.

Poderia ter dito o mesmo dela. Acenou para uma companheira e, juntas, levantaram-me do chão.

Tens de sair do caminho disse uma delas.

Senão as pessoas passam por cima de ti.

Puseram-se uma de cada lado. Uma agarrou na minha carteira, a outra na minha pasta. Estava demasiado debilitada para entrar em pânico. Aos ziguezagues, arrastámo-nos para fora da entrada e descemos um lanço de escadas. Conduziram-me por um labirinto de passagens. No que é que eu me tinha metido? Finalmente, entrámos num túnel mal iluminado. Num canto estava um carrinho de compras com os pertences das duas. Para elas, esta era a sua casa, mesmo debaixo da Penn Station. Escoltaram-me até um banco de madeira pouco seguro.

Não te preocupes, aqui estás a salvo disse uma delas.

O seu sorriso mostrou alguns dentes partidos e outros em falta. Era quase certo que se preocupava muito pouco com a sua aparência. Surpreendentemente, parecia mais preocupada comigo, em saber como eu me sentia. Uma delas desapareceu por um instante. Quando regressou trazia três chávenas de chá. Não sou muito de beber chá, mas este foi de longe o chá mais delicioso que alguma vez bebi.

Estás com melhor aspeto disse.

Onde vives? perguntou.

Em Long Island respondi.

Não te preocupes, levamos-te de volta ao comboio, mas agora descansa.

Conversámos sobre o tempo e a família, enquanto os comboios e o metropolitano passavam ruidosamente por cima das paredes e do teto. Por um momento pareceu-me viver um episódio de Alice no País das Maravilhas com algumas diferenças consideráveis. Enquanto a Alice caiu numa toca de coelho e se achou num mundo de fantasia povoado por criaturas e conversas estranhas, eu mergulhei num túnel subterrâneo habitado por duas pessoas incrivelmente carinhosas. Depois do chá, as minhas salvadoras levaram-me de volta à entrada da estação de Long Island. Verificaram os horários das partidas, acompanharam‑me ao comboio e disseram-me adeus. Durante todo o dia nunca me sentira tão bem como naquele momento. Depois de descansar durante dois dias, regressei ao trabalho. Era hora de ponta e o metro estava apinhado. Enquanto esperava pelo comboio, permaneci na plataforma longe da multidão. Mas não fiquei muito tempo sozinha.

Como te sentes? disse a minha amiga sem-abrigo, que exibia o mesmo gorro de lã coçado.

Eu sorri. Não queria acreditar que me tinha encontrado no metro.

Um pouco cansada, mas muito melhor. Mais uma vez obrigada pela vossa ajuda.

Não tens de agradecer. Hoje precisas de um lugar sentado no metro. Não podes ir de pé.

E exibiu um largo sorriso malicioso. Os passageiros costumam lutar pelo melhor lugar na plataforma. É que, quando as portas do comboio abrem, todos se empurram e abrem caminho para conseguir um lugar sentado na carruagem, sem sequer deixarem sair os passageiros que terminam viagem. Quando a minha amiga se aproximou do lugar cobiçado da plataforma, os passageiros recuaram. Já é habitual manterem-se à distância dos sem-abrigo. É como a separação das águas no Mar Vermelho. Ficou, pois, sozinha. Fez-me então sinal para me juntar a ela. Foram muitas as cabeças que se voltaram para nós. A minha nova amiga pôs o braço à minha volta e eu fiz um esforço para reprimir uma gargalhada.

Hoje vais conseguir um bom lugar disse com um piscar de olhos.

Não tive a mínima dúvida. Os passageiros estavam furiosos. Tinham perdido o lugar que cobiçavam e não podiam fazer nada. O comboio chegou. Despachei-me e consegui um lugar sentado. A minha amiga recuou e o comboio encheu-se de passageiros zangados. As portas do comboio fecharam-se e eu disse adeus à amiga de gorro de lã. Nunca mais a vi. Mas durante aqueles dois dias partilhámos risos, sorrisos e uma chávena de chá. A ajuda chega muitas vezes quando mais precisamos e da forma mais inesperada.

Maureen C. Bruschi

 

Jack Canfield, Victor Hansen et al.

Chicken Soup for the Soul: Find Your Happiness

Florida, Health Communications, Inc., 2011

(Tradução e adaptação)

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O maior segredo do Metropolitano de Nova Iorque - A4 - Maureen C. Bruschi - Canja de Galinha.pdf

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Jan 20, 2017, 1:09:50 PM1/20/17
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Uma Rapariga Corajosa

Clara Lemlich e a Greve das Costureiras de 1909

 

 

 

Um navio aporta em Nova Iorque, com centenas de imigrantes a bordo e alguém que virá a revelar-se uma surpresa para a cidade.

Clara Lemlich é uma surpresa extremamente pobre, tem cerca de metro e meio e mal fala uma palavra de Inglês. Mas é uma rapariga de coragem e irá demonstrá-lo.

Clara sabe bem distinguir o certo do errado.

O errado é o que acontece algumas semanas depois de os Lemlich ocuparem o alojamento que lhes destinaram na América.

Ninguém contrata o pai de Clara, embora ela receba uma proposta de trabalho.

Uma proposta de trabalho a fazer blusas, casacos, vestidos de noite e outras roupas de mulher. Os milhares de raparigas imigrantes que foram contratados ganham apenas alguns dólares por mês, o que sempre ajuda para pagar a comida e a renda. Em vez de carregarem livros para ir à escola, muitas das raparigas carregam máquinas de costura para o trabalho.

BraveGirl3.1.jpgClara torna-se costureira.

 

Trabalha de manhã à noite, fechada numa fábrica. Filas e filas de jovens mulheres debruçam-se sobre as mesas a coser colarinhos, mangas e punhos, com toda a celeridade de que são capazes.

— Despachem-se, despachem-se! gritam os patrões.

A divisão não tem luz direta e é insuportavelmente abafada, devido à quantidade de pessoas que nela se encontram.

Só há duas retretes sujas, um lavatório e três toalhas para trezentas raparigas.

Se alguém se picar num dedo e sujar o tecido, é multada. Se o fizer duas vezes, é despedida.

Se se atrasar alguns minutos, perde metade de um dia de salário.

As portas estão fechadas e todas as noites as trabalhadoras são inspecionadas para detetar eventuais roubos.

Clara aprende as regras depressa, mas continua a ser uma rapariga indómita.

 

Quer ler e aprender.

Quando o seu turno acaba, vai para a biblioteca, embora tenha dores de olhos, por causa da falta de luz com que trabalha, e de costas, por estar constantemente vergada sobre a máquina de costura.

Enche o estômago vazio com um copo de leite e dirige-se para as aulas noturnas.

Quando chega a casa, só dorme algumas horas antes de se levantar de novo.

BraveGirl4.1.jpgÀ medida que as semanas se arrastam, Clara faz amizades com algumas das outras costureiras. Partilham histórias e segredos ao almoço, como se estivessem na escola onde deviam estar. Clara sente-se zangada não só por si, mas também pelas suas colegas de fábrica, que trabalham como escravas. Esta não é, de todo, a América que imaginara.

Os homens contam que têm tentado organizar um sindicato para poderem fazer greve até os patrões os tratarem melhor. Contudo, não acham que as raparigas sejam suficientemente determinadas.

Não são suficientemente determinadas? Por serem raparigas? Clara sabe que tem determinação que chegue e que as suas colegas também a têm. E está decidida a prová-lo. A partir de agora, quer seja em esquinas de ruas ou junto de máquinas de costura, Clara vai tentar convencer as outras trabalhadoras a lutarem pelos seus direitos.

 

BraveGirl5.1.jpgQuando as costureiras estão exaustas, diz-lhes:

Façam greve!

Quando não são pagas pelas horas que trabalham, diz-lhes:

Façam greve!

Quando são punidas por dizerem o que pensam, diz-lhes:

Façam grave!

E as raparigas assim fazem.

 

De cada vez que Clara lidera uma greve, os patrões despedem-na.

De cada vez que lidera um piquete, a sua vida corre perigo, porque os donos da fábrica contratam rufias para espancarem as grevistas.

A polícia chega a prendê-la dezassete vezes.

Quebram-lhe seis costelas, mas não conseguem quebrar a sua determinação.

Clara esconde os ferimentos dos pais e, alguns dias mais tarde, volta a manifestar-se.

As outras raparigas dizem entre si:

Se ela consegue, também nós conseguimos.

As pequenas greves duram várias semanas. Entretanto, os patrões arranjaram outras jovens para fazer o trabalho das grevistas, a troco de salários igualmente baixos e de horas igualmente longas.

“Temos de preparar uma manifestação maior”, pensam Clara e outros líderes sindicais. “Uma greve maciça que envolva todas as fábricas de vestuário.”

 

O sindicato faz uma reunião. Os trabalhadores enchem os assentos, as coxias, as paredes. A sala fervilha de excitação. Clara escuta cada discurso, todos feitos por homens, que pedem aos trabalhadores para terem cuidado. Passam-se duas horas, mas ninguém defende uma greve geral. Mesmo o líder sindical mais poderoso do país não o faz, quando sobe ao pódio.

 

BraveGirl6.1.jpgEntão, Clara toma a palavra. A assistência carrega-a em ombros até ao palco e ela grita em iídiche:

As palavras já esgotaram a minha paciência. Voto a favor de uma greve geral!

Clara dá início à maior greve de mulheres na história dos Estados Unidos.

Na manhã seguinte, Nova Iorque fica espantada com a visão de tantos milhares de raparigas a abandonarem as fábricas.

Um jornal chamou-lhes um exército. Outros chamaram-lhe revolta. É uma revolta de raparigas, algumas das quais com apenas doze anos de idade e a maioria com pouco mais.

 

Nas semanas seguintes, Clara é considerada uma heroína. Os seus discursos enérgicos aquecem salas frias de reuniões sindicais e as suas canções animam os grevistas. Sempre que se aproxima um grupo de rufias, Clara encoraja:

Mantenham-se firmes, raparigas!

E elas assim fazem.

BraveGirl7.1.jpgDurante o inverno todo, as raparigas caminham ao lado dos homens nos passeios gelados, vestidas apenas com casacos finos e de má qualidade. Estão exaustas, têm fome e têm medo. Mesmo assim, abarrotam as salas de reuniões, bloqueiam as ruas e enchem as esquinas e praças.

Os jornais escrevem sobre elas. As estudantes universitárias angariam fundos para as ajudar. Mulheres ricas, envoltas em casacos de peles, caminham ao lado delas. Quando a greve termina, centenas de patrões concordam em deixar os trabalhadores organizarem-se em sindicatos. Encurtam a semana de trabalho e aumentam os salários. A greve dá alento a milhares de trabalhadoras das fábricas de vestuário de Filadélfia e Chicago. E convence Clara a continuar a lutar pelos direitos dos trabalhadores. Tem a garganta rouca e os pés moídos, mas ajudou milhares de pessoas.

BraveGirl8.1.jpgProvou que, na América, o que está errado pode ser corrigido, os guerreiros podem trajar saias e blusas e os corações mais corajosos podem pertencer a raparigas de apenas um metro e meio de altura.

 

§§§

 

MAIS  INFORMAÇÕES  SOBRE  A  INDÚSTRIA  DO  VESTUÁRIO

 

Entre 1880 e 1920, dois milhões de judeus emigraram para a América, vindos da Rússia, Ucrânia, Polónia e outros países do Leste da Europa, fugindo de perseguições, pogrons (ataques sancionados pelos governos) e da pobreza. Muitos destes emigrantes encontraram trabalho na indústria do vestuário, na altura em expansão. Em 1909, o ano da greve geral, quase 400 fábricas empregando 40 000 trabalhadores faziam camisas para metade do país. Oitenta por cento destes trabalhadores eram mulheres, setenta por cento tinham entre 16 e 25 anos de idade, e sessenta e cinco por cento eram judeus do Leste da Europa. Os restantes trabalhadores eram italianos e americanos. Muitos dos donos das fábricas também eram judeus do Leste da Europa que tinham subido a pulso no negócio.

A indústria era pródiga em abusos. Muitos empregadores reduziam as horas de almoço, atrasavam os relógios ao fim do dia para enganar os trabalhadores e faziam-nos trabalhar muitas horas (incluindo horas noturnas ilegais), em troca de pouco dinheiro. Faziam-nos ainda pagar por tecidos sujos com sangue ou comida e despediam-nos quando queriam.

Algumas fábricas chegavam a empregar meninas de seis anos para cortarem os fios das peças.

 Quando a greve de 1909 começou, a polícia e os juízes colocaram-se ao lado dos abastados donos das fábricas. Seiscentas jovens foram presas e treze raparigas, algumas com 12 anos de idade, foram condenadas a cinco dias de detenção numa casa de correção. A brutalidade policial só cessou quando os membros da Liga do Sindicato das Mulheres, constituída por mulheres de classe média abastadas, se juntaram às grevistas e organizaram comícios para divulgar as miseráveis condições de trabalho destas.

Quando a greve terminou, 339 firmas de vestuário permitiram que os trabalhadores formassem sindicatos, encurtaram a semana de trabalho, e aumentaram a hora de salário. Algumas companhias, porém, recusaram negociar, nomeadamente a fábrica Triangle Waist, na qual as péssimas condições de segurança originaram um incêndio que reclamou 146 vidas, tragédia que aumentou a consciência pública acerca dos problemas da indústria do vestuário. Clara Lemlich, que na altura teria cerca de vinte e poucos anos, chegou a ser encarregada pelo sindicato de investigar as condições de saúde e segurança da indústria do vestuário.

Depois da greve, milhares de trabalhadores de outras cidades do país, tais como Filadélfia, Chicago, Cleveland e Kalamazoo, fizeram greve por melhores condições de trabalho ou campanha pelo direito de constituir sindicatos. Tal como Clara Lemlich, também Pauline Newman e Rose Schneiderman assumiram papéis de liderança no movimento laboral. Os progressos obtidos pelos ativistas da indústria do vestuário tiveram impacto em empregos por todo o país.

Embora ainda existam erros que precisam de ser corrigidos, os trabalhadores de hoje dispõem de semanas de cinco dias de trabalho, pagamento por horas extraordinárias e outros esquemas de proteção devido, em grande parte, a líderes laborais como Clara Lemlich e a milhares de raparigas corajosas que fizeram greve no inverno de 1909.

 

Michelle Markel; Melissa Sweet

Brave Girl

New York, Balzer+Bray, 2013

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Akim foge

 

 

Para ti, Mãe, e para todas as outras crianças de ontem e de hoje, vítimas das guerras dos grandes.

 

 

Na aldeia de Akim, a guerra parece estar longe.

Na margem do rio Kuma, Akim e outras crianças brincam, tranquilamente, com barquinhos.

Um dia, ao fim da tarde, um barulho surdo de tiros ecoa no céu. Os estrondos tornam-se cada vez intensos.

Na aldeia de Akim, as pessoas começam a correr de um lado para o outro. Akim também corre como os outros. Quer chegar a casa.

Mas a sua casa está destruída, não está lá ninguém.

Akim grita! Agarra-se à mão de um adulto que tenta ajudá-lo. Mas o homem corre mais depressa, e Akim fica sozinho no meio da multidão. Está muito assustado. Quer encontrar a sua família.

Akim esconde-se nos escombros de uma casa cheia de gente que não conhece.

Procura um rosto: o da mãe, da irmã, dos amigos.

Em vão.

— Mamã, Mamã... — Akim chora.

Uma mulher com um bebé chama-o para a sua beira.

De noite, ela dá-lhe colo. Ele fica com ela durante três dias seguidos.

Na manhã do terceiro dia, os soldados entram na casa.

Levam Aki e as outras crianças.

Akim está preso. Sente muito medo e está sempre a pensar na mãe.

Mas tem de dar a comida aos soldados, e tem de ir buscar água ao poço.

À noite, dão-lhe um pouco de arroz para comer.

Um dia, no acampamento, ouvem-se tiros de rockets.

Os soldados saem com as armas.

Akim aproveita para fugir.

Corre, corre.

 

Depois de muitas horas passadas na montanha, encontra várias pessoas que fogem. Corre com elas.

Uma velha estende-lhe a mão. Tem uma criança nos braços. Caminham até à exaustão.

Quando a noite cai, chegam perto de um rio.

É a fronteira.

Atravessam no barco de um pescador.

Durante a noite, Akim tem frio.

De manhã, chegam ao outro lado. Caminham outra vez, agora na direção da aldeia de Mapam.

Na estrada, encontram um camião de ajuda humanitária que os recolhe e leva para um campo de refugiados.

Dão-lhes comida e água para se lavarem.

À noite, há uma cama onde dormir.

No campo, Akim sente-se seguro.

Mas não consegue parar de pensar na sua família e em tudo o que viu.

Nem consegue brincar com as outras crianças…

Um médico vem ter com ele e fala-lhe.

À tardinha, com as outras crianças, ouve contos das mil e uma noites.

Akim chora muitas vezes ao lembrar-se da sua família e de tudo o que passou.

Mas, um dia, o responsável pelo campo chama Akim.

Tinham encontrado a sua mãe…

 

 

 

 

 

Claude K. Dubois

Akim court

Paris, l’école des loisirs, 2012

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Lúcio e as estrelas

 

Diz uma lenda que, na Terra de Cristal, vivia um povo que falava com as estrelas. Os anciãos ensinavam as crianças desde pequeninas a comunicar com elas, não por palavras, mas através do pensamento. Mesmo que gritassem, os habitantes das estrelas não podiam ser ouvidos, por ficarem muito distantes; mas os pensamentos, esses chegavam, porque para o pensamento não há distância.

Na Terra de Cristal, quando uma criança fazia sete anos, celebrava-se sempre uma grande festa. A criança escolhia uma estrela: essa seria a sua estrela. A partir desse dia, devia localizá-la no céu e, à noite, começava a enviar mensagens aos seus habitantes. Devia fazê-lo todas as noites, para que os habitantes dessa estrela reconhecessem o "som" dos seus pensamentos, tal como na Terra de Cristal cada pessoa é reconhecida pelo som da sua voz.

Lúcio sentia-se um tanto nervoso: nessa noite teria a sua grande festa e iria escolher a sua estrela. Ia ter de mostrar que aprendera tudo o que os anciãos lhe ensinaram.

— Como te sentes? – perguntou-lhe Cristóvão, o seu professor.

— Um pouco nervoso. Não sei se serei capaz de fazê-lo bem – respondeu Lúcio. — E também não sei o que hei de dizer aos habitantes da estrela.

— Ainda tens tempo para pensar nisso. No primeiro dia, deves apenas apresentar-te, dizer o teu nome e como és. Aconselho-te a não falares muito. Eles têm de familiarizar-se contigo aos poucos.

— O Sr. Professor ensinou-me a transmitir os meus pensamentos às estrelas, mas não me ensinou a receber os delas. Como vou saber que me ouviram?

— Perguntas bem, Lúcio — respondeu o professor. — Ensinar-te-ei isso no devido tempo, à medida que fores pondo em prática o que aprendeste até agora. Lembra-te que quando as tuas mensagens lá chegarem, virá um sinal luminoso semelhante a um brilho intermitente e a tua estrela vai começar a cintilar com uma luz azulada.

— E se não responderem?

— Isso significa que a tua mensagem não chegou.

Lúcio ficou pensativo: via toda a aldeia ali reunida a olhar para o céu à espera do brilho azulado e este sem aparecer... O professor, que ouvia os seus pensamentos, sorriu e disse-lhe:

— Lúcio, confia em ti. Se duvidares de ti, essa dúvida vai provocar uma grande debilidade na tua mente e, assim fracos, os teus pensamentos não chegarão à tua estrela. Porém, se tiveres confiança e não duvidares das tuas capacidades, o teu pensamento será potente como a luz de um grande foco e chegará sem qualquer impedimento à tua estrela.

 Lúcio compreendeu que essa noite tão especial iria provar se ele realmente confiava em si próprio!

Quando o sol se pôs e a primeira estrela despontou no céu, os habitantes da Terra de Cristal foram saindo de casa e dirigiram-se ao local da celebração. Lúcio vestira-se com roupa especial para o evento: una túnica de linho branco que lhe chegava até aos joelhos, uma fita amarela com um desenho bordado atada em volta da testa e, na mão direita, levava uma varinha de cristal de quartzo. À hora indicada, o professor, colocando-se junto dele, disse-lhe:

— Lúcio, chegou a hora: fizeste sete anos e preparámos-te para este momento. Esta noite vais escolher a tua estrela e mandar aos seus habitantes a tua primeira mensagem. Sabes que as palavras não chegam lá, mas os teus pensamentos, se forem suficientemente potentes, chegarão. Diz, já escolheste a tua estrela?

— Sim, aquela ali! — respondeu, indicando com a vara de cristal de quartzo a estrela que elegera.

— Muito bem, Lúcio. Deves saber que essa estrela pertence ao sistema de Arcturus. Já podes enviar a tua mensagem, quando quiseres.

Lúcio fechou os olhos, concentrou-se e enviou os seus pensamentos para a estrela, repetindo mentalmente cada uma das palavras. Todos os habitantes da Terra de Cristal olhavam para a estrela escolhida, à espera do brilho azulado. Mas o sinal não vinha. O tempo ia passando e o sinal sem vir… As pessoas impacientavam-se e falavam em voz baixa. Então Cristóvão aproximou-se e murmurou-lhe ao ouvido:

— Lúcio, imagina que se encontra lá o teu melhor amigo. Sabes que não podes mandar-lhe uma carta nem falar com ele. Pensa nele com todo o teu coração, diz-lhe o que quiseres. Do fundo do coração, sem forçar a mente.

E Lúcio assim fez. Foi então que começou a sentir um grande calor no peito… De repente, as pessoas que olhavam para o céu soltaram uma grande exclamação. Lúcio abriu os olhos e viu, fascinado, a sua estrela irradiar uma linda luz azulada e dentro da sua cabeça ouvia: Somos os teus amigos de Arcturus. Estamos contentes por te conhecer. A partir de hoje iremos ensinar-te o que nós aprendemos, para que, quando chegar a ocasião, tu o ensines aos habitantes da Terra de Cristal. Todos aplaudiram Lúcio, que permanecia calado, enquanto escutava os seus novos amigos das estrelas.

 

Begoña Ibarrola

Cuentos para sentir. Educar las emociones

Madrid, SM, 2003

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Lúcio e as estrelas - A4 - Begoña Ibarrola.pdf

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O Grupo das Quartas-Feiras

 

 

Não é quem tu pensas que és que te faz resistir.

É quem tu pensas que não és.

 

Anónimo

 

A minha primeira semana na universidade resumiu-se a um imenso remoinho de insónias e de agitação.

Fiz alguns amigos entre os quais a minha madrinha, uma rapariga que dava pelo nome de Jane. Jane atraía-me pela sua postura teatral deslumbrante e, uma vez que o teatro era a minha especialidade, decidi fazer-lhe uma entrevista.

Aparentemente, ela era a pessoa mais bem-sucedida do programa de teatro, tendo participado em treze produções teatrais no primeiro ano. Ouvi-a com muita atenção enquanto ela explicava o seu sucesso e todas as oportunidades que soube aproveitar. Tinha amigos fantásticos. Tinha notas excelentes. Sabia que aulas frequentar.

E eu queria ser como ela.

Certa noite, Jane apresentou-me a Steven, um amigo que estava a produzir um espetáculo com um grupo de estudantes no qual eu queria ingressar. Falámos sobre isso e no meu interesse em participar. Mais tarde, naquela noite, recebi um email do Steven pedindo-me para assessorar o espetáculo. As coisas estavam a correr bem…

Talvez pudesse fazer alguns contactos entre os estudantes de teatro e realizar algumas produções…

Passado algum tempo, recebi uma mensagem da Jane: “O que fazes hoje à noite? Espero-te no meu apartamento às 21h.”

Sabia que Jane ia ser a minha orientadora, mas não imaginava que ela ia ser também minha amiga. Passei cerca de trinta minutos a escolher o que vestir e saí mais cedo para não me perder. Bati à porta do apartamento e deixaram-me entrar. Havia batedeiras em cima do balcão e um dos amigos de Jane segurava duas garrafas de licor em cada mão.

— Bem-vinda às noites de quartas-feiras— riu-se Jane.

 

Entrei sorridente e hesitante. Mas sentia-me despida: todos olhavam para mim.

Às vezes, só nos apercebemos disso quando estamos a ser avaliados. Mas mantive a minha postura e ria com eles (eram seis) enquanto contavam anedotas e falavam da vida de pessoas que conheciam (quem disse aquele disparate, quem cometeu aquela proeza...).

Perguntaram-me que bebida gostaria de tomar e leram-me a lista dos cocktails. Não planeara beber, mas pedi um aperitivo porque foi a primeira coisa que me ocorreu.

Aguentei-o toda a noite. Finalmente quando estavam todos bêbados e achei que não iam reparar, fui à casa de banho e vomitei no lavatório.

Mas eles descobriram-me e, quando voltei à sala, disseram:

— Oh, o velho truque de vomitar no lavatório! Repararam?

Ébrios como estavam, continuaram a perguntar-me:

— Afinal, quem és tu, Ana? Queremos saber todos os teus segredos, até os mais obscenos!

Tentei desviar-lhes a atenção, não porque tivesse segredos vergonhosos, mas porque me preocupava que descobrissem a minha ingenuidade, o que me faria sentir ainda mais despida. Mas o que chamou mais a minha atenção foi a menção contínua da palavra Quartas-Feiras. Perguntei-lhes o que eram as Quartas-Feiras.

Jane riu-se e olhou para Steve e disse:

— Explica-lhe tu.

Steve contou-me então que, no ano anterior, tinham começado a beber em grupo às quartas-feiras. Quando alguém descobriu, começaram a chamar-lhes “O Grupo das Quartas-Feiras”. Disse-me que estavam à procura de um novo elemento e que, por isso, me tinham convidado. Foi então que um dos outros acrescentou:

— Isto é um teste.

Continuei a sorrir, mas disse que provavelmente não iria ficar.

 

Jane não voltou a convidar-me. Falava comigo cordialmente, mas eu tentava evitá-la. Chegou a marcar um almoço, mais por obrigação, para saber como eu estava, mas depois cancelou no próprio dia. Fiquei aliviada.

Agora tenho um novo grupo de amigos. Não me sinto despida em frente deles. Nem tenho de beber. Não são perfeitos, mas estar com eles é como meter a mão em terra fresca.

Sentimos que é tangível, autêntico e orgânico.

Sentimos que é como pensávamos que seria a universidade.

Sentimos que estamos em casa.

 

Hannah Greene

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Feb 17, 2017, 12:32:37 PM2/17/17
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Porque é que o céu está tão distante?

Um conto popular nigeriano

 

No princípio dos tempos, o céu estava muito próximo da terra. Nessa época, os homens e as mulheres não tinham de semear nem colher, não tinham de preparar sopa ou cozer arroz. As crianças não tinham de transportar água ou recolher lenha para a fogueira. Quem tivesse fome aproximava-se do céu, tirava um pedacinho e comia-o. Diz-se que era delicioso. Por vezes, sabia a estufado; outras vezes, sabia a milho torrado ou a ananás maduro.

Como as tarefas eram escassas, as pessoas passavam mais tempo a fazer roupas bonitas, a esculpir estátuas elegantes ou a contar histórias. Também havia sempre festas a organizar. Os músicos ensaiavam as canções, os artistas criavam máscaras em segredo, e as crianças observavam, entusiasmadas, os preparativos.

 

O rei daquele tempo chamava-se Oba e tinha uma corte majestosa. No palácio real, havia imensos criados cuja única função era recortar e modelar o céu para as cerimónias.

Contudo, o céu começou a aperceber-se de que as pessoas desperdiçavam muito daquilo que lhes ofertava. Na maior parte das vezes, as pessoas tiravam mais do que conseguiam comer e deitavam fora o resto.

“Estou cansado de andar a ser repartido por cada caixote de lixo da terra!” pensou o Céu.

No alvorecer de um certo dia, o Céu tornou-se muito escuro. Nuvens negras e espessas reuniram-se em torno do palácio de Oba e uma voz tremenda fez-se ouvir:

– Grande e poderoso Oba! O teu povo tem desperdiçado as minhas dádivas. Estou cansado de me ver repartido pelos caixotes do lixo do mundo. Aviso-te de que não desperdices mais as minhas ofertas ou deixarás de a ter!

Aterrorizado, Oba decidiu enviar mensageiros a todos os cantos da Terra para informar o povo sobre a ameaça do Céu. Até as crianças foram avisadas de que nunca deveriam tirar um pedaço de Céu a não ser que estivessem mesmo com fome.

Todos passaram a ser mais cuidadosos… Durante algum tempo.

 

Chegou de novo a época do grande festival anual, o festival que celebrava o poder de Oba. Este dançou para os seus súbditos envergando os trajes cerimoniais. Apesar da alegria que reinava em cada casa e rua, Oba sabia que os festejos poderiam fazer as pessoas esquecerem-se do aviso do Céu. Por isso, certificou-se de que ninguém comia mais do que o necessário.

Todavia, havia no reino uma mulher, chamada Adese, que nunca estava satisfeita. E o que Adese mais adorava era comer! Na última noite do festival, Adese e o marido foram convidados para o palácio de Oba, onde dançaram e comeram até bem depois da meia-noite.

“Que noite!”, pensou, mais tarde, Adese, ao regressar ao seu jardim.  “Como gostaria de a reviver! Os ritmos que ouvi, as pessoas ricas que vi, a comida que comi...”

Foi então que Adese olhou para o Céu e, esperando voltar a saborear o magnífico estufado que ele lhe tinha oferecido, tirou um pedaço. Tinha apenas comido um terço desse pedaço quando se deu conta de que já não conseguia comer mais.

– Que fiz eu? – lamentou-se. – Não posso deitar isto fora!

Chamou logo pelo marido:

– Otolo! Acaba este pedaço por mim!

O marido, exausto da dança e satisfeito com tudo o que tinha comido no palácio, conseguiu comer apenas dois pedacinhos.

– Acorda as crianças! – gritou Adese, assustada.

Mas as crianças tinham passado toda a noite na brincadeira e estavam demasiado satisfeitas para darem sequer uma dentadinha no pedaço de Céu que a mãe tinha tirado.

E nem os vizinhos quiseram comer mais.

E assim Adese atirou o que restava do seu pedaço de Céu para o chão, perguntando-se: “Mas que diferença fará mais um pedaço de Céu no lixo?”

De repente, o chão estremeceu, ouviu-se um trovão e o Céu inclinou-se sobre o palácio de Oba.

– Grande e poderoso Oba! – bramou uma voz vinda de cima. – O teu povo desrespeitou-me. Decidi deixar-vos e afastar-me.

– De que nos alimentaremos? Como iremos sobreviver? – argumentou Oba.

– Terão de aprender a trabalhar a Terra e a caçar nas florestas. Talvez aprendam a não desperdiçar, quando tiverem de trabalhar – respondeu o Céu.

 

Ninguém, nessa noite, dormiu em paz.

O sol da manhã pôs a descoberto as cabeças dos homens, das mulheres e das crianças que espreitavam por cima dos telhados e pelas janelas, tentando ver se o Céu os tinha mesmo deixado.

E todos viram que o Céu se tinha elevado para bem longe do alcance deles.

A partir desse dia, homens, mulheres e crianças tiveram de aprender a lavrar, semear e colher.

Longe deles repousava o Céu, azul e longínquo.

Tal como hoje.

 

 

Esta história tem cerca de 500 anos. Começou por ser contada em Bini, a língua da tribo Bibi da Nigéria, tribo que existe há mais de 800 anos. O povo Bibi começou, desde há muito, a ensinar os seus filhos a respeitar o nosso planeta. Hoje, compreendemos, tal como os Bibi compreenderam, que o futuro da Natureza e das suas dádivas está nas nossas mãos.

 

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Retold by Mary-Joan Gerson

Why the sky is far away – a Nigerian folktale

Boston, Little Brown and Company, 1992

(Tradução e adaptação)

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Porque é que o Céu está tão distante - A4 - Mary-Joan Gerson.pdf

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O sino da felicidade

Japão

 

 

Lá longe, muito longe, há uma pequena cidade com casas esculpidas na falésia.

Uma cidade efervescente e barulhenta.

No coração desta cidade, oprimido pela agitação geral, um vendedor ambulante de tintas, sabão, esponjas e vassouras, com cinquenta anos, lamenta-se: os negócios correm mal e a mulher fugiu com outro vendedor das redondezas.

Não aguentando mais uma vida sem sentido, o vendedor ambulante segue o caminho que serpenteia toda a falésia. Quer atirar-se de lá de cima…

Mas, quando chega mesmo ao cimo de tudo, cansado, ouve um sino de prata que toca uma melodia ímpar! De repente para, comovido pela música… E tudo nele muda: sente-se leve, tranquilo e o seu peito enche-se de uma alegria imensa. Esquece as inquietações e começa a sorrir. Depois, aproxima-se de uma árvore, onde, todas as noites, um homem sentado observa o mar alto.

― É seu esse sino que está lá no alto?

― Sim.

― Mas que sorte tem! Pode emprestar-mo? ― pergunta o vendedor ambulante, admirado com a sua própria coragem.

― Impossível! ― diz o homem da falésia. ― Eu preciso mesmo desse sino!

― Ah ! se soubesse a minha vida!

 

E o homem da cidade fala com tanta emoção das suas desgraças que o outro acaba por ceder.

― Pronto, está bem! Eu empresto-lho, mas só por um dia.

― Só por um dia e ver-me-ei livre de todas as minhas angústias!

O coração do vendedor palpita de alegria e promete voltar no dia seguinte.

E sobe à árvore para retirar o sino.

 

De regresso a casa, que ficava longe de tudo, coloca o sino no seu jardim mas, em vez de regressar ao trabalho, ei-lo que se põe a dançar sem conseguir parar. Os vizinhos, os clientes perdidos, os pássaros de olhos arregalados e as vassouras, todos se aproximam e, contagiados pela alegria do vendedor ambulante, começam a dançar ao som do sino de prata.

E dançam, dançam sem parar.

 

E os dias vão passando: um, dois, três…

Lá mesmo no cimo de tudo, o homem da falésia espera pelo seu sino.

Está nervoso. Sem a sua música, não consegue ficar sentado debaixo da árvore, como faz todas as noites. Chama a mulher e pede-lhe para ir à cidade, a casa do infeliz vendedor ambulante, e exigir de volta o precioso sino da felicidade.

A mulher segue rapidamente o caminho que desce a falésia e dirige-se à casa do vendedor. Mas, ao ouvir a música do sino de prata, esquece-se de tudo e começa a dançar com o vendedor ambulante, os clientes, com toda a rua…

E dança, dança sem parar!

 

E o leitor, já alguma vez ouviu o seu sino da felicidade?

 

Muriel Bloch

 

Les plus beaux contes de conteurs

Paris, Syros Jeunesse, 1999

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O sino da felicidade - A4 - Muriel Bloch.pdf

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A ÁGUIA E A GALINHA

 

Era uma vez um camponês que queria apanhar um pássaro que pudesse manter em cativeiro. Foi à floresta vizinha e regressou a casa com a cria de uma águia, que decidiu colocar no galinheiro. O animal comia o que as outras galinhas comiam e adotava também os comportamentos delas.

Alguns anos mais tarde, o camponês recebeu a visita de um naturalista. Enquanto passeavam pelo jardim, o visitante comentou:

— Este pássaro não é uma galinha. É uma águia.

— É verdade — concordou o camponês. — Mas criei-o como galinha e, apesar das suas enormes asas, comporta-se como tal.

O naturalista apenas comentou:

— Um dia, o seu coração de águia fá-la-á voar longe.

Ao que o camponês contrapôs:

— Tenho a certeza de que nunca o fará.

Decidiram, então, fazer um teste. O naturalista pegou na águia e, proferindo palavras encorajadoras, desafiou-a a voar. A ave, contudo, preferiu pular para junto das galinhas.

O camponês reafirmou:

— Eu não lhe disse que ela se transformou numa galinha?

— Amanhã experimentaremos de novo — disse o naturalista.

No dia seguinte, subindo com a ave ao telhado da casa, o naturalista incitou-a de novo:

— Já que és uma águia, abre as tuas asas e voa bem alto!

A águia, porém, voltou a juntar-se às galinhas.

O naturalista não desistiu e, no dia seguinte, apontou-lhe o sol que pairava nas alturas e deixou que a vastidão do horizonte a impressionasse. A águia olhou em redor e, de repente, começou a voar. E foi voando cada vez mais alto, até se confundir com o azul do firmamento.

Cada pessoa tem dentro de si uma águia que anseia por nascer e cada um de nós é constantemente desafiado a libertar essa águia que em nós habita.

 

Leonardo Boff

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A Águia e a Galinha - A4 - Leonardo Boff.pdf

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A bibliotecária de Bassorá

Uma história verdadeira do Iraque

 

 

No Corão, a primeira coisa que Deus diz a Maomé é “lê”.

Alia Muhammad Baker

 

 

Alia Muhammad Baker é a bibliotecária de Bassorá, uma cidade portuária desse país arenoso que é o Iraque.

A sua biblioteca é um lugar de encontro para todos aqueles que amam os livros. Lá, discutem-se assuntos relacionados com o mundo e assuntos relacionados com o espírito.

Até agora. Agora, discutem apenas sobre a guerra.

– Os aviões armados irão ocupar o céu?

bib– Cairão bombas aqui?

– Os soldados armados encheram as ruas?

– As nossas famílias sobreviverão?

– O que podemos fazer?

 

Alia receia que os fogos da guerra possam destruir os livros, que são para ela mais preciosos do que montanhas de ouro. Há livros em todas as línguas – livros novos, livros antigos. Há até uma biografia de Maomé que tem setecentos anos. Alia pediu permissão ao governador para transferir os livros para um lugar seguro.

Mas o governador recusou.

Alia decidiu assim tratar ela própria do assunto.

Secretamente, todas as noites, leva para casa alguns livros, carregando-os no seu carro.

Os murmúrios da guerra fazem-se ouvir cada vez mais.

Alguns funcionários do governo passam a vigiar a biblioteca. Há soldados armados no terraço.

Alia aguarda – e receia o pior.

Depois... os rumores tornam-se verdade.

A Guerra chega a Bassorá.

 

A cidade é iluminada por bombardeios e tiroteios.

Alia observa os funcionários da biblioteca, os funcionários estatais e os soldados a abandonarem a biblioteca.

Apenas fica Alia para proteger os livros.

Através da parede da biblioteca, Alia chama o seu amigo Anis Muhammad, que tem um restaurante do outro lado.

– Podes ajudar-me a salvar os livros?

– Posso usar estas cortinas para os embrulhar.

– Aqui tens alguns caixotes da minha loja.

– Podes usar estes sacos?

– Os livros têm de ser salvos.

Durante toda a noite, Alia, Anis, os seus irmãos, e os funcionários da loja e os vizinhos retiraram os livros das prateleiras, passaram-nos através da parede de 7m e esconderam-nos no restaurante de Anis.

Enquanto a guerra continua, os livros estão bem escondidos.

 

Mais tarde, nove dias depois, um incêndio destrói a biblioteca.

No dia seguinte, alguns soldados visitam o restaurante de Anis.

– Porque tem uma arma? – perguntam eles.

– Para proteger o meu negócio – respondeu Anis.

Os soldados partiram sem revistar o interior.

“Não sabem que a biblioteca está no meu restaurante”, pensou Anis.

 

Por fim, o monstro da guerra segue o seu caminho.

 

Alia sabe que, para que os livros fiquem a salvo, terão de ser transferidos para outro sítio, outra vez, enquanto a cidade está calma. Por isso aluga um camião para transportar os trinta mil livros para sua casa e para as casas de amigos.

 

Na casa de Alia, há livros por todo o lado, a cobrirem o chão, os armários e as janelas – não deixando espaço para praticamente mais nada.

Alia aguarda.

Aguarda que a guerra acabe.

Aguarda e sonha com a paz.

Aguarda... e sonha com uma nova biblioteca.

Mas, até lá, os livros estão a salvo – a salvo com a bibliotecária de Bassorá.

 

² Uma nota da autora

 

A invasão do Iraque atingiu Bassorá a 6 de abril de 2003. Com a ajuda de amigos e de vizinhos, Alia Mohammad Baker, bibliotecária-chefe da Biblioteca Central de Bassorá, conseguiu salvar 70% da coleção da biblioteca, antes de a biblioteca ser destruída, nove dias depois.

Estes acontecimentos foram relatados pela repórter Shaila K. Dewan do jornal New York Times, que ouviu falar de Alia e da biblioteca durante uma visita que fez ao restaurante de Anis Muhammad, o Hamdan, que fica próximo da biblioteca e que é considerado um dos melhores restaurantes de Bassorá.

A intérprete de Shaila informou-a que Anis tinha uma história incrível sobre a guerra para lhe contar. Shaila marcou um encontro com Anis.

Alia juntou-se a eles e, juntos, partilharam esta história impressionante.

Um pouco depois de a biblioteca ser destruída, Alia teve um AVC e foi operada ao coração. Mas está a recuperar e, apesar de tudo, está empenhada em ver a reconstrução da biblioteca.

 

Jeanette Winter

The librarian of Basra.  A true story from Iraq

New York, Harcourt Books, 2005

(Tradução e adaptação)

 

 

No intuito de darmos continuidade ao anterior projecto, “Um dois três era uma vez”, embora em moldes que se pretendem mais abrangentes, reiniciamos o envio semanal de pequenas histórias para crianças e adolescentes, por vezes acompanhados de textos dirigidos a um público adulto, convidando à reflexão, e também ao sonho, que tão necessários se tornam numa sociedade em que o materialismo tem crescido desmedidamente, a ponto de abafar os valores mais genuínos do ser humano: o respeito pelos outros, a ternura, a delicadeza, a compaixão pelos que sofrem, a generosidade.

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Uma lua redonda e uma estrela para mim

 

Uma lua redonda.

E tantas estrelas…

 

— Uma estrela cadente, Mamã! Olha como o Papá a apanha no seu quente cobertor castanho! Vê como ela desliza para dentro do seu balde prateado.

— Uma estrela para o novo bebé — diz a Mamã. — Agora, Lua, por favor, vai! Vai para tua casa. Vai dormir na tua cabana. Enrola-te na noite.

— Mamã, vê como o Sol persegue a Lua! Volta para a tua cabana vazia, lua grande e redonda! Apressa-te, Sol redondinho, e torna a relva dourada. Corre sobre a colina e passa pelo rebanho do Papá.

— Vem, Sol, vem aquecer a nossa casa, pois hoje há um bebé recém-nascido na nossa cabana.

 

Mamkhulu, a minha tia, levanta-me bem alto e espeta dois talos de capim amarelo como o sol no telhado, logo por cima da porta.

Depois diz:

— Agora os homens só entrarão quando o cordão umbilical tiver caído da barriga do bebé.

Três “makoties” — três moças — trazem água para o bebé, balançando os baldes sobre as cabeças.

A Irmã Beleza traz uma barra de sabão nova que tinha guardado há muito tempo.

A Irmã Ana traz uma pequena vela de parafina feita de uma lata e um pedaço de pavio para iluminar o bebé.

Gogo, a nossa avó, e as amigas trazem bosta de vaca fresca para fazer um chão novo.

Lá dentro, a Mamã canta uma “tula-tula hush-hush” (canção de embalar) para o bebé.

 

E eis que chega o Papá.

Deixa à porta o seu balde prateado transbordante de leite e ajoelha-se para olhar para as minúsculas mãos do bebé.

— São mesmo parecidas com as minhas — diz.

Em seguida, repara nas minúsculas orelhas redondas do bebé.

— São as orelhas da Mamã!

Desembrulha o cobertor, e lá estão dois pequenos pés com dez dedos minúsculos.

— Estes irão caminhar bem.

O Papá acena com a cabeça.

— Eu sou o pai do bebé — diz com um sorriso.

 

Caminhamos os dois em direção aos outros homens. Mas o meu coração sente escuridão, como uma noite sem lua. Por fim pergunto:

— Papá, és realmente TU o meu papá?

Ele pega nas minhas mãos e coloca-os entre as suas.

— Diz lá se não sou o teu Papá!

Depois olha-me bem pertinho dos olhos.

— Os teus olhos parecem-se com os olhos da Mamã. És filho do teu Papá e és filho da tua Mamã.

Põe os braços à minha volta e diz:

— Esta noite, quando a lua estiver grande e redonda, e todas as estrelas brilharem no grande céu de Deus, mostrar-te-ei que também há uma estrela para ti!

 

Uma lua redonda.

E uma estrela para mim.

 

 

Ingrid Mennen

One round moon and a star for me

London, Frances Lincoln Children’s Books, 2004

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Silvestre e a pedrinha

 

Silvestre, o burrinho, vivia com a mãe e com o pai na rua da Bolota, no vale da Aveia e tinha um passatempo favorito: gostava de colecionar pedrinhas de formas e cores pouco comuns.

Durante as férias, num certo sábado chuvoso, encontrou uma pedrinha muito especial. Era de cor vermelha muito brilhante, completamente redonda. Mais parecia um berlinde. Quando olhava para esse seixo extraordinário, começou a tremer, provavelmente de entusiasmo, e sentiu a chuva fria no dorso.

— Quem me dera que parasse de chover — exclamou.

Para grande surpresa sua, a chuva parou. Não cessou gradualmente, como costuma acontecer. Simplesmente, PAROU. As nuvens tornaram-se invisíveis, as gotas desapareceram à medida que desciam, ficou tudo seco e o sol começou a brilhar como se nunca tivesse chovido.

 

Nunca em toda a vida Silvestre vira um desejo seu tão prontamente satisfeito. Ocorreu-lhe que talvez fosse magia, e pensou que a magia deveria estar naquela pedrinha espantosamente vermelha (onde realmente estava…). Para experimentar, pôs a pedrinha no chão e disse:

— Gostaria que chovesse novamente.

Mas nada aconteceu. Porém, quando repetiu o desejo segurando o seixo no seu casco, o céu ficou negro, viu-se um relâmpago e ouviu-se o som de um trovão.

E começou a chover abundantemente.

“Hoje é o meu dia de sorte”, pensou Silvestre. “A partir de agora posso ter tudo o que quiser. O meu pai e a minha mãe podem ter tudo o que quiserem. A minha família, os meus amigos, qualquer pessoa, todos podem ter tudo o que quiserem.”

Desejou que o sol voltasse e desejou que a verruga na sua canela traseira esquerda desaparecesse. E, efetivamente, logo desapareceu! Silvestre pôs-se então a caminho de casa, ansioso por maravilhar o pai e a mãe com a sua pedrinha mágica. Mal podia esperar para os ver! Talvez até nem acreditassem nele no início...

Ao atravessar a colina dos Morangos, pensando nas mil e uma coisas que podia desejar, ficou espantado ao ver um leão magro e esfomeado que vinha na sua direção.

E assustou-se. Se não tivesse ficado tão assustado poderia ter feito desaparecer o leão, ou poderia ter desejado estar em casa, em segurança, com o pai e a mãe.

Ou poderia ter desejado que o leão se transformasse numa borboleta ou numa margarida ou num mosquito. Ou ainda poderia ter desejado muitas outras coisas…

Mas entrou em pânico e não conseguiu pensar com clareza.

“Quem me dera ser uma pedra”, disse para si mesmo.

E logo se transformou numa pedra!

O leão chegou aos saltos. Farejou a pedra uma centena de vezes, andou à volta dela e foi-se embora confuso, perplexo, intrigado e desnorteado. “Bem vi que era um burro. Devo estar a ficar maluco”, murmurou o leão...

E ali estava Silvestre, uma pedra na Colina dos Morangos, incapaz agora de agarrar no seixo mágico que estava ali mesmo ao lado. “Oh! Quem me dera ser eu novamente”, pensou. Mas nada aconteceu. Para que a magia acontecesse, ele tinha de tocar na pedrinha… Mas não havia nada que ele pudesse fazer!

Sentia-se assustado e preocupado. Estando perdido, sentia-se desesperado. Imaginou todas as possibilidades e, finalmente, compreendeu que a única hipótese de regressar à sua forma original era que alguém encontrasse a pedrinha vermelha e desejasse que a pedra ao lado se transformasse num burro.

De certeza que alguém encontraria a pedrinha vermelho — era tão luminosa e rutilante —, mas o que iria levar uma pessoa a desejar que uma pedra se transformasse num burro? Na melhor das hipóteses, havia uma probabilidade num bilião!

Silvestre acabou por adormecer. Que mais podia fazer?

E caiu a noite.

 

Entretanto, em casa, a senhora Burra e o senhor Burro iam e vinham, nervosos e preocupados. Nunca Silvestre chegara mais tarde do que a hora de jantar. Onde podia estar? Ficaram a pé toda a noite, interrogando-se sobre o que lhe teria acontecido, esperando que Silvestre aparecesse pela manhã. Mas, claro, ele não apareceu. A senhora Burra chorou muito e o senhor Burro fez o seu melhor para a consolar.

Ambos tinham muitas saudades do seu querido filho!

De madrugada, foram interrogar todos os vizinhos.

Falaram com todas as crias — os cãezinhos, os gatinhos, os pequenos potros e os porquinhos. Ninguém vira Silvestre desde a antevéspera.

 

Foram à polícia. Mas a polícia não conseguiu encontrar o burrinho.

Todos os cães no Vale da Aveia foram à sua procura. Farejaram atrás de cada pedra, de cada árvore, de cada folha de erva, em cada canto e barranco das redondezas e além, mas nem um cheirinho dele encontraram. Farejaram a pedra na Colina dos Morangos, mas cheirava a pedra. Não cheirava ao Silvestre…

Depois de um mês sempre à procura nos mesmos lugares e interrogando sempre os mesmos animais, o senhor Burro e a senhora Burra já não sabiam o que fazer. Concluíram que algo de muito terrível devia ter acontecido e que, provavelmente, nunca mais voltariam a ver o filho. (Embora durante todo este tempo ele estivesse bem perto...)

Sentiam-se infelizes.

E, para eles, a vida deixara de ter sentido.

Os dias sucediam-se intermináveis.

Na colina dos Morangos, Silvestre acordava cada vez menos. É que, quando estava acordado, sentia-se desesperado e infeliz. Sentia que iria ser uma pedra para toda a eternidade e tentava habituar-se à ideia.

Mergulhou assim num sono sem fim.

Os dias começaram a arrefecer.

O outono chegou com as folhas a mudar de cor.

Depois começaram a cair…Veio depois o inverno. Os ventos sopravam por todo o lado. Começou a nevar. E os animais ficavam muitas vezes em casa, sobrevivendo apenas com a comida que haviam guardado.

Certo dia, um lobo sentou-se na pedra em que Silvestre se transformara.

Uivou e uivou porque estava esfomeado.

Então, um belo dia, a neve começou a derreter. A terra aqueceu ao sol da primavera e as plantas começaram a brotar. Mais uma vez, as folhas desabrochavam nas árvores e as flores mostravam os seus rostos alegres.

Num certo dia de maio, o senhor Burro insistiu com a sua mulher para que saíssem.

— Vamos tentar recomeçar, mesmo que o Silvestre, o nosso anjo, já não possa estar connosco.

E foram para a Colina dos Morangos. E a senhora Burra sentou-se na pedra.

Silvestre despertou do seu sono profundo de inverno com o calor da mãe que se sentara em cima dele. Como ele desejava gritar Mãe! Pai! Sou eu, o Silvestre. Estou mesmo aqui.

 Mas não podia falar. Não tinha voz. Era mudo como uma pedra.

 

O senhor Burro vagueou um pouco enquanto a senhora Burra punha sobre a pedra a comida do piquenique — sandes de alfafa, picles de aveia, salada de sassafrás, compota de azevém.

De repente, o senhor Burro viu a pedrinha vermelha.

— Que linda pedrinha! — exclamou. — O nosso Silvestre tê-la-ia adorado para a sua coleção. 

E colocou-a sobre a grande pedra.

Sentaram-se para comer.

Silvestre estava agora mais desperto.

A senhora Burra sentia uma inquietação misteriosa.

— Sabes — disse subitamente ao senhor Burro, — tenho um pressentimento que o nosso querido Silvestre ainda está vivo e não muito longe daqui.

E estou! E estou!

 

Silvestre queria gritar mas não podia. Se o pai ao menos soubesse…

— Oh, quem me dera que ele estivesse aqui connosco neste maravilhoso dia de maio! — disse a senhora Burra. 

Cheios de desgosto, o senhor Burro e a senhora Burra olharam um para o outro.

Quem me dera voltar a ser eu, quem me dera voltar ao meu corpo, pensou Silvestre.

E eis que, num ápice, ali estava ele!

Um autêntico milagre!

 

Podem imaginar a cena que se seguiu — os beijos, os abraços, as perguntas, as respostas, os olhares apaixonados e as exclamações carinhosas!

Quando finalmente sossegaram um pouco e chegaram a casa, o senhor Burro guardou a pedrinha mágica num cofre de metal.

Quem sabe não precisariam dela um dia?

Mas agora, que mais podiam desejar?

Tinham tudo o que queriam!

William Steig

Sylvester and the pebble

New York, Aladdin Paperbacks, 1997

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rachid

 

Rachid, o menino da televisão

Primeira parte

 

Rachid é um menino de cabelos negros encaracolados e olhos claros. Uns olhos enormes, luminosos e travessos. Quando chega a casa, vindo da escola, atira com a pasta para um canto e liga a televisão. Lancha diante do pequeno ecrã. Não tira os olhos das imagens, mesmo quando entorna a chávena de chocolate quente. A mãe chama-o repetidas vezes, mas Rachid nem lhe responde. Não a ouve. É como se nem estivesse ali. As imagens fascinam-no, enfeitiçam-no, puxam-no para dentro da televisão. Já não obedece ao pai nem à irmã mais velha. Estão todos cansados de o chamar à razão. Danièle, a sua professora, podia impedi-lo de ver televisão, mas não mora com ele. Rachid tem receio dela, porque Danièle é bonita.

Está apaixonado por ela. Quando fala da professora, cora e gagueja. Diz: “A Danièle tem olhos azuis e eu gosto de olhos azuis.” Na realidade, a professora tem olhos verdes. Só que, para ele, são azuis e sonha muito com eles. Os pais de Rachid sabem que só ela pode rivalizar com a televisão. Um dia, o menino ficou doente e Danièle veio visitá-lo. Trouxe-lhe um livro, Os Contos de Goha. Mal a viu entrar, Rachid apagou a televisão e olhou-a com os olhos de um apaixonado. Nem sequer abriu o livro.

Ainda bem que Rachid é inteligente. Pode fazer os deveres enquanto assiste a um episódio de uma série americana, ou enquanto joga O Jogo Louco. Mas, às vezes, confunde as perguntas do jogo e as da professora, a voz do animador e os apelos constantes da mãe. Então, tudo se mistura na sua cabeça e perde o sono.

 

♦♦♦♦♦

 

Um dia, dá-se uma catástrofe! O televisor avaria! Triste e infeliz, Rachid anda às voltas no apartamento. Tenta reparar o aparelho, mas em vão. Pede à mãe para ir a casa dos vizinhos ver televisão, mas os vizinhos estão fora. Põe os auscultadores do seu walkman e fecha os olhos, mas não consegue ver nada. Não quer abrir a pasta nem beber o chocolate quente. Está de mau humor e trata mal a irmã. Quando o pai chega a casa, Rachid parte um prato. É castigado e vai para o quarto sem jantar. Chora e amaldiçoa este tipo de técnica que lhe prega partidas de mau gosto. “Que vai ser de mim sem televisão?”pergunta-se. “Vou tornar-me num sem-abrigo, num vagabundo. Já não tenho imagens para me sustentar! Que raio de aparelho é este que já não funciona? Vou escrever para os jornais, para que as pessoas não comprem mais esta marca…”.

Nessa noite, tem um pesadelo: imagens de todas as cores invadem o quarto e rasgam-lhe os livros e os cadernos. Saem de um televisor desligado, atravessam as paredes, as janelas, até mesmo o pequeno corpo de Rachid, que se encontra encostado a um canto da cama, cheio de medo e a tremer. Deitam os objectos ao chão, derrubam o candeeiro da mesinha de cabeceira e partem a moldura com a fotografia de Rachid e de Danièle. O menino carrega no comando com todas as forças, mas as imagens não param: nem o barulho que fazem, nem a desordem que provocam.

Alertado pelos gritos, o pai vem ver o que se passa. O filho está lavado em lágrimas e encharcado em suor. O pai toma-o nos braços e promete-lhe uma viagem a Marrocos, nas férias da Páscoa. Em breve, o televisor é reparado e Rachid retoma os seus hábitos antigos.

— As imagens não passam de imagens — diz-lhe o pai. — Que me dizes a tentarmos descobrir, por detrás dessas imagens, paisagens maravilhosas, montanhas extraordinárias, florestas imensas, árvores mais altas do que o nosso prédio, planícies infinitas, animais selvagens e um céu azul de dia e estrelado à noite…?

— Não, pai. Posso ver tudo isso na televisão, a cores, em grande plano e com música. Na montanha, não há música.

— Há o canto dos pássaros, o sussurro das árvores, os gritos das crianças a brincar, o soprar do vento. Sobretudo há silêncio, pode-se ouvir o silêncio…

— Não preciso de ir tão longe. Tenho tudo isso na televisão. Quando não gosto do que estou a ver, mudo de canal. A montanha está sempre lá, não podes mudá-la de lugar. Estou bem aqui. Não preciso de me mexer. Não preciso de me separar dos meus amigos. Também não tenho vontade de faltar ao concurso de patins. Aqui não tenho frio, nem preciso de comer com as mãos. Não me apetece escutar o silêncio. Não me apetece ir a Marrocos.

— Mas, em Marrocos, estaremos em férias.

— Eu sei que na montanha não há televisão. Disseste-mo. O avô nem sequer tem electricidade.

— Na montanha, não precisamos de televisão. É maravilhoso: temos a realidade em vez das imagens.

— O avô nem sequer fala francês.

— Fala alguma coisa, assim como tu percebes um pouco de árabe. Vais ver que se vão entender lindamente.

— Não, não quero deixar a televisão. Vão passar a Missão Impossível.

— Quando lá estiveres, vais esquecer a televisão.

— Não, pai, nem pensar.

No dia seguinte, o pai traz-lhe um bonito livro sobre as montanhas de Marrocos. Rachid mal olha para o livro.

— Não presta para nada! — diz ao pai.

O pai sente que também ele não presta. Sente-se triste e incapaz de convencer o filho de oito anos a acompanhá-lo à sua aldeia natal. A televisão rouba-lhe o filho. Parti-la não serviria de nada. A criança está enfeitiçada e os pais sentem-se infelizes. Decidem ir falar com a professora.

— O Rachid passa todo o tempo em frente da televisão. Tentámos tudo para o afastar, mas em vão. A minha mulher e eu tivemos a ideia de o mandar para Marrocos, para casa do avô, nas férias da Páscoa. Pelo menos, lá não há televisão. O avô dele é um contador de histórias nato. Conhece a natureza, as estrelas, os vulcões, as montanhas, os animais… Ajude-nos a convencê-lo a ir a Marrocos. Se o convencer, ele vai…

Antes de partir, o pai oferece a Danièle um livro sobre as montanhas de Marrocos.

Alguns dias mais tarde, enquanto trocava de canal freneticamente, Rachid perguntou ao pai:

— Pai, é verdade que o avô tem um telescópio?

Apanhado de surpresa, o pai respondeu:

— Claro, usa-o para observar as estrelas.

— Pai, é verdade que na escola corânica não é preciso fazer deveres?

— Sim, é verdade. Passas todo o tempo a ler o Corão, o livro sagrado dos Muçulmanos. Só isso.

— Pai, é verdade que em Marrocos o céu está sempre azul?

— Sim, embora os camponeses gostem que chova de vez em quando, porque temem as secas. Uma terra sem água pode morrer.

— Pai, é verdade que o céu de Marrocos é o mais estrelado do mundo?

— O céu está quase sempre coberto de estrelas. Até se atropelam para velar sobre os sonhos dos pequenos Marroquinos…

— Pai, posso levar a tua malinha de couro, aquela que nunca me queres emprestar?

— Sim, podes.

— Se me deixasses ver um pouco mais de televisão antes de partir… já que em Marrocos não vou poder ver… sentiria menos a falta dela…

Acordo firmado. Mas Rachid tem pena que o pai se recuse a comprar um videogravador para gravar os programas que não poderá ver. Diz aos colegas da escola que vai fazer uma expedição a África! “Ao norte de África, mais precisamente a Marrocos, o país onde as estrelas quase se atropelam para velar sobre os sonhos das crianças…”.

Na Primavera, Marraquexe está um pouco mais ocre do que habitualmente. As montanhas conservam ainda alguma neve nos cumes. Os prados estão verdes, o ar é seco e as pessoas estão bem-dispostas. Gostam de brincar, de contar histórias e de organizar festas. De entre todos os habitantes de Marrocos, os cidadãos de Marraquexe são os que têm mais sentido de humor. Vêem a vida pelo lado bom e são hospitaleiros.

Rachid o e o pai chegam ao aeroporto ao fim da manhã. Antes de apanharem a camioneta para irem para a aldeia do avô, vão à cidade comer num restaurante, situado em frente da praça Jamaa El Fna. É lá que se encontram os contadores de histórias, os saltimbancos e os encantadores de serpentes. Comem espetadas e bebem chá de menta. Rachid reparou num pequeno televisor que transmite imagens de um homem cego a falar de religião. O homem tem um turbante branco, está sentado sobre esteiras numa mesquita e explica versículos do Corão. “Deus criou os homens todos iguais”, diz, erguendo os olhos para o alto, “apenas a fé os distingue; só a sua ligação à virtude e o respeito pela palavra de Deus estabelecem diferenças entre eles…” Rachid fixa o ecrã, de boca aberta. Nunca viu este programa em lado algum.

— No Islão — diz o pai — não há racismo. Todos os homens que acreditam em Deus são iguais.

Rachid replica:

— E os que não acreditam em Deus?

— Estão errados.

— E eu, acredito em Deus?

— Sim, Rachid. Deus é o universo, a bondade, o céu…

— Sim, acredito no céu coberto de estrelas… enfim, tenho de o ver.

— Vê-lo-ás esta noite.

Na camioneta, as pessoas atropelam-se e discutem por causa de um lugar para o qual foram vendidos dois bilhetes. Alguns passageiros intervêm e tudo acaba em gargalhada. Os olhos de Rachid estão esbugalhados. Registam tudo. É como se estivesse noutro mundo. A expedição a África acaba de começar! Há camponeses que entram com galos e perus. Levam-nos de volta para a quinta, porque o mercado não é bom desde que deixou de chover. Um homem pega num pão redondo, corta-o em quatro partes e oferece uma delas a Rachid, que hesita. O pai estende a mão, pega no pão e agradece ao homem.

— Nunca deves recusar um pedaço de pão ou um copo de água que te ofereçam. É uma tradição nossa.

Um passageiro põe um aparelho de rádio no máximo, para ouvir um relato de futebol. Fuma cigarro atrás de cigarro. Ninguém ousa dizer-lhe nada. Um homem diz ao pai de Rachid:

— Não ligues; é destrambelhado.

Quando chegam ao sopé da montanha, já Rachid dorme nos braços do pai. O avô espera-os, com um candeeiro a gás na mão. A noite está escura e sopra um vento ligeiro. Quando abre os olhos, Rachid aninha-se contra o avô, Jeddi. A casa tem um pátio quadrado descoberto. As paredes são feitas de adobe, uma mistura de terra batida, palha e hulha. Em frente à entrada, fica o estábulo onde dormem as vacas. Rachid passeia no pátio, espantado com o que vê. É a primeira vez que vê a casa do avô. Costumava ver Jeddi em Marraquexe, em casa do tio que tem uma loja de frutos secos, mesmo à entrada da medina.

Rachid não tem sono. Levanta a cabeça e conta as estrelas. Fica com vertigens. Resiste ao sono, apesar da fadiga e do esforço da mudança. Quer passar a primeira noite a contemplar o céu. À meia-noite, fecha os olhos e adormece, com a cabeça pousada nos joelhos de Jeddi.

 

Continua na próxima sexta-feira.

 

Tahar Ben Jelloun; Baudoin

Rachid, l’enfant de la télé

Paris, Éditions du Seuil, 1995

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Rachid, o menino da televisão-parte1 - A4 - Tahar Ben Jelloun.pdf

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rachid

 

Rachid, o menino da televisão

Segunda parte

 

No dia seguinte, o pai vai-se embora e deixa Rachid a brincar com os cães, os gatos, os coelhos e o burro.

— Vou tratar de problemas com o teu tio em Marraquexe. Venho buscar-te dentro de dez dias. Porta-te bem e ouve o teu avô.

— Não te preocupes, pai. Aqui não há televisão. Espero que ele me conte histórias.

À tarde, quando os animais se recolheram, Jeddi pega na mão de Rachid e leva-o para debaixo de uma grande árvore. Na realidade, a árvore é pequena.

— Dizemos que é grande, não pelo tamanho, mas pela idade e pela calma que nos incute — explica Jeddi. — É uma argânia. Dá um fruto semelhante às azeitonas pretas. As cabras comem-no, mas rejeitam os caroços. Estes são apanhados e postos a secar ao sol durante toda uma estação. Quando os esmagamos com a mó, dão um líquido negro, que, uma vez purificado, se transforma em azeite. Um azeite suculento e raro: o azeite de argânia. É melhor que o azeite da oliveira.

— Não gosto de azeite. Em França, usamos manteiga. Faz-se publicidade a um azeite leve, que não faz engordar. Na televisão, aconselham-nos a comer manteiga.

Rachid aprende a fazer pão com a avó. Assiste a toda a operação: chega mesmo a ver os pães a sair do forno, que está situado no meio do pátio. Depois, vai dar um passeio com o avô até à aldeia. Caminham por estradas cheias de pó. A praça da aldeia assemelha-se a uma cerca onde se guardam os animais. Há duas lojas que vendem de tudo: Coca-Cola, pastilha elástica, detergente, óleo de amendoim, pregos, foices, lâminas de barbear, candeeiros a petróleo ou a gás, ovos, farinha, aspirinas, cordas, enxadas, apanhadores, rodas de tractor, bidões de plástico, pão, cadernos de escola e até mesmo um pequeno televisor japonês a pilhas!

Jeddi pára diante da loja, que também vende café, e senta-se numa caixa. Rachid bebe uma Fanta com sofreguidão. As pessoas vêm cumprimentar Jeddi e beijar Rachid, a quem oferecem presentes: bombons, bebidas, dinheiro, um chapéu de palha, uma túnica de lã, favas grelhadas, azeitonas, tâmaras e figos secos. Todos se conhecem e todos falam da mesma coisa: da falta de chuva. Estão persuadidos de que a chegada de Rachid lhes trará boa sorte e fará vir a chuva há tanto esperada. Diz um homem:

— Este menino veio anunciar-nos a chuva; vê-se pela cara dele; está calado, mas tudo indica que é portador de boas notícias.

No caminho de regresso a casa, Rachid farta-se de fazer perguntas ao avô. Reparou que a água é escassa, que não há água nas torneiras. É preciso ir buscá-la aos poços, filtrá-la e fervê-la antes de a beber. Pelo caminho, repara que há mais mulheres do que homens a trabalhar nos campos.

— Esta noite, vou falar-te das estrelas — diz-lhe Jeddi.

Rachid adormece depois do almoço e tem um sonho muito bonito: vê a mãe, que está vestida como as mulheres dos campos. Dança e canta à chuva. Os homens misturam-se com as mulheres e dançam também para agradecer ao céu ter-lhes dado chuva e esperança. Quando acorda, o céu está cheio de nuvens negras e todos esperam pela tempestade. Começam, então, a cair chuvas diluvianas sobre a região. À noite, os vizinhos vêm ver o menino que lhes trouxe sorte. Colocam uma mão sobre a sua cabeça e aproximam os lábios para a beijar.

 

♦♦♦♦♦

 

Nessa noite, Rachid tem vontade de estar em casa, com os pais e a irmã. Pensa na televisão, mas sente que já não lhe faz muita falta. Não percebe o que se está a passar com ele. Desfilam imagens pela sua cabeça. Imagens de séries e de filmes que costumava ver em França. Essas imagens misturam-se com as da aldeia. Lutam umas com as outras e Rachid faz de árbitro. Torce pelas imagens da aldeia: não são mais belas, mas são mais misteriosas.

No dia seguinte, depois do jantar, Jeddi pega na mão de Rachid e sentam-se num velho tapete, à entrada de casa. Diz ao neto:

— Ergue os olhos para o céu. Contempla-o sem pressa. Habitua o teu olhar à obscuridade. Vê a Lua em quarto crescente. Diz a ti mesmo que todos somos filhos do céu. Alguém disse que as nossas raízes estão nas estrelas. Isso significa que todos somos filhos e filhas do universo.

— Vejo muitas estrelas…

— Só podes vê-las bem, depois de os teus olhos se terem habituado à obscuridade.

— O que é uma estrela?

— É uma imensa bola de luz. A estrela que está mais próxima de nós, e que é também a mais conhecida, é o Sol. Ilumina o mundo e fornece-lhe calor.

— É o senhor do universo…

— É o nosso mestre e amigo. Mas gosta de nós de longe. Se se aproximar demasiado de nós, os seus raios queimam-nos. Impede as nuvens de se formarem e a terra fica sem água. Uma terra sem água é uma infelicidade para todos nós.

— É a seca…

— Na nossa região, a seca é sinónimo de infelicidade. De cada vez que ela surge, os camponeses abandonam as terras e vão mendigar para a cidade. Quem tiver água está salvo. É por isso que ter água é mais importante do que ter terra.

— E a Terra? Para onde vai a Terra?

— A Terra não é uma estrela, mas sim um planeta. Gira sem cessar à volta do Sol.

— O que procura a Terra?

— Faz o que fazem os outros planetas. Sabes, não somos os únicos a girar em torno do Sol. Ao todo, há sete planetas: Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Neptuno, Plutão e a Terra. A Terra dá-nos o dia e a noite. A noite traz-nos os sonhos e os sonhos ajudam‑nos a viver.

— Jeddi, como sabes tudo isso?

— Quando tinha a tua idade, era pastor. Levantava-me antes de o sol raiar e levava as vacas a pastar longe da aldeia. Tinha doze vacas à minha guarda. Só tinha por companhia um cão, Messaoud. Ia à procura de erva para os meus animais. Tal como os meus antepassados, contemplava o céu, para saber o que se ia passar na terra: se ia chover, se os ventos iam empurrar as nuvens na direcção certa. Habituei-me a consultar o céu para tudo. O meu pai dizia que cada ser humano tem uma estrela no céu. À noite, isolava-me e perscrutava o céu, em busca da minha estrela. À força de tanto o observar, aprendi bastantes coisas e o meu pai explicava-me outras. Conhecia o nome de muitas estrelas. Dizia-me que, para nós, Árabes, a Ursa Maior é como uma caravana no horizonte. Se a seguirmos, ela conduzir-nos-á à nossa estrela. Então, eu caminhava pelo céu durante horas, montado na Via Láctea, à procura da minha estrela.

— Como é a tua estrela? Como se chama?

— Dei-lhe o nome da minha primeira filha, Nejma, que morreu muito jovem. Sei que ela foi ter com a minha estrela. Instalou-se na sua luz e ficou coberta da sua pureza e da sua beleza.

— Podes mostrar-ma?

— Gostaria muito, mas os meus olhos já não vêem muito bem, e tenho dificuldade em distinguir os astros no céu. Mas tu podes encontrá-la quando fores à procura da tua própria estrela.

— Em Paris, o céu está sempre encoberto. O que hei-de fazer para encontrar a minha estrela? Como a reconhecerei?

— Reconhecê-la-ás sem esforço. Sentirás, com convicção, que se trata dela.

— Tenho de vir viver para a aldeia…

— Não forçosamente. Vens ver-me sempre que estejas em férias. No Verão, por exemplo…

— Este Verão, em França, vão passar um filme que todos os miúdos americanos já viram. Chama-se A nova guerra das estrelas. O herói chama-se Jeddi, como tu!

— É avô, como eu?

— Não, não é casado!

— Contas-me depois? Gostava que me contasses o que vês na televisão. De vez em quando, vamos à aldeia ver filmes egípcios. Sempre é uma mudança.

Rachid adormece nos joelhos do avô.

No dia seguinte, acompanha-o ao mercado. Partem numa mula. Há camponeses de terras vizinhas a venderem os seus produtos. Jeddi não vende nada, só mostra o mercado ao neto. As pessoas cumprimentam-no. Também há contadores de histórias, acrobatas, mágicos. Um homem vende flocos que custam muito dinheiro. É muito alto e está vestido de Super-Homem. Diz que a mãe o alimentou com estes flocos e que, por isso, se tornou um Super-Homem. Está calor e o homem transpira muito. As pessoas riem-se. Algumas compram os flocos e comem-nos mesmo ali. Mas logo mudam de cor e cospem fora o que comeram.

Todas as noites, avô e neto se sentam no mesmo tapete e observam o céu. Rachid está impaciente porque não consegue encontrar a sua estrela.

— Há milhares de estrelas. É impossível vê-las todas, mesmo com o auxílio de aparelhos. Sê paciente e passeia pelo rio celeste. Quando a tua estrela te vir, vem ter contigo e apresenta-se. Pode acontecer hoje, amanhã ou no próximo ano.

Nesse momento, uma cauda luminosa atravessou o céu a toda a velocidade. Rachid exclamou:

— É ela! Corre como eu!

— O que viste é uma estrela cadente. Provém de poalha celeste. Está a fugir de alguma coisa, talvez do Sol. Não é a tua estrela.

Todas as noites, Rachid pensa ter visto a sua estrela. Quando o pai o vem buscar para voltarem para França, encontra o filho triste e insatisfeito.

Jeddi abraça o neto com força:

— No Verão, o céu está mais limpo e as estrelas vêem-se com mais facilidade. Vais ter mais sorte. Estarei à tua espera.

 

♦♦♦♦♦

 

Na viagem de regresso, Rachid conta ao pai tudo o que aprendeu. Na escola, oferece à professora uma pulseira de prata que a avó lhe deu. Só fala de Jeddi, das estrelas, dos planetas e de Marrocos. Em casa, diante da televisão, está distraído. Não que já não queira ver, mas sabe agora que há outras maravilhas, outras imagens. Basta levantar os olhos para o céu e interrogar as estrelas. Numa noite de Verão, sentado num tapete junto de Jeddi, acaba por encontrar a sua estrela.

As imagens do ecrã têm menos mistério do que uma pequena árvore chamada argânia, ou do que um mercado árabe cheio de camponeses, animais e Super-Homens falsos.

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Rachid, o menino da televisão-parte2 - A4 - Tahar Ben Jelloun.pdf

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Histórias oferecidas à “sexta-feira”!

Hoje, mais cedo e com votos de BOA PÁSCOA!!!!

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Páscoa branca

 

O cais era o mesmo de sempre. Aliás, o único na pequena estação. O vento gelado obrigou-me a envolver a cabeça no cachecol e a calçar as luvas. Apenas três passageiros desceram comigo em direção ao túnel, donde subiram pela escada do lado oeste que conduz à vila, enquanto eu me servi da do lado leste, da chamada «escada do monte».

Depois de chegar ao cimo, parei, pousei a mala e olhei em volta: o céu cinzento, o monte calado, solitário, remoto; as árvores despidas, negras, de luto. E no entanto era Domingo de Páscoa.

Quando ia de novo levantar a mala, reparei no cão. Como sempre estava ali, grande, cinzento, malhado de preto. Fitou-me com olhar caloroso, mas não se moveu do lugar. Transida de emoção, dei um passo em direção a ele: vieste? E logo os olhos se extinguiram, ficaram inânimes como os das estátuas.

Mesmo assim, estendi-lhe a mão, que eu bem sabia, ia tocar no vazio.

 

Subi o monte. Entrei no jardim do hotelzinho onde florescia o croco azul. A terra, ainda gelada, cumpria a data, não podia haver Páscoa sem croco.

— A primavera não veio este ano — disse a dona.

— Veio sim — retorqui. — Então o croco?

A casa estava aquecida. Desembaracei a cabeça do cachecol, tirei o casaco. O quarto dava para o pomar plantado encosta acima.

Afastei o cortinado da janela muito larga e repousei os olhos nas macieiras despidas, na terra escurecida pelo frio e, como se quisesse defender-me, pousei as mãos na superfície quente de mármore que cobria os tubos de aquecimento central. A mobília pintada de branco, animada por uma toalha cor de framboesa em cima da mesa e almofadas às pintas multicolores nas cadeiras, resultava num conforto um tanto infantil.

Estendi-me sobre a cama, voltada para a janela. Fiquei de olhos postos nas macieiras. A calma enchia-me de surpresa. O leve tique-taque do despertador acentuava-a, mas, simultaneamente, desmentia que o tempo tivesse parado ali.

Os ramos desenhavam-se negros sobre o fundo do céu cinzento. Macieiras mortas. Mas não: em breve estariam em flor e viriam então os frutos, em matizes de verdes e vermelhos, anunciando a maturidade e com ela o apogeu do ciclo; depois tudo voltaria a ser como naquele momento, despido, frio, estranhamente belo. Um mundo perdido, irrecuperável e, mesmo assim, ali e nos meus olhos...

 

E nisto começa a nevar. Lentamente, silenciosamente a nevar. E a terra, tão endurecida como um cadáver, cobre-se de branco, os ramos começam a desenhar-se em branco sobre o céu dum cinzento agora mais claro, numa delicadeza impressionante, confundindo-se com ele. Contenho a respiração. Toda eu sou espanto. Os flocos balançam, bailam, lá fora onde não há sopro de vento, dentro do quarto, dentro de mim, brancura suave, imaculada, tranquila, movimento feito de graça... e então, por entre os troncos negros das macieiras, mudo como aquela natureza, a cauda entre as pernas altas, flocos de neve a cobrir-lhe o pelo, o cão.

Seguiu-me portanto. Como há pouco, no cimo da escada, na gare, fico transida de emoção. Era-me dolorosamente familiar, conhecia-o desde sempre, amava-o desde sempre, ouvia-o uivar por mim nas horas de angústia. «Tu?», perguntei. E a palavra implantou-se no silêncio como uma árvore no deserto.

 

Do outro lado do vidro da janela olha-me com grandes olhos castanhos, de pupilas azuis, em que a luz branca faz cintilar uma estrela. Sorrio-lhe e então abana a cauda. «Seu tolo», digo na brincadeira do costume, e logo o vejo levantar a pata para arranhar na janela. «Está bem, está bem», digo, cheia de condescendência fingida, levanto-me e, atravessando o vidro, vou ter com ele. Não consegue conter-se de alegria. Como doido dança em redor de mim, encosta-se-me ao corpo, roça-me o peito para eu lhe acariciar a cabeçorra; rebola-se no chão, ergue-se de novo, salta-me à cara para a lamber num impulso de diabrura e sinto-lhe o contacto do nariz frio e húmido contra a face. Mas depois senta-se, compenetrado, sensato, inclina um pouco a cabeça, fita-me de orelhas espetadas como quem escuta, uma pergunta ansiosa nos olhos. Bem o entendo. Por isso respondo: «Pois sim, vamos».

Mais uma vez me salta à cara lambendo-me agradecido, depois corre em pulos de satisfação, deitando as orelhas para trás, encosta acima. Um vento muito leve agita as flores das macieiras e desprende-lhes os flocos de pétalas brancas que, brandamente iluminadas pelo sol primaveril, flutuam silenciosas no ar, deixando-se por fim cair, como que cansadas, sobre a terra negra donde se exala o cheiro bom do princípio do mundo.

 

Os cabelos soltos sobre os ombros, a correr loucamente, sigo o cão. Por um instante ele para, volta-se, verifica que me encontro perto e desata de novo aos pulos monte acima, em posição de desafio e de quem gosta de demonstrar a sua superioridade física.

«Espera, gabarola!», chamo, mas faz de conta que não ouve e só depois de chegado lá ao cimo deixa de continuar em frente para, em vez disso, vir novamente ter comigo, acompanhando-me até ao mesmo lugar.

Vasto e verde, tão verde, o planalto estende-se até à orla negra da floresta. Nunca antes o azul do céu fora tão transparente, o amarelo das dentes-de-leão tão radiante, o ar tão macio. Lado a lado, o cão e eu detemo-nos um bocado no sonho para em seguida recomeçarmos o nosso jogo de «agarra», correndo e saltando para a direita, para a esquerda e em ziguezague, até cairmos exaustos sobre a relva, eu a cara em fogo, ele ofegante, a língua de fora. «Pobre, pobre», digo e enterro a cabeça no seu pelo fofo, donde lhe tiro carinhosamente algumas pétalas de flor de macieira. E falo-lhe.

 

Conto-lhe coisas, muitas coisas, e ele ouve, silencioso, pacífico como o cair das pétalas na primavera e o da neve no inverno. Não há pressa, não há horas. Tínhamos abandonado o tempo para nos instalarmos na vasta planície verde onde as flores em lume são eternas. Ali não se conhece nem fim nem princípio, nada foi, nada é, nada será. Uma criança fala, e as suas palavras vão de alma a alma, em linha reta, sem curvas, sem desvios. Palavras sem fechaduras, sem chaves, sem rótulos, mas livres como pássaros, nuas como adolescentes banhando-se em fontes de floresta, abertas, imensas como o mar verde onde navegam barcos que não buscam margens nem destinos.

Sonhamos assim. E não há idade encerrada num ciclo iniciado nas trevas e terminando nas trevas. Sonhamos como se tivéssemos chegado da luz, vivêssemos na luz, regressássemos à luz...

 

— Posso entrar?

É a dona do hotelzinho que me traz o café. Pousando o tabuleiro sobre a toalha cor de framboesa, diz:

— Pensei que um café lhe saberia bem num dia como este.

E olhando o nevão por detrás da janela:

— Coisa tão rara, uma Páscoa branca.

— A janela, dantes, era muito estreita — digo eu — mas acho-a bonita assim larga.

E ela, surpreendida:

Conhecia a casa?

— Conhecia. E as macieiras também.

Ilse Losa

O barco afundado

Lisboa, Editorial Novaera, 1979

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Páscoa branca - A4 - Ilse Losa.pdf

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Apr 21, 2017, 12:24:01 PM4/21/17
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Histórias oferecidas à sexta-feira!

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A PACIÊNCIA

 

Numa escola dos Estados Unidos realizou-se uma experiência com crianças de quatro anos. Deu-se um rebuçado a cada uma delas com a seguinte condição: se não o comessem enquanto estavam sozinhos na aula, depois receberiam mais rebuçados.

Os nomes daquelas que não souberam esperar e comeram o rebuçado foram postos numa lista, e os daquelas que tiveram paciência – e receberam depois mais rebuçados – numa outra diferente. Ao fim de alguns anos verificou-se que as da segunda lista, a das crianças pacientes, tinham muito mais êxito na vida do que as da primeira, a das crianças impacientes.

Para triunfar é preciso saber esperar sem perder a paciência.

Aqueles que mantêm a esperança e não desesperam, atingem os seus objetivos.

Por outro lado, também nos cansamos depressa das coisas que conseguimos rapidamente. E pelo contrário: quanto mais demora a cumprir-se um desejo, mais prazer se tem! A arte da paciência ensina-nos que a viagem é mais importante do que a meta. Importante é que nos sintamos bem a fazer as coisas, e que as façamos o melhor possível, sem nos deixarmos levar pela pressa.

 

TRUQUES PARA TER PACIÊNCIA

 

a) dividir as coisas importantes em pequenas etapas;

b) não desesperar quando alguma coisa não sair bem à primeira;

c) não interromper os outros quando estão a falar;

d) concentrar-se naquilo que se faz em cada momento.

 

Dr. Eduard Estivill e Montse Domènech

Já sou grande!

Alfragide, Lua de Papel, 2009

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A paciência - A4 - Dr. Eduard Estivill e Montse Domènech.pdf

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Apr 28, 2017, 12:47:50 PM4/28/17
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(Mais em CONTADORES DE ESTORIAS)

 

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O DEBATE DA BARRA DE CHOCOLATE

Nos jantares de sexta-feira, o meu pai tirava sempre do bolso esquerdo um pequeno bloco. Sempre que se deparava com uma palavra que não conhecia, ele apontava-a no bloco. Às sextas, dava-lhes uma vista de olhos e os jogos começavam. Quando a soletração, o vocabulário e os acontecimentos da atualidade se esgotavam, levava-nos até ao tema seguinte: ética.

A situação que nos apresentava era esta: Vocês aproximam-se de uma daquelas máquinas de chocolates, de moedas na mão. Mas, antes que a vossa moeda caia, apercebem-se de que já está uma barra de chocolate na bandeja. O que é que fazem?

— Eu pegava na barra de chocolate e voltava a meter o dinheiro no bolso — disse o meu irmão Jim.

Claro que ele sabia que aquela não era a resposta correta, embora para ele fizesse todo o sentido.

— É tentador, mas aquele chocolate não te pertence. Não o pagaste — ensinava o nosso pai.

— Ainda assim ficava com ele — dizia a minha irmã Andrea. — A empresa dos chocolates sabe perfeitamente que vai perder alguns dessa forma.

— Não tens que te preocupar com os negócios deles. Não deves pegar em coisas que não pagaste.

— Se eu não pegar, a pessoa a seguir vai fazê-lo — respondia Jim.

— Essa pessoa a seguir vai ter de responder perante a sua consciência por ter roubado o chocolate. Deves deixar o chocolate na bandeja.

 

Quando a memória do meu pai começou a falhar, as coisas complicaram-se.

Felizmente, como combatente veterano da IIª Guerra Mundial, ele tinha direito a tratamento através da VA (Associação dos Veteranos). Para ser integrado no Dementia Program (Programa de Demências), o meu pai foi submetido a uma bateria de testes de memória, que incluíam vocabulário.

E, então, o psiquiatra disse à minha mãe:

— Não há palavra que ele não conheça!

 

Depois disso, o meu pai tornou-se o doente favorito. Contava as melhores histórias e continuou a manter o encanto que lhe era tão característico. Só não sabia em que dia estava. Chegou a altura em que os médicos nada mais podiam fazer. Uma certa manhã chamaram a minha mãe: o nosso pai estava a enfraquecer rapidamente.

 

No momento em que lá chegámos, o meu pai, quieto, estava deitado sobre os lençóis brancos, o pulso já muito fraco. Chorámos. Depois, enxugámos as lágrimas e começámos a contar-lhe histórias.

Quando sentimos fome, desci para ir buscar qualquer coisa de comer.

O átrio estava repleto de veteranos doentes, em várias fases de doença e senilidade.

Comprei refrigerantes na máquina, e depois resolvi tirar uma barra de chocolate.

Ao aproximar-me da máquina, com as moedas na mão, reparei que já havia um chocolate na bandeja. Olhei para cima, em direção ao quarto do meu pai. Seria um teste?

 

Do outro lado da sala, um veterano do Vietname, idoso, amputado e com muletas, dizia:

— Esqueci-me do dinheiro e estou cheio de fome! Alguém pode arranjar-me uns trocos?

— E que tal se for uma barra de chocolate? — perguntei.

— Isso era ótimo.

Entreguei-lhe o chocolate esquecido.

Regressei ao quarto do Pai com o desenlace para “O Debate da Barra de Chocolate”.

Toda a gente concordou que dá-la a um veterano faminto era a brilhante solução que nos tinha escapado durante todos aqueles anos.

 

Naida Grunden

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O debate da barra de chocolate - A4 - Naida Grunden.pdf

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May 5, 2017, 12:44:57 PM5/5/17
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(Mais em CONTADORES DE ESTORIAS)

 

amor_ Sandi FitzGerald m

À PROCURA DE KAREN

Estava prestes a terminar o ensino secundário.

Tinha notas excecionais e o futuro guardava todos os meus sonhos…

– Fiz lasanha. Como tu mais gostas! – disse a minha mãe, quando regressei da escola.

Acenei com a cabeça, notando como se lembrava frequentemente daquilo de que eu mais gostava.

Por vezes, encontrava-a hesitante à porta do meu quarto, sem saber se devia ou não bater.

Raramente nos confrontávamos com as dificuldades que os meus amigos e as mães experienciavam.

Todavia, nessa altura, o meu ensimesmamento impedia-me de pensar muito na relação entre pais e filhos.

– Não tenho fome, agora – respondi. – Como uma sandes mais logo, obrigada.

Uma expressão estranha desenhou-se-lhe no rosto.

– Talvez possamos fazer aquelas bolachinhas de chocolate que costumávamos fazer, ao fim da tarde...

– Não posso, Mãe. Tenho uma festa. Fazemos noutro dia, sim? – murmurei.

E, sem esperar a resposta, fui para o meu quarto.

 

Quando cheguei à festa, vi o amigo do meu irmão a acenar-me.

Sorri. Sempre gostei do John, que me parecia um simpático gigante.

– Olá, Karen! – disse, cumprimentando-me. – O que anda o teu irmão Mark a fazer?

– O habitual, provavelmente.

– Vou ter saudades dele quando for para a Universidade. Mas estou ansioso por ir, estou a contar os dias. Diz-lhe que lhe telefono amanhã.

Os seus olhos azuis brilhavam e lembraram-me o meu próprio entusiasmo em relação ao futuro.

Mais tarde, nessa mesma noite, encontrei o meu irmão no quarto.

– O John disse que te telefona amanhã.

Fui para o meu e deitei-me. Apercebi-me de que a minha mãe, meia hora depois, tinha vindo certificar-se de que eu já estava em casa.

Suspirando, pensei se as mães algumas vezes deixam de nos ver como crianças...

A manhã de sábado começou mais cedo do que eu queria, por causa de um alvoroço nas escadas.

Vesti-me rapidamente e fui ter com a minha família à entrada de casa.

– O que se passa?

O Mark olhou para mim com o rosto pálido.

– O John teve um acidente de carro, ontem à noite.

– Está bem?

– Não, não está… – respondeu, desolado. – O John morreu.

 

Na semana seguinte, quase não falámos.

Num final de tarde, sentei-me lá fora, nos degraus da entrada.

Os meus sucessos escolares pareciam-me agora tão fúteis e egoístas...

Como, num ápice, se podia extinguir uma vida prometedora!

Sozinha e inconsolável, baixei a cabeça e chorei.

Pouco depois, alguém sentou-se ao meu lado e colocou as duas mãos sobre os meus ombros.

– Queres falar? – perguntou-me a minha mãe – Posso deixar-te sozinha, se preferires.

A hesitação com que a minha mãe se aproximou agravou ainda mais a minha tristeza.

Caíram mais lágrimas e eu coloquei as minhas mãos sobre as dela.

– Mãe, quero que fiques.

O modo como me tinha distanciado dela para parecer mais adulta parecia-me agora deveras irónico.

Eu ainda era tão nova e imatura!

– Não me lembro de estar tão triste – admiti.

– Oh, mas houve muitos outros momentos… Como quando o teu avô morreu. Só tinhas oito anos e vocês eram muito próximos.

– Quanto tempo demorei a sentir-me melhor?

– Bem, pareceu uma eternidade, até tu gostares de ir para a floresta pensar. Até aos treze anos, costumavas fazer isso sempre que algo te abalava.

A minha mãe contou-me então outros episódios da minha infância e as suas memórias falaram, ternas, ao meu coração. Levantei-me e beijei-a na testa.

– Já volto, Mãe. Tenho de ir procurar uma pessoa.

 

Umas horas mais tarde, quando voltei para casa, a minha mãe esperava-me à porta.

– Estou feliz por teres voltado. Estava preocupada.

– Fui dar uma volta e parei em alguns dos lugares que referiste. O lago onde apanhei o meu primeiro peixe e o parque onde aprendi a andar de bicicleta.

Confessei um pouco tímida:

– Tenho tentado tanto esquecer o passado (como se isso fosse necessário para viver o futuro…), e não me dei conta de que sou o que sou também por causa dele. A morte do John obrigou-me a perceber que não há garantias na vida.

Segurei a sua mão e apertei-a. Acrescentei então:

– Por isso, quero tirar partido de cada dia que passa. E estou a começar a fazê-lo contigo, Mãe. Desculpa o modo como te tenho tratado! Gosto muito de ti!

Os olhos da minha mãe cobriram-se de lágrimas.

– E, Mãe, obrigada por me teres lembrado quem sou, mesmo quando eu quis esquecer…

A minha mãe riu-se e ajudou-me a despir o casaco.

– Presumo que tenhas encontrado aquilo que foste procurar... – disse.

Acenei e sorri.

– Encontrei-me, Mãe, sim. Encontrei-me.

Karen Majoris-Garrison

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May 12, 2017, 2:59:59 PM5/12/17
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Histórias oferecidas à sexta-feira!



(Mais em CONTADORES DE ESTORIAS)

 

A pulseira

– Mãe, são horas de irmos?

Eu não queria chorar, mas as lágrimas escorreram subitamente, e eu limpei-as com as costas da mão. Não queria que a minha irmã mais velha me visse a chorar.

– Está quase na hora, Ruri – disse gentilmente a minha mãe.

O seu rosto espelhava uma tristeza que eu nunca tinha visto.

Olhei para o meu quarto vazio. As roupas que a minha mãe me dizia para guardar no armário, a tralha em cima da minha cômoda, a velha boneca de trapos que eu não podia abandonar – tudo tinha desaparecido. Não havia mais nada no meu quarto, e não havia mais nada em toda a casa. Os tapetes e a mobília tinham sido retirados, as fotografias e as cortinas não estavam penduradas, e os roupeiros e armários estavam vazios.

A casa parecia agora um embrulho sem nada dentro. Um embrulho vazio.

Tinha chegado o momento de a deixarmos.

Mas não nos mudaríamos para uma casa melhor ou para uma nova cidade.

Estávamos a 21 de abril de 1942.

Os Estados Unidos e o Japão tinham entrado em guerra, e todos os japoneses da costa ocidental estavam a ser evacuados pelo governo, dirigindo-se para campos de concentração. A minha mãe, a minha irmã Keiko e eu estávamos a ser retiradas de casa, retiradas de Berkeley e, eventualmente, retiradas da Califórnia. 

 

A campainha tocou e eu corri, antes da minha irmã, para ver quem era.

Pensei que, por milagre, poderia aparecer um porta-voz do governo, alto e bem-parecido, vestido de uniforme, para nos dizer que tudo tinha sido um erro, que não teríamos de partir. Ou talvez o porta-voz tivesse um telegrama do meu pai, que estava fechado num campo de guerra em Montana por ter trabalhado para uma empresa japonesa. O FBI tinha vindo buscá-lo, a ele e a outras centenas de japoneses, exatamente no mesmo dia em que os aviões japoneses tinham bombardeado Pearl Harbor. O governo pensava que eles eram inimigos perigosos. Se isto não fosse tão triste, teria sido divertido. O meu pai era tão perigoso como o presidente da câmara municipal podia ser, e tão fiel aos Estados Unidos quanto ele era.

E vivia neste país desde 1917.

Quando abri a porta, não havia porta-voz nenhum. Era a minha melhor amiga, Laurie Madison, a vizinha do lado. Trazia um embrulho que parecia um presente de aniversário, mas não vinha vestida para uma festa. O seu rosto estava triste, como o de uma túlipa murcha.

– Olá. Vim despedir-me… – disse ela.

Deu-me o presente e acrescentou que era algo para eu levar para o campo.

– É uma pulseira – disse-me Laurie, antes de o abrir – Coloca-a já, para não teres de a pôr na mala.

Laurie sabia que não havia mais espaço na minha mala. Tinham-me dito para embalar apenas aquilo que pudesse ser levado para o campo, e a nossa mãe disse-nos que só poderíamos levar duas malas cada uma.

– Como levaremos a louça, os cobertores e os lençóis que nos pediram? – perguntou  Keiko.

– Não sei bem – respondeu a nossa mãe, e continuou a empacotar coisas enormes num gigantesco saco de lona, juntamente com guarda-chuvas, botas, uma chaleira, uma chapa e uma lanterna.

– Quem vai transportar esse saco enorme? – perguntei.

A minha mãe, no entanto, não se preocupava com isso.

– Alguém nos ajudará. Não te preocupes – disse ela.

E eu não me preocupei.

 

Laurie queria que eu abrisse o presente e o colocasse no pulso, antes de ela ir embora.

Era uma corrente fina e dourada com um coração pendurado.

Ajudou-me a colocá-la e eu disse-lhe que nunca a tiraria, nunca!

– Adeus, então. Volta depressa! – despediu-se Laurie.

– Voltarei – respondi eu, embora não soubesse se alguma vez voltaria a Berkeley.

Vi a minha amiga ir-se embora, com o seu rabo-de-cavalo loiro a baloiçar, enquanto andava. Perguntei-me quem se sentaria na minha carteira da escola, agora que eu ia partir.

Laurie continuava a voltar-se e a acenar adeus.

Mas eu não queria viver mais aquela despedida. Por isso, fechei a porta.

Da segunda vez que a campainha tocou, era a Sra. Simpson, a nossa outra vizinha. Ia levar‑nos à Igreja da Congregação, onde ficava agora o Centro de Controlo Civil, onde se teriam de agrupar os japoneses de Berkeley.

Chegara o momento de partir.

– Vamos lá, Ruri, pega nas tuas coisas – disse-me a minha irmã.

 

Estava um dia quente, mas eu vesti a minha camisola e o meu casaco, para não ter de os carregar. Peguei nas minhas duas malas. Cada uma tinha uma etiqueta com o meu nome e o número da nossa família. Todas as famílias japonesas tinham de registar-se e obter um número.

Nós éramos a família 13453.

A minha mãe fez uma última revisão à casa: andou de quarto em quarto, como se tentasse recolher uma fotografia mental da casa em que viveu durante 15 anos.

Creio que para nunca se esquecer.

Observei-a a contemplar, pela última vez, o jardim que o meu pai adorava. As íris junto ao lago dos peixinhos estavam a começar a florir. Se ele estivesse em casa, teria colhido a primeira íris e tê-la-ia oferecido à minha mãe.

– Esta é para ti – teria dito ele.

E ela teria sorrido e dito “Obrigado, pai San”, e colocaria a íris na sua jarra favorita.

O jardim, porém, estava sem graça e esquecido, agora que o meu pai tinha partido e a minha mãe estava demasiado ocupada para tratar dele.

O jardim estava como eu: vazio, sozinho e abandonado.

 

Quando a Sra. Simpson nos levou para o Centro de Controlo Civil, senti-me ainda pior.

Tive medo e, por momentos, pensei que vomitaria em frente a toda a gente.

Devia haver à volta de mil japoneses na igreja.

Alguns eram velhos, outros eram novos. Alguns conversavam e riam-se, outros choravam. Julgo que estavam todos assustados. Ninguém sabia ao certo o que iria acontecer-nos. Sabíamos apenas que estávamos a ser levados para o hipódromo de Tanforan, que o exército tinha transformado num campo de japoneses. Em toda a costa ocidental, havia outros catorze campos como o nosso.

 

 

O que mais me assustou foram os soldados parados à porta da igreja. Estavam armados. Perguntei-me se eles pensariam que iríamos tentar fugir e se disparariam contra nós se o tentássemos fazer.

Uma longa fila de autocarros aguardava. Havia ainda camiões para levar as bagagens. E a minha mãe tinha razão: estavam lá, de facto, alguns homens para nos ajudarem a carregar os enormes sacos de lona. Sentei-me ao lado de Keiko, no autocarro, e a nossa mãe sentou-se atrás de nós. O autocarro desceu a rua Grove e passou por uma pequena loja de comida japonesa onde a minha mãe costumava comprar bolos de feijão e rabanete fermentado. As janelas da loja estavam vedadas, mas havia ainda um papel pendurado na porta que dizia “Temos orgulho de ser americanos”.

O absurdo da evacuação era que todos tínhamos orgulho de ser americanos. 

A maioria de nós éramos cidadãos americanos porque tínhamos nascido no país. Mas os nossos pais, que tinham vindo do Japão, não podiam obter a cidadania, pois havia uma lei que impedia qualquer asiático de se tornar cidadão americano. Agora, todos aqueles que tinham, no rosto, traços japoneses, estavam a ser dirigidos para campos de concentração.

– É ridículo! – disse Keiko, enquanto víamos o hipódromo surgir no horizonte da estrada. – Se existissem aqui espiões japoneses, já teriam partido para o Japão.

Concordei.

A minha irmã andava no ensino secundário e devia saber do que falava.

 

Quando o autocarro virou para Tanforan, havia mais soldados armados ao portão.

E vi arame farpado a circundar o terreno.

Senti-me como se fosse para uma prisão.

Só que eu não tinha feito nada.

Descemos dos autocarros e fomos despejados numa grande sala. Lá, alguns médicos observaram as nossas gargantas e os nossos olhos, verificando se estaríamos doentes. Depois, foram-nos dados os registos do nosso alojamento.

O chefe deu um pedaço de papel à minha mãe.

Ficámos na caserna 16, no apartamento 40.

 – Mãe, vamos viver num apartamento – disse eu.

O único apartamento que alguma vez tinha visto era o do meu professor de piano. Era um edifício enorme, em São Francisco, com elevador e corredores de alcatifa. Achei que seria fantástico termos o nosso próprio elevador. Uma casa era bom, mas um apartamento era elegante e especial.

Caminhámos pelo hipódromo à procura da caserna 16.

O Sr. Noma, um amigo do meu pai, ajudou-nos com as malas. Estava tão distraída a olhar para tudo que escorreguei e quase caí sobre a mala. Tendas militares tinham sido colocadas por todo o lado: pelos limites do hipódromo, mas também no centro.

O Sr. Noma apontou para lá dos estábulos dos cavalos.

– Creio que a vossa caserna fica ali.

Tinha razão. Chegámos ao estábulo que tinha guardado os cavalos de Tanforan e subimos a ampla rampa. Cada tenda tinha um número marcado e, quando chegámos ao 40, o Sr. Noma abriu a porta:

– Aqui está. O número 40.

 

A barraca era estreita, vazia e escura. Havia duas janelas pequenas em cada lado da porta e três camas militares colocadas sobre aquele chão cheio de pó. No teto, estava pendurada uma lâmpada. Era tudo o que existia. E era este o nosso apartamento, que ainda cheirava a cavalo.

A nossa mãe olhou para mim e depois para a minha irmã.

– Não será tão mau quando arranjarmos isto à nossa maneira. Pedirei à Sr.ª Simpson que me mande algum material para fazermos as cortinas. Posso fazer algumas almofadas também e... bem...

Depois, não disse mais nada. Não lhe ocorria mais nada que pudesse dizer.

O Sr. Noma disse que nos traria uns colchões.

– É melhor despacharmo-nos antes que fiquemos sem eles. – disse o Sr. Noma, partindo para ir buscá-los.

Penso que queria fugir para não ter de ver a minha mãe a chorar. Mas não precisava de ter fugido porque ela não chorou. Saiu para pedir uma vassoura emprestada e começou a varrer o lixo e a poeira do chão.

– Preparam as camas, meninas? – perguntou-nos.

Enquanto fazia a última cama, reparei que me faltava a minha pulseira.

– Perdi a pulseira que a Laurie me deu! – gritei.

 

Procurámos em toda a tenda e por baixo da rampa. Queria refazer exatamente o mesmo percurso que tinha feito, mas começava a ficar escuro e a minha mãe não deixou.

Enquanto permanecia na fila com a nossa mãe e com Keiki, com o prato e os talheres na mão, pensei no que tinha prometido a Laurie. Tinha-lhe dito que nunca iria tirar a pulseira, nem quando fosse tomar banho. E, afinal, tinha-a perdido no primeiro dia em que entrei no campo.

Apetecia-me chorar.

Procurei a pulseira durante todo o tempo em que estivemos em Tanforan. Não parei de a procurar até ao dia em que fomos enviadas para outro campo, chamado Topaz, no meio do deserto do Utah. Depois, desisti.

A minha mãe disse-me que esquecesse, que não precisava de uma pulseira para me lembrar de Laurie, tal como não precisava de nada para me lembrar do meu pai ou da nossa casa em Berkeley ou de todas as pessoas e coisas que eu gostava e que tinham ficado para trás.

Mas a primeira coisa que a minha mãe colocou sobre a estante foi uma fotografia do meu pai; mas eu sabia que ela não precisava dela para se lembrar dele.

– São coisas que podemos levar sempre no coração, independentemente do sítio onde formos parar… – disse a minha mãe.

 

Creio que tinha razão. Nunca me esqueci de Laurie.

 

w w w

POSFÁCIO

Em 1942, pouco depois da eclosão da guerra com o Japão, o governo dos Estados Unidos prendeu cerca de 120000 nipo-americanos da costa ocidental, dois terços dos quais eram cidadãos americanos.

Não tinham feito nada de errado nem infringido nenhuma lei, mas foram presos, sem direito a qualquer tipo de julgamento ou audição, em hipódromos e em feiras, e depois enviados para campos sombrios, nas áreas remotas do país.

Em 1976, o presidente Gerald R. Ford afirmou que não só essa evacuação fora errada, mas também que os nipo-americanos eram americanos leais.

Em 1982, uma comissão organizada pelo presidente Jimmy Carter e pelo Congresso Norte‑Americano concluiu, após uma investigação exaustiva, que os nipo-americanos sofreram uma grande injustiça e que a causa dessa injustiça foram os preconceitos raciais, a histeria da guerra e a ausência de liderança política.

Seis anos mais tarde, o governo dos Estados Unidos reconheceu oficialmente a injustiça daquelas ações, pediu desculpa e realizou uma restituição simbólica desses americanos com ascendência nipónica, a quem os direitos civis e humanos tinham sido roubados.

 

Yoshiko Uchida

The bracelet

New York, Puffin Books, 1996)

(Tradução e adaptação)

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(Mais em CONTADORES DE ESTORIAS)

 

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í   Um dia de trabalho  î

 

Francisco encontrava-se num parque de estacionamento com o avô e outros homens.

Era a sua primeira vez.

Um camião que passava ao longe abrandou.

O condutor levantou três dedos.

— Assentamento de tijolos. Preciso de três homens — disse.

Cinco saltaram para as traseiras do camião.

— Só três — disse o condutor, e dois tiveram de sair.

Os trabalhadores que ficaram no parque de estacionamento iam resmungando enquanto deambulavam por ali.

O avô de Francisco tremia.

“Hace frío,” (Está frio) — disse ele.

— Está frio porque ainda é cedo. Mais tarde vai aquecer, verá! — disse Francisco em espanhol.

— Porque é que trouxe uma criança? — perguntou um dos homens. — Ninguém o contratará com uma criança. Ele devia estar na escola.

— É sábado — disse Francisco. — O meu Abuelo ainda não fala inglês. Há dois dias que veio para a Califórnia viver com a minha mãe e comigo.

Francisco engoliu em seco e acrescentou:

— Temos estado sozinhos desde que o meu pai morreu. E eu venho ajudar o meu Abuelo a arranjar trabalho.

 

Pegou na mão fria e rugosa do avô e sorriu-lhe. Abuelo era alto e magro como uma velha árvore. Francisco amava-o. Quando tivessem dinheiro para gastar comprariam um blusão igual ao de Francisco, com mangas muito compridas para cobrir as suas mãos. E também um boné dos L.A. Lakers igual ao do neto.

 

Uma carrinha estava a chegar onde se lia de um dos lados: A JARDINAGEM do benjamin.

Francisco largou a mão do avô.

Correu e pôs-se mesmo à frente dos homens quando a carrinha parou.

— Um homem— disse o condutor. — Para a jardinagem.

O condutor era jovem, com um bigode farto e preto.

E estava a usar um boné dos L.A. Lakers... Talvez mais limpo. O que poderia ser um bom presságio, pensou Francisco.

— Leve-nos, Sr. Benjamin. Aos dois.

Francisco apontou para trás, para o avô.

Este inclinou o próprio boné um pouco mais sobre os olhos.

— Olhe! Nós gostamos dos Lakers, também. E o meu avô é um ótimo jardineiro, embora ainda não fale inglês. Mas os jardins são iguais em toda a parte, não? Quer sejam mexicanos ou americanos…

Francisco acenou ao avô para se chegar mais à frente.

— Além disso, terá dois por um — disse ele. — Eu não cobro nada pelo meu trabalho.

O homem sorriu.

— OK! Convenceste-me. Mas não sou Sr. Benjamin. Chamem-me Ben.

Virou-se para o rapaz.

— Tu e o teu avô saltem lá para trás. Sessenta dólares por dia.

Francisco assentiu. A sua respiração acelerou-se. Tanto por um dia de trabalho? A mãe ia ficar tão feliz… No seu emprego não pagavam tanto! Haveria comida extra naquela noite, talvez chorizos.

Francisco abriu a porta de trás, atirou para dentro o saco do almoço que a mãe tinha preparado, e apressou o avô a entrar na carrinha à frente dele.

Um homem grande e forte tentou entrar também.

Francisco empurrou-o para trás. Sentia-se forte. Agora era um trabalhador.

— Vamos tratar de jardins — disse ele ao Abuelo enquanto a carrinha arrancava.

— Mas eu não sei nada de jardinagem. Sou carpinteiro. E sempre vivi na cidade.

— É muito fácil, vai ver.

Francisco acenou através da janela aos carros que passavam. E continuou:

— Flores, rosas, e coisas assim…

E levantou o boné para uma senhora num carro.

“Señora,” disse educadamente, embora ela não pudesse ouvir.

 

A carrinha deixou a autoestrada para entrar numa estrada cheia de curvas, e parou. Uma ladeira conduzia aos quintais de algumas casas novas. Algumas ainda não estavam acabadas. Alguns trabalhadores subiam para cima dos telhados e sentia-se o bom cheiro a alcatrão.

O alto da ladeira estava pintalgado com lindas flores brancas e coberto com grossos espigões verdes. Seis grandes latas de lixo pretas encontravam-se lá em baixo.

Saíram todos da carrinha, mas Ben deixou o motor a trabalhar.

— Preciso que arranque as ervas daninhas desta ladeira — disse ele ao Abuelo. — Certifique-se que arranca todas as raízes.

E apontou para as latas do lixo.

— Deposite-as ali, por favor.

— Está bem. Está bem.

Foi Francisco quem respondeu.

— Agora vou tratar de outro assunto — disse Ben. — Venho buscar-vos às três. Vai estar muito calor. O teu avô vai precisar de um chapéu.

E tirou um de palha da carrinha.

Gracias! — disse o Abuelo.

See you guys then. Work hard. Have a nice day.

— O que é que ele disse? — perguntou o Abuelo.

— Ele disse que nos desejava um bom dia. É o que todos dizem por aqui.

— O teu inglês é muito bom, meu neto — acrescentou o Abuelo.

Francisco assentiu com a cabeça e sorriu.

Subiu a ladeira e pendurou o blusão num gradeamento.

— Agora — disse ele, — vou mostrar-lhe.

Puxou uma das moitas de picos e abanou a sujidade das raízes.

— São estas as ervas daninhas. Por favor, não toque nas flores!

O avô sorriu.

Bueno. (Está bem)

E Francisco pode ver todos os dentes fortes e brancos do avô…

 

Trabalharam durante toda a manhã.

Um pequeno cão d’Água escutava-os através do gradeamento e ladrava: Yap, yap, yap.

Um gato cor de laranja rondava furtivamente.

Havia uma piscina num dos novos quintais. Francisco ouvia barulho de sapatadas na água e vozes. Os sons da água fizeram-no sentir ainda mais calor. Doíam-lhe os ombros e os braços.

Mas pensou como a mãe se sentiria orgulhosa naquela noite…

— Sessenta dólares? — diria ela, e abraçaria Francisco e o Abuelo. — É uma fortuna!

 

À hora do almoço, os dois comeram as tortilhas e os tomates, e beberam a garrafa de água que a mãe tinha preparado.

Uma hora depois tinham terminado.

Que linda parecia a ladeira, apenas com a terra castanha e as bonitas flores!

Muy bonito (muito bonito) — disse o Abuelo.

E Francisco concordou:

— Sim, ficou muito bonito!

Francisco e o avô apertaram as mãos, e o rapaz pensou que nunca se sentira tão bem.

Tinha ajudado o avô e também tinha trabalhado muito!

 

Ambos se sentaram na berma à espera da carrinha e, quando esta chegou, levantaram-se e sacudiram a terra das roupas sujas.

Ben saiu e ficou a olhar fixamente para a ladeira.

— Santa Bárbara! — exclamou.

— Nunca pensou que pudéssemos fazer um trabalho tão bom, não é verdade?

Francisco queria rir mas Ben parecia tão chocado…

Foi então que Francisco deu uma pequena corrida e fingiu encestar uma bola.

— Tal qual como os Lakers. Nós trabalhamos no duro!

— Não posso acreditar! — Ben murmurou. — Vocês … vocês arrancaram todas as plantas e deixaram as ervas daninhas!

Francisco aproximou-se do Abuelo.

— Mas as flores... — começou ele…

Ben apontou furioso.

— Aquelas flores são prímulas. Prímulas! Vocês arrancaram os jovens rebentos!

Ben tirou o boné dos Lakers e bateu com ele contra a carrinha.

— O que foi? Fizemos alguma coisa de errado? — sussurrou o Abuelo para o neto em espanhol.

O bigode de Ben tremia de raiva.

— Pensei que tinhas dito que o teu avô era um bom jardineiro! E ele nem sequer conhece uma prímula!

Abuelo olhava quer para um quer para o outro.

— Diz-me o que está a acontecer, Francisco — pediu.

— Deixámos ficar as ervas. E arrancámos as plantas! — respondeu com toda a cautela Francisco em espanhol. Foi bem difícil encarar o avô enquanto falava…

— Ele pensou que nós percebíamos de jardinagem — disse o Abuelo.

Falava rapidamente e estava zangado.

— Mentiste-lhe, não foi?

— Nós precisávamos de trabalho…

— Mas nós não mentimos, nem sequer por um trabalho!

Agora havia mais tristeza do que raiva na voz do Abuelo.

— Ah, meu neto! — exclamou.

E pôs a mão no ombro do Francisco.

— Pergunta-lhe o que podemos fazer. Diz-lhe que voltaremos amanhã, se ele concordar. Tiraremos as ervas e voltaremos a colocar as plantas.

 

Francisco sentia o seu coração apertado.

— Mas… mas Abuelo, será o dobro do trabalho. E amanhã é domingo. Há um jogo dos “Lakers” na TV. E também há a igreja.

Ele esperava que a palavra igreja pudesse mudar a decisão do avô…

— Faltaremos a ambos, então — disse o avô. — É o preço a pagar pela mentira. Diz ao senhor o que eu disse e pergunta-lhe se as plantas sobreviverão.

Ben disse que sim.

— As raízes ainda aqui estão. Se forem replantadas em breve, ficarão bem.

E Ben esfregou os olhos.

— Em parte a culpa também é minha. Devia ter ficado até que começassem. Mas diz ao teu avô que aprecio a sua oferta e que vos trarei de novo amanhã.

Os três entraram na carrinha.

Francisco sentou-se junto da janela… em silêncio. Não saudou os carros que passavam. Tinha ajudado o avô a encontrar trabalho mas, no fim, a mentira estragara o dia.

As lágrimas faziam-lhe arder a garganta.

 

O parque de estacionamento estava vazio.

As latas do lixo estavam a abarrotar de copos de papel e embrulhos de sanduíches.

Ben deixou-os sair.

— Olhem — disse ele, — se precisam de dinheiro, posso dar-vos metade agora.

E começou a tirar a carteira do bolso. Mas o Abuelo segurou-lhe a mão.

 

 

— Diz-lhe que recebemos o pagamento amanhã, quando acabarmos.

O avô do Francisco e Ben olharam-se nos olhos…

As palavras pareciam passear entre eles, embora nada fosse pronunciado.

Ben fez deslizar a carteira de novo para dentro do bolso.

Francisco suspirou. A mentira tinha levado os “chorizos” (chouriços) também.

— Até amanhã. Seis da manhã! — disse Ben. — E diz ao teu avô que eu posso contratar um bom homem… para algo mais do que apenas um dia de trabalho.

Francisco deu um pulo de excitação. Mais do que um dia de trabalho!

Ben ainda estava a falar.

— As coisas importantes, o teu avô já sabe. E eu posso ensinar-lhe jardinagem.

 

Francisco assentiu com a cabeça. Tinha compreendido.

Diria ao Abuelo e também lhe iria dizer algo mais.

Ele, Francisco, tinha começado a aprender as coisas importantes da vida…

 

Pegou na mão fria e áspera do avô.

— Vamos para casa, Abuelo — disse Francisco.

 

Eve Bunting

A day’s work

New York, Clarion Books, 1994

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O que é importante

 

 

— Estou triste! — diz uma onda do oceano ao ver que as outras ondas eram maiores do que ela. — As outras ondas são tão grandes, têm tanta força e eu sou tão pequena, tão fraca!

Uma outra onda responde-lhe:

— Não fiques triste. A tua dor existe apenas porque te prendes ao que é aparente, não vês a tua verdadeira essência.

— Então, eu não sou uma onda?

— Uma onda é apenas a manifestação transitória da natureza. Na realidade, tu és a água. Sim. Se compreenderes, claramente, que a tua essência é água, não darás mais importância à tua forma de onda e a tua dor vai desaparecer.

 

♣♣♣

Ter em mente que a humanidade faz parte de um todo é importante. Porque o ser humano julga-se, muitas vezes, o centro do mundo, pensando ter direitos especiais que não têm razão de ser. Vê somente no seu próximo o que ainda não tem, sem ver o que já tem. E assim causa a si mesmo um grande sofrimento. Totalmente inútil.

 

Conto Zen

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YY  Esta criança, cada criança  YY

 

NOTA DO AUTOR

 

As crianças não escolhem ser exploradas, forçadas a trabalhar ou a lutar em guerras, ser separadas da família e dos amigos ou perder as suas casas, a sua saúde, bens e segurança, e, no entanto, a milhões de crianças em todo o mundo são frequentemente recusados os direitos fundamentais. As crianças têm direitos — os mesmos direitos que todos os seres humanos. Estes direitos estão estabelecidos na Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança, um acordo global criado para salvaguardar os direitos das crianças.

O que se segue pode não ser confortável de ler, mas o tópico — a presença ou ausência de direitos humanos nas vidas das crianças — é importante.

 

Y  Crianças de todo o mundo

 

As crianças não estão igualmente distribuídas por todo o mundo. Alguns países têm uma baixa percentagem de crianças, enquanto outros têm uma alta percentagem. Dos 30 países com mais baixa percentagem de crianças, 27 situam-se na Europa. Dos 30 países com uma maior percentagem de crianças, 25 situam-se em África.

 

Ada (um nome que significa “primeira filha/filha mais velha”) é uma dessas crianças africanas. Tem 10 anos e vive com a sua família numa pequena casa com paredes feitas de lama perto de Niamey, a capital do Níger (conhecido como ZHER). Aqui vemo-la quando, à tarde, se senta à sombra de uma árvore no exterior da sua casa a fazer cestos.

Ada é a mais velha de quatro crianças. Todas vão à escola da aldeia, onde lhes dão uma refeição por dia. Sem esta refeição, talvez apenas comessem, por dia, um prato de mingau de milho. No Níger, apenas um terço das crianças vão à escola — e, destas, só algumas são meninas.

Por isso Ada é uma das que tem sorte…

O Níger tem a mais alta percentagem de crianças com menos de 15 anos — cerca de 50 por cento. Se compararmos, são dessa mesma idade 30 por cento na Indonésia, 25 por cento na China, 22 por cento nos Estados Unidos e 15 por cento na Bulgária. No Japão, que tem a mais baixa percentagem de jovens em todo o mundo, apenas 13 por cento são crianças com menos de 15 anos.

 

Em quase todos os países africanos, incluindo o Níger, as crianças enfrentam muitos desafios e diversos perigos. A educação, os cuidados médicos e outros recursos são muito caros e, por isso, não estão disponíveis para todas. E, assim, as crianças dificilmente têm o que precisam para se desenvolverem ou até mesmo para apenas sobreviverem…

 

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O Governo tem a responsabilidade de se assegurar de que os vossos direitos são protegidos. Deve ajudar a vossa família a proteger os vossos direitos e a criar um ambiente onde possais crescer e alcançar o vosso potencial. (Artigo 4)

 

 

Y  As crianças na escola

Em todo o mundo, cerca de 80 milhões de crianças não vão à escola — algumas porque têm de trabalhar, outras por causa das guerras e dos conflitos nos países onde vivem, e outras simplesmente porque não existe uma escola nas proximidades.

Mesmo assim, a maior parte das crianças aprende a ler e a escrever na escola ou em casa, muitas vezes umas com as outras. Aos 25 anos, cerca de 90 por cento de homens e 85 por cento de mulheres são letrados, o que significa que sabem ler e escrever.

 

Muitos países apresentam resultados mais favoráveis mas outros não conseguem. A maior parte dos adultos iletrados do mundo (aqueles que não sabem ler nem escrever) vive apenas num pequeno número de países. Na China, por exemplo, apenas 7 por cento das pessoas é iletrada. Mas, porque a China tem uma enorme população, isto significa que há 92 milhões de chineses que são iletrados.

 

Eis as percentagens para alguns países e o número aproximado de pessoas iletradas: no Bangladesh, 47.5 por cento são iletrados (85 milhões de pessoas); no Paquistão são 46 por cento (83 milhões); na Índia há 37 por cento (421 milhões); no Egipto conta-se 34 por cento (28 milhões); na Nigéria 28 por cento (42 milhões); no Brasil 10 por cento (19 milhões); e na Indonésia 8 por cento (18 milhões).

Salmaa é uma menina de 10 anos de idade que viveu durante muitos anos numa aldeia perto de Shiraz, no Sul do Irão. Ainda que a maior parte das meninas iranianas seja ensinada a ler, muitas não vão além da escola primária, especialmente fora das grandes cidades. A família de Salmaa lutava para arranjar trabalho, o que significava que Salmaa tinha de deixar a escola para fazer tarefas domésticas e tomar conta das crianças mais novas.

Mas Salmaa sonhava voltar a estudar e tornar-se, um dia, enfermeira ou médica.

E porque no Irão as oportunidades de trabalho e educação eram escassas, a família de Salmaa decidiu mudar-se para o Canadá. Embora o novo país seja mais frio e chuvoso, toda a família se estabeleceu lá e Salmaa está a fazer muitos amigos...

E o melhor de tudo é que está a frequentar a escola!

No Canadá, quase 100 por cento das crianças em idade escolar vão à escola.

Salmaa ainda tem esperança de ser enfermeira ou médica.

E agora, é certo, tem muito mais hipóteses…

 

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Tu tens direito a uma educação de boa qualidade. Tu deves ser encorajado a ir à escola até ao mais alto nível que fores capaz. (Artigo 28) A tua educação deve ajudar-te a usar e desenvolver os teus talentos e capacidades. Deve também ajudar-te a aprender a viver pacificamente, a proteger o ambiente e a respeitar as outras pessoas. (Artigo 29)

 

 

Y  Serão as raparigas e os rapazes tratados igualmente?

 

A resposta a esta pergunta é NÃO! Em geral, na maior parte do mundo, rapazes e raparigas não são tratados igualmente. Às raparigas são recusadas oportunidades — ir à escola, fazer escolhas acerca do trabalho que fazem, ou tomar as suas próprias decisões acerca do que querem da vida. Às vezes — embora não muitas — são os rapazes que, ao invés, são discriminados. Mas muitos são os países e as organizações que estão a trabalhar para que toda esta injustiça desapareça!

 

Vejamos duas famílias.

Amir e Sara são irmão e irmã, de respetivamente oito e nove anos de idade, que vivem numa aldeia perto de Chennai, no Sudeste da Índia. O costume na sua comunidade é que os rapazes sejam tratados diferentemente das raparigas — por exemplo, as mulheres e as raparigas comem no fim e comem menos, para que os homens e os rapazes tenham mais alimentos.

Amir frequenta a escola local, enquanto Sara fica em casa e ajuda nas tarefas domésticas, caminhando longas distâncias com a mãe, todos os dias, para ir buscar água e lenha. Embora Sara tenha apenas nove anos de idade, já está comprometida com alguém mais velho, um casamento que os pais fizeram ainda ela era bebé. A lei diz que ela tem de ter 18 anos para casar, mas na sua aldeia cerca de metade das meninas entre os 10 e 14 já são casadas. O seu irmão Amir acabará a escola e poderá continuar a sua educação ou arranjar um emprego. E poderá escolher uma noiva, com a aprovação dos pais.

 

Karun e Lalasa também são irmão e irmã e têm oito e nove anos. A família deles mudou-se da Índia para um subúrbio de Londres, quando as crianças eram pequenas. Ambos frequentam a escola local. Em Inglaterra, a lei determina que rapazes e raparigas tenham iguais oportunidades de instrução, alimentação, empregos e cuidados médicos, e permite-lhes que façam as suas próprias escolhas e vivam as suas vidas.

Das quatro crianças, Sara é quem tem as escolhas mais reduzidas e até mesmo ínfimas, o que pode pô-la em risco mais tarde. Por exemplo, sem educação, ela pode encontrar dificuldade em arranjar trabalho e em prover às suas necessidades. No mundo, as raparigas e as mulheres têm menos oportunidades que os rapazes e os homens. Como resultado disso, há mais mulheres do que homens que vivem na pobreza. Cerca de 70 por cento dos pobres do mundo são mulheres.

 

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Todas as crianças têm direitos... não interessa se são rapaz ou rapariga ... (Artigo 2) A vossa família tem a responsabilidade de ajudar-vos a aprender a exercer os vossos direitos e de assegurar que os vossos direitos são protegidos. (Artigo 5)

 

Y  Crianças e trabalho

Perto de 220 milhões de crianças entre os 5 e os 17 anos de idade trabalham a tempo inteiro. Muitos trabalham para famílias — as suas próprias famílias ou outras. E fazem quase sempre um trabalho não pago ou mal pago, muitas vezes tarefas agrícolas ou domésticas. E nunca vão à escola. Mas um terço de todas as crianças trabalhadoras tem empregos perigosos que as põem em risco. Risco de maus-tratos, risco de acidentes, até mesmo risco de morte.

 

Gabriel tem nove anos e vive com a família na cidade de Guatemala, capital da Guatemala. O irmão mais velho frequenta a escola, mas ele não pode pois a família não tem dinheiro para os dois. E, por isso, Gabriel trabalha no que aparece… Recentemente arranjou trabalho numa fábrica de fogos-de-artifício, um trabalho perigoso por causa dos químicos e da possibilidade de explosões.

Cerca de um quarto de todas as crianças na América Central e do Sul trabalha, e 18 milhões delas têm menos de 14 anos de idade. E a maior parte trabalha em fábricas ou quintas por salários muito baixos... ou até mesmo inexistentes.

 

Nasir, com nove anos, e Omar, com dez, vivem no Paquistão e trabalham numa fábrica de tapetes. O patrão da fábrica gosta de ter rapazes a trabalhar para ele — os rapazes são mais baratos do que os homens, e as mãos pequenas são mais apropriadas para um trabalho delicado…

Contudo, as condições não são de modo algum ideais para as crianças que trabalham seis ou sete dias por semana e têm de estar na mesma posição durante muitas horas. No Paquistão, 8.6 milhões de crianças com menos de 18 anos trabalham em vez de irem à escola, e 1.4 milhões dessas crianças têm menos de 10 anos de idade.

 

Com oito anos de idade Kumba vive com a sua família na Libéria, longe da capital, Monróvia. A escola mais próxima é muito longe e a família não tem dinheiro para mandar Kumba ou a irmã para lá. Assim, os pais decidiram manter as raparigas em casa para ajudarem com a água e a lenha, tratarem dos campos, prepararem as refeições, limparem e ajudarem a lavar a roupa.

Na Libéria, cerca de um terço das crianças em idade escolar não frequenta a escola. Em vez disso, trabalham em quintas familiares e em plantações de borracha, em minas, em barcos de pesca e em fábricas de peixe, carregando e descarregando camiões. E também trabalham como vendedoras do mercado ou de rua, como pedintes ou como empregados domésticos.

 

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Tu tens direito à proteção no trabalho e a fazer um trabalho que não te prejudique e que não seja mau para a tua saúde e educação. Se trabalhas, tens o direito de estar seguro e de ser pago de forma justa. (Artigo 32).

 

David Smith

This child, every child

Toronto, Kids Can Press, 2011

(Tradução e adaptação)

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Esta criança, cada criança - A4 - David Smith.pdf

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Ah-nuld, o macaco

Durante os últimos dez anos tenho orientado passeios ecológicos e de vida selvagem na Costa Rica. Embora tenha tido inúmeros encontros hilariantes com macacos, preguiças, jaguares e outros animais exóticos da floresta tropical, há uma viagem que se destaca entre todas quando o nosso grupo teve o privilégio de testemunhar um acontecimento verdadeiramente extraordinário.

Nessa viagem em particular, o nosso grupo de entusiastas da vida selvagem incluía Jim e o seu filho adolescente Andy. Pai e filho não eram o que podemos chamar de clientes típicos. Jim era um antigo militar de modos austeros, nos seus cinquenta e muitos anos, que não falava muito, mas que parecia entrar frequentemente em confronto com o filho. Eu tinha pena de Andy, cujo entusiasmo pela aventura chocava com a carapaça dura e modos controladores de Jim. Uma vez, Jim chegou mesmo a ser rude com ele, puxando-o asperamente pelo braço quando Andy se deixou ficar para trás tentando apanhar uma rã venenosa de cor vermelha e azul. Ninguém proferiu palavra, mas quase todos os do grupo passaram a evitar Jim depois desse episódio.

Tentei passar um tempo extra com Andy. Ele confessou-me que estava morto por ver um jaguar. Então esgueirávamo-nos, tarde na noite, já depois de todos terem ido para a cama, para ir procurar rãs e outros animais noturnos. Era o nosso pequeno segredo.

Mais ou menos a meio da viagem, numa área remota do Parque Nacional do Corcovado, o nosso grupo encontrou um bando de vinte macacos capuchinho de cara branca e parámos para observar. Os capuchinhos de cara branca são frequentemente usados em filmes, porque são extremamente espertos e têm um comportamento muito semelhante ao dos humanos. Mas embora estes macacos sejam, por norma, bastante amistosos e sociáveis, este bando incluía um macho alfa, que era invulgarmente agressivo. Era muito territorial e até ao final da tarde já tínhamos presenciado várias escaramuças violentas. Quando algum dos outros macacos se aproximava demasiado, ele corria em direção aos outros arreganhando os dentes, chegando mesmo a embater contra eles. Pusemos-lhe a alcunha de Ah-nuld, em homenagem a Arnold Schwarzenegger.

Mantendo uma distância respeitosa, seguimos o bando de macacos à medida que eles iam pilhando através da floresta, parando ocasionalmente para se regalar com figos maduros que pendiam de algumas árvores. Na retaguarda do bando encontrava-se um macaquinho bastante jovem, que não teria mais de 25 cm de altura, cuja mãe andava já a ensinar-lhe como trepar aos ramos e seguir os outros. De quando em quando, a mãe conseguia levá-lo do tronco de uma árvore mais larga até um ramo mais afastado. Isto era o mais difícil de fazer para o macaquinho. Parava, choramingava, recuava e avançava, analisando qualquer outra opção antes de finalmente dar o salto para além do tronco. O nosso grupo batia palmas entusiasticamente sempre que ele conseguia.

Depois de algum tempo, o macaquinho começou a ficar cansado e a deixar-se ficar para trás. Quanto mais afastado ficava, mais alto ele choramingava e gemia, para conseguir a atenção da mãe. Esta parava e esperava por ele, mas nunca voltou para trás. Finalmente, o macaquinho bebé chegou a uma árvore grande, que era demasiado larga para ele conseguir ultrapassar. O seu choro tornou-se cada vez mais alto até que, por fim, a mãe recuou uns passos e permitiu que ele usasse as suas costas como uma espécie de ponte. Uma vez a salvo o filhote, ela continuou na retaguarda do bando, com o pequeno macaco cansado, ainda a choramingar, agarrado fortemente às suas costas.

Mas o choro continuou, cada vez mais alto e irritante, até que despertou a atenção do macho alfa que liderava o bando o terrífico Ah-nuld. Arreganhando os dentes e silvando furiosamente, o grande macho dirigiu-se para a mãe e a cria, deitando fogo pelos olhos. Aquela assumiu uma postura defensiva e emitiu um forte rosnado. Todos nós suspendemos a respiração, sem saber o que Ah-nuld iria fazer, mas esperando o pior.

Quando Ah-nuld se abeirou de mãe e do filhote, a sua face suavizou-se. Olhou diretamente para o macaquinho bebé, como se o visse pela primeira vez. De seguida, Ah-nuld acercou-se da cria aterrorizada, tomou delicadamente a minúscula cara do bebé entre as mãos e depositou-lhe um beijo na testa. O bebé parou de chorar imediatamente. Ah-nuld ficou ali, embalando suavemente a cabeça do macaquinho, e afagando-lhe amorosamente o pelo com os dentes.

O nosso grupo deixou escapar um suspiro coletivo de alívio. Estávamos tão rendidos à ternura do momento que quase não nos apercebemos de Jim, o nosso Ah-nuld, a soluçar discretamente. Ninguém disse uma palavra, talvez por delicadeza, embora eu suspeite que, lá no fundo, todos nós ficámos felizes ao vê-lo amolecer um pouco. Sussurrando com entusiasmo, fizemos o percurso de regresso à cabana. Depois do jantar, sentei-me com Jim e alguns outros na varanda, a balançar nas redes e a escutar os sons da floresta tropical, tão lindos e variados como se de uma sinfonia se tratasse.

A paz foi quebrada quando Andy se dirigiu para o alpendre e Jim se esticou para agarrá-lo, segurando bruscamente o braço do rapaz. Andy ficou tenso. O coração caiu-me aos pés, pois estava à espera de outra luta entre os dois. Todos os olhares se fixaram ansiosamente no pai e no filho.

Então Jim puxou Andy até ele, deu-lhe um abraço e disse “Estou tão feliz por estarmos a fazer esta viagem juntos! Sempre quis que tivesses uma experiência deste tipo. Andy, eu sei que muitas vezes nem te dás conta, mas eu amo-te.” Chocado, Andy olhou para o pai, como se fosse a primeira vez que o tinha ouvido dizer “Eu amo-te”.

Mais tarde, viemos a saber que efetivamente assim era.

 

Josh Cohen

Jack Canfield; Mark Victor Hansen; Steve Zikman

Chicken soup for the nature lover’s soul

Florida, HCI, 2004

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1

 

 

O rapaz da água

 

Somos maioritariamente compostos por água ensinou o professor. 

Esta informação fascinou o rapaz, que a achou também um pouco preocupante. Será que se dissolveria na chuva ou que se converteria em gelo no Inverno? Se o gato o arranhasse, será que a água escorreria para fora do corpo, como se ele fosse um balão furado?

Desde que o ralo da banheira lhe agarrara o dedo grande do pé, ao esvaziar-se a água do banho, que o rapaz não gostava de se lavar. Recusava-se a tomar banho. Quando a mãe lhe perguntava porquê, contava-lhe o que o professor tinha dito.

A água faz parte de todos nós explicava a mãe, tentando reconfortá-lo. É uma coisa boa e não podemos viver sem ela.

4Depois de ouvir isto, o menino ficou menos receoso. Decidiu voltar a tomar banho, mas agarrava-se aos lados da banheira. À medida que o tempo passava, a água tornou-se uma amiga para o rapaz. Quando chovia, calçava as botas e ia lá para fora brincar nas pocinhas. Se não chovesse, enchia as botas de água e andava pela casa a salpicar tudo, até a mãe lhe dizer para parar.

Certo dia, foi visitar a avó e esta perguntou-lhe qual era a sua cor favorita.

Azul respondeu o menino. A avó tricotou-lhe uma camisola da cor do oceano numa tarde sem nuvens. O neto vestia-a quase todos os dias. Começaram, então, a acontecer coisas estranhas.

1Um dia, quando limpava os pratos, a água da torneira da banca desenhou o seu nome em letras. Quando foi dar um passeio na praia perto de casa, os albatrozes desenharam um círculo em torno dele e trouxeram-lhe pequenos tesouros. Se ia até aos rochedos, as ondas cantavam para ele. Na banheira, conseguia afastar a água toda para um lado e dirigir os seus movimentos com um aceno de cabeça. Este truque deu mesmo jeito quando a turma foi fazer uma expedição a umas cataratas e um cãozinho caiu à água, quase se afogando.

No lago do parque, quando o barquinho à vela de um menino virou e começou a afundar-se, uma fonte pegou nele e levou-o, gentilmente, até junto do rapaz. O menino passava agora muito tempo a fazer truques com água.

Depois de muitas tentativas falhadas, conseguiu fazer sair e entrar água de um copo, como se fosse um ió-ió. Contudo, o seu número favorito era balançar uma gota de água na ponta do dedo. Quando a aproximava dos olhos, conseguia ver tudo o que o fundo do oceano encerrava. Em breve descobriu que podia enfiar uma enorme quantidade de água da chuva num frasco de comida para bebé. Colocava depois o frasco à janela para que a água absorvesse a energia do sol.

Gostava de fazer experiências. Por exemplo, descobriu que uma só gota de água do frasco podia limpar uma lata da tinta mais espessa. Duas gotas limpavam uma poça de lama.

3

 

Um dia, levou o frasco para a escola para demonstrar o estranho poder da água. Quando vinha para casa, estava a atravessar uma ponte quando ouviu uma voz a pedir ajuda. Virou-se mas não viu ninguém.

Ouviu o grito de novo. Debruçou-se na ponte e também não viu ninguém. Percebeu que era o rio a suplicar que o limpassem. O rapaz tirou o frasco da mochila e verteu cuidadosamente uma gotinha. Mal caiu no rio, a gota formou um círculo azul e brilhante que se expandiu em ondas concêntricas.

O menino verteu mais uma e outra gota. As ondas cintilantes atravessavam agora o rio de uma margem à outra. O rapaz esvaziou o frasco todo, lentamente, e viu o rio a correr, límpido, até ao oceano.

Mais tarde, quando passeava pela praia, uma garrafa veio ter-lhe aos pés.

Dentro da garrafa estava um bilhete com o seu nome escrito.

Era um bilhete de agradecimento.

O rapaz meteu-o no bolso e foi para casa.

Tinha um banho à espera.

 

6

 

David McPhail

Water Boy

New York, Abrams Books, 2007

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Jabuticabeira

 

O VELHO E A JABUTICABEIRA

 

 

Certo dia, um velho homem estava a cuidar de uma planta com todo o carinho, quando um jovem se aproximou dele e perguntou:

— Que planta é essa?

— É uma jabuticabeira — respondeu o velho.

— E quanto tempo demora a dar frutos? — quis saber o rapaz.

— Pelo menos uns quinze anos — informou o ancião.

O jovem perguntou, de forma irónica:

— O senhor espera viver assim tanto tempo?

— Não, não creio. Penso até estar no fim da minha jornada — respondeu o idoso.

— Então, que vantagens tira de cuidar tão bem da planta? — indagou o rapaz.

Nenhuma, exceto a vantagem de saber que ninguém colheria jabuticabas se todos pensassem como você, meu amigo…

 

Autor desconhecido

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O Velho e a Jabuticabeira.pdf

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Jun 30, 2017, 12:26:21 PM6/30/17
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JÁ TEMOS O LAR, SÓ FALTA A CASA

 

O mundo de Karen foi seriamente abalado pelo divórcio.

Contas, prestação da casa, seguro médico. O emprego a tempo parcial significava poucos rendimentos e ainda menos benefícios. Sem suporte financeiro, Karen acabou por perder a casa.

Desesperada, conseguiu arrendar uma pequena caravana no parque de campismo da zona para poder viver com o filho de cinco anos, Joshua. Era pouco melhor do que viver no carro e Karen desejava de todo o coração poder proporcionar ao filho um alojamento mais condigno.

Certa noite, depois do ritual diário de jogos de tabuleiro e leitura de histórias, disse a Joshua para ir brincar lá para fora até à hora de deitar enquanto ela fazia, pela milésima vez, contas. De repente, ouviu vozes e debruçou-se à janela.

― Diz lá, Joshua, não gostavas de ter um lar a sério? ― perguntou o gerente do parque ao menino.

Karen ficou tensa enquanto esperava a resposta do filho. Contudo, um sorriso iluminou-lhe a face quando o ouviu dizer:

― Já temos um lar a sério. Só não temos uma casa onde o pôr.

 

Carol Rehme

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As árvores e o rio

 

Eram duas crianças, um rapaz e uma rapariga. Unia-os uma profunda amizade. O rapaz trabalhava para o tio, Arranca-Carvalhos, um lenhador rude e maldoso. Todas as manhãs, mal o sol se levantava, tirava o sobrinho da cama e berrava:

— Já para o bosque apanhar lenha!

O rapaz corria para a floresta e, até ao pôr-do-sol, apanhava ramos. Todos os dias, por volta do meio-dia, a amiga esperava-o junto ao rio. Procurava trutas debaixo das pedras. De vez em quando, encontrava algumas e alguns lagostins de rio. A pesca destinava-se a alimentar a família. Mas o trabalho que fazia causava-lhe pesar. Gostava de ver os peixes vivos nas águas correntes; gostava de ver as suas escapadelas, os seus saltos ágeis.

— Olha — dizia para o amigo dos bosques. Ficavam longos momentos a contemplar a vida misteriosa das águas. Depois falavam um pouco e reconfortavam-se, dizendo um ao outro, olhos nos olhos, o quanto se sentiam felizes por estarem juntos. Às vezes, ele dizia-lhe:

— Amanhã é outro dia. Não sei para onde irei.

Ela não respondia. Ficava a sonhar ainda mais tempo, encostada ao seu ombro.

Quando se reencontravam, depois desse “outro dia”, o rapaz dizia:

— Ontem, vi-te subir a corrente até à montanha. Eras um peixe de escamas douradas. Todo o povo das águas te escoltava.

Ela respondia:

— É verdade, sonhei com isso. E como nadava por entre as vagas, vi-te na margem. Eras um carvalho e os teus ramos altos estavam iluminados. Todas as árvores da floresta te rodeavam. Pareciam escutar os sussurros da tua folhagem.

— Também sonhei com isso — murmurava o rapaz.

E ficava pensativo. “Como podemos ter-nos encontrado em dois sonhos semelhantes?”

 

Um dia, quando falavam perto da água, Arranca-Carvalhos veio ter com eles.

— Que estás a fazer, preguiçoso? É assim que se trabalha? — gritou, brandindo a vara de ferro que trazia na mão. — Os teus feixes estão mal feitos. Quero vê-los atados com ramos verdes e finos.

— Tio, não posso fazer isso — disse o rapaz. — Ouço o bosque vivo gemer e suplicar quando me aproximo dele com a faca.

A sua amiga estremeceu e acrescentou:

— Os peixes que apanho também se queixam. Tenho tanta pena que os devolvo ao rio.

— Cala-te, filha das águas! — bramiu o tio. — Perturbas o meu sobrinho. Dás-lhe a volta à cabeça. Sei muito bem quem és. Um destes dias, feiticeira, apanho-te e frito-te!

 

Numa manhã de primavera, Arranca-Carvalhos saiu de casa sem proferir palavra.

Levava aos ombros um grande saco. O sobrinho admirou-se. Seguiu-o. Viu-o lançar uma rede ao rio. Viu na rede um peixe a debater-se. Só um. Então, o seu coração abriu-se a um grande mistério.

A sua amiga era, na verdade, a princesa das Águas.

Estava prisioneira e ia morrer sobre a erva da margem. Precipitou-se para ela.

O tio quis agarrá-lo e empurrá-lo para longe.

Os pés do rapaz afundaram-se na terra, e as árvores da floresta, como que empurradas por um vento de tempestade, vieram em seu auxílio, toda a folhagem disposta a lutar. O tio recuou. Correu para a cabana, pegou no machado e pôs-se a desferir golpes como se fosse um titã saído do inferno. Mil arbustos travaram os seus passos, mas em vão. Esmagou-os com as árvores que abateu.

A princesa das Águas, já liberta, assistiu a tudo isso.

Viu que o carvalho de ramos iluminados era o único ainda de pé e que os seus irmãos jaziam abatidos. O príncipe das Florestas (saberia ele que o era?) ia morrer em breve. Então, a princesa partiu, subiu o rio, chamou os riachos, as nascentes, os ribeiros, e todos acorreram à sua chamada. Invadiram as margens, engoliram Arranca-Carvalhos e levaram o seu corpo até ao oceano.

A princesa das Águas e o príncipe das Florestas são apenas duas crianças, um rapaz e uma rapariga. Na paz que de novo voltou, falam todos os dias à beira do rio. Une-os uma profunda amizade. Já ninguém vem perturbar a felicidade de estarem juntos.

 

Henri Gougaud

L'arbre d'amour et de sagesse

Paris, Ed. du Seuil, 1999

(Tradução e adaptação)

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As árvores e o rio - A4 - Henri Gougaud.pdf

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Jul 14, 2017, 2:53:48 PM7/14/17
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img728A bolsa ou a vida

 

 

Os habitantes de Yong Zhou tinham fama de ser excelentes nadadores. Um dia, deslocando-se um grupo numa frágil barcaça, a corrente do rio fê-los virarem-se e todos caíram à água, nadando com destreza em direção à margem.

Um deles, porém, começou a ficar para trás, mostrando ter dificuldade em nadar. Então, um dos companheiros gritou-lhe da margem:

— O que se passa contigo? Se és de todos nós o melhor nadador, porque estás a ficar para trás?

Com dificuldade, já com a boca a encher-se de água, ele gritou:

— É por causa dos sacos de moedas que levo à cintura.

Então o companheiro gritou-lhe da margem:

— Larga os sacos e nada para a margem.

Ele respondeu que não com a cabeça, afogando-se de imediato com o seu pecúlio à cintura.

Foi então que um terceiro elemento do grupo comentou:

— Mais vale pobre do que afogado.

O corpo do afogado nunca chegou a aparecer, apesar de ele ser um excelente nadador, dos melhores que havia em Yong Zhou.

 

 

 

 

J. J. Letria

Contos da China antiga

Porto, Ambar, 2002

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A bolsa ou a vida - Contos da China Antiga - J.J.Letria.pdf

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Jul 21, 2017, 1:05:35 PM7/21/17
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A primavera chegou - 563260373bfe31a23cf619b3b99f02a1

 

Ser grato nada custa!

 

“Não se pode ter um dia perfeito sem fazermos algo por alguém

que nunca poderá retribuir.”

John Wooden

 

Estive em Nova Iorque no outro dia e andei de táxi com um amigo.

Ao sair do táxi, o meu amigo disse ao condutor:

¾ Obrigado pela viagem. O senhor conduziu muito bem.

O taxista ficou estupefacto e disse:

¾ Como?

¾ É verdade! Admirei a sua calma no meio deste tráfego barulhento.

¾ Okay!

¾ O que te deu? ¾ perguntei ao meu amigo.

¾ Estou a tentar semear gratidão ¾ respondeu o meu amigo. ¾ Acredito que é a única coisa capaz de ajudar esta cidade.

¾ Como pode um só homem ajudar uma cidade?

¾ Não se trata de um só homem. Acredito que, se expressarmos gratidão, podemos mudar algo no mundo. Hoje quis fazer a diferença no dia do taxista. Imagina que ele transporta 20 pessoas. Vai ser simpático para essas 20 pessoas porque alguém foi simpático para com ele. E essas pessoas, por sua vez, serão mais simpáticas para os funcionários ou empregados de mesa com que se cruzarem, ou mesmo para as suas próprias famílias. A gratidão pode acabar por se espalhar por, pelo menos, 1.000 pessoas. Nada mau, não te parece?

¾ Sei bem que não são favas contadas ¾  continuou o meu amigo ¾ e que posso lidar hoje com 10 pessoas muito diferentes. Mas se conseguir tornar três delas mais felizes, então acabarei por conseguir influenciar indiretamente as atitudes de mais 3.000.

¾ Isso parece muito bonito na teoria ¾ admiti ¾, mas não estou certo de que funcione na prática.

¾ Isso só mostra quão cínico te tornaste. Por exemplo, e eu pude comprovar isso nos estudos que fiz, o que mais falta faz aos empregados dos correios é que alguém reconheça o bom trabalho que fazem.

¾ Mas, por vezes, o trabalho que fazem não é nada bom…

¾ E não o é muitas vezes porque não sentem que os outros se importem com isso! Acaso não lhes poderíamos dirigir uma palavra de apreço, pelo menos de vez em quando? O mais importante é não perdermos de vista a gratidão. Um simples sorriso pode mudar uma vida…ou, pelo menos, tornar um dia bem mais feliz!

 

 

 

Art Buchwald

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Ser grato não custa nada! - A4 - Art Buchwald.pdf

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Jul 26, 2017, 1:45:34 PM7/26/17
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Hoje, um pouco mais cedo…e com votos de boas férias!

Voltamos em Setembro!

 

O IMPOSSÍVEL NÃO EXISTE!

 

Com o sol a bater nos olhos, os rapazes faziam gestos para os carros na estrada. Na passagem por cima da circunvalação, estavam sentados em frente um do outro, com as pernas cruzadas, como se fossem dar início a um conselho de anciãos. João tirou um canivete.

— Estás pronto?

Daniel pigarreou e escondeu o braço direito atrás das costas. 

— Então, o que é isso? Estás pronto ou quê? Faz uma semana que acordámos isto! Estende a mão direita!

Nada a fazer. A mão recusava-se a avançar. João disse, então:

— OK, começo eu.

E fez um corte na palma da mão.

— Estás a ver? Agora é a tua vez.

Contrafeito, Daniel estendeu a mão com a cabeça virada, mas logo a retirou.

— Espera! Disseram-me que não se podem misturar sangues que não sejam do mesmo grupo.

— E qual é o teu grupo?

— Na escola costumo ter “Muito reduzido” e “Não satisfaz”, mas uma vez tive um “Excelente”. Juro!

— Eu também. Vamos a isto.

Daniel estendeu de novo a mão mas, desta vez, não a retirou.

Eram agora irmãos de sangue!

 

♦♦♦♦

 

Daniel dormia em plena aula, extenuado, com a cabeça pousada nos braços. Uma voz sonante arrancou-o ao sono.

— Então, Daniel, como escreves a palavra “IMPOSSÍVEL”? Com um C ou com dois SS?

Todos os olhares da turma se voltaram para ele. Daniel balbuciou:

— Ora… Impossível… bem… o meu tio diz sempre que essa palavra não existe, s’tor…

A turma desatou a rir e a cólera do professor duplicou.

João tomou a palavra para o distrair.

— “IMPOSSÍVEL” escreve-se com dois SS, como “MISSÃO”.

O professor concordou, um pouco surpreendido pelo segundo exemplo. Não sabia que Missão Impossível era a série favorita do João e que, todas as noites, estas duas palavras apareciam em letras maiúsculas no ecrã lá de casa. Daniel foi salvo pelo toque. Os dois amigos encontram-se no recreio.

— Obrigado — agradeceu Daniel, com um sorriso triste.

— Os juramentos não são para os cães! — protestou João.

— Sim… sim… é verdade.

Esta total falta de entusiasmo inquietou João. O que teria o amigo? Ultimamente, Daniel tinha perdido a vivacidade e o bom-humor que o caracterizavam. De manhã, às vezes, arrastava-se como se tivesse passado a noite em branco. Mas João nem ousava perguntar. Todos conheciam a triste situação familiar de Daniel, que vivia só com o tio, um velho celibatário que o tinha acolhido em criança, quando os pais tinham morrido. 

— Estás a ter problemas com o teu tio?

— N… não. De maneira alguma. Que ideias são essas?

João achou a reacção suspeita. De repente, deu-se conta de um penso no pulso de Daniel.

— Magoaste-te, Daniel?

— Cortei-me com uma lata de ravioli.

Havia qualquer coisa que não batia certo, mas não valia a pena dizer nada. De momento.

— Amanhã é o último dia antes das férias da Páscoa. O teu tio vai deixar-te sair?

— Penso que não. Nunca deixa.

— Eu também fico por aqui. Podemos ver-nos todos os dias. Fazes-me sinal da janela, como de costume.

Eram vizinhos. João vivia no terceiro andar de um prédio antigo. Da janela do quarto, conseguia ver o quarto de Daniel, de esguelha, no prédio em frente. Comunicavam por gestos, às vezes por berros.

— Ver-nos? Talvez seja possível.

 

♦♦♦♦

 

No dia seguinte, véspera de férias, uma excitação generalizada tomou conta da escola. Os professores tinham-se resignado a não dar aulas, sabendo que seria impossível conter o entusiasmo dos alunos. O único que não participava no tumulto geral era João, porque a ausência de Daniel não lhe saía da cabeça. “É estranho, ele não costuma faltar às aulas. Mesmo que tenha gripe!” Passou o dia sem falar com ninguém. Ansiava pela saída, mas por razões diversas dos colegas.

Tratava-se de tirar a limpo os pequenos mistérios que rodeavam o amigo. Quando tocou para sair, João correu para o portão, precipitou-se para casa e pôs-se à janela. As persianas de Daniel estavam fechadas. “Nunca vi tal coisa às 5 da tarde”, pensou João. Saíu, atravessou a rua, subiu os degraus quatro a quatro e tocou à campainha do amigo. Ninguém atendeu.

Restava-lhe uma possibilidade: a loja do tio de Daniel. Uma loja de antiguidades que ficava a cem metros dali. Mas João tinha um medo terrível do velhote. Tal como Daniel. Tal como toda a gente. O seu feitio mal-humorado, bem como a sua voz seca assustavam os clientes. Com toda a coragem de que foi capaz, João tocou à campainha.

— Senhor… Hoje não vimos o Daniel… Queria saber…

— Isso diz-te respeito?

— Era por causa dos deveres das férias…

— Ele foi passar quinze dias de férias. Quando regressar, vai ter contigo. Agora põe-te a andar!

Durante o jantar, João comeu sem fome as suas cenouras, pensativamente apoiado no caderno. Havia qualquer coisa de estranho ali. O tio sempre recusara deixar o sobrinho sair nas férias e agora Daniel tinha saído por quinze dias… Na véspera, Daniel ter-lhe-ia dito que se ausentaria. Ninguém toma uma decisão dessas de repente.

— João, vê o que fazes! Mostarda num iogurte?

— Pai, podemos levar o Daniel de férias connosco este Verão?

— Sabes que o tio não deixa por causa da loja. Já recusou no ano passado.

— Eu até percebo o tio — comentou a mãe de João —, porque nas férias há muitos roubos.

Longe destas preocupações, João sentiu-se incumbido de uma missão solene, um compromisso mais importante do que todos os outros. O juramento.

À noite, pôs-se à janela para ver se captava algum sinal, uma silhueta, fosse o que fosse que lhe desse uma pista. Ficou ali especado durante uma hora e acabou por adormecer. No dia seguinte, foi da secretária à janela de dez em dez minutos, sem resultado.

Depois do jantar, começou a duvidar do método que escolhera. “Estou a ser preguiçoso”, pensou. Talvez fosse melhor ir até à loja, escalar uma parede, descer pelo telhado. Sempre era melhor tentar alguma coisa do que ficar ali parado. Estabeleceu como prazo o dia seguinte. À meia-noite enfiou um pijama e foi-se deitar.

Um barulho de motor pô-lo a pé de imediato. Uma camioneta acabara de estacionar junto do prédio. De repente, João viu luz através das persianas da janela de Daniel. Vestiu-se de novo sem tirar os olhos da rua, atravessou o corredor, passando em silêncio diante do quarto dos pais, e saiu para as escadas, que desceu três a três. Entreabriu o portão do prédio, e viu dois homens a discutir com o tio de Daniel, enquanto este subia para a camioneta sem vontade. João sentiu um alívio enorme ao ver o colega em carne e osso. Mas o que faria ele ali, a meio da noite, com aqueles dois homens? Porque teria o tio mentido?

Não havia um minuto a perder. Sem pensar nas consequências, João enfiou-se na garagem onde o pai guardava a mota e aproveitou o barulho da camioneta para a pôr a trabalhar. Mal se certificou de que o tio entrara em casa, saiu da garagem e seguiu a camioneta.

João não tinha o hábito de sair à noite e era a primeira vez que se aventurava tão longe de casa a uma hora daquelas. No entanto, conseguiu manter a cabeça fria e dominar o medo que sentia. Para evitar ser visto, não levava os faróis acesos e circulava a cem metros da camioneta. Esta enfiou-se por um bairro que nem ele nem Daniel frequentavam. Era uma zona residencial, na qual se alinhavam pequenos pavilhões rodeados de relvados e jardins bem tratados. O veículo parou num portão e João parou atrás de uma sebe, que funcionaria como um bom posto de observação. Viu os homens apearem-se. Um deles trazia uma caixa de ferramentas da qual tirou uma corda, que usaram para trepar um muro e penetrar numa propriedade. João deu-se conta da situação de imediato. Eram ladrões!!!

E Daniel, seria cúmplice? Nem pensar! Tinha de haver uma explicação plausível. Mal eles desapareceram, João precipitou-se para a camioneta. Tinha de ter uma ideia luminosa. Que tal os pneus? Numa questão de segundos, desatarraxou as válvulas e os quatro pneus ficaram sem ar. “Que boa ideia! Até parece a Missão Impossível!” João dirigiu-se de imediato à casa mais próxima para pedir ajuda.

Tocou à campainha, tamborilou no portão, gritou para que abrissem a porta, mas ninguém o ouviu. Fez o mesmo na casa seguinte, sem resultado, contudo. “Bolas, dormem como toros. É um facto que estão em férias.” Um cão uivou ali perto e apareceu uma silhueta.

— Seu cretino! Desanda daqui ou chamo a polícia!

— Chame-a, pois, e bem depressa!

O homem foi até ao meio da rua e esfregou os olhos. A ameaça não tinha assustado o malandrete, bem pelo contrário!

— Há ladrões naquela casa e o carro deles não está longe. Por favor, acredite em mim…

O homem, que mal tinha acordado, pegou em João pelo braço e levou-o para casa.

— Ouve-me bem, miúdo. Vou telefonar à polícia, já que fazes tanta questão. Se estiveres a dizer a verdade, eles tratam dos ladrões. Se não, tratam de ti!

Alguns minutos mais tarde, chegou um carro-patrulha. João respondeu às perguntas dos inspectores enquanto estes cercavam a moradia, em silêncio.

— Tenham cuidado, o meu amigo está com eles.

— Será que ele também é ladrão?

— Vocês não o conhecem! O Daniel não é ladrão; é meu irmão de sangue.

Prepararam-se todos para a emboscada. O primeiro ladrão saiu, com os braços carregados de sacos. Sem que tenha tido sequer tempo para perceber o que se passava, caíram-lhe em cima três homens. Encontrou-se no chão de repente, mas ainda teve tempo para gritar:

— Não saiam! Polícia!

Um inspector virou-se para João, mas este tinha desaparecido. O agente usou um megafone para lançar o aviso:

— Saiam todos! A casa está cercada...

O segundo ladrão apareceu no cimo de uma escada, com uma arma apontada a Daniel.

— Se não nos deixarem passar, mato-o!

O inspector mordeu o lábio ao ver a arma. Aquilo mudava tudo.

— Nada de disparates; nós deixamo-los sair.

O homem olhou em redor para se assegurar de que não havia polícia algum escondido. Todos se tinham afastado pelo menos vinte metros. O ladrão desceu os degraus com toda a confiança. De repente, alguém levantou-lhe a perna esquerda por detrás. Era impossível ver onde João se tinha escondido e como tinha aparecido desta maneira. O ladrão caiu e largou Daniel. Aterrorizado com tudo o que tinha vivido recentemente, este fugiu da propriedade rastejando por debaixo de uma grade. João foi no seu encalço e, uns instantes depois, atirou-o ao chão.

— És tu, João?

— Claro que sou eu, idiota! Há dois dias que te procuro. Então, tornaste-te ladrão?

Daniel ficou sem respiração.

— Não digas isso, João! Foi o velho que me obrigou.

Daniel calou-se e João baixou os olhos.

— As traseiras da loja estão cheias de artigos roubados, que ele vai escoando um pouco por todo o lado. Sabes como se chama a isso?

— Não… não sei.

— O meu tio é um receptador.

Uma lágrima correu-lhe pela face.

— Não chores — disse João — a culpa não é tua. Mas porque precisavam eles de ti? Não podiam safar-se sozinhos?

— Nenhum deles poderia esconder-se num vão de escada como eu. Ou entrar num sótão, numa cave, em tudo o que fosse um lugar pequeno. Da última vez até magoei o pulso num móvel.

E mostrou o penso que João já vira anteriormente.

— O velho conhece todas as moradas onde há mercadoria boa, graças ao seu trabalho como antiquário. Até sabe quando os proprietários vão de férias. Rouba os próprios clientes! Que podia eu fazer senão não dizer nada?

— À polícia, concordo, mas a mim… Para que servem os juramentos?

Daniel deixou correr as lágrimas livremente.

— Sabes… é meu tio. Foi ele que me criou, eu não tinha o direito…

— Eu percebo. Teria feito o mesmo.

— No fundo, eu contava contigo e com o nosso juramento. Não dizia nada, mas estava à espera…

No ano anterior, tinham feito um juramento de fidelidade. Um ritual índio, que consistira na troca de algumas gotas de sangue. Um pacto de amizade eterna. Se um deles estivesse metido em sarilhos, o outro ajudá-lo-ia. Sempre.

— Toca a levantar. Espero que os meus pais ainda não tenham acordado. Vão perguntar-me o que se passou… Ai, a mota!

A preocupação de João fez sorrir Daniel.

— Primeiro vamos à polícia, que deve andar à nossa procura. Estes adultos… Depois vemos! Gostavas de vir viver connosco?

Daniel arregalou os olhos. Então, João disse:

— Sabes, se não formos nós a dar ideias aos nossos pais…

 

 

Tonino Benacquista

Impossible n’est pas français

Paris, Syros, 1989

(Tradução e adaptação)

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O impossível não existe! - A4 - Tonino Benacquista.pdf
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