Histórias oferecidas à sexta-feira!
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O cão preto
(Conto da Índia)
Shakra, rei dos deuses, ergueu-se do seu trono dourado e observou a Terra com atenção. Havia oceanos reluzentes e nuvens como pérolas, montanhas com cumes de neve e continentes de muitas cores.
Embora tudo fosse belo, Shakra sentiu uma certa apreensão.
Os seus sentidos luminosos expandiram-se pelos céus.
Sentiu o calor da guerra.
Ouviu o balir dos vitelos, o ladrar dos cães, o grasnar dos corvos. Ouviu crianças a chorarem e vozes a gritarem de raiva. Ouviu o choro dos esfomeados, dos solitários, dos pobres. As lágrimas rolaram-lhe pela cara abaixo e caíram sobre a terra como aguaceiros de meteoros.
─ É preciso fazer alguma coisa! ─ disse Shakra.
Metamorfoseou-se num guarda-florestal e levou consigo um grande arco em osso. A seu lado caminhava um grande cão preto. O pelo do cão era emaranhado, os olhos brilhavam como fogo incandescente, os dentes mais pareciam presas, e a boca e língua pendente eram da cor do sangue.
Shakra e o cão deram um salto e mergulharam em direção à Terra por entre as estrelas brilhantes. Por fim, aterraram mesmo ao lado de uma cidade esplêndida.
─ Quem és tu, forasteiro? ─ perguntou, admirado, um soldado, do alto das muralhas da cidade.
─ Sou estrangeiro nestas paragens e este ─ disse, apontando o animal com um gesto ─ é o meu cão.
O cão preto abriu as mandíbulas. O soldado que estava de guarda às muralhas ficou aterrado. Foi como se estivesse a olhar para um enorme caldeirão de fogo e de sangue. A garganta do cão emanava fumo. As mandíbulas abriram-se ainda mais e mais…
─ Fechem os portões! ─ ordenou o soldado. ─ Fechem-nos imediatamente!
Mas Shakra e o cão conseguiram saltar os portões cerrados.
Os habitantes da cidade fugiram em todas as direções, como se fossem marés a subir ao longo de uma praia. O cão foi no seu encalço, juntando as pessoas como se fossem um rebanho de ovelhas. Homens, mulheres e crianças gritavam, aterrorizados.
─ Parem! ─ gritou Shakra. ─ Não se mexam!
As pessoas imobilizaram-se.
─ O meu cão tem fome. O meu cão tem de ser alimentado.
O rei da cidade, a tremer de medo, ordenou:
─ Rápido! Tragam comida para o cão! Imediatamente!
Em breve, carroças chegavam ao mercado carregadas de carne, pão, milho, frutos e cereais. O cão engoliu tudo de uma só vez.
─ O meu cão precisa de mais comida! ─ exclamou Shakra.
As carroças voltaram de novo, carregadas. E o cão voltou a devorar tudo de uma assentada. Depois, soltou um grito de angústia, um grito que parecia emanar das profundezas do Inferno. As pessoas caíram por terra e taparam os ouvidos, aterradas.
Shakra, o forasteiro, fez soar a corda do seu arco com um ruído semelhante ao ribombar do trovão numa noite de tempestade.
─ O meu cão ainda tem fome! ─ Dêem-lhe de comer!
O rei contorceu as mãos e pôs-se a chorar.
─ Já lhe demos tudo o que tínhamos. Não temos mais!
─ Sendo assim, o meu cão alimentar-se-á de pastos e montanhas, de pássaros e animais ferozes. Devorará as rochas e mastigará o sol e a lua. O meu cão alimentar-se-á de vós!
─ Não! ─ gritaram as pessoas. ─ Tem misericórdia de nós! Rogamos-te que nos poupes! Poupa o nosso mundo!
─ Então acabem com a guerra ─ disse Shakra. ─ Alimentem os pobres. Cuidem dos doentes, dos sem-abrigo, dos órfãos, dos velhos. Ensinem a bondade e a coragem às vossas crianças. Respeitem a terra e todas as suas criaturas. Só assim açaimarei o meu cão.
Shakra transformou-se num gigante, resplandecente de luz.
Ele e o cão deram um salto e, numa espiral de fumo, subiram cada vez mais alto.
Lá em baixo, nas ruas da cidade, homens e mulheres olhavam o céu, consternados. Estenderam as mãos uns para os outros e prometeram mudar as suas vidas, fazer o que o forasteiro lhes tinha ordenado que fizessem.
Bem lá de cima, Shakra sorriu no seu trono dourado, ao olhar para a Terra.
Limpou a testa com um braço resplandecente.
As inúmeras estrelas cintilavam, fulgentes.
E a escuridão dormitava entre elas, tal como um cão junto de uma fogueira.
Margaret Read MacDonald
Peace Tales
Arkansas, August House Publishers, Inc., 2005
(Tradução e adaptação)
No intuito de darmos continuidade ao anterior projecto, “Um dois três era uma vez”, embora em moldes que se pretendem mais abrangentes, reiniciamos o envio semanal de pequenas histórias para crianças e adolescentes, por vezes acompanhados de textos dirigidos a um público adulto, convidando à reflexão, e também ao sonho, que tão necessários se tornam numa sociedade em que o materialismo tem crescido desmedidamente, a ponto de abafar os valores mais genuínos do ser humano: o respeito pelos outros, a ternura, a delicadeza, a compaixão pelos que sofrem, a generosidade.
Esperamos que o projecto, que agora passa a chamar-se “Um dois três, era outra vez”, continue a encontrar leitores assíduos entre aqueles a quem se dirige, e possa proporcionar agradáveis momentos de partilha entre pais e filhos.

E…diga-nos o que pensa das histórias que lhe forem chegando!
Responda-nos para: 1...@isep.ipp.pt
Ideia: Teresa Tudela e Betina Campos Neves
A árvore dos lamentos
(tradição judaica)
Numa pequena aldeia da Polónia vivia um rabino dotado de grande sabedoria. Os seus seguidores gostavam muito dele e vinham contar-lhe os seus desgostos com frequência. Passado algum tempo, o rabino cansou-se de ouvir as pessoas dizerem que os seus infortúnios eram maiores do que os dos seus vizinhos. Estavam sempre a fazer perguntas do género “Por que não sofre ele como eu sofro?”;“ Por que não tem ela um marido enervante como o meu?”; “Por que não tem ele uma mulher preguiçosa como a minha?”; “ Por que não tem ela dores de costas?”; “ Por que não vivem os filhos dele em casa sem contribuírem para as despesas como os meus fazem?”
Os queixumes continuaram de tal forma que o rabino teve uma ideia e anunciou a todos que iria ser celebrado um novo feriado.
‑ Tragam os vossos infortúnios todos. Tragam-nos num saco com o vosso nome e pendurem-no na árvore grande que está no centro da aldeia. Assim, todos poderão trocar os seus fardos pelos dos vizinhos.
Os aldeões ficaram todos excitados, a pensar no quão mais fáceis as suas vidas iriam ser no futuro. Quando o dia chegou, colocaram-se todos debaixo da árvore com os sacos na mão. Ataram-nos aos ramos baixos com pedaços de corda para que as outras pessoas os pudessem inspecionar.
‑ Agora ‑ anunciou o rabino numa voz pomposa ‑ podem examinar os sacos e ver que fardos dos vossos vizinhos querem levar para casa em troca dos vossos.
Os aldeões precipitaram-se para a árvore e começaram a vasculhar nos sacos. Uns após outros, todos foram revistados. Os aldeões continuavam a circular.
Finalmente, mais cansados e mais sábios, pegaram cada um no seu saco e foram para casa. O rabino sorriu. Tal como ele esperava, os aldeões tinham visto os infortúnios dos outros e tinham decidido não trocar os seus problemas pelos deles. Os seus, pelo menos, já lhes eram familiares.
Elisa Davy Pearmain (edited by)
Doorways to the soul
Cleveland, The Pilgrim Press, 1998
O avô está com vergonha
Ontem, o avô estava terrivelmente zangado.
Por isso, hoje, Lara aproxima-se dele com muito cuidado, e pergunta:
— Avô, ontem estavas zangado?
O avô pensa e responde:
— É verdade. E quando estamos zangados é que notamos como somos diferentes dos outros. Se estás zangada, é porque alguém ou alguma coisa te contrariou.
Lara olha para o avô. Não percebe o que ele quer dizer.
— Ontem não arrumaste o Jogo do Assalto. E eu zanguei-me. Eu gosto das coisas sempre arrumadas.
Lara acena com a cabeça. Isso já entende.
— Eu queria dizer-te: muda. Faz de maneira diferente. Mas estava tão zangado, que perdi o autodomínio. Era como uma tempestade dentro de mim, que rugia de dentro para fora, e tão alto, que eu não conseguia ouvir mais nada. Rugia tanto, que eu tive de gritar.
Lara interrompe-o e pergunta:
— Foi por isso que gritaste tão alto?
O avô parece envergonhado. Depois acena com a cabeça em sinal afirmativo e diz:
— Exato, foi por causa da raiva que tinha cá dentro. Eu não só estava furioso como também desesperado. Pensei que ninguém ia ouvir-me e foi por isso que comecei a ralhar e a gritar. Mas isso não é bom.
Lara é da mesma opinião e pergunta:
— Então, o que é que se deve fazer?
— Bem — diz o avô — essa é uma boa pergunta.
O avô compõe os óculos, coça a cabeça, e depois diz:
— Na verdade, uma pessoa devia acalmar-se e conter a fúria dentro de si, de forma a que ela não se solte. E, em seguida, dizer à outra pessoa “Olha, não gosto do que estás a fazer. Não acho bem. Podes, por favor, fazer de outra maneira?”
— Ah — diz Lara. — Vamos treinar?
— É uma boa ideia — diz o avô. — Mas, primeiro, um gelado para cada um. De certeza que, assim, conseguimos dominar melhor a nossa ira da próxima vez.
— De certeza — diz Lara. — E basta dizer “Olha, não gosto do que estás a fazer. Quero que faças assim.” E, se conseguirmos, há um gelado para cada um!
Lara olha, a sorrir, para o avô, e ele devolve-lhe o sorriso.
Elisabeth Zöller; Brigitte Kolloch
Ich bin ganz schön wütend!
Hamburg, Verlag Heinrich Ellermann, 2006
— Já ouviste falar da árvore da sabedoria, meu filho?
E contou-lhe que, desde a noite dos tempos, existia no deserto uma palmeira excecional. Dizia-se que quem comesse os seus frutos adquiria inteligência, encontrava a chave da felicidade, e sabia como viver bem e em paz, sem que nada o atormentasse. Mas era muito difícil encontrá-la e eram poucos os que tinham conseguido trepar pelo seu tronco.
O rapaz, fascinado com semelhante revelação, decidiu partir em busca dessa árvore tão prodigiosa. Percorreu o deserto de norte a sul e de este a oeste, perguntando a homens sábios, a mercadores e a viajantes.
Mas teve de regressar para junto do pai, dececionado e triste.
— Procurei essa palmeira excecional de que me falaste e não fui capaz de encontrá-la.
— Meu filho, como és ingénuo! Não se trata de uma verdadeira palmeira. A árvore da sabedoria é a educação que cada um deve adquirir desde jovem. É preciso trepar pelo seu tronco com a aprendizagem da leitura e do cálculo. Depois, é preciso deslizar entre as suas folhas, evitando picar-se nos espinhos afiados, que representam o trabalho árduo da escrita e da redação. A seguir é preciso saber manipular as suas flores para que tenha lugar o milagre da fecundação, que é o trabalho do pensamento e da reflexão. E se conseguires superar todos esses obstáculos, poderás aspirar a provar a doçura das suas tâmaras, ou seja, terás atingido por fim a sabedoria e desta forma saberás resolver todos os problemas que a vida te for apresentando.
Ana Tortajada
Filhas da areia
Porto, Asa Editores, 2005
(Adaptação)
Mais alto, Lili!
Quando a Lili ouviu o seu nome, respondeu “Presente” numa voz tão baixinha que mal se conseguia ouvir, mesmo estando-se atento.
Por isso, a Professora marcou-lhe falta…
Quando a Lili ouviu “Muito bem, meninos. Vamos lá escolher um par!”, o estômago embrulhou-se-lhe e apertou os lábios com força.
E todos os meninos arranjaram um par... exceto ela.
— Tu, por favor, a menina do rabo-de-cavalo, vem fazer par comigo — disse a Professora.
A turma inteira ficou a olhar para a Lili.
— Lili, minha querida, tens de aprender a falar alto — disse a Professora, enquanto tirava a falta à Lili.
A Professora não tinha problemas em falar alto. A sua voz era tão forte que era impossível não ser ouvida. Até mesmo as aves no céu e os peixes no mar conseguiam ouvi-la, e todos eles faziam o que ela dizia.
À hora do recreio, a Lili não foi brincar com os outros meninos. Sentou-se num cantinho da sala perto do Lois, o porquinho-da-índia, e leu alguns livros. Só o Lois sabia que ela estava ali.
Depois do recreio, a Professora perguntou quem queria tratar do Lois. Uma porção de braços esticou-se no ar à volta da Lili.
Braços inquietos, que se agitavam em todas as direções.
A Lili quis levantar o braço, mas o braço não se mexeu.
E foi a Rita quem ficou responsável pelo Lois.
Deveria tirá-lo da gaiola, dar-lhe de beber, e tinha de encher-lhe o prato de sementes.
— Como correu a escola hoje? — perguntou a mãe da Lili quando a foi buscar. — Com quem é que almoçaste?
— Com o Lois — respondeu a Lili.
— Olha que bom — disse a mãe. — Qual é o último nome do Lois? Quero convidar a família dele para jantar connosco.
— Ele é órfão — disse a Lili.
— Oh, meu Deus. Vê se ajudas o teu amigo, Lili Ann.
No dia seguinte, quando chegou a hora de os meninos arranjarem um par, a Cassidy agarrou no braço da Lili.
— Quero que sejas o meu par no jogo das rimas — deliberou. — Tu fazes as rimas e eu pinto os peixinhos.
“Esponjoso, invernoso. Bruxa, puxa. Farinha para bolos, esparguete sem molhos.
— Quem fez estas rimas? — perguntou a Professora. — Estão fantásticas!
— Fui eu! — mentiu a Cassidy.
Ao almoço, a Cassidy quis partilhar a refeição.
— Tu comes as cenouras e eu, o bolo — disse.
Em Ciências, a Cassidy ficou com as borboletas e a Lili com o lixo.
E no cantinho da leitura, a Cassidy ficou com Os Segredos do Mundo das Fadas e a Lili ficou com O Grande Livro das Regras Gramaticais.

A partir desse dia, a Cassidy escolhia sempre a Lili para seu par.
— A Lili é a minha melhor amiga — dizia.
Mas a Lili ficava com o Lois a ver a Rita limpar-‑lhe a gaiola.
Um dia, a Professora adoeceu com laringite.
E veio outra substituí-la.
Distraída, não ouviu o que acontecia…
— Ouçam — disse a Cassidy. — Vamos tirar o Lois da gaiola.
A Cassidy abriu a gaiola e pegou no Lois.
— Posso pegar nele? — perguntou a Lili numa voz fraquinha que só quem estivesse atento conseguia ouvir.
Mas Cassidy não estava atenta…
— Vamos cortar o cabelo ao Lois — disse a Cassidy pegando numa tesoura.
— Cuidado! Não façam isso! — pediu a Lili.
— Vou fazer queixa — disse a Rita.
— A quem é que vais fazer queixa? — perguntou a Cassidy. — À Professora?
A nova Professora tinha ido à casa de banho. Estava lá já há muito tempo…
— Deixem o Lois em paz — disse a Lili no tom de voz mais alto que alguma vez utilizara em toda a sua vida.
Ainda assim, a Cassidy não a ouviu.
— Vamos pôr-lhe cola na água! — sugeriu a Cassidy.
Como a Lili desejou que a Professora doente estivesse ali naquele momento! Mas não estava. Nem ela, nem nenhum outro professor.
Então, a Cassidy agarrou no bebedouro do Lois e inclinou o frasco da cola.
O rosto da Lili queimava. Era como se lhe tivessem posto pimenta dentro da boca. E bem lá das profundezas saiu-lhe uma voz tão forte que os vidros das janelas tilintaram, as carteiras moveram-se e o tapete elevou-se no ar.
“PARA!”
Toda a gente parou. A turma da Lili. A turma da sala ao lado. As aves no céu e os peixes no mar – todos pararam, sem exceção.
Até mesmo a cola dentro do frasco ficou quieta.
— Dá-mo cá! — disse a Lili.
— Podias ter dito que querias pegar no Lois. Não precisavas de ficar assim! — disse a Cassidy.

— Vamos pô-lo de volta na gaiola! — disse a Rita.
— Nunca mais vamos deixar a Cassidy aproximar-se dele! — exclamou a Lili.
— Nunca mais! — concordou a Rita.
Quando a Professora doente regressou à escola, ainda não conseguia falar muito alto.
— Escolham um par, por favor — sussurrou.
— Podes ser tu, Rita? — perguntou a Lili num tom de voz que a Rita conseguiu ouvir.
— E eu quero-te a ti, Lili! — disse a Rita pegando-lhe na mão.
Gennifer Choldenko
Louder, Lili
New York, Scholastic, 2007
(Tradução e adaptação)
A página de terra
Aména é uma menina africana. Quando sai da cabana, de manhã bem cedo, diz adeus ao primo, Chaka, que vai para a escola a pé, levando consigo algumas provisões. Aména também gostaria muito de ir à escola para aprender a ler, a escrever e a contar. Mas tem de ajudar a mãe que está sempre com muito trabalho.
Hoje, é dia de lavar roupa. Aména acompanha a mãe até ao lago. E, tal como ela, molha a roupa, ensaboa, esfrega, passa por água, torce e, finalmente, estende-a sobre a erva para que seque. Depois, voltam para a aldeia, com a roupa dobrada e colocada em bacias que carregam à cabeça. Ainda vai voltar ao lago várias vezes para trazer a água necessária para a cozinha e para os banhos…
— Aména, já quase não há lenha para fazer o almoço, vai buscar mais! pede a mãe.
Enquanto vai, Aména sonha: “Com que se parecem as letras? Com as listas das zebras? Com os desenhos nos tecidos dos saiotes? Com a forma dos ramos? Com a tromba do elefante quando está a apanhar moscas? Quantos pedaços de madeira é que eu já terei apanhado?”
— Aména, Aména, traz a lenha para o lume! grita a mãe.
Quando os inhames ficam cozidos, são esmagados num grande almofariz com um pouco de água. Aména e a mãe fazem bolas grandes com a massa e preparam um molho. Os homens chegam dos campos e as mulheres servem-nos. Elas comem à parte e vigiam as refeições das crianças.
Esta tarde, Aména toma conta do irmão, enquanto a mãe vai trabalhar para o campo de milho. Deita o bebé numa esteira e canta-lhe uma canção de embalar, canta-lhe o seu sonho:
— Eu gostava de ir à escola. Queria tanto aprender a ler! Queria saber contar. Mas tu, meu pequenino, ainda não compreendes o meu sonho.
A noite cai e o primo Chaka volta da escola.
— Chaka, Chaka, ensina-me o que já sabes! pede Aména.
Chaka pega num pau e desenha belíssimas letras no chão, uma autêntica página de terra. E lê as palavras.
— Repete, diz gentilmente.
Depois, chega a hora de dormir e as famílias voltam para as respetivas cabanas.
Na manhã seguinte, Aména apressa-se a procurar a página de terra e a rever o que aprendera, mas as letras e as palavras tinham desaparecido. “Foi a noite, ou terá sido o vento que as levou?”, interroga-se. As lágrimas começam a rolar pelas suas faces. É nesse momento que pensa no velho sábio. O velho que sabe tudo, aquele que está sentado debaixo do baobá. Vai até junto dele e pede:
— Sábio, ajuda-me, as meninas também têm direito a ir à escola. Eu perco muito tempo só para trazer água para casa.
O velho feiticeiro fecha os olhos, procura o passado na sua memória e começa a contar:
— Lembro-me da Grande Senhora de África que tinha uma varinha mágica, negra como a pele, vermelha como a terra e amarela como o sol do meio-dia, que descobria a água escondida no solo. É preciso encontrá-la.
O velho sábio reúne então todos os habitantes da aldeia e os das aldeias vizinhas para encontrar a Grande Senhora de África.
Passam-se semanas e, numa manhã, Aména chega com ela. A Grande Senhora de África desloca-se por toda a aldeia, agitando a sua varinha mágica, enquanto os aldeãos bailam a dança da água. De repente, a vara começa a furar o chão. A Grande Senhora de África anuncia:
— A água está a alguma profundidade, é preciso escavar.
Após algumas semanas de trabalho, ÁGUA, finalmente!
Há agora um poço na aldeia, e o dia-a-dia está muito mais facilitado sem as tarefas habituais relacionadas com a água. Desde então, Aména e todas as meninas vão à escola como Chaka. Aména realizou por fim o seu sonho. E, debaixo do baobá, para o sábio e para a Grande Senhora de África, ela escreve na página de terra: “Obrigada!”
La Page de Terre
Écrit par la classe gagnante du Concours Lire égaux 2009
Vincennes, Ed. Talents Hauts, 2010
(Tradução e adaptação)
Um jarro de água
Se continuarmos a usar a Terra descuidadamente e sem a revitalizarmos, seremos só consumidores ávidos. Deveríamos retirar dela apenas o necessário para as nossas necessidades básicas e absolutas: coisas sem as quais não podemos sobreviver. A Terra tem abundância de tudo, mas a nossa parte é apenas o que realmente necessitamos.
Há uma história que ilustra isto.
O Mahatma Gandhi estava a residir com o primeiro-ministro indiano, o senhor Nehru, na cidade de Allahabad. Uma manhã, Gandhi lavava a cara e as mãos. O senhor Nehru deitava a água de um jarro enquanto conversavam sobre os problema das Índia. Como estavam profundamente envolvidos numa séria discussão, Gandhi esqueceu-se de que se estava a lavar; antes de acabar de lavar o rosto, o jarro esvaziara-se. Então o senhor Nehru disse: “Só um momento, vou buscar-lhe outro jarro de água.” Gandhi respondeu: “O quê? Quer dizer que eu gastei um jarro de água inteiro e nem sequer acabei de lavar a cara? Que desperdício! Eu só uso um jarro de água em cada manhã.”
Calou-se; as lágrimas corriam-lhe pelas faces. O senhor Nehru ficou impressionado. “Porque chora, o que aconteceu, porque está preocupado com a água? Nesta minha cidade de Allahabad há três grandes rios, o Ganges, o Jumenar e o Saraswati, não precisa de se preocupar com a água aqui!”
“Nehru, tem razão, tem três grandes rios na sua cidade, mas a minha parte desses rios é apenas um jarro de água todas as manhãs”, respondeu-lhe Gandhi.
Satish Kumar
Jonathon Porrit
Salvemos a Terra
Livraria Civilização Editora, 1992
No intuito de darmos continuidade ao anterior projecto, “Um dois três era uma vez”, embora em moldes que se pretendem mais abrangentes, reiniciamos o envio semanal de pequenas histórias para crianças e adolescentes, por vezes acompanhados de textos dirigidos a um público adulto, convidando à reflexão, e também ao sonho, que tão necessários se tornam numa sociedade em que o materialismo tem crescido desmedidamente, a ponto de abafar os valores mais genuínos do ser humano: o respeito pelos outros, a ternura, a delicadeza, a compaixão pelos que sofrem, a generosidade.
Esperamos que o projecto, que agora passa a chamar-se “Um dois três, era outra vez”, continue a encontrar leitores assíduos entre aqueles a quem se dirige, e possa proporcionar agradáveis momentos de partilha entre pais e filhos.
E…diga-nos o que pensa das histórias que lhe forem chegando!
Uma história de índios
Antinanco é uma menina Índia que vive na América. A família sempre lá viveu. É por isso que se dá o nome de “nativos” aos Índios. Hoje é o primeiro dia de Antinanco no infantário.
— Tu tens um nome esquisito!
Os meninos apontam para Antinanco. Traz um vestido com umas pérolas na bainha. Tem ainda uns sapatos às cores, uns mocassins. E umas tranças compridas e muito pretas. Antinanco não tem a vida fácil no infantário. Esta manhã fizeram um jogo com a educadora Helena em que as crianças tinham de chamar umas pelas outras pelo nome e em seguida trocar rapidamente de cadeira. As crianças começaram a rir-se com o de Antinanco.
— Demora tanto a dizer — resmungou Benny.
— E soa como um bombo estragado — disse Lisa a rir.
Que maldade! Antinanco deixou de falar. Ao olhar para ela, vê-se que está quase a chorar.
— Como é que uma pessoa pode chamar-se Antinanco? — pergunta Benny.
Antinanco volta-se de repente e fulmina Benny com o olhar.
— Vocês também têm todos nomes esquisitos: Ana, Benny, Lisa. Têm os nomes que os vossos pais se lembraram de vos dar, mas os nossos nomes índios estão relacionados com os nossos pensamentos. Antinanco significa águia do sol — Antinanco bate com o pé teimosamente, olhando para o círculo das crianças.
Chega então a irmã mais velha de Antinanco. É de outro grupo mas viu que a irmã está a ter problemas. Coloca-lhe o braço à volta dos ombros e pergunta:
— O que quer dizer Benny? O que significa Lisa? Vocês não sabem e estão a fazer-se de importantes!
Benny ri porque não sabe o que dizer e tem vontade de dar uma canelada a Antinanco. Mas esta diz:
— Benny, tu só sabes rir-te dos outros e dar pontapés. Não escutas e não compreendes nada. Nem o teu próprio nome!
Benny dá um passo atrás, para junto dos outros. Sente-se melhor ao pé deles. A irmã de Antinanco continua a falar.
— Vocês riem-se de nós mas foram vocês que vieram para esta terra. Muito, muito antes de cá chegarem, já os nossos avós e bisavós cá viviam. Vocês vieram de barco muito mais tarde e limitaram-se a dizer: “Isto é tudo nosso”.
— E é verdade — diz Benny.
— Não é nada verdade — diz Antinanco. — Vocês tiraram-nos quase tudo a nós, Índios.
— O país onde agora vivemos era a terra dos Índios — conta a irmã. — Os nossos avós e bisavós andavam de um lado para o outro com as famílias e as tribos, apanhavam peixes, cultivavam arroz e caçavam bisontes. Falavam com o céu, com as flores, com as árvores. Compreendiam o vento e alegravam-se quando viam o sol. Para eles, cada pequena coisa era importante.
Antinanco exclama:
— Os vossos avós e bisavós, pelo contrário, matavam os bisontes e achavam que eram maiores e mais fortes. Mas isso não era ser forte!
— Mas era! — resmunga Benny. — Isso é ser forte!
— Os novos colonos, os vossos avós, não sabiam pescar nem cultivar milho. Não sabiam construir cabanas nem conheciam as plantas. Começaram a passar mal porque não podiam comer as armas que tinham. Na nossa tribo, havia um grande chefe, Samoset. Quando reparou que os colonos brancos não sabiam nada, foi ter com eles e ajudou-os. Samoset mostrou-lhes tudo, mostrou-lhes como se vivia. Os novos colonos ficaram tão contentes que fizeram connosco, Índios, uma grande festa de agradecimento. Até fumaram em conjunto o cachimbo da paz. Mas depressa esqueceram que só tinham sobrevivido com a ajuda de Samoset. Pegaram nas suas armas e disseram-nos:
— Somos mais fortes do que vocês. Vão ter de fazer o que queremos porque temos armas.
Antinanco coloca-se em frente de Benny com as mãos na cintura. Benny olha para ela, mas as outras crianças reparam que ele está a fazer-se de forte, exactamente como antigamente tinham feito os avós e os bisavós com as suas armas.
— Estás a fazer o mesmo! Estás a fazer de conta que és forte. Mas eu também sou forte!
As crianças ficaram em silêncio durante algum tempo, até que Cátia diz:
— Antinanco, tu és mesmo forte!
Depois vira-se para Benny e diz-lhe:
— A nossa força pode ser má! A partir de agora vamos todos simplesmente dizer ‘não’ à violência!
Cátia olha em volta, hesitante, e pergunta:
— Podemos fumar o cachimbo da paz e ser todos amigos?
Elisabeth Zöller
Stopp, das will ich nicht
Hamburg, Ellermann, 2007
(Tradução e adaptação)
No intuito de darmos continuidade ao anterior projecto, “Um dois três era uma vez”, embora em moldes que se pretendem mais abrangentes, reiniciamos o envio semanal de pequenas histórias para crianças e adolescentes, por vezes acompanhados de textos dirigidos a um público adulto, convidando à reflexão, e também ao sonho, que tão necessários se tornam numa sociedade em que o materialismo tem crescido desmedidamente, a ponto de abafar os valores mais genuínos do ser humano: o respeito pelos outros, a ternura, a delicadeza, a compaixão pelos que sofrem, a generosidade.
Esperamos que o projecto, que agora passa a chamar-se “Um dois três, era outra vez”, continue a encontrar leitores assíduos entre aqueles a quem se dirige, e possa proporcionar agradáveis momentos de partilha entre pais e filhos.

(Japão)

Em tempos que já lá vão, vivia no Japão um mestre ferreiro. Tinha atingido uma tal perfeição na arte de forjar as lâminas dos sabres que já nem sequer as assinava. Contrariamente à tradição, segundo a qual a assinatura do ferreiro devia ser colocada na base da lâmina, as suas permaneciam sem assinatura, já que o seu brilho, a sua curva e o seu corte eram de um tal requinte que nenhum samurai se enganaria jamais quanto à sua proveniência.
Mas, com o passar do tempo e da idade, o mestre decidiu transmitir, pouco a pouco, todos os seus segredos ao seu discípulo mais chegado. Este discípulo tornou-se tão hábil no fabrico das lâminas que também ele não as assinava. Os samurais do Japão sentiram-se, então, deveras embaraçados porque, apesar de toda a sua destreza, não conseguiam distinguir as lâminas, e gostariam de saber que tipo de sabre transportavam.
A única forma de o saberem era, justamente, o último segredo que mestre e discípulo tinham partilhado. Quando chegava o outono, os dois homens sentavam-se por detrás da forja. Era um lugar onde corria um rio pacífico e as folhas que caíam das árvores formavam tapetes de cor acobreada sobre as águas. Quando o discípulo mergulhava as suas lâminas nessas águas, todas as folhas que vinham de encontro ao sabre cortavam-se prontamente em duas metades, sem qualquer perturbação. Mas, quando o mestre mergulhava as suas lâminas no rio, as folhas evitavam tocar-lhes.
Que cada um aplauda sem cessar.
Mas quem o som de uma mão sabe adivinhar?
Jean-Jacques Fdida
La naissance de la nuit et autres contes du monde entier
Paris, Didier Jeunesse, 2006
Tradução e adaptação
O verdadeiro significado
U |
m mestre muito idoso caminhava há muitas horas com o seu discípulo, num dia de Primavera, por uma vereda estreita. Enquanto caminhavam, iam ouvindo todos os sons que vinham do campo em redor, desde o canto dos pássaros ao mugido das vacas, passando pelo estridente relinchar dos cavalos.
O discípulo confiou então ao mestre este seu pensamento relacionado com os sons que escutavam:
— O que eu gostava, Mestre, era de poder compreender o que estes animais dizem uns aos outros quando emitem estes sons.
Logo o mestre lhe respondeu:
— Muito mais importante para ti seria poderes compreender o significado daquilo que tu próprio dizes.
J. J. Letria
Contos da China antiga
Porto, Ambar, 2002

ATURDIMENTO
Como é que poderemos definir o nosso tempo? Qual é o fator que o unifica e o distingue? Claro que é uma época de grandes contradições. Na verdade, atingimos um desenvolvimento tecnológico que era impensável há vinte anos atrás e um subdesenvolvimento — ou melhor, uma degradação ética — igualmente insuspeitável. Vivemos na época das antinomias. Do máximo bem-estar e da maior insatisfação, da extrema segurança e dos medos incontroláveis, das sofisticadíssimas comunicações planetárias e da incapacidade total de comunicar entre as pessoas.
O nosso tempo é um tempo ditatorialmente democrático, é o tempo do domínio absoluto do ruído, do alarido, dos gritos, da desarmonia sonora que já atinge e envolve os seres humanos de todos os povos e de todas as condições sociais. Sim, se tenho de pensar num fator unificador da nossa época, é justamente o alarido. O silêncio morreu e, ao desaparecer, arrastou consigo tudo o que constitui a base do ser humano. Não há silêncio no ar à nossa volta, não há silêncio nos espíritos, nos corações. O alarido incomoda-nos. Consultando o dicionário, descobrimos que «incomodar» significa: estorvar, impedir, obstar, desviar, distrair.
Sim, há sempre alguém ou alguma coisa que quer desviar-se do silêncio, evitar que contemplemos a nossa realidade mais profunda, impedir que dessa realidade nasça e cresça a nossa evolução como pessoas. «O que a irrigação é para as plantas, é o silêncio para o aumento do conhecimento» escrevia Isaac de Ninive no século VI d.C. De facto, sem silêncio, não posso conhecer-me, não posso conhecer o outro. Sem silêncio, não posso abeirar-me da fonte do saber. Mas de onde vem o alarido? Porque é que não há força que consiga contê-lo? “Não fazes ideia”, dizia-me recentemente uma amiga minha que é neuropsiquiatra infantil, “do número de crianças em idade pré-escolar que me aparecem no consultório com perturbações graves. Crianças que gritam, mordem, dão pontapés, cospem na cara dos avós. Os pais chegam com ar contristado e dizem: ‘Nós não sabemos como lidar com ele, veja o que pode fazer.’ Tratam o filho como se fosse um eletrodoméstico de que perderam as instruções, um gadget tresloucado cujos circuitos só um técnico saberá voltar a pôr a funcionar corretamente. É esta a verdadeira emergência dos últimos dez anos”, concluía ela, com tristeza, “mas não provoca alarido e, por isso, ninguém fala do assunto.”
Se quero plantar uma árvore no fim do inverno, costumo preparar o terreno no início do outono. Há sempre um fator determinante que contribui para o nascimento e a evolução de um acontecimento novo. Por isso, o século XX, com o seu rasto trágico de ideologias, niilismo, guerras e extermínios, semeou no novo milénio a bomba-relógio do relativismo ético. O bem e o mal já não são valores reconhecíveis coletivamente, são derivas do sentimentalismo individual. Se o bem não existe em si, passa a ser bem o que me agrada, o que me satisfaz, e, por conseguinte, mal é aquilo de que não gosto, o que me inquieta, me faz sentir mal. Graças ao relativismo ético, a nossa sociedade renunciou à sua função educativa. A família não educa, a escola não educa, o contexto civil não educa.
De facto, educar significa conduzir, apontar um caminho, mas, para isso, haveria que saber o rumo a seguir. Como se pode apontar um caminho, se a vida é um vaguear sem destino, se não há limites a respeitar, horizontes a atingir? A tarefa principal dos pais modernos parece ser apenas a de não criarem obstáculos (que poderiam provocar traumas incuráveis), não estabelecerem limites (para não correrem o risco de cortar as asas à natural criatividade infantil). Pensa-se que será a sabedoria inata da criança a fazê-la escolher o caminho que a levará a realizar-se da melhor forma.
Há um belíssimo provérbio africano que diz: «Para se educar uma criança, é preciso uma aldeia inteira.» E é mesmo assim, precisa-se da variedade e da diversidade das relações e, ao mesmo tempo, da coesão de uma comunidade que respeita e faz respeitar as suas leis. Talvez seja por isso que a acanhada família mononuclear, apesar de todos os seus cuidados e subtilezas pedagógicas, gera, na maior parte dos casos, crianças eternas, capazes de conjugar até ao infinito um único e importuno verbo: “Eu quero”. E ninguém reparou — ou melhor, ninguém quis reparar — que, entretanto, o provérbio africano foi assumido a nível planetário. Só que já não é o conjunto dos parentes, ou seja, o contexto social feito de pessoas, rostos, histórias humanamente compreensíveis — que educa, mas a anónima e poderosíssima e subtilmente perversa aldeia global.
Perante a abulia educativa dos pais, perante a apatia da escola e a ausência de um grupo formativo, a comunidade educadora passa automaticamente a ser a que é constituída pelo rosto opaco dos mass media, da grande antena que domina e envolve os nossos dias com o seu constante grasnar. É ela que nos diz no que devemos acreditar e o que devemos desprezar, o que escandaliza e o que, pelo contrário, deve merecer o nosso aplauso. É ela que nos impõe a certeza de que, sem a posse de alguns objetos determinados, resvalaremos para o grande mar dos zés-ninguéns. Como é natural, tudo acontece de uma forma democrática, desprovida de obrigações. Na verdade, para evitar rebeliões, temos de estar convencidos de que somos sempre nós — e só nós — que escolhemos.
Mas será mesmo assim?
Há uns dois anos atrás, houve duas raparigas filipinas que estiveram hospedadas em minha casa, em Roma. Andavam nos melhores liceus de Manila e, pela primeira vez na sua vida, tinham ido visitar os pais ao país para onde tinham emigrado há muitos anos, em busca de trabalho. Era uma viagem “instrutiva”, para elas perceberem quanto trabalho, quanta renúncia estava por detrás dos privilégios dos seus estudos em Manila. Todavia, instrução houve muito pouca. A estada de ambas foi uma frenética correria entre uma loja de telemóveis e outra de roupa desportiva. Sabiam dizer as marcas de cada objeto por ordem decrescente, de acordo com o valor de culto e o seu preço relativo, como se fosse o rosário ou as litanias dos santos. E, naturalmente, veneravam as mesmas marcas, os mesmos modelos que os nossos jovens idolatram. Nos intervalos das compras, esparramavam-se nos sofás da casa, suspirando, entediadas. Nunca sentiram vontade de perguntar fosse o que fosse, de olhar pela janela, nunca houve o desejo ou a ousadia de dar um passeio sem destino, para cheirar um perfume, observar um rosto, ver como as ruas de Roma são diferentes das ruas de Manila.
O que inquieta, nesses jovens planetários, é essa espécie de avidez idiota. Todas as forças estão direcionadas, concentradas no objeto do desejo. Uma vez adquirido, a mesma energia, cujo poder ficou intacto, desloca-se para outro objeto e depois para outro, numa corrida cujo fim não se consegue vislumbrar. A escolha terá sido sua, ou terão sido influenciados? E quem é que os fez acreditar que a vida é aniquilação da pessoa em função da posse? Quem levou os jovens de Brasília, Moscovo, Pequim, Sydney, ou San Diego a acreditar nisso? Quem os fez decidir que têm de possuir aqueles sapatos, aquele telemóvel que tira fotografias, aquele modelo de T-shirt? A futilidade dos objetos, a sua insubordinação em relação à sua função original é o grande moloch destes tempos.
Essa perseguição obsessiva de frivolidades idolátricas lembra-me cada vez mais o comportamento dos lemingues, os pequenos roedores do Norte da Europa que, de repente e por motivos inexplicáveis, atravessam as charnecas a correr e lançam-se no mar, onde morrem. Essa perseguição do que é fútil projeta-nos constantemente num futuro imaginário, que não edifica. Suicidamo-nos diariamente, com o olhar extasiado do vitelo de ouro — os inúmeros vitelos de ouro baratos — e, entretanto, a nossa vida, com o seu mistério, com as suas perguntas, foge-nos das mãos, deixando-nos à mercê de manifestações incontroladas e alarmantes: inesperados ataques de pânico, suicídios insuspeitáveis, gestos de loucura de pessoas aparentemente normais que matam a família, sem saberem porquê.
Sempre considerei a diversidade como a maior riqueza do mundo. Cada flor, cada inseto, cada mamífero, cada mineral tem uma relação de reciprocidade com o mundo vivo. Para os seres humanos, o discurso da diversidade também é fundamental. Cada um de nós nasce com uma atitude diferente — de sensibilidade, inteligência, cultura — e o objetivo da vida é justamente cultivar e compreender essa nossa peculiaridade, levando-a a dar os seus melhores frutos. O caminho do crescimento é portanto o da descoberta e da construção lenta do nosso rosto, da nossa história. Rosto e história que são únicos e irrepetíveis, mas complementam todos os rostos e todas as histórias que nos rodeiam.
A grande antena faz-nos correr atrás das sombras chinesas, convencendo-nos de que são a realidade. Empurra-nos constantemente para um sucesso mediático, efémero, que tem de ser constantemente confirmado, para não repararmos que somos, de facto, escravos das modas, dos pensamentos, da erosão homogeneizante da aldeia global. A grande antena passa o tempo a falar de tolerância, mas bastar-nos-ia refletir um pouco para percebermos que uma vontade que elimina a diversidade é a primeira geradora de intolerância.
A grande antena mostra-nos constantemente a beleza onde não há beleza. Na eterna juventude do corpo, na capacidade de gerar criaturas por encomenda, com o sexo que se pretende, a cor que se deseja, a inteligência que convém, na manipulação da vida, na posse e no domínio. A grande antena sacralizou os nossos direitos mais fúteis — os que têm a ver com a satisfação imediata e obstinada de qualquer desejo — roubando sacralidade à única coisa realmente sagrada: a unicidade da vida humana.
Susanna Tamaro
Cada palavra é uma semente
Lisboa, Ed. Presença, 2004
(adaptação)

UM HOMEM DEITADO NO CHÃO
No dia 1 de julho, às 13:05 horas, havia um homem de aproximadamente cinquenta anos, deitado no calçadão de Copacabana. Eu passei por ele, lancei um rápido olhar, e continuei meu caminho em direção a uma barraca onde sempre costumo beber água de coco.
Como carioca, já cruzei, centenas (milhares?) de vezes por homens, mulheres ou crianças deitadas no chão. Como alguém que costuma viajar, já vi a mesma cena em praticamente todos os países onde estive - da rica Suécia à miserável Roménia. Vi pessoas deitadas no chão em todas as estações do ano: no inverno cortante de Madrid, Nova Iorque ou Paris, onde ficam perto do ar quente que sai das estações de metro. No sol escaldante do Líbano, entre os edifícios destruídos por anos de guerra. Pessoas deitadas no chão - bêbadas, desabrigadas, cansadas - não constituem novidade na vida de ninguém.
Tomei minha água de coco. Precisava voltar rápido, pois tinha uma entrevista com Juan Arias, do jornal espanhol El País. No meu caminho de volta, vi que o homem continuava ali, debaixo do sol- e todos que passavam agiam exatamente como eu: olhavam, e seguiam adiante.
Acontece que - embora eu não soubesse disso - minha alma já estava cansada de ver esta mesma cena, tantas vezes. Quando tornei a passar por aquele homem, algo mais forte do que eu me fez ajoelhar, e tentar levantá-lo.
Ele não reagia. Eu virei sua cabeça, e havia sangue perto de sua têmpora. E agora? Era um ferimento sério? Limpei sua pele com a minha camiseta: não parecia nada grave. Neste momento, o homem começou a murmurar qualquer coisa como “pede para eles não me baterem.” Bem, ele estava vivo; agora eu precisava tirá-lo do sol, e chamar a polícia.
Eu parei o primeiro homem que passou, e pedi que me ajudasse a arrastá-lo até à sombra entre o calçadão e a areia. Ele estava de terno, pasta, embrulhos, mas deixou tudo de lado e veio me ajudar - sua alma também já devia estar cansada de ver aquela cena.
Uma vez colocado o homem na sombra, fui andando em direção à minha casa - sabia que havia uma cabine de PM, e poderia pedir ajuda ali. Mas antes de chegar até lá, cruzei com dois soldados.
‑ Tem um homem machucado, diante do número tal- disse. ‑ Coloquei-o na areia. Seria bom mandar uma ambulância.
Os policiais disseram que iam tomar providências. Pronto, eu havia cumprido meu dever. Escoteiro, sempre alerta. A boa ação do dia! O problema agora estava em outras mãos, elas que se responsabilizassem. E o jornalista espanhol estaria chegando em minha casa em alguns minutos.
Não tinha dado dez passos, e um estrangeiro me interrompeu. Falou em português confuso:
‑ Eu já tinha avisado a polícia sobre o homem na calçada. Eles disseram que, desde que não seja um ladrão, não é problema deles.
Eu não deixei que o homem terminasse de falar. Voltei até os guardas, convencido de que sabiam quem eu era, que escrevia em jornais, aparecia em televisão.
‑ O senhor é alguma autoridade? ‑ perguntou um deles, notando que eu pedia ajuda de maneira mais incisiva.
Não tinham ideia de quem eu fosse.
‑ Não. Mas nós vamos a resolver este problema agora.
Eu estava mal vestido, camiseta manchada com o sangue do homem, bermudas cortadas de uma antiga calça jeans, suado. Eu era um homem comum, anónimo sem qualquer autoridade além do meu cansaço de ver gente deitada no chão, durante dezenas de anos de minha vida, sem jamais ter feito absolutamente nada.
E isso mudou tudo. Tem um momento, que você está além de qualquer bloqueio ou medo. Tem um momento em que seus olhos ficam diferentes, e as pessoas entendem que você está falando sério. Os guardas foram comigo, e chamaram a ambulância.
Na volta para casa, recordei as três lições daquela caminhada:
a) todo mundo pode parar uma ação quando ela ainda é puro romantismo.
b) sempre há alguém para dizer: “agora que começaste, vai até ao final.”
E finalmente:
c) todo mundo é autoridade, quando está absolutamente convencido do que faz.
Um homem deitado no chão
Histórias para pais, filhos, e netos
Paulo Coelho
Histórias oferecidas à sexta-feira!
(Para todos aqueles que celebram o Natal e outras Festividades: https://preparandonatal.wordpress.com )

A CARROÇA
Sempre que penso no meu pai, recordo-me de que nos lembrava constantemente que fossemos gentis uns com os outros. Para ele, a delicadeza era a coisa mais importante da vida e ficava magoado quando via certas pessoas intrometerem-se numa conversa, interrompendo quem estava a falar.
O meu pai tinha uma forma muito especial de mostrar que estava descontente. Sei-o bem, pois cometi muitas vezes esse erro e ele nunca me repreendeu diretamente. Eis a forma como me demonstrou a minha indelicadeza.
Certa manhã, bem cedo, convidou-me para ir até ao bosque ouvir os pássaros cantar. Aceitei e partimos felizes. Seguimos por uma vereda, sentindo a erva ainda húmida do orvalho. A dada altura, o meu pai parou e eu também. O silêncio do acordar dos pássaros na floresta pairava ao nosso redor e um chilrear de luz começava a aparecer no céu rosado.
Algum tempo depois, o meu pai perguntou-me:
— Consegues ouvir algo para além do canto dos pássaros?
Apurei os ouvidos durante alguns segundos e respondi:
— Estou a ouvir o barulho de uma carroça que vem pela estrada.
— Exatamente — confirmou o meu pai. — É uma carroça vazia…
Como do sítio onde estávamos não era possível ver a estrada, perguntei, admirado:
— Como pode saber que está vazia?
— Ora, é muito fácil saber que se trata de uma carroça vazia.
Fiquei um pouco irritado por não conseguir percebê-lo, sobretudo se era assim tão fácil. Foi então que o meu pai colocou a mão no meu ombro e explicou, olhando-me bem nos olhos:
— Percebe-se que está vazia por causa do barulho que faz. Quanto mais vazia a carroça, maior o barulho que faz.
O meu pai não disse mais nada e eu fiquei a matutar naquelas palavras durante muito tempo.
Quando hoje, já adulto, vejo uma pessoa tagarela e inoportuna a interromper uma conversa, ou quando eu mesmo quase o faço, por distração, tenho a imediata impressão de ouvir a voz do meu pai afirmando:
— Quanto mais vazia a carroça, maior o barulho que faz.
Wallace Leal Rodrigues
E, para o resto da vida
São Paulo, Editora O Clarim, 1979
(Adaptação)
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Uma viagem no inverno
Era uma vez um rapaz chamado Homer. Vivia numa pequena casa branca com os seus pais, vários gatos e um cão chamado Sófocles. Homer e Sófocles tinham praticamente a mesma altura, o mesmo peso e até a mesma cor de cabelo. De noite, dormiam no quarto de Homer e de dia brincavam juntos no jardim atrás da casa.
Numa manhã fria de inverno, a mãe de Homer depositou algumas moedas de prata na mão dele e disse-lhe para ir à cidade cortar o cabelo.
— E leva contigo o Sófocles, também — acrescentou ela — para o caso de te perderes.
E assim Homer e Sófocles esgueiraram-se da segurança do jardim das traseiras em direção ao mundo mais além. Seguiram o trilho traçado por cima de raízes e pedras, para lá da velha igreja de madeira, do posto dos correios, da biblioteca, até uma pequena e íngreme colina em direção à cidade.
O céu apresentava-se frio e cinzento, e o ar estava sereno. As pessoas apressavam-se para dentro e fora das lojas como se algo de emocionante estivesse para acontecer.
Quando Homer e Sófocles chegaram à barbearia, o velho de cabelos brancos deu uma olhada na sua direção.
— O teu cão também vai cortar o cabelo? — perguntou ele. — De outro modo, será melhor deixá-lo lá fora.
Relutantemente Homer levou Sófocles até à porta e deixou-o ali fora.
— Espera aqui — disse. — Estarei cá fora num instante.
Homer sentou-se numa grande cadeira. O barbeiro colocou-lhe uma capa em volta do pescoço, impulsionou uma barra de metal brilhante, e Homer começou a elevar-se lentamente. Com uma tesoura e uma máquina de barbear, o barbeiro começou a cortar e aparar em torno da cabeça de Homer.
Do lugar onde estava sentado, Homer conseguia ver Sófocles à espera no passeio. Via flocos de neve flutuando desde o céu calmo e cinzento. A princípio eram escassos, mas o ar tornou-se cada vez mais leve e claro, e na altura em que voltou para a rua, tudo tinha mudado. A neve cobria o solo e formava uma camada branca em cima da cabeça de Sófocles. Quando se arrastaram de volta a casa, deixaram um trilho de pegadas na neve, mas também estas ficaram rapidamente soterradas.
A neve continuou a cair durante a tarde, num lento e continuo véu branco. Aninhava-se em silêncio sobre os arbustos e ramos das árvores, transformando o solo despido do jardim das traseiras num branco macio e ininterrupto.
Homer parou com Sófocles debaixo do enorme ulmeiro, olhando para o céu de onde caíam milhares de flocos — pairando, subindo, mergulhando através do ar fino lá do alto. Curvou-se, apanhou uma mão cheia de neve e observou-a, enquanto caía das suas mãos em concha, na forma de uma nuvem prateada.
Subiu para a bicicleta e tentou guiar por cima da relva, mas a neve era demasiado densa. Sentou-se no baloiço e baloiçou-se algumas vezes. Tentou subir ao pequeno ácer, mas os ramos estavam muito escorregadios. Foi até ao buraco na sebe e olhou para fora: os carros moviam-se ao longo da estrada com um rugido lento e constante.
Nunca antes tinha visto nevar tão abundantemente.
Homer queria ficar lá fora e ver a neve a cair durante toda a noite, mas sabia que a mãe nunca iria deixá-lo. Mesmo nessa altura, ouviu-a chamá-lo.
— Homer, Homer! Horas de jantar!
Ele disparou a correr pela relva, tropeçou num ramo partido, rebolou na neve, saltou do muro de pedra, e entrou em casa pela porta das traseiras. Só então se apercebeu que Sófocles já não continuava com ele. Abriu a porta e olhou para fora, mas Sófocles desaparecera.
— Onde está o Sófocles? — perguntou Homer à mãe, mas esta não sabia.
— Não te preocupes. Ele volta — disse ela. — Provavelmente foi dar um passeio.
Mas Homer não estava convencido. Depois do jantar saiu lá para fora e chamou-o.
— Sófocles, Sófocles! — gritou, mas a única resposta foi o uivar do vento.
Procurou pegadas na neve, mas tudo estava já coberto. Olhou para a rua, mas estava deserta. À distância, conseguia ouvir o ruído de um limpa-neves e o guinchar de um carro atolado. Homer refez os seus passos ainda marcados na relva e foi para dentro.
Mais tarde, nessa noite, depois de Homer ter ido para a cama, os pais deram um pequeno jantar de festa. Enquanto estava deitado na cama, conseguia ouvir os sons de copos tilintando, a mãe a falar, e o estrépito das gargalhadas da Srª Merson — tudo subindo as escadas até ao seu quarto. Homer conseguia até sentir o cheiro a fumo do charuto do Dr. Pulsavar. Lá fora, o vento continuava a soprar e a neve batia contra a janela como se fosse um homem com um longo e retorcido cajado.
Embora estivesse cansado, Homer não conseguia dormir. De vez em quando levantava-se e ia espreitar pela janela. A neve caía em forma de sino através do brilho dos candeeiros da rua, dançando e elevando-se com súbitas rajadas de vento. Os degraus dianteiros da casa estavam brancos e completamente lisos, e o alpendre parecia uma enorme cama.
Voltou para o seu quarto, deitou-se e fechou os olhos: conseguia ver Sófocles sentado tranquilamente com ele na neve, e depois o jardim, — apenas um momento mais tarde — uma macieza autêntica e vazia. Onde é que ele teria ido?
Homer enfiou um par de meias de lã grossas e esgueirou-se pelas escadas das traseiras até à cozinha. Encontrou as suas botas de pé, no meio de uma pequena poça, e calçou-as. Vestiu o casaco, pôs o chapéu, calçou as luvas, puxou as pernas das calças do pijama por cima das botas, e saiu para um mundo de uma brancura e macieza inimagináveis. A neve feria-lhe a cara, e as suas palavras eram varridas pelo vento.
— Sófocles, Sófocles! — chamava ele.
O jardim estava soterrado, e o arbusto de forsítia tinha-se transformado num gigantesco monte de neve — como se fosse um iglu.
Lutou através da neve, passou o ulmeiro, saiu pelo buraco na cerca, até onde o pavimento deveria estar. Com grande dificuldade, trepou a barreira de neve e ficou de pé na berma de uma estrada completamente deserta.
— Sófocles, Sófocles! — chamou de novo.
Pôs as mãos em concha sobre os ouvidos e escutou.
Então, na distância, Homer ouviu o que parecia ser o ladrar de um cão. Começou a caminhar em direção à cidade — de onde tinha vindo o latido. As casas tinham as luzes apagadas. As ruas estavam desertas, e o vento e a neve fustigavam-lhe a face. Mas ali mesmo, no vento, ele ouviu aquele som uma e outra vez mais. Continuou a caminhar penosamente — passando pelo brilho de néon da loja dos brinquedos, para lá da velha igreja de madeira e da biblioteca, atravessando a linha férrea, até a um local onde ele nunca tinha estado.
A neve rodopiava à sua volta e caía tão rápida e espessa que ele mal conseguia ver. Pensou que tinha ouvido de novo o ladrar, mas de onde é que ele viria? Parou num cruzamento, à luz amarela de um candeeiro da rua, e depois olhou em volta, mas nada lhe parecia familiar.
Um homem de chapéu alto de pelo e fumando um grande charuto caminhou em direção a Homer, de cabeça inclinada contra o vento e a neve.
— Desculpe, desculpe — disse Homer. — Sabe onde fica a East Street?
O homem olhou para cima e sorriu.
— Um pouco tarde para estar cá fora à neve, não achas? — disse ele, e passou-lhe mesmo ao lado, rua abaixo.
Homer continuou o seu caminho. Encontrou uma mulher com um lenço enrolado à volta da cabeça, transportando duas enormes carcaças de pão.
— Desculpe, por acaso viu o meu cão? — perguntou Homer mas, em vez de responder, a mulher baixou os olhos para ele e sorriu.
Atrás dele, ouviu-se o tilintar de campainhas, enquanto de uma outra rua surgia um grupo de cavalos a puxar um trenó, conduzidos por um homem de barba com um chapéu de pelo, brandindo um chicote.
— Iô, Iô — gritava ele, estalando o chicote contra o costado dos cavalos.
Homer pulou do caminho e aterrou num monte de neve. Enquanto cavava tentando sair dali, o trenó fazia grande estardalhaço ao passar por detrás de uma nuvem de neve.
De repente, Homer desejou estar de volta à sua cama, a ouvir os sons da festa que decorria no andar de baixo, com o vento e a neve tamborilando na sua janela. Começou a correr, mas as botas eram pesadas. Quanto mais se esforçava, mais devagar andava.
Enquanto corria, ouviu um som familiar atrás dele. Olhou para trás, para a luz giratória e amarela de um gigantesco limpa-neves, que seguia mesmo atrás dele, fazendo ouvir a sua buzina. “Barurah! Barurah!” Os faróis da frente brilhavam através da neve rodopiante como dois olhos zangados e incandescentes. Homer tentou correr cada vez mais depressa, mas as botas puxavam-lhe pelas pernas como uns pesos.
Sentia-se como se estivesse a correr no fundo do mar.
“Barurah! Barurah!” troava a buzina.
O som estava cada vez mais próximo. Não havia sítio para onde ele pudesse escapar. Tentou subir a um monte de neve, mas era demasiado alto. Começou de novo a correr, mas tropeçou e magoou o queixo num pedaço de gelo. Agora a máquina estava mesmo atrás dele, grande como uma casa, o seu arado prateado abrindo a neve em duas ondas enormes.
— Sófocles, Sófocles! — gritou Homer.
E então ouviu o som de um ladrar, e Sófocles saltou por cima do muro de neve ao lado dele.
— Sobe! — disse Sófocles.
Homer subiu para as costas do cão, pôs os braços em torno do seu pescoço, e Sófocles pulou. Tinham levantado voo — subindo acima da rua, das casas, do limpa-neves — voando através do vento e da neve que cegava. Subiram cada vez mais alto, em direção às nuvens, para um sítio onde não estava a nevar e onde um milhão de estrelas resplandecia no seu brilho a partir de um céu azul-noite. Uma lua esplendorosa pendia por cima deles como uma moeda de prata.
— Agarra-te bem! — disse Sófocles.
O pelo estava todo puxado para trás e as orelhas batiam no vento à medida que eles começaram a descer, mergulhando através da noite, passando com ímpeto através das nuvens em direção ao local onde a cidade permanecia, por baixo deles, como num sonho.
A neve tinha parado, e tudo era branco e calmo. Homer conseguia ver a loja dos brinquedos, o pináculo branco da igreja, a biblioteca, e os ramos do ulmeiro no seu quintal das traseiras.
Depois viu a sua casa. Da chaminé saía fumo, e todas as luzes estavam apagadas, exceto a do seu quarto. Sófocles precipitou-se por cima da cerca e voou para o jardim, aterrando suavemente na neve perto da porta de trás. Homer deixou-se escorregar das suas costas, abriu a porta, seguiu Sófocles para dentro, e depois subiu as escadas até ao seu quarto.
— Bom dia! — foi o que ouviu a seguir.
Levantou os olhos e viu a sua mãe entrar no quarto.
— Adormeceste tarde. A festa fez-te estar acordado?
O seu quarto estava claro, e o sol brilhava no céu límpido e azul através das portadas geladas das janelas.
— Bom dia — disse Homer, sentando-se devagarinho, esfregando os olhos para espantar o sono. Olhou pela janela para o quintal das traseiras. A neve tinha parado e tudo estava coberto por um manto suave e luminoso.
— Onde está o Sófocles? — perguntou.
— Está mesmo aqui — respondeu a mãe, apontando para o chão onde Sófocles estava deitado a dormir. — Um dos convidados deve tê-lo deixado lá fora ontem à noite. Está exausto. Deve ter sido apanhado pela tempestade.
Homer sentou-se em silêncio durante um momento, e depois olhou de novo com atenção pela janela. Lembrou-se da lua e das estrelas enquanto voava para cima e para baixo através das nuvens e em direção à escuridão límpida e fria, às costas de Sófocles.
— Oh! — disse ele por fim, de volta ao quarto e a sorrir.
E depois saltou para fora da cama, vestiu-se e, com Sófocles mesmo atrás dele, apressou‑se a descer as escadas. Um momento mais tarde, corriam os dois lá para fora, saindo pela porta de trás da casa, para a neve suave e lisa do jardim das traseiras.
David Updike
A winter journey
London, André Deutsch, 1985
(Tradução e adaptação)
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Era uma aldeia muito pequena. Tão pequena que não figurava nos grandes mapas nacionais. Tão pequena que tinha apenas uma praça diminuta e, na sua única praça, uma única árvore. Mas as pessoas adoravam a sua aldeia, amavam a sua praça e a sua árvore: um enorme umbuzeiro que se encontrava precisamente no centro da praça.
E também no centro da vida quotidiana dos habitantes da aldeia: todas as tardes por volta das sete, depois do trabalho, os homens e as mulheres da aldeia encontravam-se na praça, recém-‑lavados, penteados e vestidos, para dar duas voltinhas ao umbuzeiro. Durante anos, os jovens, os pais dos jovens e os pais dos pais dos jovens cruzavam-se diariamente à sombra do umbuzeiro. Ali se haviam fechado negócios importantes, se haviam tomado decisões relativas ao município, celebrado casamentos e recordado os mortos durante anos e anos.
Um dia, começou a acontecer uma coisa diferente e maravilhosa: numa raiz lateral, saído do nada, brotou um raminho verde com duas únicas folhas viradas para o sol. Era um rebento. O primeiro rebento que o umbuzeiro dera, desde sempre. Depois da comoção, criou-se um comité para organizar uma festa em honra daquele acontecimento. Para espanto dos organizadores, nem toda a gente da aldeia acorreu à celebração. Havia quem achasse que o rebento traria complicações.
A verdade é que, uns dias depois de ter aparecido o primeiro rebento, começou a brotar outro. E, no espaço de um mês, mais de uma vintena de raminhos verdes tinham assomado das velhas raízes do umbuzeiro. A alegria de uns e a indiferença de outros iam durar pouco. O alerta foi dado pelo guarda da praça. Algo se passava com o velho umbuzeiro. As suas folhas estavam mais amarelas do que nunca, estavam frágeis e caíam facilmente. A cortiça do tronco, que outrora era carnuda e macia, ficara ressequida e quebradiça. O guardião fez o seu diagnóstico:
— O umbuzeiro está doente. E talvez morra.
Nessa tarde, durante o passeio vespertino, estalou a discussão. Alguns começaram a dizer que a culpa era dos rebentos. Os seus argumentos eram concretos: tudo estava bem antes de eles aparecerem. Os defensores dos rebentos diziam que uma coisa não tinha nada a ver com a outra e que os rebentos asseguravam o futuro, se acontecesse alguma coisa ao umbuzeiro. Expostas as diferentes opiniões, formaram-se dois grupos claramente antagónicos. Um que defendia o velho umbuzeiro, outro que defendia os novos rebentos. Sem saber como, a discussão tornou-se cada vez mais calorosa e os dois grupos distanciaram-se cada vez mais.
Chegada a noite, decidiram tratar o assunto na reunião municipal do dia seguinte, para acalmar os ânimos. Mas os ânimos não se acalmaram. No dia seguinte, os Defensores do Umbuzeiro, como começaram a apelidar‑se, disseram que a solução do problema era voltar atrás. Os rebentos estavam a tirar as forças ao velho umbuzeiro e a atuar como parasitas da árvore. Tinham, portanto, de destruir os rebentos.
Os Defensores da Vida, como se havia batizado o segundo grupo, escutaram alvoroçados, porque também eles se tinham reunido para encontrar uma solução. Tinham de arrancar o velho umbuzeiro, que na verdade já cumprira o seu ciclo. A única coisa que estava a fazer era atirar sal e água aos recém-nascidos. Além disso, era inútil defender o umbuzeiro porque, de qualquer forma, a velha árvore já estava praticamente morta. A discussão terminou em briga e a briga em escaramuça, onde não faltaram gritos, insultos e pontapés. A polícia pôs fim à contenda, mandando toda a gente para casa. Os Defensores do Umbuzeiro reuniram-se nessa noite e decidiram que a situação era desesperada, já que os seus estúpidos adversários não iam ouvir os seus argumentos e, como tal, decidiram agir. Armados com tesouras de podar, paus e picaretas, decidiram atacar: destruídos os rebentos, a situação a negociar seria diferente. Chegaram à praça todos contentes.
Ao aproximarem-se da árvore, viram que um grupo de pessoas estava a empilhar toros à volta do umbuzeiro. Eram os Defensores da Vida, que planeavam lançar-lhe fogo. Ambos os grupos de defensores embrenharam-se noutra discussão, mas desta vez as suas mãos estavam armadas de ódio, rancor e vontade de destruir. Vários rebentos foram pisados e danificados durante a escaramuça. O velho umbuzeiro também sofreu danos graves no tronco e nos ramos. Mais de vinte defensores de ambos os bandos acabaram a noite internados no hospital, com feridas de maior ou menor gravidade. Na manhã seguinte, a praça tinha um aspeto completamente diferente. Os Defensores do Umbuzeiro tinham levantado uma cerca à volta da árvore e guardavam-na permanentemente com quatro pessoas armadas. Os Defensores da Vida, por seu lado, tinham cavado um fosso e instalado uma vedação de arame farpado à volta dos rebentos que restavam, a fim de repelir qualquer ataque.
No resto da aldeia, a situação também se tornara insustentável: cada grupo, determinado a conseguir mais apoio, politizara a situação e obrigava o resto dos habitantes a tomar uma posição. Quem defendia o umbuzeiro era inimigo dos Defensores da Vida e quem defendia os rebentos tinha, por conseguinte, de cultivar um ódio de morte pelos Defensores do Umbuzeiro.
Por fim, decidiu-se deixar a decisão ao juiz de paz – que cumpria também as funções de sacerdote da pequena igreja da aldeia – que deveria dar o seu veredicto no domingo seguinte. Dividido o público por uma corda, os dois bandos agrediam-se verbalmente. A gritaria era terrível e ninguém se conseguia fazer ouvir. De repente, abriu-se a porta e, pelo corredor, seguido pelo olhar de ambas as partes, avançou o Velho, apoiado na sua bengala.
O Velho, que devia ter mais de cem anos, fundara aquela aldeia na sua juventude, planificara as suas ruas, sorteara os lotes de terreno e, claro está, plantara a árvore. O Velho era respeitado por todos e a sua palavra conservava a lucidez que o acompanhara durante toda a sua vida. O ancião afastou os braços que se ofereciam para o ajudar e, com dificuldade, subiu ao palco e falou.
— Seus tontos! — disse. — Autoproclamam-se Defensores do Umbuzeiro, Defensores da Vida... Defensores? Vocês são incapazes de defender seja o que for, porque a vossa única intenção é prejudicar todos aqueles que pensarem de maneira diferente da vossa. Não se apercebem do vosso erro e tanto uns como os outros estão equivocados. O umbuzeiro não é uma pedra. É um ser vivo e, como tal, tem um ciclo de vida. Esse ciclo inclui dar vida aos que continuarão a sua missão. Isto é: inclui preparar os rebentos para fazer deles novos umbuzeiros. Mas os rebentos ainda mal são umbuzeiros. Por isso, não poderiam viver se o umbuzeiro morresse e a vida do umbuzeiro não teria sentido se não fosse capaz de transformar-se numa vida nova.
Preparem-se, Defensores da Vida. Treinem e armem-se. Em breve chegará a hora de deitar fogo à casa dos vossos pais com eles lá dentro. Porque em breve eles envelhecerão e começarão a estorvar o vosso caminho. Preparem-se, Defensores do Umbuzeiro. Pratiquem com os rebentos. Devem estar preparados para pisar e matar os vossos filhos quando eles quiserem substituir-vos ou superar‑vos. E autoproclamam-se vocês «Defensores»! Vocês só querem é destruir. E não se apercebem de que destruindo, destruirão também, inexoravelmente, tudo aquilo que pretendem defender. Pensem! Não vos resta muito tempo...
E dito isto, desceu lentamente do palco e caminhou para a porta, perante o silêncio de todos... E foi-se embora.
Jorge Bucay
Deixa-me que te conte
Cascais, Editora Pergaminho, 2004
(adaptação)
Histórias oferecidas à sexta-feira!
(Para todos aqueles que celebram o Natal e outras Festividades: https://preparandonatal.wordpress.com )
Um presente de Natal que jamais esquecerei
A vida de uma criança é como um pedaço de papel onde
todos aqueles que passam deixam uma marca.
Provérbio chinês
Ele entrou na minha vida há vinte anos, encostado à ombreira da porta da sala 202, onde eu dava aulas ao quinto ano. Usava sapatos de borracha três vezes maiores do que os pés, calças aos quadrados rasgadas nos joelhos.
Daniel fez esta entrada banal na escola de uma aldeia bizarra, ao lado de um lago, conhecida pelas casas coloniais brancas e pelas caixas de correio de latão. Disse-nos que a última escola que frequentara ficava situada num condado vizinho.
— Colhíamos fruta — disse ele, sem rodeios.
Suspeitava de que este rapaz sorridente, amistoso e mal vestido, vindo de uma família de imigrantes, fora atirado para uma jaula de leões do quinto ano, que nunca tinham visto calças rasgadas. Se ele reparou nos risinhos, nada revelou. Não foi rude nem agressivo.
As vinte e cinco crianças do quinto ano olharam para Daniel com desconfiança até ao jogo de basebol dessa tarde. Ele deu então a primeira tacada na bola. Isso mereceu-lhe um pouco de respeito por parte dos críticos do vestiário da sala 202.
A seguir foi a vez de Charles. Charles era a criança menos ágil, a mais pesada de todo o quinto ano. Depois do segundo golpe do batedor, no meio dos esgares de contrariedade e dos protestos da turma, Daniel aproximou-se e falou calmamente em direcção às costas arqueadas de Charles.
— Esquece, pá. Tu és capaz.
Charles animou-se, sorriu, endireitou-se e atacou sem demora. Nesse preciso momento, desafiando a ordem social daquela selva onde entrara, Daniel começou a mudar as coisas – e a mudar-nos.
No fim do Outono, todos tínhamos gravitado na sua direcção. Dava-nos as mais variadas lições. Como atrair um peru selvagem. Como saber se a fruta está madura antes da primeira dentada. Como tratar os outros, até mesmo Charles. Principalmente Charles. Nunca usava os nossos nomes, chamava-me «Menina» e «rapazes» aos alunos.
No dia anterior às férias do Natal, os alunos traziam sempre presentes à professora. Era um ritual – abrir todas as caixas, observar o perfume caro ou o lenço ou a carteira de cabedal, e agradecer.
Nessa tarde, Daniel aproximou-se da minha secretária e segredou-me ao ouvido:
— As caixas para a mudança chegaram ontem à noite — disse ele, sem emoção. — Partimos amanhã.
Quando percebi a notícia, os meus olhos encheram-se de lágrimas. Ele quebrou o silêncio constrangedor, falando-me da mudança. Então, quando me recompus, tirou uma pedra cinzenta do bolso. Deliberadamente e com gestos decididos, colocou-a suavemente na secretária.
Pressenti que aquilo era algo de extraordinário, mas habituada a perfumes e sedas, ficara lamentavelmente desprevenida para responder.
— É para si — disse ele, fixando os olhos nos meus. — Puxei-lhe o lustro.
Nunca me esqueci dessa manhã.
Passaram anos. Todos os Natais, a minha filha pede que lhe conte esta história. Começa sempre depois de ela pegar na pequena pedra polida que está na minha secretária. Em seguida, aninha-se no meu colo e eu começo. As primeiras palavras da história nunca variam.
— A última vez que vi o Daniel, ele deu-me esta pedra como presente e falou-me das caixas. Isso foi há muito tempo, antes de tu nasceres.
— Agora já é um homem — concluo.
Juntas, imaginamos onde estará e o que andará a fazer.
— Aposto que é uma boa pessoa — diz a minha filha.
Depois acrescenta:
— Conta-me o fim da história, por favor.
Sei o que ela quer ouvir: a lição de amor e carinho aprendida por uma professora com um rapaz sem nada – e com tudo – para dar.
Um rapaz que vivia no meio de caixas.
Toco na pedra, recordando.
— Olá, rapaz — digo, suavemente. — Esta é a «Menina». Espero que já não precises das caixas. E Feliz Natal, onde quer que estejas.
Linda De Mers Hummel
Jack Canfield; Mark Victor Hansen
Canja de galinha para a alma – O tesouro do Natal
Mem Martins, Lyon Edições, 2002
Histórias oferecidas à sexta-feira!
(Para todos aqueles que celebram o Natal e outras Festividades: https://preparandonatal.wordpress.com )
Amor diz-se “L’Amour”
Nicolau esborracha o nariz contra o vidro da montra. Do outro lado, polvilhados de neve, estão alinhados inúmeros frascos e frasquinhos, uns altos e esguios, outros bojudos, todos cheios de um líquido dourado. Perfume. Mil espécies diferentes, no mínimo! Mas não é qualquer um que cheira bem. O perfume da avó tem um cheiro forte e penetrante, como o sabonete do quarto de banho do dentista. E D. Clara, a professora, tem sempre um cheiro doce de chiclete de cereja. E a mãe? A mãe cheira simplesmente a mãe. Só às vezes, quando sai à noite – uma vez em cem anos – cheira então a L’Amour, que quer dizer “amor” e é um cheiro muito especial.
Nicolau entra na loja, cheia de pessoas que vão ainda comprar uma prenda de Natal no último minuto.
— Dê-me, por favor, alguma coisa por 50 euros e queria um embrulho bonito! — ouve Nicolau a um homem corpulento. E uma senhora, em casaco de pele, dá-lhe um empurrão:
— Um boião de creme antirrugas com efeito triplo, por favor!
Nicolau puxa a bata a uma vendedora simpática.
— O que queres, rapazinho?
— Um frasco de L’Amour.
Ela dirige-se rapidamente para a prateleira.
— A água de toilete a 30 euros, com pulverizador a 40, ou o perfume a…
Nicolau olha para a vendedora, desesperado.
— Não tens dinheiro que chegue, não é?
Nicolau acena afirmativamente com a cabeça.
— Olha, está aqui uma amostra de L’Amour. Não custa nada e de certeza que a tua mãe vai ficar muito contente!
A vendedora sorri e coloca-lhe na mão uma caixinha de papel e, antes que ele possa agradecer, vai embora.
♥♥♥♥
Nicolau guarda a caixinha e abandona a loja. Lá fora está a avó.
— Céus, Nicolau, mas onde é que te meteste? Não se pode tirar os olhos de ti por um segundo!
Agarra-o com força pela mão.
— Como se eu não já tivesse preocupações de sobra!
Nem mesmo no talho o larga. Aqui há montes de gansos e perus de pele branca com borbulhas. Na parede, estão pendurados coelhos esfolados com a cabeça e ainda um pouco de pelo nas patas. Nicolau começa a sentir-se mal. Tantos animais mortos. Tem de pensar noutra coisa, depressa! Na mãe. Não, na mãe, é melhor não. Ainda dói mais. A mãe, que está no hospital, numa cama branca, num quarto branco.
— Faz-me um desenho bonito, Nico, para eu deixar de olhar para as paredes brancas! — dissera ela.
E Nicolau fizera um desenho com todas as cores, exceto preto. Um desenho de Natal com um pinheiro verde decorado com velas vermelhas, bolas azuis e estrelas doiradas e, ao lado, um grande coração cor-de-rosa com as palavras: “As melhoras, mamã!”
— É o desenho mais bonito que já vi! — dissera a mãe e o médico tivera de ajudar a colá-lo na parede. Era um médico simpático. Os outros mandavam sempre Nicolau sair quando chegavam para ver a mãe. Nicolau ficava então à porta, à espera, cheio de medo, até a avó vir buscá-lo. E a mãe sorria-lhe da cama como se quisesse dizer: “Cabeça erguida! Não vai acontecer-me nada.” Também lhe explicara que lhe fora retirada uma coisa da barriga porque não devia lá estar e que em breve ia voltar a ficar tudo bem.
Nicolau puxou a avó pela manga.
— Quando é que a minha mãe volta para casa?
— Oh menino, perguntas-me isso quinhentas vezes ao dia! Daqui a duas semanas, já sabes.
Nicolau só sabe que hoje a mãe não vai estar em casa. Hoje, na noite de Natal.
— Quatro salsichas frescas, cem gramas de presunto e duzentos e cinquenta de fiambre — diz a avó ao carniceiro, que já tem gotas de suor na testa. Metido no casaco grosso e com a camisola por baixo, Nicolau também está a suar. Em casa da avó tem sempre de andar agasalhado, até com meias calças por baixo das calças de ganga. Picam tanto! E, aliás, só as meninas é que usam meias calças.
De volta à rua, Nicolau aponta para uma árvore de Natal pequena e um tanto desguedelhada.
— A nossa última, leva-a por 5 euros. — diz o vendedor.
A avó recusa.
— O que vamos fazer com ela, Nicolau? Não tenho tempo para decorá-la e vamos já para o hospital.
Nicolau abre muito os olhos, assim as lágrimas não saem logo.
— Lá também há uma bonita árvore de Natal — a avó tenta consolá-lo, — uma muito grande!
Sim, é grande, e está lá há tanto tempo, quanto a mãe está no hospital, isto é, há uma eternidade. E com as velas elétricas acesas o dia todo.
Nicolau tira o porta-moedas do bolso.
— Só tenho três euros. Chega? — pergunta ao vendedor.
Este pega depressa no dinheiro e diz:
— Pode ser, porque hoje é Natal.
— Oh, menino! — diz a avó e, com um suspiro, entala a árvore debaixo do braço.
Em casa, desaparece imediatamente na cozinha para fazer a salada de batata que esta noite vai acompanhar as salsichas. De certeza que vai tornar a deitar cebola. Que Nicolau detesta.
Nicolau tira o suporte da árvore de Natal do armário e a caixa com as decorações. É mais fácil do que pensou. A arvorezinha é tão pequena que consegue atarraxá-la no suporte sem dificuldade. Em seguida, tira com cuidado as bolas da caixa, azuis, vermelhas e roxas, a tira de papel brilhante do infantário, as estrelas de palha e as nozes doiradas.
Nicolau pendura tudo nos ramos, agora só faltam os candelabros.
— Avó, temos de comprar velas! — grita na direção da cozinha.
— As lojas já estão fechadas — responde a avó, limpando as mãos ao avental. — Veste-te lá, temos de sair já.
Nicolau embrulha a caixinha com o perfume num resto de papel de embrulho com coelhos de Páscoa, o que não combina lá muito, mas de certeza que a mãe não se importa. Imagina a surpresa dela ao descobrir o perfume. Para a avó não tem nada, mas ela pode sempre olhar para a árvore de Natal… Lembra-se das velas em falta e suspira. A mãe saberia o que fazer. Sabe sempre o que fazer.
A avó e Nicolau sobem para o autocarro e mudam duas vezes até finalmente se encontrarem em frente ao hospital. Nicolau sabe o caminho. Primeiro, têm de subir de elevador até ao quinto andar, depois seguir por um corredor comprido à esquerda, e virar à direita até ao quarto 513.
Nicolau abre a porta com cautela. Nunca se sabe o que vai estar do outro lado. Às vezes, a mãe está a dormir, às vezes está uma enfermeira a medir-lhe o pulso… e desta vez? Desta vez, a mãe não está! A cama está vazia, a coberta esticada. E à janela está uma figura, muito magra, que não pode ser ela! Mas quando se vira, vê que é mesmo ela!
Nicolau corre para junto da mãe e enlaça os braços em volta da barriga, mas não com muita força.
— Tenho férias de Natal — diz a mãe alegremente. — Três dias!
— Não temos quase nada que comer em casa! — exclama a avó.
Para Nicolau, isso não tem importância.
— Podes comer as minhas salsichas e… — Nicolau prefere sussurrar — também tenho uma prenda para ti, mamã. É uma árvore, mas sem velas.
— Ainda deve haver uma caixa do ano passado, Nico, se não, não há problema, o principal é que estamos juntos.
A mãe entrega a carteira à avó e diz a Nicolau:
— Tens de ajudar-me. Ainda estou um pouco insegura das pernas.
E Nicolau segura com força a mãe, e continua a ampará-la no táxi e nas escadas que conduzem ao apartamento. Só lhe larga a mão quando lhe oferece o pacotinho para desembrulhar.
Sabine Ludwig
Sophie Härtling (org.)
24 Weihnachtsgeschichten zum Vorlesen
Frankfurt am Main: Fischer Verlag 2006
(Tradução e adaptação)
(Para todos aqueles que celebram o Natal e outras Festividades: https://preparandonatal.wordpress.com )
Às quartas-feiras, na livraria
Creio que só vem às quartas-feiras. Encontro-o, pelo menos, todas as quartas-feiras.
Ele e eu não lemos as mesmas coisas.
Eu leio mais bandas desenhadas. Leio depressa. Em menos de uma hora acabo um livro.
Ele não, lê mais devagar. E o livro dele também é muito mais grosso.
É uma história de guerra, de batalhas. Vi o título. Deve ter sido muito longa, aquela guerra. Talvez uma batalha em cada página por dia. Não sei.
Também não sei porque é que ele lê aquilo. Para que é que lhe pode servir uma leitura daquelas.
Eu cá, rio-me muitas vezes, ou pelo menos sorrio, com as minhas BD.
Ele, às vezes, puxa um lenço do bolso e limpa o rosto.
Um dia, deu-se conta que eu lhe tinha visto as lágrimas.
Ergueu os ombros. Disse:
— Os olhos dos velhos choram facilmente.
Achei que aquilo não explicava tudo.
Hoje, eu estava atrasado.
E ele preparava-se já para sair.
Todos os gestos que fazia, fazia-os com muita lentidão. Mesmo o limpar dos olhos.
Vestiu o casaco, pôs o cachecol, voltou a pôr o livro na prateleira.
Antes de ir embora, disse à senhora da livraria:
— Oxalá não o venda!
Na quarta-feira seguinte, fiquei mais tempo.
Li duas bandas desenhadas. Ainda comecei um romance.
Mas ele não veio.
Receio que esteja doente. Não me atrevi a perguntar.
O livro lá estava no seu lugar.
Abri-o.
Não tinha imagens.
Apenas alguns desenhos cinzentos. Mapas de geografia.
Era pesado. Pensei que talvez fosse por isso que ele não tinha vindo.
Demasiado pesado, aquele livro.
Mas ei-lo que voltou! Lá estava ele sentado no cadeirão do costume.
Fiquei outra vez muito tempo.
Quando saiu, voltou-se, despediu-se e repetiu uma vez mais:
— Espero que não o venda em breve…
Só me pergunto porque é que não o compra, se tem tanto interesse nele.
As férias estão próximas.
A livraria tem enfeites de Natal na montra, no balcão e bombons em cima da mesa baixa, diante do cadeirão do velho senhor.
Eu também tive direito a pegar num.
Ele levou muito tempo a abrir um bombom.
Faltam três dias para o Natal! Mas não há neve.
O senhor idoso entrou, tirou o chapéu, o casaco e o cachecol.
Percorre as prateleiras com os olhos, não encontra o livro que procura, pensa que talvez se tenha enganado na secção, ou que os seus olhos cansados…
Aproximo-me, olho também e digo:
— Já cá não está.
Olha para mim e diz:
— Um dia isto teria de acontecer. Ainda nem metade tinha lido. Quem sabe se ainda teria tempo para o acabar…
Eu respondo:
— O senhor havia de experimentar as B.D. É divertido, e depois lê-se mais depressa.
A senhora da livraria aproxima-se. Pergunta:
— É o livro da batalha do Marne que procura?
— Sim, Menina.
— Foi vendido hoje, de manhã. É para o Natal.
— Ah sim, Natal, claro.
A mim, a palavra “Natal” faz-me nascer estrelas na cabeça.
A ele, dir-se-ia que lhe colocou um grande fardo às costas.
Mas… o que há dentro dele?
O senhor idoso volta a pôr o chapéu, veste o casaco.
— Pronto, adeus Menina, e feliz Natal…
Ela estende-lhe um embrulho, de papel dourado, atado com um fio vermelho.
— Feliz Natal para si também…
E acrescenta:
— Mas mesmo assim, venha ver-nos de vez em quando.
O velho senhor sorri...
Todos sorrimos, penso eu.
E saiu de embrulho debaixo do braço.
Afinal, aquele livro não era assim tão pesado.
Sylvie Neeman
Mercredi à la librairie
Paris, Éditions Sarbacane, 2007

Histórias oferecidas à sexta-feira! HOJE COM VOTOS DE UM FELIZ NATAL!
(Para todos aqueles que celebram o Natal e outras Festividades: https://preparandonatal.wordpress.com )
(Para todos aqueles que celebram o Natal e outras Festividades: https://preparandonatal.wordpress.com )
A manjedoura vazia
— Já não há mais nenhuma — disse Michael, empilhando a última caixa no átrio da minha casa.
Inspecionei as embalagens poeirentas com alguma expectativa. Estas decorações de Natal, que tinham sido guardadas depois da morte da mãe de Michael, simbolizavam, de alguma forma, o nosso futuro como casal. Tínhamos, até agora, partilhado todo o tipo de atividades típicas da quadra: festas, compras, decorações. Mas, como íamos casar dentro de alguns meses, eu queria criar algumas tradições que fossem só nossas.
Algo de significativo e de único para ambos.
Abrir estas caixas era o início dessa partilha.
— Olha só, o nosso velho presépio! — exclamou Michael, abrindo uma caixa embrulhada com cuidado. — A minha mãe punha-o sempre debaixo da árvore de Natal.
Com cuidado, desembrulhei Maria, José e a manjedoura. Enfiado dentro dos jornais estava um estábulo. Coloquei-o no chão, debaixo da árvore, e dispus os três Reis Magos, um pastor, uma ovelha e uma vaquinha. Estavam todos menos…
Verifiquei de novo os pacotes e procurei debaixo dos jornais empilhados a figura que faltava. Nada.
— Não encontro o Menino Jesus — disse para Michael, que estava ocupado na sala de jantar.
Quando chegou junto de mim, repeti:
— Não encontro o Menino Jesus do presépio.
A cara de Michael ficou tensa.
— Mas ele tem de estar aqui. Estava aqui no último Natal da minha mãe.
Horas mais tarde, depois de todas as caixas terem sido abertas, continuava a faltar o Menino Jesus. Michael sugeriu que voltássemos a embrulhar o presépio.
— Não — discordei. — Amanhã vou tentar encontrar um menino que condiga com o conjunto.
Despedimo-nos e Michael foi para casa.
No dia seguinte, coloquei a manjedoura na minha carteira e fui a uma loja temática na hora de almoço. Não havia nenhum Menino Jesus. Depois do trabalho, ainda procurei noutras lojas, mas nenhuma delas vendia o Menino Jesus em separado. Pensei comprar outro conjunto de figuras, mas nenhum dos meninos cabia na manjedoura do presépio de Michael.
Uns dias mais tarde, quando ele veio jantar a minha casa, contei-lhe o sucedido. Depois do jantar, comecei a arrumar as figurinhas na caixa. Michael interrompeu o meu gesto, colocando as suas mãos nas minhas.
— Penso que devemos deixá-lo como está.
— Mas não podemos ter um presépio sem Menino Jesus — retorqui.
— Vem comigo — pediu Michael.
Afastámo-nos da árvore e ele disse:
— Olha para o presépio. À primeira vista, nem sequer notamos que falta alguma coisa. Só quando olhamos com atenção é que vemos que não há Menino Jesus.
Inclinei a cabeça e contemplei a cena. Michael tinha razão.
— Mas ainda não percebo onde queres chegar — disse eu.
— No meio das decorações, das listas de compras e das festas, perdemos, muitas vezes, Jesus de vista. É como se ele se perdesse no meio do Natal.
Foi então que compreendi.
E, assim, demos início à nossa primeira tradição de Natal, uma tradição significativa e única para a nossa família. Todos os anos, quando colocamos as figuras do presépio, deixamos a manjedoura vazia.
É a forma de nos lembrarmos de procurar Cristo no Natal.
Stephanie Welcher Thompson
Jack Canfield & Mark Victor Hansen
Chicken Soup for the Soul – Christmas Cheer
Chicken Soup for the Soul Publishing, LLC, 2008
FELIZ ANO NOVO!
(Mais em http://contadoresdestorias.wordpress.com )
O Ano Novo de Long-Long
— Acorda, Long-Long, estamos quase a chegar!
Long-Long olhou de relance os cestos cheios de salada apetitosa que o avô transportava. Era a primeira vez que ia à cidade.
Nunca vira tanta gente. Pessoas a falar, a andar, a deslocar-se em bicicleta, e a dançar as suas músicas preferidas. Sentia-se que o Ano Novo está perto, e que toda a gente se preparava para a festa. De repente, ouviu-se um grande estrondo.
— Aiah! — exclamou o avô, ao ver o pneu furado da carroça.
— Segura no guiador que eu vou lá atrás empurrar, avô! — ofereceu-se Long-Long.
O sol já ia alto e tinham de despachar-se para chegar ao mercado antes dos primeiros clientes. O avô estava preocupado, porque, se não vendesse a salada, a família não teria dinheiro para a festa do Ano Novo. Com a ajuda do neto, descarregou os cestos; em seguida, Long-Long foi procurar alguém para reparar o pneu.
— Aiah! — gritou uma rapariga, aos ziguezagues com a bicicleta.
Ia em direção a Long-Long, mas conseguiu travar mesmo a tempo. O peixe fresco que comprara saltou do cesto e as laranjas espalham-se por todo o lado. Long-Long correu a apanhá-las e voltou a pô-las no cesto. A rapariga sorriu abertamente e ofereceu-lhe uma laranja.
O rapaz reparou, então, que estava precisamente diante de uma oficina de bicicletas. O mecânico pôs um remendo no pneu da carroça do avô, enquanto outras pessoas esperavam que as suas bicicletas fossem reparadas.
— Precisa de uma ajudinha? — perguntou Long-Long.
— Boa ideia! — respondeu o mecânico. — És capaz de encher alguns pneus?
O rapaz levantava e baixava o êmbolo da bomba com toda a força, enquanto cada cliente ia deixando três ou quatro mao numa pequena caixa de madeira. O mecânico agradeceu-lhe e colocou um yuan de prata novinho na mão de Long-Long, que se apressou a ir ter com o avô.
— Já voltaste, Long-Long? — perguntou o velho, a sorrir.
Long-Long viu que os cestos continuavam cheios e disse:
— Não te preocupes, avô. O pneu já está reparado e, olha, tenho uma laranja e uma moeda!
O avô olhou para a moeda que brilhava na palma da pequena mão do neto.
— Tu és um menino muito corajoso, Long-Long, mas essa moeda não vai chegar para comprarmos tudo o que precisamos para preparar a festa do Ano Novo.
O rosto de Long-Long entristeceu-se. Ele e o avô tinham contado pacientemente os dias até a salada estar pronta para ir para o mercado. Ma e a priminha Hong-Hong iam ficar muito desiludidas se eles voltassem para casa com a salada já murcha e de mãos vazias.
Mesmo ao lado deles, havia uma mulherzinha a vender salada também, só que não tão bonita como a do avô. Quando ninguém estava a ver, a mulher regava-a com água para parecer mais fresca. Depois chamava as pessoas, não deixando que se aproximassem dos cestos do velho. Quase não deixava os clientes observar os molhos de salada, e pesava-os à pressa. As pessoas da cidade eram facilmente enganadas, e não se apercebiam de que a salada dela estava cheia de manchas escuras.
Long-Long deu uma volta pelo mercado, a ver o que poderia fazer para ajudar o avô. Chegou perto de um restaurante ao ar livre. O cheirinho que provinha das panelas até fazia crescer água na boca.
— Queres comer alguma coisa? — perguntou a cozinheira.
Long-Long olhou para a sua moeda e pensou no que poderia comprar com ela. Dois crepes com sabor a porco e gengibre? Uma sopa de arroz com legumes marinados? Foi então que se lembrou de Ma e da pequena Hong-Hong e decidiu guardar a moeda.
— É a primeira vez que te vejo por cá — disse a cozinheira.
— Vim vender salada com o meu avô — explicou Long-Long, com ar tímido.
— Podes vender-me salada fresca para eu fazer a sopa e os crepes! — exclamou ela.
Long-Long levou a cozinheira até junto do avô. Estava com receio de que ela preferisse a salada da outra mulher. Contudo, ao ver a vendedora, a cozinheira ficou furiosa:
— Já te tinha dito para não pores mais os pés aqui! O que estás tu a vender desta vez? Salada com manchas e com lagartas?
Atraídos pelos gritos, alguns curiosos começaram a juntar-se e, daí a nada, todos viraram as costas à mulher e foram comprar a salada do avô. Este pesava-a cuidadosamente e, em seguida, Long-Long atava os molhos como se fossem flores para entregar aos clientes. A mulherzinha enfureceu-se. Procurou chamar a atenção gritando e batendo com o pé, mas nada conseguiu. Não vendeu uma única salada.
— Long-Long, já vendemos tudo, até à última folha — alegrou-se o avô. — Já temos o dinheiro necessário para a festa do Ano Novo!
Foram comprar especiarias, arroz, farinha, óleo, foguetes e folhas de papel vermelho com votos de felicidade, tais como Fu, escritos. Foi tudo posto na carroça, menos um enorme peixe salgado. Como não havia espaço para ele, o avô pendurou-o no guiador. De seguida, pararam diante da Loja dos Cem Artigos. O avô deu dez yuan a Long-Long.
— Vai! — disse-lhe — e compra o que quiseres, enquanto eu arrumo os embrulhos para irmos embora.

Na loja, estava uma mãe a comprar elásticos para o cabelo da filha. Long-Long pensou em Hong-Hong e comprou também dois para ela, enfeitados com morangos. Iam ficar bem nas suas tranças e fariam ressaltar as lindas faces rosadas de Hong-Hong. As mãos de Ma também ficavam vermelhas com o frio. Long-Long decidiu oferecer-lhe um creme, mas deu-se conta de que só tinha os 10 yuan do avô. Se tivesse só mais um… Então, lembrou-se de que ainda guardava, no fundo do bolso, a moeda que o homem das bicicletas lhe dera. Entregou-a com orgulho à rapariga da caixa.
Num instante, o bater do gongo e o rufar dos tambores na rua elevaram-se nos ares. O desfile do Ano Novo ia passar diante da loja! Long-Long correu para o ver. De volta à carroça, Long-Long encontrou o avô à sua espera, com um pauzinho envolvido de frutos em caramelo.
— Comprei-te um tang-hu-lu — disse-lhe. — Vamos para casa, agora. Ma e Hong-Hong devem estar a preparar o nosso Ano Novo.
No caminho de regresso, viram faixas de papel vermelho nas portas e janelas de todas as casas.
“Schlac! Schlac! Schlac!” ouviram ao chegar a casa. Ma estava a cortar legumes para fazer crepes nessa noite. Hong-Hong correu ao encontro deles.
— Já chegaram! Já chegaram! — gritou a plenos pulmões.
Ma veio à porta. Long-Long pegou no quadrado de papel vermelho em que estava escrito Fu e pregou-o na parte de trás da porta. Ma e o avô sorriram e Hong-Hong aplaudiu. A felicidade e a boa sorte chegaram mesmo a tempo do Ano Novo à casa de Long-Long!
◊◊◊◊◊
O primeiro Ano Novo
Há muito, muito tempo, existia uma aldeia igualzinha à de Long-Long, onde as pessoas viviam cheias de medo. A cada doze meses, um monstro terrível chamado Nian saía da sua gruta, situada no mais fundo do mar, e vinha atormentar os aldeões. Um dia em que estes tinham fugido a refugiar-se nas montanhas, cruzaram-se com um mendigo que se dirigia para a aldeia, mas ninguém o avisou. Na aldeia ficara apenas uma pessoa. Era uma velhinha viúva que estava demasiado enfraquecida para poder acompanhar os outros. Acolheu o mendigo e falou-lhe do monstro. O mendigo prometeu ajudá-la, mas pediu à velhinha que lhe fizesse primeiro uns crepes, porque estava cheio de fome.
“Schlac! Schlac! Schlac!”, fazia a viúva ao cortar os legumes para os crepes. Entretanto, o monstro Nian acordou do seu longo sono profundo e dirigiu-se para a aldeia. Estava ainda meio adormecido e o barulho que a velhinha fazia irritava-o. Dirigiu-se para a casa, onde o mendigo o esperava. O homem tinha pregado papel vermelho nas portas e janelas, e a cor viva ofuscou os olhos sensíveis de Nian, como se os trespassasse com um milhar de alfinetes! O mendigo também tinha acendido um pau mágico de bambu. O pau crepitava e assobiava, agredindo os ouvidos delicados de Nian, que correu a refugiar-se bem lá no fundo do mar. Nesse momento, o mendigo desapareceu também.
Quando os aldeões regressaram a suas casas, a viúva contou-lhes as proezas do mendigo. Desde então, os Chineses seguem o exemplo deste mendigo em cada Ano Novo. No entanto, hoje em dia, as pessoas não têm paus mágicos de bambu para meter medo a Nian. O que achas que Long-Long e a família usavam em vez deles?
◊◊◊◊◊
Pequeno glossário
Long – É a palavra chinesa para “dragão”. Long-Long tem este nome por ter nascido no ano chinês do dragão.
Aiya – Os Chineses gritam esta expressão quando estão surpreendidos ou chocados.
Mao – O mao é a moeda chinesa. Pode apresentar-se sob a forma de moedas ou notas. O mao vale um pouco menos do que um cêntimo de euro.
Yuan – É também a moeda chinesa. Vale 10 mao. Existe igualmente em moedas e notas. Um yuan vale um pouco menos do que 10 cêntimos do euro.
Ma – As crianças chinesas chamam Ma à mãe. É como o começo da palavra “Mamã”.
Hong – Significa “vermelho” em chinês. Hong-Hong tem este nome por causa das suas faces rosadas.
Fu – Fu significa “Boa sorte”. É pintado quase sempre em papel vermelho. No Ano Novo, os Chineses pregam este papel no interior da porta de entrada para terem sorte durante o ano todo.
Loja dos Cem Artigos – É uma loja tradicional que se encontra em muitas das cidades chinesas, e onde se vende de tudo.
Tang-hu-lu – É uma espécie de bombom feito de frutas arredondadas, enfiadas num pauzinho, e cobertas de caramelo derretido. Os frutos parecem-se com tomates. O tang-hu-lu é uma guloseima muito apreciada pelas crianças.
Nian – Segundo a lenda chinesa, Nian é um monstro terrível. “Nian é também a palavra chinesa para “ano”. Em cada Ano Novo, os Chineses livram-se do velho Nian para começar um novo ano.
Catherine Gower
Long-Long’s New Year
London, Frances Lincoln, 2005
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O LEÃO DA BIBLIOTECA
PRIMEIRA PARTE
Um dia, um leão foi à biblioteca.
Não se deteve na secretária do atendimento, dirigindo-se diretamente às estantes.

O senhor McBee apressou-se a ir falar com a bibliotecária.
— Menina Merryweather! — chamou.
— Nada de correrias — disse a bibliotecária, sem tirar os olhos do que estava a fazer.

— Mas…está um leão — disse o senhor McBee — na biblioteca!
— Hmm…Está a desrespeitar alguma regra? — quis saber a bibliotecária, que era muito rigorosa quanto ao cumprimento de regras.
— Bom…não! — respondeu o senhor McBee. — Não propriamente.
— Então, pode estar.
O leão passeou-se o dia inteiro pela biblioteca. Farejou o catálogo. Roçou a cabeça pela nova coleção de livros. A seguir, dirigiu-se ao cantinho do conto e adormeceu.



Ninguém sabia o que fazer. Não existiam regras sobre leões na biblioteca.
Entretanto, era chegada a hora do conto.
Também não existiam quaisquer regras relativas a leões presentes em horas do conto.
A contadora de histórias deixava adivinhar um certo nervosismo, mas conseguiu ler o título do primeiro livro numa voz firme e clara. O leão olhou-a atentamente. A contadora continuou a ler. O leão ficou para ouvir a história seguinte. E a seguinte. E ainda a seguinte.
Enquanto isso, as crianças começaram a ir-se embora.

— Terminou a hora do conto — disse-lhe uma menina. — Está na hora de nos irmos embora.
O leão olhou para as crianças. Olhou para a contadora de histórias. Olhou para os livros fechados. E soltou um imenso rugido.

A bibliotecária saiu disparada do escritório.
— Quem é que está a fazer semelhante barulho? — inquiriu.
— É o leão! — respondeu o senhor McBee.
Muito decidida, a Menina Merryweather foi ter com o leão.
— Se não consegues estar calado, tens de sair! — disse assertivamente. — São as regras!

O leão continuou a rugir. Parecia triste.
Uma criança puxou pelo vestido da bibliotecária.
— Se ele prometer que se cala, pode voltar amanhã para a hora do conto? — perguntou.
O leão parou de rugir. Olhou para a bibliotecária. Esta olhou para ele.

Depois disse:
— Claro! Um leão bonzinho e sossegado pode sempre voltar para a hora do conto.
— Iupi! – exclamaram as crianças.
No dia seguinte, o leão estava de volta.
— Chegaste cedo! – disse a bibliotecária. – A hora do conto é só às três.

O leão não se mexeu.
— Muito bem! Enquanto esperas, vais ajudar-me.
Mandou-o limpar o pó às enciclopédias até à hora do conto.

No dia seguinte, o leão voltou a chegar cedo. Desta vez, a bibliotecária pediu-lhe que colasse os envelopes com os avisos de devolução em atraso.

Em breve o leão começou a fazer coisas sem que fosse preciso pedir-lhe.
Limpava o pó às enciclopédias.
Colava os envelopes.
Deixava que as crianças mais pequenas subissem para as suas costas para poderem chegar aos livros das prateleiras mais altas.
A seguir, enroscava-se no cantinho do conto e esperava que a história começasse.
A princípio, as pessoas ficavam nervosas com ele.
Mas não passou muito tempo até se habituarem à sua presença.
Na verdade, parecia talhado para estar numa biblioteca.
Os seus pés enormes não faziam barulho nenhum no soalho.
Servia de encosto às crianças durante a hora do conto.
E nunca mais rugiu na biblioteca.
— Que leão tão prestável! — diziam todos.

Faziam-lhe festas na cabeça quando ele ia a passar.
— Como foi possível estarmos todo este tempo sem ele?
Ao ouvir isto, o senhor McBee barafustou.
As coisas tinham sempre corrido bem.
Não eram precisos leões. Os leões, pensava ele, não compreendiam as regras e, por isso, não se enquadravam numa biblioteca.
CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA.
Michelle Knudsen, Kevin Hawkes
Library Lion
Candlewick Press, 2006
Histórias oferecidas à sexta-feira!
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O LEÃO DA BIBLIOTECA
SEGUNDA PARTE
Um dia, depois de ter tirado o pó a todas as enciclopédias, colado todos os envelopes e ajudado todas as crianças pequenas, o leão dirigiu-se à secretária da bibliotecária para saber o que mais poderia fazer.
Ainda faltava algum tempo até à hora do conto.
— Olá! – disse ela. – Já sei o que podias fazer.

— Podias colocar um livro junto daquele monte. Deixa-me só tirá-lo da estante.
A bibliotecária subira para um banquinho, mas o livro estava alto de mais.
Pôs-se em bicos de pés, e depois esticou os dedos.
— Está quase... – disse.
Mas estava a fazer demasiado esforço.
— Ui! — gemeu.
E já não se levantou.

— Senhor McBee! — chamou durante alguns minutos. — Senhor Mr. McBee!
Mas o senhor McBee não conseguia ouvi-la.
— Leão — disse a bibliotecária — vai chamar o senhor McBee, por favor.
O leão correu direto à entrada.

— Nada de correrias! — gritou-lhe a Menina Merryweather.
O leão pôs as suas grandes patas da frente em cima da secretária e ficou a olhar para o senhor McBee.
— Vai-te embora, leão! — disse o senhor McBee. — Estou ocupado.
O leão choramingou.
Com o nariz, apontou na direção do escritório da bibliotecária.
Mas o senhor McBee ignorou-o.
Por fim, o leão fez a única coisa que poderia ajudar.
Olhou o senhor McBee olhos nos olhos e, a seguir, abriu muito a boca.
E soltou o rugido mais estrondoso que alguma vez soltara.

O senhor McBee assustou-se.
— Não estás a respeitar o silêncio — disse ao leão. – Estás a quebrar as regras!
O senhor McBee dirigiu-se ao escritório da bibliotecária o mais depressa que pôde.
O leão não o seguiu.
Tinha quebrado as regras. Sabia quais as consequências de tal comportamento.
De cabeça baixa, caminhou na direção da porta de entrada.
O senhor McBee nem reparou.


— Menina Merryweather! – chamou enquanto caminhava. – Menina Merryweather! O leão quebrou as regras! O leão quebrou as regras!
Entrou de rompante no escritório da bibliotecária, que não se encontrava à secretária.


— Menina Merryweather! – chamou.
— Por vezes — disse a bibliotecária caída no chão atrás da secretária — há boas razões para se quebrarem as regras. Mesmo numa biblioteca. Agora, por favor, vá chamar um médico. Penso que parti um braço.
O senhor McBee saiu a correr para chamar o médico.
— E nada de correrias! — gritou ela.
No dia seguinte, tudo regressara à normalidade. Quase.
A bibliotecária tinha o braço engessado.
O médico recomendara-lhe que não trabalhasse muito.
— Tenho o leão para me ajudar – pensou ela.
Mas, nessa manhã, o leão não apareceu na biblioteca.
Às três horas, a bibliotecária dirigiu-se ao cantinho do conto.
Uma senhora estava a começar a contar uma história.
Mas o leão não estava lá.
Na biblioteca, as pessoas levantavam continuamente a cabeça dos livros e desviavam os olhos do ecrã dos computadores na esperança de ver a familiar cara peluda.
Mas o leão acabaria por não vir naquele dia.
O leão acabaria por também não vir no dia seguinte.
Nem no outro, nem no outro…
Uma tarde, antes de sair, o senhor McBee deteve-se à entrada do escritório da bibliotecária.
— Precisa de mais alguma coisa? – perguntou-lhe.
— Não, obrigada — respondeu ela.
A Menina Merryweather olhava pela janela.
Falava em voz muito baixa…
Até mesmo tendo em conta que se estava numa biblioteca.
O senhor McBee franziu o sobrolho enquanto se afastava. Pensou que, com efeito, havia uma coisa que podia fazer pela bibliotecária.
Saiu da biblioteca mas não foi para casa.
Foi dar uma volta pelas redondezas.


Procurou debaixo dos carros. Procurou atrás dos arbustos. Procurou nos pátios e nos contentores do lixo e…nas árvores. Por fim, deu uma volta completa à biblioteca.
O leão estava sentado cá fora a olhar para dentro da biblioteca através das portas de vidro.
— Olá, leão! — disse o senhor McBee.
O leão não se voltou.
— Pensei que talvez gostasses de saber — disse o senhor McBee — que há uma nova regra na biblioteca. É proibido rugir, a não ser que haja um motivo de força maior. Por exemplo, se estás a tentar ajudar um amigo que se magoou…
O leão mexeu uma orelha.
Voltou-se, mas o senhor McBee já se tinha ido embora.
No dia seguinte, o senhor McBee dirigiu-se de imediato ao escritório da bibliotecária.
— O que se passa, senhor McBee? — perguntou ela numa voz triste.
— Pensei que talvez gostasse de saber que está um leão na biblioteca.
De um salto, a Menina Merryweather levantou-se da cadeira e correu até à entrada.
O senhor McBee sorria.
— Nada de correrias! — gritou-lhe.
Mas ela nem ouviu.
Por vezes, há boas razões para se quebrarem as regras.
Até mesmo numa biblioteca.

Histórias oferecidas à sexta-feira!
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Um dia, a Vida decidiu dar uma volta pelo mundo. Já tinha viajado muito quando encontrou um homem doente que tinha o corpo tão inchado que mal se podia mexer.
— Quem és tu? — perguntou o homem ao vê-la.
— Sou a Vida.
— Então, já que és a Vida, será que me podias tirar este inchaço que nem me deixa mexer nem trabalhar?
— Sim, eu poderia devolver-te a saúde, mas tu depressa te esquecerás de mim e da doença de que padeces.
— Como iria eu esquecer-me? Um milagre assim recordá-lo-ei toda a minha vida.
— Está bem! Vou curar-te. No entanto, voltarei daqui a sete anos para ver se és um homem de palavra — disse a Vida.
Esta pegou num pouco de pó do caminho e espalhou-o na cabeça do hidrópico que, de imediato, ficou são e ágil.
A Vida prosseguiu a viagem e andou muitos dias até que chegou à cabana de um leproso.
— Quem é? — perguntou o leproso.
— Eu sou a Vida.
— A Vida? — replicou o doente. — Pois então podias curar a minha lepra.
— Claro que posso — disse a Vida. — Mas se o fizer, logo esqueces a tua doença e o teu benfeitor.
— Impossível! Toda a minha vida hei de recordar-me desse milagre — assegurou o leproso.
— Bem, voltarei dentro de sete anos e então veremos se sabes manter as promessas — replicou a Vida.
Pegou então numa mão-cheia de terra da estrada, espalhou-a na cabeça do leproso, e a lepra, como por encanto, desapareceu, deixando ficar o homem com a pele limpa e jovem.
A Vida despediu-se e pôs-se de novo a caminho. Andou mais alguns dias e, por fim, encontrou um cego. Este, ouvindo que passava alguém estranho junto à sua cabana, perguntou:
— Quem és tu?
— Sou a Vida.
— És realmente a Vida? — continuou o cego. — Então suplico-te que me devolvas a vista.
— Sim, vou devolver-te a vista, mas não podes esquecer-te nem de mim nem da tua cegueira — disse a Vida.
— De modo algum! Serei tão feliz que me lembrarei toda a vida, e vou agradecer-te até à morte — prometeu o cego.
— Muito bem. Agora vou devolver-te a vista. Voltarei daqui a sete anos e veremos então se a tua palavra tem algum valor e se é de fiar — disse a Vida.
A Vida baixou-se, recolheu um pouco de poeira do chão e espalhou-a solenemente na cabeça do cego, que, de imediato, recuperou a visão e começou a gritar de alegria.
Sete anos passaram. Muitas coisas mudaram. O hidrópico, o leproso e o cego começaram a trabalhar esforçadamente para a sua família. O mundo estava muito diferente.
Nessa altura, a Vida empreendeu de novo a sua caminhada pela Terra para poder visitar aqueles a quem tinha socorrido e curado.
Primeiro, fingiu-se cega e começou por visitar a casa do homem a quem tinha devolvido a visão. Bateu à porta:
— Quem é? — perguntou aquele que tinha sido cego.
— Sou um homem cego, posso passar a noite em tua casa?
— Lamento — gritou o homem — Aqui não há espaço. Os cegos são teimosos e eu não quero gente dessa em minha casa. Segue o teu caminho.
— Eu é que lamento — disse a Vida. — Mas já previa isto há sete anos. Tu eras cego e eu devolvi-te a vista. Nessa altura tu prometeste-me que não te esquecerias nem de mim nem da tua doença; pelo contrário...
— É que eu...
Era tarde de mais, pois a Vida tinha pegado num pouco de pó do chão e espalhou-o na cabeça do ingrato. Este, no mesmo instante, voltou a ficar cego.
A Vida retomou a sua caminhada e foi visitar o antigo leproso.
Vestiu-se como um leproso e bateu à porta da cabana.
— Quem é? — perguntou o homem.
— Sou um pobre leproso. Posso passar a noite em tua casa?
— Um leproso? Podes é ir-te embora! Não quero que me pegues a tua doença.
— Já to tinha dito — replicou a Vida. — Há sete anos curei-te e tu prometeste-me que nunca te esquecerias desse prodígio. A tua palavra não vale nada, podes voltar a ser como dantes.
A Vida pegou outra vez em poeira do caminho e lançou-a sobre o homem que, de repente, voltou a ser leproso.
De novo, a Vida prosseguiu viagem e vestiu-se de modo a que o seu corpo parecesse inchado. Logo se apresentou na cabana do hidrópico que tinha curado há sete anos.
— Posso passar uma noite em tua casa? — perguntou a Vida batendo à porta.
— Claro — disse este. — Entra, entra. Senta-te aqui, vou buscar alguma coisa para comeres e beberes. Eu sei como é penoso estar nesse estado. Eu também já tive essa doença. Mas há sete anos, passou por aqui a Vida e curou-me. Naquela altura disse-me que voltava e ainda não a vi. Se esperares aqui em minha casa, Ela não tardará a vir e poderá, de certeza, também curar a tua doença.
— Eu sou a Vida — disse o caminhante. — E tu és o único de todos os que eu curei que ainda se lembra de mim e da sua antiga doença. Por isso, ficarás são toda a tua vida. Olha, a vida pode mudar constantemente. A sorte pode tornar-se em desgraça, a riqueza em pobreza, o amor em ódio. Ai daquele que não se lembrar disto e não tirar daí a devida lição. Adeus! — concluiu a Vida.
E retomou pela última vez o seu caminho.
Quantas oportunidades temos na Vida para estender a mão a quem necessita!
Nunca deixemos de o fazer.
Fábulas africanas
Lisboa, Editorial Além-Mar, 1991
(Adaptação)
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Coisas Terríveis:
Uma alegoria do Holocausto
Na Europa, durante a Segunda Guerra Mundial, muitas pessoas viraram a cara para o lado enquanto coisas terríveis aconteciam. Fingiam não ter conhecimento de que os seus vizinhos estavam a ser levados embora e enclausurados em campos de concentração. Fingiam não ouvir os seus pedidos de socorro.
Os nazis mataram milhões de Judeus e outros durante o Holocausto.
Se toda a gente se tivesse mantido unida ao primeiro sinal de maldade, será que isto teria acontecido? Lutar pelo que sabemos que está certo nem sempre é fácil. Especialmente se aquele que defrontas é maior e mais forte que tu. É mais fácil virar a cara e olhar para o lado. Mas se o fazes, coisas terríveis podem acontecer.


A clareira a meio do bosque servia de casa às criaturinhas mais pequenas. As aves e os esquilos partilhavam as árvores. Os coelhos e os porcos-espinhos partilhavam a sombra debaixo das árvores, e as rãs e os peixes partilhavam as frescas águas castanhas do charco da floresta. Sentiam-se satisfeitos.
Até ao dia em que as Coisas Terríveis chegaram.
O Pequeno Coelho viu as sombras terríveis antes mesmo de as ver. Pararam na beira da clareira e as suas sombras encobriram o sol.
— Viemos buscar todas as criaturas com penas nas costas — vociferaram as Coisas Terríveis.
— Nós não temos penas — disseram as rãs.
— Nem nós — disseram os esquilos.
— Nem nós — disseram os porcos-espinhos.
— Nem nós — disseram os coelhos.
Os pequenos peixes saltaram da água para mostrar o brilho das escamas, mas os pássaros gorjearam nervosamente no cimo das árvores. Penas! Elevaram-se no ar, depois partiram soltando um grito agudo em direção ao azul do céu.
Mas as Coisas Terríveis tinham trazido consigo as suas terríveis redes. Lançaram-nas bem alto e apanharam as aves que levaram embora.
As outras criaturas da floresta falavam nervosamente umas com as outras.
— Aqueles pássaros estavam sempre a fazer barulho — disse o Velho Porco-Espinho. — Já vão tarde, é o que eu acho.
— Agora há muito mais espaço nas árvores — disseram os esquilos.
— Porque é que as Coisas Terríveis queriam as aves? — perguntou o Pequeno Coelho. — Que mal tem ter penas?
— Não devemos fazer perguntas — disse o Grande Coelho. — As Coisas Terríveis não precisam de ter um motivo. Fiquem mas é felizes por não nos terem querido a nós.
Agora já não havia pássaros a cantar na clareira. Mas a vida ia decorrendo quase como anteriormente. Até ao dia em que as Coisas Terríveis voltaram.
O Pequeno Coelho ouviu o estampido dos seus terríveis pés antes que estes estivessem visíveis.
— Viemos buscar todas as criaturas de cauda farfalhuda que vivem na clareira — vociferaram as Terríveis Criaturas.
— Nós não temos cauda — disseram as rãs.
— Nem nós. Não temos verdadeiramente caudas — disseram os porcos-espinhos.
Os pequenos peixinhos saltaram da água para mostrar o suave brilho das suas caudas com barbatanas, e os coelhos viraram os seus rabinhos para que as Coisas Terríveis pudessem verificar por elas próprias.
— As nossas caudas são redondinhas e têm pelinho — disseram eles. — Não são farfalhudas, de maneira alguma.
Os esquilos batiam o dente de medo e fugiram para o topo das árvores, bem alto. Mas as Coisas Terríveis lançaram as suas terríveis redes ainda mais alto do que os sítios para onde os esquilos conseguiam correr, e mais longe do que os esquilos conseguiam saltar. Apanharam-nos a todos e levaram-nos embora.
— Aqueles esquilos eram uns gulosos — disse o Coelho Grande. — Sempre a armazenar para eles. Nunca partilhavam.
— Mas porque é que as Coisas Terríveis os levaram? — perguntou o Pequeno Coelho. — Será que as Coisas Terríveis querem a clareira só para elas?
— Não. Elas têm o seu próprio lugar — disse o Grande Coelho. — Mas as Coisas Terríveis não precisam de um motivo. Preocupa-te mas é com a tua vida, Pequeno Coelho. Não queremos que elas se zanguem connosco.
Agora já não havia aves a cantar nem esquilos a guinchar nas árvores. Mas a vida na clareira lá continuou, quase como anteriormente.
Até ao dia em que as Coisas Terríveis voltaram.
O Pequeno Coelho ouviu o estrondo das suas vozes horríveis.
— Voltamos em busca de todas as criaturas que nadam — vociferaram as Coisas Terríveis.
— Oh, nós não nadamos — apressaram-se os coelhos a dizer.
— E nós nem sabemos nadar — disseram os porcos-espinhos.
As rãs mergulharam bem fundo no charco da floresta e formaram-se ondinhas em espiral, como saca-rolhas, na água escura e castanha. Os peixinhos partiram como flechas, para um lado e para o outro, deixando traços cor de prata. Mas as Coisas Terríveis atiraram as suas terríveis redes até às profundidades, puxaram as rãs e os peixes brilhantes e levaram-nos embora.
— Porque é que as Coisas Terríveis os levaram? — perguntou o Pequeno Coelho. — O que é que as rãs e os peixes lhes fizeram?
— Provavelmente nada — disse o Grande Coelho. — Mas as Coisas Terríveis não precisam de um motivo. Há muitas criaturas que não gostam de rãs. De coisas com papos e escorregadias. E os peixes são tão frios e pouco simpáticos… Nunca falam connosco.
Agora já não havia pássaros a cantar, esquilos a guinchar, rãs a coaxar, ou peixes a brincar no charco da floresta.
Um silêncio nervoso enchia a clareira. Mas a vida continuou quase como era habitual. Até ao dia em que as Coisas Terríveis regressaram. O Pequeno Coelho cheirou o seu terrível odor ainda antes delas estarem à vista. Os coelhos e os porcos-espinhos olharam para todos os lados, exceto uns para os outros.
— Viemos buscar todas as criaturas que têm espinhos — vociferaram as Coisas Terríveis.
Os coelhos pararam de tremer.
— Nós não temos espinhos — disseram, ajeitando o seu pelinho branco e fofo.
Os porcos-espinhos eriçaram-se com todas as suas forças. Mas as Coisas Terríveis cobriram-nos com o arremesso de redes terríveis e os porcos-espinhos ficaram presos nelas, como moscas numa teia de aranha. E as Coisas Terríveis levaram-nos embora.
— Aqueles porcos-espinhos sempre tiveram mau feitio — disse tremulamente o Grande Coelho. — Espinhentos e irritadiços!
Desta vez o Pequeno Coelho nem perguntou porquê. Nesta altura ele já sabia que as Coisas Terríveis não precisam de um motivo. O cheiro ainda permanecia na clareira, embora as Coisas Terríveis já se tivessem ido embora.
— Eu gostava mais quando havia toda a espécie de criaturas na nossa clareira — disse ele. — E acho que devíamos mudar daqui. E se as Coisas Terríveis voltam?
— Disparate — respondeu o Coelho Grande. — Porque é que haveríamos de mudar? Esta sempre foi a nossa casa. E as Coisas Terríveis não vão regressar. Nós somos os Coelhos brancos. Nada poderia acontecer-nos.
Como os dias seguintes se seguiram calmos, o Pequeno Coelho pensou que o Grande Coelho devia ter razão. Até que as Coisas Terríveis voltaram. O Pequeno Coelho viu o brilho terrível dos seus terríveis olhos através da escuridão da floresta.
E sentiu de novo o cheiro terrível.
— Viemos em busca de todas as criaturas brancas — vociferaram as Coisas Terríveis.
— Aqui não há criaturas brancas, a não ser nós — disse o Grande Coelho.
— Viemos buscar-vos — disseram as Coisas Terríveis.
Os coelhos fugiram apressadamente em todas as direções.
— Socorro! — gritavam. — Que alguém ajude!
Mas já não havia ninguém para ajudar. E as grandes redes circulares caíram por cima deles. E as Coisas Terríveis levaram-nos embora.
A todos menos ao Pequeno Coelho, que era suficientemente pequeno para se esconder num monte de pedras à beira do lago, e suficientemente esperto para ficar tão quietinho que as Coisas Terríveis pensaram que ele era também uma pedra.
Quando todos se foram embora, o Pequeno Coelho rastejou para o meio da clareira vazia. Devia ter tentado ajudar os outros coelhos, pensou. Se ao menos nós, todos nós, nos tivéssemos mantido unidos, tudo poderia ter sido diferente…
Com tristeza, o Pequeno Coelho abandonou a clareira.
Iria avisar as outras criaturas da floresta acerca das Coisas Terríveis.
Tinha esperança de que alguém ouvisse.

Eve Bunting
Terrible things: An Allegory of the Holocaust
Philadelphia, The Jewish Publication Society, 1989
(Tradução e adaptação)
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Deixa-me escolher o meu caminho!
A monção passou. Folhas arrancadas pela chuva e pelo vento flutuam sobre as águas do rio. Balá fica a vê-las seguir o curso da água, velejando como borboletas a voar. A monção passou. Em breve, será inverno.
Balá vem muitas vezes brincar para junto do rio. A sua família vive um pouco mais além, na extremidade da aldeia.
Dantes vinha a correr até aqui com a sua irmã Lali e Tarun, o seu querido irmãozinho. Competiam na corrida e muitas vezes era Balá quem ganhava. Depois, Tarun
construía palácios de terra enquanto as irmãs contemplavam o rio. Contavam entre si as histórias do príncipe que um dia viria buscá-las, num barco turquesa e ouro. Haveria de levá-las. E juntas viveriam aventuras fabulosas à volta do mundo.
Mas isto era dantes. Antes de Lali ter abandonado a casa, no início da monção.
Balá amassa uma bola de terra vermelha mais grossa do que uma manga. Lali, a sua querida irmã mais velha, foi morar para casa do marido.
Balá enterra os dedos na argila, molda a bola fazendo-a rolar em cima da erva. Lali já partiu e Balá não compreende porque é que aqueles que amamos têm de ir-se embora tão cedo.
Quando a bola fica pronta, redonda e perfeita, Balá pousa-a no chão, à sua frente. Toshan, aquele palerma do Toshan, o filho do comerciante de peúgas, corre em direção a Balá. Vê a bola vermelha, redonda, única e perfeita. Ri, dá um salto e esmaga-a, apoiando todo o seu peso nos calcanhares negros de sujidade. Dá uma gargalhada e foge. Balá fica a vê-lo partir. Baixa a cabeça e uma lágrima desliza-lhe pelas faces, lentamente, e vai sumir-se na bola desfeita.
O rio continua a correr, numa mistura de lodo e folhas. A monção já acabou.
Foi numa quarta-feira, um dia favorável, propício, o dia do nascimento do deus Krishna. Balá recorda-se muito bem… a família tinha escolhido aquela data para o casamento da sua irmã Lali.
Lali nunca mais vestiria roupa de criança, nunca mais jogaria cricket, já tinha treze anos. Balá achava que treze anos era uma idade normal para jogar cricket, mas a família dizia que aos treze anos tinha de se casar. Então Lali enrolou um sari à volta do corpo. Não era lá muito fácil, a mãe ajudara-a. Estava tão linda no seu sari de cerimónia! Na sua oficina de alfaiate, o pai tinha escolhido o tecido mais rico para a filha. Bordou-o com amor e orgulho, não fosse Lali a sua filha mais velha, a filha querida.
Balá também gostaria de vestir um lindo sari; mas ainda não tinha chegado a altura. O pai tinha-lhe oferecido um vestido, brincos e duas gargantilhas em ouro que lhe fizeram esquecer o sari. O pai, a mãe e Tarun, o seu jovem irmão, também tiveram fatos novos, e toda a família foi à cidade à festa de casamento da Lali. Comeram montes de iguarias deliciosas, arroz à vontade e especiarias requintadas. Beberam lassis perfumados e sumos de fruta. Estava tudo maravilhoso!
Sentada num degrau, Balá tinha desapertado as sandálias que eram demasiado apertadas enquanto via Lali cobrir a cabeça com a ponta do seu sari diante de homens estranhos, como fazem as mulheres. Balá tinha esfregado os tornozelos doridos, e perguntava-se o que teria mudado desde a véspera: a refeição com mil sabores, a passagem do cortejo do casamento, os músicos e os bailarinos teriam eles transformado a sua irmã em mulher? Balá tinha interrogado a mãe, que sorrira:
— Também chegará o dia, Balá, em que te taparás com o teu sari.
Era uma quarta-feira, um bom dia, um dia propício. Quando o sol nasceu, Lali era ainda criança, mas à noite a raiz dos seus cabelos estava pintada de vermelhão. Na sua testa brilhava um ponto, um ponto vermelho. Um sinal de proteção, de devoção, um sinal de submissão.
Balá não tem a certeza de gostar das quartas-feiras.
As folhas desaparecem na água do rio, o ar fica fresco quando a noite cai.
O inverno chegou.
Balá ajuda a mãe. Prepara o chá para o pai e põe a cozer o puré de lentilhas. Nas margens a terra está seca, Balá já não a amassa. Sentada no tronco de uma figueira de raízes enormes, deixa que os seus olhos negros sigam os reflexos do sol na água. Pensa em Lali, a viver na cidade e sente a sua falta. Pensa também na sua amiga Ashna, que lhe prometeu vir buscá-la amanhã de manhã. Ashna é a melhor na escola a escrever e recitar. Balá gostaria de cantar como ela, mas a sua voz é rouca como uma corda de cítara demasiado apertada.
Um tronco de árvore desce o rio. Balá interroga-se donde virá, de que floresta ou jardim. O tronco flutua como uma ave a voar. Balá levanta-se para melhor o observar. É um barco! Balá distingue nele um casco de madeira pálida e velas brancas, leves como os tecidos de seda que a aranha tece. Não vê ninguém a bordo, o barco parece deslizar sozinho pelo rio. E se fosse o príncipe que em tempos esperavam, ela e a sua irmã? E se chegasse agora que a irmã já lá não está?
A embarcação aproxima-se da margem.
Encalha sem ruido a poucos metros de Balá. A criança levanta-se de coração apertado. Corre para o barco e pergunta:
— Está aí alguém?
Como ninguém responde, Balá levanta um véu muito leve. O sol penetra no interior do barco de madeira de cedro. Deitada num colchão de tela fina ornada de flores prateadas, uma dama dorme. A sua pele dourada reflete a luz, as mãos esguias pousadas debaixo da cara fazem-lhe de almofada. Balá sustém a respiração. A mulher abre os olhos e fixa a criança :
— Que fazes aqui? Onde estou?
Balá tranquilizou-se por não ser o príncipe tão esperado, pois sem Lali não saberia o que dizer. Apressa-se a responder à mulher que o barco parou próximo da sua aldeia, que ela é filha do alfaiate, e que gosta de brincar à beira rio, que nunca vira um barco tão lindo e que gostaria de vogar como ela sobre a água. A mulher sorri. Faz sinal a Balá para se sentar a seu lado.
— Eu não ando a passear. Estou a fugir.
Diante dos olhos esbugalhados de Balá, a mulher continua:
— Os meus pais casaram-me muito cedo. Eram ricos, eu era bonita, sabiam que encontraria um esposo ainda mais rico. Nunca me ensinaram a ler, a escrever ou a contar. Para quê? Mas sei tudo acerca do canto, da dança e da arte de vestir um sari. Ao princípio, o meu marido era muito amável. Eu obedecia-lhe e os dias iam passando. Ele queria um filho, que demorava a chegar. Começou a gritar, chamava-me barriga seca. Eu chorava. Não tinha ninguém com quem falar, pois a minha família vivia muito longe. A certa altura começou a bater-me…
Balá escuta e nada diz. Ouve-se apenas o marulhar da água contra o casco. O ar cheira a cedro. A mulher suspira e continua:
— Há dois dias, pus-me em fuga. Nada sei fazer com as minhas mãos. Confiei-me à água do rio e eis-me aqui.
Balá exclama:
— Sabes pelo menos armar um sari ! Podes trabalhar com o vendedor de roupa! É ele que vende os saris que o meu pai faz, certamente precisa de ti.
A mulher acaricia os cabelos de Balá.
— És muito amável... Olha, queres ?
A mulher oferece um pedaço de paan (folhas de betel) a Balá. A menina apressa-se a metê-lo à boca e sente-se imediatamente refrescada.
— Não te preocupes: vou continuar a vogar até à cidade. Lá encontrarei a minha prima preferida e depois logo verei.
A mulher também masca a planta, e ambas ficam de dentes e lábios tingidos de vermelho.
— Podes ajudar-me a sair daqui para continuar a viagem?
Balá anui com a cabeça. Empurra o barco, que desliza sobre a água. De pé entre as velas, a mulher acena um adeus com a mão. Balá vê-a afastar-se. Durante muito tempo, a sua boca cor de sangue parece uma joia sagrada desenhada no centro das velas brancas.
O perfume do cedro desvanece-se. O branco das velas desaparece. O ar está fresco e a noite instala-se. Balá volta para casa. O inverno já chegou.
A caminho da escola, Balá discute com a sua amiga Ashna. Não lhe fala da senhora de branco, mas fala-lhe da sua irmã, Lali, e dos maridos que batem nas mulheres.
— Mas, Balá...o teu pai escolheu um bom marido para Lali. Porque haveria ele de lhe bater?
— E se ela não puder ter filhos? Se não passar de uma barriga seca?
Ashna desata a rir. Balá tem mesmo ideias tolas… Os maridos e as mulheres amam-se e fazem meninos, como fizeram os seus pais, é assim. Balá coça o nariz. Se a amiga o diz, é porque é verdade. Sim, por vezes, é certo, que um homem e uma mulher podem amar-se. Mas Balá já decidiu: ela própria é que há de escolher o marido. E para ter ainda mais certeza, há de escolhê-lo só quando souber ler, escrever e contar. Nunca antes. Há de ser tão boa aluna que irão mandá-la para a escola dos grandes e até mesmo para a universidade, quem sabe?
Ashna sacode os seus longos cabelos. Realmente, Balá anda estranha desde que a irmã foi embora…
Tarun vê-as de longe e grita:
— Balá! Ashna! Venham, vamos jogar ao kit-kit!
Ashna corre para o grupo de crianças e Balá segue-a. Atiram para a beira do caminho as pastas escolares e entram no jogo. Levantam poeira com os pés e os risos fazem eco debaixo das árvores. Mas Toshan também lá está e troça de Balá:
— Olhem para ela! Tem corpo de mulher e brinca como um bebé. Que vergonha!
Tarun dá uma cabeçada a Toshan, acertando-lhe em cheio no estômago. Toshan faz uma careta, e responde-lhe com murros e pontapés. Todas as crianças entram na luta.
Balá agarra o irmão pelo braço e tira-o dali. Apanha a pasta dele sem dizer palavra.
— Mas... Balá, ele não tinha o direito de dizer aquilo!
Balá não responde. Segue sempre em frente. Lágrimas de raiva inundam-lhe os olhos negros. É verdade que de há uns tempos para cá a blusa fica-lhe demasiado apertada no peito…
A caminho da escola, Balá avança a passos largos, e a seu lado vai Tarun. Muito atrás, a amiga Ashna corre para a agarrar. É o final do ano. Nas proximidades da aldeia, o rio fica meio escondido. Está próximo o calor intenso do verão. Balá é a segunda da classe. É felicitada. Já decidiu: hoje vai dar a notícia ao pai, no próximo ano quer continuar a estudar.
— Mas já tens doze anos! — exclama o pai ao pousar uma peça de tecido em cima da mesa.— Depois serás demasiado velha para te casares.
Balá continua de cabeça baixa.
— Eu gosto de estudar — murmura ela.
De unhas cravadas na palma das mãos, ela sente o coração a ferver. Às voltas como um tigre ferido, o pai explica que uma rapariga sem marido não pode existir.
A mãe olha para Balá, a filha que mal começa a desabrochar, de seios a crescer sob a blusa, mas já com uma ruga a sulcar a fronte, entre as sobrancelhas. Recorda o dia em que também a sua mãe a levou àquele que viria a ser o seu marido. Também ela tinha doze anos. Levanta-se e diz :
— Balá irá à escola, tem tempo de encontrar um marido. Peço-te…
O pai para, olha para a mulher e ruge. A mãe suplica, mas o pai não quer ceder. Depois do verão há de casar a filha. Balá limpa as lágrimas, ergue a cabeça e fixa os seus olhos negros nos negros olhos do pai.
— Não, não me vou casar. Ainda não !
O pai levanta a mão para dar uma bofetada à insolente, a mãe detém-no. Balá continua:
— Papá... Ouve-me. Já sei contar, posso ajudar-te na oficina. Hei de ler-te as histórias de Krishna e do elefante sagrado. Papá, tu deste-me a vida, deixa-me escolher o meu caminho, peço-te …
Tarun entra a correr, vê a irmã lavada em lágrimas, agarra-se-lhe às pernas a gritar:
— Não! A Balá não! Ela não vai embora!
Perante estas palavras, o pai pondera. Por fim, ante o olhar da esposa, as lágrimas do filho e as lágrimas da sua filha querida, aceita: Balá irá à escola quando as aulas começarem, promete. Não lhe procurará um marido antes de completar os quinze anos.
O pai de Balá retoma o trabalho, muito mal-humorado: que irão dizer os vizinhos? E a família? Mas ama demasiado os filhos para os fazer chorar. Confiante, Tarun saiu para brincar.
Na sala de estar, Balá aproxima-se da mãe e beija-lhe os pés. A mãe sorri, senta-a no colo, como quando era bebé. Balá pousa a cabeça no ombro da
mãe.
— Minha querida filha…tenho uma boa notícia para te dar. Sabes: Lali espera um bebé!
Balá sorri. Olha para o rosto da mãe. Com o dedo contorna o círculo vermelho da testa. Volta a sorrir.
— Obrigada, mamã — diz Balá.
A mãe pega na mão da filha, e beija-lhe os dedos. Lágrimas como pérolas deslizam pela face.
— Eu é que te agradeço, minha filha — responde ela.
É o final do ano. Na proximidade da aldeia o rio corre. O forte calor de verão vai chegar. À beira do rio a vida pode prosseguir.
Cécile Roumiguière et Justine Brax
Rouge Bala
Paris, Milan Jeunesse, 2010
Histórias oferecidas à sexta-feira!
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Sozinho, debaixo de chuva
Um rapazinho, Julien, vive sozinho com a mãe. Os fins de mês e até mesmo os meses são difíceis, e a criança tenta portar-se muito bem. Mas vê a mãe, sempre tão amorosa, cada vez mais cansada e sem forças… Até o dia em que Julien ouve uma conversa ao telefone: a mãe confessa a alguém a sua impotência e o seu total desalento. Convencido que é a causa de tantos problemas, Julien decide ir embora…
1
Julien tinha voltado tranquilamente para casa depois da escola.
Já não ia para a casa da vizinha desde o início do ano.
Já se desenvencilhava sozinho pois, como a mãe tinha dito, agora já era grande.
Preparou o seu lanche: um pão com um pedaço de chocolate e um copo de leite.
Depois de lavar e arrumar o copo no escorredor da loiça, limpou as migalhas da mesa da cozinha que servia para tudo e instalou-se a fazer os deveres. O professor, simpaticamente, não os sobrecarregara. Terminados os trabalhos e estudada a lição, achou que já bastava de estudar. Antes de adormecer faria ainda uma revisão aos rios cujos nomes eram mais difíceis de aprender de cor.
2
Julien instalara-se diante da televisão.
Apesar das dezenas de canais que desfilavam ao ritmo do seu dedo no telecomando, nada lhe interessava.
Ao fim de bastante tempo, decidiu desligar; a mãe devia estar a chegar. Aborreceu-se um pouco, dando voltas no pequeno apartamento que os dois ocupavam.
3
Finalmente a mãe chegou.
Com oito anos, era pouco falador mas muito atento. Sabia reconhecer pela maneira como a porta batia se o dia dela tinha sido mau. Era o caso daquele dia.
De cara tensa, a mãe parecia esgotada. Mas esforçava-se por manter um sorriso.
Ele conhecia bem aquela expressão, a dos dias em que os contratos terminavam, em que tinha de ir de novo convencer a senhora do gabinete do desemprego a encontrar-lhe trabalho para um dia, uma semana ou dois meses… Raramente mais. Mas conseguia sempre encontrar alguma saída.
Tinha aprendido a manter-se discreto, a ajudá-la, a não a aborrecer com as suas traquinices.
Mas, naquela tarde, a mãe estava diferente. Reinava um grande silêncio no apartamento. Foi direita ao frigorífico e abriu um a um os armários da cozinha, à procura de uma refeição miraculosa que pudesse ter germinado no espaço de um só dia.
4
Os dias dela eram tão preenchidos que nem tinha tempo para fazer compras.
Para a ajudar, ele ia ao merceeiro depois da escola. A mãe tinha conta aberta, mas ele era sensato. Sabia bem que ela teria de pagar tudo e não queria que tivesse más surpresas. Levava só ovos, arroz, uma lata de feijão-verde fino mas não os extra finos, que eram muito caros. E ainda manteiga, leite, fiambre e, de vez em quando, um pacote de sumo de laranja, quando ela dizia: “Para ter força antes de ir trabalhar!”
Mas, naquela tarde, o coração dela não estava ali. “Um pouco de arroz estaria bem?” perguntou. “Sim, seria ótimo”, ele respondeu. Aqueceu água enquanto ele punha a mesa. Jantaram, mas sentia que ela estava longe dali, desconcentrada. Fazia-lhe perguntas sobre como decorrera o dia, mal ouvindo as respostas que ele dava.
Depois do jantar, a mãe abriu o correio enquanto ele lia. Depois, olhou para o relógio e disse-lhe que eram horas de ir para a cama. Julien lavou os dentes, e foi-se deitar levando consigo o caderno. A mãe veio dar-lhe um beijo de boas-noites. Repetiu-lhe várias vezes que não se preocupasse e que dormisse depressa.
5
A mãe fechou a porta mas ele levantou-se para a entreabrir. Gostava de ouvir os ruídos. Ela ouvia o rádio ou a televisão, aquecia água para fazer um chá e ter uma noite calma.
Naquela tarde era diferente. Ela não conseguia sossegar. Deu voltas, enervou-se e, de repente, pôs-se a telefonar. Ele não sabia quem respondia do outro lado do fio, só ouvia as suas palavras. Já não podia mais, mal podia alimentá-lo…
Certamente teria de mudar de casa, mas não queria que ele se sentisse desenraizado. Talvez tivesse de ir algum tempo para casa do pai.
6
Mais tarde, já ele tinha voltado para a cama, a mãe foi deitar-se a chorar. Ao ouvi-la percebeu que, desta vez, ia ser ainda mais difícil. Dava voltas na cama sem conseguir dormir. De coração apertado, dizia a si mesmo que se a mãe já não podia alimentá-lo, ele tinha de ir embora.
7
Quando se levantou na manhã seguinte, a mãe já tinha saído.
Em cima da mesa tinha deixado um recado dizendo que não esperasse por ela à noite. Chegaria tarde e pedia-lhe que aquecesse o resto do arroz com um pouco de manteiga.
Então, pensou deixar-lhe uma mensagem para que ela não se preocupasse. Mas como ela dizia sempre que ele era expedito, certamente que não iria ficar preocupada.
Deixou-lhe um bilhete a dizer que levava a escova e a pasta dos dentes, um pente, meias, uma T-shirt e uma muda de cuecas. Acrescentou uma faca pequena que tinha recebido como prenda de anos e o porta-moedas com as suas economias. E, por fim, que deixava a chave debaixo do capacho. Não sabia muito bem como terminar o bilhete, era estranho…. Por fim resolvera assinar: o teu filho.
8
O dia tinha corrido bem e estava contente por ter feito a revisão dos rios. Com isso conseguiu ter êxito no teste. Como tinha de encontrar trabalho, não poderia ir mais à escola. A ideia de ter uma boa nota no final dava-lhe segurança.
E também, pensava que gostaria de ir até ao mar e assim seria mais fácil chegar lá com conhecimentos de geografia. Durante a refeição na cantina, guardara o pão, a maçã e o queijo.
Conseguiu esconder o seu saque no fundo da pasta juntamente com as outras coisas. A tarde decorreu bem, embora com uma certa dificuldade em se concentrar. Tinha surgido uma preocupação: a recarga de tinta estava vazia e era preciso mudá-la. Não sabia lá muito bem fazer isso e uma em cada duas vezes a caneta escorria. Normalmente o colega de carteira ajudava-o. Mas agora tinha de se arranjar sozinho.
9
Quando a campainha tocou sentiu uma bola na garganta. Aos colegas disse “Até amanhã”. Uma vontade repentina de os abraçar apoderara-se dele mas não pôde, todos iam achar aquilo estranho. Não sabiam que não o veriam no dia seguinte.
Tomara a direção habitual para não chamar a atenção. Mas, ao chegar ao fim da avenida, dirigira-se para a estação… Era essa a sua intenção. Nunca lá tinha ido sozinho nem a pé e já não estava muito certo da direção a tomar. Caminhou muito, muito tempo.
10
Enquanto se afastava, a noite caía, acompanhada de frio.
Aquilo fazia-lhe recordar o dia em que se perdeu na floresta com a mãe.
Tinha mesmo a sensação de estar a mergulhar numa floresta densa sem ver sequer dez passos à sua frente. Não largava o pedaço de pão que trazia no bolso. A fome apertava-lhe o estômago e decidira que estava na hora de o comer.
Precisava de encontrar um abrigo porque tinham-lhe caído uns pingos de chuva no nariz.
Aquele bairro não se parecia nada com o seu. Na penumbra, não distinguia bem o local, e já não tinha a certeza de estar perto da gare. Levantava-se um vento forte que soprava por entre os carros, tão forte que Julien tinha a impressão de ouvir uivos de lobo.
11
Encontrou um banco num abrigo de paragem de autocarro, devorou o pão e o queijo, e pôs-se a pensar na mãe. Foi assaltado por uma grande vaga de tristeza.
Pensou então que talvez aquela não fosse a solução… Que talvez fosse demasiado pequeno para sair de casa… Que talvez sofresse muito sem ele e que aquela tristeza iria impedi-la de ter o sorriso que pode ajudar um pouco a encontrar trabalho.
Que talvez sem ele não conseguisse seguir em frente. Que talvez não pudesse fazer as compras, não tivesse tempo de limpar as migalhas depois do pequeno-almoço, nem de pôr a mesa, nem de estender a roupa…
12
Passou um homem acompanhado de um cão enorme e aterrador. Pararam, e olharam para ele. O cão medonho devorava-o com os olhos como um ogre. Magro como era, o animal comia-o de uma só vez. Aterrorizado, agarrou no saco e desatou a correr.
Na sua cabeça só havia uma ideia: voltar para casa. O homem gritara qualquer coisa que não entendeu. Ao fim de uma dezena de metros, estacou. Estava perdido.
13
De repente, sentiu-se minúsculo naquela grande cidade. Grossas lágrimas escorriam-lhe pela cara. Tinha-se sentado no passeio e deixou-se invadir pelo seu imenso desgosto.
E quanto mais as lágrimas corriam, mais dizia para si que queria voltar para casa.
Na manga com que assoava o nariz, viu uma pequena mancha.
Uma manchinha que parecia ainda fresca.
Ao tocá-la, notara que a tinta ainda estava húmida e pintava-lhe o polegar.
Levantou então o saco no fundo do qual se derramava um imenso mar azul…
Furioso, pensou que nem sequer era capaz de meter corretamente o cartucho de tinta na caneta.
E, enquanto as lágrimas voltavam a deslizar, viu no chão muitas outras pequenas manchas.
14
Então pôs-se a rir.
Mas o céu estava a ficar ameaçador e sabia que tinha de se despachar. Guiado pelas gotas de tinta caídas ao longo do passeio, iria encontrar o seu caminho.
Feliz, apressara o passo, seguindo os pingos que tinham caído do cartucho, impaciente por encontrara o calor do seu apartamento.
Se não queria que a chuva que começava a cair apagasse as marcas, tinha de andar rápido.
15
Passado bastante tempo, pareceu-lhe reconhecer os lugares.
Ao longe, graças a uma luz familiar, viu a fachada da mercearia.
A forte chuvada que caiu penetrou-o até aos ossos.
Passou a correr diante das caixas de fruta e de legumes, e cumprimentou o merceeiro que, atrás da montra, lhe fazia sinal para que fosse rápido para casa.
16
Nunca tinha subido os degraus tão depressa como desta vez.
Encharcado até aos ossos, vestiu o pijama sem se esquecer de pôr as suas coisas a secar.
Preparou o jantar, aquecendo o resto do arroz com um bocadinho de manteiga, e saboreou cada grão quente a pensar que era um autêntico festim.
Depois de reler, amarrotar e deitar fora a mensagem da manhã, lavou tudo, arrumou no escorredor e limpou a mesa da cozinha.
De seguida, instalou-se a fazer os deveres.
17
Finalmente, a mãe estava de volta.
Pela maneira como a porta batera, Júlio soube que desta vez o seu dia tinha corrido bem.
Juntos, acabavam sempre por encontrar uma saída.
Charlotte Moundlic
Seul sous la pluie
Paris, Éditions Thierry Magnier, 2012
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Um entendimento perfeito
Era uma vez, numa aldeia longínqua do País da Manhã Calma, dois irmãos que se davam maravilhosamente. Nunca se largavam: caminhavam, jantavam, cantavam e trabalhavam juntos durante o ano inteiro.
Quando acabava o inverno, as azáleas cor-de-rosa desabrochavam na montanha e inclinavam-se diante dos dois irmãos que cultivavam o mesmo campo. No final do verão, as pegas tagarelavam, cumprimentando os dois irmãos que se juntavam para irrigar o arroz ainda verde. No outono, o céu, de um azul incrível, admirava os cestos cheios de espigas de arroz, maduras e douradas que ambos possuíam.
Para cada um dos irmãos, o que realmente importava era a felicidade do outro. E, ainda que só houvesse um pequeno grão de arroz na tigela, queriam sempre compartilhá-lo! Na aldeia, não havia ninguém que não admirasse esta entreajuda e o perfeito entendimento.
Um dia, o mais velho, vestido com o seu traje azul tradicional, casou-se. Como estavam todos felizes!
O irmão mais novo foi o primeiro a felicitar o noivo.
— Irmão, desejo-te as maiores felicidades!
E pensam que o casamento afastou os dois irmãos?
Não! Continuaram a trabalhar juntos, cultivando o arroz, temporada após temporada.
Alguns meses mais tarde, nasceu um bebé em casa do mais velho. E quando chegou a sua vez, o mais novo também casou. Evidentemente, isso foi motivo da maior satisfação para o que já estava casado.
Nesse ano, quando acabaram a colheita, os dois irmãos abraçaram-se:
— Obrigado, fizeste um bom trabalho!
— Eu é que tenho de te agradecer. Trabalhaste mesmo bem!
E ambos tinham as reservas cheias do mesmo bom arroz maduro e dourado.
Mas, naquela noite, o mais velho não conseguiu pregar olho. Levantou-se e olhou lá para fora...
"O meu irmão mais novo acabou de casar, vai precisar de vender muito arroz para montar a sua nova casa."
Decidido, foi à sua reserva, pegou em alguns molhos de espigas de arroz e foi juntá-los aos do irmão mais novo.
Quando voltou para a cama, tinha a alma bem mais leve!
Nessa mesma noite, o irmão mais novo dava voltas na cama e pensava: "O meu irmão acaba de ser pai, precisa de mais arroz do que eu!”
Decidido, avançou para as suas reservas, colocou algumas espigas num cesto e foi juntá-las às do irmão mais velho. Quando voltou a entrar na cama, tinha a consciência bem mais tranquila!
Na manhã seguinte, ao sair de casa, o mais velho olhou para a sua reserva de arroz e ficou estupefacto:
— Terei sonhado que fui levar uma parte do arroz ao meu irmão?
Mas os seus sapatos estavam bem sujos da lama ainda fresca.
Por sua vez, o mais novo dirigiu-se também para o seu armazém. Ficou surpreendido, porque estava tudo cheio.
— Será que sonhei que fui esta noite dar arroz ao meu irmão?
No entanto, a sua roupa não estava ali, mas no seu quarto.
Naquele dia, os dois irmãos trabalharam juntos no campo, mas nada disseram acerca do que se tinha passado na noite anterior. À noite, o mais velho pensou: “O meu irmão vai mesmo precisar de mais arroz, vou voltar lá!”
E encheu o cesto.
Num passo discreto e seguro, aproximou-se da casa do irmão e encheu a reserva.
Quando o dia começou a nascer, o mais novo pensou: “Tenho mesmo de levar mais arroz para o meu irmão e para a família, vou lá voltar!”
E carregou ao ombro mais feixes de espigas.
Qual não foi a surpresa do mais velho quando, ao acordar, viu que a sua reserva não tinha descido nem um centímetro!
E qual não foi a estupefação do mais novo quando se deu conta de que da sua reserva não tinha desaparecido nem um só feixe de espigas!
Naquele dia, os dois irmãos voltaram a trabalhar no campo, sem falarem do acontecido.
Quando a noite chegou, o mais velho tirou alguns feixes da sua reserva e fez uma marca com giz para saber o que ficava. Ao mesmo tempo, o mais novo pôs arroz no seu cesto e verificou a altura do que restava.
O mais velho levou os seus molhos.
Pesavam-lhe bastante no ombro!
E o mais novo dobrava o pescoço sob o peso do cesto.

Assim carregados, ambos se iam aproximando da casa do outro.
O mais velho ouviu barulho: um homem passava com o seu cesto na noite escura. “ Será um ladrão?” pensou, estremecendo.
O mais novo ouviu o restolho de folhas na noite. “Olha! Está um homem a aproximar-se! Que será que ele quer?” inquietou-se ele também.
Quando as nuvens desapareceram, a lua iluminou os rostos de ambos.
— Ah, és tu, meu irmão!
— Ah, és tu, meu irmão!
Emocionados, pousaram os fardos para se abraçar!
Hoje, a lua continua a sorrir no País da Manhã Calma ao ver os filhos dos dois irmãos que procuram ainda ajudar-se uns aos outros.
Ano após ano.
Noëlla Kim; Virginie Aladjidi; Aurélia Fronty (ill.)
Une si belle entente
Paris, Flammarion, 2012
Histórias oferecidas à sexta-feira!
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O real e o vazio
Foi um mestre interpelado por um homem que lhe pediu que o aceitasse como discípulo, estando, para isso, disposto a sujeitar-se a todas as provas.
Querendo conhecer o seu grau de desenvolvimento espiritual, o mestre perguntou-lhe:
— O que é para ti o real?
O homem pensou um instante e respondeu com confiança:
— A verdadeira natureza do real é o vazio.
Ouvindo a resposta pronta do candidato a discípulo, o mestre acercou-se dele e deu-lhe uma forte bofetada.
Encolerizado, o homem levantou a mão para agredir o mestre, com o rosto ruborizado pela súbita ira. Então o mestre perguntou-lhe:
— Se tudo é vazio, diz-me de onde vem essa fúria que agora demonstras ao querer agredir-me?
J. J. Letria
Contos da China antiga
Porto, Ambar, 2002
No intuito de darmos continuidade ao anterior projecto, “Um dois três era uma vez”, embora em moldes que se pretendem mais abrangentes, reiniciamos o envio semanal de pequenas histórias para crianças e adolescentes, por vezes acompanhados de textos dirigidos a um público adulto, convidando à reflexão, e também ao sonho, que tão necessários se tornam numa sociedade em que o materialismo tem crescido desmedidamente, a ponto de abafar os valores mais genuínos do ser humano: o respeito pelos outros, a ternura, a delicadeza, a compaixão pelos que sofrem, a generosidade.
Histórias oferecidas à sexta-feira!
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Iqbal Masih – Malala Yousafzai
Um país, duas vozes
Nunca mais esqueci a história de Iqbal Masih desde que vi o seu obituário a 19 de abril de 1995, exatamente três dias depois de ter sido alvejado. Li coisas sobre a sua vida e sobre a coragem que demonstrou ao falar contra a servidão por dívida que afeta as crianças que trabalham na indústria de tapetes no Paquistão.
Quando soube que Malala Yousafzai fora alvejada a 9 de outubro de 2012 por ter falado a favor do direito das raparigas irem à escola no Paquistão, voltei a pensar em Iqbal.
Este livro nasce do exemplo destas duas crianças corajosas, cuja valentia transcende a sua juventude.
J. W.


IQBAL MASIH
1983 – 1995
Iqbal Masih nasceu na aldeia de Muridke, perto de Lahore, no Paquistão. Quando tinha apenas quatro anos, os seus paupérrimos pais pediram emprestados doze dólares ao dono de uma fábrica de tapetes. Em troca do empréstimo, Iqbal tornou-se um servo por dívida, acorrentado a um tear até ao dia em que o empréstimo ficasse pago. Ganhava vinte cêntimos por jornada de trabalho.
Aos dez anos, Iqbal foi libertado pela Bonded Liberation Front do Paquistão e começou a denunciar, de forma corajosa, o trabalho infantil. Os relatos que fez sobre os horrores da sua experiência foram amplamente divulgados e levaram-no a visitar vários países.
Falou numa conferência internacional sobre o trabalho em Estocolmo, e em Boston recebeu um galardão da Reebok Human Rights Foundation. O Alto-Comissário para os Direitos Humanos da ONU elogiou-o como “um campeão da luta contra formas contemporâneas de escravatura que afetam milhões de crianças por todo o mundo.” Iqbal queria estudar Direito e a Universidade de Brandeis, nos Estados Unidos, ofereceu-lhe uma bolsa para que o fizesse quando pudesse.
No Paquistão, Iqbal recebeu ameaças de morte por parte de pessoas ligadas à indústria da tapeçaria. A 16 de abril de 1995, quando andava de bicicleta com dois primos na sua aldeia, foi alvejado a tiro. Tinha doze anos. As circunstâncias da sua morte permanecem obscuras.

Iqbal, um rapaz corajoso
Peçamos não para ser poupados aos perigos,
mas para ter coragem para os enfrentar.
Rabindranath Tagore
DOZE DÓLARES!
Até que o empréstimo que os pais contraíram seja pago, Iqbal, com quatro anos de idade, tem de trabalhar na fábrica de tapetes. A liberdade de um rapaz vale doze dólares.
– Nada de papagaios aqui! – berra o patrão, empurrando Iqbal para dentro do edifício escuro, cuja única janela tem grades.
Tal como os outros rapazinhos, Iqbal é acorrentado ao tear, para evitar que fuja. À sua volta, dezenas de crianças como ele tecem tapetes na escuridão sufocante. Dedos pequenos podem realizar padrões complexos. Tão complexos que o patrão nem repara que Iqbal tece o seu papagaio numa parte do tapete. Embora as suas mãos trabalhem, a sua mente vagueia.

Iqbal vive na escuridão. Vai para a fábrica antes de o sol nascer e regressa a casa depois do sol-pôr. Certa noite, enquanto se arrasta até casa, vê num muro o anúncio de um encontro acerca dos empréstimos que mantêm crianças como ele na servidão. Quando entra no recinto, Iqbal ouve dizer que esses empréstimos foram declarados ilegais.
O dono da fábrica deixou de ser seu dono. Iqbal está livre.
No dia seguinte, o rapaz corre para a fábrica com o anúncio na mão e grita:
– Somos livres! Somos livres!
Agora que é livre, Iqbal começa a ir à escola. Como é inteligente, não tem quaisquer dificuldades em aprender. Como é corajoso, atua como porta-voz de crianças como ele. As ameaças dos donos das fábricas não assustam este rapazinho de dez anos. Iqbal começa a visitar fábricas de tapetes por todo o Paquistão, levando uma mensagem de liberdade a três mil crianças escravas.
A este périplo, segue-se a América, onde afirma:
– Gostaria de fazer no Paquistão o que fez Abraham Lincoln aqui. Gostaria de libertar as crianças da servidão.
Quando regressa a casa, as ameaças continuam. Iqbal vive em liberdade até que uma bala põe fim à sua vida. No seu funeral, 800 pessoas choram a perda deste corajoso rapaz do Paquistão.
ééééé

Malala, uma rapariga corajosa
Malala Yousafzai
1997-
Malala nasceu numa pequena cidade de Mingora, no vale do Rio Swat, no Paquistão. Vivia com os pais e dois irmãos. Começou cedo a frequentar a escola que o pai dirigia e era muito boa aluna.
Entretanto, o grupo de extremistas religiosos que tinha conquistado a região, os Talibãs, proibiu as raparigas de irem à escola. Malala perguntou ao pai:
– Porque não querem eles que as raparigas vão à escola?
– Porque têm medo do poder da palavra – respondeu o pai.
Quando Malala tinha apenas onze anos, falou publicamente, pela primeira vez, acerca da importância da educação das raparigas. Mesmo quando os Talibãs se tornaram mais agressivos, a menina não se calou. Apesar de continuar a receber ameaças, não deixou de exprimir os seus pontos de vista.
Até ao dia em que um Talibã a alvejou quando ela regressava a casa na carrinha da escola. Malala foi tratada em muitos hospitais até que o Queen Elizabeth Hospital em Birmingham, na Inglaterra, acedeu recebê-la.
É nesta cidade que Malala reside agora com a família.
Já recebeu muitos galardões pela sua coragem, incluindo o International Children’s Peace Prize, o Pakistan National Youth Peace Prize, o Mother Teresa Memorial International Award for Social Justice e o Rome Prize for Peace and Humanitarian Action.
Em 2013, foi nomeada para Prémio Nobel da Paz.
Malala continua a recuperar do atentado e a expor as suas ideias publicamente.
– Quem é a Malala? – pergunta o combatente talibã, percorrendo a carrinha escolar com os olhos.
Malala é uma rapariga destemida, que acredita no poder do estudo. Embora os Talibãs tenham avisado as raparigas do vale do Swat que não devem ir à escola, que não devem ler, as raparigas ignoram-nos. São meninas corajosas que sentem que a escola é o lugar dos seus sonhos e que os pesadelos não atravessam os seus portões. Contudo, tomam a precaução de vestir roupas normais quando saem de casa de manhã, deixando os uniformes escolares em casa.
Os Talibãs renovam as suas ameaças diariamente, mas Malala responde sempre:
– Tenho direito a receber uma educação, a brincar, cantar, falar, ir ao mercado e dizer o que penso.
Não há paz no vale do Swat, onde os Talibãs chegam mesmo a bombardear as escolas. Contudo, Malala continua a exprimir o direito de ter acesso à educação e a expor o medo que os insurgentes têm dos livros e das mulheres. Frequentar a escola torna-se cada vez mais perigoso e as alunas passam a viajar numa carrinha, por questões de segurança.
Um dia, um Talibã manda parar a carrinha, entra nela e pergunta:
– Quem é Malala? Se não me disserem, mato-vos a todas.
Quando descobre a menina, alveja-a.
A carrinha dirige-se a toda a velocidade para o hospital local, de onde um helicóptero transporta Malala para um hospital maior longe dali. Entretanto, um avião leva-a para um hospital ainda maior.
Todos tentam salvá-la. O tiro que a alvejou foi ouvido em todo o mundo, onde Malala já era conhecida. As orações de homens e mulheres, rapazes e raparigas rodeiam o seu leito. Aos poucos, a menina vai acordando do pesadelo.
Um dia, abre os olhos, pega num livro e sorri.
E volta a denunciar o que está mal.
Quando faz 16 anos, fala perante líderes do mundo inteiro e a sua voz ecoa mais forte do que nunca.
– Pensaram que as balas nos calariam, mas enganaram-se. Não se esqueçam de que uma criança, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo.
O mundo ouve a voz desta corajosa rapariga paquistanesa e escuta.
Jeanette Winter
Iqbal/Malala
New York, London, Beach Lane Books, 2014
(Tradução e adaptação)
Histórias oferecidas à sexta-feira!
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As ações falam mais alto do que as palavras.
Ralph Waldo Emerson
Era uma soalheira tarde de sábado, na cidade de Oklahoma. O meu amigo e orgulhoso pai Bobby Lewis levava os seus dois filhos pequenos a jogar minigolfe.
Dirigiu-se ao jovem que se encontrava na bilheteira e perguntou quanto era a entrada.
O rapaz respondeu:
— São três dólares para si e outros três para crianças maiores de seis anos. Entram de graça se tiverem seis anos ou menos. Que idade têm?
O meu amigo respondeu:
— Um tem três e o outro tem sete, portanto suponho que lhe devo seis dólares.
O homem da bilheteira exclamou:
— Ei, senhor, saiu-lhe a lotaria? Podia ter poupado três dólares. Bastava ter-me dito que o mais velho tinha seis anos; eu nem teria dado pela diferença.
Mas o meu amigo replicou:
— Isso até pode ser verdade, mas as crianças sim, teriam dado pela diferença.
Tal como Waldo Emerson afirmou As ações falam mais alto do que as palavras.
Patricia Fripp
Jack Canfield; Mark Victor Hansen
Chicken Soup for the Soul
Deerfield beach, HCI, 2001
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A Menina do Gorro Verde e o Lobo
Acho que ninguém sabia o seu nome. Bem, o dono da “Azeitona caprichosa” talvez o soubesse.
O certo é que todos a conheciam como “A Menina do Gorro Verde” por, obviamente, usar sempre um gorro verde, dia e noite, quer houvesse sol ou chuva, no inverno e no verão. Sempre, mas sempre, de gorro verde, em cima da sua motorizada, a entregar pizas.
Ainda não o disse: “A Menina do Gorro Verde” trabalhava na distribuição de pizas da “Azeitona caprichosa”. Sim, sei-o bem, este é um trabalho um pouco invulgar para uma rapariga, mas “A Menina do Gorro Verde” era mesmo assim, uma rapariga de vanguarda, que não se deixava assustar nem ligava ao que as pessoas diziam ou pensavam a respeito de como uma jovem se deve comportar. “Sei andar de motorizada e não deixo cair a pizza pelo caminho. O que mais é preciso para trabalhar em entregas, eh?”, dizia. E, como tinha razão, ninguém lhe podia retorquir nada.
Uma noite houve um pedido um pouco estranho: uma mulher meio rouca encomendou seis grandes pizas de mozarela e duas fainás (panquecas de farinha de grão de bico). E além disso, a mulher exigia que fosse “a rapariga do gorro verde” a entregá-las.
— É preciso ter muita cautela — disse o dono —. Parece-me perigoso, e logo para uma rapariga…
Para que é que o patrão foi dizer uma coisa destas! “A Menina do Gorro Verde” ficou mais teimosa do que normalmente, começou a dizer que a discriminavam por ser mulher e só acalmou quando lhe entregaram a encomenda.
Ao chegar à casa indicada, deparou-se cara a cara com uma senhora muito peluda e que só a grande custo é que se mantinha em equilíbrio. Trazia um vestido às flores todo amarrotado e uns sapatos que, obviamente, não eram o seu número. “A Menina do Gorro Verde” ia a dizer-lhe “Aqui tem a sua encomenda, senhora”, pedir-lhe o dinheiro e pôr-se a andar. Contudo, da sua boca saiu uma coisa que a deixou admirada:
— Senhora, que grandes orelhas tem!
— São para ouviiiiiir-te melhor! — respondeu o lobo (porque ela não era outra coisa senão o lobo disfarçado, como já terão imaginado), também surpreendido com o que estava dizendo.
— Senhora, e que olhos tão grandes! — continuou a dizer “A Menina do Gorro Verde”, sem o poder evitar.
— São para veeeeeer-te melhor.
— Senhora, que dentes tão grandes!
— São para co… com… comeggghhhht… commmarghhh… — O lobo lutava contra si mesmo, procurando não dizer “para comer-te melhor”. Com uma das patas dianteiras batia na cabeça, dava murros contra o aro da porta, mordia a língua com os seus dentes tão grandes. Para dizer tudo de uma vez, o lobo estava desesperado:
— Não o quero dizer! Não quero! NÃO QUEEEEROOO!
E pôs-se a chorar. Um lobo bem grande, a chorar como um bebé! Era uma coisa bem triste de se ver.
Por isso, “A Menina do Gorro Verde” acompanhou o lobo até dentro de casa, e ajudou-o a sentar-se num cadeirão.
— Mas porque é que tem de ser assim? Porquê? Porque é que a tua família e a minha têm de se dar mal? — queixava-se o lobo.
— Assim como? — perguntou “A Menina do Gorro Verde”.
— Assim, mal. Vós todas, as mulheres da tua família, ides levar-nos à extinção se continuardes a matar-nos. Primeiro foi a tua tetravó Capuchinho Vermelho, depois a tua bisavó Capinha Violeta, a tua avó Chapeuzinho Laranja, a tua tia-avó Chapeuzinho Roxo, a tua mãe Boina Azul Marinho, a tua prima Lenço Com Pala De Plástico Amarelo…Todas elas se encontraram com um dos meus parentes e todas repetiram o mesmo ritual: deixavam que as comessem, depois vinha o lenhador e salvava-as, e os meus parentes iam parar ao cemitério dos lobos. Não é justo!
— Não, não é — disse “A Menina do Gorro Verde”.
— Só um aparte: eu sou um lobo bom, nunca matei para comer, colaboro com a Greenpeace e todas as manhãs faço yoga. Porquê esta condenação? Porquê? Pooooooooorrrrrrrrrrrrr quêêêêêêê?!
— Bem, não fiques assim. Podemos ser amigos.
— A sério?
— Porque não? Haverá alguma lei que proíba que uma rapariga seja amiga de um lobo?
— Esteeeee… não. Ou seria preciso consultar um advogado, mas acho que não.
— Então? Que dizes, vamos ser amigos. Como te chamas?
— Tomás. Tomás Lopes. Mas os meus amigos chamam-me Tomi.
— Muito gosto. Eu sou Ana Pandolfo, mas já sabes que todos me chamam “A Menina do Gorro Verde”. Conta-me mais coisas sobre ti, Tomi.
— Eu… sei lá… leio bastante ficção científica embora a “Viagem pelas Estrelas” não me agrade…
— A mim também não, prefiro “A Guerra das Estrelas”.
— Sim, eu também, mas as antigas, porque as novas séries são um tanto pesadas! — E o lobo acomodou-se no cadeirão: — Gosto de música eletrónica, gosto mesmo. Até compus alguns temas…
— Não me digas que fazes tecno! Eu também!
— A sério?
— É verdade! — disse “A Menina do Gorro Verde” — E se criássemos uma banda?
— Podíamos, não podíamos?
Nisto, abre-se a porta do apartamento e o dono da pizaria entra, com um machado na mão, disposto a tirar “A Menina do Gorro Verde” de dentro da barriga do lobo. Ao ver que a rapariga está ali e ainda por cima a conversar com o animal, fica meio confundido…Após breves instantes, atira-se de novo ao lobo, com o machado em riste:
— Vou matar este lobo ferooooooz!
“A Menina do Gorro Verde”, que tinha aprendido Tae-Kwon-Do, evita a machadada com o pé e depois de um golpe atira ao chão o seu patrão.
— Desculpe. O lobo é meu amigo.
— Não, não, nem pensar. Os lobos não são amigos de ninguém, e muito menos de raparigas. Todos o sabem! — gemeu o dono da pizaria.
— Então todos estão enganados! Tomi é um lobo bom. Até vamos os dois criar um grupo de música!
— Ah! Ah! Ah! Não me faças rir!
— A sério. E se quiser, pode ser o nosso empresário.
— Que disparate! Não se pode confiar num lobo! — disse o homem, enquanto se ia levantando.
— Tomi é um lobo bom!
— Sim, claro, é sim! Vais ver como tenho razão... Mas depois não me venhas com queixas, eh! É melhor que não me apareças mais. Estás despedida.
E, batendo com a porta, foi-se embora.
“A Menina do Gorro Verde” e Tomi o Lobo, já depois do que aconteceu, puseram-se a ouvir os seus temas. Como cada qual gostou do que o outro fazia, formaram um duo e chamaram-lhe “GV & DJ Lupo”. Um dia fizeram uma gravação e levaram-na a uma rádio. Agradou tanto aos apresentadores do programa que estes começaram a passá-la e, quando se deram conta, já estavam nos primeiros lugares do top e tinham um sem número de fãs! E, além disso, continuaram a ser muito amigos.
E o dono da pizaria “Azeitona caprichosa”, cada vez que vê passar um vídeo deles na televisão, comenta para quem o quiser ouvir:
— E eu que poderia ter sido o empresário desses dois!
É claro que ninguém acredita e ele descarrega a sua irritação batendo com o rolo da massa.
Saurio

Prólogo
A semana antes da Páscoa chama-se Semana Santa. Em Antigua, uma cidade colonial construída pelo Espanhóis no final do século XVI, procissões de pessoas costumam deambular pelas ruas, transportando estátuas velhas de séculos, numa tentativa de fazer reviver a morte e a ressurreição de Cristo. Esta tradição é tão forte hoje quanto o era no tempo dos Espanhóis, embora tenha sido transformada pelo contacto com a cultura indígena da Guatemala.
Como penhor da sua fé, os habitantes fazem tapetes de serradura, flores e frutas coloridas, que são colocados no pavimento por onde passarão as procissões. Todos os anos são feitos tapetes com desenhos diferentes. E todos os anos as procissões os calcam, destruindo os seus padrões tão primorosamente desenhados!
Passei a infância na Guatemala. A minha família era chinesa e adepta da religião budista, mas a Semana Santa era diferente de todas as outras, mesmo para uma família tão tradicional como a nossa. Juntávamo-nos sempre nos passeios com os vizinhos para ver os tapetes, antes de os cortejos os pisarem. Enquanto assistia à procissão, sentia que a história de que falavam estava a acontecer naquele preciso momento. A beleza daqueles tapetes efémeros, feitos com tanto amor, ficou para sempre na minha memória e no meu coração.
A cor tradicional da Semana Santa é o roxo. Por isso é que a minha mãe vende tantos rolos de tecido dessa cor durante a época da Páscoa. Um dia, o carteiro trouxe um envelope com letras prateadas impressas.
— Um convite! — exclamou a minha mãe.
Como não sabia ler espanhol muito bem, deu-o a ler à minha irmã.
— Diz aqui que o tio Colocho e a tia Malía nos convidam para o baptizado do bebé, no Domingo de Páscoa.
Um pedaço de papel escrito em chinês caiu do envelope. A minha mãe leu-o, porque nós não conseguíamos ler chinês, embora oralmente percebêssemos tudo o que era dito em casa.
— Também nos convidam para passar lá a Semana Santa antes do baptismo. Claro que vamos! — exclamou a minha mãe, cheia de alegria.
Todos saltámos de contentamento.
Na Quinta-Feira Santa, enfiámo-nos no nosso carro ferrugento e viajámos para a cidade de Antigua. O meu pai encheu a bagageira com as nossas coisas, às quais juntou uma caixa de refrigerantes e um cesto de laranjas. Durante a viagem, cantámos como se fossemos autênticos mariachis. Soubemos que tínhamos chegado a Antigua porque o carro começou, de repente, a percorrer ruas empedradas.
O tio Colocho, a tia Malía e os nossos primos estavam à nossa espera à porta da loja. Para cabermos todos ao almoço, tinham colocado uma mesa enorme no centro do estabelecimento.

Durante a refeição, semeada de palavras cantonesas, contámos anedotas aos nossos primos e fartámo-nos de rir.
De repente, algo me chamou a atenção no canto da sala. Era uma estatueta da Virgem de Guadalupe, colocada junto de Kuan Yin, a deusa chinesa. Pareciam amigas, envolvidas pelo incenso que ardia junto delas.
A minha mãe disse à tia Malía em chinês:
— Lembras-te de quando éramos pequenas na China e íamos para a ponte para ver a corrida dos barcos no rio?
A tia Malía sorriu:
— Era o Festival do Barco do Dragão. Nesse dia, costumávamos atirar tamais[1] chineses ao rio, para nos darem sorte.
Riram-se muito. Depois ficaram em silêncio, talvez a recordar aqueles dias longínquos. A tia Malía disse então:
— Meninos, amanhã de madrugada vai realizar-se a procissão que sai de La Merced, a igreja que fica ao fundo da rua. Os vizinhos estão a fazer tapetes de serradura por todo o bairro. Ide ver!
Tapetes de serradura!
O passeio estava cheio de redes com agulhas de pinheiro, girassóis, e flores roxas e amarelas. Havia sacas cheias de serradura tingida de cores brilhantes: magenta, turquesa, laranja e verde. Vagens de marfim vegetal enchiam o ar com o seu cheirinho a mar e a palmeiras.
Don Ortiz, que vivia do outro lado da rua, estava a fazer um tapete. Primeiro, colocava no chão uma camada de serradura natural e molhava-a. Depois, os seus ajudantes faziam desenhos com serradura colorida, por cima dessa camada. Havia tábuas suspensas sobre o tapete para poderem decorar tudo sem estragar o que já tinham feito. Usavam peneiras para espalhar a serradura colorida por cima de estêncis de cartão, perfurados de forma a formar padrões. Mediam os desenhos com cuidado, e segundo as instruções de Don Ortiz. Por fim, um ajudante percorria o tapete todo com um borrifador de água, para que a serradura se mantivesse bem plana.

Era tão bonito! Parecia um tapete verdadeiro!
— Queres ajudar, minha menina? — perguntou Don Ortiz, quando me viu a olhar.
Dei um salto e respondi:
— Quero, sim.
— Então traz aquela serradura vermelha para as rosas e a farinha para os lírios. E vê se encontras a peneira mais pequena, porque estas flores são muito delicadas.
Por cima da tapeçaria de serradura colorida, os artesãos colocavam flores de marfim vegetal e agulhas de pinheiro. Um a um, os tapetes foram aparecendo pela rua abaixo. Estava já escuro quando a tia Malía disse:
— Vão para a cama. A procissão sai de manhã bem cedo.
Sexta-Feira Santa amanheceu enevoada. Havia muita gente à porta da igreja. Don Ortiz, vestido de nazareno, viu-nos e disse:
— Meninos, querem os restos de serradura?
— Queremos, sim — respondi, excitada. — Vamos fazer um tapete pequenino, com o desenho de uma casa. Despachem-se, vem aí a procissão!
Fizemos rapidamente uma cabaninha com um telhado vermelho e paredes amarelas. Usamos serradura roxa para o céu e agulhas de pinheiro para a relva. Também colocamos ramos de buganvília. Pétalas das flores do pátio compuseram um coração e estrelas e os cometas foram feitos com bagos de arroz e girassóis. Ainda consegui colocar uma bordadura de laranjas e regar tudo com água. Que bonito!
De repente, alguém sussurrou:
— Vem aí a procissão!
Ao som de um tambor, todos os nazarenos colocaram uma plataforma de madeira enorme aos ombros, na qual estava uma estátua de Jesus a carregar a Cruz. A estátua era rodeada por orquídeas e musgo da floresta e os seus olhos brilhavam. O meu coração vibrava, embora a coroa de espinhos e o sangue da face me fizessem tremer. Todos se ajoelharam.
O Cristo movia-se ao som da música triste tocada pela banda que fechava a procissão. Parecia uma pessoa real. Os nazarenos, vestidos de roxo e curvados sob o peso do andor, estavam envoltos por uma nuvem de incenso branco.
Seguia-se o andor da Virgem Maria, carregado por mulheres. Uma espada espetada no coração de Nossa Senhora simbolizava a sua enorme dor. Chorava lágrimas de cristal porque o seu Filho em breve morreria. A banda tocava uma marcha destinada a consolá-la a ela e a nós.
A procissão tinha finalmente atingido a nossa parte da rua. De repente, dei-me conta de que os nazarenos iriam calcar o nosso lindo tapete! A cada passo que eles davam, o meu coração sentia-‑se mais apertado. Então, pus-me em frente do nosso tapete. Não queria que o destruíssem. “Não passem por aqui! Não passem por aqui!”, dizia mentalmente.
Don Ortiz pegou-me na mão e puxou-me dali para fora.

— Filha, isto faz parte da tradição. Fazemos destes tapetes ofertas à vida. Não reparaste nisso? As flores desabrocham e logo morrem, mas deixam sementes para que outras cresçam. À morte segue-se a vida e à vida segue-se a morte.
Não consegui detê-los. Passo a passo, os pés dos nazarenos rasgaram a relva, as paredes e o telhado da nossa casa. Apagaram as estrelas e os cometas. Esborrataram as cores. Pisaram as flores e espalharam as laranjas com os pés. O nosso tapete era agora um rio triste que corria pelo meio da rua, cheirando a mar e a palmeiras.
Seguimos a banda. Debaixo de um sol escaldante, a procissão da Semana Santa desenrolava-se lentamente pelas ruas empedradas. Cristo já tinha morrido a estas horas. Havia homens vestidos como romanos e nazarenos vestidos de negro. Estes transportavam o Cristo morto num caixão magnífico, feito de ouro e cristal.
Deambulámos pelas ruas, em busca de outras procissões. Na maioria das vezes, apenas encontrámos vestígios arruinados de tapetes maravilhosos.
Nessa noite, chegámos a casa cansados e tristes.
No dia seguinte, a minha mãe e a tia Malía fizeram tamais1 chineses para o baptizado.
— As procissões são tão comoventes — disseram em chinês.
A minha mãe acrescentou:
— São tão bonitas como os festivais que celebramos na China. Realizam-se todos os anos, mas são sempre diferentes.

No Domingo de Páscoa, a igreja estava engalanada com cores alegres porque era o dia da Ressurreição, o dia em que Cristo voltou à vida. O meu priminho foi baptizado com o nome de Angel. Angel Sem Quan. Quando lhe deitaram água sobre a cabeça, desatou a chorar e o seu pranto ecoou pela cúpula da igreja.
Nessa mesma tarde, na festa, Don Ortiz falou sobre o tapete que faríamos no ano seguinte. Falou de um com pombas e pães com forma de crocodilos. Pensei logo em fazer um com borboletas e pássaros. Don Ortiz tinha razão. Depois de o tapete que tínhamos feito para a procissão ter sido destruído, podíamos pensar em fazer logo outro.
No seu pequeno altar, a Virgem de Guadalupe e a deusa Kuan Yin brilhavam à luz da vela.
Fizemos uma grande festa no pátio. Coube-me a mim dar a última pancada no pote de barro que tínhamos suspenso. Parti-o e os rebuçados aterraram todos na minha cabeça. O meu priminho, o Angel, achou muita graça.
E assim terminou a Semana Santa.
1- O tamal é uma espécie de farinha de milho, doce ou salgada, podendo conter carnes, queijo, pimentões, etc., envolvida na própria palha da espiga de milho, e cozida em vapor. (N. T.)
Amelia Lau Carling
Sawdust Carpets
Toronto, Groundwood Books, 2005
(Tradução e adaptação)
No intuito de darmos continuidade ao anterior projecto, “Um dois três era uma vez”, embora em moldes que se pretendem mais abrangentes, reiniciamos o envio semanal de pequenas histórias para crianças e adolescentes, por vezes acompanhados de textos dirigidos a um público adulto, convidando à reflexão, e também ao sonho, que tão necessários se tornam numa sociedade em que o materialismo tem crescido desmedidamente, a ponto de abafar os valores mais genuínos do ser humano: o respeito pelos outros, a ternura, a delicadeza, a compaixão pelos que sofrem, a generosidade.
Esperamos que o projecto, que agora passa a chamar-se “Um dois três, era outra vez”, continue a encontrar leitores assíduos entre aqueles a quem se dirige, e possa proporcionar agradáveis momentos de partilha entre pais e filhos.

E…diga-nos o que pensa das histórias que lhe forem chegando!
Responda-nos para: 1...@isep.ipp.pt
Ideia: Teresa Tudela e Betina Campos Neves
[1] O tamal é uma espécie de farinha de milho, doce ou salgada, podendo conter carnes, queijo, pimentões, etc., envolvida na própria palha da espiga de milho, e cozida em vapor. (N. T.)
10 soldados
10 soldados
10 soldados partem para a guerra, com uma flor em cada arma e com um sorriso nos lábios. Os 10 soldados partem para a guerra para defender, para defender… já nem se sabe bem o quê.
No abrigo, por trás das muralhas do castelo, a Rainha encoraja-os:
— Combatam até à morte!
Os 10 soldados avançam para a guerra por um caminho empedrado. O que vai à frente chama-se Martin. É um soldado valente. Marcha como um guerreiro, obrigando todos os outros a correr para o acompanhar. De repente, torce o tornozelo esquerdo numa pedra.
E os outros nove soldados conseguem, finalmente, acertar o passo.
9 soldados
9 soldados vão lutar nos prados floridos.
Está um belíssimo dia de primavera.
O que vai à frente chama-se Gégé e tem um nariz muito grande.
Um nariz assim tão grande serve para detetar o inimigo, encontrá-lo e matá-lo. O pólen entra-lhe pelo nariz em força.
É uma batalha desigual.
Gégé bate em retirada, com os olhos vermelhos e o nariz a pingar.
8 soldados
8 soldados passam por uma quinta.
É uma quinta grande que foi abandonada pelos seus habitantes.
O almoço ainda fumega em cima da mesa.
O que vai à frente chama-se Jo, e é muito gordo.
Adora esmagar os inimigos com o seu peso.
Come tudo o que encontra na cozinha. E incha tanto, mas tanto, que já não consegue voltar a caminhar.
7 soldados
7 soldados vão combater debaixo de sol. O ar está quente.
Os soldados estão satisfeitos. Empurram-se e riem.
Os dois primeiros chamam-se Laurent e Robert. São inseparáveis. Durante a batalha, Laurent passa uma rasteira ao inimigo que cai, e vai espetar-se na baioneta de Robert. Como se riram!
Caem juntos na lama. E, quando acabam de rir, o uniforme está preto, todo sujo, e mais parecido com o uniforme do inimigo.
Com medo de serem confundidos, regressam ao castelo.
5 soldados
5 soldados vão para a guerra por caminhos de terra batida.
Evitam estradas com pedras.
Evitam as quintas, as salas de jantar e os pratos fumegantes, os prados floridos e o pólen primaveril.
O que vai à frente chama-se Raymond.
É um soldado muito distraído.
Perde frequentemente os seus prisioneiros para ir apanhar cogumelos…
Mas agora é ele que não sabe por que lado deve avançar.
E quem se perde é ele.
4 soldados
4 soldados vão para a batalha.
Encostam-se uns aos outros, como quando se está com frio.
O que vai à frente chama-se Rudolf.
De todos os soldados, este é o mais delicado.
Oferece aguardente aos inimigos feridos, antes de acabar com eles.
Tem tanto calor que engole a bebida de um só trago.
E acaba por cair, profundamente adormecido.
3 soldados
3 soldados vão para a guerra, combatendo como se fossem mil.
Escalonados, alinhados, aninhados e determinados!
O que vai à frente chama-se Jean.
Tem a cabeça às voltas com o calor, com o cansaço e com o medo.
Jean parece uma bola. Roda, dá voltas e mais voltas…
Até perder a cabeça.
Roda, roda, roda…
Não ouve as nossas vozes … E desaparece no mato.
2 soldados
2 soldados, apenas 2, insignificantes, vão já nem sei bem para onde.
Já nem sei bem porquê…
Avançam a tremer, debaixo de um sol escaldante…
O que vai à frente… O que vai à frente...
Nunca soube o nome dele.
Morreu, nunca compreendi bem como foi.
A guerra apanhou-o, e foi o seu fim.
Deitei-o num monte de pedras.
Assinalei a sua campa com um galho seco.
1 soldado
1 soldado fica sozinho.
Caminha para a guerra a cantar.
Leva um sorriso nos lábios e uma flor no cano da arma.
A flor já morreu, há muito tempo…
Dispo o meu uniforme vermelho e tiro o grande chapéu preto.
Coloco-os junto à minha arma.
E vou-me embora.
Gilles Rapaport
10 petits soldats
Paris, Circonflexe, 2002
Histórias oferecidas à sexta-feira!
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Q |
uando chega o verão, Willie Jerome toca jazz durante todo o dia em cima do telhado.
A minha mãe diz que ele só está lá em cima a fazer barulho. Eu digo que ele está lá em cima a fazer música.
Ela diz:
— Willie Jerome, é bom que estejas longe desse telhado quando eu chegar a casa, logo, ao fim da tarde.
O meu irmão mais velho, Earl, que só sabe dizer coisas feias e más, diz que Willie Jerome não tem ponta de talento. Afirma:
— Ele tem é de pousar aquele trompete.
Eu tenho de responder a Earl.
Tenho de lhe responder e rápido. E digo:
— O Willie Jerome está no telhado a tocar um tipo de jazz intenso, quente e vivo, e eu gosto. Gosto mesmo.
— Um jazz intenso, quente e vivo? — pergunta Earl. — Miúda tola, tu não sabes ouvir. O Willie Jerome está lá em cima a fazer barulho, enquanto tu andas por aí a chamar-lhe música.
Descarto-me de Earl e saio a correr até à loja da esquina. O Sr. Jackson vem espreitar este meu modo gingado de andar. Quer saber porque é que estou a sorrir assim.
— O Willie Jerome está no telhado — digo. — Tenho estado a apreciar as suas músicas ao longo do dia. Por isso é que tenho este sorriso na cara. Por isso tenho este ritmo nos meus passos.
O Sr. Jackson dá-me alguns doces em troca da minha moeda brilhante de 25 cêntimos. Depois, olha para Willie Jerome lá no telhado. Abana a cabeça como se fosse uma vergonha gritante.
— Pequena Menina Judy — diz-me ele. — Odeio ter de te dar más notícias. Mas o Willie Jerome não sabe mesmo tocar trompete. Aquele rapaz só está a fazer barulho.
Saio da loja e dirijo-me a casa. Volto a dançar até aos degraus da entrada. É então que vejo a Menina Alversa Lee à janela, regando as suas plantas verdes.
— Ouça, Menina Alversa Lee. Está a gostar da música de jazz do Willie Jerome?
— Não, querida! — grita ela. — Não estou a gostar nem um bocadinho. Por isso, faz à Menina Alversa Lee um favor, vai dizer ao Willie Jerome que acabe com toda aquela algazarra.
Começo a ficar um bocado deprimida porque parece que ninguém aprecia a música que Willie Jerome toca no telhado, exceto eu própria e ele.
— Willie Jerome! — berro. — Willie Jerome, quem me dera conhecer outra pessoa como eu que amasse e compreendesse o teu jazz quente.
Willie Jerome é um rapaz de poucas palavras. Portanto, não responde. Em vez disso, continua embrenhado no seu trompete, movendo-se ao som da música.
Por volta das seis horas, a minha mãe regressa do trabalho, e faz a sua cara mais feia, porque Willie Jerome ainda está no telhado a tocar aquela música, e ela está exausta. Ela não quer voltar a ouvir semelhante barulho.
— Vou subir ao telhado — diz. — Vou pôr um fim a isto.
Apresso-me a dar-lhe a mão e peço-lhe que espere um minuto.
— Não perturbes o Willie Jerome — imploro. — Fecha só os olhos. Descansa a mente, e deixa que a música fale ao teu espírito.
A minha mãe suaviza a expressão e senta-se ao meu lado nos degraus da frente. Fechamos os olhos. Deixamos a mente relaxar e a música falar.
À medida que o sol da tarde começa a pôr-se, Willie toca a sua última doce melodia.
A minha mãe move o pescoço ao som da sua música agradável.
Pega nas minhas mãos e coloca-as nas dela.
— Devo-te desculpas, — diz — porque o Willie Jerome sabe tocar. Se tivéssemos arranjado algum tempo para ouvir, todos nós já o saberíamos. O teu irmão sabe…
— Tocar aquele tipo de jazz intenso, quente e vivo — digo à minha mãe. — O Willie Jerome sabe tocar!

Alice Faye Duncan
Willie Jerome
New York, Macmillian Books, 1995
Histórias oferecidas à sexta-feira!
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Lily e o Homem dos Jornais
— Vamos de autocarro para casa hoje? — pergunta a mãe de Lily.
Debaixo do guarda-chuva Lily espreita.
— Vamos a pé, por favor. Eu gosto da chuva.
Agarra na mão da mãe para atravessar a rua.
A mãe contorna as pocinhas. Lily, aos saltos, tenta evitá-las.
— Adeus, Frank!— diz ela ao agente que ajuda a atravessar a rua.
Frank mantém levantado o sinal de STOP vermelho para atravessarem.
— Adeus, Lily. Até amanhã.
E lá vão elas rua abaixo. Lily salta num só pé ao passar pela montra da loja da Srª. Chan.
Acena à Srª. Chan, que sorri e lhe acena de volta. Estão quase em casa.
— Olha, Mamã. Consigo fazer o resto do caminho de costas.
— Tem cuidado, Lily! — pede a mãe.
Lily vai de encontro a algo. Vira-se para trás.
— Um dólar pelo jornal! — pede um homem alto num casaco esfarrapado.
Em toda a cabeça, numa confusão enorme, o cabelo está todo em pé. Estende um jornal fininho à mãe de Lily. Esta esconde-se, apertando o casaco da mãe enquanto espreita.
Esta dá um dólar ao homem e pega no jornal.
— Obrigada! — diz ela.
O homem acena com a cabeça e depois olha para Lily. Fixamente. A chuva escorre pelo seu nariz torto até à barba. Lily consegue ouvir a respiração ofegante.
Agarra-se à mãe, olhando para trás, para a porta do seu apartamento.
No dia seguinte, depois das aulas, Lily diz:
— Hoje quero ir de autocarro para casa, Mamã.
— Tens a certeza?
Lily olha para os pés e acena que sim.
Entram no autocarro.
Lily vê o Frank pela janela, lá fora, e diz-lhe adeus, mas ele não a vê. Passam rapidamente pela loja da Srª. Chan, demasiado depressa para que Lily veja a sua cara amistosa. Quando passam pelo Homem dos Jornais, Lily encolhe-se no banco.
Ele não a consegue ver!
A mãe toca a campainha.
Lily corre desde o autocarro até à porta de entrada.
— Depressa, depressa, Mamã!
Ela faz força contra o puxador da porta.
— Passa-se alguma coisa, Lily?
Lily abana a cabeça e olha para a rua. O Homem dos Jornais está a dirigir-se para elas. Lily consegue sentir os olhos do homem postos nela. Empurra a porta e ela fecha-se.
Agora estão a salvo.
Durante toda a semana, Lily e a mãe vão de autocarro. E durante a semana seguinte. E todos os dias a seguir a esses. Até que cai a primeira neve.
Lily tem luvas novas felpudas e botas novas aconchegantes.
E tenta apanhar flocos de neve com a língua.
— Experimenta, Mamã! — convida.
E puxa a mão da mãe.
— Não queres ir de autocarro, Lily?
Lily abana a cabeça.
— Eu gosto da neve. Adeus, Frank.
Atravessam a rua. Em volta delas, a neve esvoaça num cintilante alvoroço.
— Vamos ver se a Srª. Chan já está a vender chocolate quente! — diz a mãe.
Lily bate com as luvas uma na outra e desata a correr. Fecha os olhos e ouve o ranger e estalar das suas botas na neve. A mãe segue atrás dela.
— Um dólar pelo jornal...
Os olhos de Lily arregalam-se de repente.
O Homem dos Jornais segura um jornal com a mão trémula.
Lily quer fugir, mas fica quieta. Consegue ver uma camisa fininha por entre os buracos do casaco e os pés nus através dos furos nas botas. E treme, com arrepios.
A mãe de Lily dá um dólar ao homem, depois dobra o jornal e mete-o na carteira.
— Obrigada! — diz.
— Tenham um bom dia — deseja o Homem dos Jornais.
Lily não tem a certeza, mas acha que ele lhe pisca o olho.
Lily esquece-se de carregar nos números do código que abrem a porta de entrada.
Esquece-se de carregar no botão de SUBIR no elevador.
Está pensativa.
— Lily, passa-se alguma coisa?
— O Homem dos Jornais não traz meias, Mamã. Porquê? Está frio lá fora.
A mãe de Lily fica com um ar sério.
— Suponho que não tenha nenhumas — responde ela. — Nós temos muita sorte em ter roupas quentes e um lugar onde viver.
Lily fica calada e agarra a mão da mãe até chegar ao apartamento.
No sábado seguinte, Lily sai com o pai para comprar leite na loja da Srª. Chan.
O Homem dos Jornais está na esquina. Não tem chapéu e as suas orelhas estão vermelhas do frio. O pai de Lily para a comprar o jornal.
— Obrigado! — diz o Homem de Papel.
E depois:
— Bom dia, menina.
E sorri com um sorriso trémulo.
Dentro da loja, Lily conserva o dólar que o seu pai lhe deu para uma guloseima, mas não consegue decidir-se.
— Guarda-o até que encontres algo mesmo especial — sugere a Srª. Chan.
De mão dada com o pai, Lily caminha até casa.
Sente as moedas dentro da luva a pressionar-lhe a palma da mão.
Chegam à esquina. Lá está ele de novo.
Os ombros do Homem do Jornal estão curvados. Tem os braços cruzados e Lily vê que ele passa de um pé gelado para o outro. Desta vez nem se apercebe da presença dela.
Naquela noite, na cama, Lily aconchega-se debaixo da sua colcha favorita.
Mantém a sua boneca, Steffie, bem agarrada a ela.
— Nós estamos quentinhas, e temos meias suficientes. Mas o Homem de Papel tem frio. Que podemos fazer, Steffie?
Lily pensa e repensa até que a sua pergunta se desvanece no sono.
De manhã, Lily salta da cama e, abraçando Steffie, sussurra-lhe:
— Já sei o que fazer!
No dia seguinte, depois das aulas, Lily e a mãe param para falar com Frank. Depois, vão até à loja da Srª. Chan. E fazem uma visita ao administrador do prédio onde moram. Durante toda a semana Lily amadurece a ideia. Ela e o pai vão aqui e ali, apanhando e transportando até que, finalmente, tudo fica pronto.
Debaixo da colcha, nessa noite, Lily tem dificuldade em adormecer.
Cedo, bem cedinho, Lily acorda. Ela e Steffie apressam-se a ir até ao quarto dos pais.
— São horas de levantar! — diz ela.
— Vai para a cama, Lily, ainda é muito cedo! — resmunga o pai.
— É sábado! — acrescenta a mãe.
— O vento sopra e a neve está a cair! — diz Lily. — O Homem dos Jornais tem frio. Por favor, venham já.
A mãe de Lily senta-se na cama.
O pai acende a luz.
Olham um para o outro e saem da cama.
Vestem-se, pegam num saco mesmo muito grande, e lá descem eles.
Lá fora, o vento sopra vindo do Polo Norte. O Homem dos Jornais está na esquina. Lily sente o coração a bater forte, mas tira o saco das mãos do pai e arrasta-o pela neve, até aos pés do Homem dos Jornais.
— Bom dia, menina! — diz ele.
— Chamo-me Lily! — E estende a mão.
O Homem dos Jornais aperta-lhe a mão.
— Eu chamo-me Ray. Tens aí uma grande quantidade de lixo.
Lily sorri.
— Não é lixo. É um presente. Para si!
Ela repara que ele tem o nariz vermelho do vento.
Ela esfrega o seu próprio nariz gelado.
— Abra-o, por favor!
O Homem dos Jornais espreita para dentro do saco e tira para fora uma camisola. Lily olha para o pai. Ray puxa a camisola para cobrir o seu casaco. Procura de novo dentro do saco, e tira um par de meias bem grossas. Senta-se e calça-as.
Agora Lily já consegue ver flores cor de laranja através dos buracos das botas de Ray.
Pisca o olho à mãe.
A seguir, o Homem dos Jornais põe na cabeça um gorro às riscas com tapa-orelhas.
Lily bate palmas. Agora parece mesmo o Frank! Depois, ele calça as luvas novas e coloca o cachecol que a Srª. Chan tinha arranjado a Lily em troca daquele seu dólar especial…
Ray continua a tirar coisas do saco e a vesti-las, até que fica tão inchado que mal consegue dobrar-se. E, finalmente, tira para fora a colcha de Lily, a que a avó lhe tinha feito aquando do seu nascimento.
O Homem dos Jornais levanta-a e olha para as estrelas, os elefantes e as tartarugas.
Lily tenta sorrir, mas aquela é mesmo a sua colcha favorita…
O Homem dos Jornais embrulha-se logo nela.
— Obrigado, Lily! — diz ele com ternura.
— Agora está quente! — exclama ela, com um nó na garganta.
— Estou mais quente do que alguma vez estive, desde há muito, muito tempo…
Os seus olhos brilham. Sorri com o maior sorriso de sempre.
Lily também consegue sorrir de novo.
— O Homem dos Jornais já está quentinho — diz Lily, enquanto vai com os pais a pé para casa.
Na entrada do prédio, Lily encosta o nariz contra o vidro gelado e olha lá para fora.
O Homem dos Jornais acena-lhe com a mão.
Ainda está a sorrir.
Feliz, Lily acena-lhe também.

Rebecca Upjohn
Lily and the Paper Man
Toronto, Second Story Press, 2007
(Tradução e adaptação)
Escravatura infantil
A vergonha escondida
Sabe de onde proveem muitas das decorações e os chocolates que iluminaram e adoçaram o seu Natal? Talvez da Índia e Costa do Marfim, onde crianças trabalham como escravas.
Sobre este drama, entrevistámos Kailash Satyarthi, um dos dois laureados com o Prémio Nobel da Paz 2014, e Ayn Riggs, fundadora da ONG Slave Free Chocolate.
Kailash Satyarthi diz que salvou «83 500 crianças» desde que, há quase três décadas, abandonou uma carreira bem-sucedida como engenheiro eletrotécnico para combater o tráfico, o trabalho forçado e a escravatura na infância. Perguntámos-lhe qual destas histórias mais o marcou, e o indiano que dividiu o Prémio Nobel da Paz 2014 com a paquistanesa Malala Yousafzai evoca o seu primeiro dia de aulas.
«Tinha 5 ou 6 anos quando vi um menino da minha idade a engraxar sapatos na escadaria da escola», conta Satyarthi, numa entrevista, por telefone, concedida em vésperas de uma campanha global sem precedentes para convencer a ONU a inscrever nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável a abolição da escravatura infantil. A End Child Slavery Week decorreu de 20 a 26 de novembro de 2014, em várias cidades do mundo.
«Fiquei chocado com o que vi», lembra Satyarthi, um homem simples e generoso que tenta sempre responder às inúmeras mensagens enviadas para o seu endereço eletrónico e telemóvel – acessíveis a todos. «Eu ia aprender ideias novas, e ali estava uma criança a trabalhar. Contei isto ao meu professor e ele não se comoveu: "É gente pobre. Nada de novo."
Senti-me desconfortável, e até furioso. Fui falar com o pai do menino, que parecia também conformado. Mas eu não. Perguntei-me: "Porque é que algumas pessoas têm direito à educação e outras têm de desistir dos seus sonhos?"
Foi esta a primeira inspiração para a organização que dirijo.»
Prioridade aos menores
A organização, Bachpan Bachao Andolan (BBA, Movimento para Salvar a Infância), foi fundada em 1980, quando Satyarthi tinha 26 anos. Além de crianças, o ativista, que tem dois filhos, tem resgatado também mulheres em risco, embora a sua missão dê prioridade aos menores vítimas de todo o tipo de abusos – da servidão doméstica ao recrutamento para conflitos armados.
«Salvar crianças é o que eu faço todos os dias», afirma Satyarthi, com orgulho incontido. «Continuo a liderar, pessoalmente, milhares de operações para resgatar crianças. Às vezes somos contactados pelos pais, denunciando que os filhos são escravos. Outras vezes obtemos essas informações pelos meios de comunicação. A nossa estratégia passa por delinear um plano, concertar as ações com várias organizações e autoridades, incluindo o Ministério do Trabalho, a Polícia e magistrados, porque estamos a lidar com situações de ilegalidade. Depois, vamos buscar as crianças para as devolver às famílias. Neste processo, enfrentamos as mafias e outros criminosos. É indispensável usarmos o sistema legal, embora também utilizemos outros recursos, como centros de reabilitação, para que as crianças libertadas possam realmente recuperar a sua liberdade.»
Desde 2001 que a BBA transformou em «santuários» mais de 355 aldeias em 11 Estados da Índia. «Eu olho para o sofrimento destas crianças, algumas retiradas aos seus pais, como um crime grave contra a humanidade», sublinha o Nobel. «Muitas delas não têm família ou as suas próprias famílias são escravas. Na maioria dos casos, são órfãs. São vítimas.»
O aumento da escravatura, de adultos e crianças, foi comprovado pela Walk Free Foundation (WFF), com sede na Austrália, que, no recém-divulgado The Global Slavery Index 2014, calcula em 35,8 milhões o número de escravos em 167 países – a Índia de Satyarthi no topo da lista (14,29 milhões). Isto representa um aumento de 20 % em relação aos 29,8 milhões registados em 2013.
«Há 15-25 anos, o número de crianças a fazer trabalho infantil era de 250 milhões e agora desceu para 168 milhões», especifica Satyarthi. «No que diz respeito a crianças escravas, o número era de 5,5 milhões, há quinze anos, mas segundo a Organização Internacional do Trabalho já subiu, em 2013, para 8,4 milhões. Isto é muito grave!»
«O trabalho infantil é a negação dos direitos das crianças e da sua infância, da sua educação, mas precisamos de nos concentrar mais na escravatura infantil, nos aspetos que continuam a não merecer a atenção devida», sublinha o ativista. «São necessárias mais leis no Direito Criminal Internacional. A escravatura infantil tem de acabar AGORA! Muitas crianças são obrigadas a trabalhar devido a situações económicas degradantes. Nesta condição, são vítimas de abusos a vários níveis, não podendo deixar os lugares onde trabalham... A escravatura é muito pior do que o trabalho infantil. Precisam de ser libertadas imediatamente – é uma emergência.»
Crime hediondo
«Não pode haver compromissos», frisa. «Em qualquer país civilizado, a escravatura infantil é o crime mais hediondo. As crianças não têm um mínimo de liberdade. Sozinhas, facilmente são apanhadas por traficantes que as usam, por exemplo, em redes de prostituição.»
Alguns dos números mais chocantes recolhidos pela Global March Against Child Labour, conglomerado a que preside Satyarthi e que reúne mais de 2000 associações em 140 países, dizem respeito precisamente à prostituição infantil na Índia. Aqui, «3,6 milhões de crianças» estão registadas como vítimas de trabalhos forçados em centenas de bordéis. «Meninas, entre os 14 e 16 anos, são vendidas a preços mais elevados porque "podem" trabalhar durante mais horas do que mulheres mais velhas. A exploração sexual no país rende o equivalente a 343 milhões de dólares anuais, ou seja, 2,4 milhões por cada bordel.»
Uma das operações mais mediáticas que envolveu a Global March ocorreu numa madrugada de 2012. Catorze crianças forçadas a trabalhar quase 15 horas por dia, para satisfazer a procura de adereços de Natal, um negócio multimilionário de exportações para a Europa e América, foram libertadas do esconderijo onde eram mantidas como escravas. Duas delas tinham 8 anos de idade.
Maltratadas e malnutridas, estavam aprisionadas em quartos trancados, sem luz nem ar fresco. A maioria tinha ferimentos graves em consequência do uso de vidro para confecionar as decorações natalícias, mas também por serem agredidas pelos seus «donos», que as «compraram» por meio de «intermediários». Os traficantes tinham sido avisados previamente de que haveria uma rusga e fecharam 12 das crianças num compartimento exíguo, de 2x2 metros. Agentes da polícia quebraram as correntes da porta e, uma vez livres, Satyarthi encaminhou-as para centros de apoio.
«A escravatura infantil não é apenas "a vergonha escondida" da Índia, mas de toda a Humanidade», acautela Satyarthi. «É um problema que existe noutros países na Ásia, na África e até na América.»
A escravatura do chocolate
Na África Ocidental, em particular, de onde é originário 70 % do cacau mundial, um dos Estados onde mais se pratica a «escravatura moderna» é a Costa do Marfim, o maior produtor da principal matéria-prima do chocolate.
Para responsabilizar uma indústria avaliada em 110 mil milhões de dólares/ano, uma mãe de duas filhas, Ayn Riggs, criou a ONG Slave Free Chocolate.
«Pensávamos ter resolvido este problema quando o Protocolo Harkin-Engel foi assinado por todos os principais produtores e importadores de cacau, em 2001, com vista à introdução do selo de garantia No Child Slavery e, assim, contribuir para o fim do trabalho infantil forçado», refere Ayn Riggs, numa entrevista que nos deu via Skype. «Infelizmente, pouco ou nada mudou.»
«Nos anos 1960», explica a ativista norte-americana, «a Costa do Marfim tinha um presidente que encorajou o cultivo do cacau para diminuir a pobreza. Infelizmente, os preços não sobem há mais de trinta anos e o sustento das famílias é mínimo, obrigando-as a usar os filhos ou crianças escravos, sobretudo vindas do Mali e do Burkina Faso.»
«A situação destas crianças é terrível porque muitas delas trabalham com materiais perigosos, como pesticidas», refere Ayn Riggs. «Isoladas de tudo, não têm acesso a clínicas para primeiros socorros. Não vão à escola. Os fabricantes de chocolate já admitiram que há escravatura infantil, mas alegam que não têm culpa. A Cadbury, por exemplo, investe 1,5 milhões de dólares em máquinas de relações públicas que, à semelhança de outros grupos, dificultam ações judiciais. Deveria haver maior mobilização. O mundo está mais atento desde que se fez um filme sobre os diamantes de sangue.»
Apesar de tudo, Ayn Riggs realça o que considera um marco histórico na luta contra a escravatura infantil: a deliberação, em setembro de 2014, de um tribunal de apelo nos EUA de permitir um processo-crime contra a Nestlé, a ADM e a Cargill. O juiz considerou que, «com o objetivo de reduzirem custos de todas as formas possíveis», aqueles fabricantes «toleram e facilitam a escravatura infantil nas plantações de cacau da Costa do Marfim».
O processo foi instaurado em 2005 por três indivíduos do Mali, identificados apenas como «John Doe I, I e III». Alegam terem sido vítimas de traficantes que os levaram para a Costa do Marfim nos anos 1990, forçados a trabalhar «14 horas por dia» no corte dos frutos do cacau, secagem, embalagem e transporte. Contaram que algumas crianças que tentavam fugir eram obrigadas a beber urina. Às outras seriam esquartejados os pés.
Ayin Riggs não defende boicotes nem aos produtores de cacau (40-50 milhões de pessoas a nível mundial) nem aos fabricantes de chocolate, porque considera isso contraproducente. A formação de cooperativas pode ser uma alternativa, admite, mas também não as vê capazes de criarem infraestruturas nem obter financiamento suficiente para retirar «cerca de 1,8 milhões de crianças» dos campos e colocá-las em escolas.
Comércio justo
«A solução passa sempre pelo Protocolo Harkin-Engel, o único que pode aplicar práticas de comércio justo. Para acabar com a escravatura, a indústria do chocolate deveria pagar dez vezes mais do que os preços que atualmente pratica». Cada produtor ganha cerca de 80 cêntimos por dia.
Em novembro de 2014, os gigantes Mars Inc. e Barry Callebaut anunciaram que «o consumo de chocolate ira exceder, até 2020, o fornecimento de cacau, gerando um fosso entre a oferta e a procura de um milhão de toneladas métricas».
Qual é o impacto desta «escassez» no trabalho escravo?
Ayn Riggs não exclui a possibilidade de mais produtores de cacau – na Costa do Marfim eles representam 40 % da população, distribuídos por 800 mil plantações em 18 mil comunidades – desistirem desta atividade. Ou porque condições atmosféricas adversas aumentam as doenças que afetam árvores já envelhecidas ou porque eles próprios não suportam a pressão dos compradores para baixar os preços. Alguns estão a trocar o cacau pela borracha, na esperança de que seja um trabalho mais lucrativo. A fundadora do Slave Free Chocolate teme, porém, que a escravatura infantil se transfira para aqui. Além disso, nota que a indústria do chocolate está a incentivar a produção noutros países, como a Indonésia, onde as crianças também não estão a salvo dos traficantes.
Por esta ser uma luta inacabada, Kailash Satyarthi não desiste de exigir à ONU a abolição da escravatura infantil. Até lá, espera que o seu Nobel da Paz ajude a despertar mais consciências.
«Este prémio não é meu, mas de milhões de crianças desprotegidas.»
Margarida Santos Lopes
Revista Além-Mar
Janeiro 2015
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Era uma vez uma Semente que o vento sacudia sobre a planície deserta. A semente rodopiava e voava por entre vento e areia, que se alternavam a enviá-la em direções opostas.
Certo dia, a Semente decidiu instalar-se e crescer. Como tal nunca antes acontecera no deserto, as sementes que iam passando por ela exclamavam:
− Nunca ninguém o fez!
− É impossível!
− Nem penses nisso!
− Não podes fazer isso!
− Posso sim! – afirmava a Semente, confiante.

Não prestando, pois, muita atenção ao que as outras sementes iam dizendo, a Semente escolheu o lugar onde haveria de morar. Abriu as suas casquinhas, deixou sair um pequeno rebento e lançou à terra uma minúscula raiz.
O vento continuava a soprar e a areia não parava de rodopiar. Contudo, o rebento em breve se ergueu acima da superfície arenosa. Era verde e tinha uns pequenos espinhos no topo. Quanto à raiz, foi crescendo e tornando-se cada dia mais forte. O vento continuava a soprar, a areia não parava de rodopiar e as sementes que por ali passavam continuavam a dizer:
− Nunca ninguém o fez!
− É impossível!
− Não vais sobreviver!
− Não vais poder crescer!
− Vou sim! – afirmava a Semente, confiante.
O rebento foi crescendo cada vez mais até que se transformou numa árvore, que se erguia majestosa sobre a areia dourada e sob o céu brilhante e azul.

Todas as sementes que ali passavam continuavam a exclamar, por entre espanto e admiração:
− Não vais durar muito!
− Vais ver o que te acontece!
− Vais acabar por tombar!
− Não vais durar muito!
− Vou pois! − afirmava a Semente, confiante.

Os anos foram passando e a árvore foi ficando cada vez maior e mais forte.
Um dia, começou a deixar cair sementes no solo. Em breve estas sementes se abriram ao céu e pequenas raízes foram ganhando força dentro da areia. Não demorou muito até que surgissem várias árvores pequenas em redor da grande árvore.
Entretanto, as raízes desta tinham crescido tanto que haviam encontrado água, que agora assomava à superfície do deserto. Em breve a areia estava suficientemente húmida para que a relva pudesse brotar. Quando algumas das árvores tinham já crescido o suficiente, a água inundou de tal forma a superfície que formou uma maravilhosa lagoa, fresca e azul.
A novidade depressa se espalhou por toda a parte, levada pelo vento, e pequenas aves e insetos vieram ver o magnífico lugar, onde decidiram permanecer. As muitas e variadas espécies de sementes que trouxeram consigo cedo se transformaram em belas plantas e flores.
Um dia, uns viajantes cansados percorriam o deserto quando avistaram este lugar mágico. Conduziram os camelos até à lagoa e sentaram-se a descansar à sombra das árvores, saboreando a água fresca da nascente. Alguns dias volvidos, já retemperados, decidiram reiniciar a sua viagem pelo deserto.

Sem saber, levavam sementes que tinham caído das árvores nas suas roupas enquanto repousavam. À medida que atravessavam as areias infinitas, as sementes iam caindo das roupas na areia, onde ganharam raízes e se transformaram, mais tarde, em árvores.

Da próxima vez que estiveres à procura de sombra, e que a encontres debaixo de uma árvore, lembra-te de que foi a esperança de uma pequena e corajosa semente que a levou a desafiar a desconfiança de muitas outras sementes que diziam que ela nunca cresceria e que o que ela desejava era impossível…
Rosemary Phillips
One Seed
Quills Quotes & Notes, 2002
(Tradução e adaptação)
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vvv Obrigada, Prof. Falker! vvv

O avô segurou no frasco de mel para que toda a família pudesse ver, e, depois, mergulhou uma colher lá dentro e deixou cair o mel na capa de um pequeno livro.
A menina tinha feito cinco anos há pouco.
— Levanta-te, pequenina! — disse ele meigamente. — Fiz isto para a tua mãe, os teus tios, o teu irmão mais velho, e agora para ti!
Depois, estendeu-lhe o livro.
— Prova!
Ela mergulhou o dedo no mel e meteu-o na boca.
— A que sabe? — perguntou a avó.
A menina respondeu:
— A doce!
Depois, toda a família disse a uma só voz:
— Sim, assim como o conhecimento! Mas o conhecimento é como a abelha que fez esse mel tão doce, tens de procurá-lo através das páginas de um livro!
A menina tinha de prometer: em breve iria aprender a ler.
T |
risha, a menina mais nova da família, cresceu a amar os livros. A sua mãe, professora, lia-lhe todas as noites. O irmão, de cabelo ruivo, trazia os seus livros da escola e partilhava-os. E quando ela visitava a quinta da família, a avó ou o avô liam para ela junto à lareira de pedra. Quando fez cinco anos e foi para o jardim-escola, o que ela mais queria era saber ler.
Trisha via todos os dias os miúdos do primeiro ano a lerem pelos corredores, e ainda mesmo antes de o ano terminar, algumas das crianças da sua classe de começaram a ler. Mas não Trisha.
Ainda assim, ela gostava de estar na escola porque podia desenhar. E os outros miúdos apinhavam-se à volta dela: havia magia nos seus lápis de cor.
— No primeiro ano vais aprender a ler!— disse-lhe o irmão.
No primeiro ano, Trisha sentou-se em círculo com as outras crianças. Tinham na mão o primeiro livro de leitura, e pronunciavam em voz alta sons e palavras. E a professora sorria quando eles conseguiam juntar os sons e formar corretamente uma palavra. Mas quando Trisha olhava para a página, tudo o que conseguia ver eram formas a serpentear, e quando tentava reproduzir os sons em voz alta, os outros miúdos riam-se dela.
— Trisha, para que sítio do livro é que estás a olhar? — perguntavam.
— Estou a ler! — respondia ela.
Mas a professora passava à pessoa seguinte. Sempre que era a vez de Trisha, a professora tinha que ajudá-la em todas as palavras. E quando os outros meninos passaram para o manual do segundo e terceiro nível, Trisha ficou sozinha com o do primeiro.
E começou a sentir-se “diferente.”
Começou a sentir-se estúpida.
Quanto mais difíceis as palavras eram, mais e mais tempo ela passava a desenhar — e como ela adorava desenhar! — ou ficava apenas sentada a sonhar. Ou ainda, quando podia, ia passear com a avó.
Num dia de verão, ela e a avó estavam a dar um passeio pelo pequeno bosque atrás da quinta. Era a hora do crepúsculo. O ar era doce e cálido. Pirilampos erguiam-se na relva.
Enquanto caminhavam, Trisha perguntou:
— Avó, achas que eu sou... diferente?
— Claro! — respondeu a avó. — Ser diferente é o milagre da vida. Vês todos aqueles pequenos pirilampos? Cada um deles é diferente do outro.
— Achas que sou esperta? — Trisha sentia que não o era.
A avó abraçou-a.
— Tu és a coisinha mais esperta, mais rápida e mais querida que alguma vez existiu!
Nesse momento a menina sentiu-se segura nos braços da avó.
Ler não importava assim tanto.
A avó de Trisha costumava dizer que as estrelas eram buracos no céu.
Eram as luzes do céu que vinham do outro lado.
E dizia também que, um dia, ela estaria do outro lado, de onde vêm as luzes.
Uma ocasião, ao entardecer, deitaram-se ambas na relva a contar as estrelas no céu.
— Sabes, — disse a avó — todos nós vamos para ali um dia. Imagina: agarra-te à relva, tenta levantar voo…e vais ver que já lá estás!
Riram-se ambas, e ambas se agarraram à relva.
Mas não foi muito tempo depois dessa noite que a avó se libertou da relva e foi para onde as luzes estavam, do outro lado. E pouco tempo depois, o avô de Trisha libertou-se também…
A escola estava a ser cada vez mais difícil.
Ler era simplesmente uma tortura. Quando Sue Ellyn lia a sua página, ou Tommy Bob lia a dele, faziam-no tão facilmente que Trisha punha-se a olhar para o cocuruto das cabeças a ver se acontecia algo nelas que não acontecia na sua.
E os números eram o mais difícil de tudo. Nunca somava corretamente o que quer que fosse!
— Alinha à direita os números antes de somar — dizia a professora.
Mas quando Trisha tentava, os números pareciam uma pilha bamboleante de blocos prestes a cair. Numa só coisa acreditava: era estúpida.
Então, um dia, a mãe disse-lhe que tinha arranjado trabalho como professora na Califórnia, a uma longa distância da quinta da família.
Ainda que a avó e o avô tivessem partido, Trisha não queria ir embora. Mas talvez os professores e as crianças da nova escola não soubessem que ela era estúpida…
E assim, ela, a mãe e o irmão lá foram, atravessando o país num carro velho de 1949 pintado a duas cores... A viagem demorou cinco dias.
Mas na nova escola tudo era igual! Sempre que tentava ler, Trisha tropeçava nas palavras: “O ga, ga... gato ...mmm, mmm … mia.” Na terceira classe e ainda lia como um bebé!
E quando o professor lia juntamente com eles e pedia a Trisha que respondesse, ela dava sempre a resposta errada.
— Ei, pateta! — chamou um rapaz no recreio. — Como é possível seres tão burra?
Os outros miúdos juntavam-se a ele e todos riam.
Trisha sentia as lágrimas a arder-lhe nos olhos. Como ela desejava voltar para a quinta dos avós no Michigan!
E assim, cada vez queria menos ir para a escola.
“Estou com dores de garganta,” dizia à mãe. Ou “Estou com dores de barriga.”
Sonhava cada vez mais e desenhava cada vez mais.
E odiava, odiava, odiava a escola.
Quando Trisha chegou ao quinto ano, a escola continuava a ser para ela uma enorme confusão.
Mas, nesse ano, havia um professor novo. Era alto e elegante.
Toda a gente adorava o seu casaco às riscas e as calças cinzentas bem engomadas, sempre impecáveis.
E todos os alunos se colocaram logo à volta dele — Stevie Joe e Alice Marie, Davy e Michael Lee. Mas, desde o início, tal facto não pareceu ter a mínima importância para o Prof. Falker: parecia ignorar completamente os miúdos que eram mais giros, ou mais espertos, ou até os melhores, fosse no que fosse…
E ficava de pé atrás de Trisha sempre que ela estava a desenhar, sussurrando-lhe:
— Isso é maravilhoso… absolutamente maravilhoso. Tens ideia de como és talentosa?
Quando ele dizia isto, mesmo aqueles colegas que a aborreciam viravam-se para ver os seus desenhos. Mas ainda riam sempre que ela respondia errado.
Então, um dia, Trisha teve que se levantar e ler, coisa que ela detestava.
E, mal começou a ler, todos começaram a rir….
O Prof. Falker, no seu casaco de xadrez e laço ao pescoço, disse:
— Parem com isso! Acaso se acham todos perfeitos? Não conseguem olhar para outra pessoa sem lhe encontrar defeitos?
E aquele foi o último dia em que alguém se riu dela em voz alta. Ou fez troça. À exceção de Eric, que há dois anos se sentava na cadeira atrás de Trisha. Quase parecia que a odiava…e Trisha não sabia porquê. Esperava-a à porta da sala de aulas e puxava-lhe o cabelo, esperava por ela no recreio, encostava a sua cara à dela e chamava-lhe nomes…
E Trisha tinha até medo de virar uma esquina, não fosse Eric estar ali mesmo.
Estava perdida e sentia-se completamente só!
A única altura em que ela se sentia realmente feliz era quando estava perto do Prof. Falker: ele deixava-a apagar o quadro — só os melhores alunos tinham o privilégio de o fazer —, dava-lhe uma palmadinha nas costas sempre que ela fazia alguma coisa bem, e punha um olhar duro e zangado se algum colega a atormentava.
Mas quanto mais simpático o Prof. Falker era com Trisha, pior Eric a tratava.
E até conseguia que todos os outros colegas esperassem por ela no recreio, ou na cafetaria, ou até nas casas de banho, e de repente lhe aparecessem chamando-a de “Estúpida!” ou “Feiosa!”
E Trisha continuou a acreditar neles.
Mas descobriu que, se pedisse para ir à casa de banho antes do intervalo, conseguia esconder-se debaixo das escadas durante todo o tempo de recreio, não tendo assim que ir lá para fora.
E agora só naquele lugar escuro é que ela se sentia completamente segura.
Mas, um dia, durante o intervalo, Eric seguiu-a até ao seu esconderijo secreto.
— Transformaste-te numa toupeira? — perguntou, sorrindo maldosamente.
E puxou-a para o átrio, dançando em redor dela. “Pateta, pateta, grande pateta!”
Trisha enterrou a cabeça nos braços e enroscou-se toda, como uma bola.
De repente, ouviu passos. Era o Prof. Falker.
O professor levou Eric até ao seu gabinete.
Quando voltou, encontrou-se com Trisha.
— Acho que não vais ter que te preocupar mais com aquele rapaz! — disse com calma.
Trisha pensava que o Prof. Falker acreditava que ela sabia ler. Até tinha aprendido de cor o que o colega a seguir a ela estava a ler… Ou então esperava que o Prof. Falker a ajudasse com a frase, e depois repetia o que ele tinha dito.
— Muito bem! — dizia ele.
Então, um dia, o Prof. Falker pediu-lhe para ficar um pouco depois da escola para o ajudar a limpar os quadros. Pôs música e começaram a comer pequenas sanduíches enquanto trabalhavam e conversavam. De repente, disse:
— Vamos fazer um jogo! Vou dizer bem alto as letras, e tu e vais escrevê-las no quadro com a esponja molhada, o mais rápido que conseguires.
— A — gritou ele. E Trisha desenhou um A aguado.
— Oito — gritou ele. E ela fez um 8 aguado.
— Catorze … Três... D... M... Q — continuou ele.
E gritou muitas e muitas letras e números.
Depois, pôs-se atrás dela, e juntos olharam para o quadro.
Havia nele uma confusão aguada. Trisha sabia que nenhuma das letras ou números tinham o aspeto que deviam ter. Por isso, atirou a esponja ao chão e quis fugir dali.
Mas o Prof. Falker segurou-a por um braço e ajoelhou-se em frente a ela.
— Julgas que és burra, não é? — perguntou. — Como deve ser horrível viver tão sozinha e assustada!
Trisha soluçou. E o professor continuou:
— Não percebes o que se passa? Tu não vês as letras e os números da forma como os outros as veem. E, apesar disso, conseguiste fazer a escolaridade até agora, sem que nenhum professor tivesse reparado nisso!
E sorriu-lhe.
— Para isso foram precisas uma grande dose de inteligência e muita, muita coragem!
Depois, o Prof. Falker levantou-se e acabou de limpar o quadro.
— Vamos mudar tudo isso! Vais saber ler, prometo-te!
Depois disso, quase todos os dias depois das aulas, Trisha encontrava-se com o Prof. Falker e a Prof.ª Plessy, uma professora especializada em leitura. E juntos faziam tantas coisas! A maior parte ela nem sequer percebia! Ao princípio, fazia círculos na areia, e, depois, grandes círculos com a esponja no quadro, da esquerda para a direita, da esquerda para a direita.
Depois, projetaram letras num ecrã, e Trisha dizia-as em voz alta. Noutros dias ela trabalhava com blocos de madeira e construía palavras. Letras, letras, e mais letras. Palavras, palavras, e mais palavras. Sempre a dizê-las alto e bom som.
Que bem sabia!
Mas, embora tivesse lido palavras, Trisha nunca tinha lido uma frase completa. E, bem lá no fundo, ela ainda se sentia burra.
Foi então que, num dia de primavera — tinha sido há três ou há quatro meses que tinham começado? — o Prof. Falker pôs um livro à frente de Trisha. Um livro que ela nunca tinha visto. E escolheu um parágrafo no meio de uma página, apontando para ele.
Quase que por magia, ou como se a luz tivesse inundado o seu cérebro, as palavras e as frases começaram a ganhar forma na página como nunca antes tinha acontecido! “Ela … encaminhou ... – os ... até ...” Devagar, Trisha leu uma frase. Depois outra, e outra. E finalmente conseguiu ler um parágrafo. E compreendeu tudo!
Nem reparou que o Prof. Falker e a Prof.ª Plessy tinham lágrimas nos olhos.
Naquela noite, Trisha correu para casa sem parar sequer para respirar. Galgou as escadas da frente, escancarou a porta, e correu desde a sala de jantar até à cozinha.
Trepou pelo armário da louça acima e pegou num frasco de mel.
Depois, foi para a sala de estar e descobriu o livro numa prateleira, o mesmo livro que o avô lhe tinha mostrado há já tantos anos atrás…
Derramou uma colher de mel na capa e saboreou a doçura… E disse para consigo “O mel é doce, assim como o conhecimento, mas o conhecimento é como a abelha que fez o mel, tem de ser procurado através das páginas de um livro!”
Depois, segurou no livro, no mel e em tudo o resto, bem junto ao peito. Sentia as lágrimas a correrem-lhe pela cara abaixo.
Mas já não eram lágrimas de tristeza.
Agora, sentia-se tão, tão feliz….
O resto do ano foi uma odisseia de descobertas e aventuras para a menina.
Trisha aprendeu a gostar da escola.
Sei que assim foi… porque a menina era eu, Patricia Polacco.
Reencontrei o Prof. Falker cerca de trinta anos mais tarde.
Fui ter com ele e apresentei-me.
A princípio, teve dificuldade em identificar-me.
Depois, disse-lhe quem era, e como, muitos anos atrás, ele tinha mudado a minha vida para sempre...
O Prof. Falker abraçou-me e perguntou-me o que fazia.
— Porquê, Prof. Falker? — perguntei. — Escrevo livros para crianças. Obrigada, obrigada!
v v v
Vencedora de vários prémios, autora e ilustradora de mais de 50 livros para crianças, PATRICIA POLACCO era ainda pequena quando lhe foi diagnosticada uma dislexia.
Não conseguia ler.
Mas mesmo depois de ter aprendido a ler, ela nunca quis estar numa turma especial.
Queria ser uma menina normal, numa turma normal.
Hoje em dia, quando Patricia não está na sua casa em Union City, no Michigan, anda a viajar pelos Estados Unidos.
Visita escolas e livrarias, dá palestras e inspira os jovens leitores e ouvintes de todos os lugares com os seus discursos entusiastas e comovedores.
Patricia Polacco
Thank you, Mr. Falker
New York, Philomel Books, 1998
Histórias oferecidas à sexta-feira!
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Miss Malarkey põe toda a gente a ler
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a primeira semana de aulas, a nossa professora anunciou que iríamos aderir a um programa especial de leitura no decorrer do ano letivo. Como Miss Malarkey acha que a leitura é a melhor atividade a que nos podemos dedicar, prometeu encontrar um livro adequado para cada um de nós.
A nossa escola tem de ler 1000 livros até 12 de junho.
Mr. Wiggins, o diretor, até prometeu tingir o cabelo de púrpura e dormir no telhado da escola se conseguíssemos ler esses livros todos.
Mas eu tenho um pequeno problema…
DETESTO LER.
Logo em outubro, a professora emprestou-me um livro de histórias de terror que não consegui terminar, porque não gosto desse género de histórias. Na verdade, do que eu gosto é de videojogos, tal como os meus três amigos, Adwin, Sam e Jamal.
O Adwin vem do Senegal. Não fala inglês muito bem, mas adora matemática. O Sam é bom em lacrosse e o Jamal gosta de desenhar. Eu gosto de extraterrestres, de carros de corrida, de anedotas, de pastilha elástica e de sair disparado de um canhão para dentro da piscina.
Miss Malarkey já distribuiu a lista de livros considerados adequados e a verdade é que este ano está a passar a correr. Estamos em dezembro e estão todos a ler na nossa turma. Todos, exceto eu e os meus amigos.
A Suzy tem a mochila tão carregada de livros que parece que vai cair de costas.
− O que trazes nessa mochila? – pergunto-lhe. – Rochas?
O Larry tem o hábito de ler na rua. Claro que foi logo contra um poste telefónico.
A Ellen passa por nós a correr.
− Onde é o incêndio? – pergunta-lhe o Sam.
− No livro que estou a ler! É espetacular! – responde ela.
− O mundo está a ficar louco – comenta o Jamal.
Claro que nós fomos para minha casa jogar videojogos…
De cada vez que acabamos de ler um livro, Miss Malarkey coloca uma fita azul na parede, com o nosso nome e o título do livro. É um facto que se veem muitas fitas...
Só a Suzy já vai em 25. O Charles tem 15. A Brenda acabou de ler cinco livros esta semana! CINCO LIVROS NUMA SÓ SEMANA! Não sei como consegue. Será que não come?
Miss Malarkey continua a dar-me livros. Afirma, com humor, que vai encontrar um de que eu goste nem que morra a tentar… Como não quero que ela morra, continuo a esforçar-me. Mas, quando tentei ler um depois de jogar um videojogo, adormeci.
Estamos em fevereiro e a minha professora ainda não desistiu de me encontrar “o tal”. Deu-me um sobre mundos fantásticos, mas achei os nomes confusos. Em março, emprestou-me um sobre anedotas, mas eu já as conhecia todas. Em abril, tentou um livro de poemas… Sinceramente, não sei o que lhe passou pela cabeça!
Contudo, ela não é dos que desistem com facilidade.
Em maio, tentei ler um sobre exploradores lunáticos, mas perdi o interesse pela história mesmo antes de eles partirem em viagem. Agora estamos em junho e os meus amigos estão todos a jogar videojogos em minha casa. Todos, exceto o Sam.
− Miss Malarkey deu-lhe um livro na sexta-feira – disse o Adwin. – Acham que ele está a ler?
− Nem sonhes! − disparei. − Está mas é a praticar algum desporto.
Telefonámos para casa dele e atendeu a mãe. Quando pedimos para falar com ele, disse:
− O Sam está ocupado agora, mas liga-vos quando acabar de ler.
Já lá vão muitos meses desde que começámos o programa de leitura e Miss Malarkey continua a dar-me livros para ler, sem que eu me sinta minimamente interessado.
A nossa turma já leu 275 livros e a nossa escola 869…
O Adwin, o James e eu não lemos nenhum.
Os videojogos são muito mais fixes.
Um dia, ao almoço, sentei-me com o Sam, o Adwin e o Jamal.
O Adwin não tirava os olhos do regaço.
− Aconteceu alguma coisa às tuas calças? – perguntei a rir.
− Não – respondeu ele, mostrando o livro que estava a esconder. − Miss Malarkey deu-me este livro. É um livro sobre um matemático e estou a gostar de o ler. Chama-se David Blackwell.
− Olha só que boas notícias, Adwin – digo. – Diverte-te com esse livro idiota que cá eu e o Jamal somos mestres em videojogos.
− Para ser franco – disse o Jamal – gostei desse livro e nem sequer sou fã de matemática. Esse Blackwell disse que gostava especialmente de imagens e que as fórmulas e os símbolos não o atraíam tanto. Achei-o bastante fixe.
Confesso que me caiu o queixo.
− Há quanto tempo andas a ler livros, Jamal? – perguntei.
− Há um tempito – respondeu. – Como não queria que te sentisses mal, não te disse nada. Miss Malarkey deu-me um livro sobre Van Gogh, um pintor famoso. Como sabes, gosto de pinturas fixes e o livro está cheio delas.
Para meu espanto, os meus amigos estão todos a ler!
Ainda gostam de jogar videojogos, mas fazem-no muito menos.
Às vezes, quando vêm a minha casa, trocam os livros que andam a ler entre eles. Quase nem jogam. Só falam de livros!
A 10 de junho, a nossa escola convocou uma assembleia para falarmos sobre o programa de leitura. Estamos quase a atingir a meta dos mil livros. Os professores até já compraram um saco-cama para o diretor poder dormir no telhado da escola!
A nossa escola leu 999 livros e a nossa turma 334.
Mas quantos li eu? ZERO.
No dia seguinte, a professora disse que queria falar comigo depois das aulas.
Julguei logo que ia gritar por causa de todos os livros que eu não tinha terminado.
Tentei gostar de ler livros.
A sério.
Tentei gostar de livros sobre desporto, ciência, humor, explorações, detetives e até poesia. Que mais podia fazer?
Mal entrei no gabinete, vi que Miss Malarkey sorria.
Foi direita ao assunto:
− Este ano descobri muitas coisas sobre ti. Descobri que não gostas de livros sobre raparigas, jogadores de basebol lendários e adivinhas matemáticas. Descobri que não és má pessoa, que não mentes e que adoras videojogos. Gostas de sapatilhas modernas, o teu número de sorte é o 15 e que o teu tio favorito está a prestar serviço militar. A tua mãe chama-se Carol e o teu pai Bob. Descobri ainda que gostas de extraterrestres, de carros de corrida, de anedotas, de pastilha elástica e de sair disparado de um canhão para dentro da piscina.
Após uma curtíssima pausa, a minha professora exclamou:
− Tenho o livro certo para ti!
Nesse dia, fui para casa e comecei a ler.
O livro mais fantástico que jamais alguém escrevera!
Metia extraterrestres, carros de corrida, anedotas, pastilha elástica e canhões. Até tinha uma piscina! Como ainda o estava a ler às dez da noite, os meus pais foram ver se eu me sentia bem…
No dia seguinte, a minha mãe escreveu um bilhete para eu entregar a Miss Malarkey.
É um facto que não li o livro 1000, mas li o livro 1001.
Mas não faz mal, porque li o melhor livro de sempre!
A minha professora deu-me um abraço e os parabéns.
Quando o ano letivo acabou, fomos todos para o pátio.
Olhámos para o telhado e gritámos em coro:
− BOA NOITE, DIRETOR!
− Boa noite, meninos. E bom trabalho! – elogiou Mr. Wiggins.
Judy Finchler & Kevin O’Malley
Miss Malarkey leaves no reader behind
New York, Walker & Company, 2010
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A Minha Irmã-Estrela
Eu tinha dez anos. Durante a estação seca, saía da cama sem fazer barulho, abria a porta de casa e ia para o pátio. Já perdera o medo dos fantasmas e de outros seres maléficos que, de noite, dizia-se, aterrorizavam as crianças, e as levavam para a terra dos diabos.
Sentado no meio do pátio, de cabeça bem erguida, punha-me a olhar o céu porque a minha mãe dizia que eu tinha uma irmã que morava lá em cima com os anjos!
Às vezes esperava meia hora até que, de repente, uma estrela muito pequenina começava a brilhar mais do que as outras. Observava-a com muita atenção. Via-a deslocar-se, isolar-se, sorrir para mim antes de desaparecer por uns momentos entre duas nuvens e depois voltar a aparecer.
Aquilo divertia-me imenso. Eu sorria-lhe também. Sabia que aquela estrela era a minha irmã mais velha, que morrera dois anos antes de eu ter nascido.
Dei-lhe um nome, um lindo nome: A Minha Irmã-Estrela…
Sentado no pátio, punha-me a falar com ela. Não sabia bem o que lhe dizer, mas tinha a certeza de que ela gostava das minhas histórias e gostava de ouvir a minha voz. Dava-lhe notícias de casa. Contava-lhe, por exemplo, que o pai tinha trocado de mota e continuava a trabalhar para os brancos, no hotel Victory Palace. E trazia para casa livros que, lá no hotel, depois de lidos, se deitavam ao lixo.
Explicava à Minha Irmã-Estrela que, da última vez, o pai trouxera um livro estranho que quase me tinha feito chorar: era O Principezinho, um livrinho do escritor e aviador Antoine de Saint-Exupéry.
Li-o mais de dez vezes.
Era a história de alguém que se perdera muito, muito longe de qualquer lugar habitado. De repente, viu-se diante de um rapazinho, surgido do nada, que lhe pedia que desenhasse um carneiro! E eu tinha pena daquele rapaz que nunca tinha visto um carneiro…
Então, perguntei à minha irmã se, lá em cima, tinha ouvido falar daquele livro. E ela mexeu-se. Provavelmente, no céu, já todos tinham lido a história d’O Principezinho. Se calhar, cá na Terra, é que lemos pouco…
Uma noite, até confessei à Minha Irmã-Estrela que me imaginava ser aquele rapazinho que surgiu assim do nada, e gostava também que alguém me desenhasse um animal meigo… como o daquela história.
Uma semana depois, sempre a meio da noite, olhei bem para o céu.
Vi que a Minha Irmã-Estrela se mexia mais do que o habitual. Parecia que piscava. Girava sobre si, muito atarefada, quase nervosa. Porém os gestos eram precisos. Nunca a tinha visto tão excitada.
Estava a desenhar qualquer coisa para mim, um carneiro, só para mim!
Guardei aquele segredo. Não disse nada ao meu pai nem à minha mãe e muito menos aos meus colegas da escola. Não disse à minha Irmã-Estrela que já tinha visto carneiros e que preferia que me desenhasse outro animal mais exótico. Não queria contrariá-la, mas o certo é que o carneiro que ela desenhou parecia o animal mais adorável à face da Terra.
Ainda falava de mais coisas à Minha Irmã-Estrela. Uma vez, até lhe dei a saber que o tio Renato tinha comprado uma casa no bairro Trois-Cents. Uma casa grande, resistente, porque ele tinha dinheiro e era mais rico do que o meu pai e a minha mãe. Havia um terraço enorme onde recebia os amigos. Todas as pessoas que o iam visitar achavam aquele lugar magnífico.
Quem me dera viver com o tio Renato! A nossa casa não era sólida, era uma velha cabana de tábuas com buracos no telhado. Todos os moradores do bairro faziam troça de nós. Chovia na sala e até na minha cama. E, quando chovia, os meus pais acordavam a meio da noite, receosos, não fosse a casa ficar toda inundada.
Eu até dormia de impermeável. O meu pai prometia reparar o telhado no dia seguinte, mas logo se esquecia e só voltava a lembrar-se quando chovia de novo.
— Rogério, tinhas prometido que compunhas o telhado! — gritava a minha mãe quando a chuva começava a bater.
— Paulina, vou fazê-lo amanhã — respondia o meu pai.
— Foi o que disseste há duas semanas!
— Sim, mas amanhã vou mesmo fazer. Juro.
Mas o meu pai nunca compôs o telhado. Preferiu comprar-me outro impermeável e um par de botas. A água continuava a cair-me em cima. Eu já estava habituado. Até era nessa altura que dormia melhor… O tio Renato queria que eu fosse morar para casa dele. Os meus pais é que sempre se opuseram porque não queriam ficar sozinhos na nossa velha casa de madeira. Eu já me imaginava na casa grande do tio Renato. Dizia para comigo que ia brincar com os meus primos e dormir num quarto com telhado em bom estado. O meu pai, que era um homem orgulhoso, sentia-se vexado. E como queria que, de uma vez por todas, deixasse de sonhar com a casa do meu tio, uma vez disse-me: «Não quero que vás para casa do tio Renato. Sei que sou pobre. Queres ir morar para casa dele porque ele é rico, porque tem uma casa grande! Na vida temos de nos contentar com o que temos. Viver numa pobre cabana não significa que sejamos pobres de coração! Quando fores grande, irás compreender…»
À noite, depois de mais de uma hora a olhar para o céu, sentia os olhos a ficarem pesados. Dormitava um pouco, até acordar com a luz que a Minha Irmã-Estrela refletia. Apercebia-me então que tinha ficado aquele tempo todo no meio do pátio, mas não podia ir para a cama sem lhe falar da minha mãe.
Falava-lhe dos berlindes que ela tinha comprado para me dar no dia dos meus anos.
Eram doze, mas depressa os perdi.
Uns rapazes mais velhos do que eu tiraram-mos sob ameaça.
E como eu não queria lutar porque era magro e franzino como um pau de vassoura, deixei-os ir. A minha mãe enervou-se tanto que me disse que ia levar-me ao feiticeiro para me arranjar um amuleto que me tornasse mais forte do que aqueles rapazes que me tinham roubado os berlindes.
Ya Malonga, o feiticeiro que uma tarde fomos visitar, mandou-me comer raízes picantes e usar um bracelete com um dente de víbora, cujo resultado não se fez esperar. Os rapazes maus, quando me viam chegar, fugiam porque sabiam que ninguém pode vencer quem trouxer aquele tipo de bracelete.
A minha mãe pensava muito na minha defunta irmã. Andava sempre com uma fotografia dela. Mas ela só durou uma semana depois de nascer. Parece que os maus espíritos da aldeia tinham inveja da sua beleza. E como todos aqueles feiticeiros vinham rondar de noite a minha irmã, acabaram por lançar um feitiço à casa. Foi por isso que os nossos antepassados quiseram que a minha irmã fosse para o céu, para junto de Deus, ao lado dos outros anjos, para nos proteger.
Quando ela morreu, os meus pais abandonaram a aldeia de Mouyondzi e foram instalar-se na cidade.
Eu nasci dois anos depois deste triste acontecimento. Mas mesmo assim, os feiticeiros da aldeia de Mouyondzi vingaram-se porque lançaram os maus espíritos para dentro da barriga da minha mãe. E eu nunca mais tive irmãos nem irmãs por causa daquela maldição. Com o passar do tempo, senti que não podia guardar por mais tempo o segredo destas conversas noturnas com a Minha Irmã-Estrela.
Decidi falar a um colega da escola. Chamava-se Nestor. E como Nestor não queria acreditar em mim, fui uma noite queixar-me à minha irmã.
— Sabes, o Nestor é mau.
A Minha Irmã-Estrela ficou muito admirada:
— Porque dizes que é mau?
— Porque se senta sempre ao fundo da sala para se meter com as meninas. E depois provoca-me, mas eu não lhe faço nada.
— E é por isso que dizes que é mau?
— Também disse que sou infeliz por não ter nenhum irmão nem irmã. Mas da última vez falei-lhe de ti…
— E que te respondeu?
— Não acreditou em mim. Disse que conto tolices e que não passo de um mentiroso. Também disse que tu não existes porque uma noite ele foi para o pátio e não te viu no céu como te estou a ver agora. Disse que só viu as estrelas que qualquer pessoa pode ver durante a noite.
— E o que lhe respondeste?
— Disse que se tu não lhe apareceste naquela noite, é porque estavas cansada e a dormir com os outros anjos.
— E ele acreditou?
— Disse para parar com as mentiras, se não puxa-me as orelhas e vai falar do meu segredo a toda a escola, na hora do recreio.
— E que queres que eu faça para provar a esse Nestor que existo?
— Quero que vás ter com ele, que lhe apareças, que fales com ele como estás agora a falar comigo!
— Está bem. Diz ao Nestor que vou aparecer no domingo Tem de olhar bem para cima. Vai-me ver a mexer. Diz-lhe que desenharei para ele um cordeirinho…
O Nestor não acreditou em mim quando lhe contei a conversa que tive com a Minha Irmã-Estrela. Fartou-se de rir.
— Deves estar maluco! Não tens irmã nenhuma! A tua irmã morreu e já foi há muito!
— Não está morta, juro, Nestor, vais vê-la no domingo à noite. Ergue bem a cabeça. Vai desenhar um carneiro, um carneiro só para ti.
No domingo à noite, Nestor, levado pela curiosidade, lá saiu do quarto. Olhou para o céu. Tudo estava escuro. Nem sequer uma estrela. E depois, quando levantou mesmo bem a cabeça, viu as nuvens escuras ficarem claras e afastarem-se a pouco e pouco.
Uma estrelinha começou a piscar.
Estava sozinha porque não queria ser incomodada pelas outras estrelas.
Era a melhor forma de convencer o Nestor.
A estrela agitava-se, girava sobre ela própria.
Eu também a via, da nossa casa. O Nestor fixava o céu com muita atenção. Descobriu então um carneiro ainda mais bonito do que o que ela tinha desenhado para mim da última vez. E até mexia a cauda e a cabeça. O animal pulou alguns minutos antes de desaparecer no interior da lua que acabava de surgir, mostrando assim as outras estrelas, um pouco ciumentas.
Na segunda-feira seguinte, Nestor veio sentar-se ao pé de mim na sala de aula. Segredou-me ao ouvido:
— Ontem à noite vi a tua irmã…Desenhou para mim um carneiro branquinho e luminoso.
Eu sorri. Acabava de ganhar um amigo.
Alguns dias mais tarde, Nestor veio ter comigo, com ar triste.
Disse-me para o acompanhar até ao recreio.
— O que é que se passa, Nestor? — perguntei.
Baixou os olhos, antes de me segredar:
— Quero ver o meu irmãozinho. Morreu o ano passado, mas não o vejo no céu. Porquê? É injusto!
Pus-lhe o braço por cima dos ombros para o consolar e disse-lhe:
— Tens de esperar algum tempo. O teu irmão vai aparecer-te, se não for num dia é noutro. Talvez esteja ainda a aprender como há de fazer. Amanhã vou dizer à Minha Irmã-Estrela que vá ter com ele. Vais ver, em breve vão aparecer os dois, disso tenho a certeza.

Alain Mabanckou
Ma Sœur-Étoile
Paris, Éditions du Seuil, 2010
Histórias oferecidas à sexta-feira!
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O melhor professor da minha vida
Os pais aprendem muito com os filhos
sobre a maneira de enfrentar a vida.
Muriel Spark
Já lecionava há quinze anos quando conheci o melhor professor da minha vida. A escola era no hospital. E tratava-se da minha filha Kelsey.
Kelsey tinha nascido com paralisia cerebral, e aos cinco anos, travava uma luta contra um cancro, luta que mais tarde veio a ganhar. Deu-me lições extraordinárias de coragem e determinação, e passei a ser melhor devido à sua paciência para comigo.
Aos quatro anos, queria aprender a apertar os sapatos, como a sua melhor amiga. Eu achava-a incapaz. Devido à paralisia cerebral, Kelsey quase não podia usar os dedos da mão esquerda. E se eu não sabia apertar um sapato só com uma mão, como é que lhe ia ensinar?
Ao fim de três anos e meio de paciência, Kelsey finalmente lá conseguiu. Recordo aquele primeiro dia de férias de verão, tinha ela sete anos e meio. Eu estava a seu lado e encorajava-a. Quando afastou a mão para mostrar dois laços perfeitos, o seu rosto brilhava de felicidade e eu chorava de alegria. A verdade é que nunca ninguém lhe perguntou que idade tinha quando aprendeu a apertar os sapatos.
Com os seus êxitos aprendi o que é a determinação, e ainda muitas outras coisas mais. A rapidez nunca foi uma coisa importante na vida de Kelsey. Chegar ao fim proposto, no seu próprio ritmo, era o que mais importava.
Ao longo dos tratamentos contra o cancro, Kelsey tornou-se mestra das circunstâncias através dos seus jogos criativos. No hospital, brincava sempre ao “restaurante” e divertia-se a ser a empregada e, nós, os seus clientes. Durante horas, refugiava-se no faz-de-conta, como se não estivéssemos num hospital, mas no mundo, longe dos médicos e dos exames, um mundo do qual Kelsey tinha a certeza de um dia vir a fazer parte.
Em casa, onde se sentia certa da segurança para enfrentar os seus sentimentos mais profundos, brincava ao “hospital”. Uma vez, nesse jogo, Kelsey fez de médico chefe da equipa. Empregava termos médicos que até nós, os adultos, não compreendíamos. Brincávamos com ela, porque sabíamos que Kelsey tinha encontrado um meio de fazer face à situação.
Aos seis anos queria ter aulas de ballet. Fiquei embaraçada por ter de lhe dizer que receava que ela não fosse capaz. Os músculos estavam fracos da quimioterapia, o equilíbrio era precário, e tinha emagrecido de tal forma que só pesava quinze quilos. Eu receava não só pelo corpo, mas pelo que ela pudesse vir a sentir. Mas Kelsey não manifestava qualquer receio. Eu temia que os outros alunos pudessem fazer troça dela e não sabia como fazer ver tudo isto à minha filha. É que ela não iria desistir.
E, por isso, matriculei-a numa escola de ballet.
E Kelsey dançou! Perguntam-me se caiu? É evidente que sim. Era desajeitada? Muito. Mas nunca foi complexada ou inibida, entregava-se de corpo e alma ao que tinha de fazer, nunca afetada pelo que não podia fazer. Bastava-lhe a imensa alegria de dançar. E todos os que a viram dançar saíram dali com um sentimento especial. Andou na dança quatro anos.
Abandonou a dança porque preferia ter lições de equitação.
Desta vez matriculei-a sem hesitar.
No quinto ano, Kelsey chegou a casa muito excitada com uma ficha de inscrição para o basquete entre alunos da escola. Que grande desafio! Ela podia correr, mas só muito lentamente. Era pequena e só podia fazer uso de uma mão.
O alarme voltou a soar na minha cabeça, mas já tinha aprendido a ignorá-lo. A alegria nos seus olhos apagou todos os inconvenientes possíveis. E inscrevemo-la.
Depois da primeira aula prática, o treinador disse que tinha receio de a deixar participar no jogo. Quando nos explicou que ela poderia magoar-se, apercebi-me que receava ser responsabilizado legalmente. Mas todas as crianças que participam num jogo correm os seus riscos, disse-lhe eu, e se o risco que ela corria era maior, a sua necessidade era-o ainda mais. Após algumas discussões e um pouco mais de encorajamento, deixou-a jogar.
Durante dois anos Kelsey empenhou-se mais do que qualquer outra criança da equipa. Embora nunca tenha acertado com a bola no cesto durante os jogos, ela contribuía com outras qualidades, mais válidas para as suas companheiras de equipa. Em dois anos nunca vi uma só vez qualquer jogadora que a não considerasse um trunfo para a equipa. Depois de várias semanas de treino, quando Kelsey finalmente acertou com a bola no cesto, durante um jogo, todas as meninas presentes no ginásio, das duas equipas, pararam para a aplaudir.
Nos dias de jogo, quando parávamos na mercearia, Kelsey despia rapidamente o casaco e pousava-o no cesto. Demorei a perceber porquê. Sentia-se tão orgulhosa da camisola da sua equipa que queria ser vista com ela. Para Kelsey, agora, já não se tratava apenas de êxitos pessoais, fazia parte também de uma equipa.
Hoje, Kelsey é uma aluna do décimo ano. Saudável. Agarra-se todos os dias à vida com unhas e dentes, enfrenta novos desafios, e dá aos amigos e aos pais grandes lições de perseverança, de fé e de entrega.
Dauna Easley
Canja de Galinha para a Alma
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Mais vale um bom coração…
Há muito tempo, numa terra parecida com a tua, havia uma aldeia. Nessa aldeia viviam cinco crianças órfãs de pai. Na solidão em que se encontravam, tinham de ficar muito juntinhas para se protegerem do frio.
Um dia, a notícia chegou aos ouvidos do rei, que decidiu adotá-las.
Anunciou que iriam tê-lo por pai e que, em breve, as iria buscar.
Assim que as crianças ficaram a saber que tinham um novo pai e que esse novo pai era nada mais nada menos que o rei, sentiram uma imensa alegria. E logo que os aldeãos ficaram a saber que as crianças tinham um pai e que esse pai era nada mais nada menos que o rei, sentiram uma enorme felicidade.
Foram ao encontro das crianças e disseram-lhes o que fazer.
— Vocês têm de impressionar o rei! — explicaram. — Só aqueles que oferecerem lindos presentes são autorizados a viver no castelo.
As pessoas não conheciam o rei. Acreditavam simplesmente que todos os reis queriam ser impressionados.
Por isso, as crianças começaram a preparar os presentes para oferecer ao rei. E trabalhavam com afinco para garantir que o rei os aprovaria.
Uma das crianças sabia esculpir e, por isso, decidiu dar ao rei uma bela escultura em madeira. Pegou num pedaço de madeira de olmo e começou a talhá-la. A casca da árvore foi, assim, ganhando vida ao transformar-se nos olhos de um pardal ou no nariz de um cavalo.
Uma das irmãs decidiu presentear o rei com um quadro que captasse a beleza dos céus — um quadro digno de adornar as paredes do castelo real.
Uma outra irmã escolheu a música como forma de impressionar o rei. Durante horas a fio exercitava a voz e tocava bandolim. Ao passar à sua janela, os aldeãos ficavam parados a escutar, tal era a maviosidade da música.
Outra das crianças optou por oferecer ao rei o seu saber. Era frequente vê-la com a candeia acesa até tarde, os livros abertos à sua frente: Geografia, Matemática, Química. A amplitude do seu estudo só tinha correspondência na profundidade do seu desejo. Qualquer rei apreciaria o seu vasto conhecimento, por certo.
Mas havia uma irmã que nada tinha para dar. A sua mão era desajeitada com o canivete, os seus dedos, inábeis com o pincel. Sempre que a menina abria a boca para cantar, saíam sons roucos e ásperos. Também não conseguia ler. Estava convencida de que não tinha qualquer talento e que, por isso, nada tinha para oferecer. A única coisa de que era detentora era de um coração bondoso.
Passava o tempo à entrada da cidade a ver as pessoas chegar e partir. Tratava dos cavalos ou alimentava os animais e, com o dinheiro que ganhava, comprava comida para os irmãos e irmãs. Era uma rapariguinha simples com um coração bondoso.
Sabia os nomes dos pedintes. Fazia festas aos cães. Dava as boas-vindas aos viajantes e cumprimentava os estranhos.
— Como correu a viagem? — perguntava. — Conte-me o que aprendeu com a visita. — Como está o seu marido? — Gosta do seu novo trabalho?
Tinha sempre muitas perguntas para fazer, porque o seu coração era grande e importava-se com toda a gente. Para ela, todas as pessoas, pedintes ou ricos, eram iguais.
Importava-se com todos simplesmente por aquilo que eram.
Contudo, uma vez que a menina pensava que não tinha talento nenhum e que, por isso, nada tinha para oferecer, receava que o rei ficasse desiludido. Recordou-se do conselho dos aldeãos e quis fazer um presente para o rei.
Pegou num canivete e foi ter com o irmão entalhador.
— Podes ensinar-me a talhar? — perguntou.
— Desculpa — respondeu o jovem artesão sem levantar os olhos. — Tenho muito que fazer. Não tenho tempo para ti. Não sabes que está próxima a vinda do rei?
A menina pousou o canivete e pegou num pincel.
Foi ter com a irmã, a pintora. Encontrou-a numa colina a pintar o pôr-do-sol.
— Pintas tão bem! — disse a menina sem talentos mas com um grande coração.
— Eu sei! — respondeu a artista.
— Podes partilhar o teu talento comigo?
— Agora não! — respondeu a irmã sem tirar os olhos da tela. — Não sabes que o rei está para chegar?
A menina sem talentos lembrou-se então da sua outra irmã, a que gostava de cantar e tocar. “Ela vai ajudar-me!”, pensou.
Quando chegou à casa da irmã, encontrou uma multidão que aguardava para a ouvir.
— Irmã! — chamou. — Irmã, vim ter contigo para te ouvir e aprender o teu talento.
Mas a irmã não conseguia ouvi-la. O som dos aplausos abafava a sua voz. Pesarosa, a menina afastou-se. Foi então que se lembrou do seu outro irmão. Pegou num livro com palavras pequeninas e letras grandes e foi ter com ele.
— Não tenho nada para oferecer ao rei. — disse. — Podes ensinar-me a ler para poder mostrar-lhe a minha sabedoria?
O pequeno futuro sábio não respondeu. Estava absorto nos seus pensamentos. A menina perguntou de novo:
— Podes ajudar-me? É que não tenho talento nenhum...
— Vai-te embora! — disse o estudioso, mal afastando os olhos do texto. — Não vês que estou a preparar-me para a chegada do rei?
A menina foi-se embora cheia de tristeza. Não tinha nada para dar.
Regressou ao seu lugar na entrada da cidade e retomou a tarefa de cuidar dos animais das pessoas.
Alguns dias mais tarde chegou à cidadezinha um homem vestido de mercador.
— Podes dar de comer ao meu burro? — perguntou à menina.
A órfã pôs-se de pé num salto e olhou o rosto moreno do viajante. Tinha a pele tisnada pelo sol e uns olhos profundos. O seu sorriso bondoso aqueceu o coração da menina.
— Claro que sim! — respondeu prontamente, conduzindo o animal ao comedouro. — Vá descansado. Quando voltar, vai encontra-lo bem tratado e alimentado. Diga-me, por favor, — perguntou enquanto o burro bebia — veio para ficar?
— Só por algum tempo. Ando à procura de uma pessoa.
— Está cansado da viagem?
— Se estou!...

— Gostaria de sentar-se e descansar?
A menina indicou um banco perto do muro. O homem alto sentou-se no banco, encostou-se ao muro, fechou os olhos e adormeceu.
Acordou alguns minutos mais tarde e encontrou a menina sentada a seus pés, olhando-o fixamente. Logo desviou o olhar, com vergonha por ter sido apanhada.
— Estás aí há muito tempo?
— Estou, sim.
— O que procuras?
— Nada. O senhor parece ser um homem bondoso e ter o coração cheio de paz. É bom estar perto de si.
O homem sorriu e acariciou a barba.
— És uma menina sensata. — disse. — Quando eu voltar, temos de nos ver de novo.
Na verdade, o homem voltou passado pouco tempo.
— Conseguiu encontrar as pessoas que procurava? — perguntou a menina.
— Consegui, sim, mas estavam todas muito ocupadas.
— O que quer dizer com isso?
— A primeira pessoa que vim visitar era um marceneiro cheio de pressa para terminar um trabalho. Pediu-me para voltar amanhã. Outra era pintora. Encontrei-a sentada numa colina, mas disseram-me que não queria que a perturbassem. Uma outra cantava e tocava. Sentei-me junto de outras pessoas e pus-me a ouvir a sua música. Quando lhe pedi para conversarmos, disse-me que não tinha tempo. A outra pessoa que procurava tinha partido para a cidade para ir para a escola.
A menina abriu muito os olhos ao aperceber-se de quem realmente era aquele homem.
— Mas o senhor não se parece nada com um rei! — balbuciou.
— Esforço-me por isso! — explicou. — Ser rei pode ser muito solitário. As pessoas comportam-se de forma estranha quando estão comigo. Pedem-me favores. Tentam impressionar-me. Fazem-me muitas queixas…
— Mas não é para isso que existe um rei? — perguntou a menina.
— Com certeza, — respondeu o rei — mas há alturas em que me apetece simplesmente estar com as pessoas. Há alturas em que me apetece simplesmente conversar com as pessoas – saber acerca do seu dia, rir, chorar. Há alturas em que me apetece simplesmente ser o pai delas.
— Foi por isso que adotou as crianças?
— Precisamente. Os adultos acham que têm de me impressionar; as crianças não. Só querem conversar comigo. Sabem que eu lhes tenho amor simplesmente por aquilo que são.
— Mas os meus irmãos e as minhas irmãs estavam muito ocupados?
— Estavam, sim. Mas eu hei de voltar. Talvez num outro dia tenham mais tempo.
A menina hesitou.
— E eu, meu senhor? Não tenho nenhum talento, mas gostava de ser sua filha.
O rei sorriu.
— Minha querida, tens o maior talento de todos: bondade, tempo, amor. É claro que serás minha filha. Tenho-te amor por simplesmente seres quem és.
E foi assim que as crianças com muitos talentos mas sem tempo perderam a visita do rei, enquanto a menina, cujo único dom era o seu coração, passou a ser a filha do rei.
Max Lucado
Just the way you are
Illinois, Crossway Books, 1999
(Tradução e adaptação)
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Uma árvore pequena mas resistente
À entrada do bosque erguia-se um enorme e velho carvalho.
No outono, o sol brilhava, a chuva caía e o vento soprava levemente.
Certo dia, uma bolota soltou-se de um ramo e caiu no chão. Um esquilo, vindo do bosque, viu a bolota. Já tinha comido bastante naquele dia, por isso apanhou-a e levou-a para o campo onde a enterrou, guardando-a para o inverno.
Chegou então o inverno.
Por vezes o sol brilhava, mas quase sempre a chuva caía e o vento soprava. A geada dançava de manhã cedo e espalhava, como que por magia, uma fina camada de neve pelo campo.
O esquilo escavou à procura de nozes e bolotas, Mas a bolota do velho carvalho estava bem escondida na terra.
E depois chegou a primavera.
O sol brilhava, a chuva caía e, por vezes, o vento soprava.
Na bolota surgiu uma pequena fenda. E logo um pequeno rebento assomou, ao mesmo tempo que uma pequena raiz se entranhou na terra.
Na ponta do rebento duas pequenas folhas brilhantes de cor castanha alaranjada cresciam.
Com o calor ficaram de um verde viçoso.
À volta do rebento, a erva crescia cada vez mais.
O rebanho pastava no campo, mordiscando a erva. Depois, afastava-se.
As vacas devoravam a erva com as suas línguas enormes e as patas pesadas pisavam o chão. Depois, afastavam-se.
Escondido na erva, a pequena bolota crescia.
E transformava-se numa jovem árvore.
Passaram-se duas estações.
O sol brilhava… a chuva caía… o vento soprava… e a geada dançava. Em cada estação, rebentavam novas folhas na pequenina árvore. E o caule crescia e engrossava um pouco mais que no ano anterior. Na terra, a raiz ramificava e enterrava-se mais funda, tornando-se mais firme.
Uma bela primavera, uma ovelha mordeu a casca da pequena árvore e danificou-a.
Outra ovelha mordiscou as folhas e quebrou a haste. No entanto, ainda que fosse pequena e frágil, a árvore era resistente.
Uma nova casca nasceu no pequeno caule.
E dois novos rebentos brotaram na haste quebrada.
Naquele outono, o sol escondia-se frequentemente atrás das nuvens.
A chuva caía com abundância.
Certa noite, o vento uivava e soprava em rajadas, fustigando, sibilante, o bosque. De repente, feroz e zangado, rodopiou no ar e precipitou-se contra o velho carvalho com estrondo.
Ouviu-se um rangido. Algo se quebrara: com um movimento vigoroso, o vento arrancou as raízes apodrecidas do velho carvalho.
Groboum! E a árvore abateu-se sobre o solo.
Na manhã seguinte, o vento tinha acalmado.
Deixara de chover. E o sol brilhava ainda débil através da neblina.
No campo, junto ao bosque, o velho carvalho estava agora por terra.
O grosso tronco jazia de lado.
Por todo o lado havia ramos partidos.
Onde existira durante séculos um enorme carvalho, havia agora um buraco a descoberto.
Ao lado do buraco, as raízes arrancadas apontavam para o céu.
Escondido no campo, debaixo das folhas e dos ramos, encontrava-se o pequeno carvalho.
Vieram homens com trator e atrelado.
Cortaram os ramos e o tronco do velho carvalho.
Lançaram numa pilha os velhos ramos, os galhos mais finos e as raízes apodrecidas.
As botas pesadas calcavam a terra à volta do pequeno carvalho.
Depois, os homens deitaram fogo à pilha da lenha podre.
Tudo o que restou da árvore imensa foi um monte de cinza branca.
Mas, no campo, o pequeno carvalho continuava vivo e crescia.
Com o passar dos anos, o pequeno carvalho tornou-se mais alto e mais largo.
E foi crescendo acima da erva e do rebanho, das vacas corpulentas que pastavam.
Chegaram as aves que construíram os seus ninhos na junção dos ramos.
E centenas de lagartas banqueteavam-se com as folhas da jovem árvore.
Em cada primavera e em cada verão, o sol brilhava e a chuva caía.
No outono, as bolotas caíam no chão.
Então, num certo outono, um gaio saiu do bosque.
Com o bico, apanhou uma bolota e enterrou-a no campo ali perto.
E assim permaneceu, escondida na terra, até à primavera seguinte…quando um pequeno rebento surgiu, que mais tarde se transformou numa pequena árvore robusta.

Helen Peacock
The strong little tree
London, Little Tiger, 2002
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Com vista para o mar
O velho Almerindo mora num apartamento com vista para o mar. Nós moramos um piso abaixo, mas não vemos mar nenhum. Isto porque o Sr. Almerindo mora no parapeito da janela. Senta-se lá o dia inteiro, e talvez também toda a noite, mas já não tenho a certeza, porque nessa altura estou na cama.
Do parapeito da janela, o Sr. Almerindo consegue ver o mar. Já mo mostrou uma vez. Os meus pais deixaram-me ir a casa dele, lá acima, e até me sentei ao lado dele no parapeito, mas ver, não vi nada. Mar, pelo menos não vi. Só o prédio do lado, as paredes cinzentas e sujas, e a cabeça da D. Gracinda, que também estava a olhar pela janela. Lá ao fundo, na rua, estava, nesse momento, a passar o elétrico.
— Ouves? — perguntou-me o Sr. Almerindo, e eu respondi:
— Sim — mas estava a referir-me ao elétrico.
— Há dias em que faz mais barulho — disse-me o Sr. Almerindo, satisfeito, ao tirar-me do parapeito —, principalmente nos dias em que o mar está agitado, quando o vento é forte.
Eu não disse mais nada, mas pude imaginar muito bem o mar. Desde que passámos a ir todos os verões para Itália, para a praia, basta-me fechar os olhos, que o vejo logo à minha frente. Todo azul. Se calhar, o Sr. Almerindo também tem sempre os olhos fechados quando está sentado no parapeito.
— O velho está maluco! — diz a D. Gracinda de cada vez que vem visitar-nos e contar à minha mãe as novidades do prédio. — Senta-se à janela a ouvir o barulho das ondas do mar!
E bate com o indicador direito na testa.
— Senta-se no parapeito da janela, bem no centro de Viena, a ver os veleiros a passar!
E leva novamente o indicador à testa, meneando a cabeça.
— O vagabundo do mundo! Aluga-se parapeito com vista para o mar!
A minha mãe não faz qualquer comentário quando a D. Gracinda fala assim do Sr. Almerindo. Ela gosta dele, tal como eu.
— Tem muita imaginação — responde habitualmente.
E eu já sei o que a D. Gracinda responde:
— Até demais, se quer que lhe diga. Demais!
Quando saio de manhã para a escola, o Sr. Almerindo já está no seu parapeito, com a janela toda aberta. Muitas vezes digo-lhe adeus. Às vezes ouço-o ainda gritar:
— Hoje há vento forte! — ou: — Cuidado! O mar está muito agitado!
Uma vez atirou-me da janela um saquinho de rebuçados, que eu apanhei por um triz.
— São as tuas provisões para a viagem — gritou-me, acenando um lenço branco. — O barco vai partir!
Raramente o encontrei na rua. Uma vez, a fazer compras na loja da D. Rosa, logo ao virar da esquina. Fixou o olhar na minha pasta nova e disse, entusiasmado:
— Então estes é que são os novos barcos insufláveis? Que modelo fantástico!
Depois, disse-me adeus com a mão, e foi-se embora.
Na semana passada, de um momento para o outro, deixei de ver o Sr. Almerindo no parapeito da janela. Não o vi na segunda-feira, não o vi na terça-feira, e na quarta também não. Ele continuou desaparecido, e a janela fechada. A D. Gracinda contou então à minha mãe que o tinham vindo buscar numa ambulância.
— Mas já está melhor. Sabe, é o coração. Parece que foi por isso que, na altura, o mandaram para a pré-reforma. Mas se quer que lhe diga…
E voltou a levar o dedo à testa.
— Pois, pois, D. Gracinda — atalhou a minha mãe rapidamente, tomando nota em seguida do nome do hospital para onde tinha sido levado o Sr. Almerindo.
Ontem, o meu pai e eu fomos visitá-lo ao hospital. A minha mãe quer lá passar amanhã. Tivemos de procurar muito até encontrar o quarto, mas ele não estava lá, pelo menos na cama. Trazia vestido um pijama às riscas brancas e verdes, fora de moda, e estava sentado no parapeito. A janela estava escancarada. Olhou para nós, muito admirado quando nos viu. Fez-nos um sinal com a mão para irmos à janela e apontou para o pátio alcatroado, em baixo, onde, naquele momento, passeavam alguns doentes.
— Ah, os passeios à beira-mar! — exclamou o meu pai, apertando com força a mão do velho Almerindo.
— Que pena! — disse o Sr. Almerindo, colocando a mão no meu ombro. — Hoje não há vento. Não há ondas altas.
E ali ficámos bastante tempo, o Sr. Almerindo, o meu pai e eu, a olhar para uma senhora idosa, de canadianas, a ser ajudada a atravessar o pátio.
Heinz Janesch
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Os pauzinhos de marfim
Havia, no reino de Song, um senhor não muito abastado chamado “Fang”. Vivia numa modesta residência cercada de florestas e de alguns campos. A vida era difícil nestas remotas regiões da China e o senhor Fang não era muito mais rico do que os camponeses que para ele trabalhavam. Um dia, um mensageiro apresentou-se à porta de Fang.
— Senhor — disse. O meu amo, o rei Qi, deu uma queda do cavalo não muito longe daqui. Estamos a precisar de ajuda…
Fang mandou logo chamar o seu criado:
— Vai procurar os nossos camponeses, disse-lhe. Vamos socorrer este nobre senhor.
Guiados pelo mensageiro, Fang e os camponeses meteram-se a caminho.
Depressa chegaram a uma clareira onde depararam com uma riquíssima comitiva. Havia carruagens forradas a seda, soldados transportando longos chuços ornamentados com auriflamas, cavaleiros com capacetes emplumados e uma multidão de criados. Junto a um cedro, estava deitado o rei Qi. Ao seu rosto colavam-se esgares de dor.
Fang aproximou-se do rei e cumprimentou-o.
— Em que poderei ser-vos útil, Majestade? — perguntou.
— Creio ter partido a minha perna — respondeu o rei. Já mandei que viesse o meu médico pessoal, mas apenas deve chegar amanhã. Seríeis capaz de me acolher no vosso palácio, enquanto espero por ele?
— A minha morada não é digna de Vossa Majestade… mas está à vossa inteira disposição — respondeu Fang respeitosamente.
E ordenou aos camponeses que transportassem o rei até sua casa.
♦♦♦♦
Quando chegou ao palácio de Fang, o rei Qi reconheceu que o alojamento era bem pobre. Mas não deixou transparecer o seu pensamento. Fang providenciou para que o rei se instalasse na sua própria cama e ordenou ao cozinheiro que preparasse o que de melhor tinham.
— O séquito que vos acompanha pode instalar-se no pátio — disse ele ao rei. A minha casa é demasiado pequena para alojar todos, mas vou fazer chegar-lhes algo para comer.
— A tua casa tem tanto de pequena como o teu coração tem de grande — agradeceu o rei Qi.
À noite, o cozinheiro serviu o porco salgado que estava reservado para a festa do deus Macaco.
— Talvez esta não seja uma iguaria suficientemente requintada para um rei como vós — desculpou-se Fang.
— Isso não importa! — exclamou o rei Qi sorrindo. O teu cozinheiro preparou um verdadeiro repasto próprio de um imperador!
De pé e perto da cama, Fang pensou que devia ser bom comer assim todos os dias…. E que, se essa fosse a vontade do rei, provaria de bom grado o cozinhado. No fim da refeição, Fang retirou-se, recuando.
— Que a noite vos traga o descanso, Majestade, disse.
— E que a vós traga a paz, respondeu o rei Qi.
Assim, o rei Qi pôde esperar o seu médico num belo colchão de plumas, enquanto Fang dormia com o seu criado.
No dia seguinte pela manhã, chegou o médico. Este tratou da perna do rei Qi, envolveu-a com uma ligadura e declarou:
— Majestade, podeis agora regressar a vossa casa e descansar.
O rei Qi entregou então uma bolsa de ouro a Fang.
— Tomai — disse — como agradecimento do serviço que me prestastes.
Fang cruzou as mãos sobre o peito, dizendo:
— Majestade, ofendeis-me. Não posso aceitar dinheiro de alguém que recebi como convidado.
O rei Qi arranjou então outra forma de agradecer ao seu hospedeiro sem ter de vexá-lo. Uma vez instalado numa das carruagens pelos seus criados, ofereceu a Fang uns pauzinhos de marfim. Fang juntou as mãos, abanou a cabeça e respondeu:
— Vejo que Vossa Majestade faz absoluta questão de me agradecer. E, assim sendo, aceito de bom grado este presente do qual não me sinto merecedor.
Guardou, então, os pauzinhos de marfim na sua manga.
Os acompanhantes do rei Qi puseram-se a caminho. As couraças dos soldados cintilavam, as auriflamas batiam ao vento e por toda a parte a seda espalhava mil reflexos. O senhor Fang estava completamente deslumbrado com tudo aquilo.
— Como deve ser agradável viajar assim acompanhado de uma escolta real – pensava ele.
O rei Qi cumprimentou-o uma última vez e toda aquela real parafernália desapareceu na primeira curva do caminho.
♦♦♦♦
Ao meio-dia, quando o cozinheiro trouxe o prato de arroz, Fang tirou os pauzinhos de marfim da sua manga.
— São magníficos, admirou-se ele.
Efectivamente, estes pauzinhos feitos do melhor marfim estavam finamente gravados e, nas extremidades, ornados de pedras preciosas. Eram de grande valor: só os soberanos mais poderosos podem desfrutar de tal tesouro.
— Como pude comer todo este tempo com miseráveis pauzinhos de madeira? — pensou Fang.
Fang mergulhou os pauzinhos de marfim na tigela e levou um bocado de arroz à boca. Cuspiu-o imediatamente, gritando:
— Este arroz é indigno dos meus maravilhosos pauzinhos! Cozinheiro! Trata de me trazer faisão…
— Senhor, surpreendeu-se o cozinheiro, faisão?! Não estávamos a guardá-lo para o Ano Novo?
— Quero comer faisão com os meus pauzinhos de marfim! — exigiu Fang.
— Vou prepará-lo de seguida e servi-lo-ei esta noite — disse o cozinheiro fazendo uma pequena vénia.
O cozinheiro preparou o faisão da melhor das maneiras. O odor era suave, a carne delicada e dourada estava no ponto certo. Um regalo digno de um rei… Mas quando trouxe o prato, o senhor Fang pôs-se a berrar:
— Faisão em louça de barro! Quando se têm paus de marfim, come-se em louça de ouro! Que vá alguém imediatamente comprar um serviço!
O cozinheiro afastou-se, repetindo a vénia.
Enviou sem demora o criado à cidade para comprar louça de ouro. Era já noite cerrada quando este chegou da sua missão. Em caixas de madeira e protegida com palha, trazia a mais bonita e a mais cintilante das louças de ouro. O magro tesouro do senhor Fang tinha sido gasto na totalidade.
No dia seguinte, o cozinheiro trouxe o resto do faisão numa travessa de ouro e serviu o senhor Fang num prato do mesmo metal.
— Como é agradável, pensava Fang, provar pratos requintados em louça de ouro com pauzinhos de marfim! Estou satisfeito como um rei. Aliás, esse é o título que quero usar a partir de agora: rei Fang!
No fim da refeição, pousou os pauzinhos sobre a mesa.
— Uma mesa de madeira! — gritou de repente. E nem sequer tem toalha! Isto é indigno de mim!
Chamou o criado e disse-lhe:
— Um rei come sempre numa mesa de mármore coberta com toalha de seda. Que se compre imediatamente o que falta!
O criado baixou a cabeça e murmurou:
— Senhor Fang, o tesouro está vazio. A louça de ouro comprada foi extremamente cara…
A cólera de Fang tornou-se violenta.
— Preciso de uma mesa de mármore e de uma cobertura de seda! Vou aplicar um novo imposto.
— Mas, Senhor, disse o criado, os vossos camponeses são tão pobres…
— Basta! — atalhou Fang. — Preciso de dinheiro!
Os camponeses entregaram tudo até à última moeda e o rei Fang mandou comprar a sua mesa de mármore e uma cobertura de seda. E taças de jade e xícaras de porcelana. Mas logo sentiu também necessidade de comprar roupas ricas e mobiliário de madeira fina, urgência em acrescentar uma torre à sua casa…
Os desejos de Fang pareciam não ter limites. E continuava dizendo:
— Nada é demasiado bom para quem tem pauzinhos de marfim!
E os camponeses foram obrigados a vender as suas colheitas antes do inverno para satisfazer os desejos do Rei Fang.
Uma noite, a neve começou a cair. Fang estava sozinho no seu palácio gelado.
— Estou a ficar gelado! — exclamou ele. Mandem acender o lume!
— Já não há madeira — respondeu o criado.
— Então, tragam-me qualquer coisa para comer! — retorquiu ele.
— Já não temos arroz. — disse o cozinheiro.
Fang pediu que comprassem só o arroz necessário. Mas foi-lhe dito que não lhe restava a mais pequena moeda.
— Peçam aos comerciantes da cidade que me dêem crédito.
— A vossa dívida na cidade é imensa. — disse o criado — Já ninguém aceita dar-vos crédito.
Fang deu um murro na mesa.
— Aplique-se um novo imposto! — gritou.
— Majestade, disse humildemente o criado — os camponeses mal têm já para comer. Fizestes com que vendessem o pouco que lhes restava para que começásseis a construir a torre.
O Rei Fang cerrou os punhos. A situação começava a escapar-lhe. Furioso, aproximou-se da janela.
♦♦♦♦
Lá fora, um vento glacial varria o cimo das árvores, levantando turbilhões de neve. A torre em construção tremia no seu esqueleto de andaimes. O rei Fang dirigiu o olhar para a aldeia que, devido ao frio, estava deserta. Reparou então que nenhuma das chaminés deitava fumo. Voltou-se com um ar triste e ordenou:
— Deixem-me sozinho!
Sem ninguém por perto, Fang passeou o olhar pela sala grande e fria. A louça de ouro estava vazia, a toalha amarrotada, os móveis ricos cobertos de poeira… Apercebeu-se então dos pauzinhos de marfim. Pareceu-lhe ver neles esculpidos horríveis dragões. Achou que as pedras preciosas tinham um brilho maléfico…
— Foram estes pauzinhos que me puseram louco. — gritou de repente.
Pensou nos seus camponeses que estavam a tremer nas suas cabanas onde faltavam alimentos e madeira. E tomou uma decisão…
O rei Fang reuniu os seus camponeses no pátio do castelo.
— Ide buscar as vossas carroças. Preciso da ajuda de todos.
Na multidão corriam murmúrios. Que mais poderia pedir-lhes o rei Fang? Mal tinham com que alimentar os filhos… Mas não estavam ainda desorientados ao ponto de desobedecer. Foram, então, a casa e logo voltaram com as carroças.
— Sigam-me — disse Fang, entrando no castelo.
Já no interior, os camponeses intimidados descobriram as riquezas acumuladas pelo seu rei. Os rostos endureceram-se e alguns começaram a resmungar entre dentes. Era o suor do seu trabalho que o rei Fang transformara em ouro e seda!
Fang tentou acalmar a ira que sentia aumentar na multidão.
— Amigos! — disse — Afastai os vossos receios. Os dias felizes irão voltar …
Os camponeses entreolharam-se sem compreender. Não estavam já suficientemente penalizados para ainda terem de assistir àquele desfile de riquezas? E de que tão belos dias estaria a falar o seu rei?
— Carregai tudo nos vossos carros — continuou Fang. — A louça, os móveis, os tecidos de seda…
Os rostos dos camponeses iluminaram-se. Desta vez, tinham compreendido.
E depressa se mexeram, encaixando como puderam os móveis nas carroças.
— Peço só que me deixem a mesa de madeira. — disse o rei Fang.
Carregadas as carroças, dirigiram-se em cortejo para a cidade.
Cruzaram as portas da urbe e Fang encaminhou os carros para o largo do mercado. Ordenou que parassem frente à loja de um negociante. A venda da louça de ouro, de móveis tão requintados e dos restantes objectos de valor rendeu uma bela quantia. Com este dinheiro, Fang pagou as suas dívidas e mandou comprar arroz, carne seca e madeira que todos transportaram.
Mas ainda não estava satisfeito…
Numa outra loja, mostrou os seus preciosos pauzinhos de marfim. O joalheiro observou-os demoradamente. Depois, levantou a cabeça com admiração.
— Tem aqui umas belíssimas peças! — exclamou. — Dignas de um…
— De um rei poderoso que já não quero ser! — interrompeu o senhor Fang. — Quanto me dá por elas?
Os pauzinhos de marfim eram valiosos e o comerciante deu-lhe um bom dinheiro por eles. Fang pôde assim mandar encher outro carro com alimentos e comprar, além disso, vestimentas quentes para todos os habitantes da aldeia.
No largo do mercado, os carros estavam carregados e os aldeões sorriam apesar do frio. Já todos desejavam só mais uma coisa: voltar para casa. Com a bolsa e o coração mais confortados, o rei Fang deu o sinal de partida. Também ele tinha pressa de regressar.
— Meus amigos, disse. — Partamos! Estamos de regresso…
♦♦♦♦
As carroças seguiram pelos caminhos gelados que levavam à aldeia.
E foi assim que no pino do Inverno todos os aldeões se reuniram no salão do pequeno castelo. Crepitava um belo fogo na chaminé, espalhando um calor suave. Na mesa de madeira, o cozinheiro serviu, em malgas de barro, a melhor das refeições. Foi uma festa da qual se falou muito tempo na aldeia.
E nunca o rei Fang teve tanto prazer em comer com simples pauzinhos de madeira…
Didier Dufresne
Les baguettes d'ivoire
Mont-près-Chambord, Bilboquet, 2004
(Tradução e adaptação)
Histórias oferecidas à sexta-feira!
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O ás dos pauzinhos
L |
ing Sung foi pela primeira vez à escola uma segunda-feira. Contudo, na quinta-feira seguinte, decidiu logo que não queria lá voltar.
Havia muitas coisas que os outros meninos conseguiam fazer, mas ele não. Como apertar os cordões, por exemplo. Terry conseguia apertá-los e desapertá-los vezes sem conta, com todos a verem como se fazia. Quando foi a vez de Ling Sung, os dedos deste ficaram emaranhados e os cordões foram cada um para seu lado.
Manjit sabia escrever o nome dela. Depois de o ter escrito em todas as suas coisas, pintou-o em letras grandes. As Professoras Smith e Dhanjal elogiaram-na e Manjit mostrou a pintura à turma inteira.
Ling Sung também tentou escrever o seu nome, mas não sabia desenhar as letras nem as sabia ordenar. A única coisa que Ling Sung sabia fazer era apertar os botões do casaco, o que só se fazia quando eram horas de ir para casa.
Na quinta-feira, porém, sobrou-lhe um botão e o casaco ficou torto. Já Sharon tinha apertado o dela sem dificuldade e a professora mostrou-se contente com a sua habilidade.
Mas a professora nada disse a Ling Sung; apenas lhe apertou o casaco corretamente, enquanto falava com o pai de Sharon.
Todos estes episódios faziam com que Ling Sung não quisesse voltar à escola. Preferia passar o dia a fazer coisas de que gostava: ver os palhaços de nariz vermelho no parque; dar cambalhotas com o gato a assistir; atirar água à mãe, quando ambos nadavam na piscina, ou ajudar a dar banho à irmãzinha.
Contudo, os pais insistiram em que voltasse à escola no dia seguinte. À hora do lanche, Anis mostrou a todos que era capaz de apertar o seu avental sozinho, enquanto Ling Sung nem o avental com velcro conseguiu apertar. Quando os coleguinhas disseram que ele fazia um barulho incomodativo, amuou, cansado de ouvir os elogios feitos aos outros e às coisas que eles sabiam fazer.
Por que razão não sabia ele fazer algo bem?

De repente, reparou em dois grandes pincéis que alguém se tinha esquecido de guardar. Começou a brincar com eles e até se esqueceu de que eram horas de comer as bolachas. Quando quase deixou cair o prato ao chão, as suas bolachas partiram-se em pedacinhos.
Terry riu-se e disse:
—
Pareces mesmo um artista com esses pauzinhos no ar! — disse.
Então, Ling Sung pegou nos dois pincéis e usou-os habilmente para levar os bocados de bolacha à boca. Estava habituado a fazê-lo, porque era assim que comia em casa. A professora aplaudiu-o e disse:
— Vejam só o que Ling Sung sabe fazer! Não é um menino inteligente?
Encantada, pediu-lhe:
— Por favor, faz isso outra vez, Ling Sung.
Depois perguntou:
— Mais alguém sabe usar pauzinhos?
Mais ninguém sabia.
— Onde está a câmara de filmar? — perguntou a professora.
Ling Sung sabia usar os pauzinhos na perfeição e segurar o prato bem perto da boca para não deixar cair nenhum pedacinho de comida. Tinha tido dificuldade em pequenino, mas agora fazia-o com toda a facilidade.
Todos queriam aprender como se fazia, apesar de ser bem difícil.
— Mostra-nos outra vez como é, Ling Sung — pediram os colegas.
Espalharam pedacinhos de bolacha pelos pratos e começaram todos a tentar.
Ling Sung também ajudou a professora.
— Não consigo fazer isto muito bem — admitiu a professora.
Em seguida, os colegas mostraram a Ling Sung como se faziam as coisas que eles sabiam fazer. Por exemplo, Manjit ajudou-o a escrever.
— O S escreve-se como se desenhasses uma serpente.
Terry mostrou a Ling Sung como apertar os cordões.
— Aperta-os assim, não os deixes fugir!
Sharon ensinou-lhe como apertar o casaco.
—
Não comeces pelo meio. Começa por cima ou por baixo, e depois vais descendo ou subindo. É fácil.
E Anis ajudou Ling Sung a colocar o avental bem apertado.
Ling Sung mal podia esperar para contar o que acontecera na escola ao pai, quando este o foi buscar ao fim do dia. Tinha finalmente descoberto que sabia fazer algo que os outros tinham elogiado.
— És um verdadeiro ás dos pauzinhos! — exclamou o pai todo contente.
Bernard Ashley
Cleversticks
New York, Crown publishers, 1991
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As minhas duas avós
Alvina tinha duas avós de quem gostava muito: a avó Vero e a avó Rose.
A avó Vero nasceu em Trinidad, nas Ilhas das Caraíbas, e a avó Rose nasceu no Yorkshire, na cidade de Barnsley.
Agora vivem as duas na mesma cidade onde moram Alvina e os pais.
Alvina estava sempre desejosa de visitar as avós, pois adorava ouvir as histórias que contavam sobre quando eram meninas.
— Conta-me outra vez o que fazias em Trinidad — pedia Alvina.
— Nunca te cansas de ouvir sempre as mesmas histórias, Alvina? — perguntava a avó Vero.
— Nunca! — respondia Alvina.
— Quando tinha a tua idade, íamos para a praia e chapinhávamos no mar tropical — contava a avó Vero, com um grande sorriso na cara. — Nunca queríamos sair daquela água quentinha.
— Como eu adorava fazer isso, avó Vero! — exclamava Alvina.
— Bom, um dia, vou levar-te a Trinidad, minha querida – prometeu a avó Vero.
Quando Alvina estava com a avó Rose, perguntava-lhe:
— Passavas o dia a nadar quando eras pequenina?
— Não, querida! — ria-se a avó Rose. — O mar em Blackpool é muito frio. Mas brincávamos na praia o dia todo e também andávamos num burrinho. Havemos de ir a Blackpool um dia para experimentares.
— Oh, sim, por favor! — pedia Alvina.

Ambas as avós adoravam ouvir música e Alvina também. A avó Rose gostava de bandas de música.
— Esta música recorda-me os tempos em que íamos ao parque, aos domingos, para ouvir as bandas locais. No dia 1 de maio, costumávamos ir ver os grupos de danças folclóricas a rodopiar à volta do mastro.
— Vamos tentar fazer o mesmo, avó Rose! — sugeriu Alvina.
E caíam ambas cansadas e risonhas, depois de tentarem imitar os gestos dos dançarinos populares.
A música preferida da avó Vero eram os tambores de aço típicos da sua terra.
— Era isto que se tocava em Trinidad — explicava a avó Vero a Alvina. — Era um ritmo que dava vontade de dançar nas ruas, no carnaval. Vamos, Alvina, mexe a cintura, enquanto danças.
— Assim, avó Vero?
— Isso mesmo, minha querida.
Um dia, as duas avós foram a casa de Alvina para tomar chá. A mãe de Alvina anunciou:
— No próximo mês, faremos dez anos de casados.
— Porque não vão dar um passeio os dois? Ficarei muito feliz por tomar conta da Alvina — disse a avó Vero.
— Não, cuidarei eu dela. Pode vir para minha casa — sugeriu a avó Rose.
As duas avós discutiram sobre quem cuidaria de Alvina.
Por fim, Alvina disse:
— Porque não ficam ambas aqui e tomam as duas conta de mim?
As duas avós não se mostraram muito agradadas, mas concordaram em cuidar ambas de Alvina.
Chegou finalmente o dia em que os pais de Alvina iam viajar.
— Divirtam-se! — desejou Alvina aos pais, enquanto os abraçava.
— Vamos sentir a tua falta! — disse a mãe.
— Porta-te bem com as tuas avós! — disse o pai.
— Vou portar-me — prometeu Alvina.
— Não se preocupem. Cuidarei bem da Alvina! — prometeu a avó Vero.
— E eu também! — prometeu a avó Rose.
Depois de se despedirem dos pais, Alvina teve uma ideia:
— Vamos jogar um jogo!
Podemos jogar dominó.
Podemos jogar jogos de tabuleiros.
Mas Alvina não sabia que jogo escolher. Por isso, perguntou:
— E se fôssemos dar um passeio?
Vamos ao parque. Podemos dar comida aos patos.
Podíamos ir ver os cutias e os tucanos.
Alvina não sabia de novo o que escolher e, por isso, sugeriu:
— E se comêssemos alguma coisa primeiro?
Vou fazer uma empada de rim com puré de batata e cenoura.
Não, deixa-me cozinhar um arroz de ervilhas com frango e bananas.
Alvina não conseguia decidir que avó devia cozinhar.
Por isso, tiraram algo do congelador.
Antes de Alvina se deitar, as duas avós queriam ambas contar-lhe uma história.
— Que tal uma lenda africana? — sugeriu a avó Vero.
— Ou a história do João e do feijoeiro mágico? — sugeriu a avó Rose.
Alvina não sabia que história escolher e, por isso, só disse que estava muito cansada para ouvir uma história e que preferia dormir.
Na manhã seguinte, Alvina teve uma ideia mal se levantou.
Quando estava sentada com as duas avós à mesa do pequeno-almoço, disse:
—
Avó Vero e avó Rose, como adoro as coisas que ambas fazem por mim, penso que será boa ideia fazerem-nas à vez. A avó Vero pode fazer tudo aquilo de que gosto num dia e a avó Rose pode fazer tudo aquilo de que gosto noutro!
E foi isso mesmo que aconteceu.
Jogaram dominó, como a avó Vero fazia quando era criança. Depois, a avó cozinhou arroz de ervilhas com frango e bananas e fez pudim de manga para sobremesa.
— Isto é muito bom, avó Vero! — exclamou radiante Alvina.
— Muito bom mesmo! — confirmou a avó Rose — Tens de me dar esta receita.
Foram, depois, visitar os cutias e os tucanos, animais que a avó Vero tinha visto em pequena nas florestas de Trinidad.
— Deve ter sido maravilhoso ver estes animais no seu habitat original — disse a avó Rose.
Nessa noite, a avó Vero contou uma lenda africana.
— Sempre que se sentia encurralada, Anansi transformava-se numa aranha.
— Ou quando queria pregar uma partida — acrescentou Alvina, que se entusiasmava sempre.
— Essa Anansi é muito astuta — comentou a avó Rose.
— É, pois — confirmou Alvina, cheia de entusiasmo.
Alvina deu às suas avós um grande abraço e adormeceu rapidamente com um sorriso nos lábios. As avós sorriram também.
No dia seguinte foi a vez da avó Rose.
Jogaram jogos de tabuleiro.
— Vou perder — disse a avó Rose.
— Não fiques triste, avó Rose. Ganhaste o último jogo! — consolou-a Alvina.
Depois, foram ao parque e Alvina deu de comer aos patos.
— Aquele patinho é guloso! Está a comer o pão todo! — Alvina riu-se.
— Vou dar-lhe algum pão também. Isto é divertido! — disse a avó Vero.
A avó Rose cozinhou empada de rim com puré de batata e cenoura, e fez tarte de maçã para a sobremesa.
— Tens de me mostrar como se faz esta tarte, Rose — disse a avó Vero, deliciada.
Antes de irem dormir, a avó Rose contou a história de João e o feijoeiro mágico.
E assim as duas avós partilharam os dias da semana e ficaram a conhecer-se melhor.
Quando os pais de Alvina voltaram da viagem, a menina estava muito feliz!
— Divertiste-te com as avós? — perguntou a mãe.
— Oh, sim! Divertimo-nos muito! Fizeram-me sentir muito especial.
— Isso é porque gostamos muito de ti! — disseram as duas avós, dando-lhe um grande abraço.
Floella Benjamin
My two Grannies
London, Frances Lincoln, 2007
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O verão da liberdade
Joe e John Henry são muito parecidos. Ambos gostam de jogar ao berlinde, ambos querem ser bombeiros, e os dois adoram nadar. Mas há uma coisa muito importante em que eles são diferentes: Joe é branco e John Henry é negro e, no Sul, em 1964, isso significa que a John Henry não é permitido fazer tudo o que o seu melhor amigo faz. Mas certo dia é aprovada uma lei que proíbe a segregação e abre a todos a piscina municipal. Joe e John Henry estão tão entusiasmados … Contudo, descobrem que é preciso bem mais que uma lei nova para mudar os corações das pessoas.
John Henry Waddell é o meu melhor amigo. A mãe dele trabalha para a minha. O nome dela é Annie Mae.
Todas as manhãs, às oito horas, Annie Mae desce do autocarro e sobe a longa ladeira até a minha casa. Se for verão, John Henry segue-a, saltitando.
Ambos gostamos de ajudar Annie Mae. Descascamos feijão-manteiga, varremos o alpendre e deixamos entrar os gatos… Depois, enxotamo-los para fora da casa até que Annie Mae diga “Xô! Já basta! Vão brincar!”
Jogamos ao berlinde, deixando que o calor quase nos sufoque. Depois gritamos “o último a chegar é um ovo podre!” e corremos direitinhos para as águas do riacho.
O John nada melhor que qualquer um. Nada como um peixe-gato, faz bolhinhas como um monstro do pântano, mas não nada na piscina municipal comigo. Não lhe é permitido. Portanto, fazemos um dique no riacho com pedras e paus para formar um sítio onde podemos nadar os dois.
Depois, gritamos e atiramo-nos lá para dentro!
A pele do John é da cor da manteiga dourada. E cheira sempre a agulhas de pinheiro depois de uma boa chuvada. A minha pele é da cor das traças pálidas que dançam em redor das luzes do alpendre, à noite. O John diz que eu cheiro a uma meia acabadinha de lavar.
— Ao ataque! — grito.
Revolvemos a água como um furacão e rimos até a barriga nos doer.
Depois, flutuamos de costas e lançamos jatos como as baleias.
— Vou ser bombeiro quando crescer — digo.
— Eu também! — diz o John.
Tenho dez cêntimos para sorvetes, por isso vestimo-nos e caminhamos até à cidade. Mas o John não entra comigo pela porta da frente do armazém de Sr. Mason.
Não lhe é permitido.
— Como vais, Joe? — pergunta o Sr. Mason. Pisca-me o olho e acrescenta: — Vais comer tudo isso sozinho?
O meu coração sobressalta-se.
— Um deles é para um amigo — digo, e apresso-me porta fora.
— Sim senhor, está mesmo calor lá fora! — refere ainda o Sr. Mason.
— Adoro sorvetes! — diz o John.
— Eu também! — respondo.
Todas as noites Annie Mae faz o jantar para a minha família. Prepara o milho para a sopa e estende a massa dos biscoitos. O meu pai mistura bem o seu chá gelado e comenta:
— A piscina municipal abre amanhã para todos para quem o sol nasce, qualquer que seja a cor da pele.
— É a nova lei — diz a minha mãe.
Serve-me de ervilhas e acrescenta:
— É assim que vai ser agora — todos juntos nos restaurantes, nas casas de banho, e nas bicas de água também.
Eu agito-me na cadeira.
— Desculpem! — grito para os dois e corro para a cozinha para contar ao John.
— Vou nadar na piscina municipal! — grita ele. — Será que é funda?
— MESMO muito funda — digo-lhe. — E a água é tão transparente que podes ir até ao fundo, abrir os olhos e ainda consegues ver.
— Vamos ser os primeiros! — diz o meu amigo.
— Vou levar a minha moeda da sorte, e assim podemos mergulhar para a apanhar.
Na manhã seguinte, logo que o sol espreita, lá vem o meu melhor amigo, John Henry Waddell, corre-que-corre para se encontrar comigo.
— Vamos lá! — grita — já tenho a minha moeda!
E eu corro ao lado dele até à piscina municipal. Corremos ao desafio até chegar à última colina e… estacamos. Lá estão os camiões de recolha de entulho. Trituram tudo e vão repetidas vezes até à piscina vazia. Os operários espalham asfalto fumegante dentro do buraco onde dantes costumava haver uma água límpida e brilhante.
Um deles é o irmão mais velho do John, Will Rogers.
Começamos a chamá-lo mas ele vê-nos primeiro e aponta para a rua lá em baixo — o que quer dizer “Vão para casa!” Mas os nossos pés estão presos, não conseguimos mexer-nos. Acocoramo-nos entre as ervas altas e ficamos ali, a ver tudo durante a manhã, até que a piscina fica cheia de alcatrão quente e esponjoso. Sssssss! Um vapor fumegante eleva-se no ar.
Os operários atam uma espécie de pranchas de madeira aos sapatos e pisam a superfície negra para a alisar. Will levanta a sua pá e coloca-a na parte de trás de um camião vazio. Sobe juntamente com os outros trabalhadores. A sua cara lembra uma nuvem de tempestade, e tenho a certeza que este trabalho o fez ficar muito zangado.
— Vamos! — grita um dos chefes.
E os camiões lá vão roncando com estrondo rua abaixo.
Agora está tudo tão calmo que até se consegue ouvir os sussurros da brisa por entre as ervas. Sentamo-nos na prancha e olhamos fixamente para o topo das escadas cor de prata que sobressaem acima do alcatrão. O coração bate forte no meu peito.
A voz do meu amigo é trémula.
— Os brancos não querem as pessoas de cor na piscina deles.
— Estás enganado — digo, mas sei que ele tem razão.
— Vamos regressar — acrescento. — Afinal de contas, eu nem queria nadar nesta piscina velha.
Os olhos do John enchem-se de lágrimas de raiva.
— Eu queria… — diz ele. — Eu queria nadar nesta piscina. Eu quero fazer tudo o que tu podes fazer.
Não sei o que responder. Mas enquanto voltamos para a cidade, a minha cabeça começa a fervilhar de novas ideias. Quero ir à leitaria com o meu amigo, sentar-me e partilhar um refrigerante e uma bola de gelado. Quero ir com ele ao cinema, comprar pipocas e ver o filme. Juntos. Quero ver esta cidade pelos olhos do John. Paramos em frente à loja do Sr. Mason. Aperto as mãos dentro dos bolsos enquanto tento encontrar palavras que traduzam as minhas novas ideias. Os meus dedos fecham-se em volta dos dez cêntimos.
— Queres ir comprar um sorvete? — pergunto.
O John enxuga os olhos e respira fundo.
— Quero ser eu a ir comprá-lo!
Engoli em seco e o meu coração disse que sim.
— Vamos lá ! — respondo.
Dou ao John uma das minhas moedas. Ele abana a cabeça.
— Eu tenho uma.
Olhamos um para o outro.
Depois, entramos juntos pela porta da frente.
♣♣♣
Nota da Autora
No início dos anos sessenta, o Sul dos Estados Unidos era, desde há muito, um lugar onde os negros americanos não podiam beber das mesmas fontes que os brancos, frequentar as mesmas escolas, ou desfrutar das mesmas áreas públicas.
Depois, a Lei dos Direitos Civis de 1964 foi promulgada. E declarava que “Todas as pessoas terão direito ao usufruto total e igual” de todas as zonas públicas, independentemente da “raça, cor, religião, ou origem.”
Nasci branca em Mobile, no Alabama, e passei os verões com os meus familiares no Mississippi. Quando a Lei dos Direitos Civis foi aprovada, a piscina municipal fechou. Assim como o rinque de patinagem e a gelataria. Em vez de dar, legalmente, aos negros, os mesmos direitos e liberdades dos brancos, muitos negócios no Sul preferiram encerrar portas em sinal de protesto.
Alguns deles fecharam para sempre.
No verão de 1964, os defensores dos Direitos Civis no Mississippi organizaram o “Verão da Liberdade,” um movimento a favor do registo dos americanos negros para poderem votar. Foram tempos de mudança e de grande violência racial. E foi o verão em que comecei a ter consciência do que se passava: reparava que os negros usavam a porta das traseiras, eram atendidos apenas quando já todos os brancos o tinham sido, e eram maltratados, tudo por causa da cor da pele … e apesar do que qualquer lei dissesse.
Compreendi que, para um branco, o ter assumidamente um amigo negro, e vice-versa, podia ser uma coisa perigosa. Não conseguia tirar estas ideias da cabeça e imaginava como seria ser uma criança negra da minha idade. Sonhava mudar as coisas e, no entanto, perguntava-me o que qualquer criança – branca ou negra – poderia fazer.
Assim nasceu esta história que se baseia em acontecimentos reais.
Deborah Wiles
Freedom summer
New York, Aladdin Paperbacks, 2005
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Voa, passarinho!
Moro com o meu pai num aeroporto. Como não temos casa, sempre é melhor ficar no aeroporto do que na rua. Mas temos de ter cuidado para não sermos apanhados.
Na noite passada, o Senhor Simonin e o Senhor Vernet foram apanhados. Tinham bebido demais e puseram-se a cantar. Pareciam duas vacas a mugir. Segundo o meu pai, violaram uma regra de ouro da vida nos aeroportos: nunca dar nas vistas.
O meu pai e eu fazemos tudo para não sermos notados. Misturamo-nos com a multidão e mudamos com frequência de companhia aérea. O meu pai costuma dizer:
— Gostamos de todas: Delta Air Lines, Cathay Pacific, Air Italia…
Vestimos roupas discretas e andamos com um saco de mão que contém as nossas mudas de roupa. “Não dar nas vistas” significa parecer-se com toda a gente, ou seja, parecer-se com ninguém.
Certa vez vimos uma mulher a empurrar um carrinho cheio de coisas. Vestia um casaco comprido e sujo e deitou-se num banco diante da Porta de Embarque nº 6. Seria quase impossível não reparar nela. Os seguranças cedo a expulsaram.
Como nunca dormimos no mesmo lugar, costumo perguntar ao meu pai:
— Para onde vamos esta noite?
Ele consulta o bloco-notas e responde:
— Vamos para a Royal Air Maroc, que fica na outra aerogare.
Como gostamos de andar, as distâncias não constituem problema.
Conhecemos alguns dos “moradores” do aeroporto de nome e de vista: Alfred Joffre, Annie Franeck e o Sr. Mars. Contudo, nunca nos sentamos juntos.
— Se estivermos juntos, hão de reparar imediatamente em nós — comenta o meu pai.
No aeroporto, está sempre tudo em movimento: os passageiros, os pilotos, as hospedeiras, até as mulheres da limpeza. E os aviões estão sempre a aterrar com grande ruído e até rugem ao descolar.
As bagagens caiem do tapete e as escadas rolantes sobem e descem, antes de desaparecerem debaixo de terra. Todas as pessoas se dirigem a algum lado, exceto nós. Nós ficamos sempre no mesmo lugar.
Um dia, um belo pássaro castanho entrou na gare principal e ficou preso. Esvoaçou até ao teto, atirou-se contra uma janela e caiu ao chão. Finalmente, acabou por se empoleirar numa viga alta.
— Não desistas! — ordenei-lhe em silêncio. — Ainda podes escapar!
Durante vários dias, o passarito foi voltejando a custo, porque tinha a asa ferida. Certa manhã, uma porta de correr abriu-se e ele aproveitou para sair. Vi-o erguer-se no céu. A asa parecia curada.
— Voa, passarinho, vai para casa — murmurei.
Embora não pudesse ouvi-lo, sabia que estava a cantar. Fiquei feliz por ele.
Mesmo durante a noite, o aeroporto é barulhento e animado, mas conseguimos dormir na mesma. Quando o silêncio se instala, entre as duas e as quatro da manhã, acordamos.
— Tempo morto — anuncia o meu pai.
Como não há quase nenhumas partidas e chegadas, o aeroporto esvazia-se e temos de ser ainda mais prudentes. Logo que podemos, vamos à casa de banho e o meu pai faz a barba. É um lugar onde há sempre gente, mesmo de madrugada. Há desconhecidos que falam entre si, mas nós nunca abrimos a boca.
Compramos bolinhos e leite para o pequeno-almoço, e vamos para a fila de uma das cafetarias com os nossos tabuleiros vermelhos. Há dias em que o meu pai me oferece um sumo de laranja.
Ao fim de semana, apanha o autocarro para ir trabalhar. É vigilante num escritório da cidade. O bilhete de ida e volta custa quatro euros.
Nesses dias, a mãe do Denis toma conta de mim. Os Medina (a avó, a mãe e o filho) também moram no aeroporto. O Denis é meu amigo e costumamos ir à procura de carrinhos abandonados pelos passageiros. Cada carrinho dá-nos, em média, cinquenta cêntimos. Se as pessoas nos parecerem simpáticas, oferecemo-nos para levar as malas.
— Quer uma ajudinha, minha senhora? Essa mala parece muito pesada.
Ou perguntamos:
— Quer que lhe chame um táxi?
O Denis tem muito jeito para chamar táxis. Deve ser porque já tem sete anos. Se um passageiro não dá gorjeta, o Denis diz em voz baixa: “Sovina!” Em voz baixa, porque os Medina também sabem que não devem dar nas vistas.

Quando o meu pai regressa do trabalho, jantamos todos juntos. O meu pai oferece as sandes. É a sua forma de lhes agradecer por terem tomado conta de mim. Se o dia tiver sido bom, o Denis e eu oferecemos a sobremesa. Ultimamente, deixei de o fazer. Escondo as minhas economias nas meias. Às vezes, pergunto ao meu pai:
— Será que um dia teremos um apartamento? Gostava tanto que as coisas fossem como dantes. Antes de a mamã morrer.
— Um dia, quem sabe? — responde o meu pai. — Se eu encontrar um segundo emprego. Se pouparmos dinheiro suficiente.
Passa a mão pelos meus cabelos e pergunta:
— Não achas que estamos bem aqui? Não temos frio, estamos em segurança, e a renda é razoável!
Mas eu sei que o meu pai faz tudo o que pode para nos arranjar uma casa. Recupera jornais nos caixotes de lixo e marca vários números e letras com um lápis. Depois, faz telefonemas. Quando regressa, vem triste. Triste e zangado.
Sei que faz os telefonemas para encontrar um apartamento e que os aluguéis são demasiado caros para nós.
— Eu também poupo — digo-lhe, mostrando a minha meia.
O meu pai sorri:
— És um bom menino.
— Se encontrarmos um apartamento, podem vir viver connosco — propõe o Denis.
— E se nós o encontrarmos primeiro, vêm vocês viver connosco — digo-lhe eu.
Um aperto de mão sela o nosso acordo.
— Depois do verão, tens de ir à escola — diz o meu pai.
— E como vamos conseguir? — pergunto.
— Não sei, mas é importante que vás — diz o meu pai. — Havemos de encontrar uma solução.
A mãe do Denis diz que ele não tem de ir já para a escola, mas o meu pai pensa de forma diferente e diz que não posso esperar mais.
Às vezes, observo os encontros das pessoas no aeroporto.
— Sentimos tanto a tua falta!
— É tão bom regressar a casa!
Por vezes, fico muito zangado e tenho vontade de lhes perguntar:
— Por que razão têm uma casa? O que têm vocês a mais do que nós?
Mas fico calado, para não darmos nas vistas.
Outras vezes, apetece-me só chorar, porque penso que vamos ficar aqui para sempre.
É então que me lembro do passarinho. Embora tivesse demorado, uma manhã a porta abriu-se. E, quando ele voou daqui para fora, sei que cantava.

Eve Bunting
Toi, vole !
Paris, Syros, 2006
Histórias oferecidas à sexta-feira!
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Um lugar chamado verão
A minha filha está sossegada, ao meu lado, no banco da frente, até que, por fim, suspira e diz com a lógica poética de uma criança: “Isto recorda-me aquele lugar em que eu gosto sempre de pensar.”
Barbara Kingsolver
Enquanto relia um romance, eis-me chegado ao ponto em que a personagem principal do livro, de doze anos de idade, acorda “ao som de algo que era bem mais importante do que os pássaros ou o restolhar das folhas novas… o som que indicava que o verão tinha oficialmente começado…” Era o som primeiro dos corta-relvas.
Pus de lado o livro e deixei a minha mente vaguear através dos meus verões pré-adolescentes há muito, muito tempo…
Quando eu era miúdo, dias de verão queriam dizer beisebol. Levantava-me cedo, deixava cair umas gotas de óleo no bolso macio e preto da minha luva, colocava o taco num tubo cilíndrico e oco de metal que eu tinha provisoriamente ajustado ao quadro da minha bicicleta e, depois, pedalava até algum monte de erva recentemente cortada e banhada pelo sol para então fazer umas rebatidas simples, roubar umas bases e correr atrás das bolas ainda no ar, até que o céu ficasse cor de índigo.
Nas manhãs mais quentes podiam encontrar-me no cais da baixa da cidade, com o meu isco de minhoca a tentar provocar algum lúcio ou salmão, com os pés baloiçando ao dependuro, a ler o Tarzan e alguns livros de aventuras.
Mas a melhor parte dos verões da minha infância eram aquelas duas semanas de agosto que eu passava nas montanhas com a minha irmã, a minha mãe e o meu novo padrasto, numa cabana que ele próprio tinha construído. Neste mundo de verão, o sol nascia atrás de uma ravina, passava languidamente por cima da cabana abrigada da luz e deslizava por detrás de uma cordilheira arborizada, deixando às estrelas o comando absoluto daquele céu azul tinta das montanhas.
Por detrás da cabana havia um riacho a que eu nunca tinha descoberto o fim. Calçando as minhas botas, eu andava na água saltitando por cima de pedras parcialmente submersas. O meu lugar favorito era um pequeno ramal ribeiro acima, a cerca de 1 Km de distância, onde a água se ramificava em três charcos profundos, escuros e bordejados por seixos. Era aí que as rãs viviam – algumas, verdes como folhas, outras quase pretas e todas elas escorregadias e lustrosas. Eu apanhava-as e dava risadinhas quando elas se contorciam, coaxavam e arregalavam os olhos quando ficavam presas a algo. Às vezes, fazia-lhes caretas e arrastava-as através da água fazendo sons como um barco a motor. Por fim, arremessava-as de novo ao charco e logo tornava a tirá-las, na minha odisseia ribeiro acima, tentando apagar da mente a ideia da inevitável chegada de setembro.
O verão era, então, especial. Mais que uma estação, era um lugar.
Era um lugar onde se podiam fazer mergulhos infindáveis, tipo canhão ou parafuso, da prancha mais alta ou chapinhar sem qualquer propósito na grande “piscina” sem a obsessão do fator de proteção solar. Um lugar onde os olhos podiam seguir os movimentos daquela miúda que se sentara ao nosso lado, nas aulas, durante todo o ano – e que agora parecia tão diferente de fato de banho – deslizando entre opalas e turquesas no grande charco, o longo cabelo ondulando atrás dela. Um lugar onde se podia sorrir à mãe de modo trocista através de um bigode de melancia, dormir no quintal das traseiras (antes dos dias em que o ar condicionado tornou as estações todas iguais) e lançar estrelinhas de fogo-de-artifício.
Nos verões do passado, quase tudo o que era bom passava-se no exterior.
Uma noite, quando estava fora de casa, ao frio da montanha, olhando as estrelas cadentes que, todas as noites, riscavam de fogo o céu, a minha mãe disse-me: “Pede um desejo, querido.”
Eu tentava, claro, mas era difícil pensar num. Tudo aquilo que eu poderia pedir estava ali – bem à minha volta.
Doug Rennie
Jack Canfield; Mark Victor Hansen; Steve Zikman
Chicken soup for the nature lover’s soul
Florida, HCI, 2004
HOJE COM VOTOS DE BOAS FÉRIAS! Voltamos em setembro!
A EMPREGADA DE LIMPEZA
Durante o meu segundo mês na escola de enfermagem, o nosso professor deu-nos um teste. Como eu era bom aluno, respondi rapidamente a todas as questões. Quando, porém, cheguei à última, achei que se tratava de uma brincadeira.
A questão era “Qual é o primeiro nome da mulher que faz a limpeza da escola?”
Eu já tinha visto a mulher várias vezes. Era alta, tinha cabelo escuro, rondava os 50 anos, mas ignorava como se chamava. Por que motivo havia de saber o seu primeiro nome?
Entreguei o meu teste, deixando essa questão em branco.
Antes de a aula terminar, um aluno perguntou se a última pergunta contava para a nota. O professor respondeu, explicando:
— Claro que sim! Durante a sua carreira vai encontrar diversos tipos de pessoas e todas elas serão importantes na sua vida. Todas merecerão a sua atenção, seja através de um simples sorriso ou de um cumprimento.
Nunca mais esqueci esta lição, tal como fiquei a saber que o primeiro nome da empregada de limpeza era Dorothy.
Autor Desconhecido