Histórias oferecidas à sexta-feira!
A sopa de pedras
Três monges, Hok, Lok e Siew, seguiam por uma estrada de montanha a conversar sobre temas variados como a cor do sol, a virtude da generosidade…
— Siew, o que é que faz as pessoas felizes?— perguntou Hok, o mais novo dos três.
— Vamos já ver — respondeu o velho Siew, o mais sábio dos três monges.
O toque de um sino fê-los olhar para os telhados de uma aldeia situada no sopé da montanha. Aquela aldeia tinha passado por muitas desgraças. A fome, as inundações, a guerra tinham flagelado os habitantes, que passaram a suspeitar de qualquer estranho que ali aparecesse e até dos próprios vizinhos.
Aqueles aldeãos trabalhavam muito, mas cada qual para si. Havia um lavrador. Um comerciante de chá. Um letrado. Uma costureira. Um médico. Um marceneiro… e muitos mais. Mas quase não comunicavam entre si.
À chegada dos monges, os habitantes meteram-se em suas casas e ninguém os quis receber. Todos fecharam cuidadosamente as persianas. Os monges bateram à porta da primeira casa mas não obtiveram resposta e as luzes apagaram-se. Bateram à porta da seguinte, e o resultado não foi melhor. E assim aconteceu por todo o lado.
— Esta gente não sabe ser feliz — comentaram então eles.
— Mas hoje — acrescentou Siew, com ar radiante — vamos ensinar-lhes a fazer a sopa de pedras.
Apanharam paus e ramos, a fim de fazer lume e pôr a aquecer uma pequena panela com água que tiraram do poço. Uma menina, vestida de amarelo, que os estava a observar, abeirou-se deles corajosamente e perguntou:
— O que é que estão a fazer?
— A arranjar lenha — respondeu Lok.
— A acender o lume — precisou Hok.
— Vamos fazer uma sopa de pedras e precisamos de três pedras redondas e polidas — acrescentou Siew.
A menina ajudou os monges a procurar ali perto umas boas pedras, que eles de seguida meteram na pequena panela.
— Estas pedras irão dar uma excelente sopa — disse Siew — mas receio bem que esta panela tão pequena não dê para muito…
— A minha mãe tem uma panela grande — comentou a menina.
E correu logo para casa. A mãe, ao vê-la pegar na panela, perguntou-lhe o que é que estava a fazer.
— Os três forasteiros estão a fazer uma sopa de pedras — respondeu ela. — E precisam da nossa panela grande.
— Hum — diz a mãe — pedras não faltam por aí. Até gostava de saber como é que se faz essa sopa…
Os monges acenderam o lume. Como o fumo se espalhasse, os vizinhos foram espreitando às janelas. O lume e aquela grande panela no meio da praça eram uma verdadeira atração! Um por um, os aldeãos foram saindo de casa para ver o que seria essa tal sopa de pedras.
— Uma boa sopa de pedras tem de ser temperada com sal e pimenta — disse Hok.
— Claro, — aprovou Lok, mexendo a grande panela cheia de água e pedras. — Mas nós não temos mais nada.
— Tenho eu — disse o letrado, com os olhos a brilhar de curiosidade.
E lá veio ele com sal, pimenta e outros condimentos mais. Siew provou a sopa.
— A última vez que arranjámos pedras para uma sopa deste tamanho, pusemos-lhe cenouras que deram um caldo delicioso.
— Cenouras? — disse uma mulher atrás deles. — Eu devo ter algumas!
E lá foi a correr, voltando com as cenouras que conseguiu arranjar, e meteu-as na panela.
— E que tal se levasse cebolas? — adiantou Hok.
— Sim, sim. A cebola dá-lhe um bom gosto — disse um aldeão que, por sua vez, foi a casa e logo regressou com cinco grandes cebolas que deitou na sopa que já fervia.
— Que boa sopa! — disse ele e todos os aldeões concordaram, porque o cheiro era muito agradável.
— Se tivéssemos cogumelos! — disse Siew coçando o queixo.
Isto fez crescer água na boca a alguns… E logo foram outros buscar cogumelos frescos, massa, vagens e couves.
Algo de mágico surgia no espírito dos aldeões: se um sentia o impulso de dar, o outro dava ainda mais. E assim a sopa ia ficando cada vez mais rica e o seu aroma cada vez mais delicioso…
— O Imperador, julgo eu, sugeriria que se acrescentasse almôndegas — disse ainda um aldeão.
— E tofu! — sugeriu outro.
— E porque não cogumelos pretos, feijão mungo e inhames? — gritaram uns quantos.
— E taros, e melão de inverno, e maçarocas de milho anão — acrescentaram outros ainda.
— E alho!
— E gengibre!
— E molho de soja!
— E pétalas de rosa!
— Eu tenho! Eu tenho! — gritaram vários, e foram buscar tudo o que podiam arranjar.
Os monges iam mexendo a sopa que fervia. Cheirava tão bem! Como devia ser deliciosa! E que generosos estavam a ser os aldeãos!
Finalmente a sopa ficou pronta. E todos se reuniram.
Trouxeram arroz, pãezinhos, líchias, bolos, chá e acenderam luzes. Depois, sentaram-se à mesa. Por mais que puxassem pela memória, não se lembravam de algum dia se terem reunido para uma festa assim. Depois de terem comido, contaram histórias, cantaram canções e fizeram festa pela noite dentro. Por fim, abriram as portas e convidaram os monges a dormir nos seus melhores quartos.
No dia seguinte, numa linda manhã de primavera, reuniram-se todos junto do salgueiro para se despedirem.
— Obrigado por nos terem convidado — disseram os monges — foram todos muito generosos.
— Nós é que agradecemos— responderam os aldeãos. — Com o que vocês nos deram, nunca mais nos vai faltar nada. Mostraram-nos que, quando partilhamos, ficamos mais ricos!
— Pois é — disseram os monges — ser feliz é tão simples como fazer uma sopa de pedras.
Jon J Muth
No intuito de darmos continuidade ao anterior projecto, “Um dois três era uma vez”, embora em moldes que se pretendem mais abrangentes, reiniciamos o envio semanal de pequenas histórias para crianças e adolescentes, por vezes acompanhados de textos dirigidos a um público adulto, convidando à reflexão, e também ao sonho, que tão necessários se tornam numa sociedade em que o materialismo tem crescido desmedidamente, a ponto de abafar os valores mais genuínos do ser humano: o respeito pelos outros, a ternura, a delicadeza, a compaixão pelos que sofrem, a generosidade.
Esperamos que o projecto, que agora passa a chamar-se “Um dois três, era outra vez”, continue a encontrar leitores assíduos entre aqueles a quem se dirige, e possa proporcionar agradáveis momentos de partilha entre pais e filhos.

E…diga-nos o que pensa das histórias que lhe forem chegando!
Responda-nos para: 1...@isep.ipp.pt
Ideia: Teresa Tudela e Betina Campos Neves
Falar é fácil
Ana estava horrorizada. Como era possível ser-se tão mau? Observava, do outro lado da rua, uns rapazes que batiam num outro de pele escura. Eram quatro, e um deles até tinha uma faca na mão. E isto a meio do dia, na zona para peões! Muita gente passava, mas ninguém ajudava. Olhavam, curiosos, e seguiam. Porque é que ficavam todos indiferentes?
Ana sentia-se desamparada e só. Gostava de ter podido ajudar o rapaz, deitado no chão a sangrar. Mas como?
No dia seguinte, contou na escola o que lhe acontecera.
— Porque é que as pessoas não ajudam? — perguntou.
O Sr. Juvenal, o professor, suspirou.
— Talvez — disse — porque cada um só pensa em si. O mundo tornou-se indiferente. Quem se interessa por uma vida humana?
— Bem — respondeu Ana decidida — eu não penso assim.
E propôs-se a si mesma nunca ser tão indiferente e egoísta como as pessoas que viu na rua.
Alguns dias mais tarde, a turma recebeu uma nova aluna.
— Esta é a Tânia — o Professor Juvenal apresentou-a aos colegas. — Sejam simpáticos com ela!
— Bomm dia! — sussurrou Tânia, e a turma começou aos risinhos.
— De onde é que ela vem?
— Da Rússia — respondeu o Professor, conduzindo a nova aluna para a carteira de Ana. — A Ana vai ocupar-se de ti — explicou a Tânia.
— Mas este é o lugar do Toni, só que ele hoje faltou! — protestou Ana.
— Então ele senta-se ao lado do Joel quando voltar — disse o professor, pouco preocupado. — Além disso, Ana — acrescentou — de certeza que a Tânia ainda não conhece bem a zona. Depois da escola, podes levá-la a casa, por favor?
Só faltava aquilo! Ana até estava com falta de ar.
— Porquê logo eu?
O professor olhou para ela com ar sério.
— A Tânia mora mesmo perto de ti, e pensei que tu…
Não disse o que estava a pensar, mas Ana sabia.
— Já percebi — murmurou, evitando olhar para o professor. Lembrava-se das grandes palavras que dissera há alguns dias. Falar era mais fácil do que fazer…!
Apetecia-lhe era dar uma bofetada àquela Tânia estrangeira, ou de fazer uma tolice qualquer.
De repente, uma mão deslizou até ela e agarrou a sua.
Era uma sensação agradável.
Ana ergueu os olhos e olhou para os olhos claros de Tânia, que sorriam.
Elke Bräunling
Da wird die Angst ganz klein
Limburg, Lahn Verlag, 1998
(Tradução e adaptação)
A sabedoria da carpa
Um pobre camponês, pai de muitos filhos, deu-se conta de que a colheita do ano, de tão pobre, condenaria a família a morrer de fome. O desespero obrigou-o a meter pernas ao caminho e a ir pedir ajuda ao homem mais rico da região, coisa que só num momento de grande aflição aceitaria fazer.
— Senhor — disse ele na presença do homem rico —, empresta-me um pouco de arroz do teu armazém para os meus filhos poderem comer. De outro modo, morreremos todos de fome.
— Muito bem — aquiesceu o homem rico —, estou disposto a emprestar-te, não arroz, mas algumas moedas de ouro; porém, primeiro tens de esperar pela coleta dos impostos, pois antes disso não terei o dinheiro que te quero emprestar.
O pobre camponês ouviu-o em silêncio e, com dignidade, respondeu-lhe:
— Quando vinha para vossa casa, ouvi uma voz muito fina que pedia auxílio. Descobri que se tratava de uma carpa que agonizava em terra devido à falta de água. Perguntei-lhe o que tinha acontecido e ela explicou-me que uma onda a atirara para terra. Agora só precisava, para poder sobreviver, que a lançassem de novo à água. Então eu respondi-lhe: “Deixa-te ficar onde estás, que eu vou buscar água a um rio que fica a algumas léguas e, logo que possa, trago-a até ti para poderes salvar-te”. Então a carpa respondeu-me: “Fazes- me promessas, mas não me dás a única coisa de que eu preciso para me salvar, que é o regresso à água do mar. Por melhor que seja a tua promessa, se fizeres como dizes, quando voltares não me procures aqui e sim no mercado, na banca do mercador de peixe”.
O homem rico baixou os olhos e não encontrou resposta que pudesse dar ao pobre camponês aflito.
J. J. Letria
Contos da China antiga
Porto, Ambar, 2002
Félix é um pássaro azul e amarelo proveniente do Brasil que vive com a família Baxter em Nova Iorque. A sua nova casa é uma enorme gaiola colocada junto de uma janela do 40º andar que a família habita.
Félix gosta dos Baxter e os Baxter gostam dele. Alimentam-no, falam com ele e apresentam-no a todos os seus amigos. Mas o pássaro não se sente feliz, porque quer regressar ao Brasil.
Todas as noites, Félix contempla o céu e observa a cidade inteira. Apesar de ser um lugar grande e excitante, não é a sua casa, embora seja o lar da família. O pássaro recorda as luas grandes e amarelas do Brasil, e lembra-se do último dia que passou na selva. Dos dois homens com chapéus brancos, da caixa grande, da longa viajem de avião, e da loja nova-iorquina chamada “O Paraíso das Aves”.
Félix fecha os olhos, deixa de ver a cidade e a neve e, diante de si, surgem as imagens da vida que levava e amava.
Quero ir para junto da minha família, pensa. Quero voar para casa, ir para a selva. Lá faz sempre calor e as árvores são verdes durante todo o ano.
Coloca a cabecita debaixo de uma asa e diz em voz alta:
— Um dia, um dia…
“Um dia” surge duas semanas depois. O Senhor Baxter abre a gaiola para dar de comer a Félix e ouve o telefone tocar.
— Podes atender, George? — pergunta a Senhora Baxter. — Estou a tomar banho.
— Está bem — responde o marido.
Quando o Senhor Baxter vai atender o telefone, deixa a gaiola aberta. Ao ver a oportunidade por que tanto ansiou, o pássaro voa para fora do andar. E, embora o ar seja frio e uma voz chame por ele, Félix não volta atrás.
Enquanto percorre a cidade, aproveita para observar as ruas e os edifícios. Uma menina que está num café com a mãe exclama:
— Olha para aquele pássaro, mãe!
Mas a mãe não a ouve e continua a ler o jornal.
Após uma hora de voo ininterrupto, Félix aterra na cabeça da Estátua da Liberdade.
— Donde és? — pergunta-lhe uma pequena ave cinzenta e branca.
— Sou do Brasil — responde Félix.
— E para onde vais? — quer saber a avezita.
— Vou para casa — responde o pássaro, levantando voo por entre o céu azul e frio.
Enquanto Félix se dirige para sul, Nova Iorque vai ficando para trás e o Oceano Atlântico toma conta de toda a paisagem.
Quando, ao entardecer, o sol começa a pôr-se, o céu tinge-se de vermelho, amarelo e azul. Ao contemplar tamanha beleza, o pássaro sente alegria, embora também sinta fome.
Pela primeira vez em dois anos, é livre, e esse sentimento dá-lhe forças para voar durante toda a noite.
Algum tempo depois começa a chover e o céu escurece. Em breve, Félix deixa de poder ver a lua a as estrelas.
Onde estarei agora, pergunta-se. Lembra-se da gaiola quentinha e duvida, por momentos, se o que está a fazer é o mais acertado. Ao olhar para baixo, para o mar, parece-lhe ver uma estrela na água escura. Mas, como é improvável que haja estrelas no mar, o mais certo é tratar-se de um navio. Um navio!
Félix voa em direção ao navio, que carrega centenas de peixes. Depois de comer vinte em cinco minutos, adormece. Ao amanhecer, vê um homem a olhar para ele e logo teme o pior. Porém, trata-se de alguém que apenas lhe quer tirar uma fotografia.
Mal Félix levanta voo, dá-se conta de que não está a chover e alegra-se por já não ter fome.
Dois dias mais tarde, ei-lo a sobrevoar o Perú, onde vê a cidade inca de Machu Picchu. Aqueles velhos edifícios em pedra parecem interessantes, pensa. Talvez possa descansar ali esta noite.
À medida que voa em direção aos monumentos, Félix vê um enorme pássaro com penas pretas e brancas, sentado sobre uma pedra.
— Olá! — saúda-o a ave. — Não és do Perú, pois não?
Félix conta-lhe a sua história.
— Estiveste durante dois anos metido numa gaiola em Nova Iorque?! — espanta-se a ave.
— Estive, mas agora vou para casa. Podes dizer-me como chego lá?
— Tenho um amigo na cidade do Rio, chamado Aca. Como ele conhece bem a selva, pode levar-te até lá.
E, assim, Félix voa até ao Rio, cujas ruas estão cheias de gente. Na cidade ouve-se música e veem-se pássaros nas árvores. Qual deles será Aca?
— Aca! — chama Félix.
— Estou aqui! — diz uma ave, que Félix não consegue ver.
Um rapaz avista Félix e pede ao pai:
— Pai, olha para aquele pássaro! Podes dar-mo? Por favor…
Félix não vê logo o rapaz ou o pai, porque está a olhar para os pássaros pousados nos ramos das árvores. Quando volta a chamar por Aca, sente uma mão quente que o agarra pelo pescoço.
— Socorro! — grita Félix, sacudindo as asas e as patas.
Com a ajuda de Aca, Félix consegue escapar e ambos levantam voo em direção ao céu.
Félix agradece-lhe e conta-lhe a sua história. Depois, iniciam juntos a viagem até à selva. Ao cair da tarde, avistam uma aldeia que Félix reconhece como a sua.
— A minha casa fica perto daqui. Fica mesmo…
A visão de muitos homens e máquinas emudece-o.
— Oh, não! Estão a construir uma nova estrada! — exclama Aca.
— Onde está a minha casa? — pergunta Félix, aflito. — E onde está a minha família?
Os dois pássaros sobrevoam a nova estrada e acabam por pousar numa árvore perto dali. Félix sente-se cansado e triste.
— Sinto muito — diz Aca, compassivo.
De repente, Félix avista uma pena azul e amarela a flutuar. Olha para cima e vê quatro aves pousadas nos ramos mais altos das árvores.
— Olha, Aca, é a minha família!
Quando voa em direção a elas e ouve um incrédulo “Félix, és tu?”, o pássaro responde:
— Sou! Cheguei a casa!

Stephen Rabley
Flying home
Harlow, Pearson Education Limited, 1998
(Tradução e adaptação)
Hoje, a propósito do Dia da Criança…
As crianças TÊM direitoS … E DEVERES!
Eu tenho direitos!
Tu tens direitos!
Todos temos direitos!
As crianças têm direitos e responsabilidades.
Tal como os adultos.
Vamos conhecer alguns deles.
ë * ë
As crianças têm o direito de ser ouvidas…

… e a responsabilidade de escutar os outros.
As crianças têm o direito de crescer de forma saudável e feliz…

… e a responsabilidade de tratar com respeito aqueles que cuidam delas.
As crianças têm o direito de ter uma boa educação…
… e a responsabilidade de estudar e respeitar os seus professores.
As crianças têm o direito de ser amadas e protegidas de qualquer perigo…
… e a responsabilidade de amar e cuidar dos outros.
As crianças têm o direito de se orgulhar das suas tradições e crenças…

… e a responsabilidade de respeitar as culturas e crenças dos outros.
As crianças têm o direito de ser incluídas, sejam quais forem as suas capacidades…

… e a responsabilidade de respeitar os outros e as suas diferenças.
As crianças têm o direito de viver numa casa confortável
com uma família que as ame…

… e a responsabilidade de participar nas tarefas domésticas.
As crianças têm o direito de errar…

… e a responsabilidade de aprender com os seus erros.
As crianças têm o direito de ser bem alimentadas…

… e a responsabilidade de partilhar e não desperdiçar a comida.
As crianças têm o direito de viver num meio ambiente limpo…

… e a responsabilidade de brincar sem o poluírem.
Alejandro Bonasso; Verónica Leite
Los niños, las niñas y sus derechos
Montevideo, IIN, 2003
UMA CIDADE VERDE
Em tempos, houve um edifício nesta zona. Tinha três andares e estava vazio e entaipado. A minha amiga, a Menina Rosa, disse que vivia lá um homem a quem chamam o Velho Martelo, juntamente com outras pessoas. Mas, quando lhe fiz perguntas sobre o edifício, ele apenas resmungou qualquer coisa entredentes. O Velho Martelo é assim mesmo: duro como pregos.
No ano passado, recebemos a visita de duas pessoas da cidade, todas engravatadas e carregadas de papéis. Num tom solene, declararam:
— Este edifício não é seguro e vai ter de ser demolido.
Por volta do inverno, já tinham estacionado uma grua junto dele. A minha mãe reuniu toda a gente na nossa janela da frente para assistir. Bastaram três pancadas para o reduzir a um monte de escombros. Em seguida, veio um camião e alguns trabalhadores levaram o lixo, enchendo depois o buraco com terra.
O quarteirão ficou a parecer uma boca sorridente com um dente a menos. O Velho Martelo, sentado no seu banquinho, abanou a cabeça:
— Tempos houve em que aquele edifício podia ter sido salvo. Mas ninguém tentou fazê-lo.
Todos os dias, sempre que passava por lá, sentia-me triste com a visão daquela cratera. Todos os dias.
Quando chegou a primavera, a Menina Rosa começou logo a limpar as suas latas de café. Ambas temos latas de café nos nossos parapeitos e, todos os anos, compramos dois pacotes de sementes na loja de ferragens. Por vezes compramos malmequeres, outras vezes zínias. Já chegámos a tentar com tomates.
Vamos até ao parque, recolhemos alguma terra e enchemos as latas até meio.

Este ano, o Velho Martelo deteve-nos quando íamos a caminho do parque e disse:
— Este buraco aqui tem terra que chegue para vocês.
Olhei para a Menina Rosa que, sorrindo para mim, concordou:
— Lá isso tem. Muita terra.
— Como se fosse uma grande lata de café — comentei.
Foi então que decidimos fazer algo em relação àquele pedaço de terreno.
Sem perder tempo, comecei a escavar e a pensar em jardins e flores.
Mas o Velho Martelo avisou-me:
— Olha que não podes extrair mais terra do que essa. Este terreno pertence à cidade.
A Menina Rosa e eu fomos ter com o Senhor Bennett, que costumava trabalhar para a câmara.
— Acho que existe um programa que ajuda as pessoas a arrendar lotes de terreno vagos — recordou.
E foi assim que a Menina Rosa e eu formámos uma associação no nosso bairro e fizemos circular uma petição que dizia QUEREMOS ARRENDAR ESTE TERRENO.
Em menos de uma semana, recolhemos imensas assinaturas.
— Não quer assinar? — perguntei ao Velho Martelo.
— Eu cá não assino nada. E já te digo que não vai acontecer nada — decretou.
Mas aconteceu. Na semana seguinte, alguns de nós apanharam um autocarro para ir à câmara. Entrámos do departamento correspondente e entregámos a nossa petição à funcionária. Esta verificou os arquivos, digitou alguns comentários e fez fotocópias. Pagámos um dólar.
E, nesse mesmo dia, passámos a ser arrendatários daquele terreno.
Um processo tão simples quanto este.
No sábado de manhã, acordei com o sol e pus-me a olhar para o terreno. A minha mãe também o contemplou e, abraçando-me, disse:
— Marcy, hoje vou ajudar-vos.
Depois de ir às compras, a minha mãe esvaziou os sacos, dobrou-os, e colocou-os debaixo do braço. Depois, virando-se para a amiga, disse:
— Venha comigo, Sra. Bea. Vamos lá limpar aquele terreno.
O meu irmão também quis ajudar. Apesar de ser alto e forte, não se mostrou convencido. Até parecia o Velho Martelo. Mas a minha mãe avisou-o logo:
— Atitudes pessimistas não são connosco.
O que fez com que, durante todo o dia, ele enchesse aqueles sacos de lixo e os levasse até junto do passeio.

Os vizinhos que passavam por nós e que tinham algum tempo livre ofereciam-se para ajudar. E cada um trazia mais outro.
— Venha ajudar-nos! — pedi ao Velho Martelo.
— Eu cá não ajudo ninguém. Vocês estão é a perder tempo — sentenciou.
Mesmo antes da hora de jantar, a minha mãe elogiou-me:
— Filha, o que estás a fazer é fantástico!
No dia seguinte, a câmara emprestou-nos ferramentas, tais como ancinhos e vassouras, e um contentor para colocarmos o lixo. Havia cada vez mais vizinhos a ajudar. Todos cumprimentámos o Velho Martelo, que enxotou a nossa saudação como se fosse uma mosca.
O meu irmão perguntou:
— Por que motivo está o Velho Martelo tão rezingão?
— Talvez esteja triste — respondi. — Talvez sinta a falta do velho edifício.
O meu irmão encolheu os ombros:
— Daquela velharia? Devia era estar contente por a cidade se ter visto livre dele.
— Dá-lhe tempo — aconselhou a Menina Rosa. — As coisas boas levam o seu tempo…
O Sr. Bennett trouxe madeira — ripas velhas que guardara — e um copo com pregos.
— Bem me parecia que os tinha guardado para alguma coisa — disse. — Esta madeira é das boas.
Em seguida, veio o Senhor Rocco, que mora duas casas abaixo, com duas latas de tinta.
— Como a cor é demasiado berrante, nunca a vou usar em casa. Mas este sítio precisa de alguma alegria…
Qualquer pessoa que por ali passasse se daria conta de que algo de excitante estava a acontecer. Todos queriam dar ideias sobre o que plantar: morangos, cenouras, alfaces, tulipas, margaridas e petúnias. O Sonny ia virando a terra com uma pá de remover neve e até o bebé da Leslie tentou cavar com uma colher.

A Menina Rosa trouxe-nos leite, pão e geleia para o almoço, e colocou tudo sobre uma toalha de praia num lugar onde já não havia lixo. Quando o dia chegou ao fim, já tínhamos construído e pintado uma sebe de madeira.
À noite, quando me deitei, a minha mãe foi dar-me um beijo e fechar a porta do meu quarto. À luz dos candeeiros da rua, vi o Velho Martelo descer os degraus e abrir o portão. Dirigiu-se às traseiras do terreno e, debruçando-se, tirou rapidamente algo do bolso que lançou à terra e logo cobriu.

Na manhã seguinte, contei ao meu irmão o que vira.
— A tua vontade é tanta que deves ter sonhado, Marcy — foi o comentário dele.
Mas eu sabia que não sonhara, e disse à minha mãe:
— O Velho Martelo esteve a plantar sementes.
Depois do pequeno-almoço, fui às traseiras do terreno e vi um montinho de terra, muito liso e arranjado, igualzinho aos que tínhamos plantado. Tive logo a certeza de que o Velho Martelo tinha plantado alguma coisa. Dei uma pancadinha de boa sorte no montículo e ergui uma pequena sebe para resguardar aquelas sementes.

Comecei a ir todos os dias ao nosso jardim. Os vizinhos também.
Certo dia, a Sra. Wells parou junto de mim e disse:
— O quarto da minha avó ficava mesmo neste sítio. Por isso plantei as minhas flores neste lugar.
Senti-me triste ao ouvir aquelas palavras. Com tanto escavar, plantar, mondar e regar, esquecera-me de que naquele local tinha havido um edifício. O Velho Martelo também lá tinha vivido. Fui até junto da parte traseira do terreno e perguntei-me se o quarto dele teria sido ali.
Quando olhei para a terra, reparei que havia pequenos rebentos a querer emergir. As sementes do Velho Martelo tinham crescido! Fui ter com ele e pedi-lhe:
— Venha comigo! Há uma coisa que vai gostar de ver!

Passámos pelas malvas-rosas, pelos malmequeres, pela pimenta, pelas alfaces, e mostrei-lhe os morangos que plantei. Quando o Velho Martelo viu o seu canteirinho, ficou feliz:
— Sabes, Marcy, este terreno não prestava para nada. Agora é bom para tudo.
Em breve, chegou o verão. O nosso terreno estava cheio de legumes, plantas aromáticas e flores. Nas traseiras, um belo quadrado de girassóis impunha a sua presença.
Agora, o Velho Martelo vem vê-lo todos os dias.
Senta-se ao sol, come o almoço e, às vezes, regressa com o jantar.
Ninguém sabe de onde vieram os girassóis.
Mas o Velho Martelo e eu sabemos quem os plantou.

DyAnne DiSalvo-Ryan
City Green
HarperCollins Publishers, 1994
AS ESTRELAS-DO-MAR
Conta-se que, certa vez, um escritor caminhava ao longo de uma praia deserta quando avistou à distância um homem a apanhar qualquer coisa da areia e a lançá-la ao mar.
Curioso, aproximou-se para ver o que se passava.
O homem estava a recolher estrelas-do-mar que o oceano havia arremessado para a areia e a devolvê-las à água.
Dirigindo-se ao homem, o escritor exclamou, perplexo:
— O que está a fazer? As estrelas são muitas… e a praia é enorme!
O homem sorriu, baixou-se, agarrou noutra estrela e, mostrando-a ao escritor, disse:
— Pode ser que seja… Contudo, o meu gesto fará toda a diferença para esta estrela.
E devolveu-a à água.
O escritor passou a noite a pensar no que o homem lhe tinha dito e, no dia seguinte, acordou bem cedo e foi lançar estrelas de volta ao mar…
Autor Desconhecido
Hoje com 2 histórias, a propósito do dia mundial do refugiado – 20 de Junho.
Certo dia, Paulina chegou à escola com uma pergunta esquisita na cabeça. No dia anterior tinha ouvido as pessoas grandes falarem da cor do seu tio. Elas tinham dito que o seu tio era negro. Paulina, no entanto, olhou atentamente para o seu tio e achou-o normal. Então perguntou à sua professora:
— É mau ser negro, senhora professora?
A professora ficou espantada, sem voz, procurando uma resposta para a pergunta da Paulina. E foi assim que tudo começou.
Quando a professora se levantou, apontou para o armário no fundo da sala de aulas. Como que por magia, as tintas guardadas no armário acordaram e, todas juntas, começaram a falar das cores. As crianças olhavam espantadas. Depois, as tintas aproximaram-se das crianças e começaram a dançar. Colaram-se ao grande quadro negro e misturaram-se formando mil e uma cores cada vez mais variadas e mais bonitas, como que para fazer o rosto da alegria. Todas as crianças estavam maravilhadas e fizeram uma grande roda à volta das cores.
E as cores murmuraram:
— Nós somos as cores, as cores da vida! E para ver a vida cor-de-rosa é preciso abrir o coração, porque nada nem ninguém é completamente negro ou branco.
As crianças, então, dançaram e cantaram as cores da vida. Depois pararam, olharam à sua volta e as cores voltaram a murmurar:
— Cada um tem a sua cor, cada um tem a sua beleza, as cores da vida vivem em cada um de vós, encontrai o vosso arco-íris!
A primeira a começar foi a Camila. Ficou com a cara vermelha ao pensar no Sebastião em segredo. Depois o Pedro pôs-se a dançar como um louco; girava, girava, girava numa dança encantada e quando parou sentiu-se mal e ficou com a cara verde! O Cláudio riu tanto que quase se engasgou e ficou com a cara azul! A Maria, ao ver que o Cláudio quase se engasgava, ficou com a cara branca de susto. As bochechas cor-de-rosa do Quim mostravam que ele estava bem-humorado. Diante desta excitação geral, a professora poderia ter ficado com a cara negra de irritação e parecer-se com a Paulina, mas não, ela estava feliz. As crianças olharam umas para as outras: eram todas diferentes mas, de mãos dadas, elas eram apenas crianças de todas as cores que tinham acabado de compreender que o rosto da felicidade só se desenha com cores.
A professora agradeceu às cores e elas partiram para os seus lugares no armário ao fundo da sala. Depois sorriu para a Paulina e disse-lhe:
— A verdadeira cor do homem é aquela que ele tem no seu coração!
Sandrine Monnier-Murariu
Histórias para sonhar
Porto, Civilização Editora, 2004
O que diz o vento?
Primeira Parte
Nabila não se lembrava de ter vivido um só dia sem medo do escuro. Os irmãos sempre tinham troçado dela por causa disso, e, mal começava a escurecer, vinham por detrás e beliscavam-lhe um braço ou as costas, ou então, escondidos a um canto, miavam como gatos-bravos e depois saltavam do esconderijo, gritando: «Sou o monstro, sou o demónio que mastiga areia com os dentes.»
Nabila nunca conseguira rir-se com essas brincadeiras, gritava de medo e desatava a chorar no escuro. Era assim aos cinco anos, e, aos dez, era exatamente a mesma coisa. Aos doze anos, a mãe levara-a a casa de uma velha da aldeia que percebia dessas coisas. A velha quis saber tudo acerca do momento em que a mãe a tinha posto neste mundo: tinha sido de noite ou de dia? tinha ouvido vozes estranhas, durante o parto? tinha entrado algum morcego, ou algum animal desse género, no quarto? a menina tinha nascido dentro de um fole? estava coberta de pelos?
No fim, a velha pôs as mãos à volta da cabeça de Nabila e disse: «Quando casar, passa-lhe tudo.» «Viste?», dissera-lhe a mãe, naquela noite, «não há nada de nada, de noite, há as mesmas coisas que de dia. Só que não se veem.» Nabila tinha dito que sim e adormecera. Todavia, às três da manhã, acordara em sobressalto. Eles estavam outra vez lá, figuras coloridas que dançavam à volta da sua esteira.
«Nabila» sussurravam com vozes obscenas, «pobre tonta, como pudeste pensar que te vias livre de nós?» Depois, tinham desatado a rir-se, grunhindo como os javalis. Nabila nunca tinha dito a ninguém que não tinha medo do escuro, mas dos demónios que lá viviam. Iam ter com ela quase todas as noites e diziam-lhe muitas coisas feias. Como não era bom para uma menina ver os demónios, tinha-se calado.
Uma vez, a avó tinha-lhe dito que os demónios estavam em todo o lado: havia o demónio da água e o da tigela, havia o demónio da madeira de que era feita a mesa onde se punha a água e a tigela. Cada coisa tinha dois demónios, um demónio bom e um demónio mau, cabia a cada pessoa chamar uns ou chamar os outros, agradecer-lhes ou resistir-lhes.
Nabila nunca tinha visto os demónios bons, chamava por eles todas as noites em longas conversas antes de fechar os olhos, mas sem resultado. Se eles não vêm, pensava, é porque não há nenhum demónio bom; quando vim ao mundo, o meu estava distraído ou andava longe, e, apesar de eu não ter feito nada de mal, deixou-me sozinha.
Aos dezassete anos, Nabila casou-se. Com o casamento, os demónios desapareceram, como a velha tinha profetizado. Três anos depois, nasceu Raj. Nasceu de noite e muito antes da data prevista. Nessa noite, Tiru não estava em casa. Mal a parteira lhe mostrou o filho, Nabila viu dentro dele uma sombra esverdeada, a mexer-se como uma medusa no meio das ondas. Os três primeiros anos tinham sido tranquilos. O menino crescia bem, parecia-se muito com o pai e não se parecia nada com a mãe. Pelo menos, era o que Nabila pensava. Até à noite em que Tiru desapareceu.
Nessa noite, Raj tinha acordado e começara a gritar, de olhos arregalados. Nabila ficou a saber que ele herdara alguma coisa dela: o medo da noite e dos demónios. Só dois dias depois é que soube que Tiru tinha sido morto: alguém, antes da madrugada, lhe tinha atirado para a porta a cabeça de um javali. Passaram dias à procura do corpo na floresta, sem o encontrarem. Uma semana depois, tinha havido uma cerimônia fúnebre e Nabila passara a ser oficialmente viúva: a mulher corajosa e forte de um dos muitos mártires.
Os olhos de Raj tinham-se tornado maiores e mais brancos, costumava olhar em frente como se, com o olhar, partisse para um outro mundo. Uma tarde, Nabila foi encontrá-lo assim, à porta de casa; no ar pairava um cheiro intenso a canela, os animais da floresta davam início ao alvoroço do crepúsculo: estava sentado com os cotovelos cravados nos joelhos, como um adulto. Nabila tocara-lhe num ombro, e ele, sem se voltar, tinha dito:
— Onde é que está o pai? Por que é que não vem, quando chamo por ele?
Nabila sentia-se acanhada diante do filho, não conseguia perceber tudo o que lhe passava pela cabeça. Tinha-se sentado num degrau ao lado dele, pegara nele ao colo:
— O pai não pode voltar para nós — dissera-lhe, baixinho. — Morreu.
— O que quer dizer «morreu»?
— Quer dizer que foi para longe.
— Longe, onde?
Nabila ficara por uns momentos em silêncio, depois continuara:
— Para onde foi também a avó. É um sítio muito bonito que nós não vemos, uma planície muito grande, pode-se andar a correr de um lado para o outro e as pessoas andam sempre felizes; há árvores de fruto, animais, torrentes de água muito fresca, o ar está sempre ameno e nunca há monções.
— E por que é que não nos levou com ele?
Nabila não dera logo resposta.
— Um dia, também iremos para lá.
— Por que não vamos já?
— Porque, antes, temos de fazer muitas coisas. Tu tens de ir à escola, ser grande.
— Eu quero é morrer — respondera Raj, mexendo com um pé no terriço.
«Também eu», quisera Nabila responder.
Mas tinha dito:
— Não somos nós que decidimos. O pai também não decidiu, nem a avó.
— Então, quem é que decide? — perguntara Raj.
Nesse instante, atrás deles, levantara-se uma brisa ligeira; trazia com ela o cheiro húmido e quente da floresta e as copas das palmeiras em frente da casa começaram a estralejar.
— Estás a ouvir o vento? — perguntara Nabila.
Como um animal que fareja, Raj erguera levemente a cabeça.
— Estou.
— O vento é como o telefone. Entre nós e a grande planície, há o vento, é ele que traz as palavras dos que já morreram.
— O pai fala com o vento?
— O pai, a avó, todos os que já não podemos ver.
— E vêem-nos?
— Vêem-nos e falam connosco.
— Mas eu não ouço nada — respondera Raj, sem a olhar nos olhos.
Então, Nabila inclinara-se para ele, soprara-lhe ternamente no rosto.
— O que diz o vento?
O filho encolhera os ombros. Ela soprou de novo.
— Diz alguma coisa? — perguntara Raj, timidamente.
— Diz: «Não tenhas medo, Raj, que eu estou contigo. Tens de crescer e ser forte e corajoso como eu.»
— O pai era corajoso? — perguntou.
— Mais corajoso do que um tigre com filhotes.
— E tu?
Nabila ficou em silêncio, soprou-lhe mais uma vez nos olhos.
— O que diz o vento? — perguntou Raj.
— O vento diz que já é tarde e que tens de ir dormir.
Enquanto viajavam, escondidos no porão do navio que os iria levar para a Europa, Nabila tentara responder à pergunta que o filho lhe tinha feito, uns meses antes. Teria sido um ato de coragem deixar a sua terra? Ou teria sido cobardia? Tinha sempre uma resposta diferente a dar. Mal a manhã despontava, pensava: é um ato de coragem, porque é preciso ter coragem para viver sozinha, e com um filho de quatro anos, numa terra que não se conhece.
Mas, ao meio-dia, já estava convencida de que era uma cobarde. Coragem teria sido ficar, continuar a luta iniciada pelo marido e pelos outros Tamil pela liberdade do seu povo. Mas o que poderia fazer uma viúva e, ainda por cima, com um filho pequeno? Não, partir tinha sido a melhor opção. Nesse caso — dizia-lhe logo uma voz —, se estás assim tão convencida de que tens razão, por que não avisaste ninguém da tua partida? Porque já não tenho nenhum parente, dizia para consigo. Mas, ao responder, sabia que não era totalmente verdade.
Não queria confessar a si mesma que a obsessão dos demónios regressara. Anos antes, quando a mãe a tinha levado a casa da velha, não tinha tido coragem para dizer que não era o escuro em si que lhe metia medo, mas tudo o que nele estava escondido. Porque não o tinha feito? Nessa altura, talvez ainda fosse possível salvar-se. A velha conhecia muitos rituais, faria um que se adequasse ao seu caso: em poucos dias, chamaria o seu demónio bom para ele vir velar por ela, e os maus desapareceriam. Ela ficaria, finalmente, livre.
Mas não tinha sido assim. Entre tantos homens que podiam morrer, quem tinha sido morto tinha sido Tiru, o seu marido. Porquê ele e não outro? Havia mulheres que viviam a vida toda com o marido ao lado.
Durante os longos dias de viagem, o filho só tinha gritado. Tinham saído da aldeia antes da madrugada. Tinham embarcado no navio, na noite seguinte. Não havia nem uma luz no porão onde estavam escondidos.
Nas primeiras horas de navegação, Nabila tentara brincar.
— Olha, Raj — dissera, fingindo que estava a voar por cima dos sacos que enchiam o porão —, sou melhor do que um morcego.
Ele olhava para ela e era como se não olhasse, não dizia nada, mantinha-se sentado com as mãos caídas no regaço. Mais tarde, adormecera, vencido pelo calor e pelo ruído das máquinas, e Nabila tinha-o velado enquanto ele dormia. Quando abriu os olhos, foi de repente, como se tivesse ouvido uma coisa terrível. O grito veio depois.
— O Sol morreu! — gritara, sentando-se.
Nabila pegara nele ao colo, tentando embalá-lo. O corpo do pequeno estava rígido.
— Não, Raj — sussurrava-lhe —o que é que estás para aí a dizer? O Sol nunca morre. Está do outro lado das paredes, nós é que não podemos vê-lo.
— Morreu! — continuava ele a gritar. — Tenho medo. Há muito tempo que não há Sol, morreu.
— Vamos perguntar ao vento — dissera, então, Nabila.
Após alguns sopros, Raj acalmara-se.
— O que diz o vento? — perguntara, deixando cair a cabeça no ombro da mãe.
— O vento diz que não deves ter medo, que há sempre Sol e que brilhará sempre na tua vida.
Dez dias depois, desembarcaram em Fiume.
Era de noite e caía um chuvisco frio e leve. Raj já estava a dormir e Nabila, para o proteger da chuva, tinha-o embrulhado numa dobra do seu sari. Tinham passado três dias naquela cidade. Estavam num andar de persianas corridas. Com eles havia mais três pessoas que falavam uma língua incompreensível. Uma vez por dia, aparecia um homem que lhes levava bebidas e sanduíches.
— Já chegámos? — perguntara Raj, mal acordara.
Pelas persianas corridas chegava um raio de sol. Nabila tinha-lho mostrado e dissera:
— Quase.
Lá em casa, estavam todos calados. À espera. Os únicos que faziam algum barulho eram dois rapazes de olhos cansados e cabelos pretos e lisos que jogavam às cartas. Sentada a um canto, com Raj ao colo, Nabila cantava baixinho cantigas que acalmavam o filho e o faziam sentir-se em casa.
Uma noite, enquanto os outros dormiam estendidos no chão, Nabila levantara-se e começara a andar pela casa. Os dois rapazes estavam a dormir, estendidos ao comprido, com a cabeça pousada sobre um braço, a mulher, que era da mesma terra, dormia enroscada como se fosse a casca de um caracol. Raj também estava a dormir assim, tinha um lenço na mão e apertava-o com força contra a face. Ao olhar para ele, Nabila reparou que, mesmo a dormir, o filho tinha uma expressão triste: a testa não estava lisa, os lábios estavam contraídos e caídos. Tão pequeno e já cansado e desiludido! Desiludido e cansado como um velho, pensou Nabila.
Na ponta dos pés, aproximou-se da sacada; pelas frestas das persianas olhou para fora. Estava outra vez a chover; lá em baixo, havia uma rua asfaltada e um semáforo. O semáforo tinha uma luz alaranjada, acendia-se e apagava-se a um ritmo regular. De tempos a tempos, passavam automóveis. Em vez de abrandarem perto do semáforo, aumentavam de velocidade. Gostava de ter a mesma segurança, pensou Nabila, de ter a certeza de que, se passo e acelero, não me acontece nada; ou a inconsciência deles, e proceder como quando somos crianças e nos lançamos à água de um rochedo, nos dias quentes.
Nabila suspirou, passou um dedo pela persiana, retirou-o cheio de pó. Atrás dela, alguém ressonava. A mulher falava a dormir, mais do que falar, piava, parecia que estava a chamar uma criança. Ao passar por ela, Nabila reparou que os seus lábios tremiam, como se estivesse quase a chorar. O sono revela tudo, pensou, no sono exibimos o nosso medo como os vendedores exibem a mercadoria no mercado. É assim que os demónios, um a um, nos escolhem do monte; voam sobre corpos adormecidos, e, por um gemido, por um trejeito, percebem tudo. São fiéis, afeiçoados. Quando encontram a pessoa que convém, nunca mais a deixam fugir.
Sabem que essa pessoa é como uma porta mal fechada, que basta insistir um pouco para se conseguir arrombá-la. Não fora por acaso que os demónios tinham desaparecido depois de ela se casar com Tiru. Não fora por acaso que, depois da morte dele, tinham voltado. No sono, o rosto de Tiru mantinha-se tão sereno e forte como quando estava acordado. Mesmo na noite em que o tinham levado, pouco antes da entrada dos soldados, tinha-o visto a dormir.
Nabila voltou para a janela, fechou-a devagar. Num dos lados, lá ao fundo, o céu começava a ficar mais claro. Havia muitos prédios em frente, todos iguais e todos em fila. Entre eles cresciam árvores tão raquíticas e esguias que tinham de se apoiar em estacas. À frente da janela pendiam os ramos de uma árvore grande. Em vez de folhas, tinha sacos de plástico pendurados. Um estava tão perto que Nabila poderia tocar-lhe. O vento fazia-o inchar e desinchar como o pescoço de uma rã. Em vez de grasnar, estalava. Parecia que queria falar. «O Tiru está mesmo morto?», perguntou-lhe Nabila, em pensamento.
O saco ficou por um instante vazio, depois encheu-se. Começou a mexer-se. Dentro dele havia uma força tremenda. Soltou primeiro uma asa, depois a outra, e Nabila viu-o voar para os prédios em frente. A portada bateu com violência. Nabila voltou a fechá-la e voltou a olhar para dentro. O quarto estava outra vez às escuras, todos dormiam, Raj não tinha mudado de posição. Sobre a sua cabeça havia uma luz, dançava suspensa no ar, iluminando-lhe o rosto.
— Tiru... — sussurrou Nabila, aproximando-se.
A chamazinha fez uma pirueta sobe si mesma, tornou-se mais viva e depois apagou-se. Nabila deitou-se ao lado de Raj, cobrindo o rosto com um pano. «Tiru», disse, antes de adormecer, «tu que tens poder para o fazer, voa para os dias que estão para vir. Diz-me se eu e o teu filho seremos felizes.»
Na manhã seguinte, apareceu um homem que ainda não tinham visto. Tinha uma grande barriga, cabelos curtos na testa e compridos no pescoço. Pediu para lhe darem os dólares e os passaportes. Humedecendo o polegar, contou por duas vezes as notas de cada um. Depois, pegou numa folha de papel branco, estendeu-a no chão e sentou-se ao lado. Com uma caneta azul traçou na folha uma linha que a dividia em duas. À esquerda, escreveu ITÁLIA, à direita, desenhou umas coisas que pareciam árvores e uns quadradinhos que deviam ser casas. Depois, apontou para eles com o dedo e desenhou uns homens. Dos homens saía uma seta, a seta apontava para a Itália. Era o caminho que tinham de percorrer. Quando acabou de desenhar, tirou do bolso uma caneta vermelha. Ao longo da fronteira, desenhou umas nuvens e, ao lado, escreveu «Bum!»
Raj estava ao colo de Nabila, acompanhando tudo com atenção.
— É algum jogo, mãe? — perguntou, enquanto o homem fazia BUM.
Nabila acariciou-lhe os cabelos.
— É — murmurou-lhe baixinho ao ouvido. — É um jogo. Temos de descobrir um tesouro.
Nesse instante, o homem levantou-se. Ao levantar-se, disse:
— Orrait?!
— Orrait — respondeu um dos rapazes que jogavam às cartas.
O homem trazia um relógio preto no pulso. Quando chegou à porta, bateu com dois dedos no mostrador e levantou a mão com os cinco dedos abertos.
— Orrait?!, repetiu, e saiu do quarto.
CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA
Susanna Tamaro
Um país para lá do azul do céu
Lisboa, Editorial Presença, 2003
O velhinho que fazia florir as árvores
Há muito tempo atrás, numa pequena aldeia, vivia um homem muito velho com a sua esposa. Como nunca tinham conseguido ter filhos, adotaram um cãozinho que muito amavam. O cão, grato e fiel, nunca se afastava deles. Seguia-os por todo o lado.
Um dia, quando estava a trabalhar no seu jardim, o idoso reparou que o cão esgravatava e cheirava a relva debaixo de um velho pinheiro. Deteve-se de imediato para ver melhor. O cão foi ao seu encontro, latindo com todas as suas forças e, depois, voltou para o mesmo lugar onde recomeçou a arranhar a terra. Estava tão agitado que o velho pegou na sua picareta e aproximou-se, tendo o bicho começado a ladrar ainda mais alto.
Ao bater com a picareta na terra, o idoso ouviu um som límpido e logo descobriu um cofre dourado. Abriu-o e viu uma grande quantidade de moedas de ouro brilhantes. Chamou a mulher que o ajudou a retirar o cofre e a levá-lo para dentro de casa. De um momento para o outro, tinham ficado ricos! Para recompensar o cão, passaram a dar-lhe para comer o que de melhor havia.
Na pequena aldeia, a notícia da descoberta do tesouro espalhou-se como um rastilho de pólvora. Havia mesmo um vizinho que não parava de pensar na felicidade dos velhos e na sua fortuna. Com a inveja, até perdeu o sono. Convenceu-se de que o cão deles tinha um dom especial para descobrir tesouros escondidos. E, assim, foi pedir-lhes o animal emprestado.
— Nós gostamos tanto do nosso cão que não conseguimos separar-nos dele nem por uma hora — disse-lhe o velho.
Mas o invejoso não desistia. E todos os dias voltava com o mesmo pedido.
Como os idosos eram boas pessoas e não sabiam recusar nada, acabaram por emprestar o cão ao vizinho. Este logo o levou para o seu jardim. De repente, o cão parou, cheirou o chão e pôs-se a arranhar a terra. O vizinho apareceu, seguido pela mulher. Cavaram a terra e encontraram um monte de lixo malcheiroso e uns ossos antigos. O homem enraiveceu-se, levantou a picareta e matou o cão.
E logo correu a choramingar para casa dos vizinhos. Fingindo tristeza na voz, disse:
— Que pena! Quando chegou ao meu jardim, o vosso cão morreu de repente. Ninguém sabe como é que isto aconteceu. Não tenho culpa. Trouxe-vos a notícia para o poderem enterrar.
Foi com enorme tristeza que os dois velhos levaram o cão para o lugar onde ele tinha encontrado o tesouro e enterraram-no debaixo do velho pinheiro. Choraram muito, porque agora não tinham a quem amar. No entanto, numa noite, enquanto o velho dormia, o cão apareceu-lhe em sonhos e disse-lhe:
— Corta a árvore debaixo da qual me enterraste e faz um almofariz para o arroz. A tua dor ver-se-á apaziguada.
Mal acordou, o idoso contou o sonho à esposa. E esta aconselhou-o a seguir as instruções do cão. A árvore foi cortada e do tronco foi feito um almofariz grande e bonito. Como tinha chegado a época da colheita do arroz, os grãos de arroz foram empilhados no novo recipiente. Mas quando o idoso começou a descascá-los, deles saíam moedas de ouro. Que alegria sentiram os dois!
Na aldeia, a história do almofariz espalhou-se como um rastilho de pólvora.
E, mais uma vez, o vizinho invejoso não parava de pensar na felicidade dos velhos e na sua fortuna. Com a inveja, até perdeu o sono. E assim pediu-lhes emprestado o almofariz.
— Nós gostamos tanto do nosso almofariz que não conseguimos separar-nos dele nem por uma hora! — disse-lhe o velho.
Mas o invejoso não desistia. E todos os dias voltava com o mesmo pedido. Como os velhinhos eram boas pessoas e não sabiam recusar nada, acabaram por emprestar o almofariz ao vizinho.
De regresso a casa, este, ajudado pela mulher, carregou fardos inteiros de arroz. Despejou os grãos no almofariz e pôs-se logo a descascá-los. Mas, em vez de moedas de ouro, deles só saíram lixo malcheiroso e ossos antigos. O homem enfureceu-se, pegou num martelo e partiu o almofariz em vários pedaços que atirou para o lume.
Correu a choramingar para casa dos vizinhos e fingindo tristeza na voz, disse de novo:
— Que pena! O vosso almofariz começou a arder sem mais nem menos. Ninguém percebeu como é que isto aconteceu. Não tenho culpa. Trouxe-vos logo a notícia para que não fiquem à espera que eu o devolva.
E, uma vez mais, os velhinhos foram deitar-se bastante tristes. E de novo o velhinho viu o seu cão em sonhos. Este disse-lhe que fosse ao vizinho e trouxesse as cinzas do almofariz queimado, que as levasse para a estrada principal e que, quando o rei fosse a passar, subisse para uma cerejeira ainda nua e nela espalhasse as cinzas. Na manhã seguinte, o velho foi a casa do vizinho e recolheu as cinzas do almofariz. Guardou-as num saco e foi avançando pela estrada até onde as cerejeiras estavam nuas por não ser ainda a época em que as árvores se cobrem com as suas túnicas de flores multicolores e perfumadas.
Mal chegou, o velho viu que o rei e a sua comitiva se aproximavam. Em vez de se deitar com a face junto ao chão como todos faziam em sinal de respeito, subiu para uma cerejeira.
O rei, quando o viu, ordenou que o prendessem e castigassem. Mas sem se deixar intimidar, o idoso abriu o saco e espalhou nas árvores à sua volta as cinzas finas do almofariz. Imediatamente, tudo floriu em tonalidades rosa e branca e o ar encheu-se de um perfume inebriante. O rei ficou tão intrigado e encantado que ali mesmo ofereceu presentes riquíssimos ao idoso.
Na aldeia, a história das cinzas espalhou-se como um rastilho de pólvora.
E, de novo, o vizinho invejoso não parava de pensar na felicidade dos velhos e na sua fortuna! Com a inveja, até perdeu o sono. Então, apanhou na chaminé o resto das cinzas do almofariz e foi, também ele, para a estrada principal.
Mal chegou, avistou o rei com a sua comitiva. Em vez de se deitar com a cara no chão em sinal de respeito, subiu para uma cerejeira. O rei, quando o viu, ordenou que o prendessem e castigassem. Mas o perverso abriu o saco e espalhou nas árvores à sua volta as cinzas do almofariz. O lixo malcheiroso e os ossos velhos voaram imediatamente até à cara do rei e dos homens da sua comitiva! Os guardas logo ali o prenderam, metendo-o depois na prisão onde ficou largos anos….
Na pequena aldeia, a história espalhou-se como um rastilho de pólvora.
Muito tempo depois, quando, por fim, o vizinho invejoso foi posto em liberdade, ninguém o quis acolher. Acabou por morrer na miséria.
Quanto aos velhinhos, nunca puderam esquecer o seu querido cão.
Anne Buguet
Le grand-père qui faisait fleurir les arbres :
conte de la tradition japonaise
Paris Flammarion-Père Castor, 2002
(Tradução e adaptação)
O que diz o vento?
Segunda Parte
Às cinco boras da tarde, o Sol já se tinha posto. O homem chegou pontualmente, dividiu-os em dois grupos. Levou-os no elevador até à garagem. Na garagem, à espera deles, estava uma carrinha branca com a porta traseira aberta. Atrás, não havia nenhuma janela por onde se pudesse olhar lá para fora. Durante algum tempo, Nabila ouviu apenas o ruído do trânsito. Quando o ruído diminuiu, percebeu que tinham saído da cidade.
Raj estava agitado.
— Para onde é que vamos? — perguntou, sentado ao colo dela.
— Lembras-te do senhor desta manhã?
Raj disse que sim.
— Vamos à procura do tesouro.
Pela primeira vez desde que tinham partido, Nabila viu uma luz diferente nos olhos do filho.
— Se o encontrarmos nós, é nosso? — perguntou, após uma pausa.
Nabila pegou nas mãos do filho. Estavam frias, quase geladas. Roçou-lhe a testa com os lábios.
— Sentes-te bem, Raj? perguntou.
— É nosso, o tesouro? repetiu Raj.
— Sim, será nosso para sempre — respondeu Nabila.
— Mas que tesouro é?
Em vez de lhe responder, a mãe soprou-lhe nos olhos.
— O que diz o vento? — perguntou Raj.
— O vento diz que o Raj tem de dormir.
— Porque tenho de dormir?
— Porque a caçada vai ser demorada e cansativa. E se não tiveres descansado, não encontrarás o tesouro.
Raj obedeceu logo, deitou-se no colo da mãe e fechou os olhos. Nabila tocou-lhe nas pernas. Também estavam geladas. Reparou que, ao respirar, se lhe formava uma nuvenzinha à frente do nariz e da boca. Raj estava descalço e só tinha as cuecas e uma camisola de mangas curtas. Apeteceu-lhe dar um murro na testa. Como pudera esquecer-se do inverno? O irmão tinha-lhe falado dele em muitas cartas.
Uma vez, até lhe tinha mandado um postal onde se via uns montes todos brancos, cobertos de neve. Na parte de trás, depois dos cumprimentos e dos votos, tinha escrito: «Aqui faz tanto frio que é melhor não se pôr o nariz fora da porta.» Na noite em que tinha partido, Nabila estava com pressa e tinha medo. À parte todas as economias de Tiru, não levara mais nada com ela. Só pensara em fugir, em deixar para trás os demónios. A pressa e o medo tinham-na feito esquecer-se do inverno.
Nabila soprou com força nas mãos, esfregou-as uma na outra. Mal as sentiu quentes, esfregou com elas as pernas e os braços do filho, passou-lhas por todo o corpo, como as vacas passam a língua pelos vitelos.
O percurso não foi longo. Uma hora mais tarde, Nabila sentiu que a estrada já não era de asfalto, mas de gravilha. A carrinha guinava, saltava, tinham de se agarrar com força para não chocarem uns contra os outros. O homem desligou o motor. Ao longe, uns sinos deram sete badaladas. O homem abriu a porta, desceram todos e viram-se diante de um bosque. Era um bosque diferente de todos os que Nabila tinha visto em toda a sua vida. Havia muitas árvores magras e tristes como velhos, por baixo delas havia plantas, o terreno estava limpo, como um campo de futebol.
Assim, vai ser mais fácil, pensou Nabila. Entretanto, Raj tinha acordado.
— Porque não há Sol? — perguntara.
— Porque os tesouros procuram-se de noite — respondera-lhe a mãe.
O homem estava diante deles. De braço erguido, apontava numa direção. Os dois rapazes que jogavam às cartas começaram a andar, a mulher seguiu-os logo depois. Nabila olhava para o bosque, sentia o negro da noite entrar-lhe no corpo como um líquido escuro, misturava-se com o sangue e subia-lhe à cabeça. Tinha medo.
— Go! — exclamou o homem. — Go! — Depois, ao ver que Nabila não se mexia, agarrou-a pelos ombros e empurrou-a para a frente. — Schnell!
Nabila começou a andar, as pernas pesavam-lhe como vasos cheio de areia. Não eram dela, eram de outra pessoa qualquer, de alguém que tinha vontade de se atirar para o chão e começar a chorar. Raj escoiceou como se ela fosse um cavalo preguiçoso.
— Mãe — gritou —, os outros já vão lá à frente. — Nabila ergueu os olhos, viu as silhuetas dos outros, lá longe, na colina. Acelerou o passo.
A carrinha pusera-se de novo em movimento, atrás deles. Ouviram-na descer lentamente as curvas da estrada até desaparecer. De repente, Nabila reparou que, naquelas paragens, a noite era muda. Não havia a algazarra de animais que havia na terra deles. Não havia rugidos, gemidos, não havia chilreios.
Caminharam durante algum tempo em silêncio, à luz incerta da lua.
Nabila não tardou a perceber que não conseguia acompanhar o passo dos outros. Ela tinha o filho, o filho era pesado. Mesmo que o tivesse posto no chão, andaria devagar. Quando chegaram quase ao alto da colina, Nabila parou e olhou para trás. Aqui e ali, espalhadas pelos campos, havia casas. As janelas estavam iluminadas. De vez em quando, por detrás dos vidros, via-se passar uma silhueta. A luz amarela, intensa, devia estar calor, lá dentro. Seriam as casas que o homem tinha desenhado no papel? Ou ficavam no outro lado?
Nabila reparou que já não se lembrava de nada. A noite era o reino dos demónios, eram eles que lhe baralhavam as ideias. Viu a sua casa e o ar perfumado da noite a entrar pela porta aberta. Porque tinha partido? Agora, tudo lhe parecia uma loucura. Gostaria que alguém lhe pegasse na mão e a guiasse, gostaria de não decidir ou fazer mais nada. Sou pequena, pensou, e ando com uma pedra pesada às costas. Quem é que a pôs lá? Por que é que não notei quando ma puseram? Se calhar, já nasci com este peso às costas, transportarei esta pedra até ela fechar o meu túmulo.
Raj tocou-lhe num ombro.
— Mãe, porque não continuamos a andar?
Nesse instante, por cima deles, um pássaro cantou. Era um canto triste, se não viesse de cima de uma árvore, poderia muito bem ser o choro de uma criança.
— Quem é? — perguntou Raj.
— É um amigo — respondeu a mãe, pondo-se de novo a caminho. — Está a dizer-nos por onde devemos ir.
O caminho agora era a descer. Não havia casas, nem guaritas de soldados. No chão, havia apenas agulhas de pinheiro, com o gelo estalavam a cada passo, como se fossem pedaços de vidro. Entre as copas das árvores, de tempos a tempos, via-se o céu, a lua estava coberta por uma nuvem cheia e esbranquiçada. Atrás dela, outras nuvens, empurradas pelo vento, corriam, encobrindo as estrelas. Uma rajada de vento passou pelo bosque, como uma mão gelada. Nabila tentou manter o sari fechado. Os troncos à volta estalavam tanto que parecia que queriam partir-se.
— Quanto é que falta? — perguntou Raj.
— Muito pouco — respondeu Nabila, e curvou-se para o beijar na testa.
A testa queimava. O tronco seminu de Raj erguia-se e baixava rapidamente, como se tivesse corrido.
— Tens frio? — perguntou Nabila.
— Tenho muito sono — respondeu o menino.
Nabila esfregou-o com as mãos.
— Já vamos encontrar um lugar onde dormir. Um lugar quente onde esperaremos pela madrugada.
A lua estava de novo a descoberto, fazia descer a sua luz crua por entre os ramos. Nabila tropeçou numa pedra, e, ao tropeçar, estragou uma sandália. Tirou a outra e atirou-a fora. Já estavam a andar há algum tempo. Quando é que tinham saído da carrinha? Há uma hora, duas horas, quatro? Quanto faltaria ainda para a fronteira? Como saberiam que já a tinham passado? Tinha de descobrir um lugar abrigado onde Raj pudesse descansar. Um lugar onde o vento não soprasse, onde houvesse folhas para o cobrir.
De repente, no fundo de uma clareira, pareceu-lhe ver a entrada mais escura de uma caverna. Ao dirigir-se para esse abrigo, reparou que, a meio do terreno, havia um cartaz. Era grande, mais alto do que Nabila. Por cima, na penumbra, viam-se muitas coisas escritas. Nabila tentou ler uma, leu, mas não percebeu nada. No fundo do cartaz, havia um número: 300. Nabila sentiu o coração acelerar dentro do peito. Ergueu o braço livre e tocou no cartaz: 300. Só podia ser assim: faltavam trezentos metros para passarem a fronteira. Estava em Itália. Apertou Raj com força contra o peito, beijou-lhe os olhos. Ele mal abriu uma fenda.
— Conseguimos! — disse-lhe a mãe.
Raj abriu um pouco mais as pálpebras.
— Encontrámos o tesouro?
— Encontrámos — respondeu Nabila.
Depois, acrescentou mais baixinho:
— Quase.
A coisa escura que tinha vislumbrado ao fundo da clareira era, de facto, uma caverna. Nabila sentiu debaixo dos pés as pedras cobertas de musgo viscoso. Uma pinga caiu-lhe no nariz. Avançou um metro ou dois no escuro, a distância necessária para se abrigar do vento, depois, deitou Raj no chão. Ali, na gruta, o vento metia mais medo do que lá fora. A sua voz era mais aguda, mais potente, uivava como mil demônios todos juntos.
Por uns instantes, Nabila pensou que tinha sido imprevidente ao entrar na caverna, podia haver por lá um tigre ou qualquer outra fera. Invocou com força o nome do marido e, mal o fez, percebeu que não podia permitir que Raj adormecesse. Abanou-o, chamando-o pelo nome. O pequeno respondeu debilmente, Nabila pegou nele ao colo e abanou-o com mais força. Ao tocar-lhe, reparou que as suas mãos também estavam geladas. Tocava nas coisas e era como se não lhes tivesse tocado. Aflorou os braços de Raj com os lábios, com os lábios aflorou-lhe as pernas. Sentiu que estava a beijar uma pedra, uma coisa dura e fria.
— Ouve bem, Raj — disse baixinho, falando-lhe ao ouvido —, queres que te fale do tesouro?
Raj mexeu-se debilmente, soltou um gemido que parecia um sim.
— O nosso tesouro — começou ela — está fechado em dez caixotes cobertos de diamantes. Em cima de cada caixote, há um papagaio de uma cor diferente. São eles que guardam o tesouro. Só abrem os caixotes quando ouvem a palavra mágica. E sabes qual é a palavra mágica? Sabes? A palavra mágica é Itália.
Nabila calou-se. Raj não estava a ouvir a história, dois longos arrepios tinham-lhe percorrido o corpo, a sua respiração tornara-se mais leve. Então, como um animal selvagem, aninhou-se em cima dele, e, de repente, sentiu-se cansada, muito cansada. Pensou: vou fechar os olhos por uns instantes, só por uns instantes. E passados uns instantes viu uma casa grande e toda branca, com colunas na fachada.
Era a casa onde trabalhava o irmão. Ela estava sozinha na alameda que conduzia à porta de entrada. As persianas estavam fechadas, à porta também parecia não estar ninguém. Só quando se aproximou mais é que viu Raj debaixo das colunas. Estava vestido como os primos na fotografia que o irmão tinha mandado: blue jeans, camiseta, ténis e tinha uma mochila de muitas cores ao ombro. Erguia o braço, para o cumprimentar:
— Raj! — chamou em sonhos, gritando.
Raj pôs-se na ponta dos pés, viu-a. A boca, sorrindo, chegou-lhe às orelhas.
— Mãe! gritou, saudando-a com as mãos abertas.
Nessa altura, ouviu-se um estrondo dentro de casa, as persianas e as portas saltaram das paredes com a deslocação do ar. Havia uma força terrível atrás deles. Essa força não era um furacão ou um tufão, mas uma cascata de milhões e milhões de moedas de ouro e de prata. Caíam lá do alto com estrondo, parecia que queriam destruir tudo.
— Foge! — gritou Nabila. — Foge!
Mas Raj parecia não a ouvir, olhava para as moedas que lhe choviam na cabeça, já estava com as pernas enterradas. Num instante, todo o seu corpo desapareceu.
Foge! — gritou Nabila e acordou com o estrondo da sua própria voz dentro da caverna.
Tinha as costas todas molhadas, cobertas de um suor gelado. «Onde é que estou?» pensou. «O que se passa?» Depois, sentiu Raj debaixo dela. Respirava como um passarinho recém-nascido. Encostou-lhe a face ao nariz. Ainda respirava. Nabila ganhou coragem e levantou-se.
— Vamos —disse a Raj. — Temos de nos pôr a caminho.
O vento lá fora soprava com mais violência ainda. Do céu caía um pó frio e branco. As rajadas batiam-lhe na cara, nos braços, nas pernas. Eram cortantes. Nabila mal conseguia manter os olhos abertos. De repente, pareceu-lhe ouvir o seu nome.
— Quem é? — gritou, rodopiando como um cego.
Depois, viu-o, estava perto da gruta. Emanava uma luz esverdeada, o seu corpo transparente mexia-se com o vento. Ria com maldade. «Nabila», uivou ele, «pobre tonta! Julgavas que podias escapar à nossa vontade, mas foste ao encontro dela, de braços abertos!» Depois de ter soltado um último grunhido de porco, desapareceu na escuridão da noite.
Nabila sentiu crescer dentro dela uma energia tremenda, a energia de Tiru, a energia do tigre que defende os filhotes. Levantou a mão que tinha livre, cerrou o punho e gritou «infames» com uma voz que lhe saía do estômago, «malditos! É a raiva que vos faz falar! Eu e o Raj conseguimos. Já estamos a salvo, a salvo. Perceberam?» O vento respondeu, arrancando um ramo grosso. Soltou-se da copa de um pinheiro, caiu uns metros à frente de Nabila. Ao passar por Nabila deu-lhe um pontapé e continuou até ao carreiro, em passo de marcha. Já não tinha fome, já não tinha frio, já não tinha medo. Faltava-lhe muito pouco para vencer a sua batalha, para mostrar a todos que tinha feito o que havia a fazer, que a sua vida era o futuro de Raj. Um futuro sem guerras e sem guerrilhas, sem crianças nascidas para virem a ser jovens mortos.
Ao percorrer o carreiro que descia, Nabila começou a cantar as mesmas canções que ela e o irmão cantavam, quando eram crianças. Dentro de dois ou, no máximo, três dias, voltariam a encontrar-se, juntar-se-iam todos na grande cozinha onde ele trabalhava, comeriam e beberiam. Raj brincaria com os primos, ao pé do fogão. À noite, no calor do quarto, continuariam a conversar. Ela falar-lhe-ia da morte de Tiru e de toda a viagem, das suas dúvidas, dos seus medos. Adormeceria a conversar.
De repente, ao fazer uma curva do carreiro, Nabila viu, ao fundo da colina, as silhuetas de três ou quatro casas. Numa delas, havia ainda uma janela com luz. Tentou acordar Raj, abanou-o com força, encostou o nariz ao nariz dele e começou a soprar. Raj não abriu os olhos, mal mexeu os lábios. Nabila tentou decifrar o gesto, pareceu-lhe que dizia «O que diz o vento?» Então, cobriu-lhe o rosto de beijos, disse-lhe muitas vezes:
— O vento diz que já chegámos!
Faltava menos de um quilómetro para chegarem às casas. No outro lado da colina, o vento soprava um pouco menos, a neve continuava a cair. Enquanto iam descendo, pensou que o seu maior desejo era que Raj viesse a ser médico. Dentro de um mês, ou menos, voltaria ao seu ofício de costureira, o irmão ajudá-la-ia. Raj depressa aprenderia a nova língua e ela pô-lo-ia a estudar. Pouparia desde o primeiro dia para ele vir a ser alguém.
Agora que Tiru já não existia, Raj era a sua vida, toda a sua vida. Via-se já velha e branca, no seu leito de morte. A morte chegava e ela não tinha medo, os demónios já tinham partido há tantos anos que já nem se lembrava de como eles eram. Raj pegava-lhe na mão ressequida com as suas mãos delicadas e fortes. Junto dele, estava a mulher e os seus três netos. À menina tinham-lhe dado o nome dela, Nabila. Havia silêncio a toda a volta, ninguém soluçava, desesperado. Era para isso, não para mais nada, que se vivia. Para se morrer de velhice, na sua cama, rodeada pelos filhos e os netos.
Nabila tinha chegado à primeira casa; a toda a volta, havia um muro com grades. Ao lado da porta de entrada, por entre a neve derretida, via-se uma bicicleta de criança. Há crianças, pensou Nabila, e tocou logo à campainha. Na primeira vez, carregou ao de leve com o dedo e durante pouco tempo. Não lhe pareceu ouvir qualquer som. Não se acendeu luz em nenhuma janela. Convencida de que tinha carregado no botão com pouca força, tocou outra vez, contou até dez sem tirar o dedo, e não aconteceu anda. Tocou mais uma vez, e mais uma vez ainda. De vez em quando, olhava para cima, para as janelas. Havia algumas portadas abertas, outras estavam fechadas. A certa altura, por detrás de uma das portadas, pareceu-lhe ver uma luz frouxa. Começou a gritar. Gritava: «Sou uma mãe, o menino está doente!» Sabia que ninguém compreenderia as suas palavras, mas não lhe importava. O que importava era que alguém a visse, que visse que era, de facto, uma mãe com um filho nos braços.
Ergueu outra vez os olhos para a janela, já estava escuro. «Se calhar, enganei-me», pensou. «Se calhar, nesta casa, não há ninguém. A luz foi só uma partida que os meus olhos cansados e a neve que continua a cair me pregaram.»
Tapando o rosto com a mão, Nabila dirigiu-se para outra casa. Não ficava longe, mas demorou um tempo que lhe pareceu infinito a lá chegar. A neve no chão era dura e escorregadia. Mal tocava no chão, o vento transformava-a numa única laje de gelo, era quase impossível andar por cima dela descalça e com as rajadas de vento a fustigarem-lhe o rosto. Apertando Raj contra o peito, Nabila percorreu todo o caminho curvada para a frente, para ver bem onde punha os pés.
Ao chegar ao portão, Nabila sentiu-se, de repente, velha. O sari, molhado pela neve e gelado pelo vento, colava-se-lhe ao corpo como uma segunda pele. Já não sentia as pernas, não sabia onde elas estavam. Voltava a sentir a sonolência que sentira na gruta. Voltara mais forte, prepotente, e uma voz dentro dela dizia-lhe: «Deita-te no chão e dorme. É bom dormir. Estás cansada. É justo que durmas. Dorme e sê feliz...»
Então, Nabila bateu por várias vezes com a mão que tinha livre contra a parede. Alguém lha tinha também roubado. Já não era dela, batia, batia, e não sentia nada. Era como bater com uma pedra, um pedaço de madeira, com tudo menos a sua mão. Depois, com grande esforço, aproximou-se da campainha e com a palma da mão carregou no botão. No jardim ecoou um estridente DRIIIIN. Ecoou e não parava de ecoar porque Nabila não tirava a mão.
A casa era maior do que a outra e tinha um campo enorme à frente. No primeiro andar, havia uma grande vidraça e lá dentro via-se uma árvore. Era uma árvore como as que havia lá fora, só que estava coberta de luzes, luzes de todas as cores. Acendiam-se e apagavam-se a intervalos regulares, sem nunca pararem. Durante algum tempo, não aconteceu nada, ouvia-se o som estridente no ar e todas as janelas estavam escuras. Depois, de repente, Nabila ouviu por cima dela uma espécie de assobio. Ergueu os olhos e, nesse mesmo instante, por cima da sua cabeça, acendeu-se uma luz, havia uma espécie de máquina fotográfica lá em cima.
Nabila tentou sorrir, lá de cima saiu uma voz que disse qualquer coisa. Nabila levantou Raj para a máquina. Disse: «Sou uma mãe com um menino, o menino está doente.» Antes de acabar de falar, a máquina apagou-se e ficou outra vez tudo escuro. Nabila inclinou-se para Raj, beijando-o. «Agora, vamos para uma casa», disse-lhe, «para um lugar quente»; depois, impaciente, pôs-se a olhar fixamente para a porta.
A porta não se abriu logo, mas Nabila não se preocupou. Tinha a certeza de que a tinham visto, sabiam que lá fora havia uma mãe com um menino. Devem estar a vestir-se, pensou, embalando Raj, ou, se calhar, a casa é muito grande e leva muito tempo a descer as escadas, a ir de uma parte para a outra. Enquanto assim pensava, viu a luz acender-se por detrás da porta de entrada, o ruído da chave na fechadura e da maçaneta da porta chegaram até ela.
Nabila endireitou-se, tirou os cabelos dos olhos. Em vez de se abrir, a porta fechou-se, e um grande cão, de orelhas arrebitadas, saiu por um buraco. Ladrando furiosamente, correu para o portão. Corria tanto que quase não tocava no solo. Continuou a ladrar, com a boca vermelha e os dentes brancos, até ela, recuando, ser engolida pela escuridão. Nabila ficou sem fôlego. Por uns instantes, sentiu um nó na garganta, a parte do seu corpo que ainda estava viva tremia. Ficou por uns minutos parada como uma estátua entre as três casas. O ladrar do cão começava a esmorecer.
Uma voz, dentro dela, dizia-lhe: «Vai à outra casa», outra voz desencorajava-a: «Está tudo perdido. Não conseguiste, acabou para sempre.» Agora, sobre o seu rosto, havia outra coisa, para além da neve, uma coisa quente. Eram lágrimas, desciam-lhe dos olhos para as faces, à altura do nariz transformavam-se em gotas de gelo. Não chorava desde o dia em que Tiru tinha morrido. Pensou: «As lágrimas podem ser tão diferentes como a noite e o dia».
Depois, dobrou os joelhos, sentou-se nos calcanhares, e, de boca fechada, começou a entoar uma canção de embalar. Cantara-a muitas vezes quando Raj era pequeno e tinha algum dente a nascer, era a única canção que lhe acalmava a dor. Às primeiras notas, deixava de chorar, adormecia ao seu colo com um sorriso nos lábios. Agora, Raj também estava a dormir. Mal se tinha acocorado, Nabila tivera a impressão de que ele a tinha chamado.
Tinha dito baixinho «mãe» e depois adormecera. No sono, o seu rosto tinha mudado, já não estava triste, estava sereno. Nabila, curvada para ele, observava-lhe o sorriso, quando sentiu uma presença a seu lado. À sua direita, havia uma coisa grande, peluda e quente. Por uns instantes, pensou cansadamente que era um demónio. Voltou o rosto para ele, já não tinha vontade de lutar. Os seus olhos encontraram os olhos pretos e redondos de um cão enorme. Tinha um pelo comprido e desgrenhado, o lombo e a cabeça estavam brancos de neve.
— O que queres? perguntou-lhe Nabila.
Os olhos do cão brilharam, da garganta saiu-lhe um gemido. Nesse gemido, não havia raiva, nem fome. Parecia antes que queria alguma coisa. Após um breve silêncio, Nabila perguntou baixinho «Quem és?» Como resposta, o cão meteu o focinho por baixo da cabeça de Raj e, fazendo força com a curva da pata, levantou-a por duas ou três vezes, lentamente. «Levanta-te», parecia querer dizer. «Não te rendas.»
Agarrando-se ao lombo do cão, Nabila levantou-se outra vez. A última casa estava diante dela, faltavam vinte ou trinta metros para lá chegar. Aproximou-se devagar, com o cão ao lado. Enquanto ia andando, pensou «se calhar, o cão é da casa, o dono mandou-o vir ter comigo. Ele ficou lá dentro, está a preparar uma coisa quente, ou então, está ao telefone, a chamar um médico, uma ambulância, alguém que nos possa ajudar». De facto, havia uma janela toda iluminada. Também se via alguém a andar lá dentro, tinha uma roupa azul, os cabelos pareciam brancos. «Ainda bem, um velho», pensou Nabila.
Já estava junto do portão, com a mão aberta tocou à campainha. Tocava e via o homem a andar de um lado para o outro, no quarto. «Anda de um lado para o outro porque não encontra a chave», pensou. Olhou para baixo e viu que o cão já não estava a seu lado. Tinha desaparecido em silêncio, tal como aparecera. O homem não descia. Então, Nabila começou a gritar, ficou surpreendida com a sua voz, era tão forte que a assustava. Tocava à campainha e gritava.
Passados dez minutos, o homem escancarou a janela iluminada. Tinha os cabelos quase todos brancos, debruçou-se da janela e, agitando um braço no ar, começou também a gritar: «Vai pró inferno! Nem de noite nos deixais em paz! Vai pró inferno! Rua, ou chamo a polícia!»
«22 de dezembro de 1992. Em consequência de uma comunicação anónima, foi encontrada sem sentidos, nas proximidades de... a 500 metros da fronteira com a Eslovénia, uma mulher de nacionalidade incerta, pele escura, traços orientais, cabelos pretos. Sem dinheiro, nem documentos. Idade aparente: 25 anos. Tentava entrar ilegalmente no nosso país. Com ela, estava um menor do sexo masculino. Idade aparente: quatro anos. Morto.
A minha biblioteca é um camelo
Como levar livros às crianças de todo o mundo
• INTRODUÇÃO
Há alguns anos, li um artigo acerca de um camelo no Quénia, que levava regularmente livros aos jovens que viviam em aldeias remotas. Perguntei-me, então, de que outras formas os livros poderiam ser levados às crianças noutras partes do mundo. A minha pesquisa mostrou-me toda a espécie de “bibliotecas móveis”: bibliotecas que se moviam sobre pernas, sobre rodas, e ainda de outras formas.
Confesso que fiquei emocionada com os esforços despendidos para levar livros às mãos dos leitores mais jovens e comecei a contactar bibliotecários em terras longínquas. Partilharam comigo informações, histórias pessoais, fotos das suas bibliotecas móveis e dos jovens que as frequentam. Com o passar dos tempos, organizei um álbum de recortes com as bibliotecas móveis de todo o mundo. Desenvolver o projeto deste livro tem sido uma experiência emocionante e compensadora. Do Azerbaijão ao Zimbabué, descobri pessoas que têm paixão por livros e que compreendem a importância de uma biblioteca nas nossas vidas. Um bibliotecário no Azerbaijão explicou que uma biblioteca é “tão importante como o ar ou a água.” Tal como eu, talvez vocês tenham sempre tido uma biblioteca à disposição. Na próxima vez que pedirem livros emprestados, pensem na sorte que têm por poderem escolher entre tantos livros e por todos eles serem grátis.
Os bibliotecários e voluntários que transportam os livros de camelo, de elefante, ou de barco inspiraram-me. Espero que vos inspirem também.
• AUSTRÁLIA
Na Austrália, há mais de cinco mil bibliotecas e cerca de setenta e duas dessas bibliotecas são móveis. Essas bibliotecas itinerantes assumem a forma de enormes camiões com atrelados, que transportam milhares de livros para crianças que não podem deslocar-se a uma biblioteca na cidade.
Travis é bibliotecário e viaja num desses camiões para ir às escolas falar sobre livros e contar histórias. “Algumas histórias fazem as crianças pensar,” diz Travis. “Outras provocam risos ou lágrimas.” As histórias podem levar as crianças a entusiasmarem-se pelos livros e pela leitura, e isso fá-las pedir muitos livros emprestados. A biblioteca móvel que Travis dirige é mais do que um camião. É uma biblioteca moderna, movida a energia solar. O painel solar está colocado em cima do camião e dentro do veículo estão cinco computadores e uma impressora.

O camião tem três aparelhos de ar condicionado, dois conjuntos de luzes fluorescentes, nove focos de luz, e um sistema de som estereofónico. Também está munido com um elevador para cadeiras de rodas, um micro-ondas, um pequeno frigorífico, uma sanita, e duas bancas. Todas estas unidades são abastecidas por baterias de recarga permanente, cuja corrente é fornecida pelo painel solar.
•AZERBAIJÃO
As crianças do campo de refugiados de Kelenterli não conseguem ficar quietas quando sabem que o camião azul está para chegar. A visita do camião azul da biblioteca deve-se ao trabalho esforçado da Relief International, uma organização que fornece ajuda às vítimas de desastres naturais e conflitos civis. A estas crianças que vivem na pobreza, o camião azul da biblioteca traz uma sensação de felicidade e um sentimento de curiosidade. “Quando a biblioteca vem à cidade, é uma autêntica festa,” diz o bibliotecário. “Para crianças que, quase sem exceção, não têm grandes expectativas em relação à vida, a leitura funciona como um passaporte para uma vida diferente.”
Há já vários anos que esta biblioteca-camião traz livros às crianças. Preparados para fornecer uma ampla variedade de livros aos jovens, os dois camiões-biblioteca abastecem mais de mil e seiscentos estudantes, em cerca de vinte e três escolas de refugiados. O seu objetivo é simples: durante algumas horas, todas as semanas, as crianças de Kelenterli e de outros campos têm a oportunidade de pedir livros emprestados, o que as faz sentir menos isoladas do resto do país. Noutras zonas do Azerbaijão, há crianças que adorariam receber a visita do camião azul. Contudo, como os camiões apenas fazem percursos através de duas regiões, não há camiões nem livros suficientes para todos. Neste momento, a Relief International está a trabalhar no sentido de alargar a sua cobertura.
“Para nós,” diz o bibliotecário, “a biblioteca itinerante é tão importante como o ar ou a água.”

• CANADÁ
Nunavut é um imenso território no norte do Canadá. Como é óbvio, na região ártica, as distâncias são imensas e muitas aldeias encontram-se isoladas. Enquanto as cidades maiores têm as suas próprias bibliotecas públicas, outras, mais pequenas, dispõem apenas de uma biblioteca virtual, ou seja, um local que permite o acesso à Internet. Quando a comunidade não tem qualquer tipo de biblioteca, o sistema de bibliotecas desta zona oferece livros a todos através do seu programa Borrower-by-Mail, ou seja, Empréstimo por Correio.

Tyson Anakvik, Colin Igutaaq, James Naikak, e Cameron Ovilok são amigos que vivem em Nunavut e todos requisitam livros por e-mail ou por telefone. Não é uma biblioteca itinerante que traz os livros à sua aldeia; os livros são enviados por correio. O programa Borrower-by-Mail envia às crianças qualquer livro que elas gostem de ler. Se a biblioteca não tiver um determinado livro, os bibliotecários pedi-lo-ão a outra biblioteca no Canadá e expedi-lo-ão pelo correio. Chegam mesmo a incluir um envelope selado e endereçado, para que as crianças não tenham de pagar ao devolver o livro.
Enquanto vão dar uma volta de trenó, algumas crianças aproveitam para se dirigir aos correios para levantar os livros que estão ansiosos por ler já naquela noite. Como nos dias de inverno nem sequer chega a haver sol, quando o termómetro marca cerca de 50 graus negativos, as crianças gostam de se enroscar com um bom livro junto ao fogão de sala. Enquanto o vento norte uiva através da tundra, leem histórias de fantasia e ação. Os jovens leitores podem ficar com os livros durante seis semanas. Findo esse tempo, vão até ao posto dos correios local e reenviam os livros para a biblioteca. Estas crianças verificam o correio todos os dias, na expetativa de ver chegar uma encomenda com livros novos, prontinhos para serem lidos naquele canto remoto do Ártico Canadiano.
• INGLATERRA
A Blackpool Beach Library (Biblioteca da Praia de Blackpool) leva livros a pessoas que estão a passar as suas férias de verão na praia e transporta-os num carrinho de mão!
Dois bibliotecários assistentes transportam os livros ao longo da praia. Quem usufrui destes empréstimos não precisa de ser sócio da Biblioteca de Blackpool. Quando as pessoas acabam de ler os livros, colocam-nos, de novo, no carrinho de mão, quando este passa pela praia. Os funcionários da Biblioteca acreditam que é importante promover o gosto pela leitura. “As bibliotecas são serviços, não edifícios,” diz um dos bibliotecários. Por isso, além de passeios de burro e de bancas de limonada, esta praia oferece livros!

A Inglaterra tem também outros tipos de bibliotecas móveis. No condado de Gloucester, existe a Share-a-Book (Partilhe um Livro), uma biblioteca infantil itinerante, que funciona numa carrinha. Esta carrinha é conduzida por um bibliotecário, que visita os lugares mais remotos do condado, onde as crianças não têm acesso a bibliotecas públicas normais. Muitas crianças nem sequer têm livros em casa para ler e partilhar com os pais. A Share-a-Book tem livros especiais para crianças cuja segunda língua é o Inglês. Também oferecem horas do conto para bebés e participam em eventos especiais nessa região do país.
• FINLÂNDIA
No sudoeste da Finlândia, existe um arquipélago formado por milhares de ilhas rochosas. Algumas ilhas só recebem visitas no verão, mas outras têm população residente durante todo o ano. As pessoas nesta zona da Finlândia falam Finlandês e Sueco. Desde 1976 que a Biblioteca Pargas leva livros por barco às pessoas destas ilhas.

O barco, chamado Kalkkolm, que significa “Ilha de Calcário” em Sueco, tem 4 metros de largura e 12 metros de comprimento e transporta cerca de seiscentos livros. O barco, cuja tripulação é constituída por um bibliotecário e um assistente, navega pelas ilhas, fazendo cerca de dez paragens. É com dificuldade que os miúdos atravessam as costas rochosas para recolher os seus livros. Dado que os invernos são rigorosos na Finlândia, o barco sai só de maio a outubro. Maj-Len, a bibliotecária chefe de Pargas, é responsável por toda a atividade do barco dos livros.
“A leitura tornou-se muito importante para as nossas crianças,” diz. “Se o barco dos livros não viesse, talvez nem tivessem nada para ler. Ficam sempre felizes quando nos veem e quando veem livros novos.”
• INDONÉSIA
Os rios são os principais meios de transporte entre as muitas ilhas da Indonésia. Portanto, não é de admirar que algumas bibliotecas flutuem através de rios. O país tem sete bibliotecas flutuantes. A Biblioteca Flutuante Kalimantan consiste num barco de madeira, com 8 metros de comprido e 3 metros de largura. O barco, que funciona com um motor a diesel, pode transportar até quinhentos livros. No início, quando o barco começou a trazer livros às aldeias, ao longo do rio Kahayun, tinha que lá ficar até que as pessoas acabassem de os ler. Como o processo era muito demorado, os bibliotecários decidiram deixar ficar contentores cheios de livros junto das populações. Isto permitiu-lhes continuar a viajar pelo rio e levar livros a outras aldeias. Agora, as crianças das aldeias ao longo do rio correm para o barco-biblioteca quando o veem aproximar-se e ficam muito entusiasmadas por poderem remexer num novo caixote cheiinho de livros para ler.

Na cidade de Surabaia, uma bicicleta-biblioteca faz todos os dias o seu percurso. O Conselho de Bibliotecas de Java Leste decidiu que a bicicleta era o meio mais económico para entregar os livros aos seus leitores. A bicicleta é movida a energia humana, é amiga do ambiente, e facilita a circulação pelas estreitas e sinuosas ruas da cidade. Consegue levar livros e promover a leitura em todo o lado: na cidade, em kampongs, que são comunidades urbanas construídas à imagem das aldeias da província, em escolas nas zonas rurais e em aldeias. As crianças e os seus pais podem requisitar os livros da bicicleta-biblioteca e trocá-los na vez seguinte que a biblioteca os visita.
• QUÉNIA
As estradas para Bulla Iftin, que fica a trezentos quilómetros a nordeste de Nairobi, são intransitáveis por causa das areias do deserto, até mesmo para carros com tração às quatro rodas. Contudo, como as pessoas que vivem nas aldeias nómadas daquela zona estão famintas de livros, os bibliotecários recorrem ao meio de transporte mais económico e adequado: camelos!
Os camelos-biblioteca percorrem as estradas cinco dias por semana, conseguem transportar cargas pesadas e precisam de pouca água, mesmo no calor do deserto. Um camelo consegue carregar até quinhentos livros, que pesam mais de cento e oitenta quilos. O condutor dos camelos e o bibliotecário dividem os livros por duas caixas, que prendem à sela colocada sobre as costas de um dos animais, coberta com um tapete de relva para proteção. Um segundo camelo transporta uma tenda que irá servir de teto à biblioteca. Os estudantes de Bulla Iftin esperam sempre com ansiedade a chegada dos camelos. Quando a caravana-biblioteca chega à aldeia, as crianças observam o bibliotecário a montar a tenda e a expor os livros em prateleiras de madeira. Em seguida, veem-no colocar tapetes de relva no chão, à sombra de uma acácia, arranjando assim um lugar para elas se poderem sentar. Os estudantes podem reservar os livros durante duas semanas. Quando os camelos-biblioteca regressam, trocam-nos por outros.

• MONGÓLIA
Há séculos que os habitantes da Mongólia levam um estilo de vida nómada, atravessando a estepe, uma vasta planície coberta de ervas, com os seus rebanhos. Muitos são ainda criadores de gado e deslocam-se com os rebanhos enquanto estes pastam. Embora a vida dos nómadas não tenha mudado muito, agora os criadores preferem usar “cavalos de ferro”, ou seja motas, em vez de cavalos verdadeiros. Pouquíssimos têm telefone, televisão, ou acesso a computadores, mas a maioria dos Mongóis sabe ler, não havendo praticamente iliteracia no país.

Jambyn Dashdondog é um conhecido escritor mongol de livros infantis e há muito que pensava numa maneira de trazer livros às crianças das famílias de criadores, que vivem espalhadas por todo o Deserto de Gobi. Juntamente com a Mongolian Children's Cultural Foundation, o Sr. Dashdondog conseguiu arranjar um miniautocarro e dez mil livros, muitos deles doados pelo Japão. Neste momento, os livros japoneses estão a ser traduzidos para Mongol e o Sr. Dashdondog viaja com o miniautocarro até às zonas rurais, onde leva os livros.
A viagem dos livros chama-se Amttai Nom, que significa “livros doces”, porque antes de receberem os livros, as crianças recebem comida, inclusive alguns doces. Depois de as crianças ouvirem histórias e escolherem os livros, o Sr. Dashdondog pergunta: “O que é mais doce: os livros ou os doces?” Ao que as crianças respondem sempre: “OS LIVROS!”
“Acabo de chegar de uma viagem pelo Grande Deserto de Gobi,” diz o Sr. Dashdondog, que visitou cerca de dez mil crianças nos passados dois anos. “Cobrimos cerca de mil e quinhentos quilómetros em duas semanas e fizemo-lo no inverno, usando combustível de verão, que congelava durante a noite, paralisando o autocarro. Mas não tivemos frio, porque as histórias e os seus heróis mantiveram-nos quentes!”
• PAQUISTÃO
Não há muitas bibliotecas no Paquistão e as bibliotecas para crianças são extremamente raras. A maior parte das escolas não têm sequer biblioteca. Daí que a Sociedade Alif Laila Bookbus tenha montado uma biblioteca infantil num velho autocarro de dois andares.
Contudo, para chegar a um maior número de crianças, precisaram de pôr na estrada uma biblioteca móvel. Graças à ajuda do Jersey and Guernsey Trust e da Save the Children no Reino Unido, dispõem agora de um autocarro bastante popular que vai até às escolas. O autocarro chama-se Dastangou, que quer dizer Contador de Histórias.
O autocarro transporta seiscentos livros em Inglês e Urdu (as duas línguas oficiais do Paquistão) para as crianças das escolas. Algumas escolas recebem uma visita semanal, mas, na maior parte dos locais, o Contador de Histórias só faz uma visita quinzenal. Este autocarro cheio de livros abriu todo um mundo completamente novo às crianças.
Afshan, de treze anos, diz: “Eu não fazia sequer ideia de como era uma biblioteca! Este autocarro é mágico! Traz histórias e livros. Eu só queria que ele viesse mais vezes ou ficasse aqui por mais tempo!”
Bushna, do oitavo ano, diz: "Quando o Contador de Histórias chega aos portões da nossa escola, organizamo-nos em filas ordeiras e procuramos os nossos livros. Depois, levamo-los para a sala de aula e lemos durante uma hora.”

A Sra. Syeda Basarat Kazim, a coordenadora do Contador de Histórias, explica que não há livros suficientes para as crianças os poderem levar para casa. “Se o permitíssemos, não haveria livros suficientes para levar para a escola seguinte.”
Tabbassum, de doze anos, diz: “A primeira vez que o Contador de Histórias apareceu, corri para ele e peguei num livro de poesia. Comecei a copiar os versos do livro, porque não sabia se ele voltaria alguma vez às minhas mãos. Mas depois a Sra. Nosheen, a encarregada do autocarro, disse-me que não me preocupasse, porque viria visitar-nos todas as terças-feiras. Fiquei tão feliz!”
• PAPUA NOVA GUINÉ
Em Papua Nova Guiné, não há estradas que levem até às aldeias remotas da selva ou até às escolas que as servem e são voluntários da Hopi Worldwide, uma organização de caridade não-lucrativa com sede em Filadélfia, que se comprometem a trazer livros até às pessoas destas zonas. Fazem a viagem num pequeno jipe, através de uma estrada íngreme e, depois de um percurso longo e aos solavancos, acabam por chegar a uma aldeia chamada Mogi-agi, que quer dizer “estrada acima e abaixo”, uma descrição perfeita da paisagem envolvente.

Em Mogi-agi, professor e alunos perfilam-se à entrada da escola para saudar os voluntários, entusiasmados que estão por ir receber um novo fornecimento de livros. Todavia, antes de lá chegarem, os voluntários têm de ir a um destino mais longínquo, na selva mais profunda: a aldeia de Amia. Atravessam um rio com o camião até onde lhes é possível. Depois, param e descarregam as caixas que serão levadas às pequenas aldeias nas montanhas. Com os caixotes de livros aos ombros, caminham durante quatro horas por desfiladeiros, montanhas e atravessam pontes feitas de troncos, para chegar ao vale aonde conduzem todos os trilhos. Durante o percurso, as pessoas oferecem-lhes cana-de-açúcar.
Quando finalmente chegam a Amia, há jovens que correm ao encontro deles. Os voluntários vieram para os ajudar a começar uma Biblioteca. Os jovens ajudam a transportar os livros e as provisões para a escola. Os voluntários trouxeram mais de cem livros às costas. E não entregam só livros. Também trazem medicamentos de que eles precisam desesperadamente, tais como antibióticos e aspirina. As pessoas de Amia leem, gratas, os seus livros e esperam ansiosamente o próximo envio!
• PERÚ
No Perú, as crianças têm acesso aos livros de muitas formas diferentes e inovadoras.
A CEDILI-IBBY Peru é uma instituição que entrega sacos de livros às famílias de Lima. Cada saco contém vinte livros, que as famílias podem manter consigo durante um mês. Os livros têm quatro graus de dificuldade de leitura, para que as crianças possam realmente aprender a ler. Em espanhol, o projeto chama-se El Libro Compartido en Familia e permite aos pais partilhar a alegria da leitura com os filhos.
Em pequenas comunidades rurais, os livros são entregues em pastas de madeira e em sacos de plástico. Estas pastas e sacos contêm livros que a comunidade pode conservar e partilhar durante três meses. O número de livros de cada pasta depende do tamanho da comunidade. Como não há livrarias em edifícios nestas pequenas cidades, as pessoas reúnem-se ao ar livre, na praça, para ver os livros que podem requisitar. Nas regiões costeiras, os livros chegam a ser entregues numa carroça puxada por um burro e ficam guardados em casa do promotor da leitura.

Na antiga cidade de Cajamarca, os promotores da leitura das várias zonas rurais escolhem e recebem uma grande coleção de livros para a sua região. O programa chama-se Aspaderuc. O promotor da leitura empresta estes livros aos seus vizinhos, e passados três meses, chega uma nova coleção de livros. Os livros são para crianças e adultos. A Fe Y Alegria leva uma coleção de livros infantis às escolas rurais, utilizando a carroça como meio de transporte. As crianças, que ficam excitadas por folhear os livros logo que eles chegam, estão a tornar-se leitores ávidos.
• TAILÂNDIA
Em Omkoi, uma região no norte da Tailândia, não há escolas nem bibliotecas e as pessoas das tribos não sabem ler nem escrever. O governo da Tailândia espera alterar esta situação através de um programa de literacia que inclui o transporte de livros até às aldeias mais remotas da selva. Como certas aldeias só podem ser visitadas a pé, o transporte dos livros é particularmente difícil durante a estação das chuvas. Como se levam livros a pessoas que deles tanto precisam, mas que vivem em regiões montanhosas e inacessíveis no norte da Tailândia? Em elefantes!

Os elefantes já estão a ser usados para lavrar os arrozais e para transportar troncos de árvores e colheitas e o Chiangmai Non-Formal Education Center teve a ideia de os utilizar como bibliotecas. Atualmente, mais de vinte elefantes na região de Omkoi são usados para transportar livros. Os grupos de elefantes passam dois ou três dias em cada aldeia. Como cada viagem abarca sete ou oito aldeias, cada elefante leva entre dezoito a vinte dias a fazer o périplo completo.
O programa de entrega Books-by-Elephant, ou seja, Livros por Elefante, serve trinta e sete aldeias, contribuindo para a educação de quase duas mil pessoas na região de Omkoi. Os organizadores até idealizaram umas ardósias especiais em metal, que não se partem quando são transportadas em terrenos difíceis. Estas ardósias são usadas para ensinar as crianças tailandesas a escrever e a ler. Há também equipas de duas pessoas que transportam livros até cerca de dezasseis aldeias, levando materiais de aprendizagem para mais seiscentas pessoas.
Em Banguecoque, a capital da Tailândia, velhas carruagens de comboio foram transformadas em biblioteca. O comboio é chamado Hong Rotfni Yoawachon, o que significa Comboio-Biblioteca para Jovens. O comboio acolhe as crianças sem-abrigo de Banguecoque. A Polícia dos Caminhos de Ferro de Banguecoque chegou à conclusão de que havia necessidade de arranjar um lugar seguro para as crianças da rua e, por isso, redecoraram as carruagens do velho comboio da estação ferroviária, por onde muitas crianças vagueavam já. A polícia restituiu aos comboios a sua antiga glória, com painéis de madeira e candeeiros de cobre brilhantes. Transformaram as carruagens numa biblioteca e numa sala de aula, onde as crianças aprendem agora a ler e a escrever. A polícia ainda transformou a zona à volta do comboio num jardim, onde plantam ervas e legumes.
• ZIMBABUÉ
Há muitas pequenas comunidades dispersas por toda a zona rural do Zimbabué. Bulavaio é uma cidade situada na província com o mesmo nome, no oeste do Zimbabué. Fora de Bulavaio, há poucas estradas pavimentadas e as pessoas viajam pelos trilhos arenosos a pé ou numa carroça puxada por um burro. São as carroças puxadas por burros que transportam os livros da biblioteca.
Rachel, uma bibliotecária voluntária, trabalhou em Bulavaio, onde, uma vez por semana, carregava caixas de livros para uma pequena carroça de madeira puxada por um burro: a Nkayi Donkey Mobile Library Cart. O Programa de Desenvolvimento de Bibliotecas e Recursos Rurais espera fomentar a aptidão para a leitura entre os jovens do Zimbabué rural. As carroças puxadas por burros conseguem chegar a pequenas comunidades que são inacessíveis a veículos, por causa do mau estado das estradas. As caixas de livros entregues pelas carroças são deixadas nas escolas das diversas comunidades durante um mês. “Tínhamos de carregar caixas de livros para dentro da carroça,” diz Rachel, “e andar horas por estradas poeirentas para chegar a várias aldeias. Deixávamos os livros nas escolas locais. Depois, as crianças e os adultos vinham às escolas ver os livros. Tentávamos sempre manter a biblioteca a funcionar num horário regular”. Depois, acrescenta, rindo: “Mas às vezes não conseguíamos apanhar os burros e chegávamos atrasados!”

Uma das mais recentes carroças do Programa de Bibliotecas e Recursos Rurais é uma carroça-biblioteca com uma instalação elétrica. A carroça transporta livros e uma televisão e um aparelho de vídeo que funcionam a energia solar. Tudo isto para crianças que nunca viram televisão nas suas vidas. A biblioteca tem planos para arranjar, num futuro próximo, um computador e uma antena parabólica, a fim de proporcionar o acesso à Internet e o uso do fax a esta região semiárida do Zimbabué.
As crianças gostam de livros com imagens e, como esta é uma sociedade agrícola, os leitores mais velhos querem livros sobre agricultura. Os livros na língua nativa são muito populares, bem como bons livros de culturas ocidentais. Contudo, as crianças preferem literatura africana, mesmo que seja escrita em Inglês.
Margriet Ruurs
My Librarian is a Camel
Pennsylvania, Boyds Mills Press, 2005
(Tradução e adaptação)
O soldado que procurava a guerra
No momento em que ele abriu os olhos, uma estrela cadente percorreu a noite.
Saiu da valeta onde tinha caído, sacudiu a terra das roupas, apanhou a arma, procurou o capacete e não o encontrou. Pôs-se em sentido: “Soldado Eustache, derrubado no auge da batalha, mas de novo pronto a combater!”
Direito como uma estaca, esperou um bom bocado, mas não chegou nenhuma ordem que viesse perturbar aquele silêncio de morte. Cautelosamente, virou a cabeça para a direita, depois para a esquerda: a planície estava deserta.
“Esqueceram-se de mim – pensou ele.”
Foi invadido por um frio imenso e começou a tremer.
“Bem! Não vou ficar aqui plantado como um alho-porro.”
Para ganhar coragem, começou a cantarolar:
Eu sou um soldadinho,
Sempre pronto, sempre aqui,
Muito orgulhoso de si,
Corajoso e tudo isso…
Tatata!Tarará! - Tatata!Tarará!
A corneta isto anunciará.
E pôs-se a caminho num passo ritmado, muito decidido a encontrar a guerra.
Já tinha nascido o dia quando, finalmente, encontrou alguém.
“ Bom dia, cidadão! Ando à procura da guerra. Sabe dizer-me onde posso encontrá-la?”
“A guerra? Por ali… Por acolá… Não vês, infeliz soldado, que vais encontrá-la por onde quer que passes?
“Como é que sabe que sou um soldado? O senhor não vê!”
“Aprende, Soldado, também se vê com o coração e até talvez com mais certeza do que com os olhos,” respondeu-lhe o cego, enquanto desaparecia naquela manhã de neblina.
Eustache seguiu viagem.
O sol fez uma tímida aparição.
As palavras do cego voltavam à sua cabeça.
Cruzou-se com uma mãe acompanhada pelas suas crianças.
“Bom dia, senhora! Ando à procura da guerra. Sabe dizer-me onde a encontro?” perguntou ele educadamente. 
“ Deixem-nos em paz! Já nos tiraram tudo! Tenham vergonha!”
Ofendido com as palavras da mulher e não sabendo como agir, avançou para fazer uma festa na cabeça do petiz.
“Ui! Mordeu-me e fez-me sangue!” gritou Eustache.
O céu ficou encoberto.
De novo sozinho, Eustache volta a cantarolar baixinho:
Por que sou um soldado?
Disso já não estou lembrado.
De que serve tudo isto?
Disso já não estou lembrado!
Tatata!Tarará! - Tatata!Tarará!
A corneta isto anunciará.
E retomou viagem. As primeiras gotas de chuva começavam a cair. E ele pensava nos camaradas do seu regimento. Onde estariam naquele momento?
Chovia a cântaros. Não se via quase nada.
Eustache tropeçou sem saber em quê e acabou estatelado na lama.
Os trovões troavam e um raio rasgou o céu.
De repente, diante dele, apareceu uma figura ameaçadora que o chamou com uma voz grave:
“Então, Soldado, perdeste o Norte?”
“Eh…Ando à procura da guerra…” gaguejou Eustache.
A voz escancarou-se a rir: “Ah! Ah! Ah! Então, estás com pressa de morrer! Olha bem para mim, Soldado, antes, eu era assim como tu… Não te esqueças de mim, Soldado, não te esqueças de mim…”
E desapareceu por detrás de uma cortina de chuva.
Encharcado até aos ossos, Eustache avançava como um autómato.
E a tempestade foi ficando para trás.
Apercebeu-se de que perdera a arma, mas continuava a marchar, a marchar, a marchar…
Esgotado, aproximou-se de uma casa em ruínas.
Acendeu uma fogueira e aproveitou para se lavar um pouco.
Enquanto as roupas secavam, deitou-se e adormeceu profundamente.
O sol já estava alto, quando uma baforada de calor o acordou.
Era tarde demais! Das suas roupas apenas restavam cinzas!
Encolheu os ombros e retomou o caminho com um passo apressado.
Pôs-se, então, a cantar bem alto:
Já não sou um soldado,
Não quero fazer mais isto,
Andar de passo marcado,
Agora é que eu desisto.
Tatata!Tarará! - Tatata!Tarará!
A corneta isto anunciará.
Saiu uma menina de trás de uns arbustos rindo. “És tão engraçado! Quem és?”
Surpreso, pôs-se em sentido e anunciou:
“Soldado Eustache, sempre pronto a comb…” mas calou-se e desatou a rir.
“Um soldado não se porta assim!” disse a garota. “Tu pareces mais um palhaço!
“Isso é verdade”, admitiu Eustache, “mas não sou um palhaço. Para falar verdade, já nem sei bem quem sou.”
“Eu ando a apanhar lenha para o forno. E com a minha mãe, vamos fazer pão. Queres ajudar-nos?”
“Mas eu não sei como se faz isso”, disse Eustache.
“Queres aprender?” perguntou a menina.
Eustache vai atrás da pequena pelo caminho que a conduz a casa. O sol põe-se lentamente no horizonte.
“Tu ainda cantas aquela canção?” perguntou a menina.
“Eh…gosto muito dela.”
“Mamã! Mamã! Este é o Eustache. Quer aprender a fazer pão.”
Após um momento de surpresa, a mãe desata a rir.
Eustache cora e começa a gaguejar:
“Desculpe, queimei as minhas roupas.”
“Não precisa de pedir desculpa. Há muito tempo que eu não me ria assim. Eu já lhe arranjo alguma coisa para vestir.”
Depois, começaram a misturar a levedura, a farinha e a água…
Enquanto a massa repousava, a garota adormeceu.
Eustache e a mãe da menina conversaram toda a noite à lareira.
Começava a nascer o dia.
Este era o momento preferido da menina, quando misturava e espalmava a massa, dando gritos de alegria.
A massa era dividida em três partes e colocada no forno.
As chamas crepitavam alegremente.
Eustache saiu por momentos.
Lá fora, um cheirinho a pão pairava no ar daquele início de manhã.
Respirou profundamente.
“Temos um belo dia pela frente!” pensou.

Mario Ramos
Le Petit Soldat qui cherchait la guerre
Paris, l’école des loisirs, 1998
O Baile das Flores
— Hoje vou ao Baile das Flores — anunciou o repolho. — Quem quer vir comigo?
— Ao baile das flores? — sussurrou a cebola, horrorizada. — Para que é que temos o nosso Baile da Salada Russa? É muito mais divertido!
— Tu ficas bem entre iguais — disse a alface. — O teu lugar é aqui e tudo mantém a sua devida ordem.
O pepino anuiu sabiamente com a cabeça.
— Acautelai-vos com as flores do jardim do outro lado da cerca — continuou a alface. — Andam de nariz levantado e olham-nos de cima para baixo. Não passam de ervas sentadas em vasos!
— Não queremos ter nada a ver com elas — disseram as ervilhas. Um arrepio percorreu-lhes as vagens e tilintaram, venenosas:
— Aquelas perfumadas da horta não passam de umas campainhas de enfeite…
— Mas o que é que vocês todos têm contra as flores? — suspirou o repolho tristemente. — Eu gostava muito de ir ao baile delas mas, sozinho, não me atrevo.
— Eu não tenho nada contra as flores. Só têm um aspeto diferente do nosso e às vezes não cheiram tão bem como nós — disse a cenoura pensativa. E calou-se por um momento.
— Sabes que mais? Também vou contigo — decidiu, com um estremecimento da raiz à ponta das folhas.
— Ótimo!
O repolho limpou as folhas e enfeitou-se com uma peninha. A cenoura encontrou uma linda máscara para si.
— Mas que bonitos que vocês estão! — elogiaram os rabanetes e, de repente, deixaram de ter caras coradas e alegres.
O repolho empertigou-se e ofereceu à cenoura um braço forte.
— A menina vem?
Ela acenou com a cabeça, animada, e, de pé leve, deixaram a horta.
No baile, a animação já tinha começado. As flores tinham pedido ajuda ao galo, às galinhas e ao salgueiro. Os grilos cantavam com afinco e os pardais chilreavam ritmos quentes. A água espumava e borbulhava. Alguém tinha aberto a pipa da água da chuva e o escaravelho servia-a aos convidados.
Sentado à entrada, o cão de guarda meneava a cabeça:
— Os convidados já estão um bocadinho tocados!…
Repolho e cenoura passeavam pelo baile e iam cumprimentando à direita e à esquerda.
— Quem são estes? — cochichava um cravo a uma tulipa mais velha.
Esta olhou por cima dos óculos e torceu o nariz.
— Legumes, diria eu…
O cravo ficou sem poder respirar e coçava as pétalas, atónito.
— Mas que horror! — exclamou. — Legumes crus no nosso baile. Que indecência!
— Mas o que é que eles têm de vir aqui fazer? Foram ao menos convidados? — queria saber uma rosa.
— Mas que gente tão simplória, não acha, minha querida?
O rosmaninho fez uma vénia perfeita em frente da rosa e levou-‑a para a pista de dança. Ela ainda era jovem e vermelha.
— Devíamos pô-los daqui para fora. Onde é que já se viu, legumes desconhecidos no nosso baile! — a rosa canina endireitava-se, pronta a picar. — Que gentinha miserável, que ervas insignificantes!
— Nem mais! Não passam de mergulhadores de sopa sem graça, e de pastéis malcheirosos — um malmequer arrepiava-se todo, já meio enjoado.
O repolho ouvia o falatório e os cochichos, e reparara como as rosas se encolhiam, os cravos tremiam de indignação e como um amor-perfeito tivera até um ataque de soluços.
— Parece que eles não gostam de nós — disse à cenoura.
— É pena. A música deles é tão bonita — respondeu a cenoura, sonhadora. Cheirou o ar à sua volta. — E há um perfume no ar. É fantástico!
Pensou um pouco.
— Fizemos-lhes algum mal? — perguntou ao repolho.
— Não. Fizeram-nos eles algum mal? — perguntou ele.
— Não — respondeu a cenoura.
— Então pronto, ninguém tem razões para estar zangado.
O repolho sentiu-se mais tranquilo e confiante. Compôs a pena e fez uma vénia à cenoura.
— Estou tão só, menina — disse. — Dá-me a honra?
A cenoura sentiu-se feliz. A noite estava morna, a luz era suave e os pirilampos estavam bem-dispostos. A lua rolou no céu e apareceram estrelas, curiosas. Era uma noite perfeita.
A cenoura piscou-lhe um olho através da máscara.
— Será um prazer — disse, estendendo-lhe uma folha delicada.
Misturaram-se com os bailarinos. Um gladíolo recuou quando os viu, e chegaram a pisar os pés de uma dália.
— Se ao menos fossem ervas daninhas — suspirou uma glicínia — ainda floriam quase como nós — mas calou-se, admirada.
O repolho tinha agarrado a cenoura pela cintura e dançavam uma animada rumba-‑feijoca. Em seguida, deslizaram um maravilhoso tango-pepino e, por fim, saltaram ainda um elegante cha-cha-cha-piri-piri. A cenoura ia ficando sem fôlego, mas seguiu-o corajosamente e não caiu uma única vez. Os dois formavam um par bonito de se ver e as flores aplaudiram, a contragosto.
Depois de ver isto, o lírio ousou por fim dirigir-se à cenoura e o repolho convidou uma margarida para dançar. Tocou-se uma valsa encantadora. Depois, a cenoura dançou um galope com um manjerico e o repolho foi buscar a gerbera para uma animada polca.
Foi uma bela noite.
Todos puderam conversar, conhecer-se e cheirar-se.

— Nós vamos convidar-vos para a nossa Salada Russa — prometeu o repolho ao despedir-se.
— E vocês voltam no próximo baile, não é? — perguntou o lírio diligente, que tinha deitado uns olhinhos à cenoura.
Os dois entraram em casa em bicos de pés. Estavam felizes, muito cansados e não queriam acordar ninguém. Quando o repolho estava quase a adormecer, murmurou:
— Quem diria? Tenho de escrever a história desta noite para nunca a esquecer.
— E eu desenho-te algumas imagens — sussurrou a cenoura — e ficamos com um livro.
Os olhos fecharam-se-lhe.
— E um dia mais tarde havemos de lê-lo aos nossos netos.
E começou a ressonar baixinho.
Sigrid Laube; Silke Leffler
Der Blumenball
Wien, Annette Betz Verlag, 2005
(Tradução e adaptação)

O BAMBU JAPONÊS
Não é preciso ser-se agricultor para saber que uma boa colheita precisa de uma boa semente, de bom adubo e boa rega. Também é óbvio que quem cultiva a terra não fica impaciente frente a um terreno semeado, e grita a todos os pulmões: Cresce! Cresce! Seu desgraçado! Com o bambu passa-se algo muito estranho e que o torna não recomendável para impacientes: Deitas as sementes à terra, deitas o adubo e não te podes esquecer de as regares regularmente.
Durante os primeiros meses não vês nada. Realmente nada acontece com as sementes durante os primeiros sete anos, de tal forma que um produtor novato e inexperiente ficaria convencido que tinha comprado sementes estragadas.
Mas, durante o sétimo ano e, num período de apenas seis semanas, a planta de bambu cresce mais de 30 metros!
Demorou apenas seis semanas a crescer?
Não, a verdade é que demorou sete anos e seis semanas a desenvolver-se.
Durante os primeiros sete anos de aparente inatividade, este bambu estava a criar um complexo sistema de raízes que lhe iria permitir suportar o crescimento que passados sete anos iria dar-se.
Também muitas pessoas, no seu dia-a-dia, tentam arranjar soluções rápidas, êxitos imediatos, sem entenderem que o sucesso é simplesmente o resultado do crescimento interno e que este precisa de tempo.
Quiçá pela mesma impaciência, muitos daqueles que aspiram obter resultados a curto prazo, os abandonam, repentinamente, precisamente quando já estavam a ponto de os alcançar.
É muito difícil convencer um impaciente de que só conseguem ter êxito os que lutam com perseverança e sabem esperar o momento certo.
De igual modo, é preciso compreender que, muitas vezes, estamos perante situações em que cremos nada estar a acontecer. E isto pode tornar-se extremadamente frustrante.
Nesses momentos (que todos temos), recordar o ciclo de maturação do bambu japonês, e aceitar que enquanto não baixarmos os braços -, nem virarmos as costas por não “ver” o resultado que esperamos-, algo dentro de nós se está a passar: estamos a crescer, a amadurecer.
Quem não se der por vencido, vai gradual e imperceptivelmente criando hábitos e a têmpera que lhe permitirá lidar com o êxito quando este finalmente chegar.
O triunfo não é mais que um processo que leva tempo e dedicação. Um processo que exige que aprendamos novos hábitos, e nos descartemos de outros. Um processo que exige mudanças, ação, e excecionais dotes de paciência.
Tempo… Como são difíceis as esperas, quão pouco exercitamos a paciência neste mundo agitado em que vivemos…
Incentivamos o crescimento dos nossos filhos, apressamos o condutor do táxi… nós mesmos fazemos as coisas à pressa, não se sabe bem por quê…
Perdemos a fé quando os resultados não acontecem no prazo que esperávamos, abandonamos os nossos sonhos, geramos doenças que têm origem na ansiedade, no stress…Para quê?
Vou fazer uma proposta: porque não tratar de recuperar a perseverança, a espera, a aceitação?
Se não consegues obter o que desejas, não desesperes…quiçá, só estás a criar raízes….
Um lugar onde crescem girassóis
Introdução
Em 1942, os Estados Unidos enviaram 120 000 americanos de ascendência japonesa para campos de concentração. Os E.U. opunham-se ao Japão na 2ª Guerra Mundial e o nosso governo decidiu que os americanos de origem japonesa não eram de confiança – apenas porque os seus antepassados tinham vindo do Japão.
Deram à família da minha mãe dez dias para deixar a casa. Foram autorizados a levar com eles apenas o que conseguissem transportar. Os meus avós, que eram artistas, tiveram que deixar para trás centenas de pinturas. E foram, por fim, enviados para o Centro de Recolocação Topaz no deserto de Utah, onde permaneceram durante três anos e meio.
A vida nestes campos era cheia de dificuldades e injustiças. No entanto, os internados faziam o que podiam para manter a dignidade humana. Os meus avós viraram-se para o que eles conheciam e mais amavam: a arte. O meu avô ajudou a organizar a Escola de Arte de Topaz, onde ele e a minha avó ensinavam e pintavam. A minha mãe e o irmão eram também
estudantes de Arte. A Arte trouxe a toda a família da minha mãe uma razão de viver e também a paz, numa época muito difícil das suas vidas, e ofereceu a todos aqueles internados uma oportunidade de se expressarem.
Usei a experiência da minha mãe como um ponto de referência para esta história. No entanto, as personagens e a maior parte dos acontecimentos são ficção.
Espero que possam aprender algo com esta história e que trabalhem a favor de um mundo que jamais repetirá – com nenhum grupo de pessoas – o que aconteceu aos americanos de origem japonesa durante a 2ª Guerra Mundial.
Amy Lee-Tai
ù ù
Mari olhou para o chão. Havia somente uma semana que ela e a avó tinham plantado uma mão cheia de sementes de girassol no exterior da nova casa. Mari perguntou à mãe:
— Será que estas flores vão crescer altas e fortes e lindas como as que tínhamos no nosso antigo quintal?
— Levará tempo, paciência e cuidados — respondeu a mãe suavemente. — Sabaku ni hana wa sodachinikui no yo.
— As flores não crescem com facilidade no deserto — repetiu Mari em inglês.
E olhou fixamente para a areia, como se ela mesmo fosse o quente sol de maio, e como se isso pudesse trazer vida àquelas sementes. Mas tudo o que viu foram grãos de areia seca.
Enquanto regava as sementes, Mari pensava na pequena casa da família na Califórnia. Ainda via os pais, ambos artistas, a pintar, enquanto Mari e o seu irmão mais velho, Kenji, brincavam ao lado no quintal todo florido.
Ainda só tinham passado treze meses desde que tinham sido forçados a partir? Primeiro, tinham sido obrigados a viver numas cavalariças que cheiravam a estrume, em Tanforan, na Califórnia. Agora moravam numa barraca de cartão prensado com alcatrão, em Topaz, no Utah. Tudo, exceto a família, tinha sido retirado a Mari — e ela nada tinha feito de errado!
— Mari-chan, são três horas, é tempo de ir à escola de arte.
A voz doce do pai trouxe Mari de volta à realidade.
— Não nos atrasemos. Ikoo, ne!
Mari e o pai percorriam os cerca de mil e seiscentos metros ventosos e poeirentos que separavam a sua casa, no Bloco 29, da Escola de Arte, no Bloco 7. Passavam por torres de vigia onde a polícia militar apontava as armas a todo aquele que parecesse querer fugir. Mari apertou a mão do pai.
— Mari-chan, a tua mãe e eu estamos preocupados contigo! — disse ele. — Sabemos que as coisas aqui são duras, mas tu praticamente já nem falas nem sorris. Queres falar comigo?
— Nem por isso — murmurou Mari, embora na verdade tivesse imensas perguntas a fazer.
— Não te preocupes, Mari-chan. Regressaremos a casa depois de a guerra acabar.
Fizeram o resto do percurso em silêncio. As montanhas, a vastidão do céu e o sol resplandecente faziam Mari sentir-se tão pequenina quanto uma semente de girassol.
Já na Escola de Arte de Topaz, o pai levou Mari à sala de aula e depois dirigiu-se à porta ao lado para ensinar os adultos da turma de esboço. Mari tinha esperança de encontrar alguns dos seus amigos na aula, mas não reconheceu nenhum.
A Srª Hanamoto distribuiu papel e lápis de cor. E disse:
— Na nossa primeira aula, divirtam-se e desenhem tudo o que quiserem.
Mari ouvia as pancadinhas e o som dos riscos dos lápis de cor nas outras secretárias. Refletiu longa e esforçadamente, mas a sua folha continuava em branco quando a aula acabou.
Alguns alunos partilharam os seus desenhos com a turma. Janie desenhou o seu cãozinho de estimação, que tinha sido deixado para trás. Eddie desenhou os seus três primos, que tinham sido enviados para um outro campo em Idaho. E Aiko desenhou vários lugares em Topaz: o refeitório, os sanitários, a lavandaria. Mari apreciou os outros desenhos, mas gostaria também de ter um para poder partilhar.
Uma vez que o pai tinha outra aula para lecionar, Mari dirigiu-se sozinha ao refeitório. A mãe e Kenji encontraram-se com ela lá fora.
Passar pela porta de acesso ao refeitório era como aumentar o volume do som de um rádio. Tiniam utensílios, as pessoas falavam, os bebés choravam. Mari encolheu-se com o barulho. A família tomou o seu lugar na longa fila para o jantar, e o pai juntou-se-lhes um pouco antes de receberem a porção de comida que lhes cabia.
Enquanto se sentavam, o pai perguntou:
— Mari-chan, como correu a tua primeira aula?
— Não consegui pensar em nada para desenhar — disse Mari.
— Isso às vezes também me acontece — respondeu ele.
— A sério? perguntou Mari. — Mesmo sendo tu um artista?
— Sim — sorriu o pai — mas eu não desisto.
Na manhã seguinte, Mari e a mãe esperaram na longa fila para os sanitários. As cabines das sanitas e dos chuveiros não tinham portas. As duas tentavam evitar olhar para as outras mulheres e crianças.
A mãe indagou:
— Mari-chan, estás preocupada com a aula de hoje?
Mari acenou que sim com a cabeça. Já se tinha perguntado o que a Srª Hanamoto lhe iria pedir para desenhar.
— Lembra-te do conselho do teu pai. Vais conseguir desenhar, assim como os teus girassóis vão conseguir crescer.
Nessa tarde, a Srª Hanamoto disse à turma:
— Desenhem alguma coisa que vos faz sentirem-se felizes aqui.
E Mari esforçou-se, uma vez mais. Então a Srª Hanamoto veio até junto da sua secretária.
— Mari-chan, reparei que não desenhaste nada na nossa última aula. Houve mais alunos que tiveram também algumas dificuldades.
— Eu não fui a única? — perguntou Mari, cheia de esperança.
— Não, acontece bastantes vezes. Só tens que continuar a tentar. E agora, o que vais desenhar?
— Não consigo lembrar-me de nada que me faça sentir feliz aqui, em Topaz.
— Então desenha algo que te fizesse feliz antes de vires para aqui — sugeriu a Srª Hanamoto.
Desta vez Mari soube imediatamente o que desenhar — o seu quintal na Califórnia!
Desenhou o baloiço que o pai tinha construído, a árvore sakura que a mãe tinha plantado, e o jardim com o seu arco-íris de cores. E ainda estava ocupada quando a Srª Hanamoto anunciou que a aula estava quase a acabar. Foi quando Mari reparou que Aiko, que se sentava ao lado dela, estava a olhar para o seu esboço.
Aiko sussurrou:
— O teu quintal parece ser muito divertido.
Mari sussurrou também:
— Talvez o possas visitar quando todos voltarmos para casa.
Mari precipitou-se para a caserna da sua família.
— Como foi a aula de arte, Mari-chan? — perguntou a mãe, à espera da resposta habitual.
Mas Mari respondeu imediatament:
— A Srª Hanamoto é muito simpática e eu pude usar lápis de cores e desenhei esta imagem!
— É o nosso quintal! — exclamou Kenji.
A mãe sorriu.
— É lindo. Porque é que não o penduramos?
A luz do sol raiou pela porta aberta do barracão. Mari pendurou o desenho na parede nua por cima da sua cama. Acrescentava alguma alegria à casa escura, de uma só divisão, mesmo que já fossem horas de fechar a porta.
Todas as quartas e domingos, Mari e o pai caminhavam juntos até à escola de arte. De mão dada, partilhavam, em silêncio, alguns momentos de paz.
Um dia, Mari começou a questioná-lo:
— Porque é que estamos neste campo? Porque é que quase todos aqui são americanos de origem japonesa? Será que alguma vez irei ver de novo os meus antigos amigos?
Ele e a mulher já se tinham resignado ao internamento, mas fez o que pode para responder. E lembrou à filha a filosofia japonesa, que tanto realça o ciclo da vida:
— A primavera vem a seguir ao inverno, e as flores brotam de novo. A paz vem a seguir à guerra. Tenta não ficar preocupada, Mari-chan.
E assim, a cada desenho que criava, Mari descobria uma nova pergunta e a coragem para a fazer.
Um certo dia, depois das aulas, Aiko pediu a Mari:
— Vamos juntas até casa? A minha família vive no Bloco 40.
— Claro, parece divertido — respondeu Mari. — Além disso, aqueles guardas metem-me medo.
— A mim também — concordou Aiko. — Será que eles têm mesmo que usar armas?
Enquanto caminhavam e conversavam, Mari e Aiko não repararam que o céu estava a escurecer e o vento começava a soprar. De repente, uma barreira de lixo composta por ramos e raízes de artemísia embateu contra elas, ferindo-lhes a pele.
— Uma tempestade de poeira! — gritou Aiko, agarrando na mão de Mari.
Tentaram correr, mas era difícil mexer-se ou ver alguma coisa através do vento forte e sujo. Juntas, lá conseguiram — muito lentamente — continuar até ao barracão de Mari. Mal bateram com a porta, desfaleceram no chão, tossindo e arfando, e suspirando por ar fresco.
A mãe correu para elas.
— Mari-chan! Aiko-chan! Estão bem?
— Estamos bem! — disse Mari coberta de pó da cabeça aos pés.
Ela e Aiko desataram a rir, aliviadas por estarem a salvo e felizes por serem amigas.
A partir de então, depois da aula de arte, iam sempre para casa juntas.
Em agosto, na última semana de aulas, a Srª Hanamoto disse:
— Hoje vão criar um desenho, fazendo uso de formas geométricas diferentes.
Mari desenhou o barracão da sua família usando retângulos, quadrados e um triângulo. Depois, acrescentou círculos, linhas, e formas de lágrimas. Os seus girassóis!
Desenhou-se a ela própria e a Aiko. Os girassóis elevavam-‑se acima das suas cabeças, tão altos que elas não conseguiam alcançá-los nem sequer em bicos de pés! E, pela primeira vez, Mari voluntariou-se para partilhar o seu desenho com a turma. Enquanto falava, podia ver as caras sorridentes da Srª Hanamoto e de Aiko, tão animadas quanto os girassóis do seu desenho!
Depois da aula, Mari e Aiko foram para casa juntas. Mari olhou para o seu novo desenho e disse:
— Há três meses que tenho regado as minhas sementes de girassol todos os dias. Pergunto-me se eles vão algum dia crescer aqui.
De repente, Aiko estacou, apontou o dedo e disse:
— Deixa-te de perguntas!
Mari seguiu o dedo de Aiko até à zona lateral do seu barracão, onde nove minúsculas hastes verdes espreitavam através do solo.
— Mãe! Kenji! Venham ver! — exclamou Mari.
Mal conseguia esperar para mostrar ao pai! Para Mari, ver as pequenas sementinhas era como ver velhos amigos…
Naquele momento, a sua antiga vida e o que quer que fosse a sua nova vida depois da guerra já não lhe pareciam tão distantes.
ù ùù ù
Em Topaz, a minha avó Hisako Hibi e a minha mãe Ibuki Hibi Lee plantaram realmente sementes de girassol, e a minha mãe cuidou delas fielmente. Durante o verão de 1943, os girassóis cresceram cerca de 2 metros e meio, até ao cimo da parede do barracão. Outros internados paravam ali frequentemente, a admirar. Como eles davam vida à paisagem estéril! As flores eram também usadas pelos estudantes de arte como modelo e pelos alunos de arranjos florais para as suas exposições.
A guerra — e o internamento — terminaram em 1945.
Em 1988, o governo dos E.U. pediu finalmente desculpa aos sobreviventes dos campos. Admitiu que o internamento se tinha feito devido a preconceito racial, paranoia de guerra e fraca liderança. O governo reconheceu igualmente que nenhum americano de ascendência japonesa fora alguma vez declarado culpado de ter posto em perigo os E.U. durante a 2ª Guerra Mundial.
Amy Lee-Tai
Amy Lee-Tai
A place where sunflowers grow
San Francisco, Children’s Book Press, 2006
(Tradução e adaptação)
Histórias oferecidas à sexta-feira!
Hoje com votos de boas férias e bom descanso. Regressaremos em Setembro!
A lenda de Tangu Yuh
Em Tehuantepec, no extremo sul do México, há uma peça feita expressamente para o Ano Novo, uma figurinha de barro da deusa Tangu Yuh, vestida como as mulheres zapotecas de Tehuantepec: com uma ampla saia de folhos sobre um saiote branco plissado e uma blusa com brilhantes bordados. As tranças, entrelaçadas com fitas coloridas, juntam-se no alto da cabeça como uma coroa. Os olhos são negros e brilhantes, os lábios vermelhos como tomates e tem os braços abertos para nos acolher.
Sabem porque é que Tangu Yuh é tão especial para o povo de Tehuantepec no dia de Ano Novo? Porque uma vez, há muito tempo, ela visitou-os nesse dia.
Naquela época, todos os zapotecas viviam juntos e muito felizes. Ajudavam-se em tudo, desde as sementeiras até à construção das casas. E a região sempre se tinha dividido em três partes: norte, centro e sul. Hoje em dia, tal como então, as mulheres do norte tecem bonitos tecidos que bordam com fio de seda. Os homens dessa zona eram caçadores famosos de iguanas, veados e javalis. Já os habitantes do sul eram artistas: homens e mulheres que trabalhavam o barro, a madeira e que, ainda hoje, fazem vasilhas e também tambores e flautas que tocam todas as tardes. Por fim, na região central de Tehuantepec viviam os comerciantes. As mulheres faziam as feiras e os homens levavam tecidos e peles até às terras altas das montanhas. Lá trocavam essa mercadoria por louça de barro verde vidrado e tigelas trabalhadas que os zapotecas tanto apreciavam.
Normalmente, os zapotecas viviam em paz e cooperavam uns com os outros. Mas há sempre problemas, até no paraíso.
O problema dos zapotecas era que todos se queriam sentir realmente especiais. Os oleiros do sul pensavam frequentemente: “As nossas louças são belas, mas os tecidos dos nossos irmãos do norte também são...” Os da região central diziam: “Não percebo. Porque é que temos de viajar tanto para negociar com os nossos irmãos? Acaso somos seus criados?
Contudo, no céu, os deuses estavam satisfeitos com a harmonia e tranquilidade que parecia reinar em Tehuantepec. Do alto, não viam os pensamentos obscuros e as sensações de raiva nas mentes e nos corações. Decidiram, pois, que os zapotecas deviam ser abençoados com a visita de um deles e escolheram a deusa Tangu Yuh como sua representante.
Então algo incrível aconteceu ao povo de Tehuantepec na véspera do Ano Novo. Quando as crianças ainda dormiam e os pais, acabados de sair da cama, ainda se espreguiçavam a preparar o pequeno-almoço, um clarão de relâmpagos atravessou o céu. Mas em vez de se ouvir os trovões que acompanham as tempestades, uma música celestial invadiu a terra. E logo estranhas criaturas de enormes asas de penas prateadas encheram o céu, tocando trombetas e outros instrumentos. Uma voz mágica ecoou no firmamento anunciando que uma deusa queria visitar o povo mais feliz da terra.
Era Tangu Yuh! Vinha deveras formosa, com o cabelo negro às ondas e uma saia brilhante de cetim. Magicamente formosa! Como descrever tamanha beleza?
Os habitantes do norte estavam admirados por ver que a deusa trazia um vestido como o que eles usavam nas festas. Mas o de Tangu Yuh brilhava como o ouro e as cores eram vivíssimas. Rodearam-na, estudando o desenho da sua veste para o gravarem na memória. Se conseguissem reproduzi-lo, ficariam também eles deslumbrantes!
Pelos vales e pelas colinas, as trombetas anunciaram aos habitantes do centro que era a sua vez. E Tangu Yuh voou pelos céus até junto deles. Não podiam acreditar que a deusa lhes falasse na língua deles! Que verdade celestial lhes poderia ensinar acerca das suas atividades comerciais? Se escutassem o conselho de uma deusa, iriam ser o povo mais rico da terra! Todos os homens e mulheres da região do centro faziam perguntas sem fim a Tangu Yuh. Ao mesmo tempo e aos gritos. Era tão grande o barulho que ninguém conseguia ouvir nada!
Por fim, a deusa desceu na região do sul. Os habitantes correram a buscar os instrumentos musicais para a receberem com trombetas ressoantes e melodias celestiais. Juntaram-se no centro da aldeia e tocaram com todas as suas forças. Tangu Yuh ficaria a saber que os habitantes da terra podiam fazer música como os deuses! Alguns tanto sopraram nas flautas que acabaram por desmaiar. Outros bateram nos tambores com tal ímpeto que as baquetas se partiram ao meio. E em procissão marcharam em direção ao centro. Que desastre!
— Olha! Vêm aí os do sul, a tocar música — diziam os do centro e do norte — Porque é que tardaram tanto?
Vendo a confusão e a desordem que havia causado, Tangu Yuh interrogou-se: “Então esta é que é a terra da harmonia e da paz que eu vim abençoar?”
Estava muito desiludida e triste. Juntou o seu exército celeste e voou diretamente para as nuvens.
Quando os habitantes da região do sul chegaram ao pé dos seus vizinhos, já a deusa regressara aos céus. Sentiram-se mal. Nem sequer tinham tido tempo de ver Tangu Yuh! E crivaram os seus vizinhos de perguntas: “Como era ela? Como eram os seus olhos? E a voz? O que é que disse?
Porém, os nortenhos tinham estado tão concentrados a copiar o desenho da sua veste que, na realidade, não tinham observado bem a deusa. E os habitantes do centro tinham-lhe feito tantas perguntas que nem se aperceberam se ela tinha respondido a alguma ou não. E o desalento passou a reinar em Tehuantepec.
Os teares calaram-se e os fornos de barro ficaram vazios. Os zapotecas, normalmente alegres e amigos de cantar, estavam cada vez mais tristes. Ficaram à espera, a observar o céu durante muitos dias, desejando que Tangu Yuh voltasse. Mas tal não aconteceu. E assim retomaram o trabalho. Os do norte recomeçaram a fiar, mas os seus tecidos eram agora um pouco mais belos depois de terem visto Tangu Yuh. Os da região central continuaram a negociar, mas tornaram-se um pouco mais justos porque se sentiam abençoados pela deusa. E os que habitavam o sul criaram um cântico, de uma suave e triste melodia, que ensinaram aos demais:
Deusa da terra,
O que não daria eu para ver os teus olhos?
O que não daria eu para ver os teus olhos?
Deusa da terra!
O tempo foi passando e todos deixaram de falar da deusa aos filhos. Não passava de um sonho, perdido na imensidão do céu. Mas todos os anos, na noite do Ano Novo, reuniam-se e cantavam o cântico de Tangu Yuh. Lenta e tristemente.
Lá no céu, os deuses ouviam aquele cantar e observavam os habitantes de Tehuantepec. Notaram que os do norte fiavam tecidos para todos. Que os do centro negociavam com todos os seus vizinhos. Não estavam convencidos de que se Tangu Yuh voltasse a visita fosse diferente. Mas Tangu Yuh julgava que sim. “Deixemos que mantenham a esperança”, disse a deusa.
E assim, numa manhã a seguir ao Ano Novo, sem ninguém esperar, a música das trombetas celestiais soou em todas as praças e uma voz troou no centro de cada povoação: “Tangu Yuh! Tangu Yuh!”, clamava. E o eco dessa voz chegou a todos os cantos da terra e do céu. Que alegria sentiram os zapotecas! E logo começaram a organizar uma festa em honra da deusa, a maior e mais bela que puderam imaginar. Desde então, o espírito de Tangu Yuh está com eles em cada Ano Novo. Antes do dia festivo, os habitantes do norte começam a tecer roupa nova. Os comerciantes do centro trazem novos alimentos das montanhas. E, em cada ano, os do sul compõem novas canções para os coros de Tangu Yuh. Mas sobretudo, os oleiros do sul fazem novas figuras da deusa em barro, e quando as peças são retiradas do forno, ouve-se um sussurro vindo de cima….
É que todos os habitantes de Tehuantepec estão convencidos de que, quando os oleiros conseguirem captar com realismo o rosto de Tanguh Yuh, ela virá novamente visitá-los. Quando voltar, já a festa estará preparada. Uma banda de música à frente de uma enorme procissão. As bandeirolas ondearão em cada teto e todas as varandas e janelas se encherão de flores. Haverá chocolate, pão doce e bebidas, valsas e músicas para bailar. Tudo e todos festejarão Tangu Yuh. Ela há de voltar, sem dúvida. Um dia.
Mary-Joan Gerson
Fiesta femenina
Cambridge, Barefoot Books, 2003