Histórias oferecidas à sexta-feira!
(Mais em CONTADORES DE ESTORIAS)
O Arado de Oiro
S |
alomão, o Sábio, foi outrora conselheiro na corte de um rei. A sua sabedoria era respeitada por todo o país. Mas veio o dia em que Salomão se fartou da vida na corte. Saiu do palácio e fez-se à estrada. Ninguém sabia para onde tinha ido.
Sem o seu conselheiro por perto, o rei tinha medo de tomar decisões. Mandou emissários em busca de Salomão. Pensava-se que este percorria o país disfarçado de homem do povo. Mas ninguém sabia como o encontrar.
Por fim, o rei engendrou uma maneira. Mandou fazer um arado de oiro e fê-lo percorrer o país, carregado pelos seus homens. Onde quer que fosse, diziam:
— O rei oferece uma recompensa a quem conseguir adivinhar corretamente o valor deste arado.
Todos tentavam adivinhar o valor do arado. Mas ninguém conseguia acertar.
Finalmente, chegaram junto de um pobre homem, que estava sentado na berma da estrada. Estava a comer uma côdea de pão e tinha ar de mendigo. No entanto, também lhe fizeram a pergunta.
O homem levantou os olhos. Depois olhou de novo o chão.
— Quereis mesmo saber quanto vale esse arado?
— Claro que queremos.
— Então digo-vos que, se não chover em maio, esse arado não vale esta côdea de pão.
Os homens do rei entreolharam-se. Depois perceberam a sabedoria do que acabavam de ouvir.
— Este deve ser Salomão, o Sábio.
Levaram-no de volta ao rei. E o reino foi novamente governado com sabedoria.
Margaret Read MacDonald
Earth Care
Arkansas, August House Publishers, Inc., 2005
Tradução e adaptação
No intuito de darmos continuidade ao anterior projecto, “Um dois três era uma vez”, embora em moldes que se pretendem mais abrangentes, reiniciamos o envio semanal de pequenas histórias para crianças e adolescentes, por vezes acompanhados de textos dirigidos a um público adulto, convidando à reflexão, e também ao sonho, que tão necessários se tornam numa sociedade em que o materialismo tem crescido desmedidamente, a ponto de abafar os valores mais genuínos do ser humano: o respeito pelos outros, a ternura, a delicadeza, a compaixão pelos que sofrem, a generosidade.
Esperamos que o projecto, que agora passa a chamar-se “Um dois três, era outra vez”, continue a encontrar leitores assíduos entre aqueles a quem se dirige, e possa proporcionar agradáveis momentos de partilha entre pais e filhos.

E…diga-nos o que pensa das histórias que lhe forem chegando!
Responda-nos para: 1...@isep.ipp.pt
Ideia: Teresa Tudela e Betina Campos Neves
A cor da areia
A todos quantos sofrem em campos de refugiados
O meu avô diz que o mundo é muito grande. Tão grande que, se juntassem todos os nossos rebanhos mil vezes, ainda sobraria espaço para mil rebanhos iguais aos nossos.
Gosto de desenhar rebanhos na areia. Quando desenhados na areia, os camelos e as cabras têm a mesma cor. Mas eu sei que cada camelo é diferente, assim como cada cabra é diferente. À tardinha, quando fecho as cabras no curral, noto sempre quando falta alguma. E sei qual é a que falta. Conheço-as todas pela cor e pelos desenhos da pele. Hoje vi que faltava a Nadjama, que tem uma mancha branca na testa, em forma de estrela.
Posso desenhá-la na areia, mas não consigo pintar a estrela de branco. Quando a Nadjama se perde nas dunas, vou-a desenhando na areia, a caminho de casa. E desenho também o curral. Se ela vir os meus desenhos, consegue guiar-se por eles e regressar a casa. A não ser que o siroco se levante e os leve. A minha mãe diz que as cabras não olham para os desenhos que as crianças fazem na areia. Mas eu sei que a Nadjama só consegue regressar porque segue os meus desenhos.
A Nadjama tem fome e o resto do rebanho, também. Sei isso porque comem todo o cartão e papel que encontram. O meu avô diz que não se recorda de uma época tão seca como a de agora. O meu avô é sábio, porque viveu muito e sabe muitas coisas. Às vezes, conta-me histórias que me parecem impossíveis. Conta que, quando tinha a minha idade, costumavam levar as caravanas de camelos até ao mar. Só que isso aconteceu antes da guerra. Uma guerra que, como dizem os mais velhos, nos tirou as nossas terras e deixou o meu avô coxo para sempre.
Ele diz que o mar é azul, mas eu nunca o vi. Contudo, desenhei-o na areia. Só que o meu mar não é azul. É da mesma cor das cabras e dos camelos: cor de areia. O meu avô diz que eu, quando vir o mar, hei-de poder pintá-lo de azul e que nesse dia seremos livres.
Não sei quando irei ver o mar. Gostaria de o pintar de azul. Mas também não tenho lápis de cor. Dantes, havia uma caixa deles na escola. Mas, a pouco e pouco, os lápis foram ficando cada vez mais pequenos, até não podermos pegar neles. Mais tarde, já não tínhamos lápis, mas ainda havia papel e eu desenhava com cinza que tirava do lume, sem a minha mãe dar conta. Depois do chá, enquanto ela guardava as vasilhas, eu enchia os bolsos com cinza ainda quente.
Por vezes, cheguei mesmo a queimar-me. Mas, a pouco e pouco, o papel também acabou e, então, deixei de apanhar cinza para pintar. Maima, a nossa professora, era a única que tinha um lápis. Era um lápis estranho, muito grosso e de cor branca. Chamava-lhe giz. Desenhava uma letra numa tabuinha de madeira e nós tínhamos de copiá-la no chão com um pauzinho. Se não tínhamos pauzinhos, fazíamo-lo com o dedo. A professora dizia que, se gostávamos de desenhar, também iríamos gostar de escrever.
— Os desenhos significam coisas. E as palavras também.
♥♥♥♥♥♥
Depressa aprendi a escrever. Mas o vento levou as minhas primeiras letras…
Nesse dia, tinha demorado muito a desenhar o meu nome. Com muito cuidado, traçara o meu nome na areia. Estava a escrever! Queria que o meu pai, a minha mãe, o meu avô, os meus irmãos e as minhas irmãs viessem ver a minha primeira palavra escrita. No fim da aula, corri em alvoroço até à tenda:
— Mãe, pai, avô! Já sei escrever! Venham ver… Olhem!
Mas, quando eles chegaram, o vento já tinha levado as minhas letras. As minhas primeiras letras, a minha primeira palavra. “Abdula”, o meu nome. No lugar do meu nome, só havia pequenos montículos de areia, uniformes e perfeitos. Das minhas letras, nem rasto. Comecei a chorar.
— O vento é um ladrão!
Nesse dia, percebi o que o meu avô queria dizer quando afirmava que no deserto tudo é efémero e fugaz.
— Até as estrelas, meu filho.
Naquela altura, eu olhava para o meu avô, sem compreender nada do que ele dizia.
— Hoje há seca e choramos, porque queremos chuva. Amanhã vem a chuva e vamos chorar por causa da praga dos gafanhotos que destroem todas as colheitas à sua passagem.
Eu julgava que esse “amanhã” nunca iria chegar. Em toda a minha vida vi chover três vezes, mas era ainda muito pequeno quando choveu pela última vez. Habituado às tempestades de areia, recordo-me de que a água me incomodava.
— Pai, já viste alguma praga de gafanhotos?
— Sim, filho. É quase pior do que a seca. Quando o vento está de feição, avançam duzentos quilómetros por dia.
— Se chover, os gafanhotos podem chegar até aqui?
— Penso que não, filho. Cá não há nada para destruir, nem nada para comer. Neste deserto árido, nada cresce. Só vi pragas quando estávamos nas nossas terras.
Segundo o meu avô, este tempo é de seca, porque não chove há muitos anos. Nem aqui, nem nos lugares por onde o meu pai pasta os camelos. O meu pai passa muito tempo fora de casa. Sai do acampamento com outros homens e com os rebanhos, e tarda meses a voltar. O meu avô diz que nos morrem muitos camelos por falta de água, porque, como têm de ir pastar para muito longe, morrem de sede e de fome pelo caminho. Eu não quero que o meu rebanho morra!
♥♥♥♥♥♥
Esta manhã fiz outro desenho. Um desenho do meu rebanho. Desenhei as cabras e os camelos, rodeados de cactos, de palmeiras, de aloés e de acácias… Até desenhei um embondeiro no meio.
— És parvo, Abdula — troçou o meu irmão. — Mais do que parvo. O que desenhaste não existe!
Mas eu sei que existe, porque o meu avô me contou. E mostrou-mo num livro. Era um oásis. O meu avô é um sábio.
— Um dia, irás ver todos esses arbustos e árvores juntos e vais poder pintá-los de verde. De muitos verdes diferentes. Nesse dia, Abdula, nesse dia seremos livres.
Enquanto esse dia não chegar, o meu oásis, o meu rebanho e o meu mar são da cor da areia. Quando se levanta o vento da tarde, sei que o meu oásis cor de areia vai desaparecer. Como todos os meus desenhos. Leva-os o vento. Farei, então, outro desenho: o meu irmão mais velho a amassar pão. Ou a minha mãe a fazer licor de tâmaras.
Estou a desenhar na areia diante da nossa tenda. A professora chega e sorri para mim. Depois, entra e fala com a minha mãe. Não sei o que estão a dizer. Pouco depois, sai precipitadamente e pega-me na mão.
— Abdula, tenho uma surpresa para ti. Anda, corre!
Tenho pena de deixar o meu desenho a meio, porque sei que, antes que o vento o leve, a minha irmãzinha vai pisá-lo sem se dar conta. Mas a professora leva-me quase de rastos até à escola. Está um camião à porta. Não é o camião do costume, o da água. Vejo pessoas que não falam a nossa língua a descarregar caixotes. A professora abre um deles e mostra-me o que há dentro.
— Olha, Abdula! — exclama, radiante. — Papel! Lápis de cor! Olha só quantas cores! E livros para colorir… De todos os géneros. Livros e cadernos e pincéis e tesouras e…
Nos olhos de Maima há um brilho especial. Fico sem palavras. Fascinado. Uma das senhoras olha-me sorridente e diz-me, com sotaque estrangeiro:
— Disseram-me que gostas muito de desenhar… A partir de hoje terás sempre lápis de cor e papel. Queres que desenhemos juntos?
Nem quero acreditar! Tenho de ir contar ao meu avô!
Enquanto não chegar o dia que o meu avô tanto deseja, vou pintar de mil cores o meu rebanho, o meu oásis, o meu mar... E muito mais coisas que o vento já não irá levar!
Embora, à cautela, eu continue a desenhar na areia… Assim, se a Nadjama se perder, poderá sempre voltar para o curral! A não ser que se levante o siroco e leve os meus desenhos da cor da areia…
Elena O’Callaghan i Duch
El color de la arena
Zaragoza, Edelvives, 2005
(Tradução e adaptação)
(Para quem gosta de REFLEXÕES e mais REFLEXÕES em forma de postal…)

No coração do México, os falcões sobrevoam as altas montanhas, mergulhando em direção às encostas suaves, semeadas de milho. Debaixo do sol tropical, as iguanas descansam sobre rochedos brilhantes, e os tucanos conversam com os guaxinins empoleirados em árvores verde-esmeralda. Por entre as colinas, os pumas correm, as raposas cinzentas procuram galinhas, e os lobos uivam entre si, à noite.
Numa aldeia situada no sopé das montanhas, vivia uma avó com a neta. Plantavam milho, tomates e girassóis na Primavera e juntas viam os rebentos verdes despontar da terra. No Verão, colhiam lírios brancos como leite, punham-nos em cestos às costas, e levavam-nos para vender no mercado. Pelo Outono, decoravam caules esguios de milho para a festa das colheitas, a fim de agradecer os cereais de um ano inteiro. No Dia dos Mortos, costumavam erigir um altar e acender velas, relembrando os entes queridos. E no Natal, pegavam em cola e papel e faziam pinhatas, que enchiam com frutas e doces.
A avó era alta e imponente. Tinha as faces macias e as maçãs do rosto bem marcadas. Os olhos eram profundos, castanhos e doces. Embora tristes, eram bondosos. Tinha o peito largo e as ancas redondas. Pernas e pés robustos ligavam-na à terra, como se fosse uma árvore antiga. Os braços eram fortes e as mãos graciosas, com dedos longos e finos. Era uma mulher tão delicada como os rebentos de um jacarandá.
A neta gostava de explorar e de sonhar. Costumava brincar sozinha, nos campos e nas florestas, mas tinha medo das sombras escuras, dos barulhos dos animais, e de tudo o que fosse novo e diferente. “O que haverá no buraco desta árvore velha?” pensava, enquanto se erguia nos bicos dos pés e esticava o pescoço para espreitar o tronco oco. Contudo, mal ouvia um gato-do-mato nos ramos altos, começava a tremer dos pés à cabeça, como um saco de folhas secas a ondular numa tarde ventosa.
Certo dia, a neta assustadiça encontrou um tatu. Não passava de um vulgar tatu que se cruzara no seu caminho, mas a rapariga tremeu como se fosse um urso feroz com garras afiadas e dentes rangentes. Depois desse encontro, cada pequena sombra no caminho para casa iria transformar-se num monstro aterrador.
Quando a avó ouviu o barulho da porta, correu para a neta e abraçou-a. Em seguida, sentou-a ao colo e afagou-a com doçura. Enquanto lhe afagava o cabelo e as costas, ia cantando:
— Minha pequenina, como bate o teu coração e que medo te faz tremer tanto! O mundo é um lugar assustador para os que não confiam. A minha ternura dar-te-á confiança: a confiança que sinto, a confiança que a minha avó sentia, e que herdou da avó dela.
A neta sentiu-se invadida por um calor reconfortante e, enquanto o sol se punha, deixou de tremer e adormeceu.
No dia seguinte, um grupo de crianças surpreendeu-a enquanto brincava à beira da estrada. Rindo e gritando, correram para ela e perguntaram-lhe:
— Onde fica o rio?
Em vez de fugir, a menina apontou com o dedo para a esquerda. Embora tremesse por dentro, o dedo mantivera-se firme. Nessa noite, contou à avó o que acontecera. A avó sorriu:
— Isso já é um progresso.
Pegou na neta ao colo e afagou-a como se faz a um gatinho. Depois, começou a cantar:
— Minha pequenina, como bate o teu coração e que medo te faz tremer tanto! O mundo é um lugar assustador para os que não têm coragem, mas hoje mostraste bravura. A tua coragem alia-se à minha e à da minha avó, que a herdou da avó dela.
A neta sentiu uma força percorrer o seu corpinho e as tremuras pararam.
Alguns dias depois, um beija-flor caiu de um ninho no jardim e partiu uma asa. Em vez de fugir, a neta assustadiça dirigiu-se à avezinha e pegou nela. O corpo do pássaro tremia ainda mais do que o seu. A menina sentia o coraçãozinho minúsculo e trémulo e a barriguita quente e penugenta. Pegou no beija-flor com a mesma ternura com que a avó pegara nela e levou-o para casa.

A avó sabia tomar conta de animais feridos. Fizeram juntas um pequeno ninho numa caixa, com tecido e palha, e alimentaram o pássaro com um conta-gotas. A menina deu de beber ao bichinho, gota a gota. À medida que o fazia, ia sentindo um entusiasmo percorrer o seu corpo.
A avó sorriu e o sorriso iluminou-lhe o olhar.
— Isto é que é um progresso!
Enquanto o beija-flor dormia, pegou na neta e cantou:
— Minha pequenina, como bate o teu coração e que medo te faz tremer tanto! O mundo é um lugar assustador para os que não ajudam os outros. Hoje ajudaste uma criatura pequena e assustada e descobriste o teu dom de curar.
Durante toda a noite, a avó manteve a sua querida neta ao colo e continuou a cantar:
— Este é o dom que te transmito, que é também o dom da minha avó, que o herdou da avó dela.
Certa tarde, a neta observava uma loja do mercado quando o comerciante acusou injustamente uma criança de ter roubado. A menina viu a cara irada do homem enquanto este apontava um dedo ameaçador ao menino. Embora com o coração a bater, aproximou-se do comerciante e disse:
— Este rapaz não roubou nada. Eu vi. Por favor, não grite com ele.
O comerciante grunhiu uma resposta e a rapariga perguntou:
— Quanto dinheiro perdeu?
— Dez cêntimos — respondeu o homem.
A menina remexeu no bolso e deu-lhe todo o dinheiro que tinha.
— Isto é que é progresso! — exclamou a avó, quando a neta lhe contou o sucedido, quase sem fôlego pela corrida até casa.

A avó pegou nela ao colo e afagou-a durante muito tempo.
— Ouve bem, minha querida. O mundo é um lugar assustador para os que não têm dignidade. Hoje mostraste a tua. A ela junto a minha e a da minha avó, que a herdou da avó dela.
A neta sentiu um orgulho estranho invadir-lhe o corpo. Sentiu-se maior e mais forte.
◊◊◊◊◊◊
Quantas vezes mais a avó acariciou a neta? Quantas vezes mais cantou para ela? Não sei. Mas sei que o fez muitas e muitas vezes, durante muitas semanas e muitos anos. Através da sua ternura, incutiu na neta assustadiça confiança e coragem, destreza e dignidade. E as suas canções eram tão profundas que penetravam o coração, o sangue, e todo o corpo da menina.
A neta cresceu esperançada, digna de confiança, generosa e bondosa. Já ninguém se lembrava de que fugira em tempos de guaxinins. Tornou-se uma mulher forte, de gargalhada fácil, tirando prazer de tudo o que a rodeava.
E muito mais tarde, embora já tivesse filhos, ainda punha a cabeça no colo da avó de vez em quando. Conhecia bem a linguagem das mãos dela e sorria, de olhos fechados, enquanto a avó percorria o caminho familiar da ternura que sempre lhe mostrara.
Com o decorrer dos anos, a avó tornou-se velha e frágil. Chegou então a vez da neta tomar conta dela. De manhã bem cedo, vinha acender o lume e aquecer água para o chá. Cozinhava, lavava e penteava o cabelo prateado da velhinha. Massajava com carinho os pés cansados, dedo a dedo. Pegava nas mãos que tanto amava e massajava-lhe os dedos hirtos. Por vezes, embora mais raramente, caminhavam juntas pela aldeia, atravessavam o vale e iam até às montanhas, rindo e cantando juntas. Sempre que o piso era incerto, a neta oferecia o braço à avó.
Uma noite, a neta sonhou com a avó a subir sozinha a montanha. Queria juntar-se a ela, mas a avó virou-se e levantou a mão:
— Tenho de ir sozinha — dissera, com um sorriso tranquilo nos olhos.
No dia seguinte, como de costume, a neta foi a casa da avó. Mas, quanto tentou acordá-la, viu que o corpo estava frio e a face serena. De joelhos, fulminada pela dor, a neta sentiu o coração a esvoaçar e o estômago a tremer, como quando era criança.

Estremeceu dos pés à cabeça, como ramo de um cedro apanhado no meio de uma tempestade tremenda. Como poderia viver sem a sua avó adorada? O coração abriu-se como um rio e as lágrimas inundaram o seu rosto. Os soluços sacudiram-na toda. De repente, ouviu a voz da avó:
— Minha pequenina, ouve-me.
A neta sentiu umas mãos fortes e quentes a acariciar-lhe as costas. Eram mãos invisíveis, mais poderosas do que as mãos físicas da avó. Essas mãos abraçaram-na e embalaram-na, incutindo-lhe bem-estar por todo o corpo. Os soluços cessaram, tão depressa como tinham começado. Sentiu uma enorme leveza no coração e força nos membros. Pôs-se de pé, e afagou a face e a testa da querida avó morta.
◊◊◊◊◊◊
A neta já foi muitas vezes avó. E muitas vezes também já pegou ao colo nos netos. Embalou-os com os seus braços fortes e capazes, riu e chorou com eles, e cantou para eles, enquanto os acariciava.
— Meus pequeninos, ouçam bem. O espírito da avó rodeia-nos. Está no vento e nas árvores. Está nos vales e nas colinas. As mãos do espírito da avó brincam com os peixes nos riachos e acendem o lume da lareira. Está sempre presente quando estamos com amigos calorosos, quando provamos comida deliciosa, e sempre que partilhamos sorrisos ou lágrimas. Onde quer que estejamos, a avó está sempre perto. E sempre que precisarmos dela, podemos fechar os olhos e sentir-nos no seu colo.

Barbara Soros; Jackie Morris
Grandmother’s Song
Bristol, Barefoot Books, 1998
Histórias oferecidas à sexta-feira!
(Para quem gosta de REFLEXÕES e mais REFLEXÕES em forma de postal…)
Um vizinho encontrou Nasruddin ajoelhado a procurar qualquer coisa.
— O que anda a procurar, mullah?
— A chave que perdi.
E puseram-se, então, os dois de joelhos, a procurar a chave; e, depois de algum tempo:
— Onde foi que a perdeu? – disse o vizinho.
— Na minha casa.
— Oh, Santo Deus, então por quê procurá-la aqui?
— Porque há mais luz cá fora.
Anthony de Mello
O canto do pássaro
Lisboa, Ed. Paulinas, 1998
Histórias oferecidas à sexta-feira!
(Para quem gosta de REFLEXÕES e mais REFLEXÕES em forma de postal…)

A filha queixava-se ao pai acerca da sua vida e de como tudo lhe era tão difícil. Não sabia como fazer para seguir em frente e acreditava que acabaria por desistir, dando-se por vencida perante as dificuldades. Estava cansada de lutar. Parecia-lhe que sempre que solucionava um problema logo aparecia outro.
O seu pai, que era chef de cozinha, levou-a ao seu local de trabalho. Uma vez lá, encheu três tachos com água e colocou-os sobre lume forte. Dali a nada, a água fervia nos três tachos. Num deles, deitou cenouras, noutro ovos e, no último, grãos de café. Deixou que tudo fervesse sem dizer palavra. A filha esperou, impaciente, perguntando-se o que estaria o pai a fazer.
Dali a vinte minutos o pai desligou os discos do fogão. Retirou as cenouras e colocou-as num recipiente. Retirou os ovos e colocou-os noutro recipiente. Coou o café e deitou-o para um terceiro recipiente. Olhou para a filha e perguntou-lhe:
— Que vês aqui?
Ela prontamente respondeu:
— Cenouras, ovos e café!
Pediu-lhe então que se aproximasse e tocasse nas cenouras. Ela assim fez, notando que estavam muito moles.
A seguir, pediu-lhe que pegasse num dos ovos e o partisse. Ela pegou no ovo e retirou-lhe a casca para encontrar no interior um ovo bastante duro.
Finalmente, pediu-lhe que provasse o café. Ela sorriu enquanto saboreava o rico aroma do café acabado de fazer.
Humildemente, a filha acabou por perguntar:
— Pai, o que significa tudo isto?
Então, ele explicou-lhe que os três ingredientes haviam sido submetidos à mesma adversidade, água a ferver, mas tinham reagido de formas distintas.
A cenoura chegou à água sendo forte e dura. No entanto, depois de passar pela água a ferver ficara débil, desfazendo-se com facilidade.
O ovo tinha chegado à água sendo frágil. A sua casca fina protegia o interior líquido. Mas, depois de estar em água a ferver, o seu interior tinha endurecido.
Em contrapartida, os grãos de café eram únicos na sua reação. Depois de entrarem na água a ferver tinham mudado a água.
— E tu qual destes ingredientes és? — perguntou-lhe o pai? — Quando a adversidade bate à tua porta como reages? És uma cenoura, um ovo ou um grão de café?
E eu pergunto-te a ti? O que fazes perante a adversidade? És como a cenoura que parece forte, mas quando é tocada pela adversidade e pela dor descobre que essa fortaleza é só aparente?
Atuas como o ovo, que começa com um coração maleável, possui um espírito fluido, mas depois de enfrentar uma morte, uma separação, um divórcio ou um despedimento se torna duro e rígido?
Ou és como o café? O café altera a água a ferver, o elemento que causa dor. Quando a água atinge o ponto de ebulição, o café alcança o seu melhor sabor.
Como manejas a adversidade? Como uma cenoura, um ovo ou um grão de café?
Anónimo
(Tradução e adaptação)
Histórias oferecidas à sexta-feira!
(Para quem gosta de REFLEXÕES e mais REFLEXÕES em forma de postal…)

Textinhos Zen
― Michael! Está um urso lá fora! ― exclamou Karl.
― Um quê? ― perguntou Michael.
― Um urso! E é mesmo grande! Está no pátio das traseiras.
― O que está a fazer? ― quis saber Michael.
― Está sentado e tem um guarda-chuva com ele ― respondeu Karl.
― Um guarda-chuva?
Quando os rapazes chegaram ao pátio, a irmã deles, Addy, estava já a falar com o urso.
― Peço desculpa por vir sem avisar ― disse o urso. ― O vento arrastou o meu guarda-chuva até aqui. Pensava que podia recuperá-lo antes de vos incomodar.
O urso falava com um ligeiro sotaque panda.
Michael apresentou-se e depois Addy apresentou Karl, que se sentia tímido junto de ursos que não conhecia.
E foi assim que Addy, Michael e Karl conheceram Stillwater.
N |
o dia seguinte, a menina foi lanchar com o urso.
― Posso entrar? ― perguntou quando chegou à porta.
― Entra, entra! ― convidou uma voz distante.
A seguir, acrescentou:
― Estou cá fora!
Stillwater estava no pátio das traseiras. Estava dentro de uma tenda.
― Este é um presente de aniversário do meu tio Ry ― disse Stillwater.
― Dá‑me sempre presentes nos meus anos, para celebrar o dia em que eu nasci. Gosto tanto desta tenda que não estou a dormir em casa agora.
O urso convidou Addy a sentar-se junto dele.
― Trouxeste bolo! Que simpática! São os teus anos hoje? ― perguntou Stillwater.
― Não ― respondeu Addy.
― Também não são os meus. Mas vou dar-te uma prenda do aniversário do meu tio Ry. Vou contar-te uma história.
O tio Ry e a lua
O meu tio Ry vivia sozinho numa casa na colina. Não tinha muitas coisas, levava uma vida simples.
Certa noite, descobriu que tinha uma visita. Um ladrão tinha entrado em casa e estava a vasculhar os seus poucos bens.
O ladrão não se apercebeu da presença do meu tio e, quando este o saudou, ficou tão surpreendido que ia caindo.
O meu tio sorriu e apertou-lhe a mão.
― Seja bem-vindo! É bom ter visitas!
O ladrão abriu a boca para falar, mas não conseguiu dizer nada.
Porque o meu tio nunca deixa ninguém ir embora de mãos vazias, olhou em volta em busca de uma prenda para o ladrão. Mas não havia nada. O ladrão começou a recuar em direção à porta. Queria ir embora o mais depressa possível.
O meu tio descobriu finalmente o que fazer. Tirou a sua única túnica, que estava velha e puída e disse:
― Tome, leve isto.
O ladrão pensou que ele era louco. Pegou na túnica, correu para a porta e escapuliu-se noite dentro.
O meu tio sentou-se e olhou para a lua, com a sua luz brilhante espalhada pelas montanhas, e deixando um rasto de beleza em tudo.
― Pobre homem ― lamentou. ― Só tinha uma túnica velha para lhe dar. Se ao menos pudesse ter-lhe dado esta lua magnífica!

― O teu tio parece uma pessoa muito simpática ― comentou Addy. ― Penso que não daria a minha única túnica.
― Eu percebo ― disse Stillwater ― mas é um facto que temos sempre a lua.
― Essa história é bonita ― disse Addy.
― Obrigado. Aqui tens um pouco do teu bolo ― ofereceu Stillwater.
― Obrigada. Fi-lo eu mesma ― disse a menina.

N |
o dia seguinte, Michael foi visitar Stillwater.
― Estou aqui! ― gritou o urso, em cima da árvore.
― Posso subir? ― perguntou Michael.
― Se tiveres cuidado ― alertou Stillwater.
― E se pudéssemos voar? ― perguntou Michael.
― Podíamos lançar sombras sobre as nuvens ― lembrou o urso.
― E se caíssemos? ― perguntou Michael.
― Se caíssemos, podíamos partir alguma coisa ― disse Stillwater.
― Isso seria triste ― concordou Michael.
― Talvez ― disse Stillwater.
― Talvez? ― admirou-se Michael.
A sorte do camponês
Era uma vez um velho camponês que tinha trabalhado no campo por muitos anos.
Um dia, o seu cavalo fugiu. Mal ouviram a notícia, os vizinhos vieram visitá-lo.
― Que azar ― lamentaram, com simpatia.
― Talvez seja ― respondeu o camponês.
Na manhã seguinte, o cavalo voltou, trazendo com ele dois cavalos selvagens.
― Que sorte! ― exclamaram os vizinhos.
― Talvez seja ― disse o camponês.
No dia seguinte, o seu filho tentou montar um dos cavalos selvagens, mas foi derrubado e partiu uma perna.
Os vizinhos vieram novamente lamentar a sua má fortuna.
― Que azar ― disseram, com simpatia.
― Talvez seja ― respondeu o camponês.
No dia seguinte, apareceram dois oficiais na aldeia para recrutar jovens para lutar na guerra. Vendo que o filho do camponês tinha a perna partida, nem lhe prestaram atenção.
― Que sorte! ― exclamaram os vizinhos.
— Talvez seja ― disse o camponês.

― Já percebi ― disse Michael. ― Talvez a boa e a má sorte estejam ligadas. Nunca se sabe o que vai acontecer.
― É verdade, nunca se sabe ― concordou o urso.
N |
o dia seguinte, foi a vez de Karl ir visitar Stillwater.
― O Michael disse que eu não podia trazer fato de banho. Estou zangado com ele. Esta sempre a dizer-me o que fazer. Para o contrariar, trouxe tudo!
― Bem ― confessou Stillwater ― não passa de uma piscinazita. Duvido que tudo isso caiba nela.
― Veremos! ― disse Karl.
Stillwater olhou para a piscina.
― As coisas podem nadar mas nós não ― reparou.
― Trouxe demasiada tralha ― percebeu Karl.
― Não faz mal. Eu ajudo-te a levá-la de volta ― ofereceu-se o urso.
― Por que é que o Michael me está sempre a dar ordens? ― perguntou Karl. ― Se ele estivesse aqui, eu havia de subir bem alto e de saltar para cima dele! ― afirmou.
Mais tarde, Karl e Stillwater tomaram chá.
― Karl, ― disse Stillwater ― passaste o dia todo zangado com o Michael. ― Viste como nos divertimos?
Karl observou o fumo a elevar-se da chávena.

— Desculpa ter trazido isto tudo ― pediu Karl.
― Não precisas de pedir desculpa. Vou contar-te uma história.
Um fardo pesado
Dois monges viajantes chegaram a uma cidade onde uma jovem precisava de descer da sua liteira. As chuvas tinham deixado poças de lama bem fundas no chão e ela não podia pôr os pés em terra sem se molhar. Estava zangada e impaciente, e ralhava com os criados. Estes não tinham onde colocar as coisas dela e, por isso, não podiam ajudá-la a atravessar as poças.
O monge mais jovem viu a jovem, nada disse e continuou o caminho. O mais velho pegou nela com prontidão, pô-la às costas, atravessou as poças e depô-la no outro lado. A jovem nem lhe agradeceu. Afastou-o do caminho dela e foi embora.
Enquanto continuavam a sua caminhada, o jovem monge estava pensativo e preocupado. Várias horas depois, incapaz de guardar silêncio, disse ao monge mais velho:
― Aquela mulher foi muito egoísta e mal-educada, mas pegaste nela às costas e transportaste-a! Depois, nem sequer te agradeceu!
― Já a pus no chão há tantas horas. Porque ainda a carregas?
― Não achas que já carregas essa zanga há tempo demais? ― perguntou Stillwater.
― Acho ― concordou Karl.
― Ainda bem ― alegrou-se o urso.
E foi assim que Addy, Michael, Karl – e Stillwater – se tornaram amigos.

O que é o zen?
Zen é uma palavra japonesa que significa meditação. No Zen, os ensinamentos do Buda sempre foram passados de mestre para discípulo.
O método de meditação do Buda consistia em sentar-se muito quieto, mantendo-se, contudo, plenamente alerta, deixando que os pensamentos fluíssem e não se apegando a nenhum deles.
Quando vemos uma poça de água, se esta estiver muito calma, podemos ver nela o reflexo da lua. Se a água estiver agitada, a lua aparece fragmentada e espalhada. É mais difícil ver a verdadeira lua. As nossas mentes funcionam dessa maneira. Quando estão agitadas, não conseguimos ver o verdadeiro mundo.
O nome Stillwater (Água tranquila) deriva deste facto. Esta personagem baseia-se no mestre/artista Zen sengai gibbon (1750-1838), cujos desenhos foram usados como formas suaves de ensino. Era conhecido pelo seu sentido de humor e forma invulgar de ensinar. O tio Ry é baseado em ryokan taigu (1758-1831), um dos poetas japoneses mais admirados.
“Zen shorts” são pequenas meditações ― ideias sobre as quais pensar ― instrumentos que ajudam a nossa capacidade de agir com intuição. Não têm fim em si, mas desafiam-nos com frequência a reexaminar os nossos hábitos, desejos, conceitos e medos.
As histórias O tio Ry e a lua e Um fardo pesado são oriundas de literatura budista Zen que tem sido transmitida ao longo dos séculos. A história A sorte do camponês tem raízes no Taoismo, uma filosofia de vários milhares de anos. Há muitas versões destas histórias. Escolhi as que melhor se adaptam a um público jovem.
Jon J. Muth
Zen shorts
New York, Scholastic Press, 2005
Tradução e adaptação
Histórias oferecidas à sexta-feira!
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OS VIAJANTES PERDIDOS
Há muito, muito tempo, quando os seres humanos eram deuses, eles abusaram da sua divindade. Brahma, deus supremo, decidiu então retirar-lhes esse poder e escondê-lo onde a humanidade não pudesse descobri-lo.
Os deuses reuniram-se para decidir o que fazer. Propuseram enterrar o poder divino da humanidade no mais fundo da terra, mas Brahma interveio:
— Isso não é suficiente. A humanidade vai escavar e acabará por encontrar o que escondemos.
Os deuses replicaram:
— Meta-se então esse poder no lugar mais fundo dos oceanos.
Mas Brahma logo atalhou:
— Tarde ou cedo, a humanidade explorará as profundezas dos mares e acabará por encontrar esse tesouro, trazendo-o de volta à superfície.
Então, o deus dos deuses teve esta sublime ideia:
— Eis o que faremos: esconderemos esse poder no mais fundo de cada ser humano. Esse será o único lugar onde o homem jamais irá procurá-lo.
Manon Savard
Histoires à réflexion
(Traduzido e adaptado do francês)
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TRÊS PEQUENOS RATOS
Era uma vez três pequenos ratos que andavam atarefados pelos campos a recolher provisões para o inverno.
O primeiro procurava freneticamente alimento e transportava para a toca toda a espécie de sementes que encontrava.
O segundo, percorria afanosamente os campos em busca de tudo o que lhe permitisse proteger-se do frio que se anunciava, recolhendo palha, feno e penas.
E o terceiro ratito? Bem, esse passeava-se tranquilamente, observando o céu, absorvendo e saboreando o espetáculo que a natureza em seu redor proporcionava, ou, simplesmente, estendia-se a descansar por momentos.
Os seus dois esforçados companheiros ralhavam-lhe quando iam à recolha de víveres, dizendo:
— Que grande preguiçoso nos saíste! Se não te preparas para o inverno, como é que vais fazer para enfrentar o frio e a falta de comida?
Mas o terceiro rato nem se preocupava em responder-lhes.
Quando finalmente chegou o inverno, os três ratos aconchegaram-se no ninho recheado de provisões. Porque partilhavam o que havia, não lhes faltava nada: nem sítio fofo e quente onde dormir, nem comida para resistir à fria estação. No entanto, não tinham nada que fazer o dia todo. Pouco a pouco, um tédio mortal instalou-se na toca e os ratos não sabiam como passar o tempo.
Foi então que o terceiro rato começou a contar histórias aos seus dois companheiros. Falou-lhes da criança que tinha visto ao pé do campo numa tarde de outono, de um homem que tinha estado a observar perto do charco numa manhã de verão. Partilhou com eles as conversas que tinha tido com ratos do campo vizinho, cantou-lhes a canção que ouvira certa manhã de primavera a um pássaro, numa árvore ali perto…
E assim, os dois ratos trabalhadores compreenderam que, durante o verão, o seu companheiro tinha estado a recolher raios de sol para os ajudar a passar o inverno de forma agradável.
Ainda que certas atividades pareçam não ter qualquer utilidade prática, elas podem trazer paz e harmonia à alma…
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Madeira viva
Chego às primeiras árvores da floresta, cansado de tanto correr, e encosto-me a uma, para retomar fôlego. O meu coração bate, acelerado, e apoio a cabeça no tronco rugoso, que oculta o coração calmo da árvore.
A madeira é dura como uma couraça e tem veios. Tenho a sensação de ter apoiado a minha cabeça na cabeça de um boi, porque a sinto leve. Encho os pulmões do cheiro da madeira, que o calor do sol torna ainda mais intenso. O cheiro da madeira, ocre, amarelo, vermelho, lembra-me o fogo, o inimigo da floresta, cujos cheiro e cor são semelhantes.
Quando a madeira arde, exala um cheiro que revela a personalidade de cada árvore: o cheiro do carvalho é completamente diferente do cheiro do pinheiro nórdico, porque este cheira a especiarias; também o cheiro do castanheiro, da faia ou da bétula são diferentes, porque falam do norte e da humidade. Diverso é ainda o cheiro das árvores fruteiras que o Verão traz.
Uma lufada repentina de vento agita todas as folhas ao mesmo tempo, e ponho-me a contemplá-las. Sempre gostei de trepar às árvores. Um dia, o meu pai fez-me uma cabana com ramos esculpidos com uma faca de mato, cujo soalho era composto por tábuas aparadas por ele. É para lá que vou, ler ou inventar aventuras que só se desenrolam na minha cabeça. A escada, feita de corda e de ramos de avelaneira, fica a balançar depois de eu a utilizar.
Já me perguntei muitas vezes como é que, outrora, aqueles que não eram como nós, mas que fizeram com que fôssemos o que somos hoje, subiam para as árvores, porque os ramos eram o lugar onde estavam quase sempre… Inclino a cabeça para trás e ponho-me a olhar para o interior da copa das árvores. Ao contemplar o verde das folhas, que é apenas um momento da vida das árvores, dou-me conta de que a vida, para as árvores e para muitas outras plantas, começa a partir do verde. Já a nossa vida começa a partir do vermelho, pois é o sangue que a torna possível. Quando o sangue deixa de circular, sobrevém a morte. Com as folhas, passa-se o contrário: quando ficam vermelhas, morrem e caem.
A mão do meu pai segura a minha, a mão que alisou as tábuas da minha cabana. Está quente do sangue da vida que circula no seu corpo e o meu coração bate no seu ritmo normal.
Às vezes, gostava de ter um coração de madeira, que fosse insensível aos desgostos. Mas, quando pouso a mão no lado esquerdo do peito, gosto de o sentir palpitar, no seu ritmo alternado.
Pierre Grosz
Le bois des arbres
Paris, Paris-Musées, 2005
(Tradução e adaptação)
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Gestos do coração
Por vezes, quando temos pequenos e discretos gestos de generosidade,
podemos estar a mudar a vida de alguém para sempre.
Margaret Cho
Foi quase logo de imediato: quando entrei na sala de aula do meu terceiro ano, reparei no saco ao canto junto da minha secretária. Era de cor creme, de plástico grosso, que não deixava adivinhar o que lá estava dentro. Peguei nele e perguntei:
— A quem pertence isto?
Não obtive resposta. Então abri-o, remexi o seu interior e vi uma camisa azul e vermelha, alguns pares de calções e o que me pareceu serem umas sapatilhas. Sem saber de quem era o saco, voltei a perguntar, mas ninguém respondeu. Olhei atentamente os rostos dos meus alunos. Nenhum fazia ideia de quem poderia ser o dono do saco, até que reparei que o Timothy, olhando-me nos olhos, fazia ligeiramente que não com a cabeça e eu parei logo de remexer. Intuí que era ele o responsável por aquele saco cheio de coisas. Também intuí que, se o chamasse ou se expusesse o conteúdo do saco, iria deixá-lo embaraçado.
Mais tarde, chameio-o à parte.
— Timothy, aquelas roupas são tuas? Vais dormir a casa de algum amigo depois das aulas? O que é que se passa?
O Timothy arrastou os pés e respondeu-me que as roupas eram para um amigo — um rapaz da turma —, um miúdo que ele via todos os dias. Incomodava-o que o colega usasse sempre as mesmas roupas e os mesmo sapatos, semana após semana. Disse-me que tinha reparado que nem sempre as roupas lhe serviam e que estavam em muito mau estado, uma vez que já tinham sido anteriormente usadas por dois irmãos mais velhos. Às vezes, os sapatos cheiravam mal.
Fiquei curiosa, porque a maior parte dos miúdos do terceiro ano só se preocupam com eles próprios. Não é costume serem assim atentos aos outros. Mais tarde, quando perguntei ao Timothy porque é que ele tinha feito aquilo, respondeu-me, olhando-me nos olhos:
— Ele é meu amigo. Só queria ser simpático.
Perguntei-lhe se a mãe sabia o que ele tinha feito. De modo algum podia permitir que os meus alunos dessem as suas roupas sem a autorização dos pais, mas o Timothy tranquilizou-me.
— Primeiro — disse — perguntei à minha mãe se podia e ela respondeu: ‘Se alguém precisar de alguma coisa que tu tenhas, podes dar-lho.’ Então, fui ao meu armário e às minhas gavetas. Peguei em coisas que estavam já a ficar-me pequenas, coisas que imaginei que lhe iriam agradar. Escolhi aquela camisa azul e vermelha com o homem a jogar polo na frente especialmente para ele.
Tirei-a do saco e examinei-a. Disse:
— É uma camisa colorida e com muito bom aspeto, Timothy. Tenho a certeza de que ele vai adorar.
— Ainda a usava, mas estou a crescer e vai deixar de me servir, por isso, vai ficar bem ao meu amigo, que é mais baixo do que eu.
Reparei na expressão de alegria no rosto do Timothy, pus-lhe a mão no ombro e disse-lhe:
— Em vez de enfiares as camisas e as calças para o fundo do teu armário, decidiste dá-las a alguém que pode aproveitá-las, não?
— Exatamente. E a minha mãe ensinou-me a lavar roupa no ano passado, por isso lavei tudo antes de fazer o saco.
Perguntei ao Timothy quando é que ele tencionava oferecer as roupas ao colega. Respondeu:
— Já ofereci. Hoje de manhã, entreguei-lhe o saco de plástico.
O Timothy olhou em volta para confirmar que ninguém estava a ouvir.
— Ele disse que as ia levar. Por isso, em conjunto, decidimos que o sítio mais seguro para as deixar até ao final do dia era no canto da sala, junto à sua secretária.
Naquela tarde, quando a mãe do Timothy o foi buscar à escola, fui ter com ela e disse-lhe:
— Tem um filho bondoso. Deve estar muito orgulhosa do que ele fez.
O Timothy abanou a cabeça e sorriu. Pela expressão no seu rosto, dava a impressão de que não achava que tivesse feito nada de especial. Limitara-se a ajudar um amigo.
Mas quando vi o amigo vestido com as roupas “novas” nas semanas seguintes, tive a certeza de que os dois rapazes tinham aprendido uma lição de vida: os pequenos gestos feitos com o coração podem mudar tanto a vida das pessoas!
Sioux Roslawski
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Ferir para curar
Há muito tempo atrás havia, na cidade de Bistram, dois homens que se confrontavam mutuamente devido a uma velha rivalidade. Deu-se o acaso de ambos quererem estudar os segredos da origem e destino do homem com o renomado sábio Alí Beg, cujo domicílio se situava num lugar longínquo da Pérsia.
Antes de os receber, Alí escreveu a um outro sábio, Ibn Hamza, que vivia perto de Bistram, pedindo-lhe que lhes falasse em seu nome, mas ambos se recusaram a ir visitá-lo.
O primeiro dos dois homens disse:
— Desejo a raiz, não o ramo!
O segundo comentou:
— Ibn Hamza é um zé ninguém!
Em virtude desta reação, Ibn Hamza começou a espalhar rumores insultuosos sobre os dois candidatos a iluminados.
Ao cabo de alguns meses a ouvir relatos venenosos a seu respeito em todos os lugares, tendo seguido a pista da origem desses relatos até Ibn hamza e sentindo-se deveras vilipendiados, os dois aristocratas acabaram por se reconciliar e, unidos na sua ira contra o sábio, foram ter com ele.
Uma vez chegados, descarregaram sobre ele a sua cólera, esquecendo completamente todos os preceitos e conselhos de sabedoria que tinham escutado ao longo das suas vidas.
— Sabes porque viemos ver-te, miserável indigno? — gritaram mal chegaram à presença de Ibn Hamza.
— Sim, sei perfeitamente, — respondeu-lhes Ibn Hamza, — vieram porque:
Em primeiro lugar, Alí Beg queria demonstrar-vos o quão superficiais eram os vossos “profundos” sentimentos de inimizade mútua.
Em segundo lugar, porque era necessário mostrar-vos que os sentimentos superficiais podiam ser manipulados com facilidade, fazendo-vos vir até aqui, mesmo que, inicialmente, a título individual, tivessem decidido não o fazer.
Em terceiro lugar, porque, ainda que desobedecendo às instruções de Alí Beg, era possível demonstrar-vos que certos desejos devem ser levados a cabo.
Em quarto lugar, estão os dois aqui, permitindo que as outras pessoas aqui presentes possam aprender com este acontecimento, em que ambos servem, de modo inconsciente, como seus mestres.
Em quinto lugar, porque tanto Alí Beg como eu próprio precisávamos de mostrar a esta ingrata gente da região, tão cheia de desconfianças e deleitada em espalhar rumores como os que lancei a vosso respeito, que nós, homens de coração limpo, não somos as suas inevitáveis vítimas, mas que também sabemos usar as ações perversas deles contra a sua própria malícia.
E em sexto lugar, estão aqui porque, em resultado dos anteriores acontecimentos, feitos e explicações, existe sempre a possibilidade de transformar uma ferida num remédio e uma arma num instrumento valioso.
Idries Shah
El buscador de la verdad: cuentos y enseñanzas sufíes
Barcelona, Kairos, 1988
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ACENDER AS VELAS DE NOVO
Há alguns anos atrás, um médico do sul de França entrou em contacto comigo. A neta tinha adoecido subitamente e nenhum médico local conseguia efetuar um diagnóstico. Como os sintomas da doença da menina coincidiam com algo que eu havia descrito em artigos científicos acerca do sistema nervoso autónomo, o avô decidira pedir a minha ajuda.
Mostrei-me disponível de imediato e, durante vários meses, colaborei, por telefone ou fax, com os médicos franceses que tratavam a criança. Chegámos, por fim, a um diagnóstico e prescrevi um guia de tratamento que se revelou eficaz, pois a menina recuperou miraculosamente no espaço de algumas semanas. Os avós agradeceram-me e pediram-me que os contactasse, se alguma vez fosse a França.
No verão de 1996, fui convidado a assistir a um encontro científico internacional, em Nice. Escrevi ao médico cuja neta tratara e, quando cheguei ao hotel onde me ia hospedar, tinha uma mensagem sua à minha espera. Telefonei-lhe e combinámos jantar juntos.
No dia aprazado, viajámos de carro até à sua casa, situado na belíssima região do sul de França. Contou-me que, apesar de a mulher padecer de uma grave doença e não se encontrar bem, tinha insistido em encontrar-se comigo. Quando fomos apresentados, vi que a doença não conseguira apagar os seus traços de beleza e o seu porte digno.
Confesso que comemos uma das melhores refeições que algum dia provei.
Depois do jantar, a senhora comentou:
— O meu marido disse-me que o senhor é judeu.
Respondi afirmativamente e o casal pediu-me que lhes falasse do Judaísmo, em especial das festividades a ele associadas. Expliquei-lhes tudo da melhor forma possível e fiquei surpreendido com os fracos conhecimentos que tinham sobre o tema. A senhora mostrou um interesse particular no Hanucá.
Depois de eu responder a todas as perguntas, olhou-me nos olhos e disse:
— Tenho algo para lhe oferecer.
Desapareceu por momentos e regressou com algo embrulhado em tecido.
Sentou-se, fitou-me com os olhos cansados e começou a falar devagar:
— Quando tinha oito anos, durante a Segunda Guerra Mundial, as autoridades vieram à nossa aldeia para prender todos os judeus. A minha melhor amiga era judia e chamava-se Jeanette. Certa manhã, quando ia ter com ela para brincar, vi a família ser toda enfiada num camião, sob a ameaça de uma pistola. Corri para casa dela e vi que desaparecera. Vi também que os aldeãos saqueavam a residência, levando tudo o que pudessem encontrar de valor. Reparei que apenas atiravam para a rua os objetos relacionados com o culto judaico. Aproximei-me e vi um objeto que a família de Jeanette acendia por volta da altura do nosso Natal. Pensei “Vou levá-lo para casa para quando a Jeanette voltar”. Mas nem ela nem a família voltaram.
Parou por momentos de falar.
— Nunca mais me separei dele. Escondi-o dos meus pais e nunca falei dele a ninguém. Nos últimos 50 anos, só o meu marido soube que existia. Quando compreendi o que tinha realmente acontecido aos judeus, e me dei conta da quantidade de franceses que tinham colaborado com os nazis, deixei de poder olhar para ele. Contudo, mantive-o escondido, sem saber bem porquê. Agora sei que o guardei para si, a pessoa que salvou a nossa neta. Confio-lho.
As suas mãos trémulas colocaram-no no meu regaço. Desenrolei o tecido devagar e deparei com uma menorá diferente de todas quantas tinha visto. Era feita de bronze puro e tinha oito braços para o azeite e os pavios. O nono braço central era mais alto do que os restantes e tinha um anel que permitia pendurá-lo no teto, tal como a senhora vira no corredor da casa de Jeanette. A menorá parecia muito antiga. Posteriormente, disseram-me que deveria ter provavelmente cerca de um século.
Enquanto pensava em tudo o que ela representava, comecei a chorar e apenas pude murmurar um obrigado.
Quando me despedi deles, a senhora disse:
— Estas velas devem ser acesas de novo.
Soube mais tarde que morrera um mês depois do nosso encontro.
Neste Hanucá, a menorá vai ser acesa de novo. E quando a acendermos, eu e a minha família iremos dizer uma oração especial em honra daqueles cuja memória ela representa.
Não deixaremos que a sua luz se apague jamais.
Blair Grubb

Transfusão de amor
Há muitos anos, depois da minha licenciatura em Medicina, trabalhei por vários meses numa clínica em El Valle, uma cidadezinha no planalto central da República Dominicana. O corpo de funcionários era reduzido: eu próprio, outro médico recém-saído da faculdade e uma enfermeira — todos sob a supervisão de um médico que acabara de completar o estágio. Em conjunto, os quatro vivíamos e trabalhávamos num edifício de blocos de cimento com duas salas de exame, uma pequena área cirúrgica, uma sala de espera e alguns quartos minúsculos.
Como o hospital mais próximo ficava a mais de hora e meia de carro, nós representávamos o único cuidado médico de toda a região. E, apesar de nossos magros suprimentos de remédios e equipamento, atendíamos quase setenta pacientes por dia, e tratávamos praticamente de todos os tipos de doença.
As pessoas caminhavam de pés descalços um dia inteiro até chegar à nossa clínica, e muitas estavam desesperadamente doentes. E eu sentia-me como se tivesse sido transportado numa máquina do tempo até uma realidade passada muito diferente e bem distante daquela que eu conhecia.
E, embora eu falasse um espanhol razoável, a comunicação era muitas vezes difícil porque muitos pacientes eram migrantes originários do Haiti, país de língua francesa, e tinham dificuldades com o espanhol.
Certa vez, uma jovem haitiana foi trazida para o hospital em estado de choque quando o seu braço foi estraçalhado numa máquina debulhadora. Apressámo-nos a levá-la até à sala de operações improvisada e pusemo-la a soro, enquanto lutávamos para controlar a hemorragia. A contagem de glóbulos era tão baixa que o nosso equipamento tinha dificuldade em registá-la. Mas a jovem precisava desesperadamente de sangue e morreria se não fizéssemos uma transfusão.
O único método que tínhamos para tirar sangue era a transfusão direta de uma pessoa para outra. Com o nosso kit rudimentar para tipificação de sangue, o único dador potencial que pudemos encontrar foi o seu irmão mais novo.
O espanhol dele era deficiente, mas pareceu entender quando explicámos que seria necessário tirar algum sangue dele para salvar a irmã. Mas empalideceu, sentou-se em silêncio por um momento, e perguntou se havia alguma outra maneira.
— Não — respondi.
E ele balançou lentamente a cabeça, concordando.
Colocámos a agulha intravenosa no seu braço, e iniciámos a transfusão para a irmã.
E quase logo a jovem começou a recuperar a cor.
O irmão sorriu ao ver que ela melhorava e, no seu espanhol imperfeito, perguntou:
— Cuando voy a morir? (Quando vou morrer?)
Fiquei estupefacto, mas só então percebi que ele compreendera mal as nossas explicações, e que pensava que precisaríamos de todo o seu sangue para salvar a irmã.
Esta criança, este garoto admirável estava disposto a sacrificar a sua vida para salvar a da irmã que amava! E isto sem hesitar sequer!
Naquele momento, senti uma enorme reverência por aquele menino.
E enquanto eu lhe explicava tudo e o contemplava, do seu rosto emanava um suave esplendor…
Apesar do seu medo, o garoto parecia em paz.
Blair P. Grubb, M.D.
(Para quem gosta de REFLEXÕES e mais REFLEXÕES em forma de postal…)

A bolsa de Jesus
(tradição sufi)
Um autor sufi contou que as pessoas às vezes ridicularizavam ou amaldiçoavam Jesus, mas que ele lhes respondia sempre com orações.
Numa dessas ocasiões, um dos discípulos perguntou-lhe por que não ficava zangado e por que não lhes respondia de igual forma.
Espantava-os que ele pudesse rezar pelos que o amaldiçoavam.
Jesus respondeu dizendo que só podia gastar do que tinha na sua bolsa.
Elisa Davy Pearmain (edited by)
Doorways to the soul
Cleveland, The Pilgrim Press, 1998
(Tradução e adaptação)
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Email para a avó
Todos na turma tinham uma avó, só Miguel é que não. Aliás, a maioria até tinha duas e ainda um avô. Miguel tinha um avô, o pai da mãe, mas não gostava muito dele e de boa vontade o teria trocado por uma avó. Sobretudo agora, em vésperas de Natal…
Que sorte tinha o seu amigo Maurício! Tinha uma avó a quem pedir prendas e, por isso, não se fazia rogado – pedira-lhe ultimamente uma playstation. Os pais não tinham dinheiro para lha comprar, mas a avó só tinha um neto e uma boa reforma… Portanto, fazia-lhe todas as vontades.
Miguel também tinha uma data de pedidos que os pais não podiam realizar, mas, ao contrário de Maurício, não tinha avó. E sentia essa ausência como uma injustiça. Perguntava-se muitas vezes o que fizera para não ter nenhuma!
— Talvez se possa alugar uma! — sugeriu Maurício, pronto a ajudar. — O meu pai costuma dizer que hoje em dia tudo se aluga.
No dia seguinte, Maurício trouxe um número de telefone.
— Quando a minha tia tem de sair à noite, telefona para aqui e eles mandam uma avó ou um avô para tomar conta da minha prima pequena.
Miguel telefonou imediatamente, mas descobriu que só se podiam alugar avôs e avós à hora. O tempo urgia. O Natal era dali a oito semanas e não havia uma única avó à vista!
— Põe um anúncio na net! — propôs Maurício.
— Estás a brincar! — disse Miguel. — Quem é que vai ler o anúncio? Já alguma vez viste uma avó navegar na net?
Maurício sacudiu a cabeça. A avó dele fazia malha e pintava bem, as bolachas dela eram melhores do que as da pastelaria, mas não gostava de computadores. “Isso não é para a minha geração”, repetia de cada vez que ele lhe queria mostrar os acessórios para o computador que tinha comprado com o dinheiro que ela lhe dera.
Miguel já quase se tinha conformado com a ideia de não encontrar uma avó antes do Natal, quando o acaso lhe veio dar uma ajuda.
♥♥♥♥
Estava sentado ao computador, absorto num jogo de futebol, quando os pais chegaram a casa. Vinham a conversar, muito agitados.
— O médico diz que não é nada de grave. Daqui a dois dias já vai poder levantar-se novamente. Foi só a tensão!
A voz do pai parecia ligeiramente nervosa.
— Se calhar devias ir visitá-la ou, pelo menos, telefonar-lhe.
— Para quê? Se tivesse tido saudades minhas, há muito que tinha aparecido.
Pela voz do pai, Miguel soube que o assunto estava encerrado.
— Se calhar, ela esperava que tu aparecesses. É a tua mãe!
Miguel já não conseguiu ouvir o resto. Não acreditava no que acabara de ouvir. Afinal, ele tinha uma avó, só que nunca soubera!
Uma raiva enorme contra os pais subiu por ele acima. Só lhe apetecia correr imediatamente para a cozinha, mas depois… Se o pai não tinha contacto com ela há anos, também não era agora que a ia procurar só porque ele, Miguel, precisava de uma avó para as prendas de Natal. Não, tinha de ser ele a tratar do assunto.
E assim fez!
Ora bem: se a avó era a mãe do pai, então tinha de ter o mesmo apelido, Salineiro. Miguel rezava para que não morasse num lar! E oxalá tivesse telefone! O nome Salineiro só aparecia três vezes na lista telefónica. O do pai, João, depois um Pedro e ainda uma Marta. Miguel sempre se irritara por ter aquele nome complicado, mas agora, pela primeira vez, estava contente. Se se chamasse Silva ou Costa, então é que seria um problema!
Ansioso, marcou o número de Marta Salineiro.
— Por favor, a senhora tem um filho chamado João? — perguntou imediatamente.
— Tenho, sim! Mas, o que se passa? Aconteceu alguma coisa?
A senhora parecia inquieta.
— Não, não! — disse Miguel. — Está tudo bem. Ele manda cumprimentos e deseja-lhe as melhoras.
— Porque é…
Mas Miguel já tinha desligado. Ao lado do nome estava a morada: Rua do Rei, nº 15.
♥♥♥♥
No dia seguinte, depois da escola, apanhou o metro. Enquanto estava em frente ao edifício na rua da avó a pensar no que fazer, a porta da entrada abriu-se e um homem saiu. Antes que se fechasse, Miguel esgueirou-se para dentro. Procurou o nome em cada campainha. Finalmente, encontrou “Salineiro” no patamar do terceiro andar.
Quando ia a tocar, ouviu ruídos do outro lado da porta. Correu até ao andar de cima. Viu a porta a abrir-se e uma senhora saiu. Só podia ser a avó! Seguiu-a até ao centro de dia e ficou a espreitar pela janela. Estava sentada em frente a um computador e um rapaz explicava-lhe como enviar e-mails.
— MartaSa...@hotmail.com... — murmurava a avó, enquanto ia carregando nas respetivas letras. — E agora, posso mandar cartas? Sem selo?
O rapaz fez que sim com a cabeça.
— Mas eu não conheço ninguém que tenha um endereço de e-mail.
— Comece por treinar! — respondeu o rapaz. — O resto vem por si.
Nem fazia ideia de como tinha razão, pois Miguel já ia a correr para casa, para o seu computador! “Querida avó!”, escreveu, “Não me conheces, mas eu vi-te. Escreve-me, por favor! Miguel.” Aparentemente, a avó ainda devia estava a treinar, mas a resposta chegou dez minutos mais tarde. “Olá, Miguel! Onde é que me viste?”
♥♥♥♥
E assim começou uma amizade por e-mail. Avó e neto trocavam e-mails diariamente. Ele escrevia-lhe sobre os pais, a escola, e ela respondia-lhe. Certa vez, escreveu que gostava de o ver.
— Porque é que não te conheço? — perguntou Miguel.
A avó não queria contar muito. Há muitos anos tivera uma discussão violenta com o filho, o pai de Miguel. Depois disso, nenhum deles quis voltar a falar com o outro. Eram ambos demasiado casmurros para darem o primeiro passo e se reconciliarem.
— É de família, não há nada a fazer! — escreveu a avó.
Mas Miguel via as coisas de outra madeira. Foi visitá-la. E começou assim uma quadra pré-‑natalícia muito animada. Com efeito, a avó não sabia fazer bolos nem malha, mas conhecia pessoalmente cada jogador dos Blue Devils.
— A tua avó vai ao futebol?! — perguntou Maurício, espantado e com alguma inveja.
Cheio de orgulho, Miguel disse que sim com a cabeça.
— E tem bilhetes para o jogo de amanhã.
Os pais trabalhavam até à noite e ninguém reparava que Miguel chegava tarde a casa.
Visitou assim, com a avó, todos os bazares de Natal da cidade; também foram à pista de gelo onde Miguel verificou, com espanto, que a avó, embora não andasse tão depressa, andava de patins tão bem como ele.
— Já lhe deste a tua lista das prendas? — perguntou Maurício.
Miguel abanou a cabeça. Nunca mais pensara no jogo de computador que queria receber e que fora o motivo pelo qual procurara uma avó.
— Tem dinheiro, ao menos? — perguntou Maurício.
Miguel encolheu os ombros.
— Não faço ideia. Mas tem tempo. Tempo para mim.
Maurício olhou para ele. Pensativamente.
♥♥♥♥
Seis dias antes do Natal, Miguel torceu o pé na aula de Educação Física. O que mais o irritava era ter de anular o encontro com a avó. Não ia voltar a vê-la antes do Natal. À noite, sentou-se ao computador, a ler a resposta. A avó estava preocupada e um pouco triste.
— Para o Natal, desejo — escrevia no fim — que nos voltemos a ver no próximo ano.
Naquele momento, o telefone tocou. O pai veio dizer-lhe:
— O teu amigo Maurício quer falar contigo.
Quando regressou, o computador estava desligado. Zangado, correu para a sala.
— Pai, foste tu que o desligaste? — gritou.
Não obteve resposta. Miguel ficou aborrecido. Não gostava nada que os pais mexessem no computador dele. O pai estava sentado em frente à televisão, mas não devia estar a prestar atenção ao que estava a ver.
— Pai! — Miguel não obteve resposta.
E, nos dias seguintes, o pai esteve sempre estranhamente ausente.
Até a mãe se queixava que ele não ouvia o que ela lhe dizia.
Às vezes, Miguel reparava que o pai o olhava de forma esquisita, o que lhe causava remorsos. Mas tinha a certeza que, pelo menos daquela vez, nada tinha a culpá-lo.
♥♥♥♥
Três dias antes do Natal, quando Miguel ia ligar o computador, o pai entrou no quarto. Ficou em pé, um pouco embaraçado. Miguel olhava para ele.
— Se escreveres à avó, diz-lhe que te levo lá amanhã. É a minha prenda de Natal adiantada.
Embora Miguel tivesse a certeza de que ela estava ao computador e que tinha recebido a mensagem — era sempre àquela hora que mandava os seus e-mails — a resposta demorou a chegar.
E continha poucas palavras:
— O teu pai também tem email?
Carolin Philipps
Brita Groiß; Gudrun Likar
Weihnachten ganz Wunderbar: ein literarischer Adventskalender
Wien, Ueberreuter, 2001
HOJE, COM VOTOS DE UM FELIZ NATAL!

A DÁDIVA DOS BISCOITOS DE NATAL
A partilha do verdadeiro significado do nascimento de Jesus
Era um Natal de um tempo em que as pessoas dispunham de pouco dinheiro. Em que as latas de biscoitos continham moedas e não biscoitos de Natal.
Por isso, quando Jack sentiu o cheiro delicioso que vinha da cozinha, nem queria acreditar no seu nariz. Eram biscoitos!
Contudo, a excitação cedo deu lugar a desapontamento quando soube que os biscoitos não eram para ele. A mãe estava a fazê-los para as pessoas pobres que frequentavam a igreja onde eles iam. Enquanto Jack ajudava a estender a massa, a mãe contou-lhe a história dos biscoitos de Natal.
Com palavras simples e belas ilustrações, esta história fala de dádivas do coração que duram para sempre.
***
Jack ouviu ao longe o apito solitário do comboio. Enfrentando o vento gelado, atravessou os carris em direção a casa.
Casa. A sua casa não tinha sido verdadeiramente um lar desde que o pai apanhara um comboio em direção ao Oeste para encontrar trabalho. E, nesta véspera de Natal, tudo indicava que o pai não viria passar com eles a quadra festiva.
Quando
Jack entrou em casa, sentiu o cheiro delicioso de pão doce e alcaçuz vindo da cozinha.
Biscoitos!
Mas era improvável que fossem biscoitos, já que a mãe punha todos os cêntimos que o pai enviava no jarro de vidro reservado aos biscoitos. Há mais de um ano que aquele frasco não continha um só biscoito.
— Jack! — chamou a mãe, que estava na cozinha a mexer algo numa taça enorme.
— Estás mesmo a fazer biscoitos? — perguntou Jack, incrédulo.
A mãe sorriu ligeiramente.
— São para a igreja, para as pessoas necessitadas.
Jack tentou esconder o seu desapontamento, já que ele próprio se sentia bastante necessitado ultimamente.
— Vai buscar as formas de biscoitos, filho — pediu a mãe, sem deixar de bater a massa.
Jack desembrulhou as formas de madeira que revelavam pastores, estrelas, camelos, reis, um casal ajoelhado, um bebé e uma cruz. A última forma era um anjo do tamanho da mão do rapaz.

— Este é muito grande! — exclamou, pensando que um biscoito daquele tamanho lhe duraria uma semana.
A mãe ajudou-o a estender a massa de maneira a desenhar uma forma oval. Era uma tarefa bem árdua.
— Porque fazemos biscoitos tão bonitos se as pessoas os comeriam de qualquer forma?
A mãe pegou na forma do anjo grande e polvilhou-a de farinha.
— Talvez tenha chegado a altura de saberes por que razão as pessoas começaram a fazer biscoitos de Natal.
Jack viu a mãe a pressionar a forma contra a massa e ouviu-a.
— É uma história com centenas de anos, uma história que data da Idade Média. No país dos antepassados do teu pai, a vida era muito dura.
Jack estendeu mais um pouco de massa e perguntou-se se a vida na Idade Média tinha sido mais dura do que a que eles viviam, e se os rapazes de então sentiam a falta do pai tanto quanto ele.

Como os aldeões não tinham dinheiro para ir à escola, a maioria não sabia ler. À medida que o Natal se aproximava, havia uma família que ansiava por ajudar os vizinhos a encontrar o verdadeiro sentido do Natal.
— Vamos esculpir figuras para contar a história do nascimento de Jesus! — sugeriu o pai, que era escultor de madeira.
— Os aldeões têm fome — salientou a mulher. — Devíamos dar-lhes de comer.
E, assim, a família trabalhou em conjunto. O escultor esculpiu todas as figuras relacionadas com o nascimento de Jesus, começando pelo anjo, e a mulher fez a massa doce para encher os moldes. Quando os biscoitos ficaram prontos, os filhos decoraram-nos com bagas e açúcar colorido.

Na véspera de Natal, a família do escultor levou os biscoitos à aldeia. Cedo se encontraram rodeados de pessoas. Quando a filha mostrou o biscoito do anjo, o pai começou a narrativa:
— Há muito, muito tempo, um anjo como este trouxe ao mundo a mais maravilhosa das notícias: “Hoje, na cidade de David, nasceu-nos um Salvador, o Cristo, Nosso Senhor.”
A família ia contando a história de Jesus à medida que ia distribuindo os biscoitos aos ouvintes maravilhados. E, desde aquela noite, que a arte de fazer biscoitos e de contar a história do verdadeiro significado do Natal tem sido transmitida de geração em geração.

Na véspera de Natal, na igreja, Jack deu consigo a pensar na família do escultor quando o pastor leu a passagem do Evangelho de São Lucas que relata a anunciação do anjo aos pastores.
Quando se levantou para cantar, o seu olhar deteve-se no vitral da igreja, que mostrava todas as figuras – a estrela, o pastor, Maria, José, e o menino Jesus. O anjo pairava sobre todos eles. Tal como os biscoitos de Natal, também o vitral narrava a história completa.
Nessa
noite, Jack sonhou com biscoitos de Natal gigantes. Quando acordou, a mãe estava junto dele.
— Feliz Natal, Jack! — desejou, dando-lhe um biscoito grande na forma de anjo.
— É para mim? — perguntou Jack, abraçando a mãe.
Todavia, antes sequer de o provar, alguém bateu à porta.
Jack ficou especado. A mãe foi a correr abrir a porta. O pai era bem capaz de lhes fazer uma surpresa na manhã de Natal.
Na soleira da porta, estava um homem já idoso.
— Será que podem dar-me alguma coisa para comer? — pediu.
O
desapontamento impediu Jack de falar e os seus olhos encheram-se de lágrimas. Embora a mãe estivesse tão desapontada quanto ele, convidou o estranho a entrar.
— É bem-vindo a partilhar o nosso pequeno‑almoço — disse.
O homem comeu depressa e sem dizer palavra. Quando acabou de engolir a última migalha, agradeceu‑lhes e partiu.
Jack viu o homem a dirigir-se para os carris e rezou para que outros estranhos também tivessem convidado o pai a partilhar o pequeno-almoço daquele dia. Deu-se conta de que gostaria de ter falado um pouco com o homem e de lhe ter desejado um Feliz Natal.
— Não te esqueças do teu biscoito, filho — disse a mãe.
Jack
contornou com o dedo as formas das asas do anjo. Quase lhe parecia ouvir o velho escultor medieval.
— Já sei! — exclamou.
Saiu de casa a correr e conseguiu alcançar o estranho.
— O que é? — perguntou o homem, quando Jack lhe ofereceu o anjo.
— É um biscoito para si — respondeu Jack. — E há uma história acerca desse biscoito.
E então, ali, junto dos carris do caminho‑de‑ferro, sob um céu cinzento que prometia neve, Jack começou:
— Há muito, muito tempo, um anjo como este trouxe ao mundo a mais maravilhosa das notícias: “Hoje, na cidade de David, nasceu-nos um Salvador, o Cristo, Nosso Senhor.”

Algo mais sobre o biscoito de Natal original
Os moldes dos biscoitos foram esculpidos em figuras de madeira, na região da Suábia, na Alemanha.
Na Idade Média, as formas assumiam, maioritariamente, temas religiosos. Estes biscoitos ainda se fazem hoje, pressionando a massa com o molde ou estendendo a massa e desenhando nela as formas através de rolos especialmente concebidos para o efeito.
Eis uma receita simples que pode experimentar:
· 4 chávenas de farinha peneirada
· 4 chávenas de açúcar em pó
· 4 ovos
· 1 colher de chá de fermento
· 1 colher de chá de baunilha
· 1 colher de chá de extrato de anis
Misture os ingredientes todos e deixe a massa repousar durante duas horas. Em seguida, estenda-a e recorte figuras com formas de biscoitos com um rolo especialmente concebido para o efeito, ou pressione a massa com o molde. Aqueça o forno a 160º e coloque-as a assar sobre folhas de papel vegetal durante 15 minutos.
Dandy Daley Mackall (Author) & Deborah Chabrian (Illustrator)
The Gift of the Christmas Cookie
ZonderKidz, 2008
Hoje, com votos de um excelente 2019!
é IRMÃOS DE CORAÇÃO é
O Grande Urso parou de correr, em pleno gelo.
Como era maravilhoso sentir a suavidade do vento, poder fechar os olhos e sonhar…
De repente, ouviu-se um grito vindo do rochedo sobranceiro. Seria um caçador?
O urso olhou de imediato para cima e viu uma criança a cair do céu, qual floco de neve.
Devia ter escorregado e caído.
Era preciso impedi-la de cair no gelo duro e espesso.
O Grande Urso correu, mergulhou, e a criança aterrou em segurança nas suas patas enormes.

O menino estremeceu quando viu onde tinha pousado.
— Não tenhas medo — disse o Grande Urso.
Colocou a criança no chão e seguiu o seu caminho.
Contudo, não tinha ido longe quando ouviu chamar:
— Espera por mim! Chamo-me Minik e quero acompanhar-te.
Caminharam lado a lado até que chegaram a uma ponte de gelo. O Grande Urso foi à frente para testar a segurança da passagem e Minik seguiu-o, plenamente confiante.
Algum tempo volvido, confessou:
— Gosto de estar contigo. Sinto-me protegido. Queres ser o meu irmão mais velho?


O Grande Urso riu:
— E como posso eu lá ser o teu irmão mais velho? Somos tão diferentes!
Minik conduziu o urso até junto de uma poça de água e detiveram-se a observar o reflexo de ambos:
— Se bem reparares, somos muito parecidos quando sorrimos.
— Talvez. Mas eu sou muito mais alto do que tu — fez notar o Grande Urso.
Minik subiu a um monte de neve.
— Agora já não és. Agora eu sou mais alto do que tu!
— Mas eu posso ser aterrador.
E o urso emitiu um rugido para provar o que dissera.
Minik fingiu que era um pirata destemido e gritou:
— NÃO TENHO MEDO DE TI!
O Grande Urso riu-se.
— Mas eu sou muito mais rápido do que tu!

O urso começou a correr e aterrou de costas.
Minik sentou-se em cima da barriga dele e começaram a deslizar juntos na neve.
— Vê como sou veloz! — exclamou o menino. — Queres ver o que sei fazer?
Minik dançou, fez malabarismos com uma bola de neve, e pôs-se a andar de pernas para o ar, com as mãos apoiadas no chão. O Grande Urso tentou copiá-lo.
— Tens toda a razão quando dizes que somos diferentes — riu-se Minik. —Mas não temos de ser iguais para sermos irmãos, pois não?
O Grande Urso não respondeu, pois sentiu que se aproximava uma tempestade.

—
Temos de partir já! Caminha bem junto a mim e o meu corpo vai proteger-te do vento.
De repente, o vento começou a rugir e a neve a cair, espessa.
— Não tenhas medo, Minik! Vou levar-te para casa, Pequeno Irmão!
À medida que a tempestade se tornava mais forte, Minik começou a ficar exausto. Tropeçou duas vezes e quase caiu. Por fim, parou. Não conseguia avançar mais. O Grande Urso agarrou bem no menino quase desmaiado e tentou aquecê-lo com o calor do seu corpo.
Foi então que viram uma luz forte diante deles. Eram faróis.
Um homem surgiu num trenó. O urso estacou e bramiu, mas o vento abafou o seu rugido.
O homem devia ser um caçador e parecia enfurecido. Minik colocou-se diante de Grande Urso e disse:
— Agora é a minha vez de te proteger, Grande Irmão!
Minik correu para o caçador e viu que era o seu pai.
— Pai! Para! — gritou. — O Grande Urso é meu amigo. Salvou-me a vida!
— Minik! — exclamou o pai. — Procurei-te por toda a parte. Estás bem?
O menino não respondeu porque viu o urso começar a afastar-se.
— Espera, Grande Irmão! — pediu.
Correu a abraçá-lo e disse-lhe:
— Adeus, Grande Irmão! Nunca te esquecerei!

— E tu viverás para sempre no meu coração — disse o Grande Urso.
Minik partiu no trenó do pai, sem deixar de se voltar para ver o urso desaparecer por entre a neve.
A tempestade amainou tão depressa quanto começara.
Minik escutou o vento, que agora soprava com suavidade.
Que bom era poder estar tranquilo, fechar os olhos e sonhar…

Carl Norac
Big bear little brother
London, Macmillan Children’s, 2009
(Tradução e adaptação)

A coragem de um rapaz
Em 1992, o meu marido e eu participámos num intercâmbio cultural que nos deu a possibilidade de visitar a Alemanha e ficarmos alojados em três famílias maravilhosas. Alguns anos mais tarde, ficámos radiantes ao saber que um dos casais que tinha sido nosso anfitrião vinha visitar-nos no Iowa.
Esses nossos amigos alemães, Reimund e Toni, viviam em Ruhr, numa região industrial, alvo de violentos bombardeamentos durante a Segunda Guerra mundial.
Uma noite, durante a sua estadia de uma semana em nossa casa, o meu marido, que é professor de História, pediu-lhes que nos contassem o que recordavam da infância na Alemanha durante a guerra. Reimund fez-nos então um relato que nos emocionou até às lágrimas.
Um dia, pouco antes do fim da guerra, Reimund viu dois aviadores saltar de um avião inimigo que acabava de ser abatido. Como muitos outros curiosos que tinham visto os paraquedistas cair do céu naquela tarde, o nosso amigo, então com 11 anos, correu até à praça principal para onde eram levados os prisioneiros de guerra. Pouco tempo depois, dois polícias chegaram com os ingleses e ficaram à espera que uma viatura militar os viesse recolher e levar para a prisão de uma cidade vizinha.
Quando a multidão viu os paraquedistas, começou a gritar de raiva:
— Matem-nos! Matem-nos já!
A população não esquecia os terríveis bombardeamentos que os Ingleses e os seus Aliados tinham lançado sobre a cidade e, nesse momento, pouco faltava para passarem aos atos. Muitos estavam a trabalhar nos seus quintais quando viram os dois cair de paraquedas e logo tinham pegado em forquilhas, pás e outras alfaias de jardinagem.
Reimund olhou para a cara dos prisioneiros ingleses.
Eram muito jovens, não tinham mais de 19, 20 anos. E via como estavam aterrorizados. Também sentia que os dois polícias, cujo dever era proteger os prisioneiros, não tinham grande hipótese ante aquela multidão enfurecida, armada de forquilhas e de pás.
Sentiu que devia fazer qualquer coisa, rapidamente. Correu então pela praça e colocou-se entre os prisioneiros e a multidão. Depois, gritou às pessoas para pararem. Com medo de ferir Reimund, a multidão deteve-se um momento, o bastante para que este lhes tivesse dito apenas isto:
— Olhem para os prisioneiros. Não passam de uns rapazes! Em tudo iguais aos vossos próprios filhos. Fazem exatamente o mesmo que eles: bater-se pelo seu país. Se os vossos filhos fossem apanhados no estrangeiro e feitos prisioneiros de guerra, certamente que não gostariam que a população os linchasse. Por favor, não lhes façam mal!
Os concidadãos de Reimund ouviram, primeiro com espanto, depois com vergonha. Por fim, uma mulher disse:
— Foi preciso vir um rapaz apontar-nos o que está bem e o que está mal.
E a multidão dispersou.
Reimund nunca mais esqueceu o intenso olhar de alívio e de gratidão que os dois jovens aviadores lhe dirigiram. E ainda hoje deseja que tenham tido uma vida longa e feliz, e que não tenham esquecido o miúdo que lhes salvou a vida.
Elaine McDonald
Jack Canfield et Mark Victor Hansen
Un 3e Bol de Bouillon de Poulet pour l´Âme
Montréal, Éditions Sciences et Culture, 1997

PARTE 1
Era uma daquelas manhãs claras e secas que fazem lembrar velhos montanheses de bigodes gelados e olhos piscos do sol. Nevara. Grandes e densos flocos tinham caído durante toda a noite. Depois, com a chegada do dia, um forte sopro de vento norte limpara o céu. A floresta, que começa atrás da casa e se estende pela montanha, estava completamente adormecida, envolta num grande silêncio gelado. Por entre as árvores estendiam-se sombras azuis. Os pinheiros vergavam sob o peso da neve, pois o vento da madrugada soprara apenas para afastar as nuvens.
Isabel e Gerardo viviam ali, perto do bosque, em casa dos avós. Era uma casinha cinzenta de portadas verdes. Lá longe, na margem gelada da ribeira, ficava a aldeia, que mal se via naquela manhã, bem como o caminho que seguia ao longo dos campos e atravessava a pradaria. Da janela, as duas crianças esforçavam-se por segui-lo com o olhar. Viam-no bem até à primeira curva, onde se encontrava o grande ácer morto há dois anos, que o avô ainda não tinha decidido cortar. Mas, para lá dele, tudo se confundia. Enquanto estavam assim, de nariz colado ao vidro, Isabel e Gerardo viram passar um pássaro, depois outro, e depois um bando que se empoleirou na ramada fazendo cair montinhos de neve.
— Estão com frio — disse Isabel. — É preciso dar-lhes sementes ou pão para comerem.
Arranjou alguns grãos e Gerardo abriu a janela.
— Fecha depressa — gritou o avô — que o inverno vai entrar-nos pela casa dentro!
As crianças puseram-se a rir. Como se o inverno pudesse entrar numa casa!
Isabel atirou os grãos para a vereda que o avô tinha varrido para poder ir buscar lenha. A avó pôs-se a tossir e levantou as tampas redondas do fogão para lá meter um enorme cavaco. Depois de fechada a janela, dois pássaros desceram da latada. Os outros pareciam inquietos mas, ao verem que nada se mexia, voaram também, enquanto alguns desciam do telhado, bem direitos, quase sem baterem as asas.
— A comida não vai chegar para todos — disse Isabel. — Estão a vir cada vez mais.
— Chega! Chega! — disse a avó. — Se lhes deres tudo, as minhas galinhas é que vão ficar sem nada!
— E se continuares, vais atrair todos os pássaros da floresta — disse o avô, exagerando.
Isabel lá se conformou e voltou para a janela. Ficou bastante tempo ao lado do irmão, limpando o vidro embaciado sempre que deixava de conseguir ver. De repente, agarrou no braço do irmão e disse, apontando:
— Olha para o caminho!
Gerardo levantou os olhos. Ao fundo, bem depois do ácer morto, um curioso animal avançava na neve. Parecia o coelhinho de corda mecânico que o Pai Natal tinha trazido a Gerardo, alguns anos atrás. Saltitava, oscilava da direita para a esquerda, e parava a todo o momento, exatamente como o brinquedo. Estava vestido de pelo cinzento e tinha orelhas compridas, que se tocavam no cimo da cabeça, tal e qual o coelho.
Esta aparição era tão surpreendente que as crianças esqueceram as aves e ficaram de boca aberta a observar aquele estranho animal cujos olhos, por vezes, refletiam a luz. Quando o coelho, que caminhava apenas com as patas de trás, chegou junto da sebe que circundava o jardim, as crianças só lhe viam a cabeça.
— Parece que vem para aqui! — murmurou Gerardo.
— É verdade! Está a contornar o jardim.
O coelho desapareceu e seguiu-se um longo silêncio angustiante. As crianças sustinham a respiração, à escuta. Em breve ouviram-se passos no degrau de pedra, e os pássaros voaram tão rápido que as crianças se assustaram.
— Não ouviram nada? — perguntou o avô.
Os dois abanaram a cabeça.
— O que poderá ser? — disse a avó.
Àquela hora o carteiro ainda estava longe. Os avós não tinham avistado a estranha figura, e os pequenos não ousavam responder. Não podiam dizer: “É um coelho mecânico, grande como um homem, que vem sozinho e sacode as botas na soleira da porta!” Sentiu-se ainda um roçar na parede e, depois, ouviu-se bater à porta. Os avós olharam um para o outro e em seguida para a porta. Como voltaram a bater com mais força, o avô gritou por fim:
— Entre!
A porta abriu-se lentamente e uma baforada gelada entrou na cozinha. Desta vez era o coelho quem trazia o inverno no pelo cinzento! Porque era mesmo ele que se encontrava ali, de pé, na soleira da porta, surpreendido com o calor e o cheiro do lume onde se cozinhava carne de coelho verdadeiro. A avó correu a fechar a porta. E não é que o coelho se põe a falar!...
— Bom dia, bom dia! — disse ele. — Venho muito cedo, desculpem, mas…
Os pelos cinzentos afastaram-se à altura do rosto, e apareceram primeiro uns grandes óculos, depois um nariz muito vermelho, uns bigodes espetados como uma vassoura de crinas de cavalo e, a seguir, uma cara de barba branca parecida com a do avô.
— Mas, é o Vicente! — disse o avô, admirado. — É o Vicente!
E era verdade! Era mesmo o Tio Vicente. E só quando tirou o boné de orelhas levantadas e despiu a peliça cuja gola lhe tapava os olhos é que as crianças tiveram a certeza de que o coelho mecânico era um homem! Nunca o tinham visto, mas o avô já lhes tinha falado muitas vezes daquele velho amigo. O Tio Vicente limpou os óculos, limpou as lágrimas que lhe corriam dos olhos e repetiu:
— Quase nem vos vejo! O calor, depois do frio, faz-me sempre chorar. E os óculos ficam tão embaciados!
Não via, mas podia falar e ouvir. Rapidamente se sentou ao canto da lareira junto do avô e pôs-se a contar histórias do seu tempo de rapaz. O avô também contava as suas. Falavam ao mesmo tempo, não ouviam o que cada um dizia, mas ambos pareciam felizes!
As crianças tinham voltado para a janela. Já não havia grãos, mas algumas aves teimavam em procurá-los. Uma sombra passou sobre a neve: um pássaro grande e preto baixou para ir pousar na árvore morta. Gerardo voltou-se e disse:
— Avô, está uma águia em cima da árvore morta! Anda ver depressa, avô!
O avô nem se mexeu, mas o Tio Vicente levantou-se e juntou-se às crianças. Com os óculos redondos, e agora já limpos, em cima do nariz, disse:
— Não é uma águia, é um corvo. E a árvore é um ácer, mas não está morta.
Do seu sofá, o avô gritou:
— Já está morta há dois anos. E, mal possa, vou arrancá-la.
— Asseguro-te que não está morta — afirmou o Tio Vicente. — As árvores nunca morrem…
— Não me digas uma coisa dessas! — disse o avô admirado. — Garanto-te que já passaram duas primaveras sem ela dar rebentos. Digo-te que está morta e pronta para ser queimada.
O Tio Vicente olhou-os a todos mas dir-se-ia que não estava a vê-los, que fixava outra coisa distante, para lá do fim da planície...
— Repito que as árvores nunca morrem — disse. — E vou provar! Hei de prová-lo, fazendo cantar o vosso velho ácer.
O avô parecia não acreditar, mas calou-se. Não queria contrariar o amigo! As crianças entreolharam-se. Será que tinham ouvido bem? O Tio Vicente voltara a sentar-se no cadeirão e retomara já o fio das suas histórias. Ia ficar por ali até ao anoitecer e partilhar com eles a refeição do meio-dia.
Mais tarde, chegado o momento de se ir embora, o avô acompanhou-o até ao ácer. Andaram em volta da árvore como se jogassem às escondidas, e pareciam minúsculos à luz do crepúsculo que conferia à paisagem o aspeto de um postal de boas-festas. Mal o avô regressou, as crianças correram para ele e perguntaram:
— Então, o que é que ele disse?
— O Vicente teima que o ácer não está morto. E até me prometeu que ia fazê-lo cantar.
— Mas como, avô? Como é que ele irá fazer?
— Esse é o segredo dele. Mais tarde verão. Não posso dizer-vos nada porque ele nada me explicou. É preciso esperar.
As crianças bem insistiram, mas o avô nada adiantou.
O tempo foi passando. A neve derreteu e as chuvas da primavera limparam as últimas marcas do inverno no flanco da colina. As crianças nunca mais pensaram no Tio Vicente. Porém, uma tarde, ao regressarem da escola, aperceberam-se de que faltava qualquer coisa na paisagem. Era o ácer. No seu lugar havia apenas um cepo enorme, alguns ramitos, pedaços de casca e alguma serradura semelhante a um montinho de neve que tivesse ficado ali esquecido pelo sol.
— Deve ter sido o avô que cortou a árvore — disse Gerardo. — Não devia ter feito isso. O Tio Vicente tinha prometido que ia fazê-la cantar!
— E tu acreditas nisso? — perguntou Isabel.
— Claro, porque foi o que ele prometeu!
— Mas o avô acha que uma árvore morta só pode cantar no lume!
— Não quero que a queimem — disse o rapaz. — Anda, vem depressa!
CONTINUA NA PRÓXIMA SEXTA…
Bernard Clavel
L’arbre qui chante
Paris, Pocket Jeunesse, 2002
PARTE 2
Desataram a correr para casa. Pousaram as pastas ao fundo das escadas e escaparam-se para a casa da lenha, uma pequena cabana de madeira que o avô construíra ao fundo do quintal. A porta estava escancarada e a carroça de mão parada diante da entrada. As crianças correram a toda a velocidade e chegaram coradas e ofegantes. O avô e o amigo Vicente saíam da casinha da lenha. Um troço do ácer encontrava-se ainda em cima da carroça. As crianças olharam para o Tio Vicente com ares de reprovação nos seus olhos claros, mas o velhote sorriu-lhes por debaixo do bigode. Aproximou-se do carro e pôs-se a acariciar o tronco do ácer como se fosse um cão. As mãos dele eram grandes, com dedos compridos e grossos e unhas levantadas na ponta, com uma forma esquisita. Quando acariciava a madeira parecia que estava a lixá-la, de tão ásperas que eram… E quando cumprimentava, dir-se-ia que trazia calçadas luvas de ferro, como as que usavam os cavaleiros na Idade Média!
O Tio Vicente acariciou a madeira e piscou-lhes o olho, dizendo:
— Não se preocupem, ele cantará. Prometi e cumpro sempre as minhas promessas!
— Há de cantar no fogão — resmungou o avô. — Como todas as árvores que morrem. Fazê-lo cantar assim é fácil!
O avô devia estar a brincar! Mas o Tio Vicente deu ares de se zangar.
— Cala-te, por favor! — disse. — Não percebes nada. Eu cá digo-te que vai cantar melhor do que quando estava vivo, com os pés enterrados e a cabeça ao sol. Melhor do que nos dias em que estava carregado de pássaros e era sacudido pelo vento…
As crianças escutavam aquela linguagem curiosa. Como pareciam duvidar, o Tio Vicente agarrou cada uma pelo braço e apertou‑as contra ele com as suas mãos duras. Apertava muito, quase magoava, mas aquela força dava muita segurança! Virou-se depois para a carroça e continuou a apalpar o grande tronco deitado em cima das tábuas. Inclinava-se, batia com os nós dos dedos, escutava, levantava-se meneando a cabeça, exatamente como faz o médico quando estamos doentes na cama, com muita febre. Mas não parecia nada preocupado... Continuou a auscultar a árvore, repetindo de vez em quando:
— Está boa… está muito boa… Está saudável… Há de cantar… Hão de ver que é verdade o que lhes digo. Há de cantar, melhor do que quando estava carregadinha de pássaros.
No dia seguinte, tudo tinha desaparecido. Na cabana já só restavam alguns ramos e um monte de serradura. As crianças puseram-se à procura e lá acabaram por encontrar o ácer no sótão. Mas, desta vez, ficaram muito dececionadas. A árvore estava irreconhecível, toda transformada em grandes tábuas. Tinha mesmo o aspeto de uma árvore morta.
— O Tio Vicente estava a brincar connosco — disse Isabel. — Ele nunca vai fazer cantar esta árvore. Só se fosse feiticeiro!
— Sabes lá!
Isabel olhou para o irmão muito espantada.
— Achas que ele é feiticeiro!? — perguntou.
Gerardo deu-se ares de importante:
— Não me parece impossível. Eu sei cá umas coisas… umas coisas….
Gabava-se de estar mais bem informado do que a irmã, mas o certo é que não sabia mais muito acerca do Tio Vicente.
Mas a primavera estava cheia de vida e as crianças depressa esqueceram a velha árvore. Antes de a seiva começar a subir, o avô tinha ido à floresta e trouxera dois áceres pequenos que plantara à beira do caminho, de cada lado do velho cepo. Agora, aquelas árvores pequenas já tinham folhas e começavam a cantar com o vento que vinha do horizonte distante, empurrando enormes nuvens brancas no céu azul.
A primavera acabou e depois, um dia, no mês de julho, o avô tirou o carro de mão da casa da lenha e foi ao sótão buscar as tábuas maiores que tinha feito com o ácer.
— Vamos lá então à oficina do Tio Vicente — disse.
Isabel trepou para a carroça. O avô puxava pelo timão, enquanto Gerardo empurrava atrás. Andaram mais de uma hora até chegarem à aldeia. Uma hora debaixo de um sol escaldante.
O Tio Vicente vivia mesmo no fim da aldeia, numa casa cujas janelas viam correr a água do ribeiro. Mal ouviu ranger as rodas de ferro na calçada do pátio, o Tio Vicente apareceu na soleira da porta. Levantou os braços num gesto cómico e exclamou:
— Há quanto tempo vos esperava!
Vestia uma camisa clara e um avental de lona azul que lhe chegava aos pés. As mangas arregaçadas deixavam ver os antebraços magros e, por isso, as mãos pareciam ainda mais fortes. Ajudou o avô a transportar as tábuas até ao fundo de um grande barracão sombrio onde as crianças não se atreveram a entrar. Lá de dentro vinha um cheiro esquisito…Por isso, deixaram-se ficar ali, de mãos dadas. Mas o Tio Vicente mandou-as entrar para um outro compartimento mais claro. O sol, refletido pela água do ribeiro, dançava no teto.
— A madeira — dizia ele — é um material nobre.
O reflexo da água do ribeiro brincava por cima das suas cabeças, assemelhando-se a ondas agitadas.
— Deixem que acabe o que estava a fazer! — disse o Tio Vicente.
O avô consentiu e o velhote lançou-se ao trabalho. As suas mãos enormes, que pareciam tão desajeitadas, sabiam manipular os objetos mais minúsculos e mais frágeis! Explicou que estava a polir o mecanismo da fechadura de um cofre de segredo. Fazia tudo em madeira, até as fechaduras e as dobradiças. Para ele, o metal estava ao serviço da madeira.
— A madeira — dizia — é um material nobre. Vivo? Sempre vivo. O metal é bom para fabricar os instrumentos que permitem trabalhar a madeira. Mas a madeira… a madeira…
Quando pronunciava esta palavra, os seus olhos nem pareciam os mesmos. Vicente não era um homem como os outros: era um apaixonado pela madeira. Falava dela como de um ser vivo, como de uma pessoa de família com quem vivesse há anos. Com a madeira podia fazer tudo: caixinhas pequeninas incrustadas de marfim e de embutidos complicados, pequenas mesinhas, cujos pés eram tão finos que as crianças até sustinham a respiração com receio de as fazer cair….
As paredes da sua oficina estavam guarnecidas de instrumentos colocados em prateleiras ou suspensos em ganchos. Havia plainas de todos os tamanhos e de todas as formas, serras, goivas, tesouras, galopas, caixas com formas, compassos e muitos outros instrumentos cujos nomes as crianças conheciam, agora, pela primeira vez. E depois, havia frascos de cola, garrafas de verniz, bolas de cera e madeira por todo o lado. Madeira de todas as qualidades, de todas as formas e de todas as cores!
Quando Isabel, que era muito curiosa, se dirigia para uma pequena porta e já tinha a mão pousada no puxador, o Tio Vicente correu até junto dela:
— Não, não — disse ele — não entres aí… É nesse quarto que está o meu segredo.
Isabel imaginou o quarto do Barba-Azul, mas riu-se. Há muito tempo que não acreditava nessas coisas.
— É o meu segredo — repetiu o velho artesão. — Hás de conhecê-lo quando ouvires a tua árvore cantar.
O verão passou bem depressa, com as férias e as maravilhosas correrias pelo campo e pela floresta. As duas árvores plantadas pelo avô cresciam rapidamente. Os pássaros já lá pousavam. No início das aulas, as suas folhas começaram a ficar amarelas e os fortes ventos de outono levaram-nas para longe. Os dois pequenos áceres pareciam mortos, mas Gerardo e Isabel sabiam que tinham acabado de adormecer para o inverno. Por causa dos trabalhos de casa, sempre difíceis, e das lições a estudar, as duas crianças não pensaram mais nos áceres nem na promessa do Tio Vicente.
Numa quinta-feira de manhã, uns dias antes do Natal, os pequenos aperceberam-se, ao acordar, de que a neve tinha chegado. Havia um grande silêncio em volta da casa, e a luz filtrada pelas frinchas das persianas era mais branca do que a das outras manhãs. Apesar do frio, levantaram-se muito depressa.
— Os pássaros! — disse Isabel. — Temos de pensar nos pássaros!
Ia abrir a janela para deitar comida, quando avistou, a cambalear pela vereda branca, o coelho mecânico.
— É o Tio Vicente!
Era mesmo ele, vestido com a peliça cinzenta e o boné de orelhas, mas trazia debaixo do braço um grande volume, comprido, embrulhado num papel castanho. Aproximava-se lentamente, acertando com dificuldade no traçado do caminho. Passou pelos dois áceres que mal se viam no meio daquela brancura, o boné dançou por uns momentos acima da sebe e depois desapareceu.
— É ele! — repetiam. — É mesmo ele!
Não sabiam o que ele trazia, mas o coração pôs-se‑lhes a bater muito depressa. Mal os pés bateram na soleira de pedra, Gerardo correu a abrir a porta. O ar que entrou ao mesmo tempo que o Tio Vicente vinha salpicado de flocos brancos. O fogo crepitou mais forte e depois fez-se silêncio. Estavam ali os quatro a olhar para o velho artesão e para o seu embrulho muito bem atado. Ele pousou o embrulho em cima da mesa, tirou os óculos, limpou-os devagarinho, assoou-se, voltou a pôr os óculos e aproximou-se do fogo, a esfregar as mãos.
— Está-se melhor aqui do que lá fora! — disse.
As crianças estavam impacientes. Uma de cada lado da mesa, olhavam o embrulho sem ousar tocar-lhe. O Tio Vicente observava-as pelo canto do olho e deitava uns sorrisos cúmplices aos avós. Por fim, virou-se e disse:
— Então, o que esperam para o abrir? Não sou eu que vou desmanchar o embrulho!
Quatro mãozinhas voaram ao mesmo tempo. Eram muitos os nós e estavam muito apertados….
— Avó, empresta-nos a tesoura, por favor…
— Não — disse o Tio Vicente. — É preciso aprender a paciência e a não desperdiçar. Desfaçam os nós e não estraguem nada, quero recuperar o fio e o papel.
O Tio Vicente ria-se. Os avós, tão impacientes como as crianças, esperavam, seguindo com os olhos todos os gestos. Finalmente, o papel foi retirado e surgiu uma caixa comprida de madeira, avermelhada e luzidia. Era mais larga de um lado do que do outro. Aproximou-se devagar e abriu-a. No interior, numa cama de veludo verde, repousava um violino.
— Aqui está, e tudo isto feito com a vossa árvore! — disse ele.
— Meu Deus — repetia a avó, que juntara as mãos em sinal de admiração. — Meu Deus, que lindo que é!
— Ora, uma destas!... Com que então!... — gaguejava o avô. — Sabia que eras habilidoso, mas não tanto!
O velho artesão sorria. Passou várias vezes a mão pelo bigode antes de dizer:
— Percebem agora porque é que não queria deixar-vos entrar na estufa? É que lá há violinos, guitarras, bandolins e muitos outros instrumentos. E vocês teriam adivinhado tudo. É verdade! Faço violinos… E o ácer, sabem, é a madeira que melhor canta!
A sua mão avançou lentamente para acariciar o instrumento, e depois retirou-se, a tremer.
— Então? — disse ele a Gerardo. — Não queres experimentar? Não queres fazer cantar a tua árvore? Anda lá, podes pegar nele, olha que não morde, fica tranquilo!
Geraldo
retirou o violino da caixa e pegou nele como via fazer aos músicos. Pousou o arco em cima das cordas e fez sair uma chiadeira horrorosa. A avó tapou os ouvidos, enquanto o gato, acordado em sobressalto, desaparecia debaixo do guarda-loiça. Todos se riram.
— Está bem! — disse o avô. — Se é a isto que chamas cantar!
— Tem de aprender — disse o Tio Vicente pegando no instrumento, que colocou debaixo do queixo.
E pôs-se a tocar. Tocava e andava devagarinho em direção à janela. Imóveis, as crianças olhavam e escutavam. Era uma música muito suave, que parecia contar uma história semelhante às velhas lendas vindas de um outro mundo.
O Tio Vicente tocava, e era mesmo a alma da velha árvore que, naquele violino, cantava….
Pai, a tua mão orientadora vai ficar comigo para sempre.
Autor Desconhecido
— Desisto! — disse o meu filho mais novo, atirando a enorme chave inglesa para o chão.
— Parece que não escolhi a melhor altura para ver como iam os consertos — disse eu a brincar.
Chris tinha estado a tentar substituir a embraiagem do velho buldózer do pai, que tinha avariado mesmo antes de ele terminar de limpar algumas árvores demasiado grandes do nosso terreno.
— O pai dava sempre a impressão de que os trabalhos mecânicos eram tão simples… — comentou.
— Alguma vez o viste colocar uma embraiagem neste buldózer? — perguntei.
— Vi, quando tinha seis anos.
O meu marido tinha morrido de cancro uns anos antes e Chris tinha assumido as tarefas do pai na nossa quinta de pinheiros de Natal. Dos nossos cinco filhos, era o único que sempre tinha adorado trabalhar com o pai ao ar livre, sobretudo se houvesse equipamento pesado envolvido. Assumir as tarefas do pai parecia ter minimizado, para Chris, a dor daquela perda tão repentina.
— Se quiseres parar por agora, vou fazer o jantar enquanto tomas um duche — sugeri.
Sempre achei que um bom jantar e uma noite de sono descansada ajudam a ver a vida de outra maneira.
Na manhã seguinte, Chris desceu as escadas a correr e passou por mim sem se deter, enquanto eu fritava ovos com presunto.
— Onde vais com tanta pressa? — perguntei. — Nem sequer tens tempo para tomar o pequeno-almoço?
— Volto já, mãe! — disse.
Reparei que se dirigia a toda a pressa para o buldózer avariado. A diferença de atitude em relação ao dia anterior devia-se, por certo, a uma solução que lhe tinha ocorrido.
Decidi deixá-lo em paz durante uma boa hora. Sabia que se sentiria mais frustrado se fosse observá-lo a trabalhar. Tomei o pequeno-almoço e arrumei tudo antes de ir buscar os ovos e dar de comer às galinhas.
— As coisas estão mais tranquilas hoje? — gritei para Chris, quando o vi sair de debaixo do buldózer.
— Muito melhor — gritou de volta. — Conto-te já tudo.
Fiquei aliviada por o ver tão animado.
Cerca de uma hora mais tarde, ouvi o meu filho entrar pela porta traseira.
Apressei-me a entrar na cozinha onde Chris já se servia de uma chávena de café.
— Descansa um pouco, mãe, e deixa-me servir-te um pouco de café — sugeriu, com um sorriso.
Sentámo-nos à velha mesa de carvalho da nossa cozinha.
— Porque sorris? — perguntei-lhe. — E porquê a pressa desta manhã?
— Tinha de ver se o pai tinha razão.
— De que estás a falar?
— Vi o pai ontem à noite.
— Viste quem?
— Acordei durante a noite e vi o pai deitado no sofá do meu quarto. Estava vestido com a velha camisa de xadrez azul e branca e tinha o boné de beisebol vermelho inclinado sobre a testa. Começou a falar comigo como se fosse a coisa mais normal do mundo. Disse-me “Chris, há um parafuso difícil de encontrar debaixo da correia de transmissão e tens de o tirar.” Explicou-me todos os passos que tinha de dar de forma clara. Se não fosse ele, nunca saberia como reparar o buldózer.
— Contaste-lhe que estavas a ter dificuldades com a avaria? — perguntei, verdadeiramente fascinada pelo que estava a ouvir.
— Não, ele parecia já saber. Aliás, eu nem sequer falei. Foi ele que disse tudo.
— Perguntou por mim?
— Não, só me disse como reparar a viatura. Depois adormeci e, quando acordei, já não estava lá.
— Sentes que o pai estava mesmo à tua beira?
O meu filho pensou um pouco antes de responder:
— Nunca acreditei em ver espíritos e fantasmas, mas tenho a certeza de que estava acordado. E também sei que não encontraria a solução para o problema do buldózer se o Pai não ma tivesse dado. O parafuso estava tão bem escondido que nunca o teria descoberto sem a pista dele. Contudo, não sei explicar ao certo o que aconteceu.
Nenhum de nós poderia alguma vez explicar o que acontecera com toda a certeza. Todavia, sei no meu íntimo que, se o Chris precisava de ajuda, não havia nada que o pai não fizesse para lha dar.
Connie K. Pullen

UM PAR DE SANDÁLIAS
Certo dia, quando Gandhi estava prestes a embarcar num comboio, uma das suas sandálias caiu à linha.
Com o veículo em movimento, foi-lhe impossível recuperá-la.
Então, para espanto dos companheiros de viagem, Gandhi tirou a outra sandália e atirou-a de forma a aterrar junto da que caíra.
Quando lhe perguntaram por que motivo o fizera, Gandhi sorriu e respondeu:
— Para que o pobre homem que encontre a sandália caída na linha possa ter um par para calçar.
Autor Desconhecido
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SUCCESSO PROFISSIONAL
Certo dia, quando os funcionários de uma determinada empresa chegaram ao trabalho, depararam-se com o seguinte aviso no átrio de entrada do edifício:
“A pessoa que estava a impedir o seu progresso profissional faleceu ontem. Estão todos convidados para a cerimónia fúnebre que terá lugar no recinto desportivo da empresa.”
No início, todos estavam tristes pela morte dessa pessoa, que, em bom rigor, ninguém sabia quem era.
No entanto, aos poucos, foram ficando cada vez mais curiosos a respeito da identidade da pessoa que tinha impedido os colegas de progredirem na escada do sucesso empresarial, e, assim, uma fila crescente de gente foi-se formando no local indicado.
Um a um, os funcionários iam-se aproximando do caixão de forma nervosa, olhavam para o morto e imediatamente davam um passo atrás em silêncio.
Dentro do caixão estava um espelho. Espelho esse que refletia perfeitamente a imagem da pessoa que se debruçava sobre o caixão.
Cada um é responsável pelo prejuízo que causa ao seu próprio crescimento e cada um deve ser o artífice da sua própria vida…