1 dois 3 , era outra vez

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Nov 14, 2014, 2:46:05 PM11/14/14
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Histórias oferecidas à sexta-feira!

 

 

O lobo que contava estrelas

(PRIMEIRA PARTE)

Será que a vida é só o que os nossos olhos veem? Vale a pena acreditar no aparentemente impossível? São estas as perguntas que se colocam Vento e Bruma, dois lobos e grandes amigos, que partilham o mesmo tesouro: contar estrelas. Os outros lobos da alcateia julgam-nos loucos…

 

1.    A caça

 

Vento não hesitou nem um instante. Enquanto a alcateia se lançava numa correria pelo desfiladeiro abaixo atrás da cabra montês, ele afastou-se para a esquerda. Fixou com toda a força as patas jovens e subiu ao alto do penhasco como se abandonasse a caça. No ímpeto da corrida, afastou os arbustos que dificultavam a descida e começou a descer a ladeira exatamente pelo lado contrário ao da cabra montês na fuga à alcateia.

Vento não fugia da caça à cabra. Conhecia muito bem aquele desfiladeiro e sabia que, no final, ele se fechava num estreito virado a poente. Sabia que a cabra montês chegaria ali, antes de ser apanhada pelos lobos, descendo pelas paredes quase verticais, impossíveis para qualquer outro animal que não ela... ou as águias. E, por isso, Vento tentava chegar à saída do estreito antes da presa: só o seu conhecimento deste atalho tirava à cabra a vantagem que lhe davam as íngremes encostas.

Enquanto corria para chegar ao cimo da garganta, antes que a cabra o fizesse vinda de baixo, a tempestade que estalara há pouco e que anunciava o fim do verão ensopara-lhe o pelo cinzento. E ele corria, ao mesmo tempo que recordava o amigo Bruma e todas as vezes que, juntos, desceram e subiram aqueles mesmos desfiladeiros. Quando ainda eram muito jovens.

Sentia os arbustos roçarem-lhe a pele e a chuva a entrar-lhe na boca, embriagando-lhe os sentidos com os muitos cheiros e cores da serra. De repente estacou perante o vertiginoso desfiladeiro à sua frente, fazendo soltar e rolar pequenas pedras. Um grunhido saiu-lhe do peito, avisando a cabra da sua presença. Esta – mais abaixo – havia iniciado a subida. Mas Vento soube logo que a caça terminara, quando viu, mais ao longe, chegar a alcateia e sentiu a hesitação nas patas da cabra, ao ver-se cercada pela frente e por trás.

 

2. Vento

A tempestade terminara há pouco, e o manto da noite cobria o bosque. Com os estômagos cheios, a alcateia descansava. Afastado, Vento contemplava o céu e recordava. Recordava que o Chefe o olhara, como que a felicitá-lo pela sua inteligência, e que Bruma, orgulhoso da façanha, lhe pusera uma pata no cachaço e o mordiscara no focinho. Mas também recordava que nenhum dos outros nove lobos adultos lhe dissera nada.

Já se tinha habituado a esta indiferença. Sabia que, à exceção de Bruma, toda a alcateia o considerava um estranho. Inclusive, pensava que ele estava mais ou menos louco. Por isso, o deixavam sempre de lado. E, quando falavam com ele, faziam-no de um modo forçado, tal como uma pessoa que tem de falar e de manter uma conversa, mas não sabe o que dizer.

Fora assim até àquele momento. A alcateia nem sequer lhe tinha dado um nome. Todos os adultos o tinham: Chefe, o guia da alcateia; Bruma, da mesma idade, calado e pensativo; Rio, sua mãe, e com o ouvido mais cristalino da alcateia, quando cantava à lua. Todos: até o gordíssimo e simpático Bola tinha nome. Mas «Vento» não era um nome posto pela alcateia. As poucas vezes que se lhe dirigiam, faziam-no com um grunhido curto ou apontando levemente com o focinho.

Somente Bruma o chamava de Vento, e unicamente quando estavam sós. Nenhum dos outros via nele nada de especial para que merecesse um nome. Ou, melhor: viam nele algo de tão especial, de tão particular, que nem sequer queriam recordá-lo com um nome. Todos sabiam que Vento gostava de contar estrelas pelas noites dentro.

 

3. O lobo que contava estrelas

Os olhos resplandeciam. A chuva tinha deixado o ar limpo, e o céu negro explodia de estrelas. Vento contava-as uma e outra vez. Ele bem sabia que nunca poderia contá-las todas. Mas todos os dias descobria uma nova.

Primeiro, como em tantas outras noites, reviu as que já conhecia: aquelas dez que fazem curva, como o arco com que se caça na primavera; aquelas sete com a mais brilhante ao meio; aquele grupo que contou, no dia em que se picou no ouriço... E logo os olhos giravam outra vez pelo céu, à procura de novas formas, de novos lugares para encher o coração daquele mar de luzes com que se deslumbrava todas as noites.

Enquanto as olhava e voltava a olhar, a sua mente recuava até à primeira vez em que as observara. Era apenas um pequeno lobo a brincar com uma borboleta noturna. Atirava as garras sem querer acertar-lhe e tentava saltar por cima dela. Numa das voltas caiu de barriga para o ar e, de repente, os seus olhos viram um céu imenso onde cintilavam milhões de estrelas.

Ficou sem respiração e, por momentos, sentiu que a terra fugira por baixo de si e que ficara a pairar no vazio. Fechou os olhos e, muito lentamente, pôs-se de pé, tentando assim dominar a vertigem. Quando conseguiu, levantou outra vez os olhos para as estrelas e soube que o universo se tinha apoderado dele para sempre.

E esta era uma daquelas noites… Uma vez mais, Vento contava as estrelas. Olhava-as sem saber porque o fazia, nem porque era o único da alcateia que gostava de o fazer. Contava e recontava, ficando alternadamente ansioso e em paz, ao intuir que havia algo que se lhe escapava.

Tinha explicado isso muitas vezes a Bruma, dizia-lhe que as estrelas tinham de estar ali por alguma razão. Que uma árvore é boa para afiar as garras, um rochedo para observar um prado e para as crias brincarem, e até a temida neve era boa para encher as nascentes do alto. Por isso, repetia a Bruma que as estrelas tinham de possuir uma razão de ser.

Dizia-lhe tudo isto, porque ele era o único da alcateia que o não considerava louco por contar estrelas. Bruma era seu amigo, apesar de já lhe ter dito, várias vezes, que a ele as estrelas não lhe diziam nada. E que, quando tentara contá-las, aquilo lhe parecera demasiado complicado. Por isso, quando a alcateia lhe chamava tonto por ir com Vento, gritava bem alto que não mexeria um só pelo do rabo se todas as estrelas desaparecessem ao mesmo tempo.

Mas isso não era exatamente assim. Gostava de Vento e não lhe agradava o vazio que provocava nele a atitude da alcateia. E acreditava firmemente, com a força de que só a amizade é capaz, no que lhe dissera uma vez: «Se, para além do céu, também vires as estrelas no teu coração, um dia, tu e as estrelas descobrireis o porquê».

 

4. A noite do desastre

 

O desastre ocorreu quase três anos mais tarde, no final da primavera, quando alguns tinham apanhado as primeiras trutas, e já se via, de novo, o urso nas serras altas.

Foi no ano das “Grandes Nevadas”, como lhe chamou a alcateia, devido à dureza do inverno. E, para sermos mais exatos, aconteceu dias depois de Bola, agora tão faminto como o resto da alcateia, perder um olho, ante o ataque das unhas afiadas de um javali.

Nessa altura, se alguém tivesse conseguido aproximar-se da alcateia, tê-la-ia visto a dormir, e divisado, sobre as rochas, ao longe, a silhueta recortada de dois lobos, a contarem estrelas e a cantarem a sua amizade.

Na noite do desastre, Vento não disse nada ao amigo quando chegou junto dele. Bruma tinha tido um mau dia. Desde algum tempo que rondava uma loba de olhar profundo e corrida veloz. Naquele dia, depois de acordar de um sono matinal, tomou a decisão de se lhe declarar. Mas, de imediato, teve de esquecer a sua investida amorosa em relação a Parda, face ao aparecimento de Abismo, um rival com quase o dobro do seu peso. Vento respeitou o silêncio de Bruma. E, como em tantas outras noites, para além de contar as estrelas, concentrou-se a pensar na alcateia.

Mas não conseguia entendê-la. Caçava como eles, respeitava as leis e colaborava com o primeiro na organização do grupo. Acatava os mil gestos que compunham a subtil linguagem da alcateia e respeitava os privilégios dos mais velhos de lutarem em defesa dos mais pequenos e frágeis. Mas, quando todos dormiam e ele olhava as estrelas, pensava que...

— Falta uma!

O grito de Bruma acabou com todos os pensamentos de Vento, para além de pregar-lhe um susto que lhe eriçou o pelo.

— Falta uma! - voltou a gritar Bruma, com as orelhas tesas e o olhar fixo no horizonte.

— Falta uma quê?

— Falta uma estrela!

— Como pode faltar uma estrela?! - E agora também Vento olhava fixamente a noite estrelada.

— Falta uma! Olha ali: aquele grupo que parece a cabeça de um castor, estás a ver?

Vento não via nada, mas não teve tempo de falar.

— Debaixo daquela mais pequena, que é o nariz, a que está entre os olhos mais brilhantes, há outra mais pequena, como se fosse um dente, em linha com as três que fazem a orelha esquerda... e falta o outro dente!

Vento não sabia se estava mais assombrado pela algazarra que ouvia, ou por se aperceber que, ao fim de cinco anos juntos, o seu amigo também tinha estado a contemplar as estrelas!

 

5. Dente de Castor

Um empurrão nos flancos (e um empurrão de Bruma era coisa séria) atirou Vento ao chão, acordando-o de imediato para a realidade.

— Mas, que fazes aí como um basbaque? Estou a dizer-te que falta uma estrela e tu ficas boquiaberto! Temos de fazer alguma coisa!

Com bastante esforço, Vento conseguiu que o seu excitado companheiro se acalmasse um pouco. E devagar, foi entendendo tudo. Custou-lhe, porque nunca tinha reparado nas estrelas que Bruma agora lhe mostrava. Mas, com as suas explicações, lá conseguiu ver Cabeça de Castor.

Seis pequenas estrelas formavam dois triângulos que faziam as vezes de orelhas. Debaixo delas, duas muito brilhantes eram os olhos. Mais abaixo, no centro, um aglomerado de estrelas brancas formavam o nariz e, debaixo de tudo isto, supõe-se, mais duas estrelas com outras três a sobreporem-se eram os incisivos e o lábio de Cabeça de Castor. E há que dizer «supõe-se », porque efetivamente não se via estrela alguma a fazer de dente…

Era a primeira vez que Vento via Cabeça de Castor. Tentou confirmar se o dente que faltava correspondia a algum dos seus grupos, mas não. Algumas estrelas que para Bruma eram Cabeça de Castor, para ele eram Cascata, Olhar de Bufo ou Grupo Grande. Mas o dente que faltava a Cabeça de Castor, esse nunca o havia visto. Por isso, perguntou a Bruma:

— Tens a certeza de que falta uma estrela? Tu nunca paraste a olhar as estrelas e podes estar enganado!

Bruma acenou com a cabeça sem deixar de olhar as estrelas.

— Tenho a certeza de que falta um dente a Cabeça de Castor.

Calou-se e disse muito baixinho:

— Há anos que observo essas estrelas. São as únicas que contei em todo o céu. Primeiro, aparece no horizonte a orelha esquerda do castor. Sei de memória como vai girando no céu, até que desaparece a ponta da sua outra orelha. E, com os olhos fechados, podia assinalar onde se encontra no inverno e no verão. Noite sim, noite não, não fiz outra coisa senão olhar e voltar a olhar a Cabeça de Castor.

— Mas, porque é que nunca me disseste nada? — perguntou Vento — Estamos juntos há anos, aguentamos juntos o desprezo da alcateia. Juntos, amanhecemos cobertos de geada depois de uma longa noite a olhar o céu. Os nossos olhares cruzaram-se, tristes, todas as vezes que a tarde se enevoava e sabíamos que, nessa noite, não haveria estrelas... E, em todo este tempo, porque nunca me disseste que tu...?

— É porque essa estrela fala comigo.

Vento pensou que não estava a ouvir bem. Bruma virou-se para ele, olhou-o fixamente e repetiu:

— Dente de Castor fala comigo.

A pergunta que Vento tinha para fazer parecia absurda, mas olhou bem nos olhos do amigo e, num relance, recordou todo o seu passado e tudo o que os havia unido. Recordou tudo o que haviam partilhado, rido, cantado e sofrido. Juntos. E a pergunta surgiu então, fácil, com a lógica que só a amizade dá:

— E o que é que Dente de Castor te dizia?

— Que partisse com ela. Todas as noites me repetia o mesmo «Vem». Todas as noites a olhava e a ouvia chamar-me. E todas as noites pensava na forma de ir até ela, e perguntava-lhe o que tinha de fazer.

Bruma calou-se durante uns momentos.

— Mas ela só me dizia «Vem, vem, vem...»

A princípio, só a via e a ouvia a ela, mas, de tanto a olhar, aprendi a contar as estrelas à sua volta. E assim contei todas as estrelas de Cabeça do Castor. Mas a única que me falava era ela. Não era a mais brilhante, mas falava comigo.

Vento não sabia quem se havia aproximado de quem, mas era visível que a sua cabeça e a de Bruma estavam juntas, muito juntas. A respiração de ambos formava uma pequena nuvem branca na noite fria. Entre o bafo, refulgiam olhares fixos um no outro. E Bruma, que não era dado a grandes discursos, encontrou nos olhos de Vento a força para terminar de falar:

— Para ti, a beleza do céu noturno consiste em vê-lo no seu todo, cada uma das estrelas junto das demais, e como tantas coisas pequenas formam uma imensa maravilha. Para mim, a beleza reside numa pequena estrela que me falava: Dente de Castor. Tu amas o céu no seu todo, porque contas cada uma das suas estrelas. A mim, apenas uma me convida a partir com ela, e eu amo o céu em que ela brilha.

Em uníssono, ambos moveram as cabeças na direção do céu. O firmamento noturno, semeado de infinitos pontos de luz, resplandecia no coração de cada um dos incontáveis astros. E, naquele momento, naquele alto vale, por entre os ziguezagues do bosque, a noite (toda ela estrelas e obscuridade) reduziu-se àqueles formidáveis corpos de patas tensas e focinhos pontiagudos, unidos pelo coração e pelas estrelas, enquanto toda a alcateia dormia.

 

Continua na próxima sexta-feira!

Pablo Genovés

El lobo que contaba estrellas

Madrid: Ediciones Palabra, 2003

(Tradução e adaptação)

 

 

 

No intuito de darmos continuidade ao anterior projecto, “Um dois três era uma vez”, embora em moldes que se pretendem mais abrangentes, reiniciamos o envio semanal de pequenas histórias para crianças e adolescentes, por vezes acompanhados de textos dirigidos a um público adulto, convidando à reflexão, e também ao sonho, que tão necessários se tornam numa sociedade em que o materialismo tem crescido desmedidamente, a ponto de abafar os valores mais genuínos do ser humano: o respeito pelos outros, a ternura, a delicadeza, a compaixão pelos que sofrem, a generosidade.

Esperamos que o projecto, que agora passa a chamar-se “Um dois três, era outra vez”, continue a encontrar leitores assíduos entre aqueles a quem se dirige, e possa proporcionar agradáveis momentos de partilha entre pais e filhos.

 

 

 

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E…diga-nos o que pensa das histórias que lhe forem chegando!

 

Responda-nos para: 1...@isep.ipp.pt

 

Ideia: Teresa Tudela e Betina Campos Neves

 

 

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