1 dois 3, era outra vez

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Nov 21, 2014, 2:26:27 PM11/21/14
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Histórias oferecidas à sexta-feira!

 

 

O lobo que contava estrelas

(SEGUNDA PARTE)

 

6. A procura

E então decidiram, com a rapidez de que só os amigos são capazes. No dia seguinte, quando a alcateia acordou, o chefe informou que Vento e Bruma (na realidade disse «Bruma e o outro») tinham partido.

Ninguém se preocupou muito: os dois eram diferentes. E, além disso, suficientemente adultos para, se assim o queriam, caçar por sua conta. E de que modo haviam decidido fazê-lo!

O que ninguém sabia era que, desta vez, a caça não consistiria num carneiro, nem num veado velho e enfermo, nem em ovos de ganso. Agora, não caçariam para saciar a fome e recuperar forças para caçar de novo, como sempre tinham feito. Desta vez, a caça não ia ser de morte, porque havia uma busca essencial para ambos: a procura de uma estrela.

Bruma pensava que a ausência de Dente de Castor só se compreendia se a própria estrela tivesse decidido descer às montanhas. Pensava que, se Dente de Castor o tinha chamado vezes sem conta, era porque os dois tinham de encontrar-se. E a estrela já havia começado a fazer a sua parte.

Vento não contrariava Bruma e estava ansioso por assistir ao encontro da estrela com o amigo. Além disso, sentia que não podia continuar a contar estrelas sem saber o paradeiro de Dente de Castor. Embora nunca tivesse fixado a estrela, o amigo sim; e uma coisa é saber que não se observaram todas as estrelas da noite, outra é saber que faltava precisamente a de Bruma.

Destas e de outras coisas falavam os dois amigos enquanto transpunham vale atrás de vale, à procura da estrela. Durante a noite olhavam, juntos, o céu. Vento contava as estrelas em voz alta e Bruma escutava, para ouvir se alguma delas lhe falava. No fim, acabavam sempre em silêncio, olhando o espaço negro que devia ocupar o pequeno Dente de Castor. E não sabiam se o que sentiam era por causa da estrela, ou por intuírem, cada um deles, os sentimentos do outro. Mas, fosse como fosse, tais sentimentos davam-lhes novas forças para continuar o caminho…

Atravessaram muitos territórios, cruzaram planícies, planaltos… As montanhas onde caçava a alcateia há muito que tinham ficado para trás. Nunca faziam planos. Quando chegava a manhã começavam a correr, sem destino. E, umas vezes um, outras vezes o outro, guiavam-se mutuamente, confiando no instinto do que corria à frente. Paravam apenas para comer ou para se banhar num regato. Esqueceram muitas das coisas que lhes pareciam imprescindíveis e lhes ocupavam muito tempo quando viviam com a alcateia.

Várias vezes acreditaram ter encontrado Dente de Castor. Uma vez, viram um fulgor vivíssimo no alto de um penhasco afastado, mas, ao aproximar-se, descobriram que se tratava do reflexo do nevoeiro na rocha de minério de ferro. Outra vez, no outono, ao entardecer, foram enganados pelo tom dourado de uns choupos distantes…. E, fosse devido à ansiedade, fosse devido ao incrível brilho das escamas dos peixes nos riachos, por mais de uma vez tiveram muitas deceções.

Nem tudo correu bem. Sentiam com frequência a falta da tranquilidade e da segurança da alcateia. E o tempo que passava dizia-lhes que talvez estivessem a cometer uma loucura… Havia alturas em que Bruma queria abandonar a busca e dizia que tudo tinha sido um sonho. Que Dente de Castor não tinha vindo buscá-lo e tinha ido para outra parte do céu. Então, Vento punha-se a observar as estrelas e dizia ao seu amigo que, se Dente de Castor estivesse noutra parte, já ele teria descoberto….

Outras vezes, era Vento que começava a pensar que não faria diferença uma estrela a mais ou a menos, e que iria aparecer outra estrela a falar a Bruma. E era então este que convidava Vento a fixar-se em Cabeça de Castor, e lhe fazia sentir que nunca poderia observar as estrelas em paz, sem saber onde estava o dente de Cabeça de Castor.

O pior era quando a dúvida se instalava nos dois ao mesmo tempo.

Até que, numa noite como qualquer outra, encontraram Dente de Castor.

 

7. Uma luz na noite

Lá longe, num vale que se encontrava depois de um pequeno círculo de montanhas, viram um enorme resplendor que iluminava a escuridão da noite. Era como se uma luz muito forte, semelhante ao pôr-do-sol, se estivesse a pôr por detrás daqueles picos, pintando os seus contornos de tons avermelhados.

Desta vez, não havia dúvidas! Paralisados por segundos, depressa se refizeram e sentiram uma sensação totalmente nova. Uma sensação que nunca haviam experimentado nem na caça, nem nos jogos, nem ante as mil paisagens cambiantes das estações…. Era algo que lhes percorria todo o corpo e os penetrava até à medula.

Foi como tudo se apagasse à frente deles. Desapareceram a noite e os ruídos, desapareceu o bosque embalado pela brisa e pelo harmonioso som da água que corre nos últimos regatos de verão. Esqueceram tudo e só restou aquele esplendor que indicava o esconderijo da única estrela que agora interessava: Dente de Castor.

E lançaram-se na corrida. Eram dois, mas mais pareciam um só. As orelhas para trás, o focinho avançado como uma proa, o corpo quase colado ao chão pela velocidade, e quatro patas que — em cada salto— levantavam pedras e folhas.

Sem saber se tinham demorado muito ou pouco, contornando árvores e deixando mechas de pelo em cada espinho, Vento e Bruma iniciaram a subida dos picos, atrás daqueles onde se encontrava Dente de Castor. E, conforme avançavam pela encosta, tudo ia mudando de tonalidade. Céu e bosque perdiam a cor inicial para se tornarem cada vez mais vermelhos, cor do sangue e das faces afogueadas, cor da flor da urze e dos entardeceres outonais.

Estavam quase no alto da serra, e já tudo se tingia de vermelho: vermelho o caminho e o ar, vermelha a corrida e a amizade, vermelho o arfar do outro, vermelho o passado, o presente e o futuro. E subitamente travaram, perante o assombro de verem, diante deles, Dente de Castor.

Era enorme e formava um grande círculo. Era de cor vermelha, mas também amarela, laranja e azul. E estava viva. Movia-se sem parar, como se lhe palpitassem infinitos corações. Elevava inumeráveis braços ao alto, que dançavam de mil formas e estalavam numa cascata de pequeníssimas estrelas.

Falaram com a estrela. Ora se ouvia rugir, ora sussurrar, para de seguida se ouvir gemer e sibilar. Era como uma canção cantada por muitas vozes que, por sua vez, formavam uma única sinfonia. Tateava e envolvia-os. Não tinha mãos, mas ambos sentiam na pele e dentro de si o afago denso que os acariciava.

— É Dente de Castor! — disse Bruma.

— Sim — respondeu Vento.

E ambos se calaram, porque nada mais havia a dizer. Aquilo era muito mais do que o que tinham sonhado. Tudo o que haviam imaginado sobre Dente de Castor nada era comparado com o que tinham diante dos olhos. Nenhum dos dois jamais conhecera o fogo.

 

8. Outros caçadores

De imediato, Bruma lançou-se ladeira abaixo. Apenas se ouviu um grito:

— Estão a matar Dente de Castor!

Vento nunca havia sentido tal angústia na voz do amigo. E, quando correu atrás dele, sem saber o que se passava, deu-se conta pela primeira vez na vida de que era incapaz de alcançar Bruma, que seguia em direção às chamas. O que aconteceu depois foi demasiado rápido, mas jamais se apagaria da sua memória.

Enquanto corria, Vento viu Bruma dirigir-se a uma das bordas de Dente de Castor, numa zona onde a estrela tinha perdido todo o brilho. Via-a com uma ferida negra, muito negra, onde já não havia braços a dançar até ao céu, mas só um débil suspiro esbranquiçado, como o que saía do sol da primavera ao evaporar-se a geada matinal. A ferida, mistura de cinza e fumo, continuava a crescer, face aos ataques dos caçadores.

Vento não sabia quem eram aqueles que se sustinham nos membros traseiros enquanto agarravam, com os dianteiros, ramos com os quais golpeavam, uma e outra vez, Dente de Castor. Nunca tinha ouvido as vozes com que falavam e davam ordens uns aos outros, sem terem de se olhar, como faziam na sua alcateia. E jamais experimentara uma tal sensação!

Não era como o calafrio que o percorrera quando rodeou um urso velho, para um golpe definitivo, e este se ergueu e lançou as garras. Tão pouco era como a raiva com que partiu as patas do veado que, momentos antes, desfizera o crânio de Trovão, seu pai. Nem era como o medo que sentira, quando duas avalanches desabaram sobre ele, medo esse que tinha durado muito, mesmo depois de estar a salvo graças à sua frenética corrida.

A sensação era agora muito diferente. Aqueles caçadores emanavam algo que ele nunca tinha visto e que lhe provocava um misto de assombro e de medo, de fascínio e repulsa, de atração e receio. Não sabia definir o que era e o que estava a sentir, mas Vento estava consciente de que — fosse o que fosse — lhe revelava a aparição sobre a terra de uma espécie diferente de todas as demais. E Vento pensou que já nada iria ser como antes.

 

9. A última fúria

Não havia tempo. Deteve-se a certa distância da estrela. Com um instinto herdado ao longo dos séculos, num ápice preparou-se para a ação: cabeça baixa, peito arqueado até ao chão, lábio superior levantado, mostrando os caninos, com as patas traseiras fletidas de forma a impulsionarem o salto.

Os caçadores continuavam a atacar Dente de Castor, que perdia terreno diante deles. Vento começou a avançar muito lentamente, deixando que a fúria lhe fosse chegando aos poucos. Essa fúria era-lhe imprescindível para atacar. Sem ela, não seria possível a precisão no salto, nem a concentração na força da dentada, nem poderia manter os olhos abertos quando a presa se voltasse contra ele. Vento não tinha como o saber, mas — bem no fundo — sentia que era dessa mesma fúria que necessitaria um dia para amar a sua companheira, para acariciar os seus lobitos e para poder encabeçar a marcha de uma alcateia. Tão pouco podia saber que o seu fim chegaria — caído debaixo de uma faia, ao ver chegar o último inverno — quando essa fúria deixasse de jorrar de dentro de si, como a força da água vinda do alto das montanhas.

Mas era sempre a mesma fúria. A que levava a matar e a que levava a amar. E que o ia preenchendo agora, ao ver o combate dos caçadores contra Dente de Castor. A que lhe surgia do fundo do coração e lhe gritava que não se tratava só da morte de uma estrela, mas também da vida de um amigo, do seu amigo, e de tudo o que Bruma representava para ele.

Bruma! Vento apercebeu-se de que, por um momento, se tinha esquecido dele. Girou levemente a cabeça, o suficiente para procurar entre as sombras que se adensavam, porque Dente de Castor perdia a sua força. E então uma imagem encheu o seu campo visual. Era a visão do salto que dera Bruma sobre um daqueles caçadores, tentando atingi-lo com as garras na espinha dorsal. O som seco do osso a partir, a flacidez do corpo do caçador derrubado no solo e ainda preso nos dentes caninos, que nem sequer teve tempo de ver, tudo isto foi como que um sinal mágico para Vento.

Mas deteve-se, quando ia atacar do lado contrário ao do amigo: queria assim atrair a si os olhares que agora se concentravam em Bruma e no caçador morto. E nunca soube que a arma lançada, nesse momento, por outro caçador contra Bruma, e que o atravessara de lés a lés, se chamava lança, e que a sua ponta de ferro tinha sido fabricada pelo Homem.

 

10. Conta-me estrelas

A noite chegava ao fim. Dente de Castor era já só uma grande ferida negra e fumegante no meio do bosque. Já não cantava nem dançava. Ao tocá-la, desfazia-se num pó fino, negro e mole, que uma ligeira brisa ia levando para lugar desconhecido, onde dorme o vento. Continuava a ser grande, mas já não parecia formidável nem poderoso. O fogo tinha-se extinto, pela habilidade dos homens. Homens que tinham aprendido a servir-se do fogo, mas que não permitiam a liberdade da estrela.

A noite estava a chegar ao fim e Vento continuava sentado junto de um Bruma agonizante. Lambeu, uma vez mais, a profunda ferida das costas do lobo ferido de morte, embora soubesse que já nada se podia fazer. Bruma levantou um pouco a cabeça e disse:

— Dente de Castor morreu?

Vento olhou o amigo nos olhos que ainda brilhavam com o último sopro de vida. Olhou de seguida a grande mancha negra onde, horas antes, crepitava o vigor de uma estrela que tinha falado a um lobo. E, fechando os olhos, respondeu:

— Sim.

Bruma deixou cair a cabeça. O indefinido que anuncia o amanhecer nas montanhas ia apagando o piscar das estrelas mais distantes. Não faltava muito para o sol transformar o negro prata noturno no azul que anuncia um novo dia e um novo caminho. O bosque vivia o único momento em que havia silêncio: esses poucos minutos em que os habitantes da noite se retiram e os pássaros ainda não começam a chamar, com os seus chilreios, o novo dia. Até a brisa deixara de agitar os ramos das árvores.

Bruma, quase sem ar, disse:

— Vento.

— Sim?

— Conta-me estrelas pela última vez.

Vento sentiu que se lhe fechava a garganta e que a angústia lhe apertava o peito. Teria gostado de ficar a gemer, apoiando a cabeça sobre o colo do amigo e deixando-se desfazer em lágrimas de dor, abandonando-se à chaga que sentia arder no coração… Permitir que o tempo matasse os sentimentos até que Bruma morresse.

Mas não podia. Tinha de contar estrelas. Contar estrelas para ele. Contar estrelas para o amigo, para o companheiro, para aquele que — desde agora — só seria um vazio ao lado dos próprios passos.

Vento fechou os olhos.

E, sem se atrever a abri-los, virou a cabeça para o céu. Sabia o que ia passar-se. Sabia que, logo que olhasse, voltaria a entrar na vertigem da primeira vez...no tempo em que era apenas um pequeno lobo caído de patas para cima... quando ficou sem respiração e por um momento sentiu que a terra desaparecera debaixo de si... e o universo lhe pertencia para sempre...

Sabia que, agora, tal ia voltar a suceder.

Porque o céu que iria olhar naquela noite seria totalmente novo. Se abrisse os olhos, iria ver as estrelas que tinha contado desde pequeno: aquelas dez que faziam arco como o regato do cume onde caçavam na primavera; aquelas sete com a mais brilhante no meio; aquele grupo que contou no dia em que se picara no ouriço… Mas, se abrisse os olhos, também sabia que veria um buraco. Ainda que não quisesse olhar, ainda que se propusesse apagar essa parte do céu, o pequeno Dente de Castor não seria mais do que um eterno nada.

Tinha medo de olhar. Mas precisava de fazê-lo. Bruma queria que ele lhe contasse estrelas. E ele não podia falhar agora. E não falhou.

Abriu os olhos.

Aguentou um segundo a respiração, sentindo voar até ele todas as estrelas do cosmos.

E quando, pela primeira vez, estava quase a render-se perante o pânico do imensamente pleno e do imensamente vazio, soltou um grito de assombro perante o que viu:

— Bruma! Aliiii está Dente de Castor!

 

11. A eternidade de Dente de Castor

 

Bruma já não o ouviu. Quando Vento, imediatamente após ter visto uma nova estrela a brilhar no céu, se acercou do amigo, só encontrou o olhar morto de Bruma. Os seus olhos já não tinham brilho algum. Aquele olhar, que Vento conhecia como o de um verdadeiro amigo, tinha desaparecido para sempre. Vento afastou-se uns passos do corpo do amigo e fixou o olhar em Dente de Castor. E ali ficou, contemplando a Cabeça, contemplando o céu, contemplando o esforço da noite para tentar brilhar mais do que o dia.

Vento fixou o olhar na estrela. E sentiu que um uivo lhe nascia no mais fundo da sua dor. Ali, na clareira do bosque, debaixo do recuperado brilho de Dente de Castor, junto do corpo inerte do amigo, esticou o pescoço em direção ao céu onde já apareciam os primeiros raios de sol, e uivou.

 

O uivo ressoou longo e sustido, por cima das montanhas, estremecendo a terra com um tom novo, nunca ouvido até então, porque nenhum lobo jamais o havia lançado. Um uivo que fez Vento compreender que Bruma, na realidade, só havia cumprido o desejo da estrela. Tinha partido com ela, oferecendo-lhe o brilho dos seus olhos para toda a eternidade. Um som que era uma mensagem para o amigo, que iria esperá-lo lá em cima, naquela estrela que os tinha unido na magia do impossível.

Vento soube que continuaria a contar estrelas.

Porque agora existia uma estrela que era a eleita do seu amigo Bruma.

 

Pablo Genovés

El lobo que contaba estrellas

Madrid: Ediciones Palabra, 2003

(Tradução e adaptação)

 

 

 

 

No intuito de darmos continuidade ao anterior projecto, “Um dois três era uma vez”, embora em moldes que se pretendem mais abrangentes, reiniciamos o envio semanal de pequenas histórias para crianças e adolescentes, por vezes acompanhados de textos dirigidos a um público adulto, convidando à reflexão, e também ao sonho, que tão necessários se tornam numa sociedade em que o materialismo tem crescido desmedidamente, a ponto de abafar os valores mais genuínos do ser humano: o respeito pelos outros, a ternura, a delicadeza, a compaixão pelos que sofrem, a generosidade.

Esperamos que o projecto, que agora passa a chamar-se “Um dois três, era outra vez”, continue a encontrar leitores assíduos entre aqueles a quem se dirige, e possa proporcionar agradáveis momentos de partilha entre pais e filhos.

 

 

 

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E…diga-nos o que pensa das histórias que lhe forem chegando!

 

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Ideia: Teresa Tudela e Betina Campos Neves

 

 

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