1 dois 3, era outra vez

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123eraoutravez

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Nov 28, 2014, 12:47:41 PM11/28/14
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Histórias oferecidas à sexta-feira!

 

 

Mais devagar, Songogolo!

 

 

 

Há muito barulho em casa. Uzuti, o bebé, chora, Adelaide grita:

— Mongi, devolve-me a minha caneta amarela!

Na casa ao lado, o cão ladra para um transeunte. A mãe zanga-se:

Vem já aqui, Malusi!

Malusi gosta de andar devagar. Canta um pouco enquanto veste a blusa. Brinca um pouco enquanto calça as sapatilhas. As sapatilhas muito velhas. Quando eram novas, eram de Mongi. Agora, estão cheias de buracos e pertencem a Malusi. O cão do Sr. Motiki continua a ladrar. Malusi interroga-se:

Quem será que vem aí tão devagar? Só pode ser uma pessoa idosa.

O cão deixa de ladrar e começa a abanar a cauda. A senhora de idade que se aproxima pára de vez em quando, apoiada na bengala. É Gogo, a avó de Malusi. Gogo é idosa, mas a sua pele brilha como uma maçã. As mãos são grandes e gastas pelo trabalho, mas têm um toque suave. Apoia as mãos nos ombros de Malusi e diz-lhe:

Hoje preciso de ti.

Malusi cala-se e ouve com atenção.

Tenho de fazer compras na cidade e não gosto nada do trânsito e dos semáforos.

A mãe diz:

O Malusi vai contigo. Já é um homenzinho.

Malusi gosta de andar devagar. Anda um pouco e pára, para dar um pontapé numa lata de cerveja velha. Pang! A lata rola pelo passeio abaixo. Atrás dele, Gogo caminha devagar.

Ai, ai suspira a avó.

Está já sem fôlego quando chegam à paragem de autocarro. Malusi dá um último pontapé na lata e esta aterra na rua. Quando chega o autocarro, a lata é esmagada e Malusi ri-se.

Deixa-te de risotas e ajuda-me a subir para o autocarro ralha Gogo.

Malusi nem sabe o que fazer: será que deve empurrar ou puxar a avó? Esta apercebe-se do seu olhar preocupado e sorri.

Segura a minha bengala, Malusi. Sou velha demais para dar pontapés numa lata, mas ainda consigo subir para um autocarro.

O autocarro vai cheio. Só há lugar de pé. Malusi fica junto de Gogo. A avó vestiu o seu melhor vestido, cheio de cores, que o neto conta: vermelho, verde, rosa, azul, amarelo e laranja. O autocarro pára e algumas pessoas descem. Avó e neto encontram lugar junto de uma janela.

Olha! Vê como aqueles carros vão depressa!

Malusi sabe tudo sobre carros. Conhece todas as marcas e vai-as dizendo a Gogo:

Volkswagen… Ford… Morris…

Gogo sente orgulho do neto, que não se cala até chegarem à cidade. De repente, ei-los na rua principal, barulhenta e animada.

Tanta gente! exclama Gogo.

A multidão adensa-se em torno deles.

Malusi caminha diante da avó e vai esperando por ela. Repara como parece mais velha, agora que está na cidade. Às vezes, enquanto espera por ela, vai olhando para as montras das lojas. Pára diante de uma loja de brinquedos. Olha só, um Volkswagen pequenino! Em seguida, chama-lhe a atenção uma sapataria. Vejam só! Sapatilhas! Malusi olha para as suas velhas sapatilhas e depois contempla as novas da montra. São vermelhas e têm riscas brancas de lado.

Para onde estás a olhar? pergunta Gogo, que chega finalmente junto do neto.

Olha, Gogo! diz Malusi. Sapatilhas vermelhas! Não são bonitas?

Gogo olha para as sapatilhas e depois vê as sapatilhas velhas do neto.

São, pois! comenta.

Têm de atravessar a rua para ir até aos grandes armazéns.

Lá está aquele homenzinho verde! exclama Malusi.

Gogo parece preocupada. O neto pega-lhe na mão e guia-a pela passadeira até ao outro lado da rua. Quando chegam ao outro lado, o semáforo muda e passa a vermelho.

Ai! lamenta-se Gogo. Estas mudanças constantes afligem-me.

Nos grandes armazéns, Gogo olha para a lista de compras que fez. Tem de comprar alguns artigos de mercearia, uma toalha de plástico nova, uma chávena e um frasco para pôr os feijões. É tudo tão caro! Gogo guarda o dinheiro numa pequena bolsa, que traz presa com um alfinete ao interior da sua manga. Aí está sempre segura.

São horas de regressar à rua barulhenta. O semáforo está verde e avó e neto apressam-se a atravessar. Passam pela florista e pela loja de roupas. E lá está a sapataria com as sapatilhas novas! Malusi cola a cara à montra para as ver pela última vez.

Anda daí, Songolo! chama Gogo.

Songololo é o nome especial que Gogo dá ao neto. Mas, em vez de passar diante da loja, Gogo entra. Malusi olha para os sapatos da avó. Parecem os pneus velhos de um carro.

Quanto custam as sapatilhas vermelhas da montra? pergunta Gogo.

O vendedor responde e Gogo pede:

Pode ver se servem a este rapaz?

Malusi tira as sapatilhas velhas e enfia os pés nas novas, com todo o cuidado. O homem apalpa os dedos dos pés do rapaz.

 

Servem-lhe perfeitamente diz.

Malusi sente-se tão feliz que mal se segura quieto. Olha para a avó e sorri.

Gogo tira as notas da bolsa e conta-as. Depois, diz ao neto que leve as sapatilhas já calçadas, e o vendedor põe as velhas na caixa nova.

Quando começa a andar depressa, cheio de orgulho, a avó avisa Songololo:

Vai mais devagar!

Na paragem do autocarro, Gogo senta-se e descansa.

Malusi senta-se junto dela, com os pés em cima do banco, para poder admirar as sapatilhas novas.

Sabes, Gogo, diz com ternura são mesmo muito bonitas!

Gogo olha para os seus sapatos velhos e diz:

Tens razão. Se eu tivesse umas sapatilhas vermelhas com riscas brancas de lado, talvez caminhasse tão depressa como tu!

 

Niki Daly

Not so Fast, Songololo

London, Frances Lincoln Ltd, 2001

(Tradução e adaptação)

 

 

 

No intuito de darmos continuidade ao anterior projecto, “Um dois três era uma vez”, embora em moldes que se pretendem mais abrangentes, reiniciamos o envio semanal de pequenas histórias para crianças e adolescentes, por vezes acompanhados de textos dirigidos a um público adulto, convidando à reflexão, e também ao sonho, que tão necessários se tornam numa sociedade em que o materialismo tem crescido desmedidamente, a ponto de abafar os valores mais genuínos do ser humano: o respeito pelos outros, a ternura, a delicadeza, a compaixão pelos que sofrem, a generosidade.

Esperamos que o projecto, que agora passa a chamar-se “Um dois três, era outra vez”, continue a encontrar leitores assíduos entre aqueles a quem se dirige, e possa proporcionar agradáveis momentos de partilha entre pais e filhos.

 

 

 

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E…diga-nos o que pensa das histórias que lhe forem chegando!

 

Responda-nos para: 1...@isep.ipp.pt

 

Ideia: Teresa Tudela e Betina Campos Neves

 

 

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Dec 5, 2014, 2:54:06 PM12/5/14
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Histórias oferecidas à sexta-feira!

 

 

Penas de Neve

 

 

No livro de geografia de Amédée, há uma imagem que muito o espanta. Vê-se uma rua de Paris coberta por uma espuma branca muito bonita. Algumas crianças fazem bolas com ela, e atiram-na umas às outras, a rir. Outras divertem-se a deslizar sobre ela com um caixote de madeira. E, a um canto, três meninas fazem uma grande estátua, toda branca, com aquela espuma.

— A isso chama-se neve! — explica o professor, escrevendo a palavra no quadro.

Amédée, que mora em África, nunca viu neve.

Por isso, coloca muitas perguntas que fazem sorrir o professor:

— É verdade que a neve cai do céu? Porque é aqui não há neve? E a neve é doce? É quente? E é pesada?...

O professor responde que a neve é feita de água. Mas Amédée tem dificuldade em compreender: como é que a água pode transformar-se numa bola? Para ele, tudo aquilo não passa de um grande mistério!

“Quando for grande”, diz para si próprio ao fechar o livro, “irei a França para ver como é que é mesmo esta neve.”

 

Quando chega a casa, Amédée ajuda a mãe a decorar a palmeira diante da porta. O Natal está próximo. É altura de a enfeitar.

Com um fio, Amédée pendura cascas de coco que pintou de todas as cores. Depois, sobe ao topo da árvore para aí fixar uma estrela enorme feita de madeira.

Durante a refeição, ele não para de falar sobre o que viu naquela imagem do livro.

E o avô é como ele: não consegue acreditar que a água se transforme numa bola.

— O teu professor devia estar a brincar contigo!

Quanto à mãe, ela repreende-o de forma gentil:

— Vejam só estes dois ignorantes que não querem acreditar em nada, mas que querem explicar tudo. Vamos lá, toca a comer em vez de falar! E tu, Amédée, não te esqueças de que o Natal está a chegar. Pensa mas é no bem que podes fazer à tua volta.

Pois é, amanhã é 24 de Dezembro, a véspera do grande dia! Amédée promete que fará o seu melhor.

 

Logo pela manhã, depois de se levantar bem cedinho, Amédée vai ao poço encher os baldes de todas as pessoas idosas da aldeia.

Depois, toma conta dos dois gémeos da Senhora Sali enquanto ela cozinha. A Senhora Sali tem muitos filhos e está sempre cheia de trabalho.

Para lhe agradecer, ela dá-lhe uma das grandes panquecas que acaba de fazer.

Embora tenha muita vontade, Amédée não a come. Decide ir levá-la a Doumba Diof, o velho cego que vive sozinho na floresta. É um sábio muito respeitado, mas muita gente tem medo dele… Dizem que tem grandes poderes!

Ao tomar o caminho da floresta, Amédée sente um pouco de medo. Os olhos vazios e brancos do ancião são muito estranhos! Mas diz a si próprio que não se deve ter medo de nada na véspera de Natal.

Doumba Diof fá-lo sentar-se numa esteira e divide a panqueca em duas partes.

Como dizem que ele é muito sábio, Amédée tem uma pergunta na ponta da língua:

— Doumba Diof, tu que sabes tantas coisas, fala-me da neve!

— Não se pode falar da neve, meu filho. É preciso vê-la e tocar-lhe.

Amédée fica um pouco desiludido com esta resposta mas não o mostra.

Antes de partir, limpa e arruma a cabana porque o velho cego tem dificuldade em fazer tudo isso sozinho.

Para lhe agradecer, Doumba Diof oferece-lhe um pequeno pássaro branco numa gaiola de bambu.

Amédée leva-o para a aldeia e mostra-o a todos os seus colegas.

— Foi Doumba Diof quem mo deu!

Os colegas olham para ele com inveja.

— Vai trazer-te felicidade — diz-lhe o avô — porque Doumba Diof é um grande feiticeiro.

Amédée está orgulhoso do seu pássaro. Não se cansa de o admirar.

 

Mas, na noite de Natal, sente vergonha de manter numa gaiola, como um prisioneiro, quem nasceu para voar livremente…

As palavras da mãe vêm-lhe à memória: “Pensa em todo o bem que podes fazer à tua volta.”

Então, Amédée dirige-se à praça da aldeia, tira o pássaro da prisão e lança-o no ar. No mesmo instante, como que por encantamento, uma espuma fina cai do céu.

Amédée abre as mãos e sente, pela primeira vez, a carícia mágica dos leves flocos de neve.

 

Michel Piquemal ; Boiry

Plumes de neige

Paris, Casterman, 1994

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