Histórias oferecidas à sexta-feira!
Manter as coisas em perspetiva
Por vezes alguém faz algo, ainda que pequeno,
mas é esse algo que realmente preenche o que falta no teu coração.
Do show televisivo “My So-Called Life”
No meu escritório, subi a um banco periclitante e encontrei as caixas de Natal numa prateleira de trás. Era chegada a altura de transformar a nossa casa com as cores mágicas da “época do amor”.
Como nunca consigo entrar verdadeiramente no espírito das coisas até montar o meu próprio cenário, coloquei a caixa em cima da carpete e ajoelhei-me para explorar, uma vez mais, as velinhas aromáticas, as bolas acetinadas, e os enfeites brilhantes que todos os anos têm sido pendurados na nossa árvore. Ao separar os fios das minúsculas luzinhas coloridas, curvei-me para ligar a primeira série. Fez-se luz! Olhando de novo para a caixa, os meus olhos recaíram sobre algo enfiado num cantinho do fundo. Ao lado de uma vela vermelha, e embrulhadas num tecido amarelo, estavam quatro moedas de dez cêntimos. Debaixo do tecido, estava uma velha revista. Enquanto as luzes permaneciam acesas, revivi mentalmente os acontecimentos que tinham trazido estas coisas até mim.
Conhecera, em tempos, uma mulher bastante pobre, em termos materiais. As suas roupas eram limpas, mas muito gastas. Passava a ferro a roupa de outras pessoas para ganhar dinheiro para os filhos. Como não tinha carro, ia a pé para todo o lado e, por isso, os seus sapatos estavam gastos e esburacados. Vivia, com os dois filhos, numa minúscula casa e dormiam todos no mesmo compartimento.
Conheci-a através do seu filho mais novo, que costumava passar na minha loja de animais depois da escola. Ele adorava animais e eu pagava-lhe algum dinheiro para ele “me ajudar”, varrendo o chão. Num dia de inverno, trouxe a mãe para me conhecer. Gostámos logo uma da outra.
Quando chegou o Natal, apareceu na minha loja, sorridente e de faces coradas, com uma prenda para mim. Embrulhadas em jornal estavam três coisas: uma vela vermelha que nunca tinha sido acesa, quatro moedas de dez cêntimos embrulhadas em tecido, e uma revista. Pediu-me para abrir a prenda, porque queria explicar-ma. Engolindo as lágrimas, ouvi-a enquanto ela dizia que a vela vermelha iria trazer luz à minha vida. As quatro moedas eram para ser distribuídas pelos meus filhos e, na revista, havia um artigo que ela tinha encontrado acerca do verdadeiro sentido da dádiva e do amor pelos outros. Eu nunca tinha recebido uma prenda tão extraordinária como esta ou dada com tanto amor. Embora me fosse difícil eliminar o espaço que existia entre nós, acabei por conseguir abraçá-la e dizer-lhe que me sentia muito honrada e que iria conservar aquelas prendas para sempre.
E conservei. Todos os anos, coloco amorosamente a vela vermelha, as quatro moedas e a revista debaixo da nossa árvore, para nos recordarem o valor da amizade e da dádiva. E posso dizer-vos que, de entre todos os presentes com embrulhos vistosos que todos os anos empilhamos, são estas preciosas prendas da minha amiga que me ajudam a manter o Natal na perspetiva certa. É muito fácil ser vítima de publicidade materialista, é muito fácil deixar-se enredar pela ideia de gastar “determinada quantia” com cada pessoa da lista, demasiado fácil ficar sem um cêntimo, porque gastamos tudo o que tínhamos e o que não tínhamos. É muito fácil esquecer que esta é a “época do amor.”
Assim, este ano voltei a colocar as três prendas debaixo da árvore para nos recordarem que a verdadeira razão de celebrarmos o Natal não tem nada a ver com dinheiro. Estes são realmente tempos difíceis e é mais do que provável que haja menos presentes debaixo da vossa árvore de Natal e da minha. Mas quem sabe se essa falta não acabará por ser uma bênção. Não por termos menos, mas por podermos celebrar o Natal de forma mais essencial.
Jean Brody
Jack Canfield, Mark Victor Hansen & Amy Newmark
Chicken Soup for the Soul – Christmas Magic
Chicken Soup for the Soul Publishing, LLC, 2010
(Tradução e adaptação)
No intuito de darmos continuidade ao anterior projecto, “Um dois três era uma vez”, embora em moldes que se pretendem mais abrangentes, reiniciamos o envio semanal de pequenas histórias para crianças e adolescentes, por vezes acompanhados de textos dirigidos a um público adulto, convidando à reflexão, e também ao sonho, que tão necessários se tornam numa sociedade em que o materialismo tem crescido desmedidamente, a ponto de abafar os valores mais genuínos do ser humano: o respeito pelos outros, a ternura, a delicadeza, a compaixão pelos que sofrem, a generosidade.
Esperamos que o projecto, que agora passa a chamar-se “Um dois três, era outra vez”, continue a encontrar leitores assíduos entre aqueles a quem se dirige, e possa proporcionar agradáveis momentos de partilha entre pais e filhos.

E…diga-nos o que pensa das histórias que lhe forem chegando!
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Ideia: Teresa Tudela e Betina Campos Neves