1 dois 3, era outra vez

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123eraoutravez

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Jan 9, 2015, 2:32:15 PM1/9/15
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Histórias oferecidas à sexta-feira!

 

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SE MAGOAS, MAGOAS-ME

 

Um filho da Deusa, a brincar, sem querer arranhou um cachorrinho. Quando voltou para casa, correu para a sua mãe para lhe dar um beijo. Ao aproximar-se do belo rosto da Deusa, reparou que tinha um arranhão que lhe sulcava a face.

— Mãe – disse o menino –, tens uma ferida na bochecha, o que aconteceu?

Com o olhar terno e amoroso, a Deusa contemplou o filho, e com a voz tingida de melancolia, disse:

— É um arranhão que me fizeste com as unhas.

— Mas, mãe – apressou-se a replicar o rapazinho –, nunca me atreveria a magoar-te. Não há ser que ame mais do que a ti, minha querida mãe.

Um sorriso desenhou-se nos lábios da Deusa.

— Meu filho – disse –, já te esqueceste que hoje de manhã arranhaste um cachorrinho?

— Não, mãe, lembro-me muito bem. Não sei como, arranhei-o, é verdade.

— Ora, meu filho, não sou eu toda a criação? Ao teres arranhado o bichinho, estavas a arranhar-me a mim. Cuida-te de nunca ferir nenhum ser vivo, ou estarás a ferir-me a mim.

 

 

Toda a forma de vida é sagrada e deve ser respeitada. Mas são ainda muitos os humanos que não só não respeitam as outras criaturas como lhes infringem dor de forma indesculpável. O comportamento de muitos seres em relação aos outros e em relação aos animais indefesos é verdadeiramente vergonhoso e atroz, e põe em evidência quão pouco evoluímos interiormente, por mais que a ciência tenha avançado.

 

Ramiro Calle

Os melhores contos espirituais do Oriente

Lisboa, Esfera dos Livros, 2009

(Adaptação)

 

 

 

No intuito de darmos continuidade ao anterior projecto, “Um dois três era uma vez”, embora em moldes que se pretendem mais abrangentes, reiniciamos o envio semanal de pequenas histórias para crianças e adolescentes, por vezes acompanhados de textos dirigidos a um público adulto, convidando à reflexão, e também ao sonho, que tão necessários se tornam numa sociedade em que o materialismo tem crescido desmedidamente, a ponto de abafar os valores mais genuínos do ser humano: o respeito pelos outros, a ternura, a delicadeza, a compaixão pelos que sofrem, a generosidade.

Esperamos que o projecto, que agora passa a chamar-se “Um dois três, era outra vez”, continue a encontrar leitores assíduos entre aqueles a quem se dirige, e possa proporcionar agradáveis momentos de partilha entre pais e filhos.

 

 

 

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E…diga-nos o que pensa das histórias que lhe forem chegando!

 

Responda-nos para: 1...@isep.ipp.pt

 

Ideia: Teresa Tudela e Betina Campos Neves

 

 

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123eraoutravez

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Jan 16, 2015, 2:35:19 PM1/16/15
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Histórias oferecidas à sexta-feira!

 

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A monção

 

 

 

 

As crianças brincam, os pássaros cantam, e os adultos fazem a sua vida durante os dias quentes de verão na parte norte da Índia. Mas, no bulício das ruas e do mercado, toda a gente está em estado de alerta, à espera daquelas nuvens mágicas que hão de trazer à terra a chuva abençoada.

Nas palavras de uma jovem, são aqui vividos e evocados os aromas e os sons, as cores deslumbrantes, e a abafada antecipação de uma cidade sedenta, nos dias que antecedem a tão desejada monção.

 

♣♣♣♣

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Durante todo o verão, carregámos connosco o cheiro da poeira — poeira empedrada, granulosa, arenosa — que voa ao vento, espalhando-se pelas roupas e cabelos.

Ao pequeno-almoço, o meu pai diz “Quando as chuvas da monção chegarem, vão lavar toda esta poeira.”

À ida para o mercado, atravesso a estrada com a minha mãe. “Precisamos de tomates,” diz ela, “e talvez de algum feijão.”

Monsoon3.jpgPassamos pela velha banca de chá. Esta retine com o tilintar das chávenas, sussurros e sons arrastados de espantos e preocupações. Será que as chuvas da monção vêm em breve?

O rádio faz estrépito com notícias de aguaceiros à beira-mar. Mas a costa ainda fica longe de nós.

A minha mãe suspira. Observa o céu e interroga-se: “Quanto é que irá chover? Com que brevidade e em que quantidade?” Preocupa-se com as cheias. E eu também. E há ainda uma outra questão que ninguém se atreve a colocar. Fica latente na minha mente, tal como o grito dos corvos da velha árvore neem fica pairando no ar de poeira cor-de-rosa: “E se elas nunca chegarem a vir, as tais chuvas da monção?”

No entanto, de tarde, enquanto a minha mãe corta legumes e mexe com a colher, e os cheiros da refeição preenchem o ar, as minhas mãos irrequietas dobram barcos de papel. Vinco as velas brancas encrespadas e, na minha mente, vejo-os flutuando em oceanos de poças.

A noite cai. Observo as caras na televisão. Por toda a Índia, velhos e novos, pobres e ricos, todos esperam a chuva. E o calor faz-me sentir como um crocodilo rastejando de mandíbula entreaberta…

Monsoon4.jpgQuando o meu pai volta do trabalho, corro ao seu encontro. Do outro lado da rua as pessoas amontoam-se em volta do abrigo da paragem de autocarro. Entre o chiar de travões e o arrastar de pés, oiço vozes entusiasmadas. “Esperem! Escutem! Aquilo era um trovão ou o ronco de um motor?”

À hora de deitar, a nossa Nani (avó) conta-nos histórias de quando a monção era mais molhada, mais cheia, mais longa — antes dos campos darem lugar às ruas da cidade. Eu ouço-a com atenção, e as histórias levam-me com elas até aos sonhos.

Monsoon6.jpgAntes do dia nascer, ouço um koel a cantar, longa e livremente, com uma voz que mais parece o sol a derreter. Ao longe, um pavão lamenta-se. Respondo-lhe num tom de voz bem alto, e desperto toda a gente. Os quentes ventos loo trespassam a cidade. Arrancam o papel dos cartazes e rasgam os sorrisos das estrelas de cinema. Queixo-me, mas o meu pai sorri e diz “Precisamos deste vento quente e seco para amadurecer aquelas mangas doces.”

Monsoon7.jpgOndas de calor dançam sobre as pedras e tremulam sobre os telhados. Mas, à tardinha, nuvens grandes e cinzentas começam a sulcar o céu. A nossa Nani diz “Vais ver. Quando aquelas nuvens tipo penas de perdiz chegarem, a chuva da monção virá logo a seguir.” “Podemos ir brincar?”, pergunto. Ela olha para o céu. “Não te demores muito.”

Nos quadrados do jogo da macaca que riscamos a giz na ruela, o meu irmão e eu saltamos e pulamos e rodopiamos ao som dos sinos do templo, que tocam e voltam a tocar. “Três para a frente e três para trás, seguidos, sem parar, e faremos chover.”, diz o meu irmão. “Isso é uma parvoíce,” respondo-lhe eu, mas faço o mesmo.

Monsoon8.jpgNa rua, um condutor de táxi faz soar uma buzina zangada, mas a velha vaca está cansada e não se quer mexer. Os pneus movem-se lentamente em volta dela. Nós rimos. O condutor trava e abana a cabeça na nossa direção, desaparecendo numa nuvem de poeira.

Enquanto nos dirigimos para casa, o céu enche-se de nuvens gordas e pesadas. Os rastos das finas penas desapareceram. De bem longe, um trovão ribomba com um estrondo gigantesco. Sabemos. Já não vai tardar muito. O vento agita as folhas da velha árvore neem. O vendedor de jornais atira sacos plásticos por cima dos títulos que marcam o dia.

De repente tudo fica calmo, uma acalmia repleta de aromas das mangas maduras, de promessas de humidade no ar. E então — oh! — a chuva, a chuva perfeita, o elástico lençol de chuva desaba. Os guarda-chuvas transformam-se em florestas ambulantes. Eu suspiro, e o meu suspiro sobe até ao céu. As pingas de chuva fazem-me rir alto, batendo surdamente na terra, nos telhados e na minha pele. A minha mãe e a nossa Nani atravessam a rua para fazer tilintar uma moeda aos pés do barrigudo Ganesha, deus da boa fortuna.

Os rios jorram pelas estradas de ontem.

E eu danço de alegria com o súbito aroma doce da terra.

 

♣♣♣♣

Monsoon9.jpgGlossário de palavras Hindi

 

Ganesha (GUH-NAYSH) – deus com cabeça de elefante, o deus hindu da boa fortuna.

koel (KOH-YULL) – pássaro canoro com um chamamento alto, tipo assobio, e que  faz mais barulho no período antes das chuvas.

Loo vento quente que sopra na região norte da Índia no verão, antes da estação das chuvas.

Neem árvore da família do mogno, cujas folhas e frutos são usados na agricultura e para medicamentos.

♣♣♣♣

 

Acerca da Monção

 

A palavra monção (monsoon) vem de uma antiga palavra árabe, mausim, que significa “estação.” A monção é a estação das chuvas. Para que haja uma monção, é preciso que a terra seja muito quente. O ar quente que sobe da superfície terrestre dá azo a que ventos húmidos assolem do lado do oceano. Os ventos do sul e sudoeste da Ásia sopram do nordeste durante o inverno e do sudoeste no verão. Quando passam por cima do Oceano Índico e do Mar Arábico, absorvem humidade e ficam cada vez mais molhados. Formam-se nuvens que entram em rodopio. Por vezes, as aves migratórias também apanham uma boleia. A rotação da Terra faz com que os ventos se tornem turbilhões gigantescos. Quando as montanhas e outras formações terrestres fazem barreira aos ventos carregados de água, a chuva desaba em grandes lençóis de água.

As chuvas da monção são mais fortes e poderosas na Índia e países próximos e no sudoeste asiático. Ocorrem monções mais fracas, no entanto, noutros lugares do mundo, inclusive no México e no sudoeste dos Estados Unidos. Na Índia, a chuva da monção ajuda a crescer as colheitas.

Mas a chuva também favorece a arte, a música, e os contos. Pinturas antigas mostram reis e rainhas, deuses e pessoas a olharem para o céu, à espera da chuva. Durante centenas de anos tem havido compositores que escrevem música inspirados pela monção. Supõe-se que uma raga musical, ou “escala”, chamada “Megh Malhaar,” ajudava a trazer a chuva. As danças clássicas indianas ostentam gestos de mão bem peculiares: uns para a chuva, outros para as tempestades, e ainda outros para as trovoadas.

As chuvas podem também ser assustadoras e perigosas. Em certos lugares, chegam com tanta força que dão origem a inundações. Os campos e as casas são varridos, e por vezes milhares de pessoas ficam sem casa. Nas vilas e cidades, o trânsito é forçado a parar durante dias. O comércio tem que fechar.

Mas, se as chuvas não vêm de todo, as colheitas morrem e não haverá arroz, trigo – nem comida!

Por isso a monção é ao mesmo tempo tão amada e temida.

 

 

Uma Krishnaswami

Monsoon

New York, Farrar Straus Giroux, 2009

(Tradução e adaptação)

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A Monção - A4 - Uma Krishnaswami.pdf
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