Histórias oferecidas à sexta-feira!
(Mais em CONTADORES DE ESTORIAS)
A ALDEIAZINHA
Mesmo, mesmo no centro do mundo, fica uma aldeia tão pequenina, que na história é conhecida, simplesmente, pelo nome de "Aldeiazinha". Não é só a pequenez o que diferencia Aldeiazinha das outras aldeias e cidades do mundo, mas também os costumes.
Por exemplo, todos se conhecem muito bem. Vivem agrupados em famílias. Além dos avôs, avós e pais, há animais e plantas que, tal como eles, têm o mesmo apelido.
E vejam só: apesar de ficar mesmo, mesmo, no centro do mundo, Aldeiazinha é um lugar muito pouco visitado. Há quem não vá lá por pensar que é aborrecido: não tem carros, não há barulho, nem sequer tem confeitarias.
Um dia, contudo, chegou à Aldeiazinha um senhor nada novo, gordo e barrigudo. Trazia apenas uma máquina fotográfica ao pescoço e uma bolsa.
Era uma manhã de sol e os aldeiazinhenses, ao vê-lo, receberam-no contentes, com bombos e pratos.
O senhor gordo e barrigudo aproximou-se muito sério.
— Sou um grande empresário. Um empresário fora de série que sabe muito de grandes empresas! — disse com voz clara.
Os aldeiazinhenses olharam para ele sem perceber: desconheciam a palavra "empresário". Mas, mesmo assim, ofereceram-lhe a sua ajuda.
— Quero montar uma grande empresa neste lugar — disse o senhor gordo e barrigudo. — Mas, para isso, tenho de os tornar famosos.
Os aldeiazinhenses escutaram-no atentamente.
— Preciso que me mostrem as paisagens desta terra, e as minhas fotografias converter-se-ão em postais que o mundo inteiro irá ver e há de querer conhecer.
O presidente de Aldeiazinha escolheu a Praça Central, repleta de aldeiazinhenses grandes e pequenos, e disse:
— Esta é a paisagem mais linda que temos.
Porém, o senhor franziu o nariz, descontente.
E inquiriu se não tinham museus, monumentos importantes…
— Aquela pedra onde dormem os pássaros é o nosso monumento nacional — responderam os aldeiazinhenses, seguros do êxito.
Mas o senhor gordo franziu o nariz, descontente. E um tanto contrariado perguntou ainda se, por acaso, não tinham mares, palmeiras, montes com neve.
— Não — disseram os aldeiazinhenses, preocupados por não poderem ajudar o forasteiro.
— Isto assim não presta para nada! — berrou ele.
E os aldeiazinhenses começaram a chorar amargamente por causa do insulto.
As borboletas inteligentes, que em Aldeiazinha são a maioria, viram o que se estava a passar e todas elas desenharam no céu uma bela paisagem de palmeiras e mar. Logo de seguida, mudaram o desenho e converteram-se em montanhas e rios.
Depois, novamente em mar.
— Veja bem isto, senhor! — disse o presidente. — Que belo mar! Que palmeira tão alta!
— Estão a brincar comigo. Isso são borboletas! Nada mais!
E, com a máquina fotográfica e a sacola foi-se embora, abandonando Aldeiazinha.
"Isto assim não presta para nada!", repetia, aos gritos, enquanto se afastava.
Mas já ninguém o ouvia.
Os aldeiazinhenses estavam maravilhados com os desenhos feitos pelas borboletas.
Mares, palmeiras, montanhas, rios e florestas, que, desde esse dia, tornaram Aldeiazinha o único lugar do mundo onde, ao mesmo tempo, podem existir todos os climas e todas as paisagens…
Silvia Schujer
Cuentos y chinventos
Buenos Aires, Ediciones Colihue, 1987
(Tradução e adaptação)
No intuito de darmos continuidade ao anterior projecto, “Um dois três era uma vez”, embora em moldes que se pretendem mais abrangentes, reiniciamos o envio semanal de pequenas histórias para crianças e adolescentes, por vezes acompanhados de textos dirigidos a um público adulto, convidando à reflexão, e também ao sonho, que tão necessários se tornam numa sociedade em que o materialismo tem crescido desmedidamente, a ponto de abafar os valores mais genuínos do ser humano: o respeito pelos outros, a ternura, a delicadeza, a compaixão pelos que sofrem, a generosidade.
Esperamos que o projecto, que agora passa a chamar-se “Um dois três, era outra vez”, continue a encontrar leitores assíduos entre aqueles a quem se dirige, e possa proporcionar agradáveis momentos de partilha entre pais e filhos.

E…diga-nos o que pensa das histórias que lhe forem chegando!
Responda-nos para: 1...@isep.ipp.pt
Ideia: Teresa Tudela e Betina Campos Neves
GENGIS KHAN
Aí está ele, passando revista às tropas
Com a sua armadura reluzente.
Os seus pés levantam ondas de poeira
E ninguém ousa fitá-lo de frente.
Na sua couraça quebram-se as lanças inimigas
E um gesto seu põe em fuga um exército inteiro
… Mas não pode dobrar-se para apanhar uma flor
Nem coçar as costas, o poderoso cavaleiro.
Álvaro Magalhães
O reino perdido, 2000
Alija e o seu cão
Na ex-Jugoslávia, Alija, um menino vítima de limpeza étnica, adotou um cãozinho.
Este cão viria a ser a sua única família.
Já não vou à escola. Ninguém vai. A escola foi encerrada quando o senhor Gladovic se alistou no exército. A minha avó Mirsa e a minha irmãzinha Tima também se foram embora. Agora, ajudo o meu pai no trabalho. Ele é o melhor padeiro na aldeia. Aliás, é o único.
Liztar fica na estrada que segue a costa.
E já foi uma aldeia tranquila.
Poucos se atreviam a percorrer as estradas estreitas de terra batida e com tantos ziguezagues através das nossas montanhas. “Há muitos buracos”, dizia o meu pai, “buracos tão grandes que qualquer carro pode ser engolido.”
Mas, de há um tempo para cá, não faltam camiões, carros e carroças a atravessar a nossa aldeia. Também passam pessoas a pé, carregadas de malas, de sacos e de embrulhos. E crianças a chorar, completamente sozinhas atrás de toda essa gente, como coisas sem valor deixadas à mercê do vento.
As mulheres estão magras e desfiguradas. Os homens têm ar de animais acossados. Há ainda os órfãos e os velhos cujo coração e pernas parecem carregar toda a fadiga. Sente-se neles o medo, está-lhes colado à pele como a lama depois da neve derretida.
Por vezes, essas pessoas param para descansar um pouco por detrás da igreja. É lá que eu levo o pão. “É preciso ajudar aqueles que não têm força para continuar”, dizia o meu pai.
Naquele dia, o lugar estava quase deserto. Havia apenas o barulho surdo da carripana do pão na calçada e de um velho que arrastava os pés. Nos intervalos da sua respiração ofegante, eu conseguia ouvi-lo:
“ Hadje! Hadje! – Depressa! Depressa!
Um cãozinho malhado seguia-lhe os passos e olhava-me com os seus óculos escuros. Eu queria dar-lhe pão. O velho levantou a cabeça: sem cor alguma nas faces, os lábios roxos tremiam e os olhos estavam sem brilho. Ofereci-lhe um pedaço de pão, mas ele parecia não reparar. Baixou a cabeça e continuou a arrastar os pés, deixando atrás de si um cheiro a velhice. Quando voltei, vi-o sentado num banco. Olhava fixamente para mim.
— Quer um bocado de pão, senhor? Venha comigo!
Mas ele não tinha fome e não era para mim que estava a olhar. Estava morto.
Na despedida, havia apenas os coveiros, o pequeno cão malhado e eu.
Levei-lhe flores.
Toda a gente merece umas flores.
Pelo menos, era o que dizia a minha avó Mirsa.
O cão viu-me pousar o ramo. Seguiu-me até à saída do cemitério e, sempre que eu me virava para trás, lá estava ele…. Quando cheguei a casa, ele ainda estava atrás de mim, de orelha arrebitada, e observando-me com os seus óculos escuros.
— Alija, parece-me que tens aqui um pequeno refugiado — disse o meu pai. — Deixa-o entrar e dá-lhe um pouco de leite. Estamos a precisar de um cão de guarda.
E assim o cãozinho passava a ser, a partir desse momento, o meu protegido.
O meu cão.
Todas as noites, os bombardeamentos iluminavam o céu do lado oriente, como fogo de artifício. Mais tarde, a claridade e o barulho aproximaram-se e conseguíamos sentir os abanões nas nossas camas, durante toda a noite. O meu pai dizia que a guerra ia parar um dia, como acontece com o vento do inverno que deixa de soprar. Também dizia que a guerra não chegaria a Liztar. “Aqui, os bósnios, os sérvios, os croatas, os muçulmanos e os cristãos vivem em harmonia. Somos um povo unido.”
Mas, quanto mais as bombas se aproximavam, menos as gentes de Liztar se entendiam. O meu pai quase deixou de falar e as suas feições mudaram.
Um dia, zangou-se como nunca. Dirigiu-se com um passo decidido para casa do senhor Stanno e bateu à porta. Por cima da porta agitava-se uma bandeira que eu nunca tinha visto.
— Para que estás a exibir essa bandeira, Milo? — gritou o meu pai.
O senhor Stanno respondeu:
— Na minha aldeia faço o que quero.
E disse-o como se detestasse o meu pai. Mas como era isso possível? O senhor Stanno e o meu pai sempre tinham sido bons amigos!
— A aldeia também é minha e eu não te obrigo a olhar para a minha bandeira — disse o meu pai.
— Cada qual faz como entende.
E o senhor Stanno fechou-lhe a porta na cara.
O meu pai ficou ali parado. Depois, encaminhou-se lentamente para casa, apertando-me a mão com tanta força que até magoava. E uma noite decidiu que estava na hora de a minha mãe e eu sairmos da aldeia.
— Eu não quero ir embora — disse a minha mãe. — O meu lugar é aqui, ao teu lado, Nurija. Sabes bem que a mulher representa os três pilares da casa e o homem representa um só. Envia Alija para casa da tia Magda. Lá estará em segurança.
O meu pai sentou-me nos seus joelhos e acariciou-me o cabelo.
— Vais cuidar da tua mãe, meu rapaz. Amanhã, vocês dois vão para casa da tia Magda.
Não partimos no dia seguinte porque havia soldados por todo o lado.
Pareciam homens vulgares, mas tinham armas e olhares enraivecidos. O meu pai foi obrigado a dar-lhes quase todo o pão que tinha. Arrastavam as pessoas pelas ruas. Durante alguns dias não pudemos sair de casa. O senhor Stanno falava com os soldados. Acho que era amigo deles.
Assim que os soldados saíram da aldeia, o meu pai correu para a rua e pôs-se no meio da estrada, fazendo paragem a um camião. Deu dinheiro ao camionista para nos dar boleia, a mim e à minha mãe.
Eu só precisava de levar a minha mochila.
Era lá que escondia o meu cão.
— Isto não vai durar muito — disse o meu pai. — Em breve estaremos juntos.
A minha mãe e eu agarrámo-nos a ele com tanta força que foi preciso separarem-nos.
Eu queria ser corajoso, mas custava-me tanto deixá-lo!
— Vai lá, meu filho, disse-me ele. Levas aqui do melhor pão e um pouco de burek (tarte leve e muito saborosa, típica de certas regiões dos países de Leste, que pode ser recheada com queijo, carne picada ou legumes e coberta com sementes de sésamo.) para a viagem. Vocês vão precisar de tudo isso.
E ficou ali a ver-nos deixar Liztar.
A sua silhueta foi ficando cada vez mais pequena, até deixarmos de a ver.
E também deixei aos poucos de ver as casas, os telhados e o minarete que me fazia lembrar um grande lápis afiado. Também me fazia pensar no meu pai, que ficou ali parado e em silêncio para olhar pela aldeia e esperar por melhores dias.
Aquela noite foi um verdadeiro e interminável pesadelo.
As pessoas acotovelavam-se e ouviam-se gemidos, choros e medo em cada suspiro.
Hrvatska Vojska ? Chetnik ? Straza.
O que é que se passa agora ? Vão deixar-nos seguir viagem? Será que vamos mesmo para casa da tia Magda? Hadge! Depressa!
E foi assim toda a noite, no camião que se engasgava e nos sacudia.
Enrolei-me encostado à minha mãe.
O meu cão só punha a cabecita de fora e tremia, emitindo pequenos ruídos.
Deixei que se encostasse a mim até ficar mais calmo e olhávamos para as árvores negras que voavam sobre nós durante a noite. O camião só parou pela manhã. Do vale podíamos observar o nascer do sol por detrás das montanhas e, mais longe, podíamos adivinhar o azul movente da costa.
— É ali que vive a tia Magda? Lá também há guerra?
A minha mãe sorriu ternamente.
— Come um bocado de pão, Alija.
De repente, da floresta surgiram homens de olhar tresloucado. Estavam armados.
— Todos para o chão. DEITADOS! — gritaram, enquanto disparavam para o ar.
Bateram numa idosa que não conseguiu cumprir as ordens com a rapidez exigida e, quando a minha mãe ripostou, bateram-lhe também e obrigaram-na a entrar com eles para o camião. Quando eu fui atrás deles dando-lhes murros, os soldados também me bateram. E riram.
O meu cão mordia-os, mas afastaram-no aos pontapés.
Quando levaram a minha mãe, corri atrás deles.
Depois, caí. Levantei-me e corri muito tempo na estrada por alcatroar, gritando: “ Parem! Deixem a minha mãe!”
Mas eles andaram sempre. A minha mãe é tão bonita… O meu pai diz que ela é a mulher mais bonita do mundo. Como é que eles foram capazes de lhe bater? Por que razão a terão levado? Tenho de a encontrar! Tenho de encontrar a minha mãe, o meu pai, a minha irmãzinha Tima e a minha avó Mirsa.
Foram precisos três dias e três noites para chegar à costa a pé.
Na primeira noite, dormi debaixo de uma ponte. Tinha fome, tinha frio, estava aterrorizado. Um velho ofereceu-me um pedaço de carne seca crua e um pouco de pão.
O pão não era tão bom como o do meu pai, mas eu não disse nada.
Comi em silêncio enquanto as lágrimas me iam caindo pela face.
O senhor deixou-me partilhar o cobertor. Assim já não tinha frio e sentia-me mais seguro. O meu cão dormia ao meu lado e lambia-me a cara quando eu o abraçava. O vento soprava forte, com uma voz cansada e queixosa, chorando e gritando. A voz só se calou quando o velho me abraçou, me acariciou o cabelo e chorou comigo.
No dia seguinte, andámos juntos. O homem levou-me aos ombros e contava-me histórias da sua aldeia, histórias que me fizeram rir e chorar ao mesmo tempo. O meu cão também começou a gostar muito dele. No final da tarde, apanhou uma lebre e trouxe-a até nós.
— Bom! — disse o velho, agarrando a lebre pelas patas. — Graças ao teu fiel companheiro, vamos regalar-nos! É um bom cão.
Agora já está mais calor, aqui no litoral. O velho levou-me para casa da filha. Ele tem andado à procura da tia Magda, mas a polícia diz que não será assim tão fácil... Não sou o único a tentar encontrar a família. E eles não conhecem a tia Magda. Disseram que estavam a tentar localizar o meu pai para me vir buscar.
É por isso que continuo aqui, à espera, no limite da aldeia, na estrada que vai para Liztar. E todos os dias aqui fico sentado, com o meu cão, para receber o meu pai, quando ele chegar, e nunca mais o vou deixar.
Depois, vamos à procura da minha mãe, da minha irmãzinha e da minha avó Mirsa. O meu cão ainda não tem nome. Mas continua a ser meu! E não se preocupem, eu já lhe disse que íamos estar todos juntos novamente. Irá, também ele, fazer parte da família.
O meu cão. O cão deles. O cão de todos nós.
John Hefferman
Alija et son chien
Montréal, 400 Coups Eds, 2006
(Tradução e adaptação)Alpha
A Canção de Iktomi
O estômago de Iktomi resmungava, enquanto este saía da caverna deserta onde dormira. Acordara com fome, como de costume. Sendo um grande dorminhoco, tinha sempre dificuldade em encontrar comida. Mas isso não o preocupava. Arranjava sempre forma de se alimentar, mesmo não sendo um bom caçador. Mesmo sem sequer ser caçador. A sua habilidade máxima consistia em ganhar a vida à custa do trabalho ou dos erros dos outros.
Iktomi esfregou os olhos e olhou em redor. Estava uma tarde de verão esplêndida. As folhas do algodoeiro dançavam na brisa, enquanto a relva ondulava. Melros e cotovias juntavam-se à festa. Num bosque de carvalhos, veados de cauda branca faziam a sesta à sombra fresca das ameixoeiras.
Mas Iktomi não mostrava interesse por nada disto. Não via nada que lhe desse de comer. Atravessou, então, a pradaria, em busca de uma refeição rápida. As cerejas e as ameixas ainda não estavam maduras e ele sabia que bagas verdes lhe fariam dores de estômago. Havia peixe no rio, mas isso implicava ter gafanhotos para servirem de isco. Como os gafanhotos eram demasiado rápidos, Iktomi não iria por certo comer peixe.
Depois de uma subida íngreme, sentou-se a descansar no topo da colina. Enquanto observava a pradaria, pareceu-lhe ouvir o vento a rir. Suado e esfomeado, gargalhadas eram a última coisa que Iktomi queria ouvir. Mas sentiu curiosidade e pôs-se à escuta. E a curiosidade venceu o aborrecimento. Tudo o que fosse estranho devia ser investigado, porque podia ter a ver com comida. Começou a caminhar em direção às gargalhadas. Acabou por descobrir que vinham de um lago próximo.
Dentro do lago, havia patos em abundância, patos que dançavam e brincavam, enquanto soltavam gargalhadas. Estavam tão entretidos que nem deram pela presença de Iktomi. Este pensou num plano e escondeu-se. Arrastou-se até ao fundo do rio e juntou um molho de paus. Atou-os bem atados, pô-los às costas e dirigiu-se para o lago, com passadas decididas. Uma vez junto do lago, fingiu que a carga era pesada e que nem sequer via os patos.
Tal como previra, um dos patos exclamou, em tom de aviso:
— É o Iktomi!
Mas este não pareceu reparar no bando ansioso e continuou o seu caminho. Os patos continuaram a observá-lo. Como ninguém gosta de ser ignorado, e como Iktomi os estava a ignorar, os patos começaram a chamá-lo. Até que o homem se voltou para eles, fingindo surpresa.
— Como estão, amigos? O que estão a fazer?
— Estamos a dançar, a celebrar este dia magnífico!
— Fico feliz por vós — disse Iktomi, e pôs-se de novo a caminho.
Os patos não sabiam o que fazer para descobrir o que se passava com Iktomi.
— Porque levas esses paus às costas?
Iktomi limpou o suor da testa e pareceu ter pressa de ir embora.
— Isto não é bem lenha, sabem. São canções. Canções sagradas. Levo-as para uma celebração que se vai realizar no rio. Estão à minha espera e tenho de lá chegar antes do pôr do sol.
— Não te vás ainda! — suplicaram os patos. — Canta-nos uma dessas canções.
Iktomi mostrou-se impaciente.
— Preciso de descansar. Estou a andar desde o nascer do sol. Talvez depois de recuperar o fôlego vos possa cantar uma canção.
Iktomi sentou-se na relva e acrescentou:
— Mas sabem, não sei se vocês devem ouvir estas canções sagradas.
Os patos clamaram:
— Só uma! Só queremos ouvir uma!
Todos nadaram até à margem e correram pela relva até junto dele. Era difícil resistir à tentação de agarrar logo num deles. Gordos como eram, o homem sabia que a sua carne assada seria tenra e suculenta.
— Está bem — anuiu. — Canto-vos uma canção e depois vou-me embora.
Os patos voltaram à água, felizes de antecipação. Não era todos os dias que ouviam uma canção sagrada. Iktomi tinha vontade de rir, mas conteve-se. Tinha de continuar a fingir. Passados alguns minutos, desatou o feixe e estudou os paus, um a um. Os patos seguiam com curiosidade os seus murmúrios e acenos de cabeça, sempre que pousava um pau.
— O que estás a fazer? – perguntaram.
— Estou à procura da canção certa para vós — explicou sabiamente.
— Escolhe-a bem que nós esperamos.
Iktomi continuou a escolha dos paus até selecionar um, por fim. Era um pau forte e servia exatamente para o que ele queria. Para os patos, não passava da canção certa.
— É este! — anunciou finalmente.
Os patos alegraram-se. O seu grasnar era insuportável, mas Iktomi sorriu.
— Já que se trata de uma canção sagrada, há algo que devem fazer antes de eu começar a cantar.
— Diz-nos o que fazer! — pediram os patos, excitados.
— Quando eu começar a cantar, vocês devem fechar os olhos. Esta canção é sagrada e não sei o que pode acontecer se abrirem os olhos durante a canção. Também eu fecharei os olhos, porque conheço o poder destas canções. Compreenderam?
— Sim, compreendemos! — gritaram os patos em uníssono.
Iktomi encontrou um lugar macio na relva e sentou-se, segurando o pau na mão. Aclarou a voz.
— Aviso-vos de que se abrirem os olhos durante a canção, eles ficarão vermelhos para sempre. Seja o que for que aconteça ou que quer que ouçam, mantenham os olhos fechados. Trata-se de uma canção sagrada e nunca se sabe o que pode acontecer.
— Manteremos os olhos fechados — prometeram os patos.
Iktomi pigarreou, fechou os olhos e inclinou a cabeça. Ficou assim algum tempo e depois começou a cantar. A voz subia e descia de forma ritmada, porque Iktomi cantava bem. Os patos estavam impressionados. Fecharam os olhos e foram nadar e dançar. O homem esforçava-se o mais que podia, porque o estômago lhe doía cada vez mais. Abriu um olho devagar e viu que os patos ainda tinham os olhos fechados. A água estava branca da espuma que eles faziam a dançar. Iktomi continuou a cantar, apesar da vontade cada vez maior de comer os patos.
Quando se certificou de que os animais estavam bem concentrados na dança, levantou-se e foi até à margem. Também começou a dançar, para que os patos de nada desconfiassem se abrissem os olhos. Mas nenhum deles o fez. Depois de fazer ouvir a sua voz, vinda de várias direções, Iktomi entrou na água. Devagar, nadou até junto dos patos. Levantou o pau e tentou vários movimentos, sempre a cantar.
Quando já estava bem no meio deles, atingiu um pato, mas havia tanto barulho que os outros nem prestaram atenção. Em breve, havia vários patos mortos a flutuar e Iktomi já se imaginava a assá-los. Agora sem cuidados especiais, continuou a matar os patos até que um deles abriu os olhos, estranhando o silêncio, e viu o que se estava a passar. Lançou um grito de aviso:
— Fujam! Fujam que ele mata-nos a todos!
Os outros patos abriram os olhos e depararam com a carnificina. Conseguiram fugir de Iktomi, mas era demasiado tarde para a maioria. A canção do homem transformou-se numa gargalhada, à medida que recolhia o saque. Os patos restantes já voavam longe, mas ficaram sempre com os olhos vermelhos. Podem ser vistos a voar ou a flutuar num lago, deitando olhares furtivos à esquerda e à direita, não vá Iktomi aparecer de novo.
Quanto a este, festejou até mais não poder e depois adormeceu. Se alguma vez ele vos disser que tem canções para vós, não fechem os olhos enquanto ele canta. O problema é que nunca sabemos que forma assumirá para nos enganar.
Joseph M. Marshall III
The Lakota Way
New York, Penguin Compass, 2002
Tradução e adaptação
História de um chefe
Ouvi esta história no „Anjo“, à noite, após um concerto numa pequena cidade. Costumo sentar-me sozinho numa mesa, pois não conheço ninguém e ninguém me conhece. Depois do concerto, as salas do restaurante ao lado do teatro encheram-se. Ao fim de duas horas a ouvir canto, é agradável poder-se conversar.
Como as mesas não chegavam, houve que procurar lugar em volta e, assim, acabei por ficar, único desconhecido, no meio de um grupo.
Elogiaram-se os músicos e os cantores. E tudo, de facto, fora magnífico, até ocorrer um pequeno incidente. No preciso momento em que a solista, a meio da sua parte, chegara ao dó agudo, fora arremessada uma bola de neve contra as janelas de vidro.
A cantora assustara-se. Por um instante, cantora e orquestra deixaram de estar uníssono. O maestro ficou nervoso, e pelo público passou um pequeno mas percetível murmúrio de indignação.
Era sobre isso que se falava à mesa. Uma senhora dizia que os jovens de hoje eram pouco respeitadores. E que quem tinha sido tão mal-educado devia ser punido.
Um cavalheiro disse casualmente:
— Deixe o problema comigo. Eu vou descobrir o patife.
— Patife talvez seja demasiado forte — disse o meu vizinho da direita.
— Claro! — exaltou-se a senhora. — Ainda por cima a defender o patife! Já não chega ter perturbado o concerto, e a cantora quase ter desmaiado. E podia ter acontecido pior. Sim, e se a bola tivesse partido o vidro, tão antigo e valioso?
— Sim, se! — E o meu vizinho continuava agora a conversa. — Além disso, e a bola de neve? O que acha da bola de neve? Pode facilmente atingir os olhos, não é? Ou um chapéu alto!
Que o tema não era para brincadeiras, observaram resolutamente os companheiros de mesa.
— Não tinha intenção de brincar — continuou o meu vizinho. — Mas ainda não lhes contei a história da bola de neve e do chapéu alto. Reparem, isto passou-se na minha infância, na minha cidade natal no Reno. Também naquela altura se pensava que as crianças de antigamente eram mais bem-comportadas. Mas, o que é facto, é que não éramos nenhuns cordeirinhos. Bastava pensarmos no Bernardo, a quem, na escola, chamáramos chefe. Comandava-nos nos jogos de índios. Era o meu colega de carteira. Haviam de o ter ouvido nas ruas no meio da multidão. A sua voz chegava até à outra margem do Reno. Mas, nas aulas de latim, era mudo como um peixe.
Na escola não tinha imaginação nenhuma; cá fora, entre os companheiros, não lhe faltavam ideias. Certo dia, quando estávamos a jogar ao berlinde na praça do mercado e ele tinha uma bola de níquel na mão, disse:
— Apostam em como consigo acertar com a bola na condecoração de Jan Wellem?
Jan Wellem, para que saibam, era um general de bronze que estava em cima de uma alta coluna e era o monumento mais famoso da nossa cidade. Ainda não tínhamos respondido e o projétil já ia a caminho. O Bernardo era o nosso melhor defesa mas, daquela vez, não acertou na condecoração, nem mesmo em Jan Wellem. A bola caiu em cheio no pavimento, fez ricochete e foi bater com toda a força no vidro da montra da florista. Debandámos, cada um para seu lado, como se alguém tivesse atirado uma lata para uma árvore cheia de pássaros.
Nenhum de nós sabia que prejuízos tinha causado, por isso, passado algum tempo, mandámos um espião inteirar-se da situação. A bola perfurara o vidro sem o ter partido. Um buraco minúsculo mas suficiente para nos deixar inquietos. Porém, o chefe não mostrava a menor inquietação e limitou-se a dizer: — Escapámos desta!
Mas não escapámos. O Titus, nome que tínhamos dado ao nosso reitor, por ser muito severo, fez reunir na sala de coro, no dia seguinte depois das aulas, todos os alunos da praça do mercado e redondezas.
— Como o patife não se apresentou, tenho de ser eu a descobri-lo ou esperar até que se acuse. E ficamos na sala até que isso aconteça. Natércio, vais a minha casa dizer à minha mulher que não vou almoçar.
Depois, o Titus sentou-se à secretária e desdobrou o jornal. E lá ficámos sentados, uma boa dúzia de alunos da primeira até à quarta classe, culpados e não culpados.
Secretamente, não pude deixar de admirar Bernardo. Mostrava a cara mais inocente do mundo. Decorrera talvez um quarto de hora e os nossos estômagos rugiam tanto como se houvéssemos estado presos toda a tarde. O Titus dobrou então o jornal e pô-lo de lado, dizendo:
— Podem sair todos. Fica só o Bernardo.
O epílogo? Reunião, expulsão da escola. Ao Bernardo deve ter custado, não tanto a expulsão da escola, mas o facto de a mãe, viúva de um funcionário público, ter tido de pagar os estragos. Estávamos presentes quando o vidro partido foi trocado por um novo.
O meu vizinho deu um fundo suspiro. Sentia-se que a antiga história ainda estava muito presente nele.
— Mas onde entra a bola de neve? — perguntou a senhora à nossa mesa.
— Sim, a bola de neve. A questão da bola de níquel estava resolvida. A propósito, querem saber como é que o Titus descobriu o autor? Digo autor, porque se o Bernardo foi um patife ou um malandro, são vocês que decidem quando acabar a história. Ora bem, o Titus tinha feito um buraco no jornal. E assim que os estômagos, um trás de outro, começaram a dar horas, só foi preciso ver quem olhava para quem. Foi assim que o Bernardo foi involuntariamente denunciado.
Contou-me o Titus, quando regressei à sua instituição como jovem professor de liceu.
— E a bola de neve? — perguntou a senhora, agora impaciente.
— Isso conta-se em poucas palavras. O Bernardo começou a frequentar a escola da cidade vizinha. A bola tinha mudado a sua vida. Escolhemos um novo chefe. Talvez o Bernardo não tivesse tempo para conviver connosco. Pouco depois, ouvimos dizer que se tornara um dos melhores alunos da escola. Só nas férias é que se juntava ao grupo da praça do mercado. E foi aí que aconteceu o azar com a bola de neve, precisamente em frente da casa onde morava a mãe dele. Estávamos a atirar bolas de neve uns aos outros. Não era uma batalha porque as bolas já praticamente se tinham tornado pedaços de gelo. Esta brincadeira até a nós, rapazes, inspirava respeito que nos limitávamos a fingir que as lançávamos uns aos outros. Mesmo assim, procurávamos arreliar as meninas metendo-lhes pedaços de gelo pelo pescoço abaixo.
De repente, parámos o jogo. O Titus seguia orgulhosamente direito pelo passeio fora. Trazia um casaco preto comprido com gola de pele e um grande chapéu alto. “Talvez vá a algum enterro,” pensava eu, quando uma bola de neve, vinda de cima, um daqueles perigosos pedaços de gelo, cai sobre o chapéu alto e esmaga o cilindro preto em cima da cabeça. O chapéu cai. O reitor cambaleia, dobra-se para apanhar o chapéu e eu vejo que a testa começara a sangrar-lhe. No terceiro andar, a menina Adela, à varanda, torce-se a rir. Naquele momento, o Bernardo sai de casa a correr e pára, assustado, em frente do reitor, que sangrava. O Titus endireita o chapéu, limpa a testa com o lenço, os olhos a faiscar.
— Patife — sibila o reitor, dando uma sonora bofetada ao rapaz. Ele não se mexe e limita-se a dizer:
— Desculpe.
O reitor segue caminho e uma a segunda bola, vinda de cima, acerta no ombro do Bernardo.
A menina Adela, à varanda, continua a rir-se.
— Pena que não tenhas um chapéu alto! É muito melhor para fazer pontaria! — grita a pequena selvagem.
Pronto, chegou ao fim a história da bola de neve. Agora digam-me: este Bernardo era mesmo um malandro, um patife?
Fez-se silêncio na nossa mesa. Só ao fim de algum tempo, a senhora perguntou:
— O senhor não se chama também Bernardo?
— Sim — respondeu o meu vizinho. — Bernardo, como o meu colega de carteira.
Heinrich Maria Denneborg
Michael Ende; Irmela Brender (org.)
Bei uns zu Hause und Anderswo
Stuttgart, K. Thienemanns Verlag, 1976
(Tradução e adaptação)
A bordadeira
PRIMEIRA PARTE
Como é possível que pedaços de céu tenham caído naquele dia no pátio da casa dos bordados? Grandes tecidos azuis pintados de fresco pendiam aqui e além. Por momentos, o vento erguia-os e deixava ver grandes potes cheios de índigo fermentado alinhados por cores ao longo do muro, do lápis-lazúli ao azul-escuro passando pelos azuis porcelana, miosótis, azul ultramar e os marinhos sombrios, todos os matizes de uma cor a nascer…
À sombra dos tecidos ondulantes, Setsuko suspirava ao repuxar o fio de seda. Acabava de bordar um ramo de cerejeira em flor, mancha de espuma perdida no meio do oceano. O tecido escorregava-lhe do colo. Com um olhar vago, a mestra fez-lhe sinal para levantar o trabalho. As cabeças das bordadeiras inclinaram-se ainda mais, mostrando a descoberto os pescoços delicados.
Pela face de Setsuko deslizou uma lágrima, pérola de sal numa face de porcelana fina. Por mais que se aplicasse, os seus desenhos saíam-lhe sempre desajeitados. O pássaro não parecia voar, a flor era demasiado pálida, o dragão não era deslumbrante, às borboletas faltava leveza… O coração apertava-se-lhe, como flor de lírio caída sob uma árvore depois de uma chuva de granizo…
E todavia, como idosa a andar suavemente, o tempo tinha avançado pouco a pouco sem que ela se apercebesse: estava na hora de despegar. As bordadeiras arrumaram as suas coisas e separaram-se, qual bando de pássaros antecipando a estação das chuvas.
— Adeus, adeus! — chilreavam as meninas. — Amanhã é a festa das crianças, temos de nos despachar!
— Olhem! — dizia uma delas, — já há papagaios no céu. Vejam! Uma carpa! Uma rã! E também um gato!
Setsuko subiu a rua. Ia andando sem prestar atenção e acabou por afastar-se do seu caminho. As lanternas de papel começavam a acender-se, as tabuletas moviam-se ao sabor do vento, batendo por vezes contra as paredes. Ia arrefecendo. Nuvens de seda cor-de-rosa percorriam o céu azul esbatido, apressando-se como meninas que respondem a um convite!
Nada mais reconfortante para uma alma triste do que uma festa! Seguindo a multidão, os passos de Setsuko tinham-na levado para muito longe, até à beira do rio onde as cerejeiras ainda tinham flor… Ao ir-se embora, atraída pelo som de um shamisen[1], encontrou de repente um homem com o seu kamishibaï[2]. Num quadro de bambu desfilavam imagens que ele ia desenrolando lentamente. Foi então que surgiu a história do Texugo e da Raposa. Os risos das crianças ecoavam como uma onda gigante… O narrador modulava habilmente um som roufenho e afetado, a imitar o texugo, articulando cada palavra e modulando cada frase:
— Ooooh! Lamento, Senhora Raposa, embora o seu disfarce tenha sido absolutamente fabuloso, hum! hum! Juro, palavra de Texugo, dentre todos os texugos, rei da Metamorfose, que a reconhecemos! E apesar de todo o cuidado que pôs em imitar ao pormenor o imenso cortejo que acompanha uma princesa no dia do casamento, deixou escapar a cauda por baixo do casaco do último samurai!
O shamisen seguia a melodia da voz. A imagem sobre o kamishibaï era expressiva, o texugo pavoneava-se, arrogante, a raposa confundida mostrava uma cara zangada.
Setsuko ria às gargalhadas. Gostava muito daquela história tantas vezes ouvida quando era pequena. Até a bordara uma vez num quimono. Pôs-se a observar o velho contador. Parecia boa
pessoa. O seu rosto magro era dourado como uma bolacha estaladiça, cozida pelo sol dos caminhos. Começou ele então uma fábula que ela desconhecia. E, desta vez, adotava a voz trémula e doce de uma velhinha. Evocava o estranho país das fiandeiras malditas que cantam melopeias enquanto trabalham. Olhava com insistência para Setsuko:
— Vem! — murmurava ele. — Vem buscar o fio de seda de ouro que borda sozinho, sozinho….
O tom era envolvente, apelativo. Setsuko estremeceu, mas não fez qualquer esforço para resistir à sedução do sortilégio. A sessão chegou ao fim e, lutando contra a multidão que se dispersava, Setsuko lá conseguiu aproximar-se.
— Por favor, leve-me consigo! Quero encontrar esse fio!
O velho sorriu-lhe, e antes de mais, disse-lhe ela ainda:
— A minha tia quer ver-se livre de mim, vou avisá-la, é um instante.
Foi a casa a correr e pouco depois regressou, com uma pequena trouxa às costas. O velho contador estava pronto, à sua espera. E afastaram-se no crepúsculo da tarde, o contador a puxar a carroça com a rapariga ao lado.
♦♦♦♦♦♦
Ao saírem de Quioto, uma chuva de Primavera escorria dos telhados. Não era a primeira vez que alguém desejava acompanhar o velho contador na sua caminhada.
— Sou o Homem das Cem Vozes — disse ele a Setsuko, — mas podes chamar-me Otochan ou pai. Já tive uma neta parecida contigo.
Depois começou uma melopeia que deixou Setsuko intrigada:
Fiandeiras, fiandeiras
matreiras,
tecei, tecei
a estopa
com os vossos cabelos.
Fiandeiras, fiandeiras
cortai os nós
enredai nos fios
amantes cegos de paixão.
Foi então que lhe falou das fiandeiras malditas.
— Onde é que elas moram? — inquiriu Setsuko.
— Muito perto ou muito longe, a estrada que vai para lá está sempre a mudar, nunca é a mesma.
A lua surgia por detrás dos montes e depois escondia-se, deixando os rostos na penumbra. Uma paz infinita emanava do velho contador.
Os dias sucediam-se como nós em canas de bambu…Uma noite em que estavam muito cansados, uma forte trovoada fê-los procurar abrigo a toda a pressa. Dirigiram-se para uma casa com telhado de colmo que lhes parecia acolhedora. Uma mulher sumptuosamente vestida mandou-os entrar. Ao segui-la, ficaram admirados com a quantidade de peças de roupa que usava: uma túnica de cerimónia carmesim cobria as costas de um casaco comprido turquesa que, por sua vez, deixava ver um vestido escarlate. Mas o mais incrível eram os desenhos tão belos e fascinantes que mais parecia estarem vivos. Havia até um dragão que abria e fechava a boca, cuspindo chamas ao ritmo da ondulação das dobras do fato.
No meio de um compartimento imenso, mulheres habilidosas teciam em grandes teares. Setsuko aproximou-se e ficou dominada pela beleza dos tecidos. Seriam aquelas as fiandeiras malditas?
Subiram umas escadas de madeira, sempre atrás da mulher. Esta indicou-lhes um canto no sótão.
— Vão dormir aqui — disse-lhes ela — mas não façam barulho porque o meu marido vai chegar a casa muito cansado. Precisa de descansar.
Lá se instalaram. Fora, o vento rugia como um animal ferido. Tinham acabado de se deitar nas suas esteiras quando um alarido os fez sobressaltar. Um tropel de cavalos nervosos à mistura com ordens roucas de homens. Ouviu-se toda aquela gente a entrar. Por uma fenda do soalho, Setsuko tentou espreitar para o compartimento que ficava por baixo, mas tudo era escuro! As fiandeiras já tinham terminado o dia de trabalho e ido embora. Um criado trouxe-lhes sopa quente em tigelas de porcelana, finamente decoradas. Depois Setsuko deitou-se e adormeceu ao lado do seu companheiro de viagem.
CONTINUA NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA
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1 O shamisen ou siamise é um instrumento musical japonês, com três cordas, cuja caixa de ressonância tem um tampo de pele de gato ou cobra. Passou a ocupar o lugar do Biwa (antiga balalaica japonesa) nas músicas narrativas devido ao seu som mais potente.
2 O kamishibai (literalmente "jogar com o papel") é uma narrativa cuja origem remonta ao século XII, quando nos templos budistas os monges usavam os emaki (rolos de desenhos) para transmitir histórias moralizantes para um público em geral analfabeto. Hoje é uma espécie de teatro itinerante, onde se continua a contar histórias através de rolos de papel.
François Richard; Anne Buquet
La brodeuse
Paris, Éd. du Seuil,1995
(Tradução e adaptação)
No intuito de darmos continuidade ao anterior projecto, “Um dois três era uma vez”, embora em moldes que se pretendem mais abrangentes, reiniciamos o envio semanal de pequenas histórias para crianças e adolescentes, por vezes acompanhados de textos dirigidos a um público adulto, convidando à reflexão, e também ao sonho, que tão necessários se tornam numa sociedade em que o materialismo tem crescido desmedidamente, a ponto de abafar os valores mais genuínos do ser humano: o respeito pelos outros, a ternura, a delicadeza, a compaixão pelos que sofrem, a generosidade.
Esperamos que o projecto, que agora passa a chamar-se “Um dois três, era outra vez”, continue a encontrar leitores assíduos entre aqueles a quem se dirige, e possa proporcionar agradáveis momentos de partilha entre pais e filhos.

E…diga-nos o que pensa das histórias que lhe forem chegando!
Responda-nos para: 1...@isep.ipp.pt
Ideia: Teresa Tudela e Betina Campos Neves
[1] O shamisen ou siamise é um instrumento musical japonês, com três cordas, cuja caixa de ressonância tem um tampo de pele de gato ou cobra. Passou a ocupar o lugar do Biwa (antiga balalaica japonesa) nas músicas narrativas devido ao seu som mais potente.
[2] O kamishibai (literalmente "jogar com o papel") é uma narrativa cuja origem remonta ao século XII, quando nos templos budistas os monges usavam os emaki (rolos de desenhos) para transmitir histórias moralizantes para um público em geral analfabeto. Hoje é uma espécie de teatro itinerante, onde se continua a contar histórias através de rolos de papel.
SEGUNDA PARTE
Durante a noite acordou com ruídos de quem esfregava, estalidos, cochichos. Depois, barulhos estranhos no silêncio profundo da casa puseram-na alerta. Desceu as escadas. O atelier parecia deserto. Mas ela nem queria crer no que via! Sobre o chão varrido por um raio de luar corriam aranhas. Aranhas pretas com grandes patas ágeis, gordas como mãos. Puxavam, puxavam por alguma coisa na extremidade de um fio, trepavam para cima dos tecidos e continuavam a puxar…
Aquilo prolongou-se por muito tempo… Depois, os tecidos mexeram-se, melhor dizendo, eram os desenhos, as carpas, os pássaros, os grous, as ondas, as paisagens, que tentavam a todo o custo escapar-se da trama do tecido! Debatiam-se, querendo desenlaçar-se dos fios que os retinham. Mas as aranhas apertavam, apertavam e, em breve, todos deixaram de se mexer.
Setsuko, siderada, lembrou-se dos bordados do vestido da anfitriã que pareciam tão habilmente executados… Que sortilégio os tornaria vivos durante a noite? Mas, nesse momento, sentiu que alguém se encontrava atrás dela. Uma sombra avançou por cima da sua cabeça e ela virou-se: uma forma longilínea gesticulava com os seus grandes braços. Era a anfitriã, com um vestido de noite, ondulante, cor de fuligem. Mulher-escarlate de dia, tornara-se mulher-sombra de noite.
— Que estás a fazer aí, como uma pega a examinar um estojo de bordado? — gritou ela numa voz ameaçadora — Sai imediatamente daí! — E agarrando Setsuko pelo braço, obrigou-a a segui-la.
— O que acabas de descobrir é segredo, — disse ela com voz flauteada — e ninguém o pode revelar… Sim, os desenhos são vivos… O dono da casa anda à caça dia e noite para os arranjar. Vendo bem, minha menina, tu és um achado para ele! Já não precisa de ir à caça! A tua linda carinha dará um belo desenho para o meu quimono verde!
E agitou uma pequena campainha. Petrificada, Setsuko viu que os painéis deslizavam, empurrados por uma mão invisível. Sombras negras corriam pelo chão. A mulher deu uma ordem. Num abrir e fechar de olhos, as aranhas dirigiram-se para uma pobre Setsuko estarrecida, e treparam por ela acima sempre a tecer. Setsuko viu-se completamente envolta numa ganga de fios que a mantinham como num casulo.
Depois, as aranhas fizeram rodar aquele cone penugento, enquanto cantavam:

Ah! Bobina! Ah! Sim, bobina!
Bobina é o que tu és agora!
Sim! Sim! Sim!
Bobina! Sim! Bobina!
Com estas palavras sem sentido, levaram-na para dentro de uma arrecadação, contígua ao atelier. Depois saíram e correram o painel mural sobre o silêncio e a prisão de seda de Setsuko.
♦♦♦♦♦♦
De manhã, a tecelagem voltou ao ritmo habitual.
O velho contador acordara cedo e ficou muito admirado com o desaparecimento da sua protegida. Porém, quando a mulher-escarlate lhe garantiu que ela tinha ido embora de vez, ele não acreditou. Pôs-se calmamente a fazer a trouxa e a pensar como encontrar Setsuko. Saiu pela porta como se fosse partir, mas deu uns passos e foi esconder-se atrás de um silvado para melhor observar as idas e vindas. E não foi em vão a sua espera porque, em breve, assistiu ao regresso prematuro do dono da casa. Este acabava de capturar um jovem de ar distinto que se debatia com todas as forças. Para conseguirem os seus intentos, o patrão e a anfitriã de vestido púrpura fecharam-no com Setsuko.
— Vão ser cosidos já esta tarde. Darão uns lindos desenhos! — gritou-lhes a mulher-escarlate.
De Setsuko, o jovem apenas conseguia ver os olhos, que pareciam duas borboletas perdidas num bosque sombrio. Sorriu para ela como nunca tinha sorrido a ninguém. E entre eles passaram-se aquelas coisas indizíveis que nem sequer podem descrever-se… De onde poderia vir aquele raio de sol no meio das trevas da arrecadação?
Com a sua espada, o rapaz tentou cortar os tão apertados fios do invólucro de Setsuko, mas em vão. Precisaria de dias e dias. Estava já quase sem forças, quando de fora uma voz se pôs a cantarolar:
Fiandeiras, fiandeiras
matreiras,
tecei, tecei
a estopa
com os vossos cabelos.
Fiandeiras, fiandeiras
cortai os nós
enredai nos fios
amantes cegos de paixão.
Era o Homem das Cem Vozes. Lá estava ele. Tinha entrado em casa disfarçado de vendedor de ovos, de dangos[1] e de mochis[2]. Onde terá ele ido encontrar aquele trajo? Talvez à aldeia… O certo é que tinha cem vozes. Modulava o som ao sair da boca de uma forma incrível e cada uma das suas vozes tinha uma qualidade particular. Uma delas tinha o poder de desenlaçar cordas e amarras. Outra permitia-lhe desmontar fechaduras, abrir os painéis.
Mal chegou junto da rapariga, a sua voz desbobinou imediatamente o casulo e Setsuko pôde estender os braços e as pernas entorpecidos. Apenas um fio de ouro continuava enrolado no pulso…
— Rápido! — murmurou o idoso. — Libertamos os outros desenhos e fugimos!
Escaparam-se sorrateiramente por detrás dos tabiques, atentos às sombras projetadas na parede, preocupados com o menor sopro de ar. E o velho contador pôs-se de novo a cantar. A sua voz elevava-se no ar como um pássaro. Os painéis puseram-se a vibrar, a entreabrir-se, e de lá saíam, como de um sonho, peixes, bandos de grous cinzentos, árvores em flor, cascatas, folhas de ácer, caranguejos, margens de rios e leques, ondas e até uma montanha envolta em bruma…Nunca se vira um conjunto tão admirável…
Porém o alerta já tinha sido dado. A mulher-escarlate tinha-se apercebido do desaparecimento do rapaz e da rapariga.
— Não faz mal! — disse o Homem das Cem Vozes. — Não posso acompanhar-vos. Entrego-vos os desenhos, voltem a colocá-los no lugar de onde nunca deviam ter saído. Adeus, Setsuko! Pensa em mim de vez em quando. Tenho de impedir esta mulher. Fujam!
Setsuko fazia um esforço para não chorar. Desataram a correr, levando atrás deles o fantástico cortejo.
♦♦♦♦♦♦
Quanto ao velho contador, dirigiu-se com determinação à mulher-escarlate, decidido a enfrentá-la à sua maneira. Cortou-lhe a passagem.
— Desculpe, minha senhora, mas gostaria de a distrair. Sou contador de histórias e a rapariga que acaba de nos deixar é a melhor bordadeira de Quioto. Permita-me que lhe ofereça todos os segredos que me revelou durante a nossa viagem. Poderão vir a ser-lhe úteis…
— Deixe-me, tenho de agarrar rapidamente aqueles desenhos!
— Mas os desenhos não necessitam de nenhum ser vivo! Ouça, o mais importante de tudo é saber escolher os materiais… Seda para os dias de festa, linho ou cânhamo para o dia-a-dia!
— Vá, deixe-me passar! O que está a dizer não serve para nada! Mas afaste-se, deixe-me passar, a única coisa que me interessa são os desenhos!
— Não tem necessidade nenhuma de correr atrás deles! A cor! Gosta da cor? Cada estação tem o seu tom!... Na Primavera, usar vestuário coberto de flores, como a ameixoeira e a cerejeira… No Verão, tecidos cheios de sol, com matizes de azálea e de glicínia… Para o Outono, cobrir-se de folhas de ácer avermelhadas, ou de trevo dos bosques.
— Uma vez mais lhe peço que esteja calado e se vá embora! Bem vê que tenho de agarrar aqueles desenhos!
— Mas eu posso ajudá-la! Não se impaciente porque eu vou ensiná-la a arranjá-los! Os desenhos mais belos da terra! Ouça-me bem!
E falou numa voz muito meiga, persuasiva, olhando-a bem nos olhos:
— No decurso de um passeio ao campo verdejante sob o imenso céu, convirá caminhar longamente, depois olhar à sua volta, sonhar, captar as imagens com os olhos e depois guardá-las no fundo do seu espírito. Quando chegar a casa, conservá-las com a ajuda de um poema…Por exemplo, na Primavera:
O ramo em flor
oculta a claridade da lua.
Ou então, no Outono:
Vestido de bruma
tecido com orlas de orvalho.
Ou ainda, no Outono:
Na neve, a garça-real
voa entre os pinheiros.
E assim esteve a falar por muito tempo, a explicar-lhe como devia impregnar-se destes poemas para encontrar os esboços cobiçados… E fê-la esquecer-se do tempo… A mulher-sombra estava perturbada, perdida… Quando ele se calou, sob o encanto da voz do velho contador, ela tinha-se esquecido de si e do lugar onde se encontrava.
— Vejam só! Já não sei o que tinha a fazer e agora os fugitivos já devem estar muito longe! Não importa! Já que é assim, vai ficar aqui! Visto que já não há desenhos para bordar, é você quem vai ensinar as bordadeiras com essa voz mágica! Você que é tão forte em linguagem e em belos discursos, vai inspirá-las e ensinar-lhes o trabalho!
Neste entretanto, o jovem e Setsuko tinham chegado à montanha. Tal como o pintor pousa delicadamente alguns retoques de cor na sua pintura, assim, com todo o cuidado, eles procuraram o lugar de cada desenho. Em seguida, depois de colocarem a última libélula sobre um junco, dirigiram-se livremente para a aldeia de Kaida. Era aí que o jovem morava…
♦♦♦♦♦♦
Como acabou a história?
Dado não haver rapariga mais bela e mais prendada do que Setsuko, o jovem pediu-a em casamento… Ou talvez esta tenha regressado a Quioto para aperfeiçoar a sua arte de bordadeira, agora com a ajuda do fio de ouro… Ninguém sabe, mas o velho contador encantou por muito tempo com os seus poemas os habitantes da casa misteriosa, e todos recordam ainda a sensação de frescura quando o estribilho se elevava no ar como canto de ave, ao romper da manhã.
Algum tempo depois, quando o Inverno estava a chegar, estendeu-se certa noite no chão e, antes de entregar a alma, escreveu o seu último poema:
Para cada momento
há um desenho
diferente.
Um dia passei por aquela região e foi assim que fiquei a conhecer a história inacabada de Setsuko, a bordadeira de Quioto.
Se quiserem encontrar o lugar, duvido seriamente que o consigam…
A estrada que lá conduz está sempre a mudar, nunca é a mesma…
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1 Dango é uma espécie de bolinho japonês feito à base de mochi, uma pasta de arroz. Come-se muitas vezes acompanhado de chá verde.
2 Os mochis são pequenos bolinhos de arroz redondos, com diversos sabores : a sésamo, feijão vermelho, amendoim….
François Richard; Anne Buquet
La brodeuse
Paris, Éd. du Seuil,1995
(Tradução e adaptação)
No intuito de darmos continuidade ao anterior projecto, “Um dois três era uma vez”, embora em moldes que se pretendem mais abrangentes, reiniciamos o envio semanal de pequenas histórias para crianças e adolescentes, por vezes acompanhados de textos dirigidos a um público adulto, convidando à reflexão, e também ao sonho, que tão necessários se tornam numa sociedade em que o materialismo tem crescido desmedidamente, a ponto de abafar os valores mais genuínos do ser humano: o respeito pelos outros, a ternura, a delicadeza, a compaixão pelos que sofrem, a generosidade.
Esperamos que o projecto, que agora passa a chamar-se “Um dois três, era outra vez”, continue a encontrar leitores assíduos entre aqueles a quem se dirige, e possa proporcionar agradáveis momentos de partilha entre pais e filhos.

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Ideia: Teresa Tudela e Betina Campos Neves
Flor-das-Neves
PRIMEIRA PARTE
Flor-das-Neves nascera no Japão, o país do sol nascente. Os pais moravam numa pequena aldeia, situada entre o mar e um antigo vulcão. Enquanto o mar ronronava como um gato à luz do sol, o vulcão gostava de dormir durante todo o inverno, bem protegido pela espessa camada de neve que o céu derramava sobre as suas encostas.
Os pais de Flor-das-Neves eram camponeses. Acompanhada pelos pais e pelos irmãos, a jovem passava longas horas com os pés metidos na água, a semear e a colher arroz. Quando o céu se encolerizava, trombas de água inundavam os arrozais e o vento arrancava árvores e fazia voar casas. Depois, era preciso começar tudo de novo. Cheia de paciência, a família reconstruía a casa, plantava de novo as árvores e tirava a água em excesso do arrozal.
Quando Flor-das-Neves ficava em casa, tomava conta da avó.
Kaori era uma velha pequenina, cujo rosto enrugado parecia estar sempre a sorrir. Passava os dias sentada numa esteira, a murmurar palavras que ninguém compreendia. Yoko, a mãe de Flor-das-Neves, dizia que ela falava com os antepassados. Ninguém sabia que idade a avó tinha, mas sabiam que tinha casado três vezes e que tinha enterrado três maridos.
Flor-das-Neves arrumava a casa, varria, lavava a louça. Depois, punha-se à porta a ver passar as pessoas. O seu coração batia com força quando via Tadashi, um rapaz da sua idade, que ela amava em segredo. Tadashi liderava sempre um grupo de rapazes e raparigas, e ria alto. De cada vez que o via, Flor-das-Neves esperava sempre que ele a visse. Mas os olhos do rapaz, grandes e intensos, nunca se detinham nela. Parecia até ignorar que a jovem existia. As gargalhadas desapareciam com ele e Flor-das-Neves ficava sozinha com o seu sofrimento e o seu segredo.
Também era seu encargo tomar conta do aviário, no qual o pai criava aves valiosas, que vendia para comprar roupa, utensílios ou alguns alimentos. A menina lembrava-se particularmente de uma íbis azul. Tinha dois olhos redondos como luas, umas patas altas e grandes, e um bico longo e finamente curvado. Percorria o aviário com passadas lentas, debicava a terra, endireitava o pescoço, e olhava a rapariga com um ar de mistério. Um dia, o pássaro desapareceu, porque o pai tinha ido vendê-lo bem cedo na cidade.
À noite, Flor-das-Neves sonhava com frequência com o pássaro azul. Aproximava-se em sonhos do aviário, via na terra as marcas das patas do animal e, de repente, este aparecia e olhava-a com os seus olhos bem redondos. O coração da rapariga enchia-se de alegria. Também sonhava que Tadashi parava diante da casa, com dois papagaios nas mãos, e que a convidava a ir lançá-los com ele. Corriam pelas encostas do vulcão e o vento levava-os pelo ar, juntamente com os papagaios. Flor-das-Neves e Tadashi planavam sobre a terra de mãos dadas, e riam. Sobrevoavam os arrozais, o vulcão, o palácio do príncipe, e chegavam ao mar. Nessa altura, a rapariga acordava sempre, com o coração muito agitado pelo sonho. Ficava acordada durante longas horas até ouvir o cantar do galo. Talvez naquele dia Tadashi reparasse nela.
O venerável Matsuo Seki morava na última casa da aldeia, mesmo antes do vulcão. Era escriba e poeta. Escrevia cartas de amor, cartas de condolências, ou respondia ao correio enviado pelos inspetores do príncipe. Também sabia escrever poemas. Goro, o pai de Flor-das-Neves, já lhe tinha pedido favores. Foi assim que a jovem o conheceu.
A casa do escriba ficava no meio de um jardim, adornado com um lago de flores de lótus. Era toda construída em madeira; as paredes eram feitas de pinho lacado e de papel cor de marfim. Belas lanternas pendiam do teto. O velho tinha pintado nelas dragões vermelhos e dourados, com olhos cheios de malícia.
O venerável Matsuo Seki vivia sozinho. Passava os dias sentado numa esteira, diante de uma mesa baixinha, onde se acumulavam pincéis, plumas e tintas. Flor-das-Neves tinha-o já observado a manusear o pincel com os seus dedos longos, e vira os traços de tinta que o instrumento deixava no papel de arroz. Faziam-lhe lembrar as patas da íbis azul no chão do aviário.
Um dia, Flor-das-Neves foi de novo observar o velho escriba. Atravessou o jardim, encostou-‑se à parede, perto da porta-janela, e manteve-se escondida e silenciosa, para não irritar o homem. Mas este estava tão absorvido na sua tarefa que nem reparara nela. De vez em quando, erguia os olhos fatigados, sorria para os dragões das lanternas, e recomeçava a escrever. Flor-das-Neves bem gostava que um dragão malicioso lhe desse o poder de entrar na cabeça do velho, para compreender o mistério dos símbolos que ele traçava no papel de arroz. Devia ser algo de tão maravilhoso quanto voar como um papagaio e observar, do alto, os arrozais, o mar, as florestas, as casas, os animais e as pessoas.
― Deve ser por isso que o velho mestre não me vê. Quando traça os signos, esquece a casa, as árvores, as pessoas. Passeia num jardim secreto e invisível.
Um dia, quando a rapariga estava escondida perto da porta, Matsuo, perguntou, sem levantar os olhos do papel:
― Posso ajudar-te em alguma coisa?
Pensando que o mestre falava com algum cliente, Flor-das-Neves virou-se.
Mas o jardim estava deserto.
― Sabes fazer chá, Flor-das-Neves?
― Sei, venerável mestre ― respondeu a rapariga, perguntando-se como saberia ele o seu nome.
― Então, aquece água, prepara o chá e põe as chávenas. Beberemos juntos.
Flor-das-Neves ficou tão comovida que até virou um pouco de água na esteira, enquanto enchia a chaleira. Limpou a água com a manga e disse:
― O chá está pronto, mestre.
Matsuo Seki veio sentar-se na mesa, diante de Flor-das-Neves. Levou a chávena de faiança aos lábios, pousou-a e olhou fixamente a jovem, como se quisesse gravar na memória cada detalhe do seu rosto.
Perguntou-lhe novamente:
― Posso ajudar-te em alguma coisa?
Flor-das-Neves sentiu o coração a bater com força quando respondeu:
― Queria ser escriba como vós, venerável mestre.
― É um caminho longo e difícil, sabes?
― Sim, eu sei.
― Vem comigo. À força de olhares para mim, de certeza que já aprendeste a ser paciente.
Saíram da aldeia e começaram a percorrer as encostas do vulcão. O inverno estava no fim e o sol fazia aparecer pequenos riachos na superfície gelada da neve.
― Diz-me o que vês.
― Vejo neve.
― E o que mais?
― Mais neve.
― Presta bem atenção. Não consegues ver os riachos finos que começam a correr? São como serpentes minúsculas feitas de água e de luz.
― Já estou a vê-los.
― Fá-los entrar nos teus olhos. E absorve também a luz que brinca no cume do vulcão. De que cor é?
― Amarela, creio — respondeu Flor-das-Neves.
― É dourada e um pouco prateada ao mesmo tempo. E tem um tom azul suave mesclado.
Quando regressavam a casa, a rapariga reparou nas marcas que um grande pássaro deixara na neve.
― O que é isto, mestre?
― Decora estas marcas também.
Matsuo Seki foi falar com os pais de Flor-das-Neves, para saber se estes concordavam com as lições da filha.
― Ajudar-me-á a cuidar da casa. Em troca, ensino-lhe tudo o que precisa para ser escriba pública.
Nesse mesmo dia, a rapariga foi morar em casa do mestre. Este mandou fazer roupas de boa qualidade para a aluna, nem demasiado estreitas nem demasiado largas, para não atrapalharem os gestos.
Ao passar diante de um espelho, Flor-das-Neves teve dificuldade em reconhecer a jovem que envergava agora um belo quimono branco.
Em primeiro lugar, aprendeu a cuidar dos pincéis, a lavá-los, a alisá-los. O mestre mostrou-‑lhe como triturar as cores e como misturá-las com água para obter uma tinta homogénea. Colocou-‑lhe, depois, um pincel entre os dedos.
― Pensa no mar, Flor-das-Neves. O teu punho é como um barco que acompanha o ritmo das ondas.
Um dia chegou o difícil momento de aprender os traços que compõem os caracteres: o soku, que vai da esquerda para a direita, o roku, que desce oblíquo para a direita, o saku que vem da direita para a esquerda.
Matsuo Seki era exigente. Fazia-a recomeçar os traços cem vezes até que a mão aprendesse a traçá-los com precisão e suavidade. Quando a rapariga já tinha feito cem traços, o mestre dizia a sorrir:
― Não se pode comparar um aluno que repetiu um exercício cem vezes com um que o repetiu cento e uma!
Flor-das-Neves sofria, mas sentia que estava no bom caminho, a julgar pela forma como o mestre a encorajava. Os dias eram longos e a rapariga nem os via passar. Quando escurecia, ainda ela estava sentada à mesinha de trabalho. Levanta-se para acender as lanternas e continuava a trabalhar até o velho lhe dizer que era tempo de descansar.
Uma noite em que Flor-das-Neves ia começar a acender as lanternas, o mestre impediu-a. Quando estava bem escuro, colocou uma folha de papel de arroz diante dela e disse-lhe:
― Primeiro, ouve. Depois, escreves.
Recitou três poemas curtos, daqueles que se chamam haïku. Flor-das-Neves ouviu-os.
O mestre disse-lhe em seguida:
― Agora vou ditar-tos.
― Mas como posso escrever corretamente na escuridão?
― Não te preocupes. Escreve.
A voz do mestre elevou-se de novo e a rapariga escreveu. Descobriu que o segredo consistia em não contrariar o movimento da mão. Escutou o poema com atenção e relaxou o punho, para que este encontrasse o caminho que vai das palavras ao desenho. Quando o professor acabou de ditar os três poemas, disse à aluna:
― Vai-te deitar. Por hoje chega.
Flor-das-Neves dormiu mal nessa noite. A que se assemelharia o que escrevera? Devia ter deixado manchas e gatafunhos horríveis no papel. Durante toda a noite, a folha onde escrevera dançou diante dos seus olhos.
Os caracteres mal desenhados pareciam aranhas repugnantes.
No dia seguinte de manhã, levantou-se, receosa, e foi ter com o mestre, que já estava sentado à mesa de trabalho. Este estendeu-lhe a folha que ela escrevera no escuro. Os caracteres eram graciosos e a folha não tinha manchas. Matsuo sorriu:
― Ouves com o coração e a tua mão traça com graça o que ele escuta. A tua aprendizagem terminou. Podes considerar-te uma escriba, Flor-das-Neves.
Uma alegria imensa invadiu o coração da jovem.
― Sem vós, venerável mestre…
Matsuo interrompeu-a imediatamente:
― Quero que me mostres a partir de agora o que sabes fazer. Escreve-me uma história. Será a minha recompensa.
― O que posso eu escrever que já não saibais? Existirá, em todas as ilhas do sol nascente, algo que não conheceis?
Os olhos do velho dobraram-se num sorriso:
― Será que sei quantos pássaros cruzaram o céu enquanto dormia, e o que fazem as formigas do jardim bem cedo de manhã? Há tantos segredos que ignoro e que esperam a mão que os revelará.
Flor-das-Neves sentou-se à mesa. Pensativa, deixou que o olhar se perdesse na luz azulada do jardim. Subitamente, o seu rosto iluminou-se.
― Descobri, mestre. Trata-se de uma história muito simples de escrever. Contudo, é uma história triste, também. Não sei se as palavras conseguirão transmitir tudo o que sinto.
― As palavras são poderosas quando sabemos conquistá-las — respondeu Matsuo. — Escreve e não penses em mais nada.
E foi assim que Flor-das-Neves escreveu a primeira história da sua vida.
Uma jovem chamada Ikeda tinha-se apaixonado por um rapaz chamado Hiroshi. De cada vez que este aparecia junto dela, a rapariga sentia o coração bater com mais força. Mas o rapaz não lhe prestava atenção. Porque seria? Porque o pai dele era rico, dono de muitas terras e de uma bela casa, enquanto Ikeda vivia numa cabana de camponeses? Ou seria que não a achava suficientemente bonita? Haveria outros motivos ainda? Ninguém conhecia o segredo de Ikeda, porque ela nunca o tinha contado a ninguém.
Matsuo leu a história que Flor-das-Neves escrevera para ele.
― Tens razão. É uma história triste. O que achas que vai acontecer aos protagonistas?
― Não sei, mestre.
― Então, não procuremos saber mais do que podemos. Confiemos o assunto aos nossos amigos — disse, enquanto olhava para as lanternas com dragões vermelhos e dourados.
E, num canto da página, desenhou um dragão malicioso, que parecia observar tudo o que Flor-das-Neves tinha escrito.
CONTINUA NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA
SEGUNDA PARTE
A partir desse dia, a rapariga começou a ajudar o mestre.
Escrevia cartas a anunciar nascimentos ou mortes. Cartas de amor ou de anúncio de casamentos.
Quando a sua avó Kaori morreu, foi ela, a neta, que escreveu a carta. Desenhou um dragão pequenino numa ponta da página, para que a avó fosse bem acolhida no país dos antepassados, onde já se encontravam os seus três maridos. Às vezes, Flor-das-Neves tinha de escrever coisas estranhas. Uma mulher pediu uma carta para um dragão que a vinha perturbar de noite. Um homem um pouco louco ditou-lhe uma carta para uma águia. Queria pregar a carta no ramo de uma árvore para que o pássaro soubesse que era bem-vindo.
Durante seis anos, sob o olhar atento do mestre, redigiu testamentos, convites, cartas de amor, cartas para os inspetores do grande príncipe.
― É como se vivesse cem vidas — dizia a jovem. — Estou sempre a colocar-me no lugar dos outros. A sua dor torna-se a minha, a sua felicidade alegra-me. Sou um pouco como o Imperador da China, a quem chamam o senhor das dez mil vidas.
Um dia, o venerável Matsuo Seki morreu. Flor-das-Neves encontrou-o uma manhã, com a cara deitada na mesa de trabalho, e um ligeiro sorriso nos lábios. O tinteiro estava entornado. Na mão, segurava um testamento no qual legava à aluna a casa, os pincéis, as tintas e todos os seus bens.
Flor-das-Neves sofreu um grande desgosto. Com o tempo, porém, a recordação do mestre começou a ocupar um lugar tranquilo no seu coração. Tal como ele, começou a olhar para os dragões das lanternas, de vez em quando, enquanto trabalhava. O espírito do venerado Matsuo flutuava no jardim, na casa, e até nas pequenas chávenas de faiança azul, nas quais a aluna lhe servira o chá pela primeira vez. Às vezes, Flor-das-Neves falava com ele. A sorrir, dizia-lhe:
― Lá estou eu a falar sozinha como a minha avó.
Um dia, um cliente foi visitá-la. Quando Flor-das-Neves levantou a cabeça, viu Tadashi diante dela. Ficou com o rosto corado, mas esforçou-se por disfarçar a sua perturbação.
― Bom dia ― saudou Tadashi.
― Em que posso ajudar-te? — perguntou a rapariga.
― Queria mandar uma carta para alguém que amo em segredo. Trata-se de uma rapariga por quem me apaixonei, mas ignoro se sou correspondido. Chama-se Noriko. Pensei que poderias escrever-lhe uma carta da minha parte, a declarar-lhe o meu amor.
De repente, Flor-das-Neves sentiu muito frio.
O rapaz deu-se conta da sua extrema palidez.
― O que tens, Flor-das-Neves? Estás branca e toda a tremer.
Será que Tadashi se daria conta da inocente crueldade do seu intento? Suspeitaria de que ela o amava em segredo? Flor-das-Neves respirou fundo e disse:
― Escreverei a tua carta. Escrevê-la-ei com o coração, tal como o meu mestre me ensinou.
Tadashi foi embora e a rapariga começou a redigir a carta. Pôs nela todo o seu empenho, recordando os conselhos que o mestre lhe dera durante a sua aprendizagem: “Se um homem te pedir para escreveres uma carta de amor, escuta o seu propósito, mas não escrevas o que ele te disser. Escreve o que gostarias de ler se recebesses essa carta.”
Confiou, então, ao papel, o que esperava há muito ouvir de Tadashi. As lágrimas corriam-lhe pela face enquanto escrevia à amada do rapaz.
Este regressou no dia seguinte para levar a carta. Flor-das-Neves leu-lha e ele ficou muito satisfeito. Como pagamento, deu-lhe uma moeda de prata, que pareceu pesada e fria à jovem.
Depois de ele partir, esta correu a comprar um pássaro no aviário do pai. O pai escolheu uma íbis branca para a filha. De regresso a casa, a rapariga colocou a ave junto do lago de lótus e soltou-‑lhe as patas. O pássaro ainda ficou imóvel durante algum tempo, mas depois levantou voo.
A reputação de Flor-das-Neves estendeu-se por toda a região. As pessoas gostavam da sua forma de exprimir os sentimentos e vinham de longe pedir-lhe cartas de amor. Mas a jovem sabia que nunca escreveria outra tão bela como a que escrevera para Tadashi. Tinha mergulhado o pincel na tinta vermelha da sua ferida e, a partir de então, o seu coração parara de sangrar e era indiferente a risos ou alegrias.
Certo dia, ouviu uma grande algazarra à porta de casa. Um pelotão de soldados armados tinha entrado no seu jardim e fizera uma guarda de honra para o grande príncipe que, acompanhado pelo secretário, se dirigia a Flor-das-Neves.
― És Flor-das-Neves, a escriba, não é assim? Disseram-me que sabias escrever como ninguém. Desejo casar com a filha do príncipe de Quioto. Chama-se Sae. Vais escrever-lhe uma carta a declarar o meu amor. Quero que seja a carta mais bela que jamais escreveste.
Qualquer outro escriba ter-se-ia sentido honrado por trabalhar para o grande príncipe. Mas Flor-das-Neves percebeu logo que não seria capaz de escrever aquela carta. “O meu coração está de tal forma dorido que é incapaz de encontrar as palavras certas para descrever a paixão do meu príncipe pela sua amada”, pensou.
Prostrou-se, então, aos pés do governante:
― Senhor, tendes mais de cem escribas no vosso palácio. Ocupam-se dos arquivos, das leis, dos decretos, das alianças com os reinos mais poderosos. Não haverá um só que consiga escrever essa carta?
― És a única mulher escriba de toda a ilha de Cipango — respondeu o príncipe com secura. — Só uma mulher sabe encontrar as palavras que convencerão outra mulher.
Flor-das-Neves sentiu-se, de repente, muito cansada.
― Perdoai, meu príncipe, mas o meu coração está seco e já não tenho mais palavras. Pus as mais belas flores de amor numa carta que um dia me pediram. Com o dinheiro que dela obtive, comprei um pássaro, confiei-lhe o meu desgosto, e fi-lo levar para longe o meu segredo. Já não sofro, mas a minha alma está cheia de amargura. Compreendeis agora porque não posso escrever a mais bela carta de todas, e assim satisfazer o vosso desejo?
Quando se deram conta de que alguém recusava fazer o que o seu amo ordenava, os soldados murmuraram, inquietos. O grande príncipe tirou o sabre e, colocando a sua lâmina no pescoço da jovem prostrada a seus pés, ameaçou:
― Só tu podes escrever essa carta. Se não a tiveres pronta dentro de três dias, cortar-te-ei a cabeça.
Flor-das-Neves ficou prostrada no chão durante muito tempo, a chorar. Não pensava ter ainda tantas lágrimas dentro de um coração tão seco. Conseguiu, finalmente, levantar-se, mas nesse dia não pôde trabalhar. Sentou-se de encontro à parede da casa e pôs-se a falar sozinha, como fazia a sua avó.
Dois dias se passaram assim, sem que a jovem se desse conta. A sua cabeça estava vazia e não conseguia comer. Tinha apenas bebido duas chávenas de chá, sorvendo o líquido em pequenos goles. Pensava nos antepassados que em breve veria, depois de uma existência em que não conhecera a companhia de um marido nem a alegria de ter filhos. E haveria, porventura, algum escriba que anunciasse a sua morte?
O dia do príncipe vir buscar a carta chegou. “Vou esperá-lo como outrora a minha avó esperou a partida para o país dos antepassados,” pensou. Foi então que, ao levantar-se, fixou os olhos numa das lanternas do teto. Um dos dragões pintados por Matsuo sorria-lhe.
Flor-das-Neves sentiu que a sua coragem voltava.
― O que pensaria o meu mestre de mim, se me visse trair o que me ensinou? Vou escrever a carta.
Sentou-se à mesa, e pegou no papel perfumado de jasmim que o secretário do príncipe trouxera. Olhou para o dragão malicioso e começou a escrever:
A Sae, filha do grande príncipe de Quioto, mulher admirável, cuja graça ultrapassa as cerejeiras em flor e as neves de todas as ilhas do Sol Nascente, eu, o grande príncipe, declaro o meu amor.
A rapariga continuou a escrever, sem parar, lisonjeando a vaidade do príncipe. Este, na carta, dizia que era rico e poderoso, dotado de grande beleza e de excecional inteligência, e afirmava que protegeria a sua amada da pobreza e da infelicidade. Também declarava possuir grandes exércitos e centenas de cavalos. Cumulá-la-ia de sedas, perfumes, joias e criados. Sentia-se feliz por poder honrá-la com o seu pedido de casamento.
Quando releu a carta, Flor-das-Neves teve a sensação de ouvir Matsuo rir e este riso acalmou-a. Não se esqueceu sequer de desenhar um pequeno dragão malicioso no canto da carta, como o mestre costumava fazer. Um dragão vermelho e dourado.
Quando a tinta estava quase seca, passos de soldados ecoaram no jardim. Ouviu-se o ruído de armas e o príncipe apresentou-se diante dela. Então, Flor-das-Neves disse:
― Amo das nossas vidas, eis o que a tua bem-amada quererá ouvir.
Depois, leu a carta ao príncipe. Este ouviu-a e declarou, fixando-a com um olhar duro:
― Muito bem. Oxalá seja isto que a minha futura mulher quer ouvir. Caso contrário, pagarás com a vida.
O secretário deu três moedas de ouro à escriba, e a comitiva abalou.
Flor-das-Neves compreendeu, então, que acabara de assinar a sua sentença de morte.
― De certeza que a princesa lhe vai atirar a carta à cara. Que mulher gostaria de ouvir semelhantes disparates? Sei agora qual a carta que deveria ter escrito.
Sou um grande príncipe, é verdade, possuo soldados, criados, palácios, cavalos. Mas o que valem mil cavalos, mil soldados, mil palácios, quando vimos bater à porta do coração da mulher que amamos? Olha as minhas mãos: estão vazias. O meu coração está nu. Quero dar-te tudo o que não tenho: a luz da manhã junto do vulcão, os pássaros que não estão nas minhas gaiolas. Não passo de um pobre homem, mas contigo serei mais do que isso. Iremos juntos até ao fim do mundo, e atravessaremos qualquer mar. Ofereço-te as neves que descansam nas encostas do vulcão, o orvalho das manhãs, o odor do jasmim, e todos os dias que viveremos juntos. A ti, mulher que amo, pergunto, com receio: queres casar comigo?
“Eis a carta que deveria ter escrito”, pensou a jovem, furiosa consigo mesma. “Eis o que eu gostaria de ouvir se estivesse no lugar daquela que o príncipe julga amar!”
Durante a noite, um pequeno dragão insinuou-se nos seus sonhos. Dançava no céu como se estivesse a passear pela terra num dia de festa. E ria.
De regresso ao palácio, o grande príncipe colocou a carta para a sua amada num cofre de nácar, que mandou fechar a sete chaves. Depois, ordenou que preparassem a viagem que o levaria pela manhã a Quioto, onde pediria a princesa em casamento. Contudo, durante a noite, teve um sonho muito estranho.
Sonhou que estava de pé na sala de mil colunas do palácio de Quioto. Diante dele estava a princesa Sae, rodeada de altos dignitários, escutando com atenção a carta que um escriba lhe lia. Mas ninguém conseguia ver a reação de Sae à carta, porque a princesa tinha o rosto coberto por uma máscara de dragão vermelha e dourada.
Quando o escriba terminou a leitura, o coração do príncipe começou a bater com força. Chegara o momento fatídico. A jovem ia tirar a máscara e todos veriam se ela aceitava o pedido de casamento ou se o recusava. Quando a princesa se descobriu, um grito de surpresa percorreu a sala. Por detrás da máscara do dragão estava Flor-das-Neves, que ria da partida que pregara ao príncipe. Este ouviu-a dizer:
― Grande príncipe, não quero nenhuma das tuas bagatelas! Só quero subir a encosta do vulcão contigo e contigo atravessar o mar. Aceito ser tua mulher, se não me sobrecarregares com nenhuma das tuas riquezas. Oferece-me as serpentes de luz que correm pela encosta do vulcão no início da primavera, faz-me um colar das pegadas que as lebres e os pássaros deixam sobre a neve, procura-me as pérolas de oiro que a chuva põe nos olhos das rãs. Dá-me tudo o que nunca poderás ter, ou volta para os teus palácios, para os teus cavalos e criados, e nunca mais penses em mim.
Este sonho estranho acordou o grande príncipe. Durante o resto da noite, ficou no terraço, com o coração muito agitado, a observar o brilho das estrelas que pairavam sobre o mar. Para onde quer que olhasse, via o rosto de Flor-das-Neves, sentada na sua mesa de escriba, traçando sobre o papel signos de felicidade de uma beleza infinita.
Ao romper da alba, enquanto todos dormiam no palácio, o príncipe saiu por uma porta secreta, montou o seu cavalo e partiu a galope. O sol já despontava quando chegou à casa do venerável Matsuo Seki. Flor-das-Neves já estava sentada à escrivaninha, a escrever a sua carta de despedida. Tinha vestido um quimono de seda azul, penteado os cabelos e maquilhado o rosto. Quando ouviu os passos do príncipe junto do lago de flores de lótus, levantou-se.
― Estou pronta — disse, numa voz que tremia ligeiramente.
O grande príncipe assomou à porta da casa. A rapariga viu logo que ele não trazia sabre nem espada, nem roupas caras ou joias. Tinha o cabelo em desalinho e parecia um pássaro
estremunhado. Mas tinha um ar feliz. No seu olhar, brilhava a luz da infância.
― É verdade que sou um grande príncipe — começou, numa voz clara. — Possuo muitos soldados, criados, palácios, cavalos. Mas o que representam mil cavalos, mil palácios, e mil soldados para o coração da mulher que amo? Olha as minhas mãos: estão vazias. Vê o meu coração: está nu…
Enquanto ele falava, Flor-das-Neves tinha-se levantado e sorria para os dragões das lanternas pintadas outrora pelo seu venerável mestre.
Quando o príncipe acabou de falar, a jovem estendeu-lhe a mão.
Juntos montaram a cavalo e partiram a galope na direção do sol nascente.
Pierre-Marie Beaude; Claude Cachin (ill.)
Fleur des Neiges
Paris, Gallimard Jeunesse, 2004
(Tradução e adaptação)
O rapaz das flores
Rink Bowagon era um rapaz que vivia no interior do campo.
Bem para lá de onde a estrada de asfalto dava lugar à estrada de terra batida, e a estrada de terra batida dava lugar a um estreito carreiro.
O carreiro serpenteava pelas velhas árvores da floresta selvagem, saltava por cima do Riacho do Urso Negro, subia a Montanha Solitária, fazia um desvio para a direita e desembocava mesmo em frente à porta da casa dos Bowagon.
Os Bowagon eram os únicos habitantes da Montanha Solitária.
As pessoas da cidade perguntavam-se se eles lá viviam por serem tão estranhos ou se eram tão estranhos porque lá viviam.
Contudo, todos concordavam que o lar dos Bowagon era um verdadeiro cadinho de talentos exóticos.
Mas coubera a Rink o talento mais especial de todos: sempre que era lua-cheia, ficava coberto de flores. Era uma visão magnífica, e as flores eram as mais bonitas, cheirosas e duradouras de quantas havia.
Havia pessoas que ficariam doentes se do seu corpo brotassem flores. Rink, porém, não pertencia a tal grupo.
E, sempre que havia lua cheia, a mãe cortava-lhe as flores com cuidado e lá ia ele para a escola. Rink gostava de ir à escola e gostava especialmente de ler e pensar. Como era um menino tímido e sossegado, a professora deixava-o sentar num dos últimos lugares e não se preocupava com ele. Os colegas sentavam-se bem longe dele, pois tinham ouvido dizer que a família de Rink era muito estranha.
Certo dia, chegou à turma Angelina Quiz, uma rapariga cuja família tinha um negócio de salões de baile e vinha de Tuscaloosa.
Angelina era o que alguns chamariam de rapariga vulgar.
Era de trato fácil, sorriso luminoso e tinha a perna direita mais curta um centímetro do que a esquerda. Andava sempre com uma flor por detrás da orelha direita.
Rink gostou logo dela.
E o mesmo aconteceu com os outros colegas. E, assim, Angelina estava sempre rodeada de amigos e Rink contentava-se com observá-la de longe.
“É franca e honesta, sem deixar de ser amável,” pensava.
Também admirava as flores que Angelina trazia na orelha, que todos os dias eram diferentes e bonitas como ela.
Quanto a Angelina, em breve se perguntou quem seria aquele rapaz tão sossegado, que se sentava sozinho no fundo da sala de aula. E falou dele aos outros colegas.
— O tio dele, Dud, tem uma cascavel de estimação chamada Lucy Gorducha, que dorme no fundo da cama! — sibilou Fuster.
— E a mãe dele usa um saco de bólingue como carteira! — riu Shirleyanne.
— A avó foi criada por lobos — troçou Gertrude.
Angelina não se riu.
— Porque não falam nunca com ele? — perguntou.
Os outros calaram-se e ficaram a pensar na pergunta.
Certa tarde, a professora anunciou que o baile da escola se realizaria no sábado à noite no salão da igreja. Alguns rapazes convidaram Angelina como par, mas ela declinou.
— Não sou lá grande dançarina — riu.
Rink ficou admirado com o tom triste da sua voz.
“Mas ela vem de uma família de dançarinos... Aposto que gosta de música e que adoraria ir ao baile,” pensou.
Mal a professora virou costas, Rink saiu da sala. Ninguém reparou, exceto Angelina, que lançava olhares furtivos à cadeira vazia de vez em quando, e se admirava de como a ausência de Rink tirava luminosidade a um dia tão soalheiro.
Quando Rink chegou a casa, foi direito ao quarto do tio e vasculhou debaixo da cama até encontrar alguns metros provenientes da mudança de pele de Lucy Gorducha.
Em seguida, remexeu na mala de bólingue da mãe e tirou de lá uma agulha e um carrinho de fio de seda. Depois, na desarrumada despensa da cozinha, descobriu uma velha sela de mula em couro.
Rink sentou-se e pôs-se a pensar nos pés de Angelina.
Imaginou a sua forma e tamanho, bem como a distância entre o pé direito e o chão. Depois, pôs-se a cortar, a coser e a colar. Trabalhou desde quinta-feira à noite até sábado de manhã.
Quando terminou, tinha diante de si o mais belo par de sapatinhos de pele de cobra que alguma vez se viram naquela margem do Rio do Urso Negro.
A sola do sapatinho direito era um centímetro mais grossa do que a do esquerdo, para que Angelina se sentisse em perfeito equilíbrio. Rink imaginou-a a dançar. Pensou durante tanto tempo e sentiu-se tão maravilhado que um ramo de rosas selvagens brotou da sua cabeça embora ainda não fosse lua cheia.
Nessa tarde, Rink seguiu pelo caminho da floresta, atravessou o riacho, continuou pelo trilho de terra batida e subiu a colina. A meio da colina, abriu um pequeno portão e percorreu um caminho que conduzia à entrada da casa de Angelina.
A menina ajudava a mãe a coser um vestido de tango novo. A casa estava mergulhada em silêncio e cada golpe de tesoura cortava um raminho no seu coração. Pensava em Rink e na falta que sentira dele na sexta-feira.
Quando Angelina ouviu bater à porta, o seu coração deu um salto. Era Rink, com um ramo de rosas selvagens na mão esquerda e um par de sapatinho de pele de cobra na direita.
— São para ti — ofereceu. — Se dançares com eles, dançarás na perfeição.
Angelina enfiou os pés nos sapatinhos e, pela primeira vez na vida, conseguiu andar direita.
Deu um passo e depois outro. Em seguida, esboçou um passo de dança. Angelina olhou, maravilhada, para Rink.
— Aceitas ser o meu par no baile? — perguntou a Rink.
— Não sei dançar isso — disse o menino com timidez.
— Eu ensino-te! — exclamou Angelina. — Já vi a minha família dançar tantas vezes que conheço os passos de cor.
Pegou na mão dele e dançaram juntos ao longo do caminho que conduzia ao baile.
Depois do baile, Rink levou Angelina a casa. A caminho de casa, sentaram-se debaixo de um velho sicómoro. Angelina falou da sua família a Rink e este falou-lhe da sua.
Depois, com o coração a bater, revelou que, durante a lua cheia, as flores floresciam na cabeça dele...
Angelina sorriu, encantada. Baixou-se e mostrou a Rink que a flor que usava era uma flor que florescia detrás da sua orelha!
A partir desse dia, Angelina Quiz e Rink Bowagon tornaram-se amigos inseparáveis.
Angelina calçava os sapatinhos de pele de cobra todos os dias.
Quando se gastaram, Rink fez-lhe outro par.
Há já vinte e cinco anos que Rink faz todos os pares de sapatos que Angelina calça.
Vivem numa casa na Montanha Solitária, que agora se chama Colina dos Doces Rebentos.
Angelina e Rink vivem da sua atividade de jardinagem. Trata-se, aliás, de um negócio familiar, pois cada um dos seus sete filhos nasceu com um polegar verde.

Jen Wojtowicz
The boy who grew flowers
Cambridge, MA: Barefoot Books, 2005
(Tradução e adaptação)

Esse estranho animal
Lembro-me bem do dia em que se mudaram para o prédio. Estava debruçada à janela quando os vi chegar: um casal jovem com um bebé. Sempre gostei de me relacionar com os vizinhos; por isso fui até à minha porta para os cumprimentar e, de caminho, comunicar-lhes que o nosso andar estava sem luz. Ele agradeceu-me e disse que resolveria o problema. Ela assentiu, movendo a cabeça com um sorriso mal desenhado no rosto. «É menino ou menina?», perguntei, apontando para o recém-nascido que levava nos braços. «Menina, respondeu, antes de baixar o olhar e seguir rapidamente o marido, que já entrava no apartamento. Quando a porta se fechou, senti-me um pouco desconfortável. Era certo que os novos vizinhos não pareciam ser muito sociáveis, mas deviam estar cansados por causa da mudança, e eu, em vez de esperar que se instalassem, fui apanhá-los nas escadas. Que teriam pensado? De qualquer modo, o facto de serem jovens fazia-me pensar que teríamos boas relações, e só esperava, isso sim, que o bebé não fosse daqueles que choram toda a noite, porque as paredes do nosso edifício são como bocados de cartão que deixam passar a vida dos outros.
Algum tempo depois, já não era o pranto da criança o que me preocupava, mas os gritos que comecei a escutar praticamente desde o primeiro dia e que tinham passado a ser recorrentes. As coisas aconteciam mais ou menos assim: ele dizia alguma coisa num tom de voz que, no meu apartamento, se conseguia ouvir, ainda que não se percebesse o quê, depois havia um silêncio durante o qual, imaginava eu, falava ela, a voz dele replicava ainda mais alto, a seguir um murmúrio dela, e vinha então a explosão, ele começava a vociferar, e, neste ponto, as suas palavras percebiam-se perfeitamente: ela não servia para nada, não era uma mulher... O meu vizinho gritava alto, tão alto, que a criança começava a chorar, e essa era outra razão para continuar a gritar. Prosseguia então a sua diatribe dando golpes secos nas paredes, e, sob a sua voz, só se ouviam uns soluços apagados e um pranto de criança.
Uma tarde, enquanto recolhia a minha correspondência na entrada do prédio, ela entrou carregada de sacos de compras e dirigiu-se à sua caixa de correio. Cumprimentámo-nos com um aceno de cabeça. Então, embora conhecesse o velho ditado «entre marido e mulher não se mete a colher», não consegui conter-me. «Está bem?», perguntei-lhe. Ela olhou-me com um ar de estranheza que também tinha qualquer coisa de susto. «Porquê?», foi a sua resposta. Disse-lhe que ouvia os gritos e que, como também era mulher, estava um pouco preocupada. A minha vizinha fez um esgar com a boca, afirmou que não tinha problemas, o marido trabalhava muito e às vezes chegava cansado, mas estava tudo bem, tudo perfeito, obrigada. Pegou nos sacos e subiu as escadas a uma velocidade tal, que nem tive tempo de me despedir. Nessa tarde poderia ter pensado que, como da primeira vez, fora imprudente. Mas não. Depois de ver o susto naquele olhar, o que pensei foi que, às vezes, entre marido e mulher alguém deveria meter a colher, porque as ofensas e os insultos continuaram durante meses. Não sei se nos outros andares se ouviam, mas no nosso faziam já parte do quotidiano.
Uma noite, depois dos gritos do vizinho, ouvi um estrondo como se alguma coisa tivesse caído no chão, uma porta a bater, plaf, e alguém a descer as escadas apressadamente. Fui à janela e vi-o sair do prédio com uma maleta. Então fiquei com medo, saí de casa e toquei em frente. A vizinha abriu a porta a chorar. Ao ver-me, o seu rosto sofreu várias transformações, primeiro deceção, talvez o esperasse de volta, depois surpresa e finalmente, não sei, foi como se, de repente, algo que estava reprimido se tivesse libertado, o certo é que se lançou a chorar sobre mim. No chão estava um vaso partido. Ele acabava de a deixar por outra mulher. As duas passámos a noite a conversar, e assim começou a nossa amizade.
Vera contou-me que havia muito tempo que suspeitava que o marido andava com outra, mas, quando tentava abordar o assunto, as palavras viravam-se contra si. Às tantas, era ele quem a acusava de ter amantes, de chegar-se à janela para provocar os homens e de inventar mil e uma desculpas para não fazer amor com ele, e, embora nada daquilo fosse verdade, Vera acabava sempre a pedir desculpa. Estava farta. Por isso, dias antes, seguira-o e assim pôde surpreendê-lo com outra mulher. A última briga durara até àquela noite, quando ele meteu algumas coisas numa maleta e disse que se ia embora. Vera estava desfeita. A sua vida com ele era difícil, mas sem ele, afirmou, era pior, porque não era a primeira vez que se separavam.
Quando se conheceram, ela tinha 18 anos e ele, 25. Foi amor à primeira vista, em pouco tempo estavam já a viver juntos em casa de uma irmã dela. Iam do trabalho para o amor e do amor para o trabalho. Até que Vera ficou grávida. Para ele foi uma má notícia, não tinham condições para ter um filho, disse. Mas Vera estava entusiasmada. Ele respondeu violentamente, começou a pressioná-la, não seriam pais de maneira alguma. Vera acabou por ceder. Com quatro meses de gravidez fez um aborto. Na altura era ilegal. Num lugar escuro, de péssima higiene, com condições mínimas e correndo risco de vida. Vera disse-me que às vezes, quando fecha os olhos, ainda sente nas costas o frio daquela mesa. Foi tão duro, que lhe custou muito recompor-se, chorava constantemente, não tinha ânimo para nada. Ele, por seu lado, não quis vê-la assim, tanta tristeza desgostava-o, não foi capaz de suportar. E saiu de casa.
Para Vera, o tempo em que estiveram separados foi uma eternidade. Até que ele voltou, dizendo que a amava, e ela sentiu-se feliz. A vida continuou o seu curso, trabalho-casa-amor, mas, pouco a pouco, foi somando outras facetas. Ele chateava-se facilmente. Qualquer coisa o irritava, as pessoas, a casa, o trabalho e Vera, sobretudo ela. Assim, passaram a ser frequentes os insultos, certas ameaças e um ou outro empurrão. Coisas banais. Vera voltou a ficar grávida, e, desta vez, ele não resistiu. Se o quiseres, tem-lo. A barriga começou a crescer. Havia alturas em que ele a proibia de sair de casa, referindo que as grávidas não devem andar na rua, por vezes perguntava-lhe se o filho era seu ou de outro homem, outras vezes olhava-a com desprezo. Coisas banais. Quando a menina nasceu, ele foi ao hospital, mas não quis pegá-la nos braços e irritou-se muitíssimo ao saber que a mulher não tinha tido tempo de se ocupar da papelada da praxe. Ficou tão transtornado, que decidiu ir-se embora. Vera regressou a casa com a recém-nascida. Sozinhas. Num táxi. E mais tarde, quando diagnosticaram à bebé uma bronquite asmática, Vera levou-a para fazer os tratamentos. Sozinha. Era necessário comprar medicamentos, e a família aumentada precisava de uma casa sua. Ele resmungou, dizendo que ter uma filha estava a sair caro. Algum tempo depois, mudaram-se para o meu prédio.
Meses mais tarde, conheci a história.
«Agora que ele se foi embora, ficarás melhor», disse-lhe eu naquela noite. Ela levantou os olhos tristes: «Não... Eu gosto dele, é agressivo porque esteve na guerra, e isso martiriza-o, mas ele não é mau.» Não me ocorreu mais nada para dizer.
Eu e Vera continuámos a ser amigas. De vez em quando víamo-nos no meu apartamento para tomar um chá e conversar. Até depois do regresso do marido, porque ele voltou, e consigo a sua agressividade, os seus gritos, os seus maus-tratos. A criança foi crescendo sentindo o desprezo do pai, e, quando já tinha 8 anos, Vera quis outro filho. Teve de fazer um tratamento, mas conseguiu. Desta vez era menino, mas o seu nascimento também não conseguiu mudar as coisas. Aonde ia ela buscar forças? Nunca percebi.
Uma tarde, Vera veio ter comigo muito assustada. Havia algum tempo que adquirira o hábito de não dormir antes do marido, de não fechar a cortina do banho enquanto se lavava, de não chegar tarde do trabalho. Eram simples precauções adotadas assim que ele começou a ameaçá-la de morte. Aquela tarde Vera descobrira que ele andava com uma navalha. «Tens de ir à polícia», disse-lhe eu. Ela observou-me com olhos assustados. «Não... Nem vale a pena», respondeu. Já uma vez fora à polícia para denunciar os abusos e as ameaças do marido, mas tinham-lhe dito que, sem marcas corporais, não podiam fazer nada. Ela não tinha marcas, pelo menos evidentes, pelo que me pediu encarecidamente que eu também não dissesse nada, não fosse à polícia, não falasse com ninguém, por favor. Vera tinha muito medo. Mas eu também. Eu tinha medo daquele homem e daquilo que ele poderia fazer a ela e das consequências de tudo isso, pelo que não fiz mais do que escutá-la e acompanhar o seu pranto.
Estávamos habitadas pelo medo. É terrível quando o medo se instala e vive nas pessoas. É algo que paralisa e que se retroalimenta. Segundo Vera, a agressividade do marido era justificada pelo seu passado na Guerra Colonial, ele não era mau, como sempre dizia, e, ao justificá-lo, passava, sem se dar conta, a anular-se a si mesma. Claro que o seu amor-próprio já tinha sido praticamente aniquilado por ele, porque, quando passas a vida a ouvir que não prestas, começas a acreditar nisso, e quando tudo o que recebes são humilhações, começas a pensar que as mereces. A repetição é a mais subtil das armas psicológicas. Toda esta dinâmica faz com que o medo se instale, comodamente, e nos habite dia após dia. Mês após mês. Ano após ano.
Eram outros tempos. Talvez. E ninguém nos ensinara como superar o medo. Por isso, durante anos, o que acontecia a Vera só o sabiam as paredes, os seus filhos e eu. E o medo, claro. Quando Vera teve por fim coragem de contar à médica de família o que se passava, o seu segundo filho tinha já quase 10 anos. A médica passou o caso para as mãos de uma psicóloga, que diagnosticou desequilíbrios gerais e um particular e excessivo temor dos filhos face ao pai. Tudo isto obrigava a um tratamento de acompanhamento familiar. O homem aceitou, contrariado. Vera, contudo, recebeu aquilo como um presente. E foi durante esse período que algo dentro de si começou a mudar. Um dia disse ao marido que já não queria dormir na mesma cama que ele. Ele aceitou com desprezo, era-lhe indiferente, dormir com ela não era das melhores coisas que lhe tinham acontecido, disse, bem pelo contrário, concluiu. Vera foi instalar-se no quartinho junto à cozinha. Dormir com ele há tanto tempo também não era o melhor que lhe acontecia, porque às vezes, muitas, se sentia obrigada a fazer coisas contra a sua vontade e chorava, mas para ele tanto fazia.
O quartinho serviu de refúgio até que uma noite ele entrou, empurrou Vera para fora e a conduziu até à cama matrimonial. Depois fechou a porta à chave. Mas algo começara a mover-se dentro dela. E já não queria dividir as suas noites. Nos dias seguintes, foi para o quarto da filha, para dormir no chão, já que não havia outro sítio. Ele continuou a incomodá-la. Vera estava farta. E por fim, pela primeira vez na vida, decidiu abandoná-lo. Saiu do apartamento. Foi viver com uma das irmãs. Parecia que tinha conseguido vencer o medo, que o tratamento estava a dar os melhores resultados. Dezassete dias mais tarde, vi-a a subir as escadas do prédio.
Vera disse-me que sentia falta dos filhos. Uma assistente social dissera-lhe uma vez que, por mais que o marido fosse mau, a mulher nunca devia abandonar os filhos. «Tinha razão», afirmou Vera. Não suportava estar longe. A menina era uma jovenzinha, e o varão ainda era pequeno, ambos precisavam dela. E ela sentia muitas saudades deles. Mas também tinha saudades do marido. Vera baixou os olhos com uma expressão de derrota e suspirou antes de afirmar que não podia separar-se dele. Peguei-lhe nas mãos, disse que a entendia, era uma situação bastante invulgar, mas entendia-a. Que faria?
O seu regresso a casa teve como consequência o fim do tratamento. A psicóloga decidiu dá-lo por terminado, disse que, se Vera não se empenhava em melhorar a sua vida, não valia a pena continuar. Vera ficou muito triste. O marido concluiu que, como bem dissera antes, aquele tratamento não servia para nada.
À dor pelo abandono da psicóloga, juntou-se a dor pela partida da filha, que, quando chegou aos 18 anos, decidiu ir viver com o namorado noutro sítio. De início, Vera pediu-lhe que não o fizesse, mas a rapariga não aguentava mais, por mais que amasse a mãe, queria ficar bem longe do pai ou «do marido da mãe», como costumava chamar-lhe. Vera compreendeu. Como não? A rapariga saiu de casa, e, ainda que se mantivessem sempre em contacto, Vera estava cada vez mais triste.
Os anos que se seguiram foram confusos. E longos. Dez longos anos. Por um lado, era como se a vida se tivesse detido na repetição do mesmo instante: gritos, ofensas, empurrões, violência sexual e tu não serves para nada, não serves para nada, não serves para nada. Por outro, a vida deslizava por um túnel escuro que se afundava cada vez mais. Vera esqueceu-se de si. Começou a fazer mal a si própria. Arranhava-se. Roía as unhas até fazer sangue. Tornou-se descuidada com a aparência. Tentou suicidar-se várias vezes. Um dia, numa consulta, a dermatologista quis que se olhasse a um espelho. Ela não percebeu porquê, mas a médica insistiu e conduziu-a ao espelho. A imagem que surgiu diante de Vera não se parecia consigo mesma, ou então não conseguiu reconhecer-se. Era outra coisa. A sombra de alguém. Um ser obscuro, alheado. Vera baixou os olhos, mas não chorou. Engoliu em seco, tornou a erguer o olhar e respirou profundamente.
É difícil reconhecer que temos um problema, mas esse é também o primeiro passo para encontrar a solução, disse-lhe o psiquiatra que começou a acompanhá-la, porque, depois do espelho, Vera aceitou ser tratada. Carregava mais de 30 anos de uma relação nociva. O marido estava doente, e ela deixara-se conduzir ao fundo do poço. Tinha de fazer alguma coisa. Primeiro vieram os medicamentos. Depois, o psiquiatra conseguiu pô-la em contacto com a psicóloga de há anos, coisa que muito alegrou Vera e, sobretudo, lhe fez sentir que tinha uma força renovada. Sempre me perguntei aonde ia ela buscar forças, porque as tinha. Muitas. Teve várias sessões com a psicóloga, e, tal como da primeira vez, algo dentro de si começou a mudar, mas, diferentemente de antes, Vera batera no fundo e agora queria salvar-se. Queria sair de casa definitivamente, embora ainda tivesse medo, claro, esse estranho animal que se instala dentro de nós.
Graças à psicóloga, soube da Associação de Mulheres Contra a Violência e da existência de casas-abrigo que acolhem vítimas de maus-tratos. Combinou-se uma visita. Vera estava excitada, conversou com eles, preparou a fuga, chamávamos-lhe assim: «a sua fuga para a liberdade», porque era sair de casa e ter a coragem de não voltar. Às escondidas do marido, começou a levar roupa para o meu apartamento e, quando tudo estava pronto, uma manhã, depois de ele sair para trabalhar, pôs em cima da mesa uma carta de despedida para o filho, destruiu o cartão telefónico e foi-se embora.
Já passou mais de um ano, e Vera continua na casa de acolhimento. Muitas vezes sinto vontade de conversar com ela, mas não pode ser, esses lugares são secretos, não sei onde está e é melhor assim. Pela correspondência que mantém com a filha, sei que os primeiros tempos foram duros, teve de se habituar a uma nova situação e lutar contra a nostalgia da sua vida passada. Imagino que o mais difícil seja alcançar o ponto de «não retorno», e, a partir daí, começa-se a ser outra pessoa, mas isto são suposições. Sei que tem novas amigas e que retomou o contacto com as irmãs. Que o filho não quer falar com ela, porque diz que não lhe perdoa ter abandonado o pai, e isso magoa muito Vera, mas não importa, ele terá de entender. Acabará por entender, porque a história não se pode repetir. Sei que ela quer voltar a trabalhar, ter uma casa e tentar ser feliz.
E sei, acima de tudo sei que já não tem medo de encontrar o ex-marido. Já não sente esse bicho cruel que muitas vezes habita em nós e que permite que os outros façam de nós aquilo que não somos, porque percebeste, Vera, que ninguém tem o direito de nos maltratar, nem a ti, nem a mim, nem a nenhuma pessoa. Nunca nos ensinaram como superar o medo. Lembras-te? Mas graças a ti entendi que, às vezes, muitas vezes, a única maneira de o vencer é dizer «basta» e pedir ajuda.
Karla Suárez
Isto não é um conto.
Histórias de violência baseadas na vida de seis mulheres
Karla Suárez et alli
Lisboa, Associação Link, 2012
A TIGELA DE MADEIRA
Era uma vez um velho muito velho, quase cego e surdo, com os joelhos a tremerem. Quando se sentava à mesa para comer, mal conseguia segurar a colher. Derramava a sopa na toalha e, quando, por fim, acertava na boca, deixava sempre cair um bocado pelos cantos.
Ao filho e à nora tal sujidade repugnava. Por isso, um belo dia, decidiram que o velho passaria a sentar-se numa pequena mesa, por detrás do fogão, para poderem ignorar os seus gestos desajeitados…
Levavam-lhe a comida numa tigela de barro e – o que era pior – nem lhe davam o bastante.
O velhinho olhava para a mesa onde comiam o filho, a nora e o netito, e os seus olhos enchiam-se de lágrimas.
Um dia, as suas mãos tremeram tanto que ele deixou cair no chão a tigela de barro que se quebrou em mil pedaços. A nora ralhou com ele, mas ele nada disse, apenas suspirou, envergonhado.
Compraram-lhe então uma tigela de madeira.
Certo dia, quando estavam todos sentados na cozinha, o netito, que era um menino de quatro anos, estava a brincar com uns pedaços de madeira.
— O que é que estás a fazer? — perguntou o pai.
O menino respondeu:
— Estou a fazer uma tigela de madeira para quando tu e a mãe forem velhos.
O marido e a mulher olharam-se durante algum tempo e desataram a chorar.
Depois disso, trouxeram o avô de volta para a mesa.
Desde então passaram a comer todos juntos.
E mesmo quando o velhinho derramava alguma coisa, ninguém dizia nada.
Antes pelo contrário…
Editora Nova Fronteira, 1995
(Adaptação)
Honrar a palavra
No negócio de mobílias usadas, não se pode comprar por catálogo, como se faz com as novas. As pessoas aparecem e o comerciante tem de ir às casas vê-las e fazer o seu preço. “Não se pode vender o que não se tem,” costumava dizer o meu pai. Por isso, estas visitas eram de extrema importância para ele.
Quando eu tinha 13 anos, o meu pai ficou sem o gerente da loja, um homem que, com o seu único braço, trabalhava muito mais do que muitas pessoas com os dois. Conseguia, por exemplo, suspender uma cadeira da ponta de uma vara, içá-la no ar e fazê-la deslizar até uns ganchos presos ao teto, bem à vista de todos quantos entravam na loja. Na falta do gerente, o meu pai veio pedir-me ajuda, pedindo-me que ficasse à frente do balcão enquanto ele procedia às visitas do dia, até se encontrar a pessoa certa. A loja tinha dezenas de milhar de objetos. “As pessoas gostam de regatear,” disse-me, “por isso não há preços marcados. Apenas tens de ter alguns pontos de referência.”
Levou-me a dar uma volta pela loja. “Podes vender um pequeno motor por quatro dólares. Por um frigorífico, dependendo do estado em que se encontrar, podes pedir entre trinta e cinco e sessenta dólares. Se tiver congelador, poderás ir até aos oitenta, vá lá, até aos cem dólares, caso esteja em ótimo estado. Se uma junta estiver solta, é para o lixo. Não ligues a riscos ou rachadelas. Os pratos vêm com a mobília e nem sequer os levo em consideração quando lhes atribuo o preço. Poderás vendê-los por um preço simpático, algures entre os cinco e os vinte e cinco cêntimos.”
Todos os dias depois da escola, voava na minha bicicleta até à loja. Um dia, estava eu a escrever o preço de um prato muito bonito numa tirinha de papel quando o meu pai entrou. Tinha pedido um dólar e o comprador não hesitou. Fiquei todo contente. O meu pai viu o que eu estava a fazer, virou-se para o cliente e disse, “Que bela pechincha leva aí! O meu empregado fez-lhe o preço e é esse o preço certo.” Mais tarde, perguntei ao meu pai, “Porque é que o pai disse aquilo?”
Tratava-se, pelos vistos, de um prato antigo que valia umas boas centenas de dólares. Fiquei descoroçoado. Tanto que me esforçava por dar o meu melhor. Pelos vistos, em vez de ajudar o meu pai, estava a fazê-lo perder dinheiro.
“Se quisesse, podia ter impedido o negócio,” disse ele. “Estavas a escrever o preço e ainda não tinhas pegado no dinheiro. Além disso, és menor de idade. Só que um judeu honra a sua palavra e a dos seus colaboradores.”
Este incidente haveria de ter uma consequência. Anos mais tarde, a minha mulher e eu tivemos de mandar uma grande quantia de dinheiro para a nossa filha em Israel. Um funcionário do banco aconselhou a minha mulher a enviar o dinheiro através de cheque visado, uma vez que, dessa forma, estaríamos isentos do pagamento de comissões. Quando recebi o extrato bancário, porém, reparei que nos tinha sido debitada uma série de taxas. Decidi, então, ir falar com a gerente do banco e explicar-lhe que um funcionário seu é que nos tinha aconselhado sobre a melhor forma de evitar despesas com o envio do dinheiro. Ouviu-me em silêncio e, no final, disse apenas, “Lamentamos o sucedido, mas acontece que o colega deu uma informação errada.”
Foi então que lhe contei a história do meu pai e de como ele fazia sua a palavra dos seus empregados, honrando-a. Terminei, dizendo, “Isto aconteceu sem que o cliente tivesse sido lesado e tendo o meu pai descoberto o erro antes de a transação ter sido efetuada. Imagine só como ele teria agido se tivesse havido danos! Espero que o meu banco atue no mínimo com a mesma integridade do meu pai.”
Durante todo o tempo em que falei, a gerente não proferiu palavra e assim continuou, enquanto eu aguardava a sua reação. Quando falou, a voz era suave. “O Banco de Comércio Imperial do Canadá não ficará aquém do seu pai,” disse, com toda a dignidade. Prometeu, então, a anulação de todas as taxas indevidamente cobradas.
Enquanto lhe agradecia e me preparava para ir embora, senti-me grato por uma história de integridade ainda ter o poder, nos tempos que correm, de tocar os corações e acordar consciências no mundo impessoal dos negócios.
Rabbi Roy D. Tanenbaum
Jack Canfield, Mark Victor Hansen, Rabbi Dov Peretz Elkins
Chicken Soup for the Jewish Soul
HCIbooks, Deerfield Beach, 1999
(Tradução e adaptação)

As portas do Paraíso
U |
m soldado chamado Nobuchiguê foi junto do mestre budista Hacuíne e perguntou:
— Há realmente um paraíso e um inferno?
— Quem és tu? — quis saber Hacuíne.
— Sou um samurai — replicou o guerreiro.
— Tu, um soldado? — exclamou Hacuíne. — Que tipo de governante iria escolher-te para a sua guarda? Tens cara de pedinte.
Nobuchiguê ficou tão furioso que começou a puxar pela espada, mas Hacuíne prosseguiu:
— Ah, tens uma espada! Mas o mais certo é a lâmina estar tão embotada que nem conseguirias cortar-me a cabeça!
E, quando Nobuchiguê desembainhou completamente a espada, Hacuíne comentou:
— Aqui se abrem as portas do inferno!
Perante estas palavras, o samurai, compreendendo o estratagema do mestre, voltou a embainhar a arma e fez-lhe uma reverência.
— Aqui se abrem as portas do paraíso — disse Hacuíne.
Nyogen Senzaki;Paul Reps
101 Histórias Zen
Lisboa, Editorial Presença, 1987

As batatas da concórdia
Há muito, muito tempo, havia dois países. Um ficava a leste e o outro a oeste.
Um dia, declararam guerra um ao outro e ninguém mais teve tempo para se ocupar dos campos, das vacas e das galinhas. Era preciso afiar as espadas, fabricar balas de canhão, ou recoser os botões dos uniformes dos soldados.
Num vale situado entre os dois países, vivia uma mulher que queria ignorar a guerra. Tinha dois filhos, uma vaca, algumas galinhas, e um grande campo de batatas. Para proteger os filhos e o campo da guerra, construiu um muro em torno da propriedade. Os filhos adoravam a mãe e ajudavam-na a plantar e a colher as batatas. Também tomavam conta da vaca e das galinhas. Apreciavam ambos a macieza dos seus leitos e a tranquilidade da sua casa.
Por vezes perguntavam:
— Por que razão temos de viver rodeados por um muro?
Ao que a mãe respondia:
— Porque as batatas não cresceriam se sentissem o sopro do vento leste e o sopro do vento oeste.
Durante as frias noites de inverno, enquanto as tormentas e os combates sacudiam o céu e a terra, mãe e filhos comiam batatas cozidas na brasa.
♣♣♣♣
Os filhos cresceram. Um dia, o mais velho olhou para leste e viu um regimento de soldados, que marchava de forma cadenciada. Virou-se para a mãe e exclamou, largando o saco de batatas:
— Olha-me só para aqueles belos uniformes vermelhos e para aquelas magníficas espadas!
A mãe replicou:
— Eu já vi uniformes vermelhos enlameados e rasgados, e espadas torcidas e quebradas. Não me aborreças com isso, filho, e continua a trabalhar. Fiz batatas novas com leite coalhado para o jantar.
— Estou farto de plantar batatas! Vou-me embora, mãe! — declarou o mais velho.
E desatou a correr para leste.
No dia seguinte, o mais novo olhou para oeste e viu um regimento de soldados, que marchava de forma cadenciada. Virou-se para a mãe e exclamou, largando a enxada:
— Olhe-me só para aqueles belos uniformes azuis e para aquelas medalhas cintilantes!
— Eu já vi uniformes azuis cheios de buracos e de sangue, e medalhas enferrujadas nos campos de batalha. Continua a trabalhar, filho. Vou fazer um crepe de batata.
— Estou farto de arrancar ervas daninhas! Vou-me embora, mãe! — declarou o mais novo.
E desatou a correr para oeste.
A mulher ficou só e chorou amargamente. Depois, trancou a porta e foi para o seu campo de batatas.
♣♣♣♣
Os dois filhos tinham orgulho em ser soldados. Vestiam uniformes novos e tinham espadas e medalhas reluzentes. As raparigas lançavam-lhes flores à passagem. Um deles foi promovido a general do exército de leste, enquanto o outro se tornou comandante do exército de oeste. Travaram tantos combates!
Por vezes, depois de uma batalha, o general olhava para o uniforme enlameado e para a espada torta e recordava-se do leito macio e do gosto das batatas na brasa. E, por vezes, depois de uma batalha, o comandante olhava para o uniforme manchado e para as medalhas enferrujadas e recordava-se do campo de batatas e da lareira. A lembrança da mãe deixava-os muito tristes.
Os combates continuaram, deixando as terras queimadas e devastadas. Em breve, nada havia para comer, fosse a leste fosse a oeste.
— Temos fome! — queixavam-se os soldados do exército de leste.
O general conhecia um lugar onde havia comida.
— Queremos comer! — exigiam os soldados do exército de oeste.
O comandante conhecia um lugar onde podiam saciar-se.
♣♣♣♣
Uma noite, os dois exércitos encaminharam-se para o vale onde vivia a mulher que cultivava batatas.
— Mãe, os meus soldados têm fome! — disse o filho mais velho, do lado leste do muro. — Precisamos de forças para ganhar a guerra!
— Mãe, os meus homens precisam de comer — disse o filho mais novo, do lado oeste do muro. — Dá-nos algumas batatas e lutaremos até vencer!
Um silêncio absoluto reinava do lado de lá do muro. Os soldados começaram a gritar:
— Batatas! Batatas! Derrubemos o muro e procuremos as batatas!
Os exércitos derrubaram o muro de um lado e do outro, e lançaram-se numa disputa pelas batatas. A casa ficou destruída, a vaca e as galinhas fugiram. No campo sacudido pela violência dos combates, os soldados gemiam de dor. O general e o comandante também estavam feridos. No meio de uma pilha de louça partida e de pedras, jazia, inerte, uma mulher. Quando o general e o comandante viram a mãe naquele estado, desataram a chorar.
— Mãe, a culpa é nossa! — lamentava-se o filho mais velho.
— Que fomos nós fazer! — soluçava o mais novo.
— Fala connosco! — pediam ambos.
♣♣♣♣
Os combates tinham cessado e os soldados estavam como que petrificados. Viam o general e o comandante em lágrimas, e pensavam nas suas próprias mães. Foi então que começaram, também eles, a chorar. Contudo, a mulher não morrera. Deixou que os soldados chorassem durante algum tempo, antes de se levantar e dizer:
— Embora tenham destruído a minha casa e o meu campo, não deixarei de vos alimentar. Tenho batatas que cheguem na cave, mas exijo que os combates cessem, que ajudem a restaurar a ordem, e que regressem para junto das vossas mães.
— Temos tanta fome e estamos tão cansados de lutar! — diziam uns.
— Faremos tudo o que nos disser! — diziam outros.
— Dê-nos algumas batatas, por favor! — pediram todos.
— Ó mãe, podias ter morrido! — disse o comandante.
— Estamos tão contentes que estejas viva! — alegrou-se o general. — Perdoa-nos, por favor!
— Vivam as batatas e vivam as mães! — gritavam os soldados, com a boca cheia.
Aos poucos, foram recobrando forças e começaram a cantar canções que as mães lhes tinham ensinado. Em breve, as melodias ressoavam de uma ponta a outra do país.
Muitas mães reconheceram as vozes dos filhos e vieram, de todos os lados, para os abraçar. Os soldados agradeceram as batatas, despediram-se da mulher, e regressaram a casa. Depois de terem tirado os uniformes, pediram à população que não mais afiasse as espadas ou fabricasse balas de canhão.
Os dois filhos enterraram as espadas e as medalhas, e ajudaram a mãe a plantar novas batatas. Reconstruiram, com cuidado, a casa, mas nunca mais reconstruíram o muro.

Anita Lobel
Pommes de terre
Paris, Kaléidoscope, 2004
(Tradução e adaptação)

LARANJAS DE NATAL
N |
um tempo não muito longínquo, vivia numa cidade uma menina cujo nome verdadeiro todos desconheciam. Tinha sido deixada nos degraus de um orfanato uns anos antes e apenas se sabia que, na sua camisinha de noite, alguém prendera um bilhete a dizer, “Por favor tomem conta desta bebé. É muito tranquila.” A diretora do orfanato, a Senhora Hartley, começou a chamar-lhe Rose, por causa das faces rosadas, e a menina ficou assim conhecida.
Os primeiros anos de Rose foram passados no Orfanato Bosques Verdes. Amada e acarinhada pela diretora, sentia-se muito feliz, tanto mais que não conhecera outro lar. Costumava dizer a si mesma que tinha trinta irmãos e irmãs, pois gostava de todas as crianças do orfanato. Apesar dos desentendimentos que por vezes tinham, depressa faziam as pazes e continuavam a gostar umas das outras.
N |
um novembro particularmente invernoso, quando Rose tinha oito anos, uma terrível epidemia de gripe assolou o país. A epidemia matou muitas pessoas novas e idosas e, no orfanato, também muitas crianças ficaram doentes e algumas delas morreram.
A Senhora Hartley, que tinha um coração pleno de amor e bondade, tomou conta delas como se fossem seus filhos. Banhou as suas carinhas febris com água fria, convenceu-as a tomar pequenos goles de caldo quente, aconchegou-as a si e embalou-as noites a fio. Contudo, depois de muitos dias e noites a fazer isto, a Senhora Hartley também sucumbiu à gripe e partiu tranquila deste mundo.
A sua morte implicou o encerramento do Orfanato Bosques Verdes. Não tinha filhos que continuassem a sua obra e os habitantes da cidade sentiam que eram pobres de mais para carregar esse fardo suplementar. Foi, então, decidido que as crianças seriam mandadas para outras instituições do país.
E, assim, uns dias mais tarde, Rose viu-se dentro de um comboio noturno, a caminho de um novo lar num outro orfanato.

E |
nquanto Rose transpunha, com timidez, a entrada do Orfanato Portões de Ferro, não conseguia deixar de se sentir amedrontada e desiludida. O seu novo lar em nada se parecia com o anterior. Quando entrou nos quartos, deu-se conta de que, em vez de cobertores macios nas camas, havia uma espécie de mantas cinzentas e ásperas. Em vez de tapetes feitos à mão, os corredores apresentavam pavimentos nus. Também não havia uma sorridente Senhora Hartley à sua espera, mas um severo e exigente Senhor Crampton. E as trinta crianças que a esperavam também não tinham rostos sorridentes ou familiares.
— Silêncio! — ordenou o Senhor Crampton, antes de se dirigir a Rose, a quem inspecionou de forma desaprovadora.
Virando-se para as outras crianças, disse:
— Esta é Rose. Ensinem-lhe as regras do Orfanato Portões de Ferro. Emily, leva-a para o quarto de dormir e mostra-lhe as tarefas que a esperam. Os outros continuam o que estavam a fazer.
Uma rapariguinha da idade de Rose fez-lhe sinal para que a seguisse. Percorreram o corredor todo em silêncio e foi também em silêncio que subiram as escadas.
Quando já ninguém as podia ver da entrada, Emily aproximou-se de Rose e sussurrou:
— Fico contente por estares aqui. Eu tenho dez anos. E tu?
Rose tinha ficado tão assustada com a descabida ordem de silêncio do Senhor Crampton que nem se atreveu a falar. Manteve os olhos baixos e não respondeu à pergunta de Emily.
Esta pegou na mão de Rose, fez-lhe uma festa, e sussurrou de novo:
— Aqui em cima podemos sussurrar. O Senhor Crampton não nos ouve. Só quando estamos lá em baixo ou quando ele anda por perto é que temos de ficar calados e quietos. Essa é a regra número um: ficar calado e quieto. Aqui em cima podemos falar e ser amigos.
Apesar de ainda não conseguir falar, Rose dirigiu um sorriso ténue a Emily.
Nas semanas que se seguiram, Rose aprendeu as regras, explícitas e implícitas, do Orfanato Portões de Ferro. Aprendeu algumas através dos sussurros das outras crianças e outras depois de as ter quebrado. Quebrar uma regra era a maneira mais dura de a aprender, pois o Senhor Crampton acreditava que, quando uma regra era quebrada, tal falha devia ser punida com um castigo. Não adiantava explicar-lhe que uma nova criança desconheceria forçosamente a regra. O diretor achava que desculpá-la apenas encorajaria as outras a fazer o mesmo. Toda e qualquer regra quebrada merecia um castigo. Os três castigos favoritos do Senhor Crampton eram: privar a criança de refeição, obrigá-la a fazer tarefas extra, ou confiná-la uma noite à solidão. Como Rose depressa aprendeu, ou adivinhou, a maioria das regras, ia evitando ser castigada.
E |
m breve as neves brancas e soturnas de novembro deram lugar aos tons verdes e vermelhos do Natal de dezembro. Por onde quer que andassem, as crianças do Orfanato Portões de Ferro viam sinais de que o Natal se aproximava. Chegavam a ficar na rua ao frio só para ver, através de janelas iluminadas, famílias felizes a decorarem árvores, a cantarem canções sentadas ao piano, ou a fazerem deliciosas guloseimas de Natal em cozinhas quentes e alegres.
Numa dessas noites, quando Rose e Emily observavam uma menina a rodopiar no salão da casa, vestida com uma bonita camisa de flanela, Emily explicou a Rose como era o Natal em Portões de Ferro. Disse-lhe que o Senhor Crampton exprimia sempre o desejo de que o Natal nunca tivesse existido, embora as pessoas da cidade o impedissem de não o realizar. Para as manter contentes e para manter as aparências, o diretor deixava que se erigisse uma árvore na véspera de Natal depois de as crianças se terem ido deitar. Não queria que o fizessem mais cedo, porque isso excitaria as crianças e deixá-las-ia barulhentas e difíceis de controlar.

U |
m senhor idoso que morava na cidade doava sempre uma generosa caixa de laranjas ao orfanato para o pequeno-almoço natalício dos miúdos. A fim de evitar ter de comprar bolas de vidro brilhante ou outros ornamentos para a árvore, o Senhor Crampton deixava pendurar nela as laranjas, seguras por laços de corda. Emily disse a Rose que a cor viva das laranjas fazia um contraste maravilhoso com os ramos verdes do pinheiro e que o odor de ambos enchia a entrada.
Rose nunca tinha visto ou cheirado uma laranja antes. No Orfanato Bosques Verdes, nunca tinha havido dinheiro extra para uma iguaria tão cara. A surpresa da manhã do dia de Natal era uma pequena colher de açúcar em cima das papas de aveia.
Emily tentou explicar a Rose que o sabor das laranjas era mais doce do que o açúcar. Disse-lhe que, depois de muito pensar no assunto, tinha a certeza de que os anjos comiam laranjas no céu. Rose ouvia-a, espantada, perguntando-se se seria capaz de esperar três dias para comer uma dessas maravilhas.
N |
a véspera de Natal, as crianças, já na cama, sussurravam, excitadas, sobre o quão bonita a árvore deveria parecer e o quão maravilhoso seria terem um vislumbre do Natal no orfanato, mesmo que fosse apenas durante um dia.
Ainda bem que o quarto do Senhor Crampton era no andar térreo. De outro modo, tê-lo-ia contrariado sobremaneira ouvir tantos sussurros e risos nos quartos.
Deitada na cama, Rose tentava dormir. Completamente imóvel e de olhos fechados, pensava nas letras das canções de embalar que a Senhora Hartley cantava todas as noites. Esforçava-se por respirar devagar, mas, por muito que tentasse, não conseguia deixar de pensar nas laranjas que estariam já na árvore, nas laranjas que iria finalmente provar na manhã seguinte.
À medida que a noite ia avançando, Rose tentava adivinhar que horas seriam. Quando não conseguiu conter-se mais, saiu da cama e foi em bicos de pés até à porta. Olhou para trás e viu as outras crianças a dormir. Abriu a porta muito devagar para não
as acordar e, em silêncio, percorreu o corredor até à balaustrada das escadas.
De joelhos, observou, extasiada, a lindíssima árvore decorada com as desejadas laranjas e com velas acesas.
Rose apenas se manteve ajoelhada por momentos. Em seguida, dirigiu-se de novo em silêncio para o quarto, onde conseguiu, finalmente, adormecer.
O que Rose não tinha previsto era que o Senhor Crampton estivesse acordado e que a observasse do umbral da porta do seu quarto. Viu a menina ir até à balaustrada, ajoelhar-se, e depois voltar para o dormitório. Quase a chamou para lhe dar um sermão e aplicar um corretivo. Mas decidiu esperar até à manhã seguinte, a fim de usar o comportamento de Rose como pretexto para dar uma lição de obediência a todos os outros.
O sol mal começara a iluminar os telhados das casas e as crianças já se encontravam acordadas, vestidas, e formavam duas filas perfeitas entre as camas. Nunca lhe tinha sido tão difícil ficar assim imóveis!
— Bem, — começou o Senhor Crampton, com voz firme, — há por certo uma coisa boa no Natal. Todos sabem como se comportar. Antes de descermos, porém, temos de nos ocupar de alguém que não soube comportar-se devidamente. Rose, vais ser castigada por te teres esgueirado da cama e vagueado pelos corredores ontem à noite depois de as luzes estarem apagadas. Como se trata de um comportamento deveras grave, vais receber três castigos.
As crianças abafaram uma exclamação. Nunca alguma delas recebera três castigos de uma só vez.
O Senhor Crampton fez uma pausa para permitir que todos absorvessem o que acabara de dizer. Em seguida, disse:
— Vais passar o dia todo sozinha, a esfregar o soalho dos quartos, e ficas privada da tua laranja de Natal. Desçam todos! Rose, vai buscar os teus baldes e começa a esfregar!
Foi como se a alegria daquela manhã tivesse sido tirada a todas as crianças, que sabiam o quanto Rose ansiava por provar a sua laranja. Saíram devagar do quarto e encaminharam-se para as escadas. Cada uma delas retirou a sua laranja da árvore e foram em silêncio tomar o pequeno-almoço no refeitório frio.
N |
uma das vezes em que o senhor idoso tinha entregado as laranjas em Portões de Ferro, um rapazinho perguntara-lhe se tinham de comê-las ao pequeno-almoço ou se podiam guardá-las para mais tarde. O senhor rira com gosto e respondera que, porque era Natal, podiam comê-las quando quisessem. O Senhor Crampton queria que elas fossem comidas ao pequeno-almoço para acabar logo com as festividades, mas não se atrevia a ir contra a resposta do benfeitor.
Enquanto Emily olhava para a sua laranja, teve uma ideia maravilhosa. O seu coração começou a bater mais depressa, os olhos ficaram brilhantes e um sorriso desenhou-se na sua boca.
Quando alguém chamou o Senhor Crampton à entrada do orfanato, Emily sussurrou algo ao rapaz sentado junto dela mal a porta se fechou. O rapaz sorriu abertamente e, por sua vez, sussurrou algo à criança seguinte. Em breve, todos sabiam o que fazer. As laranjas desapareceram da mesa uma a uma e foram colocadas nos bolsos.

Quando o Senhor Crampton regressou à sala, viu que não havia laranjas na mesa. A ausência de cascas denunciava que as crianças não as tinham comido. Achou que era por estarem demasiado tristes com o que acontecera com Rose. Congratulou-se, interiormente, com o facto de todos terem percebido que as regras eram para cumprir.
As crianças levaram a cabo as tarefas de todos os dias, porque, depois de ter distribuído as laranjas, o Senhor Crampton tratava o Natal como se fosse um dia qualquer. As tarefas foram realizadas em silêncio, mas cada bolso escondia a presença de uma laranja.
Ao jantar, as crianças comeram a refeição e, discretamente, retiraram as laranjas dos bolsos. Descascaram-nas e comeram-nas. Todas as noites, os miúdos eram mandados para a cama depois do jantar após lavarem a loiça. A noite do dia de Natal não constituiu exceção. Os órfãos subiram as escadas com uma expressão solene na face e os olhos postos nos degraus. O Senhor Crampton não podia estar mais satisfeito com o comportamento aquiescente dos seus pupilos.
Entraram em silêncio no dormitório e olharam para a cama de Rose, que jazia aninhada e de costas para a porta. Emily dirigiu-se à cama da amiga e viu-lhe lágrimas na face e os olhos inchados de chorar. Tocou-lhe no ombro com suavidade para a acordar.
Rose abriu os olhos vermelhos que, com as memórias do dia, voltaram a encher-se de lágrimas.
— Emily, — soluçou — este foi o pior dia da minha vida. Não sabia que não podia ir ver a árvore e agora fiquei sem a minha laranja.
Emily abraçou Rose como uma irmã faria e sussurrou:
— Não chores mais. Temos uma surpresa para ti.
As outras crianças juntaram-se à volta de Rose e do bolso de um avental surgiu um embrulho branco e pequeno. Emily pegou nele com cuidado e colocou-o nas mãos de Rose. Como não havia luzes acesas, Rose não podia ver do que se tratava. Então, virando-se para a janela, por cujas vidraças sujas entrava o luar, viu um lenço limpo que envolvia um objeto redondo. Rose nem se atrevia a pensar que ali dentro estava o que imaginava. Olhou para os órfãos e viu as suas carinhas cheias de excitação.
Com os dedos a tremer, desembrulhou o lenço e viu uma laranja! Não uma laranja vulgar, mas uma laranja feita com um gomo de cada laranja que as crianças tinham recebido. Enquanto comiam as suas laranjas ao jantar, cada uma tinha passado, em segredo, um gomo da sua laranja àqueles que estavam no fim de cada mesa e que o iam guardando em lenços brancos e escondidos nos bolsos.
— Cheira-a bem! — alguém sussurrou, excitado.
Rose inspirou o cheiro doce e profundo. Fechou os olhos e susteve a respiração. Depois, deu um suspiro e fez um sorriso rasgado. Todos sorriram com ela.
— Prova-a! — murmurou outra criança.
Rose levou aos lábios um pedacinho de laranja e deu uma dentadinha. Os seus olhos abriram-se, surpreendidos, e a boca fez um trejeito ao saborear a doçura do fruto. Todos estavam pendentes das suas reações. Quando a viram provar a laranja, riram em surdina e abraçaram-se.
Como que por magia, vários lenços limpos e cheios de gomos abriram-se ao mesmo tempo. O que sobrara das laranjas foi divido em pedacinhos pequenos e todos puderam juntar-se a Rose numa última sobremesa.
Enquanto as saboreavam, todos comentaram que nunca as laranjas lhes tinham sabido tão bem. As deste ano eram, sem dúvida, as melhores de sempre. Só muitos anos mais tarde é que estas crianças se aperceberam de que o gosto especial das laranjas provinha da amizade, bondade e amor que tinham demonstrado para com a sua amiga.
A |
lguns destes órfãos vieram, em adultos, a tornar-se donos de fortunas que nunca tinham imaginado possuir. Contudo, nenhum deles jamais esqueceu o que tinha sentido no seu coração no dia em que todos tinham partilhado um pequeno gomo das suas laranjas de Natal.

Linda Bethers, Ben Sowards
Christmas Oranges
Utah, Covenant Communications, 2002

A árvore dos grous (ª)
Quando ainda não era suficientemente crescido para usar calças, a minha mãe tinha sempre medo de que eu me afogasse no lago que ficava à beira de casa. Estava constantemente a dizer-me que não fosse brincar para lá, mas eu não fazia caso, porque nele havia peixes de cores deslumbrantes.
A última vez que fui para o lago era um dia triste de Inverno, demasiado frio para os peixes se mostrarem. Nunca saíram debaixo das pedras e o que eu arranjei foi uma grande constipação. A minha mãe ia, de certeza ficar zangada comigo e adivinhar logo como é que eu tinha molhado as luvas. Mas talvez ficasse feliz por me ver.
— Mãe, já cheguei — gritei eu.
Não houve resposta.
Costumava vir sempre à porta receber-me. Voltei a chamar, e por fim respondeu. A voz parecia vir de muito longe. Ouviu-me, mas não veio ter comigo. Deve estar doente, pensei. Encontrei-a na sala a fazer dobragens em papel. Limitou-se a menear a cabeça, mal olhando para mim. Mas havia à minha espera duas fatias do meu bolo preferido, o que me reconfortou um pouco.
— Porque estás a fazer grous de papel? — perguntei eu.
— Porque quero realizar um grande desejo — respondeu, sem levantar os olhos.
— Vais dobrar mil pássaros para o teu desejo se realizar?
— Nem que seja dois mil… — estendeu os braços e passou-me a mão fria pelo rosto. — Tens a cara a arder!
Franziu o sobrolho e olhou para mim em silêncio. Baixei a cabeça e não me atrevi a falar. Ela sabia… Sempre que a minha mãe achava que eu estava constipado, dava-me um banho quente.
— Dez minutos, nem menos um segundo — disse ela.
E nem as costas me limpou. Ouvi os chinelos a afastarem-se ao longo do corredor. Depois fechou-se uma porta. Não regressou para me fazer companhia. É melhor pedir desculpa, disse eu, a pensar em mim. Mas antes que pudesse dizer que estava arrependido, a minha mãe pôs-me em pijama!
— Não tenho vontade de ir para a cama.
— Tens de ficar muito agasalhado e quente.
— Toda a tarde?
— Sim, toda a tarde.
— Vais ler-me histórias?
— Não há histórias, mas vou preparar-te um almoço quente.
Eu bem sabia o que aquilo queria dizer. Papas de arroz. Papas de arroz são só para quem está doente. E foi o que eu tive, com uma ameixa de conserva de vinagre e umas rodelas de cenoura. Comi tudo sozinho e bebi um chá quente, pela chávena grande do meu pai. Depois, meti-me na cama, e fiquei à espera, à espera que a minha mãe viesse com uma maçã e me lesse uma história. Mas a porta não se abriu.
— Mãe! — acabei por gritar.
Não respondeu. Após um longo momento, ouvi um ruído vindo do jardim. Talvez o velho jardineiro tivesse vindo podar mais uma vez as nossas árvores. Levantei-me e abri a janela. Lá fora, nevava. E a minha mãe cavava em redor de uma pequena árvore.
— O que estás a fazer? — gritei eu.
Ela parou e olhou para mim.
— Fecha imediatamente essa janela e volta para a cama!
Fechei logo a janela e fui para a cama. Hoje está mesmo zangada, pensei eu. Mas porque andará a cavar debaixo de neve? Terá ficado aborrecida comigo? Não sabia o que pensar. Começava a adormecer quando ela entrou. Trazia uma árvore num vaso azul. Era o pinheirinho que os meus pais tinham plantado quando nasci, para que eu vivesse muitos anos, tal como a árvore.
— O que estás a fazer com a minha árvore? — perguntei eu.
— Já vais ver — respondeu ela, ao colocar o vaso no chão. — Sabes que dia é hoje?
— Hum... Falta uma semana para a passagem de Ano.
— Exatamente — disse a sorrir!
Depois, foi à sala buscar os grous prateados e alguns apetrechos de costura. Por fim, sentou-se. Passou um fio por um dos pássaros e pendurou-o na árvore.
— Hoje portei-me o dia todo de uma forma um tanto esquisita — disse ela.
Eu ia começar a falar, mas interrompeu-me.
— Se prometeres ficar na cama, digo-te porquê.
— Prometo — disse eu.
— Como sabes, muito antes de vir para aqui, onde encontrei o teu pai, nasci e vivi num país muito distante.
Acenei que sim com a cabeça.
— Na Califórnia — respondi.
— Lá, hoje não é um dia como os outros. Se estivesses na Califórnia, verias, por todo o lado, árvores como esta, enfeitadas com luzes cintilantes e bolinhas de ouro e prata. E debaixo de cada árvore presentes que as pessoas oferecem aos amigos e àqueles que amam.
— Eu gostaria de ter um papagaio samurai — disse eu.
— Damos e recebemos, filho. É um dia de amor e de paz. Os desconhecidos sorriem uns para os outros. Os inimigos fazem uma trégua. Precisamos de mais dias como este!
E pendurou na árvore o último pássaro.
— Que lindo! — gritei eu.
— Ainda não é tudo — disse.
E foi à cozinha buscar velas, que prendeu aos ramos.
— Vais queimar a minha árvore? — perguntei eu.
A minha mãe riu-se.
— Só as velas, e apenas por um instante. Amanhã voltamos a plantar a tua árvore.
— Quero acendê-las! Posso, mãe? Posso?
— Sim, mas despacha-te.
A minha mãe deixou-me riscar os fósforos.
E quando acabámos de acender as velas, ela ficou em silêncio.
Estava a recordar. Via uma outra árvore, num país longínquo onde tinha sido criança como eu. Pegou em mim e sentou-me nos joelhos. Os grous oscilavam lentamente e brilhavam à luz das velas. Não pode haver uma árvore mais linda do que a minha, pensei. Nem mesmo lá, onde a minha mãe nasceu.
— Que presente gostavas de receber? — perguntei.
— Serenidade e harmonia — respondeu.
— Não! Para eu te dar.
— Oh, uma coisa muito especial… talvez uma promessa.
— Já prometi que ficava na cama.
— Outra, então.
— Está bem.
— Dá-me a tua palavra que nunca mais voltas ao lago.
Prometi.
Dormia a sono solto quando o meu pai chegou!
Na manhã do dia seguinte, saltei da cama porque um feroz guerreiro me olhava fixamente. Mas não passava de um papagaio de papel. Um papagaio! O que eu sempre desejara!
E depois, por detrás, vi a árvore, a minha árvore. De repente, lembrei-me da tarde do dia anterior e daquilo que a minha mãe me tinha contado.
— Obrigado, mãe! Obrigado, pai! — e corri lá para fora com a minha prenda.
Estava tudo coberto de neve.
— Vais ter dias melhores — disse a minha mãe. — Dias com vento e sem neve.
— Há neve que chegue para fazer um boneco! — disse o meu pai. — Anda, vamos fazer um.
E o nosso boneco de neve daquele dia derreteu.
Já se passaram muitos anos. Mas nunca esquecerei aquele dia de harmonia e de serenidade. O meu primeiro Natal.
_______________________
(ª)No Japão, a arte tradicional de dobrar papel chama-se origami (do japonês: oru, “dobrar”, e kami, “papel”). Criam-se representações de determinados seres ou objetos apenas com as dobras geométricas de uma folha, sem a cortar ou colar, e o pássaro mais célebre dá pelo nome de grou. Reza a lenda que, quando alguém consegue fazer 1000 grous de papel, o desejo de uma vida longa e feliz é sempre realizado!
Allen Say
L’arbre aux oiseaux
Paris, l’école des loisirs, 1994
Hoje com votos de um Santo Natal!
(Mais em CONTADORES DE ESTORIAS)


O anjo vermelho
Um anjo desce dos céus. Vem vestido com uma grande capa vermelha e leva na mão esquerda uma grande cesta toda em ouro. A cesta está vazia e ele anseia enchê-la para em seguida a levar, transbordante, perante o trono de Deus. Mas o que é que ele irá colocar dentro da cesta?
A cesta é muito fina e delicada pois está feita de raios de sol. Por esse motivo não pode ser cheia com coisas duras e pesadas.
O anjo visita a Terra inteira e, muito discretamente, procura em todas as casas. O que procura? Ele olha diretamente para o coração de todos os seres humanos para ver se encontra neles um pouco de amor verdadeiramente puro. E esse amor, guarda-o na cesta, protegida debaixo da sua capa…e leva-o até ao céu. E aí, os habitantes do céu, os anjos e também todos os que morreram na Terra, tomam esse amor e fazem com ele a luz das estrelas.
Soline y Pierre Lienhard
Cuentos de Adviento y Navidad. La luz en el candil
Madrid: Dilema, 2002
Hoje com votos de um excelente 2018!!!
(Mais em CONTADORES DE ESTORIAS)

Uma história para o Ano Novo

Esta história de Ano Novo passa-se na Rússia, no século XIX, no seio de uma comunidade de judeus ortodoxos. Naquela altura, como acontece ainda hoje nessas comunidades, os rapazes passavam muito tempo a aprender escrituras e comentários, e raramente tinham férias. A oração era uma constante na vida de todos, e havia orações especiais para acompanhar cada atividade, de manhã à noite. O homem que canta as orações numa sinagoga chama-se “cantor”.
A par dos ensinamentos formais das escrituras, as crianças das comunidades judaicas da Europa e da Rússia herdaram, das gerações mais velhas, uma tradição folclórica rica. Neste conto de Inverno, a avó de Samuel revela possuir um vasto repertório de histórias que atestam uma sabedoria ancestral, e conta ao neto algo sobre as árvores locais que o rabi não lhe ensinou. O amor de Samuel pelas árvores leva-o a arriscar a vida, mas a canção dele pode ser cantada por qualquer um de nós que ame tudo o que se encontra em perigo no mundo.
Era uma vez um rapaz judeu chamado Samuel, que ia à escola todos os dias, com os outros rapazes da aldeia. O professor de Samuel era pobre e tinha apenas um galo para medir o tempo. O animal tinha uma boa noção das horas e raramente se enganava. Empoleirava-se no balaústre da cama no quarto adjacente à sala de aula e anunciava o início do estudo, a pausa para o almoço, e o fim do dia de trabalho.
Certa manhã, enquanto os rapazes recitavam a lição em coro, um raio de luz solar entrou pela janela e o galo cantou um alto “cocorocó”.
― Já é meio-dia? ― admirou-se o professor.
Os rapazes sustiveram a respiração, esperançados de que o professor os deixasse sair mais cedo.
O professor viu a esperança nos olhos dos rapazes e sorriu.
― Uma vez que Deus fez o meu galo cantar, dou-vos meio dia de férias. Podem sair.
Todos se precipitaram para a rua coberta de neve. O Inverno começara há muito e estava muito frio. Os rapazes aqueciam-se correndo uns atrás dos outros, embora fosse difícil ver o pavimento devido à quantidade de neve.
Contudo, o tempo não assustava o Samuel. Acenou à mãe, que estava na loja a vender a farinha que o pai moía no moinho, e correu para casa. A avó era a única pessoa que lá se encontrava. Embrulhada em xailes e rechonchuda como uma forma de pão, apressou-se a trazer ao neto um prato de guloseimas. Enquanto comia, Samuel perguntou à avó:
― Por que motivo o professor nos terá deixado sair mais cedo hoje?
A avó acomodou-se na sua cadeira junto à lareira e abriu os olhos de espanto:
― Samuel, não te lembras de que hoje é o décimo quinto dia do Shevat1? Não sabes o que acontece neste dia?
Samuel abanou a cabeça.
Como era a pessoa mais idosa da aldeia, a avó sabia muitas histórias que o próprio rabi desconhecia. O neto aproximou a cadeira da lareira.
― Este é o dia em que Deus julga cada árvore. O dia em que decide que árvores vão crescer e que árvores vão definhar; que árvores darão fruto e que árvores serão abatidas pelo raio e pela geada; que árvores serão derrubadas pelo machado do lenhador e que árvores irão arder. É hoje que o Criador do Universo decide tudo isto.
Samuel nunca tinha pensado nas árvores desta forma e sentia-se triste por saber que elas iam ser julgadas. Tinha estado no tribunal que o rabi convocava para julgar pessoas que tinham cometido más ações, e vira que havia sempre um homem sábio para defender o réu.
Perguntou-se o que estariam as árvores a fazer, enquanto espreitava pela janela coberta de gelo para ver as que cresciam nas traseiras de sua casa. Faziam, de tal forma, parte do seu lar, que Samuel não concebia que a amoreira já não existisse no Verão, quando quisesse sentar-se nos seus ramos a cantar. E que saudades teria das bonitas bétulas, que espalhavam o seu manto na Primavera, e das macieiras carregadas de frutos doirados no Outono!
“Não estarão as árvores profundamente tristes?”, perguntou-se. “Estarão a rezar, pedindo misericórdia?”
Samuel sabia que, quando o seu povo precisava de ajuda, bastava que dez homens se reunissem e rezassem para que Deus ouvisse as suas preces. Dez homens formavam um pequeno círculo de oração, ou minyan. Tentou contar as árvores, para ver se eram dez, mas o vento varria a neve com tal força que lhe era difícil ver o que quer que fosse.
Foi então que teve uma ideia. Olhou em redor e viu a avó a cabecear na cadeia de baloiço. Devagar, Samuel aproximou-se da porta, vestiu o casaco, calçou as luvas, e enrolou um cachecol em torno do pescoço. Iria só até ao fundo do jardim, para ver quantas árvores havia, e se precisavam da sua ajuda.
Lá fora o arvoredo familiar tinha um aspeto diferente. O vento abanava as árvores de tal forma que os sincelos nelas pendurados pareciam cantar uma melodia em uníssono. As longas gotas de gelo assemelhavam-se a lágrimas e o rugir do vento mais parecia saído da shofar, a trompa feita de chifre de carneiro que era soprada em cada Ano Novo judaico.
Samuel começou a tremer de medo e murmurou para si mesmo:
― Antes de julgar as árvores, Deus está a fazer soar a shofar.
A custo, apressou-se a percorrer os carreiros deixados pela neve, e começou a contar as árvores. Havia uma amoreira, cinco bétulas e três macieiras. Eram todas suas amigas: a amoreira dava-lhe amoras vermelhas no Verão, as macieiras ofereciam-lhe maçãs frescas no Outono, e da seiva limpa das bétulas a mãe fazia limonada na Primavera. Só havia nove árvores.
Do toque dos sincelos nas árvores provinha uma melodia que mais se assemelhava a um pranto. As árvores pareciam dizer “Ajuda-nos, Samuel! Somos só nove. Se te juntares a nós, seremos dez. Reza connosco para que Deus nos ouça!”
Então, Samuel ofereceu-se:
― Queridas árvores, já que não existe um décimo elemento no vosso círculo, serei eu o vosso cantor, pois conheço as orações que devem ser ditas.
E começou a cantar:
Santo dos Santos, todos os seres vivos te proclamam Rei.
De todos sondas os corações e revelas os segredos.
Peço que Te lembres das tuas árvores!
Como o vento abafava as suas palavras, Samuel ergueu as mãos e cantou mais alto:
Criador do Universo, este dia é sagrado.
Santo dos Santos, sê compassivo com estas árvores!
A voz pura de Samuel e o som dos sincelos combinavam-se numa só súplica. As lágrimas do rapaz iam congelando na sua face, e a garganta cada vez lhe doía mais. De repente, alguém o agarrou. Embrulhadas em xailes e cachecóis, a mãe e a avó exclamavam e puxavam-no:
― Samuel, pára de gritar e vem para casa!
Durante dias a fio, Samuel ficou de cama, agitado por uma febre altíssima. Chamaram o médico. Este receitou-lhe um remédio amargo, que a avó adoçava com mel. Como Samuel continuava a cantar, mesmo durante o sono, os pais começaram a ficar cheios de preocupação. A avó não saía da beira dele, fazendo tudo o que podia para o manter vivo.
Então, um dia, Samuel abriu os olhos e sentiu-se melhor. A avó perguntou:
― O que estavas a fazer no meio daquela tempestade de neve?
― Estava a fazer de décimo elemento no círculo de oração das árvores, para que Deus as deixasse viver ― respondeu o neto.
A avó abanou a cabeça, sorriu e disse:
― Isso está nas mãos do Todo-Poderoso. Agora tenta dormir e comerás quando acordares.
O Inverno deu lugar à Primavera, e Samuel ainda não estava plenamente recuperado para voltar à escola. Estudava um pouco na cama e olhava pela janela. Lá fora, e apesar dos dias de Inverno rigoroso e de várias tempestades violentas, as árvores mantinham-se de pé, embora fosse difícil ver se ainda estavam vivas.
A tosse de Samuel começou a desaparecer e o rapaz recobrou as forças. Através da janela do quarto, viu as árvores florir. Os ramos começaram a ficar verdes, e logo apareceram botões que se transformaram em folhas. O coração de Samuel alegrou-se: a sua oração e a das árvores tinham sido escutadas!
No dia em que regressou à escola, os galos cantaram bem alto e todos ouviram as palavras: “Eis o Cantor das Árvores!”
Foi assim que, a partir desse dia, colegas e aldeões lhe começaram a chamar.
[1] Shevat é o nome do quinto mês do calendário civil e o décimo-primeiro mês do calendário religioso judaico. (N.T.)
Caitlín Matthews; Helen Cann
Fireside Stories
Bath, Barefoot Books, 2007
(Mais em CONTADORES DE ESTORIAS)

A pequena vela das histórias
Introdução
Nos primeiros anos da Grande Depressão (1929-1935), muitos porto-riquenhos deixaram a sua pequena ilha em busca de trabalho e oportunidades na grande cidade de Nova Iorque. Muitos deles estabeleceram-se a norte de Manhattan, numa zona que passou a chamar-se O Bairro. Para a gente de O Bairro, os invernos eram duros, pois era a época em que mais sentiam a falta do calor tropical da sua ilha.
Mas, um dia, algo de maravilhoso aconteceu… A senhora Pura Belpré, grande contadora de histórias e a primeira porto-riquenha a trabalhar como bibliotecária na Biblioteca Pública de Nova Iorque, começou a trazer às crianças de O Bairro, o calor e a beleza de Porto Rico, através de contos e de livros.
Lucía González
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Hildamar e o seu primo Santiago tiritavam de frio no regresso da escola. Um vento frio gelava-lhes as mãos e fustigava-lhes a cara. Era a última semana de aulas antes das férias de inverno. E era também o primeiro Natal de Hildamar em Nova Iorque!
Quando o inverno chegou a Nova Iorque, Hildamar tinha ficado admirada. Nunca tinha sentido tanto frio! Deixara Porto Rico só há alguns meses e viera com a família para Nova Iorque, num grande barco a vapor chamado El Ponce. A viagem demorou cinco dias. O sol de verão estava agora muito longe de O Bairro.
Hildamar e Santiago apressaram-se a chegar a casa, a fim de aquecerem as mãos no velho fogão de ferro.
Nessa noite, a família reuniu-se para jantarem juntos.
— Meu Deus! — suspirou a mãe Nelinha. — Quem me dera aquelas noites quentinhas de Dezembro na nossa ilha!
— Ah! — exclamou o tio Pedro, pai de Santiago. — O que me faz mais falta são os pastéis e aquele cheirinho a leitão assado por todo o lado!
— Lembro-me da festa e dos presentes, quando a família e os vizinhos nos vinham visitar. Cantava-se, havia baile e comia-se! — disse a Tia Maria, mãe de Santiago, fechando os olhos e trauteando uma melodia.
— O melhor dia do ano era o Dia de Reis! — acrescentou Santiago.
— E os Reis vêm a Nova Iorque? — perguntou Hildamar. — Vão vir este ano?
No dia seguinte, como todos os dias, a caminho da escola, Hildamar, Santiago e a Tia Maria passaram diante de um grande edifício com janelas, que parecia convidar a entrar quem passava. Era um edifício diferente dos outros edifícios de andares escuros, que se estendiam de uma esquina à outra de cada rua.
— Tia Maria, o que há lá dentro? — perguntou Hildamar. — Podemos entrar?
— Isto é a biblioteca — respondeu a Tia Maria — e as bibliotecas não são para crianças barulhentas como vós.
— É só para gente grande como tu? — perguntou Santiago.
— Nós não falamos inglês e lá ninguém fala espanhol — disse a tia.
Esta era a razão por que nunca lá entravam.
Mas, nessa mesma tarde, uma convidada muito especial veio à aula de Hildamar e de Santiago. Era uma senhora alta e magra, cujos olhos escuros brilhavam como estrelas na noite. Ao falar, as suas mãos moviam-se como as asas de um pássaro em pleno voo.
— Bom dia! — disse. — Chamo-me Pura Belpré e venho da biblioteca pública. Trago histórias e marionetes para partilhar convosco.
Usando as marionetes, a Senhora Belpré contou-lhes histórias em inglês e em espanhol. Todos se riram com a história do João Bobo a perseguir um caldeirão de três pernas. No final, a senhora Belpré convidou todas as crianças a visitar a biblioteca nas férias de Natal.
— A biblioteca é para todos — disse ela.
Hildamar estava ansiosa por chegar a casa e dar a boa notícia a todo O Bairro.
Nesse dia, quando a Tia Maria foi buscar as crianças à escola, estas contaram-lhe tudo a respeito da convidada especial, das histórias, das marionetes e da biblioteca.
— Na biblioteca falam espanhol! — exclamou Hildamar.
— Podemos ir hoje à biblioteca? — pediu Santiago.
— Espanhol? Na biblioteca? Hoje não, que estou muito ocupada — respondeu a Tia Maria. — Mas prometo que os levo um dia destes.
Hildamar disse:
— Queria que a minha mãe também viesse, mas ela está sempre a trabalhar!
— Se calhar, no sábado podemos ir todos — sugeriu a Tia Maria.
— Que bom! — aplaudiram Hildamar e Santiago e começaram a saltar. Saltaram até chegar à loja Santurce, onde o Senhor Ramón e a Dona Sofía vendiam feijões, legumes frescos, pão e café.
— Porque é que os meninos estão tão alegres hoje? — perguntou Dona Sofía, surgindo detrás do balcão.
— Que notícias trazem? — perguntou o Senhor Ramón.
— Na biblioteca falam espanhol! — disse Hildamar.
Os outros clientes que se encontravam na loja puseram-se a escutar com interesse o que Hildamar ia contando.
— Que bom! — exclamaram.
— E têm livros em espanhol? — quis saber Dona Sofía.
— Bem, logo veremos! — disse o marido.
No sábado, a mãe de Hildamar e a Tia Maria convidaram a Dona Sofía e o Senhor Ramón para irem com elas à biblioteca. Santiago, por sua vez, convidou o amigo Manuel. Caminhando por ruas cobertas de neve, o grupo recordava os Natais passados no seu país e depressa chegou ao lindo edifício. Os adultos ficaram parados, a olhar as portas altas do edifício, hesitando em entrar. As crianças subiram as escadas a correr. Mal podiam esperar!
A biblioteca estava cheia de crianças. A Senhora Belpré acolheu-os com um sorriso.
— Bem-vindos! — disse.
A pequena vela dos contos estava já acesa e a história começou:
— Era uma vez em Porto Rico...
A Senhora Belpré contou uma história que Hildamar e Santiago já tinham ouvido, uma que a avó lhes contara, acerca de uma carochinha espanhola chamada Martina, e do seu namorado, o Ratão Pérez. A história acabou com um mar de aplausos.
— Agora fechem os olhos e peçam um desejo — sussurrou a Senhora Belpré. — Depois de apagarmos a vela, os vossos desejos realizar-se-ão.
As crianças fecharam os olhos e fizeram os seus pedidos. Depois disso, a Senhora anunciou:
— O Dia de Reis já está perto. Este ano, queremos fazer uma grande festa na biblioteca, com uma peça de teatro, um baile e um desfile. A peça será a história do Ratão Peréz e da Martina. Quem quer participar na peça?
Santiago ergueu a mão:
— Eu quero!
— Eu também quero! — gritaram as outras crianças.
Santiago foi escolhido para ser o Ratão Peréz. Hildamar ergueu a mão. O seu coração começou a palpitar com força quando a Senhora Belpré a escolheu para fazer o papel mais importante da peça: o da carochinha Martina.
— Atores já temos — disse a Senhora Belpré. — Mas ainda nos falta o cenário, a música e o guarda-roupa.
Depressa se espalhou a notícia: “Na biblioteca fala-se espanhol! Vão lá fazer uma festa de Reis!” A Dona Sofía contou ao Senhor Ramón, que o disse ao Padre Simón, que o anunciou na igreja. Nesse mesmo domingo, depois da missa da manhã, os vizinhos reuniram-se. Até a Senhora Pura Belpré quis estar presente.
Todos queriam ajudar a celebrar o primeiro Dia de Reis em Nova Iorque!
— Eu encarrego-me de fazer os fatos — disse a Tia Maria.
— Eu faço as cortinas do cenário — declarou a Mãe Nenita, que trabalhava numa fábrica de costura.
— E eu construirei o palco — disse o Senhor Ramón. — Em Porto Rico, era carpinteiro.
A partir desse dia, os vizinhos iam à biblioteca todos os dias, para ajudar nos preparativos para o grande evento. E todos se alegraram ao descobrir que a biblioteca dispunha de revistas e livros em espanhol para eles lerem. As crianças ensaiavam a peça, as danças e as histórias. O Senhor Ramón ofereceu caixas de madeira e de cartão para a decoração do cenário. As mulheres de O Bairro reuniam-se na igreja, ou na biblioteca, para recortar, pintar e colar.
Por fim, no dia 5 de janeiro de tarde, a biblioteca ficou pronta para o Dia de Reis.
No dia seguinte, vieram todos: os que viviam longe e os que viviam perto.
Lá fora, a neve ia-se amontoando. Dentro da biblioteca, os troncos ardiam na lareira e a chama da pequena vela dos contos cintilava. A sala enchia-se de vozes de crianças e adultos. Falavam todos ao mesmo tempo, em inglês e em espanhol.
— ¡Ay, qué lindo! How beautiful!
A sala de leitura transformara-se numa ilha das Caraíbas. Enquanto um grupo de crianças entoava os cantares típicos de Natal, outras, impacientes, esperavam que a festa começasse.
— É um assalto! — irromperam, com grande estrondo, as vozes dos foliões, perante a admiração de todos. As crianças puseram-se em bicos de pés para ver melhor.
— Viva, viva, viemos saudar todos! — cantavam os foliões.
A Dona Sofía tocava as maracas, que faziam chiqui-chiqui-chic, chiqui-chiqui-chic. O Senhor Ramón tocava o reco-reco, cha-cra-cha-cra-cha. E, à frente do grupo, acompanhando o ritmo com a viola, lá ia o Senhor Lebrón. De repente, chegaram os três Reis Magos, que percorreram o salão inteiro, atirando rebuçados e guloseimas às crianças. Depois, a música acabou e a peça começou:
— Há muitos anos, numa casinha com uma linda varanda, vivia uma carochinha chamada Martina...
Hildamar entrou em cena. Era uma carochinha muito bonita. Quanto a Santiago, era um ratinho muito elegante!
A Senhora Belpré concluiu o programa da forma habitual.
— Fechem os olhos e peçam um desejo — murmurou, apertando entre as mãos a pequena vela dos desejos.
Hildamar fechou os olhos e formulou um desejo. Quando os abriu, os seus olhos cruzaram-se com os da Senhora Belpré. Com um sorriso suave e o olhar brilhante, esta disse:
— Hoje, com a ajuda de todos, trouxemos o calor e a beleza de Porto Rico a Nova Iorque. Lembrem-se de que a biblioteca é para vocês todos. Apaguemos juntos a pequena vela dos desejos e estes realizar-se-ão.
Lucía González
The Storyteller’s Candle
San Francisco, Children’s Book Press, 2009
(Tradução e adaptação)
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Pensa-se que Pura Belpré nasceu entre 1899 e 1903 na pequena aldeia de Cidra, Porto Rico. Em sua casa, todos contavam histórias. As histórias que a avó lhe contava haviam sido transmitidas oralmente, de geração em geração. Foram essas as histórias que ela levou para os Estados Unidos no início dos anos 20. Pura Belpré foi a primeira bibliotecária porto-riquenha de Nova Iorque e iniciou a sua carreira ao serviço da Rede de Bibliotecas Públicas de Nova Iorque. Este trabalho foi a sua grande paixão, paixão essa que a acompanhou durante toda a vida. Dotada de uma voz profunda e sugestiva, foi uma grande contadora de histórias, para além de ter sido artista de marionetes e autora de lindos livros para crianças. O conto Pérez y Martina, publicado pela primeira vez em 1932, é considerado um clássico da literatura infantil.
Em 1996, foi criado o Prémio Pura Belpré para honrar os escritores e ilustradores latinos cujos livros para crianças celebrem as vivências da cultura latina.
No decurso da sua longa carreira de escritora, contadora de histórias e bibliotecária, Pura Belpré tornou-se fonte de inspiração para gerações de jovens nas comunidades em que trabalhou. O seu desejo era ser como Johnny Appleseed, figura lendária dos Estados Unidos, herói de um livro que lera em Porto Rico. Tal como ele que, enquanto viveu, foi lançando sementes de maçã por todo o Oeste, também ela quis lançar as sementes das suas histórias por todo o país.
As Três Perguntas

Viveu, outrora, um imperador que acreditava poder governar de forma sábia e justa se conseguisse responder a três perguntas.
As perguntas eram: “Quem são as pessoas mais importantes?”, “Qual é a melhor altura para fazer algo?” e “Qual é a coisa que devemos fazer sempre?”
O imperador sentia um tal anseio por obter resposta para as três perguntas que prometeu uma enorme recompensa a quem lha trouxesse. E, assim, em breve começou a chegar gente vinda de todo o império e cada um trazia respostas diferentes.
Alguns diziam que as pessoas mais importantes eram os agricultores, pois, sem o trabalho deles, todos morreriam à fome. Outros diziam que as pessoas mais importantes eram os pais, os professores e todos quantos lidavam com crianças, pois as crianças eram o futuro. Outros ainda eram de opinião que as pessoas mais importantes eram os soldados, pois, sem eles, o país seria invadido.
Quanto à melhor altura para fazer algo, alguns achavam que o imperador deveria elaborar um calendário pormenorizado, no qual detalharia os afazeres que caberia executar a cada momento de cada dia. Outros eram da opinião contrária: o imperador deveria afastar toda e qualquer interferência da sua vida e reagir de forma espontânea aos acontecimentos que fossem ocorrendo. Outros, ainda, acreditavam que o soberano deveria nomear uma comissão de sábios para o aconselhar sobre o que fazer e quando.
A terceira questão também suscitou opiniões diferentes. Alguns pensavam que deveríamos consagrar-nos totalmente à prática religiosa. Outros achavam que o estudo da ciência deveria merecer toda a nossa atenção. Outros, ainda, criam que o desenvolvimento das aptidões militares era de suprema importância.
O imperador ficou profundamente desapontado com as respostas que obteve e decidiu visitar um velho eremita que vivia numa montanha próxima e que era conhecido pela sua sabedoria. Contudo, todos sabiam que o eremita só recebia pessoas pobres e que pessoas ricas e famosas não lhe eram gratas. Então, o soberano vestiu roupas de camponês, ordenou aos criados que o aguardassem no sopé da montanha e foi sozinho à cabana do ermita.
Após uma subida íngreme, encontrou o velho sábio a cavar um jardim.
Sem mais preâmbulos, disse-lhe:
— Vim colocar-te três perguntas: “Quem são as pessoas mais importantes?”, “Qual é a melhor altura para fazer algo?” e “Qual é a coisa que devemos fazer sempre?”
O eremita ouviu atentamente as perguntas.
Depois, sorriu, acenou a cabeça e regressou à sua tarefa.
Como o dia estava quente e o eremita era idoso e frágil, a tarefa cedo se revelou demasiado exigente para o ancião. Compassivo, o imperador ofereceu-se:
— Deixa-me cavar durante algum tempo.
O eremita passou a pá ao soberano e sentou-se. O imperador cavou um sulco, depois outro, e voltou a colocar as perguntas ao eremita.
Porém, em vez de responder, o ermita levantou-se a custo e disse que era a sua vez de cavar um pouco mais.
— Senta-te e descansa — insistiu o imperador, que continuou a cavar sulco atrás de sulco.
O soberano cavou até ao pôr-do-sol. A dada altura, disse:
— Está a fazer-se tarde e tenho de partir. Poderias responder às minhas perguntas, por favor?
O eremita levantou a mão e disse:
— Vem aí gente!
Pouco depois, um homem emergiu das árvores, meio a correr, meio a cambalear em direção a eles. O estranho agarrava o estômago, de onde saía sangue. Com a face contorcida e os olhos esbugalhados, acabou por cair no chão junto deles.
Sem sequer hesitar, o imperador baixou-se, tirou a própria camisa e amarrou-a bem em torno da ferida. Em seguida, foi buscar água a um riacho próximo e deu-a de beber ao ferido. Depois, carregou o homem, agora inconsciente, até à cabana do eremita e deitou-o na cama. A noite caíra, entretanto, e fez-se demasiado tarde para o soberano encontrar o caminho de volta. Exausto de tanto cavar, deitou-se no chão e adormeceu.
Quando acordou na manhã seguinte, o eremita já tinha saído da cabana. O ferido, ainda fraco, embora claramente melhor, continuava deitado. Fitando o imperador, disse:
— Perdoai-me, Majestade.
Espantado, o imperador perguntou:
— Perdoar-te porquê?
— Na última guerra, a minha família e eu lutámos contra vós. Muitos dos meus parentes foram mortos e todas as minhas terras e bens foram confiscados. Jurei vingar-me. Quando soube da vossa visita ao eremita, deduzi que viríeis sozinho e fiquei à vossa espera. Quando não vos vi regressar, desci a montanha à vossa procura. Infelizmente, os vossos criados reconheceram-me e tentaram deter-me. Um deles feriu-me. Fugi pela montanha acima e salvaste-me. Rogo-vos que me perdoeis e prometo que vos servirei fielmente até à morte.
O imperador ficou atónito com a confissão do homem e logo o perdoou, prometendo que os bens confiscados lhe seriam devolvidos. Depois, saiu da cabana, e deparou com o eremita a plantar sementes no solo que o soberano tinha cavado no dia anterior.
Ao despedir-se dele, pediu de novo:
— Poderias responder às minhas perguntas?
— Mas tu mesmo já lhes respondeste — disse o eremita com um sorriso.
— Como?
— Quando cá chegaste ontem, tiveste pena de um velho e ofereceste-te para me ajudar. Se não tivesses ficado aqui, terias sido vítima da emboscada daquele homem e poderias ter ficado ferido ou mesmo ter sido morto. E aí lamentarias não ter ficado antes a ajudar-me. Naquele momento, eu fui a pessoa mais importante com quem podias trabalhar. De igual modo, o tempo que passaste a cavar foi o tempo mais importante e a melhor tarefa foi a ajuda que me prestaste.
Quando o homem surgiu, tornou-se ele a pessoa mais importante. O melhor tempo para agir foi aquele em que ele chegou. A tarefa mais importante foi tratar das feridas dele. Se não o tivesses feito, ele teria morrido e terias perdido para sempre a oportunidade de transformar um inimigo num amigo.
Nunca te esqueças de que as pessoas mais importantes para trabalhar connosco são aquelas com quem estamos, sejam quem forem, pois quem sabe se voltaremos a estar com outras. O melhor tempo para agir é o momento presente, pois é o único sobre o qual temos algum poder. E a tarefa mais importante é trabalhar em benefício dos outros, pois esse é sempre o único sentido da vida.
O imperador despediu-se do eremita e desceu a montanha.
Inspirado por estas respostas, governou de forma sábia e justa durante muitos anos.
Tim Bowley
Semillas al viento: cuentos del mundo
= Seeds on the wind: stories from around the world
Madrid: Raíces, 2001
(Tradução e adaptação)

A Viagem
A estação era fria. As pessoas caminhavam lentamente, arrastando pesadas malas.
Num repente, comecei a ouvir alaridos de espanto. Uma velha vestida de branco havia subido à torre do relógio e, sem que ninguém soubesse como, sentou-se no ponteiro das horas. Os viajantes, aos poucos, foram abandonando a bagagem, concentrando-se por baixo da torre. Tentavam convencê-la a que descesse e ela recusava, dizendo não ser ainda a hora.
Alguém chamara a polícia, que tardava.
Todos os olhos estavam agora postos no ponteiro das horas, até os meus, e naquela mulher misteriosa. Envergava uma camisa de dormir branca de bordado inglês, que subira até às coxas. Uns longos cabelos, completamente brancos, tocavam-lhe nos joelhos. Com as duas mãos, segurava um saco de ráfia, que parecia cheio e ela olhava para cima, com um olhar doce, como se visse estrelas e não a estrutura metálica da estação.
Não sei quanto tempo passou. O relógio da estação deixou de marcar o tempo e o meu relógio de pulso também. Desconfio que nenhum relógio funcionava. Mais que uma vez, vi entre os que ali estavam, de olhares desorientados, perguntar a uns e outros as horas, sem que ninguém soubesse responder. Incrédula, deduzi que o tempo obedecia àquela mulher que todos tomavam por suicida. Fiquei curiosa. O que haveria dentro daquele saco de ráfia? Como se se apercebesse da minha curiosidade, a mulher olhou-me.
Apontou-me o dedo e pediu-me que chegasse mais perto.
Obedeci. Abriu o saco e retirou lá de dentro uma mão cheia de ponteiros, dizendo que era chegada a hora. Com uma agilidade inesperada colocou-se de pé em cima do ponteiro, ficando assim, de costas viradas para o corpo do tempo, pisando o braço das horas. Ao mesmo tempo que uma nuvem de pombas brancas invadia a estação, esvoaçando por cima da torre do relógio e da velha, que já nem me parecia tão velha.
Voltou a olhar-me, esticando a mão cheia de ponteiros e disse-me:
— Isto foi teu. Perdeste tantos, como o tanto que pesa a tua mala. Vê!
Lançou-os, como se atirasse comida às pombas, que os recolheram ainda no ar, e, desapareceram com eles no bico.
Voltou a enfiar a mão dentro do saco, retirando mais um punhado de ponteiros. Desta vez olhou para a mulher ao meu lado e repetiu a operação. Repetiu-a com todos os viajantes que a olhavam em silêncio, como se esperassem a sua vez. A cada vez que o fazia, parecia perder idade.
Quando o saco ficou vazio, não era mais que uma criança, de uns 7 ou 8 anos.
Abriu os braços e saltou.
Naquele momento, um anjo caía da torre do relógio. Antes que atingisse o chão, sete pombas agarraram na agora criança, elevaram-na e desapareceram com ela. Consternados, os viajantes olhavam-se entre si, tentando perceber, se o que haviam presenciado fora real, ou apenas uma alucinação partilhada, que ninguém quis explicar à polícia, quando finalmente chegou.
O único crime que encontrou foi tempo perdido.
Ouviu-se a última chamada para o último comboio da noite.
O relógio da torre marcava agora cinco minutos para a meia noite. Após um ou dois minutos de despedidas, a estação ficou vazia e o comboio cheio. A vida prosseguiu como se nada fosse.
Quando peguei na minha mala, pela primeira vez apercebi-lhe o peso.
Hesitei, mas acabei por a deixar ali mesmo e entrei no comboio.
Afinal, a ternura é leve e não precisa de bagagem.
Nenhum tempo se perde ou envelhece com ela.
Talvez seja isso a única coisa que me faz falta, nesta viagem.
Sónia M.
Duas irmãs recebem uma visita...
Havia duas irmãs que viviam numa ilha e que eram muito felizes.
Nunca nada acontecia de grave: só quando os caracóis comiam os morangos, ou quando faltava o chá.
Então, remando um pouco, as duas irmãs iam abastecer-se à cidade mais próxima.
Uma vez por semana, o barco trazia os jornais. E o tempo passava calmamente.
Até ao dia em que o barco trouxe também uma carta. As duas irmãs abriram o envelope e encontraram lá dentro a seguinte mensagem:
Chegarei aí na terça feira,
O vosso primo Hans.
¾ Terça feira? Mas terça feira é hoje!
E, com efeito, o primo tinha chegado com o correio.
Que alegria para as duas irmãs ao receberem aquela visita!

No entanto, logo no dia seguinte, o primo disse-lhes:
¾ Como se pode viver assim?! Não se preocupem, vou ajudar-vos! Vamos pôr um pouco de ordem nisto tudo!
E começou logo a arranjar a torneira da cozinha...
A luz da sala...
… e mais algumas pequenas reparações.

Depois, pôs-se a pintar a casa de fresco.
¾ Ah! Isto é uma surpresa! ¾ disse às duas irmãs que estavam espantadas. ¾ Está bem melhor do que antes. E muito mais moderno. E claro, faço tudo isto
de boa vontade para as primas!
Quando, na manhã do dia seguinte, as irmãs chegaram à cozinha, o primo já tinha posto a mesa.
Mas onde estavam a manteiga e a compota? E as torradas?
¾ A partir de agora, só haverá cereais. Vão ver como faz bem à saúde! E são bem mais leves! Não é fantástico?
Ao jantar, o primo disse:
¾ Os animais não devem estar dentro de casa! Só trazem micróbios!
A partir daí, o gato, o cão e o pássaro tiveram de se resignar e ir viver lá para fora, o que era bastante desagradável no tempo de chuva.

Alguns dias depois, ainda era noite escura e as duas irmãs dormiam a sono solto, quando o primo gritou alegremente:
¾ Já acordaram? Vamos, um pouco de ginástica matinal! Não há nada melhor para começar bem o dia!
A partir de então, e todas as manhãs, ao frio, as duas irmãs tiveram de aguentar alguns exercícios bem difíceis…
Depois, o primo quis também que elas fizessem natação.

Numa outra manhã, quando lavavam os dentes, as duas irmãs ouviram barulhos estranhos na sala.
¾ Pus um pouco de ordem! Não me agradeçam, faço isto com todo o prazer! Toda esta tralha vai para o sótão, a sala está muito atravancada. Eu vou mostrar-vos como se vive hoje em dia!
Conclusão: a casa ficou vazia e desconfortável. E até o belo relógio de parede tinha desaparecido.
Reinava por fim um profundo silêncio…

Nessa tarde, depois de uma pequena sesta, as duas irmãs dirigiram-se para o jardim para regar as flores.
Mas já era tarde de mais.
¾ Era preciso que alguém limpasse este matagal! Devem estar bem admiradas ao ver um jardim muito mais bonito!
Um clima de frieza e de aborrecimento instalou-se definitivamente entre os três.
Ia tudo de mal a pior. E as duas irmãs acabaram por ficar doentes.
Numa noite, uma delas perguntou quase a medo:
¾ Tu não achas que o nosso primo está a passar das marcas?
¾ Louvado seja Deus, eu pensava que tu o apoiavas! ¾ respondeu a outra. Temos de lhe meter um travão!
¾ Sim, mas como?
Pensaram nisso toda a noite.
Mas quando, de manhã, foram ao quarto do primo, deram com ele a fazer a mala.
E ele disse-lhes sem rodeios:
¾ Decididamente, vocês são muito aborrecidas! Que tristeza! Não vos ajudei? Não arrumei, não arranjei a vossa casa de cima a baixo? E tudo isso sem uma palavra de agradecimento! Não tenho tempo a perder com pessoas como vocês! Vou já embora!
¾ Queres ficar mais um pouco? ¾ perguntaram as duas irmãs que eram muito bem-educadas.
¾ Não, não! Acabou-se! ¾ gritou o primo sem se deter.
Assim que o barco partiu, tudo voltou ao antigamente.
Os animais vieram para dentro, o cão a dormir outra vez no sofá, e a casa ficou de novo confortável.
E as duas irmãs voltaram rapidamente à sua rotina.
Às vezes, a descascar batatas ou quando apanhavam ar no jardim, pensavam nesse parente simpático que as visitara há bem pouco tempo.
E só lamentavam uma coisa: que ele tivesse ido embora um pouco aborrecido.

Sonja Bougaeva
Deux sœurs reçoivent de la visite
Paris, Sarbacane, 2009
(Tradução e adaptação)


Quem é quem?
Dois leões estão a lutar em frente ao quadro.
Uma bruxa está sentada à secretária.
Um lobo está à espreita por baixo da caixa de areia.
Um palhaço toca trompete.
Um cozinheiro corre atrás de uma borboleta.
Um limpa-chaminés atira serpentinas pelo ar.
O Capuchinho Vermelho distribui bolinhos.
Um rato Mickey conta anedotas.
Um tigre apaixonou-se por uma cigana.
Um astronauta dá uma cambalhota.
Depois dançam todos à roda e cantam.
No meio, está um mago. É a professora.
Quase não reconhece os alunos.
“Quem é quem?”, pergunta-se.
Ainda bem que não é Carnaval todos os dias!
Max Bolliger
30 Geschichten zum Verschenken
Lahr, Verlag Ernst Kaufmann, 1991
(Tradução e adaptação)
No intuito de darmos continuidade ao anterior projeto, “Um dois três era uma vez”, embora em moldes que se pretendem mais abrangentes, reiniciamos o envio semanal de pequenas histórias para crianças e adolescentes, por vezes acompanhados de textos dirigidos a um público adulto, convidando à reflexão, e também ao sonho, que tão necessários se tornam numa sociedade em que o materialismo tem crescido desmedidamente, a ponto de abafar os valores mais genuínos do ser humano: o respeito pelos outros, a ternura, a delicadeza, a compaixão pelos que sofrem, a generosidade.
Esperamos que o projeto, que agora passa a chamar-se “Um dois três, era outra vez”, continue a encontrar leitores assíduos entre aqueles a quem se dirige, e possa proporcionar agradáveis momentos de partilha entre pais e filhos.

A História de Sem Mocassins
Entre nós, índios Lakota, os mais velhos são os melhores exemplos de como devemos viver as nossas vidas. Cada ancião é um repositório de histórias que são fruto das suas experiências e das vivências do mundo que habitaram. Nunca conheci um idoso que não fosse um bom exemplo de, pelo menos, uma virtude, e muitos são exemplo de mais do que uma.
Uma mulher que viveu antes do século XVIII é a melhor ilustração do que acabo de dizer. Chamava-se Sem Mocassins e o marido dela era conhecido pelo nome de Três Chifres. Sem Mocassins era baixinha, tinha o cabelo todo branco, como neve recentemente caída, e as linhas do seu rosto mostravam os muitos caminhos que trilhara na vida. Ninguém saía de sua casa sem uma peça finamente tecida. Os seus padrões eram extremamente elaborados e as mulheres da aldeia vinham aprender com ela a arte de fazer mantas. Contudo, Sem Mocassins era apenas conhecida como a mulher de Três Chifres.
Este gozava de uma excelente reputação. Toda a sua vida fora guerreiro e, quando envelheceu, tomou assento no conselho dos anciãos da tribo. A sua eloquência era sem par e os seus conselhos eram procurados por muitos. Todos o consultavam. Quando adoeceu, vieram pessoas de todas as aldeias prestar-lhe tributo. Quando Três Chifres soube que tinha vindo tanta gente, pediu aos mais velhos que comparecessem na sua cabana. Vieram quatro homens e duas mulheres, e a todos Sem Mocassins serviu com delicadeza. O marido disse aos anciãos:
— Meus amigos e parentes, obrigado pela vossa presença. Tenho a honra de ter partilhado esta casa com a minha mulher durante quase cinquenta Invernos. Vivi uma vida boa e estou preparado para a vida que me espera. Antes de partir, queria contar-
-vos uma história e pedir-vos que a contem a todos os que vierem à nossa aldeia.
Quando era jovem, saí da minha aldeia em direção ao sul para caçar. Cheguei junto do Rio da Água Corrente, onde uma tribo acampara para passar o verão. Fui convidado a juntar-me às celebrações de uma vitória que tinham obtido sobre uma tribo do sul. No dia seguinte, acordei junto do trilho que conduzia ao rio e vi os olhos maiores e mais bonitos da minha vida a observarem-me. Levantei-me imediatamente e fui ajudar a sua dona a transportar os odres de água de volta para a aldeia. Foi a melhor tarefa que desempenhei em toda a minha vida.
Na noite seguinte, sentei-me fora da tenda dela, juntamente com os rapazes que tinham vindo cortejá-la. Chamava-se Aquela que Transporta o Fogo, e incendiou-me o coração. Fiquei surpreendido quando me disse para voltar na noite seguinte. Quedei-me pela aldeia até ao outono. Aquela que Transporta o Fogo escolhera-me para marido e, quando regressei à minha tribo, pedi que preparassem o dote da noiva. Casámos na primavera seguinte. Contudo, pouco depois, chegaram ao acampamento guerreiros do norte, que tinha vindo vingar a derrota anterior. Mataram um homem e levaram duas mulheres com eles. Fomos no seu encalço.
Andávamos depressa e conseguimos alcançá-los antes de chegarem à sua aldeia. Escondemo-nos e esperámos por uma oportunidade. Vimos como vigiavam as prisioneiras e montámos guarda. Planeámos deitar fogo a uma parte da aldeia, como manobra de diversão, a fim de podermos libertar as mulheres que estavam na parte oposta. Mas fui capturado.
Os meus captores estavam furiosos e fizeram de mim escravo deles. Maltrataram-me e fizeram-me trabalhar duramente. Perdi a noção do tempo e estava muito fraco, porque não me davam de comer. Numa noite de chuva e frio, senti muitas saudades da minha mulher. De repente, vi-a, e não era uma alucinação. Cortou as cordas que me amarravam, e levou-me para fora da aldeia inimiga. Chegámos a um esconderijo que ela tinha preparado e onde tinha colocado comida e armas. Disse-me que não acreditara nas notícias da minha morte e que decidira procurar-me.
Entretanto, o inimigo descobrira a minha fuga e mandara alguém no meu encalço. Cobrimos o nosso rasto o melhor que pudemos, mas eu não conseguia andar muito depressa. Pensámos num plano. Escondemo-nos na caverna de um urso velho. Enquanto eu dormia, Aquela que Transporta o Fogo foi deixar os seus mocassins junto de uma represa, para fingir que tinha tomado aquela direção. A partir daquele dia, comecei a chamar-lhe Sem Mocassins.
A nossa tribo ficou surpreendida com o nosso regresso. Pensaram que eu tinha sido morto e que a minha mulher se matara também. As pessoas louvaram o meu feito, mas o mérito não fora meu. É pois tempo de saldar a minha dívida. Tudo o que consegui não teria sido possível sem os riscos que a minha mulher correu. Nunca ouvi narrar façanha mais corajosa a algum homem.
Foi por causa dela que tomei o caminho dos guerreiros. Para ser digno dela. Porém, não creio tê-lo conseguido e, por isso, quero honrar quem, de facto, honras merece. Peço que as minhas armas e os meus atributos de guerreiro sejam colocados nos aposentos da minha mulher, porque é lá que devem ficar. Em breve, deixarei este mundo e peço que o meu corpo seja enrolado apenas numa manta. Quero deixar este mundo como era antes de conhecer a minha mulher: pobre e sem ornamentos. Tudo o que fui devo-o a ela.
Três Chifres suspirou e calou-se. Sem Mocassins enxugou as lágrimas em silêncio e aconchegou o marido. Este continuou:
— Conheci muita gente boa na minha vida: sábia, honrada, generosa e corajosa. Mas a única virtude que dá verdadeiro significado às outras é a humildade.
Os anciãos juraram partilhar com os mais novos a história sobre a coragem e a humildade de Sem Mocassins que tinham acabado de ouvir. E assim fizeram. Quando o marido morreu, dias depois, Sem Mocassins cortou o cabelo e legou os adornos do marido à Sociedade dos Guerreiros. Mas tudo o resto permaneceu inalterado. Todos os dias, alguém deixava ofertas à porta da sua cabana, pois a honra que haviam tributado ao marido em vida, dedicavam-na agora a ela. Sem Mocassins partilhava essas ofertas com os mais novos e os mais velhos, e recebia com gentileza todos os que a visitavam.
Morreu com setenta anos. No seu leito de morte, penduraram o escudo, as armas e a lança do marido. No chão colocaram muitos pares de mocassins, para que não tivesse de fazer, descalça, a viagem até ao outro mundo.
Joseph M. Marshall III
The Lakota Way
New York, Penguin Compass, 2002
Tradução e adaptação
No intuito de darmos continuidade ao anterior projecto, “Um dois três era uma vez”, embora em moldes que se pretendem mais abrangentes, reiniciamos o envio semanal de pequenas histórias para crianças e adolescentes, por vezes acompanhados de textos dirigidos a um público adulto, convidando à reflexão, e também ao sonho, que tão necessários se tornam numa sociedade em que o materialismo tem crescido desmedidamente, a ponto de abafar os valores mais genuínos do ser humano: o respeito pelos outros, a ternura, a delicadeza, a compaixão pelos que sofrem, a generosidade.
Esperamos que o projecto, que agora passa a chamar-se “Um dois três, era outra vez”, continue a encontrar leitores assíduos entre aqueles a quem se dirige, e possa proporcionar agradáveis momentos de partilha entre pais e filhos.

A filha do calígrafo
Menglu era filha de Junhao, um calígrafo chinês muito famoso que tinha uma grande loja onde trabalhava todos os dias a fazer magníficos textos para o rei.
Junhao era viúvo e vivia na esperança de que a sua filha pudesse continuar, um dia, a antiga e nobre tradição da caligrafia.
Mas, infelizmente, Menglu era um verdadeiro desastre! Quando, munida de tinta e de pincéis, tentava escrever, as letras saíam desalinhadas e tremidas.
— Concentra-te! — dizia-lhe o pai muitas vezes. — És muito desajeitada. Não te distraias quando estás a escrever!
Mas Menglu só conseguia concentrar-se durante alguns minutos. Sem contar, a sua imaginação vencia a concentração e levava-a para muito longe, para um mundo de sonho e de fantasia.
Um dia, mal o pai saiu para ir buscar tinta a uma aldeia próxima, alguém bateu à porta da loja. Menglu foi abrir e deparou-se com uma velhinha, rechonchuda e pequenina, de faces coradas como uma maçã, que deixara atrás de si um carrinho muito antigo.
— Bom dia, minha senhora. O meu pai não está em casa mas pode dar-me o recado que eu entrego-o sem falta! — disse Menglu delicadamente.
— Ai que pena! — respondeu a velhinha. — Sou vendedora ambulante e, ao passar pela vossa loja, veio-me à cabeça que um dos meus objetos poderia interessar-vos.
Ao dizer isto, mostrou um magnífico pincel de calígrafo de madeira escura que, no seu cabo, tinha gravados muitos caracteres antigos.
— Oooooh! — exclamou Menglu, encantada. — É maravilhoso!
— Vejo que te agrada — disse a vendedora. — Vou fazer-te um preço de amigos: só cinco moedas... Um objeto tão bonito e tão barato! Não deixes fugir a oportunidade de comprares um pincel mágico!
Menglu disse para os seus botões que a velhinha era, na verdade, muito gentil, mas um pouco estranha: o pincel era mesmo muito bonito, com os seus magníficos caracteres, mas não podia ser mágico.
Menglu era pequena, mas não era estúpida!
Mas só cinco moedas… uma pechincha…
— Está bem, compro-o. Vou fazer uma surpresa ao meu pai! Espere um pouco, por favor, vou buscar as cinco moedas — disse a menina.
Menglu foi buscar o dinheiro escondido num vaso grande na prateleira, onde ela guardava as moedas que o pai lhe dava para os seus doces preferidos.
— Estão aqui as cinco moedas, minha senhora — disse Menglu dando-lhe o dinheiro.
A velhinha guardou-as no bolso e desapareceu num abrir e fechar de olhos.
Menglu estava outra vez sozinha na loja quando, de repente, do pincel que ela agarrava começou a irradiar uma espécie de calor.
«Que estranho! De repente, deu-me vontade de escrever», pensou Menglu que, mesmo sem se aperceber, já estava sentada diante da mesa de trabalho, com as mãos cheias de tinta.
E ali estava uma folha em branco, bem diante dos seus olhos.
Não resistiu e escreveu o primeiro caracter que lhe veio à cabeça:
Bambu
— Trás... trás...trás.
Dezenas e dezenas de bambus de tinta negra brotaram do chão da loja!
Menglu, assustada, levantou o pincel...
Mas era mais forte do que ela: uma irresistível vontade de escrever apoderou-se da menina e, lentamente, como que animada por uma vontade própria, a sua mão desenhou uma nova palavra na folha:
Dragão
Os bambus começaram a agitar-se e, de repente, um esplêndido dragão surgiu por entre as folhas.
— Ó belo dragão, o que fazes aqui? — perguntou a pequena Menglu.
O dragão tentou dizer qualquer coisa mas nenhum som lhe saía da boca. Menglu então percebeu e desenhou uma nova palavra na folha:
Voz
Então, o dragão disse-lhe, sorrindo:
— Não devemos ter medo das letras, elas velam pelo nosso Bem.
E fez-lhe sinal para subir para o seu dorso...

Assim que a floresta de bambus ficou para trás, ambos depararam com um grande espaço branco, dominado pelo vazio.
Só algumas manchas de tinta surgiam aqui e ali, enquanto estranhos animais corriam em todas as direções.
— O que se passa, senhor Dragão? O que vem a ser este espaço em branco e estes animais tão esquisitos?
— Tudo isto é o nosso universo, Menglu. O lugar onde as palavras ganham forma... Mas, infelizmente, com a exceção do teu pai, ninguém mais se dedica à caligrafia. E, por isso, o nosso mundo vai desaparecendo... Os seres esquisitos são o resultado de palavras mal escritas ou de palavras maldosas.
Nesse mesmo instante, um estranho pássaro com três patas e com uma tromba em vez de um bico pousou na sua crina e, depois, tal como apareceu, desapareceu num ápice.
Tudo voltou a ser branco e vazio quando, de repente, uma bela princesa apareceu numa sala, rodeada de flores de pessegueiro e seguida por um belo pavão.
— Vês, — disse o dragão — neste preciso momento, um poeta acaba de escrever versos à sua amada. É assim que as palavras dão vida a seres maravilhosos.
Menglu subiu de novo para o dorso do dragão e os dois voltaram para o caminho da floresta de bambus.
Depois, Menglu deu consigo outra vez na sua mesa de trabalho. Quando quis voltar-se para o dragão e agradecer-lhe, nem teve tempo de abrir a boca: dragão e floresta já tinham desaparecido.
Nesse mesmo instante, o senhor Junhao chegou a casa com uma caixa cheia de tintas. Curioso, aproximou-se da mesa da filha e descobriu, com surpresa, os ideogramas perfeitamente desenhados por Menglu.
E c
omeçou a ler:
Dragão… Bambu… Voz
— Minha querida Menglu, os teus ideogramas estão simplesmente magníficos! Nem um único borrão de tinta! Como conseguiste? — perguntou, admirado.
— Foi só encontrar um bom pincel... — respondeu Menglu piscando o olho.
Junhao foi para o seu canto e pegou no pincel.
E logo surgiu, a preto e branco, a Dama que velava pelo Bem...
Cat Zaza
La fille du calligraphe
La Crèche, Marmaille et compagnie, 2013
(Tradução e adaptação)

O que ainda pode ser feito
Há muitos milhares de anos atrás, o Laaerberg, um pequeno monte na cidade de Viena, estava coberto por floresta virgem. Nela viviam o mamute e o rinoceronte. O mamute extinguiu-se, o rinoceronte emigrou para sul, mas a floresta virgem ficou. Ficou assim por muitos milhares de anos, até que, há poucos séculos, os homens decidiram arrancá-la.
Como o solo deixou de ser protegido pelas árvores, o sol queimava-o continuamente. Como consequência, a terra secou e ficou reduzida a pó. O vento, quando soprava, arrastava para longe esse pó que fora terra fértil na altura em que a vegetação a protegera. Uma estepe estendia-se agora na área que tinha sido outrora uma grande floresta. Erva insuficiente segurava, com as fracas raízes, uma fina camada de húmus onde, apenas alguns centímetros mais fundo, estava já o “esqueleto” e as “entranhas” do Laaerberg: cascalho e lama infértil.
O clima da zona (o microclima) também se adaptara ao novo e horrível aspeto do Laaerberg. A antiga floresta de carvalhos tornava o ar mais fresco e fazia com que houvesse mais humidade no ar, por isso chovia mais. Agora, sem árvores, o verão era muito quente e seco, e a chuva, de que as plantas tanto precisavam, caía muito mais esporadicamente do que antes.
No início dos anos 50, o município decidiu que a antiga floresta devia renascer tão bonita como fora dantes. Em 1953 e 1954, a administração das florestas plantou árvores pequeninas, mas a terra húmida da floresta há muito que se tinha tornado numa estepe completamente seca. As raízes não tinham humidade e o sol queimava as pontas frágeis. Assim não iam conseguir.
Para nascerem novas árvores, o solo precisava de mais água, de mais nutrientes e de mais proteção contra o sol intenso e escaldante do verão. A administração das florestas construiu um sistema de rega e transportou terra boa, húmus, para o Laaerberg. Quando ficou pronto plantaram... não, desta vez não foram ainda plantados carvalhos.
Primeiro, plantaram arbustos para impedir o solo de secar, enquanto ao mesmo tempo as pequeninas árvores seguravam as encostas dos lagos. Entre elas, várias espécies de espinheiros e outras plantas que cresciam espontaneamente em zonas como aquela. Também havia arbustos com picos para impedir as pessoas de descer pelas colinas, o que poderia danificá-las.
De seguida, os funcionários da administração das florestas plantaram freixos de crescimento rápido que não só davam sombra, como também protegiam do vento. E depois esperaram. Cuidaram da nova plantação até os arbustos se tornarem fortes e espessos e os freixos se tornarem suficientemente grandes. Isto durou muitos anos. Finalmente, chegou a altura de plantar as primeiras árvores espontâneas daquela zona. Carvalhos e áceres, freixos e pinheiros bravos. Desta vez, as arvorezinhas desenvolveram-se e, quando deixaram de precisar do suporte dos freixos, que nunca antes tinham nascido no local, estes foram arrancados.
Os guardas florestais plantaram cerca de 270.000 plantas e trabalharam durante cerca de 25 anos para devolverem ao Laaerberg os seus antigos contornos. A Natureza, uma vez desertificada e danificada, não é assim tão fácil de restabelecer.
Mas … cá está agora a nova floresta, como se nunca tivesse sido diferente!
E nós, o que podemos fazer?
Ernst Epler
Lene Mayer-Skumanz (org.)
Hoffentlich bald
Wien, Herder Verlag, 1986
(Tradução e adaptação)

A História da Águia
Há muito tempo atrás, um povo vivia numa terra com muitos lagos. Nas florestas havia muitos animais, que forneciam comida e agasalho. Os lagos tinham peixes de todas as espécies, bem como patos e gansos. Este povo era forte e temido. Viviam em paz e a sua vida era boa.
Um dia, sobreveio um inverno particularmente rigoroso, com muita neve, que só derreteu em maio. O verão trouxe muita chuva e os lagos e rios encheram depressa. As pessoas sabiam que a estação húmida acabaria por passar. Acautelaram as tendas o melhor que puderam e esperaram. Mas as chuvas não pararam.
As águas subiram cada vez mais e acabaram por desalojar as pessoas, que tiveram de se deslocar para as montanhas. A comida começou a escassear, porque os caçadores não podiam caçar. As pessoas tinham frio, porque não havia madeira seca para fazer fogueiras. Os velhos morreram depressa e outros ficaram doentes. Não tinham medicamentos, por isso também eles acabaram por morrer. Entretanto, chegaram os ventos. Passados dias, já só havia uma sobrevivente.
Tratava-se de uma jovem, que se mantivera agarrada aos rochedos de uma colina elevada. Tinha subido a encosta com toda a sua família, mas esta em breve desaparecera, devido às inundações trazidas pelo vento. Agora estava só. Tinha fome, frio, e o desgosto consumia-a, enquanto se agarrava aos rochedos, desesperada. Adormeceu e dormiu durante vários dias.
Pela primeira vez em meses, o sol brilhou e brisas suaves varreram a terra, com um sopro benfazejo. A grande cheia parara, mas tinha deixado um rasto de destruição. Árvores partidas e arrancadas, colinas devastadas, relva sem verdor. Do ponto onde se encontrava, a jovem podia ver os efeitos das inundações. Nunca esqueceria que lhe tinham levado os pais e os irmãos. Pouco lhe importava que o sol brilhasse e que os animais tivessem voltado. Estava sozinha e o seu pranto ouvia-se em todo o lado.
Ficou na colina durante vários dias e várias noites, avassalada pelo desgosto, pelo desespero e pela solidão. Certa tarde, depois de acordar, viu uma águia empoleirada num rochedo perto dali. Era muito grande e tinha penas castanhas escuras, quase pretas. A rapariga assustou-se, porque sabia que a águia era uma caçadora indómita, de cujas garras ela não conseguiria defender-se. Mas sentiu-se atraída pelos olhos meigos do animal, que a olhava com curiosidade. Finalmente, a águia falou:
─ Vejo que estás sozinha.
A rapariga começou a soluçar baixinho, mas logo parou. Disse então:
─ A cheia levou toda a minha família, todo o meu povo, todos os animais. Estou, de facto, sozinha.
─ E estás triste. Ouvi-te chorar.
─ Choro porque estou completamente só.
─ Posso ser tua amiga. Diz-me o que precisas.
─ Não preciso de nada. Estou sozinha e vou morrer sozinha.
─ Não é verdade – retorquiu a águia. ─ Estamos todos aqui, contigo.
─ Mas o meu povo foi-se. Sou a última da minha raça. Quando morrer, juntar‑me-ei a eles.
─ Se morreres, não haverá mais ninguém como tu na Terra. Só haverá um vazio onde outrora o teu povo viveu. Tens de viver.
A águia esticou as asas e voou.
─ Onde vais? – perguntou a rapariga. ─ Vais deixar-me? ─ inquietou-se.
─ Vou buscar comida e já volto.
E voltou com um enorme peixe.
─ Preciso de fazer uma fogueira para o cozinhar – disse a rapariga.
─ De que precisas para fazer a fogueira?
─ De madeira seca.
A águia, que voava depressa, juntou vários toros de madeira seca, após algumas incursões numa floresta. Logo que assou o peixe e o provou, a rapariga sentiu-se melhor. Mas a águia conservou-se afastada, porque tinha medo do fogo.
─ Vocês, os humanos, podem fazer fogo, o que é sinal de grande poder. Nós, os animais, não sabemos fazer fogo.
─ O fogo cozinha a nossa comida e mantém-nos quentes. Não há nada como uma boa fogueira para afastar a escuridão. Uma fogueira é como um bom amigo.
A águia trouxe mais lenha para que a fogueira durasse toda a noite. De manhã, ainda estava fumegante, mas a águia desaparecera. A rapariga perguntava-se onde estaria o animal. Este tinha apaziguado a sua solidão, e estava-lhe grata por isso. À medida que a manhã avançava e a águia não dava sinais de vida, a rapariga foi-se convencendo de que tinha tido um sonho. Mas a fogueira e o peixe indicavam o contrário.
O animal voltou, a meio do dia, desta vez com um coelho.
─ Está um belo dia ─ comentou. ─ É bom estar vivo.
A jovem estava contente por a águia ter regressado. Esfolou o coelho, assou-o e comeu-o, enquanto o animal a olhava com interesse.
─ Há um vale muito bonito para os lados do sol poente. É um bom lugar para se construir uma casa. Tem água e é abrigado do vento frio do inverno. Talvez devesses ir para lá.
─ Não ─ respondeu a rapariga. ─ Estou aqui e aqui ficarei. Posso construir uma casa aqui, se quiser.
A águia conseguia ver a imensa tristeza da jovem. Sabia que essa tristeza não a abandonaria, porque era a última da sua raça. Nos seus muitos voos, não tinha encontrado nenhum ser de duas patas. A rapariga envelheceria e morreria só.
Continuou a trazer-lhe madeira e comida todos os dias. E vigiava a colina para prevenir qualquer perigo. Uma vez, expulsou um urso, depois de ter voado repetidamente em círculo, em volta dele.
À medida que o tempo passava, a rapariga sentia-se cada vez mais forte e começou a preocupar-se com o seu aspeto. Sacudiu o vestido e fez um pente para o cabelo. Antes da inundação, fora uma bela jovem, que muitos tinham cortejado. Agora, era a mais bela de todas.
Um dia, enquanto esperava pela águia, subiu ao topo da colina. De lá, conseguia avistar um vale largo e muitos lagos. Havia beleza em todo o lado. Com o tempo, as cicatrizes da inundação desapareceriam. Mas que podia ela fazer sozinha? Tinha sonhado casar e ter filhos. O marido caçaria e ela tomaria conta do lar. Envelheceriam juntos. Mas o que faria agora, que estava sozinha?
Um pontinho negro no horizonte foi aumentando de tamanho até se transformar na águia, que aterrou a seu lado. A jovem maravilhava-se com aquelas asas fortes e o seu poder. Mas também se maravilhava com o poder que o animal tinha para afastar a solidão dela. Disse-lhe, então:
─ Sem ti, não seria nada. Se, ao menos, fosse uma águia, voaria contigo. E veria o que tu vês. E não seria a única da minha espécie.
─ Anda, agarra as minhas penas que eu levo-te a voar ─ convidou a águia.
A rapariga assim fez. No início, teve medo, mas depois sentiu-se poderosa, porque tudo era demasiado pequeno na terra. Porém, embora as coisas fossem cada vez mais pequenas, à medida que ela subia no céu, as maravilhas da Terra tornavam-se cada vez maiores. Voaram até os braços lhe doerem. Quando, com relutância, aterrou na colina, disse ao animal:
─ Obrigada. Invejo-te pelo que és.
─ Sou teu amigo e sê-lo-ei sempre ─ respondeu a águia.
A amizade deles tornou-se mais forte. A águia continuava a trazer-lhe comida e ela desenhava a sua imagem nas rochas. Cada dia que passava, aventurava-se para mais longe da sua colina e, em breve, falava em construir uma casa. A águia viu que a jovem sorria cada vez mais, embora ainda houvesse tristeza nos seus olhos.
Um belo dia, no fim do verão, o animal voou sobre a colina. O outono estava a chegar e o inverno logo se seguiria. Já se sentia a brisa fria do Norte. A rapariga precisava de se preparar para o inverno, senão morreria. A águia estava preocupada.
─ Avô ─ chamou. ─ Tu que és o mais poderoso, porque não cuidaste do seu bem-estar?
─ Cuidei sim. Enviei-te até junto dela.
─ Ajudei-a porque precisa e é uma boa pessoa. Mas só posso levar-lhe comida. Não posso dar-lhe aquilo de que ela realmente necessita. Precisa de pessoas como ela.
─ Existe uma maneira.
─ Diz, Avô. Farei o que puder para a ajudar.
─ Tens um coração bondoso e mereces um bom lugar no Grande Círculo da Vida. Poucos têm o teu poder, mas terás de o perder se a quiseres ajudar.
─ Não entendo.
─ Para a ajudares, tens de te transformar num ser humano. Mas isso significa que não voarás mais, nem mais verás a Terra do alto. A escolha é tua. Transformares-te em homem, para que juntos tenham descendência, ou permaneceres como és.
A águia ficou em silêncio e, nessa noite, junto da jovem, sentia-se perturbada. Esta reparou que o brilho dos olhos castanhos do animal desaparecera.
─ Passa-se alguma coisa?
─ Tenho de partir. Tenho de refletir sobre um assunto.
─ Mas voltas, não voltas? Não suportaria perder-te.
─ Volto ─ prometeu o animal. ─ Serei sempre teu amigo. Trar-te-ei comida antes de partir. Fica na colina. Não te afastes ─ avisou.
No dia seguinte, a rapariga subiu ao topo da colina e perscrutou o céu. Havia muitos falcões a voar, mas poucas águias. Onde estaria o seu amigo? A solidão foi aumentando à medida que os dias passavam.
Entretanto, a águia voara mais alto do que nunca e viu mais do que alguma vez vira.
─ Avô, eis-me aqui.
─ Neto, sei o que te aflige. Tens estado perturbado, mas tomaste uma decisão.
─ Tomei.
─ A decisão que tomaste não conhece retorno.
─ Ainda há muitas da minha raça, mas ela é a última da sua. Toda a Terra sofreria com essa perda. Não vejo alternativa.
─ Seja. Os duas patas acolher-te-ão bem e ter-te-ão em grande conta.
O verão estava a acabar. Os ventos frios do Norte tinham começado a soprar. A rapariga foi buscar lenha para fazer uma fogueira. Olhou para o céu, mas não viu o amigo.
─ Estás à espera de alguém? ─ perguntou uma voz atrás dela.
Era uma voz familiar, que ela conhecia bem. O animal voltara. A jovem virou‑se, mas não viu ninguém.
─ Estou aqui.
A rapariga quase desmaiou ao ver um jovem alto e belo que saíra detrás de uma rocha.
─ Mas como pode ser isto? Pensei que todos tinham sido levados pela cheia menos eu.
─ E foram.
─ De onde vens tu, então?
─ Do céu ─ respondeu o rapaz.
A rapariga calou-se. Estava chocada e nem queria acreditar. A voz do jovem era-lhe familiar. Era a voz da águia. Aproximou-se mais, pondo de parte o medo e a confusão que sentia. Também havia algo de familiar naqueles olhos castanhos.
─ Lembras-te do dia em que voamos juntos e te levei a ver a Terra do alto?
─ Não pode ser! És tu!
─ Prometi-te que voltava e voltei. Estás contente?
A rapariga correu para ele e abraçou-o, sentindo algo que nunca pensara sentir. Sentia também que, cada vez que se aproximava dele, era como se voasse.
Antes do inverno, construíram uma casa na orla da floresta e tornaram-se, mais tarde, pais de muitos filhos. A mãe contou aos filhos o que o pai tinha sido, e eles observavam o céu sempre que as grandes águias voavam. Eram suas parentes, como ensinaram aos filhos que vieram depois deles.
Talvez agora percebam por que razão as penas de águia são sagradas para nós. Os Lakota veneram as grandes águias e, sempre que veem uma no céu, param para lhes agradecer a sua compaixão.
Joseph M. Marshall III
The Lakota Way
New York, Penguin Compass, 2002
(Adaptado)
A janela e o espelho
Um jovem rico dirigiu-se a um rabi a pedir conselho para orientação da sua vida.
O bom homem levou-o a uma janela e perguntou-lhe:
— Que vês através dos vidros?
— Vejo homens no seu vaivém e um cego, na esquina, a pedir esmola — respondeu o jovem.
O rabi levou-o junto dum grande espelho e novamente interrogou:
— Olha para o espelho e diz-me o que vês.
— Só me vejo a mim mesmo...
— ... e deixaste de ver os outros! Repara bem. A janela e o espelho são feitos da mesma matéria-prima, o vidro. Mas, no espelho, porque há uma camada de prata colada ao vidro, só consegues ver a tua pessoa, enquanto que, através do vidro transparente da janela, vês os outros.
Deves orientar a tua vida comparando-te com estas duas espécies de vidro.
Pelo vidro transparente, sem empecilhos, pobre, vias os outros e tinhas compaixão deles.
Pelo vidro coberto de prata, rico, não te vês senão a ti mesmo.
Só valerás alguma coisa, concluiu o rabi, quando tiveres coragem para arrancar o revestimento de prata que te tapa os olhos e o coração para poderes, de novo, ver e amar os outros.
Parábola Judaica
(Mais em CONTADORES DE ESTORIAS)

A maçã verde
Este é o meu segundo dia na minha nova escola, no meu novo país.
Hoje não vai haver aulas porque vamos para o exterior. Mas os outros dias não serão como este. Amanhã voltarei para a aula em que irei aprender a falar Inglês.
As mães conduzem-nos para um atrelado cheio de feno. Subimos e encostamo-nos aos fardos de feno. O carro é puxado por um trator e todos somos sacudidos de um lado para o outro.
Acho estranho haver rapazes e raparigas sentados, juntos. No meu país não era assim.
Os alunos conhecem-se uns aos outros, mas não me conhecem a mim e eu não os conheço a eles. Quando falam não consigo percebê-los, e eu não posso ainda falar com eles. Alguns são amigáveis. Mas outros olham friamente para mim e sorriem, desdenhosos.
Ouço o meu país ser mencionado, não de forma afetuosa. Preferia ir para casa.
O meu pai tinha-me explicado que aqui nem sempre éramos bem-recebidos.
— O nosso país de origem e o nosso novo país têm tido dificuldade em entender-se — disse ele. — Mas, a seu tempo, tudo aqui será bom para nós!
Quanto tempo, pergunto-me eu…
Eu também sou diferente.
As minhas calças de ganga e a minha T-shirt parecem iguais às dos meus colegas, mas a minha “dupatta” (écharpe comprida e larga) cobre a minha cabeça e os meus ombros. E eu não tenho visto mais ninguém usar “dupatta”, embora no meu país todas as raparigas e mulheres a usem.
A rapariga que está sentada junto a mim sorri e aponta para si mesma.
— Ana — diz ela. Depois, aponta para mim. — Farah!
Eu digo que sim com a cabeça e repito:
— Farah — que é o meu nome.
Depois olho para o imenso campo onde pastam as vacas.
Sinto-me sufocada dentro de mim mesma.
Há três cães que surgem e que correm à nossa frente. Penso que pertencem aqui e que sabem o caminho. Uma vez tive um cão chamado Haddis.
Paramos num sítio onde crescem macieiras. Descubro que estamos aqui para colher fruta. Há velhas árvores que caíram por terra. Os três cães estão a roê-las, crunch, crunch, crunch. E os seus rangidos soam como os de Haddis.
A nossa professora junta-nos à sua volta. Fala para a turma. Depois, olha para mim de um modo carinhoso.
— Uma — diz ela. Toca numa maçã, depois colhe-a.
— Uma — diz ela outra vez.
Sei que devo apanhar apenas uma, como fizeram os outros alunos. Eu digo que sim.
Queria tanto dizer-lhe:
— Compreendo. Não é que eu seja estúpida. Apenas me sinto perdida neste novo lugar.
Mas não sei como.
Afastei-me dos restantes colegas. Junto a mim está uma árvore, mais pequena do que as outras, que não parece enquadrar-se. É pequena e está sozinha, como eu. Algumas maçãs totalmente verdes pendem nos seus ramos. Colho uma. Cabe perfeitamente na minha mão.
Em seguida, seguramos todos nas nossas maçãs e corremos e deslizamos pela colina abaixo. Os cães correm à nossa frente. As orelhas deles voam para trás, com o interior virado para fora, cor-de-rosa e brilhando ao sol.
No sopé da colina está uma pequena casa torta, feita de madeira. Pergunto-me se uma vaca vive nela, ou um bode. Talvez seja a casa de um pastor. Dentro da casa há uma máquina de madeira com um manípulo de metal. Não vejo nenhuma vaca ou bode, nem sequer um pastor.
A nossa professora alinha-nos. Um a um lá deixamos cair as nossas maçãs dentro da máquina. Vou ser a última a largar a minha pequena maçã verde.
A professora parece que vai falar. Depois, encolhe os ombros e sorri. Um rapaz grita:
— Hey!
Dirige-se para mim, como se fosse impedir-me de meter a minha pequena maçã verde na máquina. Mas chega atrasado. Ela já lá está.
Dentro da máquina existem lâminas que picam as maçãs, ka-chunk, ka-chunk, ka-chunk.
Os meus colegas começam a empurrar o manípulo. As maçãs picadas são espremidas.
A pele e a polpa ficam no saco enquanto o sumo escorre.
Eu deixo-me ficar para trás, sem ter a certeza se devo estar junto dos outros. Empurrar o manípulo deve ser difícil. Eles inclinam-se sobre ele e gemem.
Mas eu sou forte. E dou um passo na direção deles.

A Ana chama por mim e acena-me para ir para junto dela. Um rapaz abre espaço no manípulo, entre eles. Fico muito contente.
Nós empurramos e empurramos. É difícil, mas estamos a trabalhar juntos e conseguimos fazê-lo. O sumo cai em gotas drip drip drip.
A nossa professora trouxe copos de papel. Alinhamo-nos outra vez, enchemo-los e bebemos. Lambemos os nossos lábios. Eu sei que saboreio a minha maçã especial…
— Cidra de maçã — diz a Ana.
Deve ser o que estamos a beber. E digo uma palavra para mim própria: Ma-çã.
A outra palavra é muito difícil.
A nossa professora começa a falar. Está a segurar num saco para os nossos copos e a fazer sinais para nos aprontarmos para ir embora.
Quando subimos, a
Ana senta-se junto a mim no atrelado. Do outro lado está um rapaz.
— Jim! — diz, e aponta para ele mesmo.
Eu assinto.
— Jim — repito em silêncio.
O feno faz-me cócegas nos braços e faz a Ana espirrar. Cheira a sol seco.
O Jim afaga o estômago, e um arroto solta-se da sua garganta.
Todos riem. Eu rio, também.
Os risos soam iguais aos de casa. Exatamente os mesmos. Tal como os espirros, os arrotos e muitas outras coisas. As palavras é que são estranhas. Mas em breve vou conhecer as palavras. E misturar-me-ei com os meus colegas da mesma forma que a minha maçã se misturou com as demais para fazer cidra. Respiro fundo.
— Ma-çã — digo.
A Ana bate palmas. Eu sorrio … e sorrio … e sorrio.
É a minha primeira palavra fora de mim. Haverá mais. Muitas mais.
Eve Bunting
One green apple
New York, Clarion Books, 2006
(Tradução e adaptação)

A última obra do pintor
Certos dias de primavera, quando o sol já começava a aquecer as árvores ainda encolhidas dos invernos rigorosos, Deodato saía sorrateiro de casa, logo pela manhã, e avançava decidido de calções e sandálias pelas terras da quinta vizinha à casa dos seus pais, para ir observar as coisas que o mundo tinha para lhe oferecer.
Estes vizinhos dos pais de Deodato, os Canto e Silva, uma família abastada de Coimbra, tinham aquela quinta ali junto a Viseu, onde aproveitavam para descansar quando chegava, em cada ano, o doce mês de Setembro.
O senhor da casa era um coronel reformado do exército com um negócio de ferragens bem-sucedido, e a senhora, D. Adalgisa de sua graça, era magra e doente, sempre muito pálida e entristecida. Os dois passavam na quinta o mês todo, fugindo a Coimbra onde Setembro era sempre um pouco pesado com os seus calores abafados de interior. Filhos não tinham, pelo que se entretinham quase nada nesta idade, os dois pouco dados a viajar ou a procurar distracções que não fossem um cinema de vez em quando e um jantar ocasional com raros familiares que às vezes os visitavam. O resto do ano, embora de longe em longe aparecessem, a quinta ficava entregue a Mário Belo, um caseiro à moda antiga que cuidadosamente garantia colheitas e outros trabalhos dos campos, ficando encarregado também de vigiar a casa dos patrões. Estando a quinta assim quase sem dono o ano inteiro, Deodato sentia-se à vontade para saltar uma zona mais baixa do muro que dava para a estrada onde ficava a casa dos seus pais, perdendo-se depois na observação das coisas.
O pai de Deodato era um professor primário que ensinava na escola de uma freguesia ali perto e a mãe trabalhava em Viseu, numa Farmácia. Sendo Deodato o único filho do casal, tinha tempo de sobra e pouca vigilância paterna em cima dele para poder dar-se a esse gosto pela observação. E também os seus pais ficavam tranquilos sabendo que ele andava por ali quando não estava nas aulas, afastado das traquinices com que os outros miúdos se envolviam num recreio que dava sobre a estrada perigosa em que os automóveis passavam sobranceiros e velozes.
Ao contrário da maior parte dos seus colegas, Deodato entretinha-se mais a olhar para as coisas à sua volta do que a lançar-se em correrias, em jogos e em outras brincadeiras próprias da sua idade, pelo que se tornara, pouco e pouco, numa criança um pouco diferente das outras, mais reservada, mas também mais curiosa. E que fazia Deodato nestas escapadelas pela Quinta dos Beirais logo às primeiras horas da manhã quando não tinha escola?
Observava as plantas, perdia-se dias inteiros a ver como cresciam. Ou então cortava caudas aos lagartos que apanhava com uma palhinha, marcando-os com um anel feito de linha de costura colorida e esperando ver, dias depois, se a cauda já lhes tinha crescido. Ou então ficava estendido de barriga para baixo, a cabeça entre as mãos, absorto, vendo as infatigáveis formigas a sair do formigueiro em fila indiana para irem colher umas migalhinhas de pão com marmelada, que ele mesmo desfazia entre as pedras ali perto. Ou ainda tentando perceber como as pedras ganhavam cores impressionantes conforme o sol lhes batia, brilhando muito quando tinham micas agarradas ou secando rapidamente sob o sol, se acaso lhes cuspia para cima.
Tudo isso que qualquer outra criança acharia enfadonho, Deodato era capaz de ficar a olhar horas a fio, e só quando a mãe, do outro lado da estrada, se punha a chamá-lo repetidamente para ir almoçar, é que despertava dessa distração sem fim para regressar ao mundo do dia-a-dia, lembrando-se de que o seu pequeno estômago há muito havia digerido o pequeno-almoço e pedia já, batendo horas, que um bom arroz de frango caseiro ou um bife com batatas o fosse de novo preencher. À noite, desde que não chovesse, Deodato, sozinho no seu quarto abria as janelas de par em par, ficando a olhar durante tempos sem conta para as estrelas e para o céu escuro lá muito no alto, antes que o pai, abrindo delicadamente a porta do seu quarto, lhe recordasse que já eram muito boas horas de ir para a cama.
Quando acabou o liceu e chegou a vez de escolher profissão para ir aprender na universidade, Deodato, ao contrário de outros amigos e colegas de Viseu, não queria ser médico nem engenheiro, advogado ou arquiteto. Descobria de repente que, não podendo continuar a olhar para o mundo eternamente, perdendo-se nos jardins da Quinta dos Beirais, poucas coisas dessas, da chamada vida prática, lhe interessavam. E resolveu que queria ser pintor. Embora soubesse muito pouco de pintura ou de pintores – apenas o que aprendera nas aulas de História que seguia fascinado, a leitura de um ou outro livro na biblioteca da escola, e naturalmente as suas visitas cada vez mais frequentes ao Museu Grão Vasco – a ideia de ser pintor sorria-lhe, porque lhe parecia que também a pintura era um mundo de contemplação e de maravilhamento, de silencioso mistério, talvez o mais parecido que haveria com esse vício que ganhara desde jovem de simplesmente olhar para as coisas. Embora um pouco desiludidos com a escolha do rapaz, os pais lá consentiram que fosse para Lisboa estudar pintura, o que se fez com despedidas chorosas antes da partida da camioneta e a sensação dos pais de que haviam perdido o filho para um mundo que não dominavam e muito pouco conheciam.
Em Lisboa, Deodato aplicou-se tanto no estudo da sua futura arte quanto antes se havia debruçado sobre a natureza. E quando vinha de férias, sobretudo nos primeiros anos, armado de uma caixa de tintas e de umas pequenas telas já engradadas, que trazia na bagagem, lá ia pelos lugares da sua infância, agora pintando-os em quadros de cores vivas que depois oferecia aos pais e que iam enchendo as paredes da casa na sua ausência. Nessa altura já Adalgisa Canto e Silva falecera, depois de uma apendicite aguda tardiamente diagnosticada que, como tal, não chegara a ser operada a tempo, e já o coronel, amargurado com a sua solidão, se decidira a não mais regressar à Quinta dos Beirais nos seus meses de setembro, ficando absorto em Coimbra à espera que os calores de fim de verão passassem para voltar aos seus negócios magros no ramo das ferragens. E Deodato pintava, cada vez mais furiosamente, agora quase sempre de cor, com a ajuda da imaginação, essas paisagens que vira na sua infância, naquela terra sobranceira à sua casa paterna.
Deodato tornou-se um pintor célebre. Emulado por críticos e por colecionadores, por museus e galerias e até pelo público mais anónimo. Os seus quadros vendiam-se a preços cada vez mais astronómicos, disputados por todos os amantes de arte. Já mesmo do estrangeiro chegavam pedidos, tal o sucesso que alcançara. A Câmara de Viseu, atenta a estes fenómenos ocorridos com os filhos da terra, decidiu então enviar a Deodato um convite pomposo, pedindo-lhe que mostrasse as suas obras numa sala da Cidade. Seria uma exposição que se queria significativa de mais de vinte e cinco anos de carreira, altura pela qual o artista seria feito membro honorário de todas as instituições do Concelho e em que lhe seriam entregues as chaves da cidade, terminando tudo com um banquete de homenagem em que falaria o próprio presidente, agradecendo a Deodato o muito que fizera pela terra.
Deodato levou muito tempo a responder àquela carta. Uma espécie de preguiça doce invadia-o de um torpor que não lhe permitia tomar decisões, e muito menos o deixava pintar. Esperavam dele naturalmente que, na sua exposição, fosse mostrar paisagens, coisa que há muito não fazia por lhe desagradarem todas as formas de pintura reconhecíveis. Deodato, que procurara aproximar-se de um sentido cada vez maior do real e das coisas que de facto existem, por isso mesmo aprendera nesse percurso que a verdadeira realidade não tem rosto nem formas reconhecíveis. E quanto mais procurava embrenhar-se no conhecimento que a pintura lhe dava, mais raros eram os seus quadros, menos pintava e mais meditava, usando apenas um escasso leque de cores, de tons e de tintas, criteriosamente escolhidos. Os seus quadros, antigamente coloridos e cheios de figuras, eram agora cada vez mais económicos na cor e no desenho, cada vez mais abstratos e contidos, cada vez mais simples. Mas também cada vez mais difíceis de realizar. Por isso lhe tomavam um tempo infinito e tanto exasperavam os vendedores de arte, que desesperavam por ter mais quadros de Deodato para efetuarem os seus negócios de lucro garantido.
Os pais de Deodato, sabendo da sua hesitação e apesar de estarem os dois já reformados, tomaram o comboio para Lisboa, onde o pintor vivia, procurando insistir junto daquele único filho, explicando que ele não podia recusar tal distinção. Procuravam talvez ver realizado o seu sonho de ter um filho ilustre, partilhando um pouco dessa glória, o que era apenas natural e até compreensível, dada a sua já longa idade. Deodato, enfim, decidiu-se a aceitar. Anunciou numa carta simples e breve que faria a tal exposição. Que não queria nenhuma dessas honrarias que lhe prometiam, medalhas ou chaves da cidade, discursos ou banquetes, mas tão somente um espaço simples e muito limpo onde iria mostrar a sua última obra.
Uma obra que realizaria especialmente, e que intitularia “Infância”.
Uma obra que queria, isso era a sua única condição, montar sozinho na sua sala, longe do olhar de toda a gente. Que só seria vista no dia da inauguração, na hora marcada para a abertura, o que lhe ficou prometido. E que anunciara ser a sua última obra, depois do que se retiraria para uma vida de sossego e de lazer, prometendo jamais voltar a pintar qualquer novo quadro. A sala foi preparada longamente, toda pintada de branco, conforme as suas instruções, removidos todos os adereços e elementos que pudessem distrair o visitante daquilo que ali se mostraria.
O presidente da Câmara ensaiou mil vezes o seu discurso para a circunstância e foram enviados convites a toda a gente importante da região. Até um secretário de Estado que era de uma freguesia ali perto, fora convidado a integrar a Comissão de honra do evento. E os jornais locais falavam com insistência e expectativa na exposição daquele ilustre filho da sua terra numa sala do museu da cidade. Mesmo alguns jornais nacionais noticiavam o evento como um regresso do pintor até junto do seu fiel público de admiradores. Os próprios negociantes de arte chegaram à cidade, marcando quartos nos hotéis locais, com alguma antecedência, cada um procurando garantir uma posição cimeira na eventual aquisição daquela nova e afinal última obra do artista, que decerto atingiria preços nunca antes sequer pensados por alguém. Até o coronel Canto e Silva, dizia-se, estaria presente, apesar de já muito idoso e doente.
No dia da inauguração, Deodato, que ficara em casa dos pais durante toda a semana, trabalhando misteriosamente noites a fio na sala que lhe haviam emprestado, de que só regressava quando já a manhã se anunciava, dirigiu-se calmamente para o espaço onde iria mostrar a sua obra e sentou-se numa esplanada ali perto, esperando a chegada dos seus anfitriões, que se foram enfim apinhando, rodeados de curiosos, dispersos pela praça muito engalanada.
Na hora de abrir as portas que davam para o lugar da exposição, todos estavam um pouco inquietos, ao que também ajudava o calor pesado de uma tarde quente de Setembro em Viseu. Todos, menos o próprio Deodato, que sorria com simplicidade, aparentemente feliz. Abriram-se as portas. A sala rebrilhava de branco. Nem uma partícula de pó, nada que maculasse toda aquela brancura de uma pureza quase conventual. Os visitantes precipitaram-se para dentro com estrondo. E da porta, descontraído mas como sempre curioso, Deodato observava-os. Ao fundo da sala, Deodato havia erguido um murete de pedras, umas pousadas sobre as outras. E nada mais se via. Por detrás desse muro, pousado sobre um pedaço de terra descuidadamente espalhada pelo chão, um calhau grande, pintado com cores suaves e esbatidas. Perto deste, um resto de pão com marmelada, em torno do qual se apinhavam afadigadas formigas. E uns quantos tubos de tinta já espremidos, uns pincéis e um pedaço de tela toda em branco.
Fez-se um silêncio incómodo, que secou na garganta do presidente o seu prometido discurso. Os visitantes olhavam uns para os outros. Os comerciantes de arte mostravam-se enfadados. Os mais ilustres da terra não conseguiam esconder uma espécie de vergonha coletiva e o próprio secretário de Estado olhava nervosamente para o telemóvel e para o relógio, esperando que algum telefonema do governo lhe trouxesse um motivo para se ocupar com alguma coisa.
Só Deodato sorria, feliz de ver enfim realizada a sua última obra.
Bernardo Pinto de Almeida
A última obra do pintor
(inspirado na obra de Fernando Lanhas)
Lisboa, Quetzal Editores, 2002
(Adaptação)

é O escravo que falava com os pássaros é
Publicado em 1998 para assinalar os 150 anos da abolição da escravatura, este livro conta a história da deportação dos homens negros de África para as ilhas francesas da cana do açúcar…
— Mariama, eu queria que o metro nos levasse, a ti e a mim, ao teu país dos embondeiros.
— Conhecer alguém é mais importante do que conhecer um país, não te parece?
— Eu quero saber mais sobre ti...
— Alexandre, para eu te abrir o meu coração, ouve-me com atenção, ouve a minha história.
ééé
Naquele tempo, no meu país, em África, quer fosse a estação seca ou a das chuvas, havia homens que eram verdadeiros sábios. Sabiam tudo sobre as plantas venenosas ou medicinais da selva. Também sabiam tudo sobre os sonhos dos animais, quando a savana rasga a noite com mil sons estranhos.
Junto deles, todas as mulheres eram belas e todas elas sabiam escolher uma boa água para preparar um bom molho, mais fino ou mais aveludado, oferecer uma boa carne para comer… Nesse tempo, o pai do bisavô do avô do meu pai era um sábio. Era ele o guardião das tradições sagradas e dos costumes ancestrais da Aldeia.
Um dia, os homens brancos chegaram de barco, sem dúvida depois da lua ter escondido o sol…, pois nada mais chegava sem se fazer anunciar.
Vinham de um mundo invisível que existia para além do horizonte. Com eles, estavam alguns homens negros, maus, que tinham trocado o seu coração pelo poder do mal.
Uma noite, esses Brancos e esses Negros, armados de correntes e de armas, levaram todos os homens, todas as mulheres e todas as crianças da aldeia onde vivia o pai do bisavô do avô do meu pai que era um sábio.
No seu lugar, na Aldeia, deixaram lenços de algodão e algumas pérolas de vidro falsas.
Esses Brancos e esses Negros levaram também outros homens, outras mulheres e outras crianças de outras aldeias.
Quando a manhã chegou, os quatro ventos do céu do meu país de África levantaram-se e começaram a soprar. De raiva. Prisioneiros num grande barco, todos os que foram levados durante a noite iam para bem longe.

Arrancados cruelmente da sua aldeia, quinze milhões de Africanos foram vendidos a troco de tecidos, armas ou missangas.
Durante três séculos, nas plantações do continente americano, esses ricos comerciantes franceses, holandeses, portugueses ou ingleses vendiam e voltavam a vender os escravos.
E fizeram fortuna levando para a Europa algodão, tabaco e açúcar.
Mas o pai do bisavô do avô do meu pai, que era um sábio, conseguiu libertar-se falando com as suas correntes, e salvar-se falando com os peixes.
Antes de saltar para o mar, para nadar até à praia, entregou dois dos seus olhos a um belo pássaro que ali se encontrava, empoleirado no grande mastro.
Disse-lhe:
— Ó pássaro, pega nos meus olhos e observa a vida dos meus netos e dos meus avós que foram feitos escravos. Segue-os bem. Olha bem para eles, sempre! Assim, quer seja dia, quer seja noite, eu verei tudo o que tu vês.
O meu antepassado mergulhou. Chegou a nado ao seu país de África e partiu, sem pai e sem mãe, para muito, muito longe, para o meio da selva, onde nenhum Branco o pudesse encontrar.
Afastou-se ainda mais para mergulhar o seu triste coração na densa savana.
Depois de caminharem durante semanas, presos uns aos outros pelo pescoço ou pelos pulsos, os escravos eram metidos em barcos para viagens que duravam três ou quatro
meses. Cerca de 500 escravos eram amontoados em cada barco, ou seja, 20 vezes mais do que o suportável.
Marcados com o ferro em brasa, atirados para o fundo do porão em compartimentos onde não se podiam mexer, mais de uma centena deles morria durante cada viagem.
No dia seguinte a esse tal dia, o antepassado do bisavô do avô do meu pai, começou a saber tudo sobre a escravatura através dos seus dois olhos dados ao pássaro.
Viu todos os membros da sua família e todos os seus irmãos de África no fundo do barco. Ouviam o barulho incessante das ondas, respiravam o ar que trazia a morte, o ar ácido, seco e pesado das viagens que não se escolhem.
Mais tarde, viu todos os escravos que chegaram às ilhas que ficavam do outro lado do mundo ou em países do continente americano. Trabalhavam e iam sobrevivendo aos golpes da miséria.
Para evitar a fuga, eram colocadas longas pontas de ferro no pescoço dos mais rebeldes, o que os impedia de fugir para a floresta.
Então, o meu antepassado pegou no seu tantã que falava e, através dele, contou à África inteira a escravatura praticada pelo homem branco.
Avisou os homens que esperavam debaixo da árvore das palavras.
O tantã que falava levou a mensagem aos ouvidos das mulheres que caminhavam na terra vermelha. O tantã que falava foi murmurar à barriga das mulheres para alertar os bebés que um dia iriam nascer.
Quando chegavam às Antilhas, ao Brasil ou aos Estados Unidos, os escravos eram sujeitos a um humilhante mercado.
Examinados como se fossem gado, eram vendidos em leilão.
Os mais fracos não interessavam a ninguém.
O tantã que falava chamou o leite branco das vacas.
O tambor que falava chamou a lã branca dos carneiros.
Mais tarde, quando os escravos foram separados e mesmo mortos nas plantações da cana de açúcar ou de algodão, o pássaro voou de novo para África. Quando pousou no embondeiro da Aldeia, o meu antepassado meteu no seu bico uma noz-de-cola e disse-lhe:
— Vai, voa e dá essa noz-de-cola àquele que sofrer mais. Ela vai dar-lhe força para resistir e viver.
Todos os homens que esperavam debaixo da árvore das palavras, todas as mulheres que caminhavam na terra vermelha, todos aqueles que arranjaram leite e lã, encheram cabaças e mais cabaças com nozes-de-cola. Vezes sem conta, o pássaro sobrevoou o oceano para as levar até eles...
E, todas as vezes, o meu antepassado repetia:
— Vai e voa! Tal como eles lá longe, eu sou um escravo aqui, mesmo que tenha encontrado uma mulher com as faces doces e lisas como dois ovos da mesma galinha-do-mato. Uma mulher! Olha: ela deu-me um filho tão belo como uma noz-de-cola!
O metro tinha avançado de estação em estação.
Alexandre tinha ouvido tudo com muita atenção. E perguntou:
— O bebé que nasceu era então teu antepassado?
— Sim. Era, sem dúvida, o bisavô do avô do meu pai. Ou a bisavó do... Talvez. Era meu antepassado, mas, possivelmente, também o antepassado de alguém que está aqui connosco no metro, quem sabe? Ele próprio saberá?
Mariama continuou a sua história.
— É preciso ter os olhos bem abertos e não esquecer o que se viu! — diz o meu pai que é o bisneto do pai do meu bisavô. — Caso contrário, os nossos olhos vão esquecer-nos e partirão, por aí, sozinhos, para ver sem nós…
— Era preciso muita gente para cultivar a cana do açúcar, o algodão, o tabaco ou o café. Os escravos trabalhavam desde o nascer do sol até bem tarde na noite, sempre sob a ameaça do chicote. Havia uma pausa habitual de quinze minutos ao meio dia para se alimentarem. Ou não…
Durante as viagens e nas plantações, houve inúmeras revoltas. Violentamente reprimidas com torturas ou execuções públicas, foram essenciais para a libertação dos escravos.
Quando as pálpebras dos meus olhos se abrem e fecham, fazem o mesmo sussurro das asas dos pássaros. Um dia, foram mesmo as nozes-de-cola e até o sal branco do mar que abriram as suas asas de revolta, os seus olhos de luz.
Então os barcos dos homens brancos tiveram de pôr fim ao seu terrível comércio.
Só passaram a largar as amarras para descobrir a razão pela qual a Terra é redonda. Como os teus olhos e os meus. Abertos.

éé
Abolida uma primeira vez em 1794 durante a Revolução, reposta de novo por Napoleão, a escravatura foi definitivamente proibida em França em 1848, por um decreto de Victor Schœlcher.
O meu antepassado era um sábio.
Foram os seus olhos que me ensinaram tudo.
Hoje, repousa em África numa floresta sagrada, à sombra dos olhos dos pássaros.
Esses olhos dos pássaros mostram-lhe talvez quem ainda é escravo à superfície da Terra.
Quem é a minha mãe com o seu lenço?
Quem são as minhas tias que arranjam os cabelos nas ilhas?
As minhas primas do outro lado do mar quem são e quem sou eu aqui, diante de ti?
200 milhões de crianças são obrigadas a trabalhar no mundo em que vivemos.
Sem acesso à educação, sem amparo, sem direitos, sem carinho, muitas delas conhecem a escravatura na sua forma mais brutal...
— Mariama, podes dar-me uma noz-de-cola que veio do teu país dos embondeiros?
— Claro que sim, Alexandre. Uma noz-de-cola, ou seja, metade para ti e metade para mim. E outra noz-de cola tem mais duas metades para dar... E a quem irá ela tocar?

Yves Pinguilly; Zaü
L’esclave qui parlait aux oiseaux
Saint Germain du Puy, Rue du Monde, 1998
(Tradução e adaptação)
ISSO NÃO É PROBLEMA MEU!
— Podes desligar, Charlie!
— Já desliguei!
— Quanto tempo achas que vão ficar sem água?
— Vou trabalhar nas canalizações o dia todo.
— Avisaste o pessoal?
— Isso não é da responsabilidade do meu departamento. Quem faz isso é a secretaria da administração.


— Não te cheira a queimado?
— Cheira. Deve haver um incêndio por aí.
— Não te preocupes. Alguém há de dar o alarme.

— Jane, não te parece que cheira a incêndio?
— Cheira. E depois?
— É melhor tratar dele antes que fique descontrolado.
— Então, extingue-o!
— Eu? Não é comigo. O meu trabalho é varrer.
— E o meu é despachar este carregamento.



Incêndio nas instalações.
Água desligada.
Veja as soluções na folha impressa.
— Mrs. Lopez, Mrs. Lopez!
— Entre, por favor!
— A senhora tem um problema!
— Qual?
— A água foi desligada e há um incêndio nas instalações. Estou preocupado.
— O incêndio é grande?
— Ainda é pequeno, mas pode vir a aumentar.
— E que quer que faça? Isso não é da responsabilidade do meu departamento.
— Penso que tenho aqui mesmo a solução.
— De onde veio esta folha?
— O meu computador imprimiu-a.
— A solução parece simples. Porque não chama os bombeiros?
— Não estou autorizado a fazer chamadas para o exterior. Essa competência é sua. A senhora é que é a gerente.
— Não tenho feito mais nada senão apagar fogos esta semana. Onde é o sinistro?
— Na parte leste do edifício.
— É na secção de produção. Eles que tratem dele.
— Penso que deve dar uma vista de olhos à folha, Mrs. Lopez.
— Vou telefonar ao Howard. É ele o gerente da produção.


— Estou?
— Howard, é a Carmen. Tens um problema. Penso que devemos reunir-nos e discuti-lo.
— Estou ocupado agora. Porque não almoçamos um dia destes e falamos disso?
— Acho que devemos fazê-lo agora. Podes vir ao meu gabinete, por favor?
— Já vou.

— Carmen, só disponho de uns minutos. Que se passa?
— Há um incêndio na tua parte do edifício. Desligaram a água, mas não te preocupes, pois penso ter a solução para o problema.
— Vi que havia um incêndio ao vir para aqui, mas é de pequenas dimensões. Acho que vai acabar por se extinguir sozinho.
— Howard, o incêndio é na tua secção. Não estás a atuar de forma responsável.
— Carmen, não creio que estejas em posição de me julgar. Tu fazes o teu trabalho e eu faço o meu!
Entretanto, o fogo não para de alastrar.

“Esta ideia da Carmen é um pouco simplista, mas vou discuti-la com o Todd”, pensa Howard.

— Todd!
— Sim, Howard?
— Já que és o diretor de planeamento, talvez me possas ajudar.
— Em quê?
— Há um incêndio nas instalações e a água foi desligada. Não me parece que o problema seja sério, mas achas que estas instruções podem ajudar?
Todd lê as instruções e pergunta:
— Isto é alguma piada?
— Não.
— Howard, a solução é bem mais complicada. Porque não tomas conta da produção e deixas o planeamento comigo?
— Todd, não estás a fazer o que te compete. Se tivesses planeado melhor as coisas, talvez este problema não estivesse a ocorrer.
— Então, a culpa é minha…
— Se calhar, até é.

— Esta reunião destina-se a optar pelo corte da água. Está alguém a controlar o incêndio? Ouvi dizer que está cada vez maior — diz o presidente da companhia.
— Senhor Presidente, tenho aqui uma solução para o problema.
— Mostre lá, Todd.

— Isto não é da competência da administração. É da sua, Todd.
— Da minha?
— Este incêndio está fora de controlo. Temos de fazer alguma coisa.
— Lá se vão as instruções…

— Então ninguém faz nada para apagar o incêndio?
— Quem deixou entrar estas pessoas? Não veem que estamos numa reunião?
— Esqueçam a reunião. Queremos ação!
— Em vez de nos culparem, deviam ter tomado conta da situação enquanto era controlável.
— Essa responsabilidade é sua!
— É sua!
— Eu bem disse que ele estava a alastrar…

— Onde estava o senhor quando…?
— Onde estava a senhora quando…?
— O que significa “assumir a responsabilidade”?
— Acho que significa que temos de começar a encher baldes…
— Então, o que vamos fazer?


— Trabalhar em equipa!
— Já não era sem tempo…
Assumam a responsabilidade…antes que seja tarde!
Sam Weiss
Fred Crippen, 1993
O ponto
A aula de desenho tinha terminado, mas Vashti permanecia colada ao assento. A sua folha de papel estava em branco.
A professora de Vashti inclinou-se para vê-la melhor:
—Ah, que bem, um urso polar numa tempestade de neve… —disse.
—Não tem piada —respondeu Vashti. —É que eu não sei mesmo desenhar!
—Pois… faz uma marca qualquer e vê o que acontece — sorriu a professora.
Vashti pegou num marcador e arremessou-o com toda a força contra o papel, ¡paf!
—Já está.
A professora pegou na folha e estudou atentamente o ponto:
—Mmm... —Devolveu a folha a Vashti e acrescentou: —Agora assina por favor.



Vashti parou um momento para pensar e decidiu que podia não ser capaz de desenhar, mas sabia escrever o seu nome.
Quando, na semana seguinte, Vashti entrou na aula de desenho, teve uma grande surpresa: na parede, dentro de uma moldura dourada, estava o seu ponto, o que tinha desenhado na aula anterior. Então pensou que poderia fazer pontos ainda melhores.
Vashti abriu a sua caixa de pintura ainda por estrear e deitou mãos à obra. Pintou sem parar pontos azuis, vermelhos, verdes, amarelos. Misturou azul e vermelho e apareceu um ponto violeta.
Continuou a pintar até ter um monte de pontinhos de todas as cores.
E se conseguia fazer pontos pequeninos então também conseguiria fazer pontos enormes como o sol. Assim, Vashti usou pincéis maiores para fazer pontos maiores em folhas maiores.
Chegou mesmo a fazer um ponto que nem sequer estava pintado.

Umas semanas mais tarde, os pontos de Vashti causaram sensação na exposição de arte da escola. Entre as pessoas, Vashti apercebeu-se de um menino que não parava de olhar para ela.

—És uma grande artista —disse-lhe o pequenito cheio de admiração. —Como eu gostava de saber desenhar como tu!
—Tenho a certeza de que tu também consegues —respondeu Vashti.
—Eu? Nãããaa… Não sou capaz de fazer uma linha direita. Nem com uma régua…
Vashti sorriu e estendeu ao miúdo uma folha em branco:
—Está bem… — e com a mão a tremer o pequeno traçou uma linha.
Vashti observou atentamente o gatafunho e acrescentou:
—E agora, por favor, assina.

Peter H. Reynolds
El punto
Barcelona, Ediciones Serres, 2005
Uma rapariga perguntou ao Mestre:
— Ensina-nos a diferença entre educação e formação. Será que são realmente diferentes?
O Mestre respondeu:
— Aquele que sabe que não deve deitar lixo para o chão, é uma pessoa educada… Quando realmente não o deita, nesse caso, é uma pessoa formada.
Alfonso Barreto
Microcuentos que enseñan sabiduría
Madrid, Editorial CCS, 2013
(Tradução e adaptação)

Numa idade em que a maioria dos seus colegas passa o tempo a ler banda desenhada ou está entretida com videojogos, Anand Krishna Mishra, de 11 anos, ocupa o tempo livre a ensinar crianças pobres. Aluno do 6º ano em Lucknow, este pequeno professor conseguiu conquistar crianças oriundas de aldeias e bairros de lata da periferia da cidade, organizando pequenas “salas de aula”.
Os encontros tiveram início em 2012, quando Anand teve a oportunidade de passar algum tempo com crianças que viviam em bairros de lata e partilhou com elas tudo o que aprendera na escola.
Pouco tempo depois, os encontros esporádicos deram origem a aulas sistemáticas. A partilha de uma hora do seu tempo diário despoletou um verdadeiro movimento, baseado na sua atitude visionária e na sua perseverança. Atualmente, Anand ensina matemática, informática e inglês, e fez com que cerca de 700 crianças tivessem vontade de ir para a escola.
Enquanto ensina essas crianças sem recursos, Anand tem a oportunidade de conhecer melhor as suas vidas e de, com a ajuda dos pais dele, incutir nas famílias a necessidade de acesso à educação.
Os pais de Anand, Anoop e Rina Mishra, são ambos funcionários da polícia do estado indiano de Uttar Pradesh e apoiam a iniciativa do filho. O seu perfil público contribuiu, também, para poderem organizar sessões sobre consciência ambiental, às quais comparecem pessoas que, posteriormente, se dedicam a campanhas de florestação.
Como tudo começou
Anoop conta:
— Quando o Anand estava no 3º ano, visitámos o estado de Maharashtra nas férias escolares e vimos uma criança sentada num canto a estudar. Sempre que tinham início as orações no templo vizinho, ele corria lá para dentro e dirigia o coro. Como vestia andrajos, quisemos dar-lhe algum dinheiro para comprar roupa. Recusou a oferta, mas disse que aceitaria livros em troca, que comprou numa loja vizinha. Nesse dia, inspirada pelo exemplo desse rapazinho, a vida do nosso filho sofreu uma verdadeira transformação.
Após o regresso da viagem, os pais de Anand levaram-no a visitar aldeias em torno de Lucknow, onde depararam com muitas crianças que não frequentavam a escola e que tinham de trabalhar em casa ou eram vítimas de trabalho infantil. Conseguiram convencer algumas delas a estudar com Anand e, gradualmente, o número de alunos foi aumentando e formou-se uma turma.
Anand estuda na Escola Montessori de Lucknow. Todos os dias, quando regressa das aulas, descansa um pouco. Por volta das cinco da tarde, vai para a “escola” que fundou. Quando indagado sobre os métodos de ensino que utiliza, responde:
— É sempre de um modo amigável. Partilho histórias interessantes com eles e organizo jogos que os mantenham interessados. Esforço-me para que não se aborreçam e que estejam sempre a aprender algo.
As aulas de Anand não se restringem à utilização de livros. Fala-lhes também de responsabilidades sociais e nacionais. O pequeno professor acredita que isto ajuda os seus amigos a crescer em consciência e responsabilidade em relação à sociedade e ao país, ao mesmo tempo que lhes incute confiança nas capacidades deles para lidar com os obstáculos que possam encontrar.
Anand recebeu já muitos prémios pelo trabalho que tem vindo a desenvolver. Tem tentado abrir bibliotecas em diferentes lugares, com a ajuda dos respetivos moradores e, até agora, já conseguiu fazê-lo em algumas aldeias vizinhas. Entretanto, tem também procurado convencer outras crianças privilegiadas a participar no projeto e a ajudar os alunos com carências.

É óbvio que Anand está menos disponível na época de exames. Contudo, o seu exemplo tem contagiado colegas seus, que o revezam nessa altura junto dos alunos.
Neste ano de 2015, durante do Dia do Professor, Anand e os pais lançaram uma campanha, junto de pessoas instruídas, que tem por objetivo levá-las a apoiar os estudos de, pelo menos, uma criança. Também deram início a um programa especialmente destinado a raparigas de famílias carenciadas.
E Anand sorri, confiante, ao dizer que, com a ajuda de pequenos passos como estes, a Índia pode vir a tornar-se um país instruído e próspero.
Sourav Roy
October 16, 2015
A árvore dos problemas
Só encontramos a paz dentro de nós.
Ralph Waldo Emerson
Contratei um carpinteiro para me ajudar a restaurar uma casa velha de uma quinta. O seu primeiro dia de trabalho foi cheio de complicações. Um furo fê-lo perder uma hora, a serra elétrica saltou-lhe das mãos e a sua velha camioneta recusou-se a andar. No final do dia fui levá-lo a casa, e ele nada disse em toda a viagem. Ao chegar, convidou-me a conhecer a família. Quando nos dirigimos para a porta, parou por uns instantes junto de uma pequena árvore, e com as duas mãos tocou nas extremidades dos ramos. Mal entrou em casa, transformou-se de forma espantosa. O seu rosto, até então triste, expressou um largo sorriso, enquanto abraçava com ternura os dois filhitos e beijava a mulher.
Depois, acompanhou-me ao carro. Ao passar junto da árvore, não contive a enorme curiosidade e perguntei-lhe a razão do que fizera ao chegarmos.
— Oh, esta é a minha árvore dos problemas — respondeu ele. — Todos os dias tenho aborrecimentos no trabalho, mas não quero trazê-los para casa, para a minha mulher e filhos. Então, sempre que regresso, penduro os meus problemas nos ramos desta árvore. Na manhã seguinte, recupero-os. O que é estranho — disse ele a sorrir — é que, quando volto a pegar neles de manhã, são sempre menos do que os que lá deixei na véspera.
Autor desconhecido
Jack Canfield et alii
Un 4e Bol de Bouillon de Poulet pour l´Âme
Montréal, Éditions Sciences et Culture, 2000
A diferença que uma caminhada faz
Sê parte do milagre do momento.
Thich Nhat Hanh
O meu pai e eu caminhávamos muitas vezes juntos, mas depois de ele ter passado pelas cirurgias de bypass cardíaco e das costas, tivemos que encarar a realidade de os seus dias de longas caminhadas terem acabado aos setenta anos. No entanto, por milagre, apenas um ano após estes revezes, ele conseguiu acompanhar-me através do País de Gales, num percurso de cerca de 300 quilómetros, de costa a costa.
Um fim de tarde, enquanto transpúnhamos uma longa e sinuosa cordilheira, deparámo-nos com uma mulher de idade e o seu cachorro beagle. Vacilante, apoiada numa bengala, ela trazia um capacete de automóvel e segurava na mão um ramo de flores selvagens. Cumprimentei-a e, depois de algumas palavras trocadas, ela disse-nos que tinha quase noventa anos. Observei-a minuciosamente e nem queria acreditar na forma excelente em que se encontrava. Parecia tão saudável e satisfeita!
“Qual o segredo para uma vida longa e feliz?” perguntei.
Ela sorriu e disse suavemente “Momentos.” Fez-se uma pausa tranquila antes de continuar. “Momentos, é tudo o que temos. Um verdadeiro caminhante sabe isto.”
Disse-nos adeus e lá continuou o seu caminho, com o cão a correr uns passos à frente dela. Mesmo antes de desaparecer no horizonte, eu olhei de novo para ela, a caminhar com custo, com um porte e uma postura intemporais, e sorri para o meu pai. Ela tinha razão: é tudo o que temos.
Bruce Northam
Jack Canfield, Mark Victor Hansen, Steve Zikman
Chicken soup for the nature lover’s soul
Florida, HCI, 2004
(Tradução e adaptação)

Árvores e espaços verdes urbanos
ajudam as pessoas a relaxar e trazem benefícios para a saúde
Inúmeros estudos têm mostrado uma ligação clara entre os ambientes tranquilos – sobretudo espaços naturais ao ar livre – e o bem-estar, a redução do stress e até mesmo a longevidade e o alívio da dor. Se os sons naturais, como o canto das aves e o som da água, e a presença de árvores e vegetação promovem o relaxamento, o ruído produzido pelo tráfego rodoviário e a presença de lixo podem reduzi-lo. Apesar dos óbvios benefícios dos espaços tranquilos para a saúde, numa cidade movimentada, por vezes, pode ser difícil encontrá-los.
O que torna um local tranquilo?
Para descobrir o que torna um local tranquilo, uma equipa de cientistas da Universidade de Bradford desenvolveu a Ferramenta de Previsão do Nível de Tranquilidade (TRAPT, na sigla em inglês). A ferramenta mede dois fatores: o nível de ruído antropogénico (normalmente o tráfego) na paisagem sonora e a percentagem de características naturais – como árvores, arbustos, flores ou água – ou contextuais à vista.
“Isto inclui coisas como se o lugar tem uma fonte e muita vegetação ou se tem vista para um edifício religioso ou histórico – tudo isto elementos que, de acordo com o nosso estudo, ajudam a aumentar a tranquilidade de um lugar”, escreveu Greg Watts, professor da Universidade de Bradford que liderou o estudo.
Outros elementos que afetam o nível de tranquilidade, como a presença de lixo, também são tidos em conta. No final, é atribuída uma pontuação de 0 a 10 aos espaços, sendo que as pontuações inferiores a cinco são consideradas “inaceitáveis”.
Os investigadores descobriram que os parques urbanos e os bairros com árvores ou com edifícios históricos, por exemplo, “conseguem ter uma pontuação elevada devido aos atributos visuais favoráveis aliados ao baixo ruído de tráfego. A proximidade de água também se revelou um fator positivo para a tranquilidade, devido ao facto de ser naturalmente agradável observá-la e relaxante ouvi-la.”
A equipa de investigação testou e validou este sistema durante mais de dez anos, através de estudos de campo e de laboratório. Greg Watts acredita que a ferramenta poderá ajudar os responsáveis pelo ordenamento do território, arquitetos, ambientalistas, dirigentes cívicos e cidadãos interessados a otimizar o meio urbano, a conhecer o impacto da introdução de árvores, sebes ou mais vegetação nos espaços urbanos e a rejuvenescer subúrbios e centros urbanos degradados.
“Estas medidas também deverão ajudar a fazer frente a ameaças como a pressão urbanística, a remoção de árvores ou a densificação do trânsito, que poderão pôr em risco os benefícios existentes”, disse o professor.
Como se criam espaços tranquilos?
O conselho do cientista é claro: “Para se aumentar o nível de tranquilidade de uma zona, o primeiro passo é reduzir o ruído antropogénico.” Isto pode ser alcançado através do desvio do tráfego rodoviário, proibições de camiões, barreiras acústicas, revestimento de estradas para reduzir o ruído e muros mais altos perto das estradas, sugere Greg Watts.
“O aumento da percentagem de elementos naturais (…) também pode ajudar a incrementar a tranquilidade de uma zona. A introdução de mais árvores, arbustos ou latadas para ‘esconder’ as fachadas dos edifícios faz com que as pessoas se sintam menos stressadas e mais calmas no seu meio envolvente – por isso, deve-se tirar o máximo proveito da vegetação.”
Segundo um relatório do Instituto para a Política Ambiental Europeia, quem vive perto de árvores e espaços verdes tem menos probabilidade de ser obeso, inativo ou de estar dependente de antidepressivos. Para além do embelezamento visual, o arvoredo urbano também retém a água da chuva, diminuiu as despesas com o aquecimento, abranda o vento nos bairros, contribui para a valorização dos imóveis, para uma melhor saúde mental e pode mesmo chegar a salvar vidas.
“A presença de sons ‘naturais’ também ajuda a que um lugar se torne mais tranquilo. Isto pode ser feito através da instalação de uma fonte ou lago, o que não só ajudará na questão do relaxamento como também servirá de convite para as aves aquáticas e outros pássaros.”
“O que isto tudo mostra é que criar um refúgio da barulheira da vida urbana não tem de ser uma tarefa colossal. E são frequentemente os espaços verdes negligenciados que podem ser reimaginados como refúgios de tranquilidade”, disse o professor. “Portanto, da próxima vez que se sentir stressado, vá à procura de um espaço tranquilo, ou, ainda melhor, faça um só para si – dessa forma, poderá desfrutar de um pouco de calma sempre que quiser.”
Caminhar para relaxar
Os passeios em percursos relativamente calmos podem combinar o relaxamento com o exercício físico. Um estudo da Universidade de Standford revelou que caminhar 50 minutos na natureza pode melhorar a saúde mental, a memória e reduzir o risco de depressão. Com a ajuda da TRAPT, já foram desenvolvidos, no Reino Unido, alguns “trilhos de tranquilidade”.
Os caminhantes destes percursos declararam sentir-se mais relaxados e menos ansiosos depois de os percorrerem.
“Também há interesse nestes trilhos na Irlanda, EUA e Hong Kong”, contou Greg Watts, acrescentando que “seria fantástico colaborar” na elaboração de mais trilhos.
1 de setembro, 2017
As três árvores da vida
Naquela noite, a lua subiu no céu, redonda e brilhante, mesmo antes de o sol desaparecer no horizonte.
— De certeza que, esta noite, vai acontecer um prodígio qualquer! — afirmou um velho, que estava sentado sobre os calcanhares, diante do rio sagrado.
O homem ainda esperou durante algum tempo, mas o Céu e a Terra mantiveram-se, sensatamente, nos seus lugares. O sol desapareceu, finalmente, por detrás da duna, e o velho levantou-se, devagar, para se dirigir a uma casinha de pedras brancas, que ficava na parte de cima da aldeia. Subiu ao terraço, perscrutou as estrelas, que cintilavam longe dali, mas também nada conseguiu ver. Estendeu, então, um tapete de juncos e, sabiamente, sentou-se com as pernas cruzadas, as mãos sobre os joelhos e os olhos semicerrados…
— De certeza que o prodígio ocorrerá na Terra — murmurou.
O homem dispôs-se a esperar e a sua espera foi, em breve, recompensada.
Algures, numa casa da aldeia, ouviu-se um grito. Um grito agudo, penetrante, o tipo de grito que um recém-nascido emite quando o ar lhe entra, pela primeira vez, nos pulmões. O velho sorriu. Pouco depois, o chefe da aldeia entrou em casa dele, subiu as escadas a correr e entrou no terraço de rompante.
— A minha mulher acaba de me dar um filho!
O prodígio anunciado realizara-se! Durante seis anos, este homem rico e poderoso tinha esperado o nascimento de um filho e ei-lo que chegava, enfim.
— É um rapaz?
— Não, é uma rapariga! — respondeu o chefe, ainda sem fôlego.
— Terias preferido um rapaz para te suceder um dia? — quis saber o velho.
— Não, estou muito contente por ter sido uma rapariga — respondeu o homem, já mais tranquilo.
O velho sorriu abertamente:
— És sábio, sem dúvida. Mas porque vieste ver-me?
Muitas vezes, depois de um nascimento, os aldeões iam pedir ao sábio que lesse o destino do recém-nascido nos astros.
— Queres que interrogue as estrelas? Queres saber se a tua filha terá uma vida longa e bela, se viajará, se descobrirá novas terras ou se tornará grande sacerdotisa de Ísis?
— Nada disso! — respondeu o pai. — Como é uma rapariga, tenha a certeza de que ficará sempre junto dos pais.
— Mas casar-se-á um dia, não?
— Não sem o meu consentimento! E, quando casar, hei de fazer com que ela e o marido não morem longe de nós. Assim, poderemos vê-la todos os dias.
O velho sábio sabia que não se deve discutir com uma pessoa teimosa, que não conseguimos mostrar-lhe que está errada. Para aquele homem, o destino da filha já estava traçado: seria o apoio dos pais na velhice. Mas será que tudo se passa como desejamos?
— Vem comigo — disse o sábio ao homem.
Este, surpreendido, seguiu-o sem fazer perguntas. O velho levou-o até ao jardim que tinha junto do rio. Uma vez lá, arrancou uma jovem árvore, com gestos delicados, e entregou-a ao chefe da aldeia.
— Este é o meu presente pelo nascimento da tua filha — disse.
— Uma tamareira? — admirou-se o homem. — Porquê esta árvore?
— Logo verás! — respondeu o velho sábio. — Mas, enquanto esperas, planta-a no teu jardim e fá-la crescer depressa.
O homem levou a árvore consigo e plantou-a no canto mais fértil do jardim. Todos os dias, mandava os criados buscar água ao rio sagrado para a regar e ordenava que fosse adubada com os melhores fertilizantes. A árvore cresceu tão depressa que estava já coberta de tâmaras quando a filha fez três anos. Por esta altura, a menina deixou de querer o leite da mãe e descobriu nos frutos da tamareira o perfume doce do leite materno. Então, começou a chuchar o caroço das tâmaras como outrora mamava no seio materno.
Empanturrou-se de tâmaras e tornou-se a criança mais gentil de toda a aldeia. Pelo seu rosto passavam sorrisos mais radiosos do que o sol e dos seus lábios saíam palavras mais doces do que os gorjeios mais melodiosos dos passarinhos primaveris. A doçura dos seus gestos e dos seus beijos de criança encantava todos quantos iam vê-la.
Diziam:
— Esta menina há de ser a alegria dos pais até ao fim dos tempos!
E, durante quatro anos, assim foi. Quando a menina já tinha sete anos, o pai foi um dia ao jardim colher as tâmaras que a filha tanto adorava. Ao chegar junto da árvore, soltou uma exclamação de surpresa ao encontrá-la morta.
As palmas, que na véspera se erguiam, orgulhosas, em direção ao céu, pendiam agora tristes e secas pelo calor do sol. Os frutos, da cor do mel e do ouro, estavam todos engelhados e desesperadamente murchos.
O chefe da aldeia chamou os criados:
— Quem se esqueceu de lhe dar de beber? Quem se esqueceu de lhe dar de comer? — gritou, furioso.
Os criados responderam que todos tinham desempenhado as suas tarefas, como de costume, e que nada tinham negligenciado.
— Então, por que razão morreu a árvore? — tornou o amo.
Os criados baixaram a cabeça. Como o patrão os julgava culpados, esperavam o pior. Felizmente que o velho sábio, que alguém prevenira misteriosamente, apareceu à porta do jardim.
— A culpa não é deles — disse ao chefe da aldeia. — Seguiram escrupulosamente as tuas instruções.
Como o homem o fitasse atónito, o sábio prosseguiu:
— Esta árvore estava destinada a morrer hoje. Sabes, as árvores só vivem durante algum tempo e, quando chegam a uma certa idade, cedem o lugar às mais novas.
— Mas, então, que frutos vai comer agora a minha filha? — balbuciou o homem.
O velho sorriu e disse:
— Vem comigo.
E, uma vez mais, o sábio levou-o ao seu jardim junto ao rio. Uma vez lá, aproximou-se de uma romãzeira em flor. De forma muito delicada, cavou a terra em torno da árvore com uma pá e arrancou-a juntamente com o torrão.
— Tens de a plantar muito depressa — disse ao chefe da aldeia. — E dar-lhe muita água. Em breve, a tua filha poderá comer os primeiros frutos. Mas deixa-a descobrir a árvore sozinha, porque está na idade em que é bom ser-se curioso.
O homem levou a romãzeira para o jardim e a filha trouxe-lhe água num pratinho minúsculo em terracota. Depois, perguntou ao pai:
— Que árvore é esta? Que frutos dá?
— Hás de descobrir por ti própria — respondeu o pai, não esquecendo o conselho do velho sábio. Três meses depois, a árvore revelava uns belos frutos, de cor vermelha escura, tingida de laranja claro. A menina pegou num, mordeu a casca e fez uma careta, devido ao sabor amargo da casca. Foi ter com o pai a correr.
— Não se pode comer este fruto! — queixou-se.
— Claro que pode! — respondeu o pai, a sorrir. — Tenta outra vez!
A filha tentou de novo, usando os dedos desta vez. Uma vez arrancada, a casca revelou uns frutos vermelhos, deliciosos, sumarentos, e muito juntinhos. A menina aprendeu a separá-los da pele branca, que era tão amarga quanto a casca que os envolvia. Nos anos seguintes, a criança aprendeu a contar: primeiro, pelos dedos; mais tarde, escrevendo os números em grandes papiros. Em breve, aprendeu a ler… O pai estava tão satisfeito com os progressos da filha que foi agradecer ao velho sábio. Este, porém, interrompeu-o:
— Sabias que alguém veio esta noite ao meu jardim roubar uma árvore?
Ao ouvir isto, o chefe da aldeia logo bateu palmas, para chamar os soldados.
— Não vale a pena — disse o velho. — Aliás, já estava a contar com isso. Até conheço aquela que a levou.
— Aquela? Como sabes que se trata de uma rapariga ou de uma mulher? — admirou-se o homem.
— Foi a tua filha — revelou, tranquilo, o sábio. — Sabes que acaba de fazer doze anos?
— Claro que sei. Ainda ontem festejámos o seu aniversário. Não ouviste os músicos a tocar?
— Ouvi e, por isso, deixei que a tua filha levasse a árvore. É a minha prenda de anos para ela. Sei, aliás, que a plantou em tua casa.
O chefe da aldeia regressou a casa. A filha estava no jardim, de pá em punho… Em breve a árvore se cobriu de flores de um branco luminoso, cujo perfume era forte e delicado. Em seguida, frutos de um verde clarinho a raiar o amarelo encheram os seus ramos.
— São limões! — exclamou a jovem, encantada. — Há quanto tempo sonhava com eles…
Correu para a cozinha, pediu uma faca a uma criada, e cortou o fruto em dois. Um pouco de sumo deslizou-lhe pelos dedos, que ela logo lambeu. Os lábios não estremeceram nem a sua cara se contraiu. Depois, cravou os dentes na polpa firme do fruto cheio de sol e desatou a saltar, feita gazela, rindo sem razão aparente. No dia seguinte, colheu outro limão, descascou-o à pressa e comeu-o com avidez. Só que, desta vez, ficou triste, como se depois de ter subido à mais alta das montanhas, fosse incapaz de descer sem ajuda. O pai fitou-a, sem compreender.
— Esses frutos não são bons para ti! — disse à filha.
Mas a rapariga não queria renunciar a eles.
Continuou a crescer. Por vezes, estava feliz, mesmo exuberante. Tinha até uma energia nova, que a fazia rir e dançar, correr e saltar; outras vezes, punha-se a chorar, sem se perceber porquê.
O pai sentia-se cada vez mais inquieto:
— Mas por que razão o velho sábio lhe ofereceu este limoeiro? Se continuar a saltar e a dançar, ou a rir e chorar, a minha filha nunca mais vai aprender a tratar de nós!
O pai via bem que a filha estava cada dia mais distante dele. Devia ser por causa daqueles limões todos, que comia com tanto prazer. E dos sumos que bebia mal acordava, sem sequer os adoçar. E das cascas que pedia às criadas que pusessem em todos os bolos. A filha mudava todos os dias e o pai sentia-se assustado com aquelas transformações.
Em vez de beijar os pais com ternura, punha-se a gritar com eles, à mínima contrariedade. Algum tempo depois, sem mostrar o mínimo remorso, lançava-se nos braços deles e beijava-os com efusão. Contudo, num dia em que a filha recusou, obstinada e mal-humorada, aceder a um pedido do pai, este encolerizou-se. E de que maneira! Ordenou de imediato aos criados que arrancassem o limoeiro e que o levassem ao quarto da filha. A árvore deveria ser atirada para cima da cama dela, com desejos de boa noite.
— Mas, onde vou eu dormir? — admirou-se a jovem.
— Se não queres que o limoeiro durma contigo, vai tu dormir no lugar dele! — gritou o pai, incapaz de se dominar. — Não deve incomodar-te assim tanto, já que adoras os limões e os limoeiros! Se não obedeceres às minhas ordens, mando-te plantar como se fosses uma árvore de má cepa!
Desta vez, a filha nem ousou retorquir e saiu de casa, sem dizer nada.
O pai, satisfeito, foi para o quarto, e dormiu, tranquilo, junto da esposa. Estava certo de ter agido bem e de que a rapariga cedo voltaria, afetuosa e arrependida.
No dia seguinte, levantou-se cedo e foi até ao jardim. A filha não estava lá.
— Deve ter ido para o quarto. Bem, não irei criticá-la por tão pouco!
Contudo, no quarto da filha, apenas se encontrava o limoeiro. Morto. O homem lançou um grito tremendo, ao ver que a sua querida filha tinha desaparecido. Mandou logo os criados procurá-la, maldizendo a hora em que a tinha mandado dormir no jardim. Deveria ter continuado a suportar as suas oscilações de humor. Tudo era preferível a perdê-la! Os criados e as criadas reviraram a areia do deserto, exploraram o leito do rio, escalaram montanhas e penetraram nas entranhas da Terra. Mas não a encontraram. A jovem tinha-se volatilizado, como o ar quente que sobe da terra nas horas de maior calor. O pai estava completamente desesperado.
— Foste tu quem lhe ofereceu o malfadado limoeiro! — disse, acusando o velho sábio.
— Claro que fui! A tua filha já estava crescida e tinha ainda de crescer mais…
— Não percebo — disse o pai.
— Ouve-me — pediu o velho, paciente.

E pôs-se a explicar:
— A cada idade corresponde uma árvore e a cada árvore corresponde um fruto. E todos acompanham a criança no seu caminho ao longo da vida. A tua filha fez dezasseis anos e já não precisa de um limão para testar os sabores amargos. Quer descobrir o mundo e quer aprender a desfrutar dele sozinha. Mas vai regressar a casa…
— E vai ficar sempre connosco? — quis saber o pai, que não queria renunciar ao seu sonho.
O sábio sorriu:
— Não creio. Mas vou oferecer-te uma outra árvore para lhe dares. É uma tangerineira. Dá frutos que são, ao mesmo tempo, ácidos, adocicados e deliciosamente perfumados. Oferece-la quando ela voltar. Vais ver que apreciará o gosto selvagem e doce das tangerinas. E vai poder escolher que vida quer levar. Estudar, viajar, amar, nada lhe será vedado. Pode casar, ter filhos, e ajudá-los a partir quando crescerem. Não achas que essa é a maior felicidade que lhe podemos desejar?
O homem baixou a cabeça:
— Eu só queria que ela ficasse junto de nós — obstinou-se.
— Eu sei que sim, mas não é a ti que compete decidir — disse o velho.
— A quem compete, então? — quis saber o pai.
— A ela, claro! — lembrou-lhe o sábio.
Finalmente tranquilo, o homem fez menção de ir embora. Mas voltou-se, uma última vez, para perguntar:
— E quando a minha filha for velha, que frutos comerá?
— Comerá tâmaras. Como eu! — disse o velho, desatando a rir.

Giorda
Les trois arbres de la vie
Paris, Albin Michel-Jeunesse, 2001
(Tradução e adaptação)
E tudo começou com uma galinha
Kojo amarra o nó com bastante força e põe à cabeça um molho de lenha para queimar. Quando o pai morreu, teve de deixar a escola e ajudar a mãe a apanhar lenha para vender no mercado. Este é o último carregamento do dia e ele está cansado e com fome. Kojo e a mãe vivem numa casa com paredes de lama que dispõe apenas de uma fogueira a céu aberto para cozinhar. Ao lado da casa, há uma horta que lhes dá a própria alimentação. Nunca têm muito dinheiro ou muito que comer.
À medida que Kojo se aproxima de casa, cheira-lhe a fufu, um prato feito de mandioca e inhame. A vontade de comer fá-lo caminhar mais depressa. Kojo e a mãe vivem numa aldeia do Gana, um país na África Ocidental. As 20 famílias da aldeia não têm muito dinheiro, mas têm boas ideias. Cada família se comprometeu a poupar uma pequena quantia em dinheiro. Se alguma família precisar de comprar algo de muito importante, pede essas poupanças emprestadas.
A família Achempong é a primeira a pedir o dinheiro emprestado. Compram dois cabazes de fruta que vendem, com algum lucro, no mercado. Depois de esta família pagar o empréstimo, a família Duodu pede o dinheiro emprestado para comprar uma máquina de costura. Transformam o pano que tecem em camisas e vestidos para vender, e depois pagam o empréstimo.
Um dia, chega a vez da mãe de Kojo, que usa o empréstimo para comprar um carrinho de mão, para poder transportar mais lenha para o mercado. Também conta alugar o carrinho de mão a pessoas que precisam de transporte. Sobram algumas moedas e Kojo pergunta se pode ficar com elas, para comprar uma coisa para ele. Também ele tem uma boa ideia.
♣♣♣♣
A ideia de Kojo é comprar uma galinha. Ele e a mãe irão comer alguns dos ovos que ela puser e vender os restantes no mercado. Há um agricultor numa aldeia vizinha com muitas galinhas e Kojo vai comprar-lhe uma. Leva duas horas a pé até à quinta das galinhas. À hora a que ele chega, já está cheio de calor e de pó. Como há muitas galinhas, Kojo tem de pensar um pouco sobre qual delas escolher. Uma branca bica no chão perto do seu pé. Uma galinha toda pintalgada bate as asas e cacareja. Então, Kojo depara com uma galinha castanha e rechonchuda, com uma crista de um tom vermelho vivo, que está sentada no ninho, a exibir as penas. Tem todo o aspeto de gostar de pôr ovos. Kojo já não precisa de pensar mais. No fundo do seu coração, sabe que é aquela que deve comprar.
Paga a galinha e coloca-a num cesto de vime. Cobre-a gentilmente com um pano e põe o cesto à cabeça. No caminho até casa, sonha com o futuro e vê nele muitos ovos. Ovos para comer e, se tiver sorte, ovos que poderá vender para comprar mais galinhas. Nessa noite, coloca o cesto com a galinha ao lado do seu colchão, para o manter em segurança.
♣♣♣♣
De uma velha caixa, Kojo faz um ninho para a sua galinha e, todos os dias, verifica se há ovos. No primeiro dia, não encontra nada. No segundo dia, debaixo de alguma palha, encontra um ovo macio e castanho. A galinha de Kojo põe cinco ovos na primeira semana. Kojo e a mãe comem um ovo cada um, e ele guarda os outros três para vender no mercado, no sábado.
Quando chega o dia de mercado, Kojo procura, por entre as bancas de fruta, legumes, carnes, tecidos e taças, um bom lugar para dispor o seu cestinho e põe-se a chamar os clientes. Vende dois ovos a Ma Achempong e um a Ma Duodu. Segura bem o dinheiro dos ovos para não o perder. Está prestes a arrumar o cesto e a ir para casa quando encontra um tesouro: grãos espalhados e bocados de frutas caídos no chão que poderá dar de comer à galinha.
Pouco a pouco, o dinheiro dos ovos de Kojo vai crescendo. Ao fim de dois meses, já poupou o suficiente para pagar a dívida à mãe. Após quatro meses, já tem o suficiente para comprar outra galinha. Agora pode vender cinco ovos por semana, e ele e a mãe têm mais para comer. Ao fim de seis meses, compra uma terceira galinha, e ele e a mãe comem um ovo por dia. Kojo tem orgulho nos seus ovos. E a mãe tem orgulho em Kojo. Uma pequena galinha pode fazer uma enorme diferença…
Um ano mais tarde, Kojo conseguiu fazer crescer a sua ninhada para 25 galinhas e acha que o barulho das galinhas a cacarejar e a saltitar em redor da cerca é bem melhor do que o soar dos tambores festivos. Mas recolher ovos de tantas galinhas é um trabalho duro. A galinha pintalgada tenta esconder os seus ovos e, hoje, Kojo encontra um debaixo de uma planta de mandioca. As galinhas brancas vão logo dar-lhe bicadas quando ele lhes vê os ninhos. E depois há a galinha castanha com a crista vermelha e brilhante – a primeira que comprou e que continua a ser a sua favorita. Parece ter sempre um ovo macio e castanho para ele.
Vender ovos no mercado já proporcionou a Kojo algumas poupanças. Talvez ele use o dinheiro dos ovos para construir uma bela capoeira de madeira. Talvez compre algumas coisas de que a mãe precisa, tal como um novo balde para a água e uma boa faca. Ou talvez ele use o dinheiro em algo com que tem vindo a sonhar: em propinas e um uniforme para poder voltar para a escola!
“Os teus ovos tornaram-nos mais fortes, Kojo,” diz a mãe. “Agora vai para a escola e aprende... Por nós os dois.”
À medida que caminha para a escola, Kojo dá-se conta de que o tecido novo do uniforme é ainda um pouco duro. A cada passo, os seus lábios movem-se em silêncio, enquanto recita o abecedário e os números que tinha aprendido antes da morte do pai.
♣♣♣♣
Na escola, Kojo estuda muito para conseguir acompanhar os outros colegas na leitura, na ortografia e na aritmética. Mais tarde, aprende a escrever e a resolver as questões de ciências. Aprende coisas sobre a história do seu país e os seus recursos, bem como sobre outros países de África e do mundo. Também há aulas práticas de vida rural: como filtrar água com um pano para remover os parasitas; como usar estrume de galinha e composto feito de lixo para fertilizar o solo e cultivar legumes. As lições que Kojo aprende ajudam-no a cuidar das suas galinhas.
Os seus sonhos estão a crescer, mas agora Kojo compreende que vai precisar de mais estudos para os concretizar e, por isso, estuda ainda mais. Ganha uma bolsa para a faculdade, onde irá aprender mais sobre agricultura. A mãe tomará conta das galinhas enquanto ele estiver longe.
Na faculdade, os sonhos de Kojo começam a tomar forma: a forma de uma quinta só dele. Depois de Kojo terminar a faculdade, decide correr um grande risco. Vai usar todo o dinheiro que ele e a mãe pouparam para dar início a uma verdadeira exploração avícola. Compra uma grande parcela de terreno e bastante madeira e arame para construir capoeiras. Precisa de novecentas galinhas para dar início à exploração. E precisa também de um novo empréstimo, um empréstimo bem avultado.
Desta vez, dirige-se a um banco em Kumasi, uma cidade próxima. Quando o banqueiro ouve que Kojo quer comprar novecentas galinhas, recusa, sem vontade de emprestar dinheiro a um jovem de um família pobre.
Mas Kojo não desiste e vai até à capital, Acra, fazer uma visita à sede do banco. Espera longamente até poder falar com o diretor. Está quase na hora de fechar quando, por fim, este concorda em recebê-lo. Mas não por muito tempo, pois é um homem ocupado. Kojo diz ao banqueiro que tem formação académica e que está disposto a trabalhar arduamente. O banqueiro já ouviu antes muitas histórias como esta e franze as sobrancelhas. Nessa altura, Kojo fala-lhe no pequeno empréstimo, na galinha castanha e no dinheiro que usou para organizar a sua ninhada. O banqueiro reclina-se na cadeira e escuta com atenção. Esta não é uma história que ele tenha ouvido muitas vezes. Por fim, sorri e dispõe-se a conceder a Kojo o empréstimo, que ambos selam com um aperto de mão. De volta a casa, Kojo compra novecentas galinhas.
♣♣♣♣
As galinhas de Kojo são boas poedeiras. Como há ovos mais do que suficientes para a aldeia, viaja para Kumasi para os vender aos lojistas de lá.
Um dos lojistas chama-se Lumo. Kojo conhece-o bem. Este homem cresceu na mesma aldeia do pai de Kojo e era um grande amigo dele. Kojo vai sempre à loja de Lumo em último lugar e às vezes fica para jantar. Gosta de ouvir histórias sobre o pai. E gosta do estufado de amendoins e da sopa de óleo de palma que a filha de Lumo faz. O nome dela é Lumusi, e é professora. Sabe muitas histórias de rapazes que querem aprender e que têm grandes sonhos. Kojo adora estas histórias e visita a casa cada vez com mais frequência. Quem lhe dera poder ouvir as histórias de Lumusi todos os dias! Um dia, pergunta-lhe se quer ser sua mulher.
Lumusi sente orgulho em casar-se com Kojo e vai viver com ele na quinta.
Em breve, Kojo e Lumusi tornam-se pais. Os anos passam e nascem três rapazes e duas raparigas, todos fortes e inteligentes. Com o dinheiro dos ovos, constroem uma casa maior, de blocos de betão e estuque. A mãe de Kojo vem viver com eles e cuida da horta. Nunca mais terá de andar a vender madeira. Desde há muito que são várias as pessoas a trabalhar na quinta de Kojo. Há homens que alimentam as galinhas e limpam as capoeiras, enquanto as mulheres recolhem os ovos e embalam-nos em caixas. Outros trabalhadores transportam os ovos até aos mercados de Kumasi e Acra.
Os trabalhadores têm famílias, também. No total, cento e vinte pessoas dependem dos salários da quinta de Kojo. Famílias como os Odonkors têm o suficiente para comer e dinheiro para pagar as propinas da escola dos filhos. Ma Odonkor pode até comprar remédios quando a filha, Adika, fica doente. Pa Odonkor pode reconstruir as paredes da sua casa feita de lama seca com blocos de betão e comprar tecidos adinkra, estampados com desenhos para momentos especiais. Os trabalhadores da quinta de Kojo podem até ter os seus próprios animais. Algumas famílias compram uma cabra, outras compram uma ovelha, e outras começam com uma galinha castanha.
♣♣♣♣
A quinta de Kojo é agora a maior do Gana. E a cidade cresceu, também. Algumas pessoas vêm procurar emprego na quinta e constroem casas para a família. Outros vão para a cidade abrir lojas e vender mercadorias aos trabalhadores.
Um dia, enquanto Kojo regista as contas, ouve alguém bater à porta. É Adika Odonkor, agora já crescida. Enquanto segura na mão um pequeno saco de moedas, diz a Kojo que poupou os seus salários. Com um pouco mais de dinheiro, pensa que poderia comprar um moinho de grão mecânico e dar início a um negócio, ajudando as pessoas a transformar o seu grão em farinha. Seria possível obter um pequeno empréstimo? Kojo conhece bem a família de Adika, pois trabalharam na quinta dele durante muitos anos. Concorda com a ideia e fá-la prometer que um dia também ela emprestará dinheiro a outra família. Adika aceita e, aos poucos, à medida que uma pessoa ajuda outra, as vidas de muitas famílias da cidade melhoram, assim como as vidas dos seus filhos. Mais crianças têm o suficiente para comer, mais crianças vão para a escola e mais crianças têm saúde.
À medida que os anos passam, a exploração avícola de Kojo torna-se a maior de toda a África Ocidental. Kojo agora é mais velho e tornou-se um avô orgulhoso. Os seus netos visitam-‑no muito e ajudam a recolher ovos.
“Para onde é que este irá?” perguntam eles. “E aquele?”
Kojo responde: “Para Bamako, no Mali, ou para Ouagadougou, no Burkina Faso.” Os trabalhadores de Kojo embalam milhares de ovos por dia, e Kojo fica orgulhoso de cada vez que um camião com ovos parte para levar comida a famílias dos países vizinhos.
Até agora, Kojo tem pago muitos impostos ao governo do Gana. Assim como os seus trabalhadores e os lojistas que vendem os seus ovos. O governo usa o dinheiro dos impostos para construir estradas, escolas e centros de saúde por todo o país. Usa o dinheiro para melhorar o porto de Acra, onde navios de muitos países vêm fazer comércio. Parte mais um camião de ovos e Kojo olha para o seu neto mais novo. A próxima vez que o menino perguntar a Kojo para onde é que um ovo vai, Kojo diz “Direto ao teu futuro, meu filho.”
Esta é a forma como um jovem, que começou com um pequeno empréstimo para comprar uma galinha castanha, mudou as vidas da sua família, da sua comunidade, da sua cidade e do seu país. Tudo começou com uma boa ideia e um pequeno empréstimo destinado a torná-la realidade. E tudo começou com uma galinha…
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A história verdadeira de um Kojo...
Esta é a história verdadeira de Kwabena Darko, um rapaz da região de Ashanti, no Gana, que perdeu realmente o seu pai e teve de ajudar a mãe a sustentar a família. Kwabena nasceu de pais pobres, que viviam numa pequena cidade, não muito longe de Kumasi, no Gana central. Como ficou órfão de pai muito pequeno, começou a comprar e a vender coisas para pagar as propinas escolares e ajudar a família. Às vezes, a família de Kwabena não sabia de onde viria a sua próxima refeição. Quando a mãe de Kwabena casou com um homem com uma pequena exploração de galinhas, Kwabena aprendeu a tratar das galinhas. Ganhou uma bolsa para estudar avicultura numa faculdade em Israel, e regressou ao Gana para apurar as suas capacidades na exploração agrícola.
Em 1967, investiu as poupanças da sua vida, menos de 750€, em terra e galinhas. Tal como Kojo, precisou de um empréstimo, e também ele travou uma batalha para convencer o banco a emprestar-lhe dinheiro. Mas o negócio de Kwabena começou a prosperar.
À medida que se tornava um homem bem-sucedido, tinha sempre em mente a importância de conceder empréstimos acessíveis a pessoas que queriam começar o seu próprio negócio. Sabia bem que os bancos não estavam muito convencidos da segurança desses empréstimos. Kwabena decidiu dar início ao Fundo Sinapi Aba (Semente de Mostarda) para conceder esses empréstimos. Eram empréstimos de pouca monta, cerca de 125€ cada, mas faziam toda a diferença para quem os recebia.
Em 2006, o Sinapi Aba concedeu empréstimos a mais de 50.000 Ganenses, sobretudo para montar pequenos negócios de venda de fruta ou madeira, confeção de roupa ou petiscos, transporte de mercadorias ou criação de animais, como a galinha que Kojo comprou. Os empréstimos do Sinapi Aba são concedidos a um grupo de pessoas. Cada membro recebe uma pequena quantia de dinheiro, usa essa quantia para fazer mais dinheiro e depois já pode pagá-la. Todo o grupo se certifica de que o empréstimo é sempre pago. Cerca de 90 por cento das pessoas que usufruem destes empréstimos são mulheres, como a mãe de Kojo. Hoje em dia, o Sinapi Aba faz parte da Opportunity International (www.opportunity.org.uk), uma entidade não-lucrativa de microfinanciamento, e Kwabena Darko faz parte do Conselho de Administração.
“Digo muitas vezes às pessoas que, quando era novo e tinha que lutar para sobreviver, alguém me deu uma oportunidade,” diz Kwabena. “Agora, tudo o que desejo é fazer parte de algo que oferece aos jovens a mesma oportunidade que eu recebi.”
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Glossário
adinkra cloth: um tecido feito pelos nativos de Ashanti, no Gana, que é usado em ocasiões especiais. É estampado com símbolos, cada um deles com um significado diferente.
Asbanti: um dos mais importantes grupos de pessoas do Gana. Têm em comum a mesma língua.
Calabash: é um legume grande, que cresce numa espécie de vinha. Pode ser cozinhado e comido, ou posto a secar e usado como vasilha, utensílio, ou instrumento musical.
Cassava: também chamada ‘manioc’ (mandioca), é uma raiz parecida com a batata, rica em amido. É a alimentação principal de muita gente pobre que vive em climas tropicais.
Cinderbloch: blocos de cimento usados para construir casas com caráter permanente. As primeiras casas são muitas vezes feitas de lama e palha, ou mesmo de lata.
Fufu: um prato importante na África Ocidental e Central. Consiste numa pasta espessa ou numa papa geralmente feita a partir da fervura em água de raízes de legumes ricos em amido, que são depois esmagados até ficarem com a consistência de puré de batata.
Kente cloth: um pano próprio do povo Ashanti no Gana, feito de tiras tecidas à mão. Antigamente era usado apenas em ocasiões extremamente especiais.
Katie Smith Milway
One hen
London, A&C Black, 2009

A ratazana branca
E |
ra uma vez um rei e uma rainha que não tinham filhos. Os anos passavam e não nascia nenhuma criança. Acabaram, pois, por adotar uma ratazana branca. Era pequenina, tinha olhinhos cor-de-rosa e um narizito travesso. Como os reis a adoravam!
Todos no palácio comentavam o seu feitio amoroso, os seus modos impecáveis, os seus pezinhos delicados, e a sua inteligência. Se alguém se atrevesse a dizer mal dela, enfiavam-no logo nas masmorras!
Os anos passaram e a ratazana continuava a debicar queijo de uma taça dourada à mesa real, a sentar-se no braço do trono quando o rei conduzia julgamentos, ou a aninhar‑se nas orelhas do cavalo da rainha, quando esta cavalgava pelo reino.
Nada no mundo era mais precioso para os soberanos do que a sua ratazana branca.
Até que, um dia, chegou ao palácio um mágico de enormes poderes.
Quando souberam da sua visita, os reis mandaram-no chamar.
— Mágico, tens poderes para transformar as coisas?
— Tenho sim, Majestades — assentiu o homem.
— Tens poder para transformar esta criatura maravilhosa numa princesa humana? — perguntou o rei, designando a ratazana branca.
— Tenho, Majestade, mas…
— Mas o quê? — quis saber a rainha.
— É que embora eu tenha poderes para alterar o aspeto, não tenho poderes para alterar o seu ser mais interior e secreto.
Os reis pensaram na natureza doce, nos modos delicados, na inteligência da ratazana e disseram:
— Não queremos que lhe alteres o seu ser mais interior e secreto!
O mágico fez uma vénia, levantou os braços e, gritando uma estranha palavra que os
monarcas nunca haviam ouvido, bateu as palmas.
Viram-se relâmpagos de luz. O rei e a rainha cobriram os olhos com as mãos.
Quando entreabriram os dedos e baixaram as mãos, viram uma princesa sentada no braço dourado do trono real.
Era muito bela. Tinha apenas uns vestígios de cor de rosa nos olhos e um tiquezito no nariz.
Os reis estavam felizes e recompensaram o mágico com todo o ouro que ele conseguiu levar consigo.
Depois, ordenaram aos costureiros que confecionassem os mais belos vestidos. Em breve, o guarda-roupa da princesa transbordava de maravilhas. Também a cumularam de atenções, até estas estarem todas satisfeitas.
E os anos passaram.
Até que, um dia, o rei decidiu que era altura de a princesa casar.
— Minha querida, são horas de escolheres marido.
— Claro, pai — anuiu a princesa, sorrindo. — Com quem queres que me case?
— A escolha é tua. Diz-me quem o teu coração deseja.
A princesa pensou durante algum tempo. Depois disse:
— Pai, queria casar com o homem mais poderoso do mundo.
O rei refletiu uns dias sobre o pedido da filha. Depois, chamou-a à sua presença.
— Minha querida, decidi que deves casar com o sol.
A princesa desatou a chorar.
— O sol não é suficientemente poderoso para mim. Basta uma nuvenzinha e o seu brilho e calor desaparecem. Quero um marido melhor do que o sol!
O rei ausentou-se e pensou durante três dias sobre o pedido da filha. Finalmente, disse-lhe:
— Minha querida, decidi que podes casar com a nuvem.
Uma vez mais, a princesa debulhou-se em lágrimas:
— Uma nuvem! Uma nuvem não tem poder que chegue. Basta um pedacinho de vento que ela logo voa céu fora e se desfaz em bocados. Quero um marido melhor do que a nuvem!
O rei ausentou-se e pensou durante três dias sobre o pedido da filha. Finalmente, disse-lhe:
— Minha querida, decidi que podes casar com o vento.
— O vento! O vento não tem força que chegue. Basta que uma montanha lhe bloqueie a passagem que ele logo se vai embora. Pode conseguir dobrar árvores, mas não consegue mudar uma montanha de lugar, por muito que sopre e arqueje. Não, quero um marido mais forte do que o vento!
O rei ausentou-se e pensou durante três dias sobre o pedido da filha. Finalmente, disse-lhe:
— Minha querida, decidi que podes casar com a montanha.
— A montanha! A montanha não tem força que chegue. Basta uma ratazana com dentes como agulhas e garras como espinhos para escavar um túnel nela. Uma ratazana corajosa faria logo dela o seu palácio! Pai, quero um marido mais forte do que a montanha!
O rei ausentou-se e pensou durante três dias sobre o pedido da filha. Finalmente, disse-lhe:
— Minha querida, decidi que podes casar com a ratazana.
A princesa abraçou o pai e beijou-o.
— Oh sim, a ratazana, a ratazana maravilhosa que consegue escavar a montanha que bloqueia o vento, que espanta a nuvem, que obscurece o sol! O marido mais poderoso do mundo!
Os reis chamaram o mágico de novo. Este colocou-se diante da princesa e ergueu os braços. Depois, gritou uma palavra, bateu palmas e de novo se produziu o relâmpago de luz. Uma ratazana surgiu debaixo do vestido, que entretanto tombara no chão.
O mágico fez uma vénia:
— Desculpai, Majestades, mas como estais recordados, eu não tinha poderes para alterar o seu ser mais interior e secreto.
A bonita ratazana branca casou com uma ratazana castanha bem-parecida, com dentes como agulhas, garras como espinhos, e uma cauda bem longa. Quanto aos reis, em breve tiveram muitos netinhos — alguns brancos, outros beges, outros castanhos, outros malhados… mas a todos adoravam por igual!
Tales of Wisdom and Wonder
Retold by Hugh Lupton
Bath, Barefoot Books, 1998
Tradução e adaptação
O Beijo da Lua
À morte de Azzedine que o ensinou a ler e tantas outras coisas, o ainda jovem Aziz tem como missão encontrar um precioso tesouro chamado o “Beijo da Lua".
Obedecendo ao seu velho mestre, o rapaz deixa a família para começar uma viagem durante a qual tenta encontrar o "Beijo da Lua".
Mas, o que vem a ser esse tesouro?
ÌÌ
Em tempos que já lá vão, num reino muito antigo que já não existe, vivia um rapazinho chamado Aziz. Era um rapazinho como todos os outros mas que nunca ia à escola. E isto porque não havia escola alguma naquele reino.
O pai era o melhor pescador da região. Todas as manhãs, antes que o sol deixasse o seu edredão de nuvens cor-de-rosa, metia-se no barco e, todas as noites, quando as estrelas subiam do mar, trazia os mais belos peixes.
Aziz tinha muito orgulho no pai. Mas não queria ser pescador.
A mãe de Aziz levantava-se também muito cedo. Tinha as mais belas cabras do reino. De madrugada, saía para tratar dos cabritos e ordenhar as cabrinhas que lhe davam, todos os dias, seis baldes de leite branquinho com que ela fazia o queijo mais cremoso do lugar.
Aziz tinha muito orgulho na mãe. Mas não queria ser queijeiro.

Muitas vezes, quando voltava da pesca, o pai de Aziz procurava o filho para que este o ajudasse a estender as redes. Mas era impossível encontrá-lo… E era a mesma coisa quando a mãe precisava dele para carregar os baldes de leite. E tudo porque Aziz passava os dias em casa do velho Azzedine!
Este era um homem com muitas rugas, de olhos profundos como o céu. Ninguém sabia a sua idade. Chamavam-lhe "o Ancião" porque sabia coisas de que ninguém se lembrava: podia citar o nome dos antepassados e nomear as estrelas. As plantas confiavam-lhe os seus segredos e ele curava as doenças. Mas, sobretudo, o velho Azzedine sabia ler. E, se Aziz fugia de sua casa, era para aprender a decifrar os caracteres misteriosos que contam histórias maravilhosas.
Azzedine possuía três livros. O primeiro tinha os contos que, à noite, adormecem as crianças. O segundo era o preferido de Aziz; falava de viagens e de países longínquos. Quanto ao terceiro, o mais grosso, ainda não estava acabado porque, todos os dias, o Ancião escrevia, ele próprio, uma página.
Uma noite, depois de um longo dia de exercícios de leitura e de escrita, Aziz viu que, de repente, o seu Mestre ficara muito cansado. Ajudou-o a deitar-se sobre as almofadas.
— Pega no livro grande que está na prateleira —murmurou o Ancião — e dá-mo, meu filho.
Aziz pousou-o nas mãos descarnadas do velho.
— Este livro, antes de ser meu, pertencia ao meu Mestre — continuou Azzedine. — É o livro da Memória. Hoje vou dar-to e ele será teu para que continues o meu trabalho. Até ao dia em que, como eu, tu irás partir. Então, tu também irás entregá-lo ao teu pupilo. Mas, antes, está escrito que deves fazer uma viagem para muito longe, cujo destino desconheço. Sabe apenas que tens de encontrar um tesouro precioso chamado o "Beijo da Lua". Será uma joia, uma pedra mágica ou um maravilhoso pássaro? O livro nada mais diz.
E o velho Azzedine deu o seu último suspiro.
Já era noite quando Aziz chegou a casa dos pais. Os livros pesavam muito.
À mesa, não comeu nada e, até se ir deitar não disse uma única palavra. O pai e a mãe compreendiam o seu silêncio porque sabiam o que tinha acontecido a Azzedine, o Ancião.
Aziz ficou deitado com os olhos abertos na escuridão. E, quando o dia nasceu, ainda não tinha adormecido.
De manhã, saudou o pai, e a mãe e as irmãs, e partiu sem destino com os livros.
Ao passar junto de um poço, à saída da aldeia, encontrou uma caravana de mercadores que levantavam o acampamento. Os camelos carregados com pesados fardos de tecidos começavam a viagem. Um pouco atrás, uma camela acabava de beber. Entre as suas patas encolhia-se uma cria que ainda mamava.
Por isso os mercadores não puseram muito peso na mãe para não a cansar.
Era uma excelente oportunidade.
Uma caravana, como nas histórias de Azzedine!
Aziz atirou os livros para o saco suspenso no flanco do animal.
Depois, agarrou numa correia e içou-se no momento em que a caravana se punha em marcha. Por sorte nenhum mercador deu pela sua presença.
Para Aziz, escondido no fundo do saco, as horas passavam muito devagar. Nem sequer tentava dar uma olhadela com medo de ser descoberto. Os mercadores partiam para a travessia do deserto e o rapaz sabia que teriam de ficar com ele, assim que a última aldeia ficasse para trás.
A marcha ondulante do camelo embalava-o docemente.
E Aziz acabou por adormecer.
A frescura do crepúsculo acordou-o. As noites são frias no deserto.
O baloiçar tinha parado. Aziz esticou a orelha. Nenhum barulho.
Toda a caravana devia estar a dormir. Arriscou uma olhadela para fora do seu esconderijo. Qual não foi o seu espanto ao ver que a camela e o seu filhote estavam sozinhos ao luar, parados no meio das dunas de areia. Nem um sinal dos outros camelos e dos mercadores!
O resto da caravana tinha desaparecido.
Vencida a surpresa, Aziz saltou para o chão.
Tinha frio. De um retalho que encontrou no fundo do saco fez três bocados. Com um, fez um albornoz. Com o segundo, um turbante. Com o último, uma correia para levar os livros.
Mais quentinho com as roupas que arranjara, sentiu de repente a barriga a dar horas.
Perguntava a si próprio como havia de encontrar comida, quando reparou no focinho da cria que aparecia entre as patas da mãe. Aziz pôs-se ao seu lado e, pegando numa teta, conseguiu também beber o leite.
Quando ficou cheio, recuou alguns passos. E, dirigindo-se à camela, disse-lhe:
— Obrigado pelo teu leite. Porque eu não sou teu filhote e, no entanto, agora também és minha mãe porque me alimentaste.
Depois, voltando-se para o pequeno camelo que saltitava ali perto:
— Obrigado, meu irmão, a ti também. Porque não me deste um coice quando eu reclamei a minha parte.
Agora tinha de encontrar o caminho pois estava perdido.
Subiu até ao cimo de uma duna ali perto. Tão longe quanto podia ver, a luz da lua banhava os montes de areia. Os do Norte eram iguais aos do Sul, de Este e de Oeste. E Aziz desceu a duna muito preocupado: nem as estrelas do céu, nem os livros de Azzedine lhe diriam onde se encontrava a caravana.
Prendeu os camelos e decidiu dormir um pouco enquanto esperava que o dia viesse.
No meio da escuridão, o rapaz julgava que se tinha deitado junto a uma rocha. Mas, na verdade, tinha-se encostado ao nariz de um Gigante das Areias adormecido.
A meio da noite, levantou-se um vento gelado e, mesmo a dormir, Aziz começou a tremer.
O albornoz muito fininho mal o cobria. Espirrou três vezes. De repente, a "rocha" começou a mexer-se e depois o “monte" levantou-se todo. Aziz pensou que estava a sonhar: diante dele erguia-se um homem tão alto como uma montanha!
O ser enorme inclinou-se e, com os seus dedos grossos como troncos de árvores, pegou cuidadosamente no pequeno Aziz – que não tinha largado os seus livros! – e pô-lo como uma formiga, a tremer muito, na palma da sua mão.
Então, a cara do monstro iluminou-se toda com um enorme sorriso.
— Ah! É então este micróbio que me faz cócegas no nariz — disse com uma voz muito doce… — O que faz aqui este pequeno bichinho?
— Eu… Eu… ando em viagem, Senhor das Areias — balbuciou Aziz, não muito tranquilo.
— Ah ah!... em viagem — continuou o gigante. — Há muito tempo que não saio do meu deserto, nem ouço uma boa história de viagens… Mas se o micróbio me quiser contar a sua, ficarei todo satisfeito.
E sempre com Aziz na sua mão, sentou-se para ouvir mais confortavelmente.
O pedido foi tão gentil que Aziz começou a contar sem se fazer rogado.
Não excluiu nenhum pormenor, não esquecendo os peixes do pai, nem os queijos da mãe, nem os livros do seu Mestre Azzedine.
Mas, sobre o Beijo da Lua, não disse uma única palavra. Era o seu segredo.
E foi assim que Aziz contou ao gigante a sua primeira história.
E o gigante ficou encantado, ainda que desconfiasse que Aziz lhe escondia alguma coisa.
Depois, estenderam-se na areia e, encostados um ao outro, adormeceram.
No dia seguinte, Aziz pediu ao Senhor das Areias que o deixasse partir.
Mas o gigante estava tão ávido de histórias de aventuras que Aziz aceitou abrir o seu livro.
Foi assim que lhe contou a segunda história.
Dois dias depois, aquele ser enorme pediu uma terceira história. Nunca, disse ao rapazinho, ninguém lhe tinha contado histórias tão belas. E a mesma coisa no dia seguinte, e no outro dia também… Durante uma semana inteira, duas, seis… Porque o Gigante das Areias já não conseguia passar sem histórias para adormecer…
Mostrava-se extremamente delicado com Aziz, trazendo-lhe tâmaras, mel ou água fresca do outro lado das montanhas. Mas, ainda assim, Aziz não esquecia o objetivo da sua viagem. E, na última noite da décima segunda semana, fechou o livro na última viagem fantástica e pediu para partir. Então, o gigante quis saber a verdade sobre a viagem de Aziz e o rapazinho falou-lhe do Beijo da Lua e não lhe escondeu mais nada.
O gigante ficou muito sensibilizado com esse sinal de confiança e prometeu pôr Aziz no caminho do Beijo da Lua se, em troca, o rapaz lhe oferecesse três presentes.
— Mesmo que fosse um único presente, como poderia eu oferecer-to, Poderoso Senhor das Areias, a ti que reinas sobre as dunas e as montanhas do deserto, eu que não possuo joias, nem casa, nem rebanho? Esqueceste, Gigante do Deserto, que eu sou o modesto filho de um pescador e de uma queijeira? Mal sei ler os três livros que são toda a minha fortuna.
— E eu — disse o Mestre do Deserto —, prezo mais os presentes de um queijeiro, de um pescador e de um letrado do que as ricas prendas de um príncipe herdeiro.
A camela, seguida pelo pequenote, passava não longe dali. Durante dias e semanas, de manhã e à noite, deu um pouco do seu leite a Aziz que o punha a coalhar como fazia a sua mãe na aldeia.
Ao trigésimo dia, tinha conseguido fazer um queijo enormíssimo. Com grande esforço, levou-o ao gigante…que o engoliu de uma só vez.
¾ O micróbio tem de me dar a receita — disse, lambendo os beiços —, porque nenhuma comida até agora fez, ao mesmo tempo, tilintar a minha língua e adoçar o meu palato como hoje este queijo. Muito, muito obrigado!
¾ Não mereço a tua gratidão — respondeu Aziz. — Na verdade, é à arte da minha mãe que tu deves este queijo e ao leite da camela.
¾ É verdade —, admitiu o gigante. — Mas o que deverei à arte do pescador? Há muito que não apanho peixes porque não tenho rede.
"Para que serviria uma rede em pleno deserto?" perguntou a si próprio Aziz.
Mas, logo de seguida, deitou mãos à obra para lhe fazer uma à sua medida.
À sombra do rochedo onde muitas vezes descansavam os camelos, os pelos caídos da lanugem cobriam o chão. A época da muda chegara.
Então, Aziz passou os dias e as semanas a fiar, entrançar, torcer e a dar nós como fazia o seu pai na volta da faina. E, ao quinquagésimo quinto dia, os cabos entrelaçados formavam uma enorme rede. Com grande esforço, arrastou-a até aos pés do gigante.
Mas, nas mãos daquele ser colossal, a rede parecia um brinquedo.
— O micróbio tem de me ensinar — disse ele, rodando nos seus dedos os nós bem apertados. — Porque nenhuma rede até hoje me pareceu, ao mesmo tempo, tão resistente e tão leve. Vou já experimentá-la.
Com três pernadas, transpôs as montanhas e, com a rede ao ombro, desapareceu em direção ao mar.
O dia chegou ao fim, a noite caiu sobre as dunas e o gigante voltou com a sua pescaria. Uma pescaria muito estranha já que, dos três peixes que o gigante apanhara, nenhum iria ser comido.
Eram peixes lanterna que podem, durante a noite, servir de lâmpada a quem os coloca num bocal. E essa era a ideia do gigante que esperava iluminar a caverna onde se abrigava nas noites sem lua.
Aziz não ridicularizou o Senhor das Areias que tinha medo do escuro. Pelo contrário, elogiou a sua decisão. O gigante desculpou-se habilmente:
¾ Na realidade, não é à arte do teu pai que eu devo esta rede, nem ao pelo dos camelos.
¾ É verdade — admitiu o menino a sorrir. — Mas o que irás ver na tua caverna que já não conheças?
¾ Se o micróbio é suficientemente culto para me ensinar as letras escritas no papel, eu poderei ler o livro das viagens. Porque eu conheço a arte do queijeiro e a paciência do pescador. Só me falta a sabedoria do letrado. Assim, é de ti, Aziz, que me falará o livro, quando tu tiveres partido e eu estiver de novo sozinho.
Pela primeira vez, o Senhor das Areias chamava o miúdo pelo seu nome. E isto era, para esta espécie de gigantes, o sinal de uma rara amizade.
Aziz ficou muito comovido. E, enquanto tentava adormecer nessa noite, pensou que o gigante talvez não soubesse ler antes de… muitos anos.
Se alguma vez aprendesse!
Porque as letras são muitas e muito pequenas. E tão difíceis de distinguir para um gigante…
Aziz adormeceu pensando que o Senhor das Areias tinha encontrado assim a forma de ficar, para sempre, com um amigo junto de si.
Mas não era verdade: isso seria conhecer mal o gigante.
Prometera (e iria cumprir!) libertar Aziz e queria mesmo aprender a ler.
Foi então enquanto aluno atento e aplicado que o gigante acompanhou as lições do seu pequeno Mestre.
E fez rápidos progressos.
E, ao septuagésimo sétimo dia, sabia ler a página mais difícil e, na areia da duna, desenhar com o dedo todas as letras sem se enganar!
¾ Aziz, meu Mestre, e meu amigo — disse o gigante —, graças a ti, hoje, estou radiante!
¾ Não sabes — respondeu o rapazinho — que é apenas à sabedoria do meu Mestre Azzedine que deves a leitura e à amizade que me deste? Quanto ao Livro das Viagens, o próprio Ancião gostaria que ficasses com ele. Assim to confio, para que seja teu de hoje em diante.
E, na última noite, quando escureceu, o gigante disse a Aziz para estar pronto. Este despediu-se dos camelos. Depois de lhes dar de beber, pô-los em liberdade. Enfiou o albernoz, arranjou o turbante e, com a velha correia, amarrou os dois livros que restavam.
— Leva-me então ao Beijo da Lua — disse ao gigante —, já que tens poder para isso.
¾ O momento chegou! — rematou o gigante.
E, como na primeira vez, pôs Aziz na palma da sua mão e, erguendo-o à altura do seu rosto, esticou os lábios e soprou como para sacudir uma poeira. Cego pela violência do sopro, Aziz voou como um novelo de palha num vendaval.
Quando voltou a abrir os olhos, já estava a meio do céu. Agarrado aos seus livros, afastou-se da terra à velocidade de uma estrela cadente. Os astros contavam-se entre os melhores amigos do seu Mestre Azzedine. Nada lhe poderia então acontecer, pensava ele.
Assim, a viagem pelo ar continuou, e Aziz não demorou a reparar que a face branca da Lua aumentava rapidamente. E que ela tinha, na sua cara redonda, a expressão malandra de alguém que se prepara para pregar uma partida.
Aziz estava muito preocupado porque o seu trajeto aproximava-o cada vez mais depressa da figura da Lua e ele receava cair, em breve, em cima do seu olho direito.
Receava magoá-la ou até pô-la de mau humor.
Mas a Lua tem bom feitio e mostrou algumas proezas… Tal como o Gigante das Areias, encheu as bochechas, esticou os lábios e pôs-se a soprar com tanta força que a queda de Aziz logo abrandou.
A descida foi então tão suave como a de uma pluma.
Num segundo, Aziz rodopiou com o sopro da Lua e, depois, devagar, pousou sobre a sua face.
¾ Bom dia, Lua! — disse amavelmente.
¾ A paz da noite esteja contigo, jovem viajante. Que tesouro vens procurar tão longe, no meio do céu?
A pergunta deixou Aziz embaraçado.
¾ Viajo — respondeu sem mentir — à procura do meu destino.
¾ Estás a vê-lo na minha face? — perguntou a Lua, piscando o olho. — Está muito claro neste lado. Se houvesse aqui algum destino, eu tê-lo-ia encontrado. Pelo contrário, atrás de mim, reina a escuridão. O teu destino escondeu-se talvez lá, quem sabe?
Aziz caminhou então para as trevas da face escondida. E, mal tinha deixado a claridade, um frio terrível invadiu-o. Longos gemidos pairavam no ar gelado. Como se a noite se lamentasse e o vento tivesse pena dela.
¾ Quem sois? Quem chora? — chamou ele.
No infinito, os gemidos responderam:
¾ Mamã! Mamã, mamã!
Eram os filhos da Lua.
E Aziz pensou então no seu triste destino: os queixumes ouviam-se, às vezes, nas noites de lua cheia, quando procuravam a mãe na escuridão e não conseguiam repousar. Mais tarde, quando a Lua entrava em quarto minguante e virava de novo para eles o seu rosto tranquilizador, os soluços acalmavam e eles adormeciam por fim.
Mas a Lua recomeçava sempre o seu ciclo.
"Que criança, pensou Aziz, pode resistir ao encanto de uma história maravilhosa?"
Sentou-se na escuridão, com as mãos pousadas no livro de Azzedine que continha os contos para adormecer e começou a primeira história. E, na noite, pouco a pouco, a sua voz crescia…
E, à sua volta, pouco a pouco, o choro findava.
No final, todas as crianças dormiam e, com medo de as acordar, Aziz não ousou mexer-se para procurar o Beijo da Lua (e para isso tinha vindo). E, no dia seguinte à noite, o segundo conto do Livro das Crianças levou-as para o mundo dos sonhos. E assim todas as noites, uma nova história de Aziz adormecia-as.
Acabava Aziz a sua última história quando a Lua terminou a sua última fase crescente.
Radiante por ver de novo os filhos que estavam felizes e tranquilos, prometeu então a Aziz uma recompensa por ter conseguido adormecê-los.
¾ Tu escolherás — disse ela — entre tudo o que possuo, o presente que mais desejares. Será teu!
¾ Procuro — disse Aziz — um tesouro chamado o Beijo da Lua. Podes dizer-me onde está escondido?
¾ Lamento — respondeu a Lua — mas não posso, porque eu não escondo tesouros.
E Aziz continuou:
¾ É pena, porque vim aqui para o buscar. Chegou o tempo de voltar para donde venho e nada encontrei. No entanto, parto sem tristeza porque os teus filhos gostaram das histórias de Azzedine. Toma este livro e guarda-o. Assim, o que levo comigo será mais leve e as tuas noites mais tranquilas.
Na Lua nova, Aziz despediu-se das crianças e seguiu o caminho da face iluminada. Assim que ele chegou ao centro da sua boca, a Lua pôs-se a soprar, cada vez com mais força e Aziz subiu, cada vez mais alto, levado pelo vento.
¾ Até sempre, Astro da Noite1 ¾ disse, acenando com a mão.
A Lua respondeu piscando o olho.
E, enquanto ele se afastava para a Terra, ela juntou os lábios e fê-los estalar num grande e repenicado beijo que soprou na direção dele, como uma bola de sabão.
Afinal, era esse o seu presente: um Beijo da Lua!
Aziz estendeu a mão e, apanhando o beijo que pairava no ar, meteu-o rapidamente no seu albornoz com medo de o deixar fugir.
A viagem de regresso fez-se calmamente.
Por sorte, Aziz caiu no seu país e não no mar ou numa região selvagem, como poderia ter acontecido. O vento que o trazia desde a Lua pousou-o docemente na areia do deserto, à hora em que o sol rouba a cor à noite do lado do Oriente.
O rasto das caravanas não estava longe. Assim, encontrou facilmente o caminho que o levava de volta à sua aldeia. Quando chegou a casa dos pais, viu a mãe a dar de beber a uma camela e à sua cria. Aziz aproximou-se mas ela não o reconheceu: o seu rosto tinha mudado durante a viagem…
Era uma criança quando deixara a aldeia e, agora, era um jovem adolescente que voltava ao reino…
— Bom dia, mãe! ¾ disse Aziz.
A mãe estremeceu e abriu-lhe os braços porque reconhecera a voz do filho.
— Mãe! Bate tanto o meu coração de felicidade por te ver de novo! ¾ acrescentou o rapaz.
A mãe levou-o para dentro de casa e contou-lhe como tinha encontrado os camelos perto do poço, à saída da aldeia. Tinha levado os animais para cuidar deles e, ao descarregar a camela, encontrou uma babucha esquecida no fundo do saco.
— Era um sinal! ¾ disse-lhe, abraçando-o. ¾ Soube, então, que um dia voltarias!
Depois, mandou as filhas buscar o marido e os vizinhos. E cada um que chegava ficava admirado ao ver como o filho do pescador tinha crescido mais rapidamente do que os outros rapazes da aldeia.
Quando todos estavam de novo juntos, o pai de Aziz serviu chá açucarado em copos pequenos que queimavam nas palmas das mãos. E as irmãs trouxeram bolos.
Mas, na verdade, o que eles mais esperavam, com impaciência, era a história da viagem de Aziz. Quando acabou de a contar, Aziz entreabriu o albornoz e pegou, junto do seu coração, numa coisa que ninguém podia ver. Muito devagarinho, tirou a mão meia fechada, com muito cuidado, já que o objeto que ele segurava parecia frágil.
— É o meu presente para todos ¾ disse. ¾ É vosso!
E, abrindo os dedos, soprou sobre eles o Beijo da Lua que tinha recebido.
O tempo passou naquele reino.
Aziz tornou-se um velho venerado e sábio.
Aos seus alunos, que lhe chamavam o “Mestre dos Livros", ensinou a ler num grande livro que parecia o seu bem mais precioso.
Depois da lição, atava-o com uma velha correia de tecido rasgado.
Em seguida, pousava-o na prateleira ao lado de um turbante e de um albornoz de criança.
Mas "Aziz da Lua" era o nome que os mais novos gostavam de lhe dar.
Porque eles sabiam de cor a história da sua maravilhosa viagem. E contaram-na, durante muito tempo ainda. Quando o dia terminava no país de Aziz, cada mãe e cada pai sopravam na mão aberta e cada criança recebia, de presente, um Beijo da Lua de boa noite.
Do Spillers; Teo Puebla
Le baiser de Lune
Toulouse, Milan, 1988
(Tradução e adaptação)
Duas grandes lições
Nesse dia, o Mestre veio ensinar na praça pública.
— Na minha vida, há duas coisas que são fundamentais e periódicas.
— E quais são, bom Mestre? — perguntou ansioso um rapaz.
— Uma é ir a funerais e velórios: através da dor e do sofrimento, aprendo que o mais transcendente e valioso é a vida…
O Mestre permaneceu calado e meditativo.
— E a outra? — insistiu o jovem.
— É ir ao cemitério: aprendo que tudo é vão e passageiro.
Alfonso Barreto
Microcuentos que enseñan sabiduría
Madrid, Editorial CCS, 2013
(Tradução e adaptação)
A GANÂNCIA VS. O BEM COMUM
Dou aulas em cursos de psicologia na Universidade de Maryland e tenho alunos com interesses diversos. Contudo, todos reagem da mesma forma quando pergunto se querem ter dois pontos de crédito extra no trabalho de fim de semestre ou seis pontos.
Explico-lhes que a oferta de crédito extra faz parte de um exercício que demonstra a interligação entre as escolhas que os indivíduos fazem no seio das suas comunidades. Conto-lhes que o exercício foi inspirado por um ecologista chamado Garrett Hardin que, há precisamente 50 anos, fez um discurso sobre “a tragédia dos comuns”. Hardin afirmou que, quando muitas pessoas atuam no seu próprio interesse e sem respeito pela sociedade, os resultados podem ser catastróficos. Ao referir-se a “os comuns”, Hardin tinha em mente a designação atribuída no século XIX a uma pastagem partilhada por todos os habitantes de uma aldeia. O seu intuito era, obviamente, alertar para a sobre-exploração de recursos comuns a todos nós.
A minha esperança é que os meus alunos se apercebam das ligações entre o exercício da aula, as ideias de Hardin e os problemas mais prementes que o nosso planeta enfrenta, incluindo as alterações climáticas. Contudo, a escolha que lhes dou entre dois pontos de crédito extra ou seis pontos tem uma desvantagem: se mais de 10% da turma escolher seis pontos, todos ficarão sem pontos. Ou seja, os pontos de crédito extra são equivalentes a água, combustível, pastagens ou qualquer outro recurso natural.
Segundo algumas teorias económicas do mercado livre, se um indivíduo se esforçar por obter o máximo lucro pessoal, as sociedades prosperarão. De acordo com esta lógica, a escolha racional de cada aluno recairia nos seis pontos, tal como a escolha lógica do pastor seria utilizar a máxima extensão de pastagem possível. Aliás, este tipo de comportamento não é considerado ganancioso: é considerado estratégico.
No entanto, quando todos fazem uma escolha deste tipo, o recurso comum entra em sobrecarga e as sociedades acabam por se defrontar com excesso insustentável de colheitas, escassez de água e alterações climáticas.
Uma solução possível seria todos moderarem o consumo, o que permitiria a sustentabilidade. Tal como muitos dos meus alunos afirmam, a escolha de dois pontos por parte de toda a turma permite que todos tenham pontos. Contudo, ao longo dos primeiros oito anos em que usei este exercício, apenas uma turma de entre as dúzias que lecionei escolheu ter menos de 10%. Todas as outras chumbaram no teste.
Em 2015, um dos meus alunos, tuitou QUE TIPO DE PROFESSOR FAZ ISTO AOS ALUNOS, uma queixa que logo se tornou viral. Muitas pessoas perguntaram, então, se escolher seis pontos significava que a natureza humana era naturalmente gananciosa e egoísta.
Na realidade, não penso que seja. Mas a verdade é que é extremamente difícil levar as pessoas a cooperar, sobretudo quando os grupos são grandes e ninguém se conhece previamente. Achar que se um elemento quiser obter mais benefícios em detrimento de outrem, este outrem tem igual direito de o fazer, acaba por conduzir a perdas para todos.
Hardin acreditava que se ensinássemos às pessoas que as consequências de açambarcar são perniciosas elas deixariam de o fazer. Mas eu tenho dúvidas quanto a isto. Depois de ter sido criticado pelo uso do exercício, os meus colegas disseram-me que não poderia voltar a usá-lo, pois os alunos já sabiam como funcionava. As minhas dúvidas viram-se justificadas quando as minhas turmas subsequentes continuaram a chumbar no teste.
Porém, apesar destes resultados, continuo otimista. Cerca de 80% dos alunos escolheu ter só dois pontos, o que significa que as pessoas estão dispostas a cooperar em situações reais. Mas, apesar de a maioria querer agir de forma correta, continuamos a precisar de pensar de forma criativa e de usar as ciências comportamentais a fim de encontrar soluções.
Em 2016, e com o intuito de aumentar a cooperação, introduzi uma terceira opção. Os alunos passariam a poder escolher entre dois, seis ou zero pontos. Por cada aluno que escolhesse zero pontos, um dos que escolhesse seis pontos ficaria sem nada. A seleção seria aleatória, claro. A opção de zero pontos é feita pelos alunos que querem impedir o grupo de açambarcar demasiados recursos. As experiências behavioristas consideram este tipo de comportamento “punição altruísta”, uma expressão criada pelos economistas Ernst Fehr e Simon Gächter. Segundo a pesquisa efetuada por ambos, existem pessoas capazes de sacrificar os seus recursos para punir os membros do grupo que se comportam de forma egoísta e que acreditam que uma maior cooperação beneficiará cada um dos indivíduos, independentemente da escolha que fizeram.
Verifiquei que basta que alguns alunos escolham a alternativa dos zero pontos para que os resultados se alterem. Ou seja, a consciência de alguns indivíduos pode aumentar, e muito, a cooperação nas aulas. Quase metade das minhas turmas recebe, agora, os dois pontos de crédito extra. E algumas fazem-no sem utilizar a opção de zero pontos.
Embora este tipo de solução funcione à escala diminuta de uma sala de aula, precisamos de ações mais concertadas para lidar com problemas mais globais. Contudo, o princípio é o mesmo: usar a ação coletiva para reduzir o consumo excessivo.
O desafio que Garrett Hardin lançou há 50 anos continua ativo: a nossa sobrevivência assenta na escolha individual e coletiva de querer conservar os comuns.
Dylan Selterman
National Geographic | Junho 2018
(Tradução e adaptação)

O barrete emplumado do embaixador enfatuado
Era um enfatuado.
No tempo em que esta história aconteceu, havia luxuosas carruagens, fidalgos empertigados que nelas se passeavam, grandes chapéus emplumados, fatos rendados e folhudos, cabeleiras com muitos caracóis... Eram uns tempos também muito enfatuados.
Por isso os sujeitos enfatuados que viviam nesses tempos enfatuados ainda pareciam mais enfatuados do que se vivessem em tempos menos enfatuados. Estão a acompanhar-me?
O protagonista da nossa história era, portanto, um indivíduo muito enfatuado. O nome? Não sei. Já ninguém se lembra.
Embaixador de um grande país, representava os interesses do rei ou imperador desse reino grandioso noutros reinos, quase sempre mais pequenos, mais pobres, mais acanhados. Estou a fazer-me entender?
Como este embaixador era um presunçoso, estava sempre a ostentar a sua origem e a opulência fabulosa do reino, donde provinha. A ostentar e a comparar.
No capítulo das comparações é que a emproada personagem era de uma arrogância de meter raiva aos mais pacientes.
– O quê? O vosso palácio real tem só quarenta salas e salões? – espantava-se, com espalhafato, o espaventoso espanador, perdão!, embaixador. – Pois fiquem sabendo que o mais modesto dos palácios do meu real senhor tem mais de quatrocentos salões. Vejam a diferença.
Fosse verdade ou mentira, o que saltava à vista era a empáfia e a embófia (duas divertidas palavras diferentes que querem dizer o mesmo...), a enorme empáfia e a enorme embófia da personagem.
Tudo lhe servia para desdenhar. Os banquetes, no país dele, eram mais requintados, as cerimónias mais cerimoniosas, os bailes mais iluminados, as damas mais elegantes, as jóias mais preciosas... Tudo, no reino dele, tinha mais brilho e mais pompa.
Quem o ouvia tinha de aturá-lo, pois ele representava um reino poderoso e não parecia prudente entrar em hostilidades com o seu embaixador, tanto mais que ele próprio estava sempre a dizer:
– O nosso exército é invencível.
Fosse ou não fosse, ninguém queria tirar isso a limpo. Estou a ser claro?
De uma vez em que o perliquiteto embaixador estava de serviço num pequeno reino – bastante pequeno, mas muito arrumadinho – foi convidado para uma caçada real.
Enjoado, como convinha, o embaixador compareceu, vestido a rigor. Em vez de chapéu, trazia na cabeça, como de costume, um barrete, enfeitado com uma enorme pluma de falcão. Parece que era moda, lá na terra dele.
Logo, por sinal, a caçada era com falcão.
Assim que a trompa soou o sinal de caça e o falcoeiro desencarapuçou a ave de rapina, o que se viu demorou menos tempo a acontecer do que demora a contar.
A ave disparou pelo ar fora. Ia despenhar-se de bico em riste sobre a presa. Mas, desta vez, diante do séquito atónito, a caça visada pelo falcão foi outra. Qual? O barrete do embaixador Fedúncio.
Teria implicado com a pena? Não se chegou a saber. O falcão arrebatou o barrete e ergueu-o nos ares, tão veloz como descera.
O embaixador barafustou, de cabeça perdida, como se o falcão lhe tivesse tirado a dita cabeça. À sua roda tudo ria a bom rir.
Passadas umas voltas pelo céu, o falcão terá reconsiderado e, aparentemente arrependido do desaforo, regressou à comitiva. De barrete no bico, voltejou à roda dos ombros do atordoado embaixador e, mais diplomata do que o cavalheiro nunca fora, restituiu o cogumelo onde ele pertencia. Ficou o barrete um pouco à banda, mas, depois de tanta habilidade, não se pode exigir mais perícia a um falcão.
De seguida, voou de novo, colhendo no ar o eco dos aplausos do séquito real. Um nunca mais acabar de vivas e risos.
O rei daquele pequeno, mas arrumadinho, reino, que era dotado de uma personalidade afável de grande senhor, acercou-se da vítima do falcão e comentou:
– Aquilo a que assistimos, meu caro embaixador, parece uma fábula. O falcão tanto podia ter arrancado a minha coroa como o seu barrete. Que nenhum sinal de dignidade e de grandeza se julgue eterno! A importância dos reinos e dos impérios é um vai-e-vem. Qualquer golpe de asa e... vão ao ar!
O embaixador alisava, exasperado, a pena do barrete. Nunca sofrera um vexame assim. Mas fazer queixa de quem? De quê? De um falcão? Era ridículo.
Tão furioso estava que nem deu por uma maliciosa piscadela de olho do rei dirigida ao falcoeiro, que retribuiu, dentes a brilhar de riso. Não viu o embaixador nem mais ninguém, mas eu estou em condições de assegurar que foi assim, tal e qual.
E ponho-me a cismar se o rei, o falcoeiro e o seu falcão amestrado não teriam conspirado os três, para dar uma lição ao impertinente... É uma hipótese. Tem pés para andar, asas para voar. Quem acha que não?
António Torrado
A primavera das ocarinas
Era uma vez dois países separados por uma montanha muito alta.
Nenhuma estrada atravessava esta montanha.
Os habitantes do País do Norte nunca tinham ido ao País do Sul, e os habitantes do Sul nunca tinham ido ao País do Norte. Não falavam a mesma língua. Não tinham a mesma cor de pele, não cozinhavam da mesma maneira, e as casas
eram completamente diferentes.
— Os habitantes do País do Norte são ferozes como ursos cinzentos — diziam, há gerações, os habitantes do País do Sul.
— Os habitantes do País do Sul são maus como crocodilos — repetiam, há gerações, os habitantes do País do Norte.
E todos acreditavam porque nunca se tinham encontrado.
E, tanto no norte como no sul, todos pensavam que era preciso destruir o outro país.
Um dia, deu-se a guerra.
O País do Norte e o País do Sul enviaram os seus soldados para a montanha.
Houve mortos e feridos.
Depois, chegou o inverno. A neve cobriu a montanha.
Os soldados do norte e os soldados do sul abriram trincheiras. Se um soldado do norte deitava a cabeça de fora do seu buraco, um dos soldados do sul dava-lhe logo um tiro.
E todos se prepararam para passar assim o inverno, encolhidos nas trincheiras geladas.

Sem nada para fazer, um soldado do País do Norte aborrecia-se.
Por isso, com um pouco de barro modelou uma ocarina.
Tinha sido pastor.
E a sua ocarina tinha um lindo som, semelhante ao murmúrio da flauta que o acompanhava quando guardava o rebanho.
Os soldados ouviram o pastor a tocar a ocarina. E começaram a sonhar com a doçura da primavera …
A linda música da ocarina chegou à trincheira dos soldados do Sul.
— Olha, o som de uma flauta... — notou um soldado do sul, que tinha sido vaqueiro.
E pôs-se a recordar os dias passados à beira da ribeira, quando se divertia a soprar numa simples cana de erva. Resolveu também ele fazer uma ocarina… E que lindo som doce, semelhante ao da palhinha…
E cada um esperava em segredo a chegada da primavera, mas ninguém ousava falar do assunto. Todos sabiam que a guerra seria retomada quando a neve derretesse.
Por fim chegou a primavera, como se tivesse ouvido o apelo das ocarinas.
A cada dia, a neve derretia um pouco mais.

Em ambos os campos, os capitães estudaram a situação.
Decidiram então enviar um soldado para fazer o reconhecimento.
É que, durante o inverno, o inimigo podia ter alterado as suas posições.
Acontece que é sempre aos soldados mais novos e mais pobres que são confiadas as missões mais perigosas.
O pastor do País do Norte e o vaqueiro do País do Sul foram assim os escolhidos.
E abandonaram as trincheiras para ir inspecionar as posições inimigas.
Andaram e andaram. De repente, encontraram-se frente a frente.
E cada um correu a esconder-se atrás de uma árvore.
Permaneceram ali, imóveis, por muito tempo.
Depois, o soldado do norte pegou na sua ocarina e pôs-se a tocar.
O soldado do sul pôs-se à escuta. Depois puxou da sua ocarina e pôs-se também a tocar.

Ambos chamaram um pelo outro e responderam com as ocarinas.
A ocarina do pastor tinha um lindo som grave. A do vaqueiro, um lindo som agudo.
Harmonizavam muito bem.
Naquele dia, a longa guerra acabou.
O País do Norte e o País do Sul resolveram encontrar-se no alto da montanha.
Era numa linda manhã de primavera.
Os soldados do norte escalaram a montanha, guiados pelo pastor. Durante esse tempo, os soldados do sul subiam pelo outro lado, guiados pelo vaqueiro.
Os cantos das ocarinas aproximavam-se lentamente.
Chegados ao cimo da montanha, responderam em uníssono.
Naquele momento, um bando de pássaros voou no céu azul. Eram as aves migradoras que, há gerações e gerações, atravessavam a montanha todas as primaveras.

Sukeyuki Imanishi
Le printemps des ocarines
Paris, Bayard Jeunesse, 2002
(Tradução e adaptação)
E que posso eu fazer?
N |
o quarto andar de um edifício sem elevador, de um bairro com ruas ajardinadas, de uma dessas cidades atulhadas de gente, vive o senhor Xis.
Todas as manhãs, enquanto toma o pequeno-almoço, o senhor Xis lê o jornal... sem saltar um ponto nem uma vírgula.
Algumas notícias não lhe movem uma pestana, outras fazem-lhe cócegas e muitas dão-lhe arrepios desde o dedo gordo do pé até à ponta do nariz.
Nessa altura, o corpo enche-se-lhe de preocupações.
Depois de tomar o pequeno-almoço, o senhor Xis, cheio de preocupações, entra no duche.
Enquanto se ensaboa, uma pergunta começa a dar-lhe voltas à cabeça:
E que posso eu fazer?
Quando sai do banho, cheio de preocupações e com a pergunta a dar-lhe voltas à cabeça, espreita pela janela para ver como está o tempo.
Mas a pergunta tapa-lhe os olhos, mete-se-lhe no nariz, entra-lhe pelas orelhas... e o senhor Xis não consegue ver nem cheirar nem ouvir.
Então o senhor Xis fecha a janela e veste-se com esforço (tão cheio de preocupações está que a roupa lhe fica um pouco apertada). Finalmente sai de casa e vai de carro para o trabalho.
Durante todo o dia, o senhor Xis é incapaz de se concentrar (cheio de preocupações e com a pergunta a dar-lhe voltas à cabeça, é difícil fazer as coisas bem).
Quando acaba de trabalhar, regressa a casa; e, depois de jantar, vai para a cama. Às vezes, as preocupações não o deixam dormir.

U |
ma noite, depois de lavar a louça, cheio de preocupações e com a pergunta a dar-lhe voltas à cabeça, o senhor Xis sentou-se a ler no sofá; e tão cansado estava que adormeceu com a boca aberta.
A pergunta viu o buraco e entrou timidamente, só por curiosidade.
Depois de se passear pela garganta e de brincar com a campainha, acomodou-se na língua e ficou ali toda a noite.
N |
a manhã seguinte, o senhor Xis acordou um pouco tarde.
Leu apenas os títulos das notícias.
Tomou um duche a toda velocidade.
Logo depois, espreitou pela janela e pôde ver o céu claro, cheirar as flores da varanda da vizinha, ouvir o canto dos pássaros...
Então abriu a boca e, da ponta da língua, saiu a pergunta:
E que posso eu fazer?
A vizinha do terceiro veio à varanda e disse:
— Pode comprar-me o pão? Dói-me uma perna e não sou capaz de descer as escadas.
O senhor Xis não conseguiu dizer que não; e, antes de fechar a boca, a pergunta voltou a acomodar-se na ponta da língua.
No dia seguinte, quando o senhor Xis ia a entrar no carro, a vizinha do primeiro saiu a gritar com o filho nos braços:
— O meu filho tem muita febre!
Então o senhor Xis abriu a boca e a pergunta saiu:
E que posso eu fazer?
A senhora aproximou-se e disse:
— Pode levar-me ao hospital. Com a criança assim, não me atrevo a conduzir.
O senhor Xis não conseguiu dizer que não, e a pergunta voltou a acomodar-se na ponta da língua.
No domingo, enquanto passeava no parque, ao passar junto a um velho que estava sentado num banco, o senhor Xis ouviu um barulho estranho.

O velho olhou-o e disse:
— É o meu estômago! Há dias que uiva como um lobo, mas não tenho nada para lhe dar...
O senhor Xis, que já sabia o que tinha na ponta da língua, abriu a boca e a pergunta saiu com força:
E que posso eu fazer?
O velho sorriu (primeiro com os olhos, depois com a boca) e disse:
— Podes convidar-me para comer.
O senhor Xis achou que era boa ideia e foram para casa para preparar uma boa refeição.

D |
esde então, todas as manhãs, enquanto toma o pequeno-almoço, o senhor Xis lê o jornal... sem saltar um ponto nem uma vírgula.
Algumas notícias não lhe movem uma pestana, outras fazem-lhe cócegas e muitas dão-lhe arrepios desde o dedo gordo do pé até à ponta do nariz.
Mas o seu corpo já não se enche de preocupações, porque sabe que, na ponta da língua, tem a pergunta disposta a sair...
Também sabe que, sempre que a pergunta sai da sua boca, alguém lhe responde.

José Campanari
E que posso eu fazer?
Pontevedra, OQO Editora, 2009
HOJE COM UMA HISTÓRIA LONGA PARA LER NAS FÉRIAS! Boas férias!
Voltamos em Setembro!
(Mais em CONTADORES DE ESTORIAS)
Malú e o marciano do computador
Malú tem de passar alguns dias com a avó Balbina, especialista em contar histórias e fazer colchas. Contudo, longe de aborrecer-se, a menina irá viver uma grande experiência pois vai encontrar o marciano do computador, que a vai submeter a uma terrível prova. Malú acaba por descobrir o valor da empatia, a importância de nos irmanarmos com as dores dos outros, e que as avós, afinal, podem guardar muitos segredos…
Ì
1
UMA VIAGEM INESPERADA
Malú tem nove anos, um pai, uma mãe e dois irmãos. Juan, o mais velho, não a deixa jogar no seu computador pessoal e chama-lhe “miúda” de cada vez que quer deixar claro que já tem quinze anos e que será, em breve, dono de uma moto. O mais novo, o Fernando, ou seja o Nando, tem quatro anos e é um admirador incondicional de tudo o que a irmã faz. Na verdade, Malú tem um fraquinho por Nando e costuma consertar os estragos das suas travessuras, para evitar que ralhem ao pequenito.
Malú tem dois avós que vivem longe da sua cidade, e a quem vê uma ou duas vezes por ano, e a avó paterna, Balbina, que mora três ruas abaixo da sua. Balbina é uma mulher de setenta e nove anos, alta, com um puxo que foi loiro na sua juventude e agora é branco como a neve, uns olhos iguais aos da neta, embora turvados devido à idade e a um princípio de cataratas. Conta histórias a toda a hora, não suporta música tecno e está sempre a fazer colchas, cortinados e tapetes…
Malú gosta bastante de estudar e também está contente com a família que tem. O pai, Javier, é advogado e a mãe, Lucía, é secretária numa multinacional. Em contrapartida, Malú não gosta nada de ficar ao cuidado da avó Balbina, por não saber lá muito bem quem cuida de quem. Toca-lhe sempre a ela ficar com a avó: não sabe se é por ser a única rapariga, ou por estar na idade em que ainda não pode ficar só, embora já não precise de que estejam sempre a olhar por ela.
O nome de Malú é Maria de la Luz, embora sempre lhe chamassem Mariluz. Há perto de dois anos, começaram todos a chamá-la “Malú” em honra de Nando, que, por ter um problema com os zês, lhe abreviou o nome para “Malú”.
Depois de se habituar, Malú começou a achar o nome bonito. Era, pelo menos, original, já que nem uma só colega da turma se chamava como ela. A menina acostumou-se ao novo nome e também ao irmão mais novo, a quem até lia um conto à noite. Só não conseguia habituar-se a ter de passar alguns dias com a avó Balbina.
Malú gosta da avó, mas as suas manias irritam-na. A avó não gosta de televisão, a música tecno recorda-lhe os desfiles militares, e acha que o computador cega as crianças… Nada do que entusiasma Malú é bem visto pela avó. Não a proíbe, mas resmunga baixinho, como se alguém estivesse a cometer um grave delito. O que é bem pior.
Como a avó Júlia adoeceu, o próximo feriado, em que todos pensavam ir para a serra, para casa da tia Paulina, ficou anulado. Nando iria, na mesma, porque havia lá miúdos da sua idade, mas os pais e o Juan iriam à aldeia da avó. Quanto a Malú, ficaria com a avó Balbina, que viria para casa do filho, Javier. Malú teria, pelo menos, a consolação de poder usar o computador do irmão.
O dia 5 de Dezembro chegou, qual condenação sem apelo. Os pais partiram com o Juan e o Nando foi todo contente para a serra ter com os primos. A avó Balbina trouxe uma pequena mala e as melhores intenções para que aquele fim-de-semana prolongado não ficasse sem as histórias que Malú já sabia de cor. Veio também com vontade de fechar o computador, o televisor e a aparelhagem. Malú decidiu encher-se de paciência e da melhor boa vontade para evitar que aqueles dias fossem tão maus como se anunciavam.
CONTINUA NO PDF EM ANEXO