Histórias oferecidas à sexta-feira!

Assina, Abiah Rose
Vivemos numa quinta no vale do Rio Genesee. Somos quatro filhos e cada um desempenha as suas tarefas. É claro que cada um também tem talentos diferentes. O meu irmão Eliah consegue esculpir um pedaço de madeira de forma a transformá-lo num cão, num ganso ou num pato. A minha irmã Jerusha toca piano e canta como um passarinho. A mais nova, Katherine, une quadrados de tecido lavrado com fios de seda e faz edredões maravilhosos. Eu pinto quadros.
Quando era pequenina, costumava espalhar a fuligem da lareira e desenhar formas de pássaros e flores. Mas a ama dizia “não” e “sujo” e limpava tudo. Penso que não lhe prestava muita atenção. Já mais velha, decorei a carroça do meu pai com gavinhas de videira pintadas. O meu pai não ficou nada satisfeito, embora o tenha ouvido dizer à minha mãe que as vinhas pareciam mesmo verdadeiras.
Numa bela manhã de maio, não pude conter-me. A vontade de fazer alguma coisa com as mãos era tão grande que peguei no balde da cal e levei-o para o celeiro pintado de fresco. É claro que o celeiro ficou muito mais bonito depois de eu pintar a nossa vaquinha Delia e a nossa égua Becky nas paredes. Mas o meu pai também não gostou e disse “Arranjem-lhe tintas a sério e uma tela que não seja o meu celeiro.”
Mal me deram tinta e telas, pintei um retrato do meu pai em jeito de agradecimento. Deve ter gostado bastante dele, porque o pendurou na arrecadação. A minha mãe pediu-me para fazer um retrato para oferecer à prima Mariah pelos seus 90 anos. O meu pai comentou “É melhor que não o faça. A pintura a sério não é tarefa para raparigas.” Contudo, mostrou o retrato que eu fizera dele ao nosso vizinho, Mr. Prior, que pediu que eu lhe pintasse um também. E recebi igual encomenda de Mr. Pinney, um outro vizinho nosso.
Pouco tempo depois, já eu tinha pintado todos os membros da minha família, incluindo o nosso empregado e o seu cão. E comecei a procurar novos temas.
A nossa tia Eliza conta histórias como ninguém. Quando éramos crianças, sentávamo-nos em redor dela, todos os domingos, depois do jantar, e ouvíamos o relato de Noé a construir a arca que iria salvar todos os seres do mundo do Grande Dilúvio. Sempre que as princesas do velho Egito retiravam Moisés das águas do Nilo, soltávamos exclamações e suspirávamos de alívio.
Ao ouvir a tia Eliza, sentia que quase conseguia tocar no azul da túnica de Maria e nos retalhos do manto de José e ansiava por que os meus quadros fossem tão expressivos como as histórias dela. Quando mostrei à minha mãe a minha pintura da Fuga para o Egito, ela sugeriu ao meu pai que talvez o Pastor Winslow a quisesse para a igreja. “É melhor não”, comentou o meu pai. Mas o Pastor ouvira falar do quadro e gostou bastante dele quando nos veio visitar. Por isso, o meu pai deu-lho.
Perguntei se podia assinar a Fuga, mas a minha mãe advertiu-me acerca do orgulho. Então, em vez de assinar o meu nome, comecei a colocar uma pequena marca nos meus quadros, sob a forma de uma rosa minúscula. Podia escondê-la por entre as flores e as folhas, ou nas pregas da saia de uma senhora. Como não se tratava do meu nome, não vi mal nenhum em fazê-lo.

Neste verão, recebemos a visita do tio Albion. O tio Albion é um caixeiro-viajante, embora não costume vir até ao nosso vale. A sua carroça colorida, adornada com fiadas de colheres, que tilintam com a brisa, é uma vista que os habitantes de Genesee bem apreciam. Vejo-a sempre como uma carroça mágica, cheia de todo o tipo de coisas, desde pedaços de fita a peças de seda. Transporta martelos e serras, pregos e sementes, além de pequenos frascos de xarope que curam todas as maleitas.
Quando o nosso tio já tinha comido e estava a descansar no alpendre, perguntei-lhe se podia pintar de novo a carroça, com motivos à sua escolha. Depois de exclamar “Mas que grande novidade me dás!”, insistiu em ver todo o meu trabalho, que elogiou calorosamente. Tive, então, permissão para pintar a carroça, enquanto o tio Albion me relatava as suas viagens e me falava dos artistas que conhecia. Eram todos homens, mas, segundo ele, eu pintava melhor do que muitos deles.
O entusiasmo do tio Albion pelo meu trabalho levou-o a pedir aos meus pais que o acompanhasse nas suas andanças. Foi muito persuasivo e, por fim, o meu pai concordou. “Podes passar o verão a ajudar o teu tio. Se te pedirem um quadro, podes pintá-lo, mas é o tio que guardará o dinheiro, para pagar o teu sustento. Se ele não precisar dele todo, o resto fica para ti, para quando casares.”
E foi assim que o tio Albion e eu partimos a percorrer as estradas poeirentas do nosso vale verde e vasto, enquanto vendíamos carrinhos de linhas e cartões de agulhas e pernoitávamos com os agricultores e os aldeões. O meu tio sabia sempre onde seríamos bem acolhidos para passar a noite ou partilhar uma refeição. Quando mostrávamos os quadros que eu pintara da Bíblia, as donas de casa soltavam exclamações de admiração e ofereciam-nos copos de leite frio ou de cidra.
“Não partam antes de o meu marido ver isto. Olhem só para o azul da túnica de Maria!” diziam umas.
“E para o sorriso do Menino!” exclamavam outras.
E ora compravam um quadro, ora o agricultor queria um quadro da mulher e dos filhos, ora queriam pintar um filho recém-nascido com a sua roca de guizos.
Certa vez, perguntei ao meu tio: “Posso assinar o meu nome?” Sorriu, afetuoso, e disse, dando-me uma palmadinha no ombro: “É melhor não o fazeres. É um trabalho excelente, mas será mais apreciado se não o assinares. Todos os pintores famosos são homens. O trabalho de uma pintora nunca será tão valorizado. Dá-te por satisfeita com o que fazes e não procures a fama nesta vida, minha filha.” E, assim, continuei a assinar os meus quadros com a rosa minúscula.
Certa manhã, quando tinha montado o meu cavalete junto do Rio Genesee, aproximou-se de mim um homem com um embrulho às costas. Era um dos artistas de que o meu tio falara, um tal Mr. Sprigg. No inverno pintava tabuletas e no verão pintava retratos e paisagens, enquanto viajava com o cão. Mostrou-me o seu último quadro, que muito admirei, e passámos horas a discutir a mistura das cores e as várias formas de captar a luz do rio. Foi um dia maravilhoso.
Agora que o verão chegou ao fim, regressei à nossa quinta. Ofereci o quadro do rio aos meus pais e todos me fizeram perguntas sobre as minhas viagens. Mas não contei ainda a ninguém que regressei com uma ideia nova. Hoje à noite, depois do jantar, vou pedir ao meu pai para ir viver com o meu tio Ezra, que tem uma loja na cidade. O tio Ezra é comerciante, como o tio Albion, mas as semelhanças entre ambos acabam aí. É que a mercadoria do tio Ezra está sempre bem arrumada em prateleiras e vitrinas e a loja tem uma pequena arrecadação onde poderei pintar retratos, letreiros, tapa-fogos e tapetes durante todo o ano e vendê-los na loja. Se a resposta do meu pai for “É melhor não, Abiah Rose,” hei de insistir até ele concordar.
E quando, um dia, tiver a minha própria loja na cidade, colocarei cadeiras confortáveis de costas para uma parede forrada a tecido negro e pintarei os quadros de quem me pedir. A loja há de ter armários cheios de tintas, telas e pincéis, dos mais finos aos mais grossos. Acredito que, por essa altura, os meus pais já concordarão que assine os quadros com o meu nome e que deixe de ser uma pintora anónima. Embora me tenha sentido satisfeita com a ocasional moeda e com os elogios que recebo pelo meu trabalho, não vejo virtude em ser desconhecida e vergonha em assinar o meu próprio nome num trabalho que fiz com as minhas próprias mãos.
Assina, Abiah Rose

NOTA DA AUTORA
Na América do Norte dos séculos XVIII e XIX, antes de o uso da máquina fotográfica se ter difundido, os artistas populares viajavam de cidade em cidade para vender retratos e paisagens. Eram igualmente bem recebidos por agricultores e citadinos, que queriam ver pintados o seu retrato, o da sua família e o das suas casas. Estes quadros funcionavam como recordações deixadas aos filhos, tal como hoje o fazemos com os registos fotográficos das nossas próprias vidas.
Tanto os artistas masculinos como os femininos tinham por hábito assinar os seus trabalhos. Contudo, o mais importante era o trabalho em si e não a assinatura que nele constava. Uma grande parte desses quadros foi feita de forma anónima e alguns historiadores de arte são de opinião que muitas obras não assinadas foram pintadas por mulheres.
Naquela época, era suposto que uma mulher casasse e administrasse um lar. As raparigas aprendiam artes decorativas e domésticas com membros da própria família ou em academias femininas. A maior parte do seu trabalho criativo tinha por fim adornar a própria casa ou um objetivo prático: os bordados ajudavam a desenvolver a destreza com as agulhas; os edredões mantinham a família quente; os quadros abrilhantavam as paredes.
Uma jovem que começasse por pintar ou desenhar retratos da sua própria família podia chegar a ser uma artista localmente conhecida. Podia contribuir para as finanças familiares vendendo o que fazia ou ensinando pintura e desenho a jovens de boas famílias. Também havia mulheres que viajavam, à semelhança dos homens, e que ficavam alojadas em casa das famílias cujos retratos lhes tinham sido encomendados. Contudo, eram poucas as que o faziam.
Os livros de história de arte têm quase sempre negligenciado o trabalho levado a cabo por artistas mulheres. Só me dei conta do seu extraordinário contributo para a arte americana anterior ao século XX quando vi o documentário de Mirra Bank no PBS[1] intitulado “Anónimo” era uma mulher e o respetivo catálogo. Ambos mostravam e exploravam o trabalho de artistas populares femininas, demonstrando que era tão cuidado e criativo como os dos artistas masculinos, e foram eles que inspiraram a minha criação da heroína de Signed, Abiah Rose, que, orgulhosa do seu trabalho, queria ser reconhecida como igual entre pares.

Diane Browning
Signed, Abiah Rose
New York, Tricycle Press, 2009
(Tradução e adaptação)
No intuito de darmos continuidade ao anterior projecto, “Um dois três era uma vez”, embora em moldes que se pretendem mais abrangentes, reiniciamos o envio semanal de pequenas histórias para crianças e adolescentes, por vezes acompanhados de textos dirigidos a um público adulto, convidando à reflexão, e também ao sonho, que tão necessários se tornam numa sociedade em que o materialismo tem crescido desmedidamente, a ponto de abafar os valores mais genuínos do ser humano: o respeito pelos outros, a ternura, a delicadeza, a compaixão pelos que sofrem, a generosidade.
Esperamos que o projecto, que agora passa a chamar-se “Um dois três, era outra vez”, continue a encontrar leitores assíduos entre aqueles a quem se dirige, e possa proporcionar agradáveis momentos de partilha entre pais e filhos.

E…diga-nos o que pensa das histórias que lhe forem chegando!
Responda-nos para: 1...@isep.ipp.pt
Ideia: Teresa Tudela e Betina Campos Neves
[1] O Public Broadcasting Service é um canal de televisão norte-americano sem fins lucrativos. (N.T.)
O soldado e a menina
Coberto de lama e de medo, o soldado olhou rente à terra.
Salvo da batalha que o rodeava, não sabia onde estava. Ignorava de que lado estavam os seus. O fumo subia devagar. No buraco em que havia caído depois da explosão da granada que o atirara pelos ares, a proteção de que dispunha era escassa.
E nem sequer estava ferido.
O soldado, de arma nas mãos e de lágrimas nos olhos, procurou salvar-se.
Os estrondos eram contínuos. Retumbavam no ar. Abalavam o chão, espalhando gritos e silêncios em partes iguais. Bastava dar uns passos para encontrar restos disseminados de uns e de outros, amigos e inimigos. A terra era vermelha como um pôr do sol após o qual a humanidade já não pudesse acordar.
Queria deitar a correr.
O soldado, metade homem metade farrapo, mastigou devagar o seu medo e depois cuspiu para a lama.
Aos poucos, foi erguendo a cabeça.
Olhou para a direita e para a esquerda, para a frente e para trás.
Julgou que estava só.
Totalmente só.
Um breve segundo.
E foi então que ouviu disparar.
Um tiro diferente dos outros tiros longínquos. Diferente das explosões ao longe.
Bem perto.
E real.
E...
Viu a bala.
Voava muito depressa, como um dardo de prata escura, reta e direta à sua testa.
Tentou agachar-se, mas já não pôde. Quis desviar-se, mas os músculos já não lhe obedeceram. Quis rezar, mas viu que não tinha tempo. Quis chorar, e compreendeu que era tarde. Quis gritar, mas estava mudo.
E então a bala parou.
A uns quinze, talvez vinte centímetros da sua cara.
O soldado pestanejou.
Já nada se ouvia. De repente, a guerra parecia ter parado. O fumo imobilizara-se. Os fogos estavam estáticos. O seu próprio coração, suspenso entre duas pulsações.
Esperava ver a sua vida passar numa fração de segundo, mas o que viu, diante de si, foi uma menina.
Era uma menina muito linda, uma menina como as dos contos de fadas, porque o soldado recordava os contos de fadas que lhe haviam contado as suas avós e a sua mãe, havia já muito tempo. Nos contos de fadas, as meninas eram lindas como aquela, de cabelo preto, olhos cinzentos, lábios cor de rosa. Cabelos de anjo, olhos vivos, lábios abertos no mais doce dos sorrisos.
De corpo fino, ágil, flexível, delicado. Um corpo que convidava à vida e… à esperança.
A menina trazia flores na mão.
— Quem és? — perguntou o soldado.
— Sou a morte — disse ela.
Se não fosse o silêncio, julgaria não ter ouvido bem.
— O quê?
— A tua morte — acrescentou a rapariga.
O soldado pestanejou. De seguida, abriu e fechou os olhos mais devagar. Olhou para o campo de batalha, a guerra parada, a bala quieta diante da sua cara.
E soube que não estava a sonhar.
— Tu não podes ser a morte — murmurou devagar.
— Porquê?
— Impossível. Sei-o bem.
— Nunca nos vimos.
— Mas eu sei como é a morte. É escura, negra, uma caveira coberta por um manto opaco. Um esqueleto de grandes olhos vazios e sorriso oco. E, além disso, não traz flores nas mãos, mas uma gadanha comprida com a qual faz a sua macabra colheita.
A menina sorriu um pouco mais.
Com ternura.
— Já vês, soldado — balbuciou. — Também nisso te enganaram.
As palavras penetraram devagar na mente do soldado.
— Quem é que me enganou?
— Eles. Todos. — A menina indicou com a cabeça para lá da trincheira.
— A mim ninguém me enganou.
— Sim, enganaram-te.
— Vamos, menina. Vai-te embora. — O soldado suspirou com amargura.— Podem ferir-te. Isto é guerra.
— Olha para essa bala.
Não queria, mas fê-lo.
Tão imóvel, a uns centímetros da sua vida.
— Sou a morte, soldado, e vim para te levar comigo.
A menina depositou as flores no regaço e mostrou-lhe as suas mãos nuas, limpas.
— Afirmaram-te que lutavas por uma causa… e sabes que vais morrer por nada. Disseram-te que era o teu dever, e agora levam-te tudo quanto tens. Contaram-te que eu era horrível, e sou meiga.
Deu um passo em direção a ele.
— Mentiram-te, soldado. Também nisso te enganaram.
Estranhas palavras.
Porque começava a acreditar nela?
Seria por aquela voz suave? Por aqueles olhos sinceros? Pela bala parada diante da sua cabeça? Ou porque estava cansado da guerra?
— Não quero morrer. — Baixou a cabeça, envergonhado.
— Dá-me a mão.
— Não.
Retrocedeu assustado, esmagando as costas de encontro à terra.
— Ainda não ia levar-te comigo. Queria mostrar-te uma coisa, primeiro.
— O que é?
— Dá-me a mão.
Era a mão mais branca que jamais vira.
Estendeu a sua.
Os seus dedos, sujos e gretados, roçaram naqueles dedos suaves como penas. Foi uma sensação estranha.
Depois as duas mãos uniram-se.
— Vem — disse ela.
O soldado levantou-se, e ambos começaram a andar.
A terra permanecia áspera, mas parecia-lhe agora caminhar sobre um leito de penas. O mais surpreendente, contudo, era a ausência de distâncias. E de tempo. Tinham percorrido num instante uma pequena (ou seria grande?) extensão daquele mundo devorado pelo ódio. Se não fosse por causa da mão da menina, o soldado teria continuado a tremer, ou deitado a correr, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Mas aquela mão convidava à paz. Aquele roçar era tão formoso como ela.
Sentiu-se tranquilo.
Absurdamente tranquilo.
— Aonde me levas?
— Espera.
Outra trincheira.
— Olha — apontou a menina.
O soldado viu outro soldado, com o uniforme do inimigo, tão sujo como ele. Estava ainda a fazer pontaria por cima da débil proteção que a terra lhe proporcionava.
— Quem é? — perguntou.
— É o soldado que disparou contra ti.
Quis odiá-lo por isso.
Além de que era o inimigo.
— Porque chora ele?
— Porque não queria disparar contra ti.
— Não acredito nisso.
— Mas podes crer.
— Como é que sabes?
— Eu sei tudo. — A menina dirigiu-lhe um olhar carinhoso.
— O que é que sabes?
— Este soldado chegou ontem à frente, chamado urgentemente para combater. Tem dezoito anos e sei que ama a paz, tal como tu. E que, até hoje, nunca tinha disparado contra ninguém, nunca tinha matado ninguém. Tu foste a sua primeira vítima.
— Então...
— Chora por ti tanto como por ele, soldado.
— Mas a guerra é assim.
—Também nisso te enganaram. Disseram-te que o inimigo era perverso, ruim, sem piedade, cruel, ávido de sangue, carregado de ódio, diferente de ti?
— Sim.
Via aquelas lágrimas. O soldado inimigo tinha tanto medo como ele.
— Mas irá viver — afirmou, triste, o soldado.
— Amanhã venho buscá-lo — disse a menina.
— Oh. — Foi apenas um gemido.
— Continuemos — disse ela.
E recomeçaram a andar.
Não se afastaram muito dali, embora de novo nem o tempo nem a distância contassem. No meio de nada, lá onde se havia, de manhã, combatido com angústia, ganhando e perdendo um metro de terra estéril ao pé de uma colina que mal se distinguia, viu os corpos destroçados de um grupo de homens. Também eles vestiam o uniforme do inimigo.
— Lembras-te disto?
— Disseram-nos que esta colina era essencial, que podia mudar o curso da guerra, que...
— Onde estavas tu?
— Ali... não sei.
— Vamos, não mintas. Já não é preciso.
A terra parecia ter rebentado, por fora e por dentro. Por todo o lado covas, lama, e a mesma cor em toda a área: castanho e vermelho, ocres que a chuva acabaria por varrer. Os corpos disseminados davam ao conjunto o aspeto de um jardim macabro. Eram as plantas mortas de um chão morto. A maioria só destroços.
— Vi-me preso, sozinho — começou a dizer o soldado. — Caíam bombas de todos os lados, os disparos varriam o ar em todas as direções e, de repente, por entre o nevoeiro, vi-os a eles, a avançar.
Parou.
A menina pressionou-lhe a mão com aquela ternura tão especial.
— Lancei-lhes uma granada — disse o soldado.
Depois deitara a correr.
— Olha bem para eles.
— Porquê?
— Porque agora vais saber a verdade.
Aproximou-se e olhou para eles. Descobriu que já não sentia nem o medo de há minutos nem o ódio de todos os dias anteriores. O inimigo, cada um daqueles soldados, tinha um rosto humano, uns olhos abertos surpreendidos pelo segundo final, uma máscara de surpresa estampada nas suas feições. Alguns tinham morrido logo ao rebentar a granada. Outros, um pouco mais tarde. Um olhava a sua mão aberta, arrancada do braço, caída diante de si. Outro tirara pouco antes do bolso uma fotografia.
O soldado também trazia uma fotografia no bolso.
Parecida com aquela.
Uma mulher, um bebé ao colo, um lugar plácido, um lar, um sorriso.
— Todos temos alguém — disse com amargura. E olhou para a morte com toda essa amargura presa na garganta. — Eu lutava pela minha mulher e pelo meu filho, pela liberdade, pelo meu país, por mim...
—Também nisso te enganaram. Anda, soldado — disse a menina.
Nunca havia estado no posto de comando do Setor. No primeiro dia, ao chegar, orgulhoso, valente, decidido a ganhar uma medalha, viu-o de longe. Entravam e saíam oficiais carregados de galões e condecorações, distintos, superiores. Os homens que deviam levá-los à vitória com paixão ou à derrota com honra, embora lhes tivessem dito que a derrota não existia, que não era palavra que constasse no dicionário do seu país nem no código do seu Exército.
Via agora de perto os oficiais. Dois generais, cinco coronéis, uma dezena de comandantes e capitães e...
Estavam reunidos à volta de uma mesa, estudando uns mapas. Rostos sérios.
— Fecha os olhos — pediu a menina.
— Porquê?
— Ouvirás o rumor das suas palavras, o eco de tudo quanto disseram antes de se iniciar a batalha. Paira ainda nestas paredes. Podes ouvi-lo, se quiseres.
Apertou com força a mão da menina. Não a tinha largado desde que saíram do lugar em que ia morrer.
— Não te vás embora — pediu-lhe.
— Não irei — prometeu ela.
Fechou os olhos.
E imediatamente soaram vozes, em tropel. Duras, fortes, autoritárias, implacáveis. Vozes de comando, marciais, que não admitiam réplica. Vozes de homens pretensamente iluminados, saturados de orgulho, inundados de ideais de heroísmo, ébrios de força. Vozes e mais vozes dominando o ar.
Até que conseguiu captar algumas. E uma conversa.
Discussão.
— Temos de atacar!
— Levamos dois meses parados, eles e nós!
— Pedem-nos que o façamos! Exigem-nos!
— E com que meios?
— Os nossos soldados são heróis. Lutarão com unhas e dentes se for preciso!
— Também eles!
— Mas a batalha decisiva está a travar-se noutra parte, longe. O que suceder aqui já não interessa a ninguém.
— Mas os nossos homens não sabem disso. Não podemos dizer-lhes. Os seus camaradas morreram aqui. Não podemos retroceder! Eles querem conquistar a glória, ganhar a sua batalha!
— Que podemos fazer?
— Conquistar a colina. Um ataque total.
— Mas isso será um suicídio.
— Mas levantará o moral do nosso glorioso Exército. Mesmo que não o consigam.
— Quantos cairão?
— Setenta a oitenta por cento de todos eles.
— É um preço razoável.
— Razoável? A colina é tão irrelevante como a batalha. Porque não vamos todos embora, eles e nós?
Silêncio.
Isto foi dito numa voz débil, baixa, nova, no meio das vozes mais fortes.
— Quer que o mande fuzilar, capitão?
Novo silêncio.
— Não, senhor.
— Então estamos de acordo. Amanhã de manhã atacaremos a colina, e não recuaremos até o último dos nossos soldados hastear nela a nossa bandeira ou cair morto. O alto comando orgulhar-se-á de nós!
— O nosso espírito é esse!
O espírito.
O soldado abriu os olhos.
As vozes deixaram de ouvir-se.
O grupo de generais, coronéis, comandantes e outros oficiais continuavam imóveis à volta da mesa dos mapas.
— Querias ganhar a «tua» batalha? — perguntou a menina.
— Eu não tenho nenhuma batalha.
— Disseram-vos que íeis morrer por nada, por uma colina inútil?
O soldado baixou a cabeça.
— Eu lutava pela verdade — desabafou.
— A verdade tem sempre duas caras.
A menina puxou por ele.
Sem quase se dar conta viu-se fora do posto do comando, e… e muito longe dali.
Quanto tempo levaria já fora de casa e da sua aldeia? E há quanto tempo não visitava a cidade, a capital? Tão bonita.
Com seus edifícios de pedra, de ferro e vidro, altas torres coroando o céu, avenidas verdes sulcando o chão.
Embora aquela não fosse a sua capital, mas sim outra parecida, igual, mas diferente.
A cidade em que os grandes homens discutiam a guerra e a paz. A guerra e a paz deles.
Tinha ouvido falar dela.
— O que fazemos aqui?
— Ontem morreram catorze mil homens nesta guerra — foi a resposta da menina. —Tive muito trabalho. E vinte mil ficaram feridos com maior ou menor gravidade.
— Na guerra há sempre gente que morre, claro.
— Hoje já terão morrido sete mil, e haverá mais nove mil feridos. Amanhã irão ser dezanove mil, porque irá haver um grande ataque.
— Não estou a entender.
Tinham entrado num solene edifício, egrégio, imponente. Um edifício com tapetes vermelhos e colunas de mármore, com cristais quase celestiais, tapeçarias e quadros a cobrir as paredes, tetos altos em forma de cúpula e móveis acumulados ao longo da história. Estavam numa grande sala circular, em que mais de cem homens sentados frente a frente pareciam estar a falar. A falar, simplesmente. Não discutiam nem gritavam. Só falavam. Alguns riam até. Todos pareciam ter dormido bem e comido melhor. Eram homens vaidosos e bem-vestidos. Homens de olhos inteligentes e palavra fácil.
— Olha para eles, soldado.
— São políticos?
— Sim.
— Estão em negociações de paz?
— Escuta — sugeriu a menina.
Fechou os olhos, como fizera no posto de comando do Setor. E voltou a ouvir um enxame de vozes.
Uns falavam a sua língua. Outros, a do inimigo. Outros, a dos mediadores e negociadores. Mas ele não as entendia todas.
— A nossa proposta é clara. A nova fronteira deve passar pelo ponto A.
— A nossa também é clara. A nova fronteira deve passar pelo ponto B.
— Isso é inaceitável.
— Senhores, andamos nisto há três meses...
— E continuaremos três anos se for preciso.
— Mas a guerra poderia acabar amanhã mesmo.
Quantos homens tinha dito a menina que iriam morrer no dia seguinte?
“Também nisso te enganaram”.
— Se a fronteira passar pelo ponto B, as jazidas de cobre ficarão do seu lado.
— E se passar pelo ponto A, as de mercúrio ficarão do seu.
— Nós necessitamos de cobre.
— E nós de mercúrio.
— Senhores, uma vez mais. Porque não se divide a meio? Se a fronteira passasse por um ponto intermédio entre A e B...
— Impossível.
— Impossível.
— E se os dois países explorassem conjuntamente essas minas?
— Impossível.
— Impossível.
— Mas a guerra tem custos elevados.
— Certo. Milhares de milhões por dia.
— Exato. Milhares de milhões.
Falavam de dinheiro, não de vidas.
— Poderiam tentar...
— Impossível.
— Impossível.
— Então...
— Está a fazer-se tarde. Amanhã prosseguiremos.
— Sim, já é tarde. Amanhã.
O soldado sentiu um arrepio.
— Já se vão embora?
— Sim — disse a menina.
— E não se faz nada?
— Nenhum quer ceder.
— E para onde vão eles?
— Para as suas casas, os seus hotéis, talvez para os seus países, passar o fim de semana. Jantarão, dormirão bem aconchegados, rirão, lerão os relatos de guerra e sentirão pena. E depois voltarão a sentar-se aqui para falar e voltar a falar, cada um julgando ter razão.
— Então — suspirou o soldado — a verdade onde está?
— Anda.
— Onde queres levar-me agora?
— A ver mais uma coisa.
— O quê?
— Chiu...
Afastavam-se do lugar em que se celebrava a conferência de paz. As bandeiras dos países ondulavam ao vento. Símbolos. Os homens às vezes morriam por um pedaço de pano pintado. Cada qual julgando que as suas cores eram as mais bonitas. Mas até as cores mudam com os tempos e as épocas.
Símbolos.
Os ventos da alma moviam outras bandeiras.
A cidade ficou para trás. Chegaram à costa. A costa ficou para trás. Chegaram ao mar. O mar ficou para trás. Chegaram a outra costa, e a outra cidade, e a outro grande edifício com o logotipo de um banco.
Entraram num luxuoso gabinete no qual se viam meia dúzia de homens a fumar enormes charutos. Eram parecidos com os da conferência de paz, iguais em muitos aspetos. Homens que falavam. No seu sangue havia números. Nos seus olhos, lucros, como numa caixa registadora.
Não precisou de perguntar à menina.
Fechou os olhos pela terceira vez.

E ouviu-os falar.
— Pediram novos créditos.
— Qual deles?
— Ambos os países.
— Têm reservas?
— Insuficientes.
— Qual dos dois poderá ganhar a guerra?
— É difícil saber. Estão empatados. É uma longa guerra de desgaste.
— Se lhes dermos o dinheiro que pedem para poderem continuar a combater, a quem irão comprar as armas?
— A nós.
— E a nós.
— Algum deles tem armamento que decida a guerra?
— Não. Tudo armas convencionais. Não deixamos que sejam de destruição maciça. Se tudo fica destruído e contaminado, quem poderá fazer negócios?
— E se faltar o dinheiro...?
— A guerra acabará.
— E as guerras seguintes?
— Já estão planeadas. Sempre. Uma dúzia, ou mais talvez.
— Onde?
— Aqui, aqui e aqui.
O mapa era como um tabuleiro de jogo. Países às cores.
— Armas, munições, dinheiro para comprar...
— O mundo é um grande mercado.
Riram-se.
— E a paz está na secção dos «congelados».
Riram-se ainda mais.
— Se soubessem...
Os seus risos ecoaram no auge da sua felicidade.
O soldado abriu os olhos.
— Quem são eles? — gemeu.
— Eles são o poder — disse a menina.
— Mas...
Alguém havia escrito um guião, e todos eram atores da grande comédia. Atores e espectadores.
Uns poucos dirigiam.
O resto morria.
Como ele.
Morto por...
O soldado apertava com tanta força a mão da menina que quase a esmagava entre os seus dedos escuros e sujos. Os dedos brancos da pequenita eram como filamentos puros de um mármore impoluto. Não havia dor. Sentia a pressão mas sem lhe causar incómodo. Nele, pelo contrário, as fúrias desenfreadas do seu ânimo exaltado faziam dele um barco à deriva.
— Disseram-nos que lutávamos pela honra.
— Eu sei.
— Por Deus.
— Sim.
— E pela pátria...
— Sim, sim.
—… Pela liberdade...
— Claro.
—... E pelo futuro dos nossos filhos...
“Também nisso te enganaram.”
—... Pela democracia contra o totalitarismo…
Olhou para a menina.
— Disseram-lhes o mesmo a eles?
— Sim.
— Para o inimigo somos todos monstros.
— O único monstro é a estupidez, soldado. E os seus aliados: a intolerância, a incompreensão, o egoísmo, a superioridade do mais forte.
— Convenceram-nos de que era uma guerra justa.
Uma guerra justa.
“Também nisso te enganaram.”
— Não estou a entender. — Inclinou a cabeça.
O grande banco ficou para trás. Chegaram aos limites da cidade. A cidade ficou para trás. Chegaram à costa. A costa ficou para trás. Chegaram ao mar. O mar ficou para trás. Chegaram a outra costa, a sua costa, e através de novos campos e cidades, cada vez mais e mais em ruínas, até ao ponto de partida.
Silêncio.
— A vida é bela — suspirou o soldado.
— Muito.
— Mas é curta. No fim és tu que ganhas sempre.
— Eu apenas sou um instante na existência de cada ser humano. Um sopro. A Eternidade, essa sim, é que é grande.
O soldado estremeceu de novo.
A morte era doce.
Uma menina.
E apesar disso...
— Queria viver — disse.
A sua companheira não respondeu.
Voltaram de novo para o campo de batalha.
Ao mesmo sítio onde tudo tinha começado, com a bala suspensa no ar.
— Fazes isto com todos os que vão morrer? — perguntou.
— Não.
— Não?
— Não.
— Julgava que sim...
— Uns precisam de me ver, outros de acreditar, outros de compreender.
— E porquê comigo?
Ela levava as flores na outra mão. Em momento algum deixara de lhe dar a mão. Estendeu-lhas.
— Lembras-te delas?
O soldado franziu a testa.
— Lembras-te?
— Não.
— Há anos, quando eras criança. Querias levar umas flores à tua mãe e foste ao monte procurá-las. Havia centenas, milhares, num prado repleto, mas quando ias arrancá-las detiveste-te. Eram muito belas, de todos as cores, fascinantes e únicas. Mas compreendeste que, uma vez arrancadas, murchariam, e a sua beleza desapareceria. E então renunciaste a isso. Preferiste dar à tua mãe um simples beijo.
— Em menino amava a vida, e tudo o que estivesse vivo — reconheceu ele.
— Há um momento na vida de cada pessoa em que alguma coisa acontece. Nem sequer sabemos quando, nem porquê, mas está lá, faz parte do que fazemos, do que somos, e também do que faremos e seremos. O teu momento foi esse.
— Esse?
— Sim.
— Um momento tão simples?
— Assim é.
— E é por isso que estás aqui?
— Tu merecias saber mais.
— Mas agora morrerei sabendo que tudo foi uma mentira. Tu disseste-o. Enganaram-me.
— Não preferes conhecer a verdade?
— De que me serve agora a verdade? Já que vou morrer, talvez tivesse sido melhor não o saber.
— A ignorância nunca é melhor do que a verdade.
— Mas agora... o que farei com o que sinto? A minha morte será estéril, não servirá de nada. Depois terminará a guerra, contarão os mortos, e tudo continuará na mesma. A minha mulher chorar-me-á, mas mais tarde, visto ser jovem, conhecerá outro homem e casar-se-á com ele. O meu filho crescerá sem nunca saber como fui, sem o calor das minhas mãos, o amor dos meus olhos, os conselhos da minha voz. Dir‑lhe-ão que fui um herói, e guardará a medalha que lhe enviarão com lindas palavras, como símbolo do que tivemos de pagar por coisa nenhuma.
Levantou a cabeça, olhou para o céu e acrescentou: — Não, não é justo.
“Também nisso te enganaram.”
— Vamos.
A voz da menina era suave.
Fê-lo sentar-se no mesmo lugar.
— Em que mais me enganaram?
Não houve resposta.
— Não me deixes — pediu.
— Estou contigo. — E apertou-lhe a mão com doçura.
— Tenho de olhar para a bala?
— Ouviste o disparo. Sabes que vai atingir-te. Reagirás.
A menina começava a desvanecer-se.
— Espera!
— Estou aqui. Estou aqui. Deixo apenas de ser real.
O tempo ia voltar a pôr-se em marcha.
O tiro. A sensação de morte. A reação.
Ouviu-se então de novo: o detonar.
E ao mesmo tempo que voltava à realidade, saltou desesperado para o lado.
A bala alcançou-o.
Ao acordar, estava tombado na terra escura, de boca para cima. Chovia.
Chuva de chumbo, cinzenta, que mal se via.
Uma chuva também com um esquisito sabor a cinza.
Ergueu o tronco.
Doía-lhe o peito.
A morte era aquilo? Não se deveria imaginar um paraíso celestial?
Levou uma mão ao rosto. Estava empapado, mas não de sangue. Depois olhou para o peito, no sítio onde lhe doía.
A bala viera direita à sua cabeça, mas ele saltara.
A tempo.
A bala ferira-o no peito.
Não na carne, mas na fivela metálica da correia.
A bala tinha feito ricochete.
Surpreendente.
Incrível.
De modo que...
— Estou vivo! — apenas pôde dizer.
Vivo?
— Morte! — chamou.
O mundo inteiro permaneceu em silêncio.
— Menina!
Parecia não haver combate. Parecia não haver guerra. Parecia não existir nada.
O soldado pôs-se de pé.
Mais nenhuma bala fora disparada contra ele. Nenhuma granada o estilhaçara. Nenhum tiro de canhão lhe rebentara os tímpanos. Nada.
Silêncio apenas.
E contudo, o mundo movia-se, o fumo movia-se, uma formiga assustada movia-se à beira dos seus pés. E o vento.
O vento.
A chuva.
— Não era sonho. Sei-o bem — sussurrou.
Começou a andar. Sem qualquer rumo. Só pelo desejo de andar. Fê-lo por entre a terra torturada e os cadáveres de centenas de homens. De um e de outro lado. Homens misturados, com diferentes uniformes, que haviam lutado corpo a corpo, até ao cansaço final, até ao desespero.
A colina.
Trepou por ela.
Desviando-se de mais e mais cadáveres.
Não havia nenhuma bandeira no cimo. Nenhum sobrevivente. Como se não tivesse havido vencedores nem vencidos.
Nada.
Nada.
Menos do que nada.
O vazio.
— Menina!
O soldado começou a chorar.
— Menina!!!
Enterrou as unhas na carne das mãos até as fazer sangrar.
— Ó Morte!!!!!
No céu, por cima da sua cabeça, abriu-se um clarão entre as nuvens, e um tímido raio de sol atingiu-o de cheio na cara.
Epílogo
Sabia que viria.
Esperava por ela desde o dia em que lhe diagnosticaram o mal. E sobretudo desde que dera entrada no hospital.
E agora, ali estava.
— Olá.
— Olá.
Como se não houvesse transcorrido o tempo.
Trazia o mesmo ramo de flores nas mãos. Tinha o mesmo aspeto de então. Cabelo preto, olhos cinzentos, lábios cor de rosa. Tão linda.
Mesmo linda.
Lembrou-se da primeira vez.
“Também nisso te enganaram.”
— Agora sim? — perguntou quase sem voz.
— Agora sim — sorriu a menina.
— O que aconteceu então?
— Enganei-me.
— Enganaste-te?
— Sim — reconheceu ela.
— Não és infalível?
— Eu sou infalível, mas vós, humanos, sois imprevisíveis. Quem iria pensar que darias aquele salto inesperado? E mais ainda, quem imaginaria que aquela bala fosse acertar numa fivela? Foste um caso entre um milhão.
— Eu?
Teria desatado a rir se não fosse as dores que tinha.
Alguém se interpôs entre os dois. Desta vez, o tempo não se deteve.
— Avô, estás bem?
— Oh, sim. Agora sim.
Voltou a olhar para a menina.
— É teu neto? — perguntou ela.
— Sim, o mais velho.
— Quantos netos tens?
— Vinte e sete.
— Vá lá, não está mal.
— Tive nove filhos.
— Não perdeste tempo.
— Não.
— E os mais novos?
— Bisnetos e bisnetas.
— Bem, bem.
— Já são noventa e dois anos.
— Pareces ter tido uma vida boa.
— Sim, tive. Graças a ti.
— Não me digas que falaste de mim nestes anos todos?
— Não, ninguém teria acreditado. Não sou assim tão ingénuo.
— Avô, estás mesmo bem?
— Perfeitamente.
— Descansa, pai.
— Oh, não se preocupem. Daqui a nada ficarei em paz.
Olhou para a menina. A meia dúzia de rostos ansiosos que o rodeavam mal se deu conta de que a sua mão direita se fechava sobre a da menina. Recordou aquele contacto doce e suave, os dedos brancos como mármore. Nunca esqueceu isso.
— É agora?
— Creio que sim.
— Bem — suspirou ele.
— Já não te importas de morrer?
— Importo-me, mas é inevitável. Além disso, quero encontrar-me com a minha mulher. Levaste-a há três anos.
— Está à tua espera.
— Muito bem. — Suspirou de novo.
— Posso perguntar-te uma coisa?
— Diz lá.
— O que fizeste naquele dia?
— Não sabes?
— Não. Eu sou a morte, não a vida.
— Acordei, vi o resto da batalha em que todos, absolutamente todos, tinham morrido, e fui para casa.
— Desertaste?
— Fui para casa simplesmente. Ninguém se importou.
— E depois?
— Chegou-se a um acordo, anos mais tarde, quando já não se sabia porque é que se lutava, e quando quer o mercúrio quer o cobre já não tinham importância. E depois, com o tempo, vieram outras guerras e outros tratados de paz, mas isso certamente já o sabes.
— E o que fizeste com a tua nova vida?
— Evitei algumas dessas guerras, lutei pela paz, lutei contra o poder e a intolerância e a estupidez, e... embora não pudesse estar em todo o lado, claro.
— Parece que foste uma boa pessoa.
— A morte ensina-nos. — Piscou-lhe o olho.
— Enlouqueceu — soluçou alguém.
— Resiste há muito tempo — opinou alguém mais.
— Um grande homem como ele, que fez tanto pela paz no mundo, não deveria morrer nunca — assegurou uma terceira pessoa.
— A morte é injusta — asseverou uma quarta.
— E cruel — apostrofou uma quinta.
O velho soldado ainda conseguiu sorrir pela última vez.
— Eles não sabem... — pronunciou com o penúltimo alento.
— Também os enganaram a eles — recordou-lhe a menina.
— Obrigado...
— Vamos?
— Sim.
A menina puxou-o.
E os dois desapareceram no ar.
Jordi Sierra i Fabra; Mabel Piérola
El soldado y la niña
Barcelona: Destino, 2003