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Feb 6, 2015, 12:16:19 PM2/6/15
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Histórias oferecidas à sexta-feira!

 

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O CONCURSO REAL

 

Nota das Autoras

 

O Concurso Real” inspirou-se na história verdadeira do nosso avô, Hong Seung Han, que viveu na Coreia no final do século dezanove. Iletrado e demasiado pobre para aceder ao ensino, Hong costumava escutar à porta da escola destinada apenas a meninos ricos, para tentar aprender algo. Um dia, porém, permitiram-lhe integrar a turma. Depois de ganhar uma competição académica nacional, o governador da província convidou-o a residir no palácio, onde Hong ensinava o jovem filho do governador enquanto prosseguia a sua própria educação.

Anos mais tarde, o nosso avô frequentou um seminário em Pyongyang, no qual estudou sob a orientação de um missionário americano, e tornou-se um pastor célebre. Em 1905, casou com a nossa avó, Pang Seung Hwa, e trabalharam juntos como missionários na China.

 

***

 

No tempo em que os reis governavam a Coreia, apenas as crianças privilegiadas iam à escola. Vestiam roupas delicadas, possuíam livros e podiam candidatar-se ao Concurso Real, que se realizava no palácio do governador. Um dia, todas elas seriam pessoas eruditas e nobres. Song-ho não se contava entre esses privilegiados e vestia-se de forma andrajosa. Contudo, o som distante do sino da escola fazia-o sonhar com o dia em que poderia ler livros e escrever poesia.

 

Song-ho observava a mãe a lavar o rosto cansado numa bacia de água, mal a luz fraca do dia iluminava a pequena cabana onde moravam. A mãe pedia-lhe que fosse um bom rapaz e Song-ho prometia que realizaria todas as tarefas de que ela o incumbira. Depois, a mãe saía para os campos de milho para trabalhar. O pai de Song-ho fora pescador, mas tinha morrido no mar há alguns anos. A mãe trabalhava na colheita dos cereais em cada estação para poder pôr comida na mesa. Se o dia lhe corresse bem, traria para casa uma braçada de frutos e legumes murchos. Quanto ao filho, varria a cabana, demolhava os grãos de soja para o jantar e lavava os trapos no ribeiro da montanha.

 

RoyalBee_5.jpgUm dia, enquanto Song-ho torcia o último farrapo no ribeiro, ouviu-se o som de um sino no fundo do vale onde viviam as pessoas ricas. Era o som do sino da escola de Sodang. Song-ho seguiu o som até ao fundo do vale, como se o sino estivesse a chamá-lo, e deparou-se com a escola de Sodang, que estava rodeada de árvores tropicais.

A escola era mais bonita do que alguma vez imaginara! Quando o sino parou de tocar, porque as aulas tinham começado, Song-ho aproximou-se, em bicos de pés, da porta de papel de arroz que deixava transparecer a presença de um professor e de uma sala cheia de alunos.

De repente a porta abriu-se e Song-ho viu o mestre a cofiar a longa barba cinzenta.

— Sou o Mestre Min. O que fazes aqui, rapaz?

— Chamo-me Song-ho. Posso ser seu aluno? — inquiriu o rapaz, ansiosamente.

Mestre Min baixou o olhar para Song-ho, que estava andrajosamente vestido, e franziu o sobrolho.

RoyalBee_14.jpg— Não, é impossível.

— Como vou ajudar a minha mãe quando for maior, se não souber ler ou escrever? — perguntou Song-ho.

Mestre Min sentiu um nó na garganta perante a coragem do rapaz. Mas regras eram regras e as crianças pobres não estavam autorizadas a frequentar a escola de Sodang.

— É melhor ires embora, Song-ho — disse Mestre Min, fechando a porta.

 

Mas Song-ho não foi embora. Com o ouvido encostado à porta, continuou a ouvir a aula de Mestre Min, ignorando que o mestre conseguia ver a sua sombra, pequena e encolhida, através da porta.

RoyalBee_22.jpgDotado de um coração bondoso, Min deixava-o desde então ficar à porta durante as aulas. E Song-ho aprendia sobre reinos antigos e líderes famosos.

Um dia, ouviu dizer que o Concurso Real iria realizar-se na primavera, no grande salão do palácio do governador, e que apenas um aluno de cada escola do país seria selecionado para competir. Nesse dia ao jantar, Song-ho encheu uma tigela de sopa de grão de soja para a mãe, que a comeu enquanto o vapor lhe aquecia o rosto cansado.

— Meu pobre Song-ho! Quem me dera poder dar-te mais do que algumas espigas sarapintadas.

Song-ho não contava à mãe as suas aventuras na escola de Sodang e desejava surpreendê-la um dia com tudo o que aprendera. Enquanto desfolhava as espigas de milho sarapintadas, pensava: “Se aprender a ler e a escrever, poderei oferecer à minha mãe espigas de milho douradas.”

 

E todos os dias Song-ho regressava à escola de Sodang, seguindo o som do sino que ecoava no fundo do vale. Escondia-se atrás de uma árvore e esperava que todos os alunos ricamente vestidos entrassem. E todos os dias os olhos de Mestre Min se humedeciam ao ver a sombra de Song-ho atrás da porta… e ensinava os alunos num tom de voz mais alto e de forma mais inteligível.

 

RoyalBee_24.jpgQuando o inverno chegou, e já havia gelo pendente dos ramos despidos das árvores douradas junto à escola, Song-ho continuava encolhido junto à porta a tentar ouvir as explicações do mestre. Um dia, a porta abriu-se.

— Entra, Song-ho — convidou Mestre Min.

Song-ho entrou para a sala cheia de alunos ricamente ataviados, que se sobressaltaram ao ver um rapaz vestido de forma andrajosa.

— Song-ho tem andado a ouvir as nossas aulas às escondidas — sorriu Mestre Min. — Que tal testarmos os seus conhecimentos?

Todos os alunos concordaram.

— Quem inventou o nosso alfabeto? — perguntou um aluno.

— O Rei Sejong — respondeu Song-ho.

— Qual é a maior ilha do nosso país? — perguntou outro aluno.

— A ilha Cheju.

Depois de todos os alunos terem interrogado Song-ho, Mestre Min declarou:

— Bem-vindo à escola Sodang, Song-ho.

Os alunos fizerem uma vénia respeitosa e disseram em coro:

— Bem-vindo à escola Sodang.

Nesse dia ao jantar, Song-ho encheu uma tigela de sopa de grão de soja para a mãe, que passara o dia a apanhar castanhas. Cansada e abatida, lamentou-se por não poder dar mais do que castanhas rachadas ao filho. Mais tarde, enquanto Song-ho assava um tabuleiro de castanhas rachadas, pensava: “Se eu aprender a ler e a escrever, poderei dar castanhas perfeitas à minha mãe.”

 

***

 

Chegou a primavera. Quando as árvores floresceram junto à escola Sodang, já Song-ho lia um livro do princípio ao fim. Também tinha aprendido a utilizar o pincel e a escrever bonitos poemas. Era, sem dúvida, um aluno excelente.

Certa manhã, Mestre Min pediu a Song-ho que se levantasse e, diante da turma, disse‑lhe:

— Os teus colegas escolheram-te para representares a escola de Sodang no Concurso Real.

Song-ho não queria acreditar no que ouvia.

Cheio de orgulho, Mestre Min ofereceu a Song-ho um embrulho envolvido em seda.

— Este é um presente dos teus colegas.

— Um presente para usares no Concurso Real! — clamaram em uníssono. — Um presente para te dar sorte!

Song-ho abriu com cuidado o embrulho, que continha um fato de cerimónia colorido e brilhante. Depois, fez uma vénia em sinal de agradecimento.

 

RoyalBee_31.jpgAo jantar nesse dia, Song-ho encheu uma tigela de sopa de grão de soja para a mãe, que regressara de um longo dia nos campos a apanhar melões. Enquanto a mãe lamentava não ter mais do que melões pisados para dar ao filho, este pensava: “Se eu vencer o Concurso Real, poderei dar melões bons à minha mãe.”

Finalmente chegou o dia do concurso.

Envergando o fato de cerimónia, Song-ho passou os portões de ferro do palácio com Mestre Min e ambos entraram no Grande Salão. O mestre acompanhou-o até junto dos outros alunos, que estavam sentados diante do painel do júri, e tomou depois assento na plateia.

Fez-se silêncio quando o governador entrou, apoiado numa bengala ornada com uma pérola. Depois de se sentar no trono, proclamou:

— Bem-vindos ao Concurso Real. Sereis testados segundo o Livro da Sabedoria. Se derdes uma resposta errada, sereis eliminados do concurso. O aluno que terminar o concurso será proclamado o melhor aluno do país.

Um a um, os alunos foram interrogados pelo júri. E um a um, os alunos foram sendo eliminados. Algumas horas mais tarde, restavam apenas dois alunos. Um deles era Song-ho.

— Qual é a montanha que tem doze mil picos? — perguntou um juiz a Song-ho.

— A Montanha Diamante — respondeu Song-ho.

— Qual é o país que faz fronteira com a Coreia no extremo oriente? — perguntou um juiz ao outro aluno.

— A China — respondeu o aluno.

O Concurso Real prolongou-se até ao anoitecer.

A plateia começava a dar sinais de impaciência e os juízes já não tinham mais questões a colocar. Então, o governador levantou-se e declarou:

— Só há uma forma de decidir quem é o vencedor do Concurso Real. Cada um de vós deverá responder a esta questão: “O que significa para mim ganhar este concurso?” Quando a lua iluminar o grande salão, devereis dar a vossa resposta.

 

Quando a lua iluminou o grande salão, o outro aluno avançou.

— Grande Governador, estudei durante todo o ano para me apresentar ao Concurso Real. Se ganhar, seguirei os passos dos meus antepassados. Frequentarei as melhores escolas e serei um académico famoso.

A plateia aplaudiu. RoyalBee_32.jpgChegou a vez de Song-ho que, com passo nervoso, avançou e disse:

— A minha mãe trabalha nos campos de sol a sol, e sabe que não há esperança para pessoas como nós. Rompendo com a tradição, Mestre Min aceitou-me na sua turma e permitiu que um pobre rapaz como eu frequentasse a escola Sodang. Ensinou-me a ler e a escrever e agora estou a participar no Concurso Real. A minha mãe e eu ganhámos a dádiva da esperança.

Quando a lua cheia brilhou, o Grande Salão encheu-se de silêncio. Então, a plateia pôs-se de pé e aplaudiu tão estrondosamente que a sala parecia abalar. Lágrimas de alegria rolaram pela face de Mestre Min quando o governador declarou que Song-ho era o vencedor do Concurso Real.

— Ao seres tão sincero, deste prova de grande coragem, Song-ho — afirmou o governador.

Como prémio, o governador ofereceu a Song-ho uma vaca revestida de seda, que tinha um laçarote feito com moedas de ouro cintilantes.

 

RoyalBee_41.jpgJá era tarde quando Song-ho regressou a casa com o seu prémio. Ao atravessar a montanha, conseguia ouvir a mãe que o chamava:

— Song-ho! Song-ho! Onde estás?

Naquela noite, Song-ho haveria de a surpreender com tudo o que aprendera na escola Sodang e com o relato de como ganhara o Concurso Real. E mostraria a vaca como prémio. E a seda. E as moedas de ouro.

Naquele preciso momento, o toque de um sino ecoou no fundo do vale. Era o sino da escola de Sodang, que tocava em homenagem a Song-ho.

Song-ho estugou o passo em direção à sua cabana, levando o som no seu coração.

 

Frances Park, Ginger Park and Christopher Zhong-Yuan Zhang

The royal bee

Pennsylvania, Boyds Mills Press, 2000

(Tradução e adaptação)

 

 

 

 

No intuito de darmos continuidade ao anterior projecto, “Um dois três era uma vez”, embora em moldes que se pretendem mais abrangentes, reiniciamos o envio semanal de pequenas histórias para crianças e adolescentes, por vezes acompanhados de textos dirigidos a um público adulto, convidando à reflexão, e também ao sonho, que tão necessários se tornam numa sociedade em que o materialismo tem crescido desmedidamente, a ponto de abafar os valores mais genuínos do ser humano: o respeito pelos outros, a ternura, a delicadeza, a compaixão pelos que sofrem, a generosidade.

Esperamos que o projecto, que agora passa a chamar-se “Um dois três, era outra vez”, continue a encontrar leitores assíduos entre aqueles a quem se dirige, e possa proporcionar agradáveis momentos de partilha entre pais e filhos.

 

 

 

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E…diga-nos o que pensa das histórias que lhe forem chegando!

 

Responda-nos para: 1...@isep.ipp.pt

 

Ideia: Teresa Tudela e Betina Campos Neves

 

 

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O Concurso Real - A4 - Frances&Ginger Park.pdf

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Feb 13, 2015, 1:33:20 PM2/13/15
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Histórias oferecidas à sexta-feira!

 

 

A árvore da chuva

 

 

Era uma vez uma aldeia, situada num terreno árido no meio do deserto. O sol tinha secado os seus campos e a areia invadira por completo os caminhos, as casas e as bocas dos aldeões.

Apesar do calor sufocante, os homens tentavam lavrar os campos, retirando água de um poço… cada vez mais vazio. Mas parecia que a terra não tinha mais para dar e se mantinha surda às súplicas dos habitantes da região…

Num pátio próximo das cubatas feitas de argamassa, as mulheres teciam tapetes com folhas de tamareira para vender no mercado da cidade vizinha. Partiam cedo de manhã, a pé, e um burro carregava a mercadoria. Chegavam lá apenas ao meio-dia, exaustas da longa caminhada sob o sol. Quando regressavam à aldeia era já noite, e tanto homens como crianças há muito que dormiam.

img940Os pés estavam gretados de percorrer tantos quilómetros, mas os sacos de arroz e os bidões de água que tinham trazido consigo, comprados com o dinheiro do seu trabalho, eram um bálsamo para as suas feridas.

Quanto às crianças, frequentavam a escola todas as manhãs, embora tivessem dificuldade de aprender com o estômago vazio.

Todos os dias os aldeões perscrutavam o céu, na esperança de que uma nuvem a anunciar chuva aparecesse. E todos os dias o poço secava cada vez mais e as colheitas de arroz diminuíam, o que aumentava o medo do que traria o dia seguinte.

 

Certa manhã, na pequena praça de terra vermelha, situada entre a árvore dos debates e a cubata do chefe, um grão que ninguém tinha plantado começou a germinar. Era um rebentozinho verde e tenro, redondinho como um bebé bem alimentado. Foi Kodjo quem o viu primeiro. O rapaz ia a caminho da escola quando avistou a pontinha verde a emergir da terra. Orgulhosa e altaneira, parecia buscar a luz do sol. Kodjo parou, observou-a e alertou a aldeia inteira.

Em breve, todos os homens, mulheres e crianças se agruparam em torno da planta.

— É uma bananeira — disse um homem.

— É um coqueiro — disse outro.

— É uma tamareira — disse um terceiro.

— Seja lá o que for — disse o chefe. — Esta planta vai dar-nos comida e água, se tomarmos conta dela. O Kodjo fica responsável pelo seu cuidado. Os outros vão buscar a água que nos resta.

Quando trouxeram a água, o jovem, orgulhoso, deitou as primeiras gotas na terra seca. No dia seguinte, o rebento tomara a forma de uma pequena planta que ondulava com o vento, indiferente ao sopro quente do sol. Kodjo sussurrou-lhe algumas palavras de encorajamento enquanto voltava a regar o pé do seu pequenino tronco com o líquido precioso.

 

img941Alguns dias mais tarde, a planta assemelhava-se já a uma árvore do tamanho de uma pequena girafa. Parecia um verdadeiro milagre no meio do deserto, com as ramagens verdes e tenras a procurarem o céu.

Os aldeões dançaram e cantaram para agradecer aos antepassados. Também abraçaram o troco da árvore e depuseram oferendas a seus pés, tais como óleo de palma e pedras raras.

Ao fim de algumas semanas, a árvore estava mais alta do que as cubatas e era tão larga como um elefante. Os aldeões gostavam de repousar à sua sombra, nas horas em que o sol ia mais alto. As crianças aprendiam mais facilmente junto dela e as mulheres teciam panos a cantar, como se a chuva não fosse demorar.

Mas um dia, ao cair da tarde, algo de muito estranho aconteceu. Tão estranho que ainda hoje os livros o relatam.

 

img942O sol acabava de desaparecer por detrás das dunas de areia e a árvore balouçava docemente com o sopro morno do vento. De repente, começou a escorrer o que parecia ser água. Dos ramos e das folhas começaram a chover gotas grossas que, estranhamente, se assemelhavam a água.

Bastante desconfiados, os aldeões aproximaram-se dela e recolheram algumas gotas com as mãos em concha. O chefe da aldeia levou-as à boca, franziu as sobrancelhas grossas e escuras, remexeu a língua, passou-a pelos lábios e declarou:

— É água!

Toda a aldeia se reuniu em torno da árvore, batizada então com o nome de “árvore da chuva”. A água corria pelos rostos das pessoas e fazia brotar sorrisos dos lábios. Entrava nas bocas desejosas de a receber e humedecia as línguas secas. Ao deslizar pelos braços e pelas pernas, limpava a poeira dos caminhos há muito acumulada.

 

A fim de honrar a árvore da chuva, os aldeões fizeram uma grande festa. Houve arroz com fartura, água açucarada e bolos de mandioca. Kodjo não se lembrava de ter comido ou bebido tanto! Nessa noite, todos se deitaram de estômago cheio. A árvore deixou de escorrer água ao nascer do sol, mas ninguém se preocupou: mal a noite começasse a cair, de certeza que haveria de novo água…

E assim foi. Os homens regressaram com afinco aos campos e as mulheres puseram-se de novo a sachar e a semear. As crianças iam para a escola a cantar e quase já sabiam ler.

A aldeia tinha reencontrado a serenidade.

 

Até ao dia em que um homem da aldeia vizinha os visitou.

Acabava de anoitecer e a árvore distribuía a sua água tão generosamente como sempre. O homem, que estava cheio de sede, parou, observou e não acreditou no que via. No dia seguinte, trouxe dois recipientes e começou a enchê-los. Quando o viu, o chefe da aldeia ordenou-lhe que fosse embora.

— A nossa aldeia morre de sede e de fome — queixou-se o estranho. — Os nossos filhos têm a barriga vazia e as nossas mulheres só têm pele e osso. Como as mães não têm leite, os bebés choram de manhã à noite. Estamos a ficar sem ânimo.

— Isso não me preocupa — disse o chefe, que era rancoroso. — A vossa aldeia tem a memória curta. Ainda há poucos meses, os vossos aldeões pilhavam sem escrúpulos os restos das nossas colheitas e pouco se importavam que passássemos fome. Vai-te embora e não voltes a aproximar-te da árvore da chuva.

img944O homem rumou em direção a casa, com os recipientes vazios.

 

No dia seguinte, Kodjo foi regar a árvore, que nenhuma necessidade tinha de água. Quando se aproximou da praça de terra vermelha, nem queria acreditar no que via: no lugar onde estivera a árvore, via-se agora um buraco. A árvore da chuva tinha desaparecido!

Kodjo correu a alertar os habitantes da aldeia, que se agruparam em torno do buraco. As mulheres desataram a soluçar e os homens lançaram gritos estridentes. No meio do desespero geral, o chefe exclamou:

— Roubaram a nossa árvore! A nossa vingança será terrível! Sigam-me!

A aldeia em peso pôs-se a caminho da aldeia vizinha. Embora seja má conselheira, a cólera dá força e coragem e, assim, os aldeões caminharam tão rapidamente que em breve avistaram as cubatas da aldeia vizinha.

— Olhem! — ordenou o chefe, designando com a mão as casas dos inimigos. — Ainda dormem, mas não por muito mais tempo.

Os rostos espelhavam ódio e vingança e estavam dispostos a usar as facas afiadas que tinham trazido consigo. À medida que se aproximavam da aldeia, avistaram ao longe a árvore da chuva. Majestosa e altiva, erguia os ramos na direção do céu. Estava viçosa como na véspera.

— Como chegou ela aqui? — exclamou Kodjo. — Uma árvore não caminha…

— Esperem por mim! — disse o chefe de forma autoritária.

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Os aldeões viram-no caminhar em direção à aldeia vizinha. Quando regressou, vinha acompanhado pelo outro chefe, que lhe explicava que só os deuses conseguiam fazer as árvores andar. Se tivessem sido os aldeões vizinhos a roubá-la, nunca a teriam plantado a meio do caminho, mas sim na sua própria aldeia. As suas palavras sensatas aplacaram a cólera dos homens sedentos de vingança.

Quando a noite caiu, os habitantes das duas aldeias muniram-se de baldes, panelas e bacias e encaminharam-se para a árvore da chuva. Os olhares sombrios faziam adivinhar o ódio e via-se o cintilar das facas afiadas.

Mas da árvore não escorreu água. As folhas, os ramos e o tronco continuaram tão secos como a terra.

Desesperados, os habitantes das duas aldeias regressaram a casa sem trocar palavra.

img946Passaram-se semanas e passaram-se meses, e a árvore continuou seca. Contudo, todos os dias, ao cair da tarde, os habitantes das duas aldeias encontravam-se sempre junto dela, à espera de um milagre.

 

Certo dia, uma mulher deu à luz perto dela e as mulheres da aldeia vizinha trouxeram panos e água. Depois, cantaram canções de embalar e acolheram a criança como se fosse sua.

Pouco a pouco, começaram a conhecer-se melhor uns aos outros, partilharam refeições e as crianças tornaram-se amigas. As mulheres teciam tapetes em conjunto e iam vendê-los ao mercado. Partilhavam também água e arroz. Em breve as duas aldeias pareciam apenas uma. Todos os dias, ao cair da tarde, os aldeões cantavam e rezavam juntos.

Sentados debaixo da árvore, chegavam mesmo a esquecer que estavam à espera de chuva…

 

E foi então que, uma noite, quando já ninguém o esperava, a árvore voltou a escorrer água, como se houvesse nuvens no céu… 

 

 

Agnès de Lestrade

L’arbre à pluie

Paris, Milan Jeunesse, 2009

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A árvore da chuva - Agnès de Lestrade e Claire Degans.pdf
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