1 dois 3, era outra vez

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Apr 17, 2015, 3:08:00 PM4/17/15
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Histórias oferecidas à sexta-feira!

 

 

Tisha, a menina que não podia ir à escola


SEGUNDA PARTE

CAPÍTULO 4

 

Certa manhã, quando se dirigia para o mercado, esfomeada, Tisha teve uma ideia. No corredor do centro ela reparou numa vendedora que, muitas vezes, lhe sorria simpaticamente. E que, para além de vender legumes, também cozinhava alguns molhos picantes e almôndegas de tofu. Tisha olhava com avidez os clientes que lambiam os dedos quando já não tinham nada no prato. Se conseguisse regatear os legumes que comprava com o dinheiro da senhora, talvez pudesse comer alguma coisa com as moedas economizadas.

Aproximando-se da vendedora, reuniu alguma coragem e disse:

— Os tomates que tens à venda são lindos. Mas ali ao lado estão mais baratos. Faz-me um preço melhor e levo dois sacos.

A vendedora sorriu:

— Dois sacos? Isso não chega. Leva três sacos e ainda te ponho alguns de graça.

Tisha ficou desiludida. Claro que ela podia comer os tomates oferecidos, mas isso satisfazia menos do que um prato de tofu com molho. No entanto, era melhor do que nada.

Às tantas, a vendedora continuou:

— Tens um ar maroto. Faz-me um recado e eu dou-te uma refeição.

Tisha hesitou. Se ela chegasse tarde o que diria a senhora? Por outro lado, estava com tanta fome…

— Um vizinho vai deixar-me vários quilos de inhame no estacionamento aqui perto — explicou a vendedora. Traz-mos cá e, quando acabares, tens a tua refeição.

Tisha achou que era uma proposta honesta. Ela ia juntar-se a todas as crianças dali que, por algumas moedas, transportavam produtos à cabeça em enormes bacias. Respondeu pois:

— Está bem! Mas dá-me de comer primeiro.

A vendedora desatou a rir:

— Sim, decididamente, tu és bem espertalhona!

Serviu-lhe um prato repleto de comida apetitosa. Tisha devorou tudo e nem perdeu tempo a agradecer. No caminho de regresso, Tisha ia cantarolando. É verdade que trabalhou bastante, mas o gosto do molho na língua lembrava-lhe a comida de Mamala… E a vendedora ainda lhe deu algumas moedas.

Mal ela entrou em casa, a senhora pôs-se a gritar:

— Por onde é que andaste? Há mais de uma hora que estou à tua espera. E que nódoa de molho é essa?

Puxou a menina pelo braço e apertou-o até a magoar. Tisha deixou então escapar as suas moedas que rolaram pelo chão.

— Oh! Dinheiro! Onde é que tu o arranjaste, ladra?

Antes que Tisha pudesse explicar, a senhora sacudiu-a impiedosamente. E, quando se decidiu a larga-la, foi para apanhar as moedas que logo desapareceram no seu bolso.

Nessa noite, Tisha não conseguia dormir.

Calmamente, foi deslizando para a escuridão do jardim. Entre os ramos de uma laranjeira, brilhavam duas estrelas. A menina aproximou-se. Eram os olhos do gatinho. De repente, no casarão alguém gritou:

— Tisha! Tisha! Onde estás?

De um salto, o gato deu meia volta.

Sem pensar, Tisha foi atrás dele … e deu consigo na rua.

Não tinha nada, nem para onde ir. Mas paciência! Queria fugir! Não conhecia nada naquela cidade, a não ser o mercado. E foi para lá que se dirigiu. O lugar parecia deserto. No entanto, nas soleiras das portas ou encostadas a uma árvore, algumas pessoas dormiam. Tisha encontrou o lugar da “sua” vendedora. Aí, aconchegou- se numa caixa de cartão e, cansada, adormeceu.

No dia seguinte, ainda estava escuro quando sentiu uma mão que lhe tocou no ombro.

— O que estás aqui a fazer?

Tisha piscou os olhos ainda estremunhada e, de repente, toda a história da véspera lhe veio à ideia. À sua frente estava a vendedora que a olhava espantada. Foi então que Tisha viu as nódoas negras no sítio do braço onde a senhora apertou com mais força. E sentiu vergonha. Mas a vendedora sorriu-lhe e ofereceu-lhe um donut.

— Toma! É fresco…

Depois, como se soubesse o que se tinha passado:

— Ninguém tem o direito de te tratar assim. Tens razão em não aceitar isso. Ouve-me bem: vou falar de ti a uma das minhas clientes. Ela ajuda crianças na tua situação.

O coração de Tisha ficou apertado. E se a cliente era como Tata Zana?

— Não fiques preocupada, continuou a vendedora. O trabalho dela é fazer com que as crianças sejam entregues aos pais. Chama-se M’ma Yele. Enquanto ela não chega, ajudas-me a tratar da minha barraca.

M’ma Yele apareceu ao final da manhã. Trazia muitos e grandes cestos onde cabiam todos os legumes que sobravam na banca da vendedora.

— É que devoram tudo, estas crianças! explicava, rindo. A minha horta não chega para lhes encher a barriga.

A vendedora apresentou-lhe Tisha.

— Onde é a tua aldeia?— perguntou-lhe M’ma Yele.

— Perto do deserto — respondeu a menina.

M’ma Yele sorriu:

— O deserto é vastíssimo. Diz-me ao menos que direção devo seguir.

Tisha não fazia a mais pequena ideia. Antes de vir atrás de Tata Zana, ela nunca tinha saído da aldeia. Tal como Mamala e a maior parte dos aldeãos.

— Eu vou procurar — prometeu M’ma Yele. Vou tentar encontrar a tua aldeia e a tua família.

 

CAPÍTULO 5

M’ma Yele levou Tisha para uma cabana enorme e com muita claridade. Viviam lá muitas outras crianças. Quando a menina chegou, todos dançaram e cantaram.

— Bem-vinda, Tisha!

Num espaço ao lado, um grupo de cabras olhava com curiosidade para a nova menina.

Naquele lugar, comia-se conforme o apetite; a vida era calma e alegre. No entanto, Tisha não queria ali ficar sempre. O seu único desejo era encontrar Mamala, a mãe. Entretanto, não tinha escolha. Tinha de esperar e fazer como as outras crianças: ir à escola todos os dias, ajudar M’ma Yele na cozinha ou na horta, aprender a tratar das cabras.

Aos poucos, Tisha foi fazendo amigos. Aprendeu canções e ria sem parar como acontecia, por vezes, quando estava na sua aldeia. No entanto, e sempre que possível, Tisha procurava a mão de M’ma Yele e perguntava baixinho:

— Já encontraste a minha aldeia? Conseguiste ver a minha mãe?

E, de todas as vezes, M´ma Yele respondia:

— Tens de ter paciência, Tisha, tens de ter muita paciência…

Então, Tisha sentia que as lágrimas lhe saltavam aos olhos. Para não as mostrar, escapava-se para o recinto onde estavam as cabras. Gostava muito de ir para lá. E gostava principalmente de uma cabrinha negra que vinha frequentemente lamber-lhe as mãos. Era a sua favorita. Quando a cabrinha nasceu, a mãe não pode amamenta-la. E foi Tisha quem lhe deu o leitinho até a cabrinha poder pastar.

Uma manhã, M’ma Yele parou a sua carrinha perto do curral. Muito sorridente, ela apanhou um cabritinho e a cabra preta e meteu-os no veículo. Tisha ficou preocupada.

— Para onde levas a minha cabra?

— Para tua casa, respondeu M’ma Yele. Queres ir com ela?

Quando Mamala viu a camioneta aparecer ao fundo do trilho, começou a correr. Há já algumas semanas que, de cada vez que a poeira do caminho se levantava, o coração de Mamala ficava em sobressalto e ela corria. Mas voltava dececionada. Ainda não era Tisha. Mas Mamala não perdia a coragem.

Depois da fuga de Tisha, Tata Zana veio procurar Mamala. E disse-lhe:

— A tua filha é uma ingrata. Estava a viver como uma princesa na cidade…

Desde então, Mamala só esperava ver de novo Tisha. Tinha a certeza de que a sua filha devia ter tido uma boa razão para fugir. E achava que brevemente se encontrariam. E esse dia chegou, finalmente.

Logo que Tisha saltou da camioneta, ela e Mamala apertaram-se forte e demoradamente num abraço que M’ma Yele achou que não terminaria nunca… Só a cabrinha preta conseguiu separá-las. Foi dando pequenas marradas a Tisha como se estivesse a perguntar:

— Afinal, onde estamos?

Na pequena aldeia, perto do deserto imenso, a chuva continuou a não cair.

Mas nasceram cabritinhos depois do regresso de Tisha. As cabras alimentam-se com ervas secas que encontram pelo caminho. O leite das cabras vai matando a fome dos aldeãos. E Mamala cuida do rebanho, enquanto Tisha vai à escola.

Os cabritos vão crescendo e, com eles, cresce também a esperança.

 

 

 

 

 

Quitterie Simon

Pas d’école pour Tisha

Toulouse, Milan Jeunesse, 2010

(Tradução e adaptação)

 

 

 

No intuito de darmos continuidade ao anterior projecto, “Um dois três era uma vez”, embora em moldes que se pretendem mais abrangentes, reiniciamos o envio semanal de pequenas histórias para crianças e adolescentes, por vezes acompanhados de textos dirigidos a um público adulto, convidando à reflexão, e também ao sonho, que tão necessários se tornam numa sociedade em que o materialismo tem crescido desmedidamente, a ponto de abafar os valores mais genuínos do ser humano: o respeito pelos outros, a ternura, a delicadeza, a compaixão pelos que sofrem, a generosidade.

Esperamos que o projecto, que agora passa a chamar-se “Um dois três, era outra vez”, continue a encontrar leitores assíduos entre aqueles a quem se dirige, e possa proporcionar agradáveis momentos de partilha entre pais e filhos.

 

 

 

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E…diga-nos o que pensa das histórias que lhe forem chegando!

 

Responda-nos para: 1...@isep.ipp.pt

 

Ideia: Teresa Tudela e Betina Campos Neves

 

 

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Tisha, a menina que não podia ir à escola - A4 - Quitterie Simon - Parte 2.pdf

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Apr 24, 2015, 3:15:59 PM4/24/15
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Histórias oferecidas à sexta-feira!

 

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Pobre Menina Rica

Conto Popular

Susana era filha de comerciantes, e tão bonita quanto rica. Os criados que tomavam conta dela desde bebé sempre lhe tinham dito que era adorável. Mas, embora fosse bela, tinha-se tornado egoísta e irritável porque só fazia a sua vontade.

Quando cresceu começou a perceber que afinal não era tão estimada como pensava. Um dia, as outras raparigas foram dançar umas com as outras e puseram-‑na de parte.

— O que é que se passa com elas? — queixou-se na manhã seguinte à sua velha ama. — Gostaria de, com um simples estalar de dedos, fazê-las gostar de mim.

— Olha, se é isso que queres, o melhor que tens a fazer é ires visitar a feiticeira que vive na montanha — aconselhou a sua velha ama.

— Vou mandar um rapaz do estábulo ir lá com uma mensagem — respondeu Susana. — Tenho a certeza de que por um saco de moedas ela me dirá o que é preciso fazer para conseguir o que quero.

O mensageiro lá foi, mas ao pôr-do-sol já estava de volta com o saco das moedas.

— A feiticeira disse que tem de ser a própria menina a ir ter com ela, se quiser saber a forma de obrigar as outras raparigas a dançarem consigo — explicou o rapaz. — E ela disse ainda que a menina tem de ir a pé.

Susana franziu as sobrancelhas, fez beicinho, e durante uma semana recusou-se a ir visitar a feiticeira. Depois, começou a compreender que tinha de fazer alguma coisa para alterar a situação.

— Estou a ver que não tenho outro remédio senão ir lá eu própria — concluiu mal-humorada, e mandou as criadas prepararem-lhe tudo de que precisava para o caminho: um elegante par de botas do melhor cabedal, uma capa de lã bem quente e um saco de comida.

Partiu de manhãzinha, atravessou as ruas da cidade e tomou o caminho que conduzia ao monte.

À medida que ia subindo, começou a sentir que as suas elegantes botas lhe apertavam os dedos dos pés.

— Devem estar pequenas — queixou-se, pouco antes de chegar ao pé de uma casa onde viu uma velhinha sentada num banco junto à porta.

— Ai, doem-me tanto os pés! — exclamou Susana. E sentou-se ao lado dela. — E ainda tenho de fazer todo o caminho que falta para chegar à casa da feiticeira que vive na montanha.

A velhinha olhou para Susana e para as botas que ela trazia calçadas.

— Tenho apenas estes sapatos muito usados — disse a mulher —, mas com os anos alargaram tanto que me estão grandes de mais. São capazes de te darem mais jeito do que as botas que trazes calçadas.

— Não me fazia mal nenhum experimentá-los — decidiu Susana. Para sua grande surpresa, os sapatos serviam-lhe muito bem. Por isso, deu as suas botas à mulher e prosseguiu o caminho.

Conforme ia subindo a montanha, o ar tornava-se cada vez mais frio e a sua capa esvoaçava ao vento. Foi então que o céu se encheu de nuvens cinzentas e a chuva começou a cair em gotas grandes e pesadas.

Susana desatou a correr. Ao longe, por entre as árvores, avistou a barraca de um lenhador.

— Graças a Deus que encontrei um sítio para me abrigar — gritou ela de alegria a correr para debaixo do telheiro onde o lenhador se encontrava. — Com esta capa de lã que deixa passar a água ia ficar completamente encharcada.

O homem olhou para ela.

— Estarias mais protegida com a coberta de lona que tenho na cama. Mas a minha mulher está doente e ficava sem nada para se aquecer se eu ta desse.

— E se a trocasses pela minha capa? — sugeriu Susana esperançada.

— Se assim o quiseres — concordou o homem.

 

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O lenhador voltou com um pedaço esfarrapado de lona para ela cobrir as costas, e pegou na capa, agradecendo o calor que dava. Susana continuou penosamente o seu caminho, hora após hora, mordiscando alguma comida que trazia no saco enquanto caminhava.

Quando atingiu a parte mais elevada da encosta, deparou com a casa de um pastor onde se ouvia o choro de uma mulher. Esta explicou-lhe que o filho estava doente e não tinha nada para lhe dar de comer até o marido voltar da cidade.

— O que só acontecerá depois de amanhã — soluçava — e a criança está tão fraca.

Susana abriu o saco que trazia.

— Olha, o pão que tenho aqui é fresco, macio e doce — disse ela — e ainda sobrou um pouco de manteiga. Por favor, fica com o saco e trata do teu filho.

A mulher desfez-se em agradecimentos e desejou a Susana felicidades para a viajem.

Pouco faltava para o cair da noite quando Susana chegou ao cimo da montanha onde morava a feiticeira. Já muito cansada, foi bater à porta da pequena cabana, mas ninguém lhe respondeu. Esperou e tornou a esperar mas ninguém apareceu.

— Vim eu de tão longe para nada! — chorava. Foi então que resolveu empurrar a porta da cabana. Como não estava trancada, decidiu entrar para se abrigar durante a noite. Para sua surpresa descobriu que a cama estava coberta com urze acabada de cortar em cima da qual se encontrava uma mensagem:

 

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«Rezei por ti. Vais ver que a tua viagem te trará a mudança que desejas.»

Demasiado cansada para se preocupar com o que quer que fosse, Susana deitou-se na cama e passou lá a noite. Na manhã seguinte, ao romper do Sol, iniciou a viagem de regresso a casa.

Quando chegou à cabana do pastor encontrou a mãe e o filho à porta, rindo-se um com o outro.

— Ele está muitíssimo melhor — disse a mãe da criança. Susana apercebeu-se de que ainda não tinha sentido fome desde que partilhara a sua comida.

 

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Quando chegou à barraca do lenhador, viu-o de pé, ao lado da mulher, na clareira do bosque,

— Estava tão quentinha que dormi muito bem, e agora já me sinto com forças para me levantar depois dos dias que passei na cama — disse a mulher.

Susana apercebeu-se de que deixara de ter frio desde que tinha aquela lona para se proteger da chuva.

Quando chegou à casa da velhinha, encontrou-a a passar a ferro.

— Estou a preparar a minha melhor roupa para levar amanhã ao casamento da minha sobrinha — explicou.

— Gostava de poder ficar com as tuas maravilhosas botas um pouco mais de tempo, pois são muito mais bonitas que os meus sapatos, e ficam-me muito bem.

— Podes ficar com elas — respondeu Susana. — Os teus sapatos deram-me muito jeito durante a viagem.

— Eram uns sapatos muito bons — disse a mulher.

— Usei-os para trabalhar, andar... e sobretudo para dançar. Embora estejam muito velhos vais descobrir que danças muito bem com eles.

A cara de Susana iluminou-se.

— Vou experimentar! — disse ela, e foi a dançar o resto do caminho até à cidade sentindo-se uma nova pessoa.

Um grupo de raparigas que ela conhecia, ao vê-la sorrir, bater palmas, saltar e rodopiar, chamou-a:

— Muito bem, muito bem! Vem dançar connosco.

E ela assim fez.

 

 

Lois Rock (org.)

Contos e Lendas da tradição cristã

Lisboa, Editorial Verbo, 2006

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