José Januário do Amaral, reitor da Unir
(Foto:
Divulgação/Unir)
O reitor da Universidade Federal de Rondônia (Unir) José Januário de Oliveira
Amaral entregou nesta quarta-feira (23) o pedido de renúncia ao ministro da
Educação Fernando Haddad em audiência no MEC, em Brasília. A administração de
Amaral é alvo de investigação de uma comissão do ministério após denúncias de
irregularidades na gestão. Segundo o MEC, "o pedido será encaminhado ao Palácio
do Planalto, uma vez que o cargo é de provimento da Presidência da República". A
exoneração deve ser publicada nos próximos dias no Diário Oficial da União.
Em nota, o MEC diz que "Januário Amaral tomou a decisão de renunciar ao
constatar a falta de condições para conduzir a universidade, em razão da série
de denúncias de malversação e desvio de recursos que envolvem a Fundação Rio
Madeira (Riomar), que serve de apoio à Unir. Em 24 de outubro último, a
Secretaria de Educação Superior (Sesu) do Ministério da Educação constituiu
comissão de auditores, integrada por representantes do próprio MEC e da
Controladoria-Geral da União (CGU), para fazer levantamento da situação e
auditar as contas, tanto da Riomar quanto da Unir".
Ainda de acordo com o ministério, o ministro Fernando Haddad indicou uma
outra comissão para avaliar as condições de funcionamento da universidade.
Segundo denúncias de estudantes e professores, tais condições eram as piores
possíveis. Haddad determinou ainda à Sesu o acompanhamento do processo de
substituição de Januário Amaral. Na próxima semana, o reitor formalizará a
renúncia ao Conselho Universitário da Unir.
Acomissão de auditores do MEC e da CGU deve entregar o relatório da situação
da universidade nos próximos dias. O prazo oficial expiraria nesta quinta-feira
(24), mas a comissão pediu mais dez dias para a conclusão.
Irregularidades
Nesta quarta-feira se completa 50 dias da
ocupação da reitoria da Unir. Professores e estudantes do campus da universidade
na capital rondoniense, onde são ministrados 28 dos 54 cursos da instituição,
estão em greve há mais de dois meses.
Entre as denúncias feitas por estudantes e professores em um dossiê enviado a
Brasília estão fraude em concurso e mau uso de verba pública. Caso a comissão
encontre indícios de improbidade administrativa, segundo o MEC, os servidores
públicos envolvidos responderão a processos administrativos.
A pauta de reivindicações contém 26 pontos, a maioria referente à contratação
de funcionários técnicos e à reforma dos prédios no campus. Reportagem do
"Fantástico" exibida no domingo (20) (veja no vídeo ao lado), mostrou
que o Ministério Público investiga o desvio de verbas de dezenas de projetos da
universidade. Para o ministério público de Rondônia, a Fundação Rio Madeira, a
Riomar, criada para apoiar os projetos da universidade, virou uma organização
criminosa que saqueou o dinheiro da instituição.
O promotor Pedro Abi-Eçab disse ao 'Fantástico': “A Universidade Federal de
Rondônia é
um ótimo exemplo de que as fundações só servem para desviar dinheiro, porque a
universidade está caindo aos pedaços, está ao abandono”.
A reportagem
mostrou ainda que o MP abriu outras 16 investigações, inclusive a que acompanha
a implantação do hospital universitário, pronto desde 2008, mas fechado até
hoje. Além do prédio, a universidade recebeu R$ 4,2 milhões para fazê-lo
funcionar. O laboratório de anatomia está sem manutenção. Os tanques de formol
estão com vazamento e os frascos têm validade vencida. O depósito de produtos
químicos enfrenta goteiras que ameaçam o material inflamável. Em Guajará Mirim,
a 300 quilômetros de Porto Velho, um hotel-escola construído há quase dez anos
jamais funcionou.
Reitor negou acusações
Em
entrevista ao
G1, na última sexta-feira (17) o reitor da
universidade havia negado o envolvimento com as acusações apuradas pela comissão
de sindicância e afirmou que o movimento grevista é liderado por “um grupo
pequeno e muito radical” ligado a partidos que “pregam a luta armada”. Para o
Amaral, “eles não aceitam dialogar com qualquer instituição”.
Um laudo do Corpo de Bombeiros concluído em 21 de outubro e solicitado pelo
comando de greve detectou 25 irregularidades nos prédios da instituição.
Trecho do laudo realizado pelo Corpo de Bombeiros no campus
da Unir (Foto: Reprodução)
No documento, os peritos afirmam que, “paralelamente ao crescimento da
Instituição, não vem acontecendo a execução dos serviços de manutenção das
construções existentes, acarretando sua gradativa deterioração”. O resultado,
segundo o laudo, inclui prejuízo às atividades de ensino “riscos à segurança de
alunos, professores e funcionários”.
Nós passamos muitos anos sem investimento nenhum na
universidade, quando um funcionário se aposentava a gente perdia a vaga."
José Januário de Oliveira Amaral, reitor da Unir
Um dos principais riscos, segundo o Corpo de Bombeiros, é a quase
inexistência de sistemas de combate a incêndio e pânico: falta água na tubulação
e mangueiras dos sistemas de hidrantes, os extintores instalados estão com a
data de validade vencida, as saídas de emergência estão trancadas ou obstruídas,
os sistemas de sinalização, quando existem, estão em locais impróprios ou fora
da padronização, e não há sistema de alarme ou de iluminação de emergência, diz
o laudo.
Sobre o laudo, o reitor afirmou que foi informado de sua existência pela
imprensa e que repassou o documento ao setor de engenharia para incluir, nas
licitações já em andamento, as reformas solicitadas. Ainda de acordo com Amaral,
os extintores já estão sendo substituídos.
Professor do departamento de
Informática da universidade, Carlos Luis Ferreira da Silva afirmou que o
movimento grevista desistiu de dialogar diretamente com a reitoria porque se
sentiu provocado por declarações do reitor.
Segundo ele, após uma greve
realizada em 2008, Amaral assinou um termo de ajuste de conduta que, de acordo
com os manifestantes, não foi cumprido. “Em 2011, fizemos nova greve na cobrança
de resolver o termo, e ele simplesmente disse que 90% dele estava resolvido. Com
essa provocação rompeu-se negociação”, disse. Ainda de acordo com Silva, o
reitor remarcou assembleias com a comunidade universitária diversas vezes e se
recusou a receber mais que três pessoas para negociar.

Imagens de problemas de infraestrutura no laudo do Corpo de
Bombeiros de Rondônia (Foto: Reprodução)
Ocupação da reitoria da Unir já dura mais de 50
dias
(Foto: Reprodução/TV Rondônia)
Comissão de apoio
Para tentar mediar a situação em
Rondônia, o MEC criou uma comissão de apoio à Unir, que se reúne periodicamente
com representantes da reitoria e de estudantes e professores para acelerar a
resolução dos problemas no campus que, segundo o reitor, são
“históricos”.
Amaral afirma que há um déficit de 490 técnicos no quadro
de funcionários e que essa situação só pode ser resolvida com a aprovação de um
projeto de lei que tramita no Congresso Nacional, já que ele não pode abrir
vagas no funcionalismo público. Ainda de acordo com ele, a relação de um
professor para cada 40 alunos na Unir é mais que o dobro da razão 1 para 18
recomendada.
O professor Carlos Ferreira da Silva afirma ainda que um
levantamento da comissão apontou a Unir como a pior entre todas as 59
universidades federais brasileiras na relação de computadores por aluno. Uma das
decisões do MEC, segundo ele, foi aprovar recursos para a construção de um
laboratório de informática em cada campus da universidade. Em Porto Velho,
poderão ser instalados até quatro laboratórios. Entre os outros avanços estão a
destinação de R$ 4,5 milhões para a construção de um restaurante universitário
no campus da capital, com licitação publicada até o fim deste ano, e o
lançamento de um edital para a contratação de 27 técnicos com nível superior e
13 técnicos de nível médio.
| VEJA A CRONOLOGIA DA GREVE NA UNIR |
| 14/09 |
Professores e estudantes entram em greve no campus de Porto Velho |
| 05/10 |
Cerca de 300 estudantes ocupam a reitoria da Unir; Reitor pede a
reintegração de posse e a Justiça acatar o pedido |
| 11/10 |
Comissão do comando de greve se reúne em Brasília com o secretário de
Educação Superior do MEC, Luiz Cláudio Costa |
| 17/10 |
Representantes do MEC vão a Porto Velho para reunião da comissão de apoio à
Unir |
| 21/10 |
Um professor do comando de greve é detido por dois policiais federais
armados e à paisana; segundo a Polícia Federal, ele foi detido, entre outros
delitos, por desacato à autoridade |
| 24/10 |
MEC publica portaria no Diário Oficial da União instaurando comissão de
sindicância para apurar denúncias de irregularidades |
| 04/11 |
Dois estudantes da Unir são detidos ao retirar 15 mil panfletos com críticas
ao reitor de uma gráfica em Porto Velho; após prestar depoimento, eles foram
liberados e responderão por injúria |
| 16/11 |
Bilhetes contendo ameaças a uma lista de 25 professores e 13 alunos são
distribuídos no campus de Porto Velho; Uma estudante de psicologia afirma ter
recebido uma ameaça de morte de dois homens encapuzados em um carro na porta de
sua casa |
| 17/11 |
Representates do MEC e da CGU da comissão de sindicância do governo federal
chegam a Rondônia para averiguar denúncias de irregularidades na gestão da
Unir |
Ocupação da reitoria
No dia 5 de outubro, vinte dias após
o início da greve, um grupo de cerca de 300 estudantes ocupou o prédio da
reitoria, em Porto Velho, como forma de protesto contra a gestão do reitor José
Januário de Oliveira Amaral, no cargo desde 2007. Ele foi reeleito em 2010 para
um mandato que deve durar até fevereiro de 2015.
No mesmo dia, a Justiça
acatou o pedido de reintegração de posse feito pela reitoria. Passados mais de
45 dias, porém, o prédio segue ocupado pelos alunos, em esquema de revezamento.
Segundo a reitoria, a Polícia Federal não dispõe de efetivo policial suficiente
para realizar a desocupação.
A assessoria de imprensa da PF afirmou que o
mandado judicial “ainda não foi cumprido em virtude de outras operações e outros
compromissos, mas está na pauta”.
Ainda de acordo com a assessoria, “enquanto não for revogado o mandado de
reintegração, ele será cumprido”.
A falta de efetivo fez com que
grevistas e apoiadores do reitor entrassem em um pé de guerra que já rendeu um
professor e dois estudantes detidos, além de denúncias de ameaças feitas a pelo
menos 25 professores e 13 estudantes.
Uma das ameaças foi feitas contra
uma estudante de psicologia na Unir que participava ativamente do comando de
greve até a prisão de um dos professores por dois policiais federais à
paisana.
Ela prestou depoimento na Polícia Federal, na Polícia Civil e no Ministério
Público Federal para denunciar que vem sendo seguida por dois carros e que foi
ameaçada em casa na tarde de quarta-feira (16). "Minha mãe está apavorada com
tudo isso", diz a jovem.
De acordo com seu depoimento à PF, por volta das
16h de quarta-feira, ela ouviu uma buzina fora de casa e, ao sair à rua, viu
dois homens encapuzados dentro de um carro que lhe disseram “você vai morrer”. O
nome da estudante é um dos 38 listados em um bilhete distribuído pelo campus de
Porto Velho. Segundo ela, estudantes e professores citados na ameaça fizeram um
boletim em conjunto na polícia.