Firmitas, Utilitas, Venustas

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Sep 8, 2008, 3:01:14 PM9/8/08
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Firmitas, Utilitas, Venustas:

novos olhares sobre uma velha definição de arquitetura


Mário Henrique Simão D'Agostino Doutor em História da Arquitetura. Professor Livre-Docente do Departamento de História da Arquitetura e Estética do Projeto, e do Programa de Pós-Graduação da FAUUSP.

Avolumam-se críticas à arquitetura contemporânea e sua predileção pela "topologia", por modelagens, complexos jogos compositivos, maleabilidade e diversidade de materiais, de texturas... cujo furor tecnológico, reluzente na epiderme de soberbas torres, finda por elidir todo sentido espacial da forma. Como ironizou Joseph Rykwert, em visita ao Brasil no ano de 2004, hoje em dia boa parte dos edifícios não passa de vistosos invólucros para produtos sem qualidade. Esse mal-estar, comum a tantos historiadores e arquitetos, torna particularmente sedutor um olhar retrospectivo para aquela "tríade vitruviana", aquela definição clássica da boa arquitetura, que tem encantado, fascinado gerações por séculos e séculos. A definição comparece no tratado De Architectura, escrito por Vitrúvio no século I a.C., sob o patrocínio do imperador Augusto, a quem o autor dedica sua obra. No capítulo terceiro do Livro Primeiro, Vitrúvio adverte quais preocupações o arquiteto deva ter ao edificar: o arquiteto, diz, almeja em seus edifícios firmeza, utilidade e beleza – os vocábulos latinos são: firmitas, utilitas, venustas.

Quero deter-me um pouco na história dessa tríade. Vitrúvio foi traduzido para o português em 1999, é nossa primeira tradução direta do latim – corrijo, Pedro Nunes já havia traduzido o De Architectura em 1541. Essa tradução foi feita em Portugal e o tradutor foi um dos maiores matemáticos do Renascimento. O manuscrito foi levado para a Espanha provavelmente por Juan de Herrera, excelso arquiteto de Felipe II, quando da "transferência" da academia de arquitetura, a Aula do Paço da Ribeira, para Madri, em 1582. Hoje essa obra encontra-se perdida. A tradução brasileira coube a Marco A. Lagonegro (Ed. Hucitec). Curiosamente, nas duas últimas décadas do século XX foram editadas uma série de traduções do De Architectura: começo pela maior, a organizada por Pierre Gros na França, que reúne um grupo respeitável de estudiosos. Em 1993, a editora italiana Einaudi lançou a versão de Elisa Romano e Antonio Corso, também curada por Gros. Temos duas traduções espanholas na década de noventa, além da edição fac-simile da de Lázaro de Velasco concluída em 1582. Em 2002 foi re-editado o trabalho clássico de Silvio Ferri. Por fim, uma nova edição em língua portuguesa veio à luz no ano passado, com tradução aos cuidados do ilustre professor Justino Maciel, da Universidade Nova de Lisboa, Portugal, agora também disponibilizada ao leitor brasileiro pela editora Martins Fontes.

Sem me estender, quero apenas sinalizar que não vejo esse boom editorial de Vitrúvio, essa avalanche de publicações só como interesse de especialistas. Tendo em vista o horizonte nebuloso da arquitetura e do urbanismo em nossos dias, talvez compareça aí um desejo de retorno às origens, de regresso aos princípios, às fontes primeiras, na ânsia de deslindar elementos que lancem luz e perspectiva sobre o presente. Uma das grandes contribuições dessas traduções comentadas a que eu me referi, sobretudo a francesa e a italiana, foi permitir redimensionar melhor as críticas que desde Leon Battista Alberti são investidas contra Vitrúvio.

São conhecidas as reprovações de Alberti a Vitrúvio feitas no livro VI do De Re Aedificatoria (1452). Alberti ironiza: ao lerem o tratado antigo, os latinos dirão que Vitrúvio quis parecer grego, e os gregos, que ele quis parecer latino – assim criticando a elocução do Romano, sua redação sem acuro e o total desconhecimento dos princípios e termos gregos, ou dos equivalentes latinos, que propõe. De onde a velha fórmula da "obscuridade do arquiteto". Sobretudo os estudos de Pierre Gros e os comentários ao tratado feitos por Elisa Romano e Antonio Corso têm permitido comedir o peso dessas invectivas.

No século XVII, Claude Perrault dirá que Vitrúvio confunde as noções de simetria, proporção e eurritmia, tomando por distintas coisas que, a bem ver, são equivalentes. Ainda na tradução brasileira o termo simetria (symmetria) vem substituído por proporção. Tal supressão foi proposta pelo próprio Perrault em sua magnífica tradução francesa do tratado. Creio que, depois dos estudos de Pierre Gros, Callebat, Geertman, Romano, etc., dificilmente podemos aceitar essas simplificações, ainda que recorrentes. Proportio remete à subdivisão com base em uma porção ou módulo, tendo sempre em vista dois termos; symmetria remete ao sistema racional de relações modulares pelo qual eu compreendo o vínculo de todas as partes entre si com o todo. Vitrúvio é bastante preciso quando se refere à proporção entre duas partes ou ao conjunto das relações modulares que abrangem a obra como um todo.

Vou considerar a tríade firmeza, utilidade e beleza a partir de uma comparação entre retórica e arquitetura, entre as pedras da palavra e as da arquitetura. Essa questão tinha sido assinalada já havia um bom tempo por Silvio Ferri e Salvatore Settis, e foi retomada por Louis Callebat num colóquio chamado "O Projeto de Vitrúvio", realizado em 1993. Callebat recolocou a questão desses empréstimos entre arquitetura e retórica, assinalando procedências da terminologia empregada no De Architectura, sobretudo com relação às seis partes constitutivas da arquitetura, quais sejam ordenação, disposição, eurritmia, simetria, decoro e distribuição, sucintamente detalhadas no Livro Primeiro.

Essa exposição sempre suscitou muita polêmica, em parte porque Vitrúvio ambiciona, com ela, definir nada menos que a excelência da arquitetura. No capítulo II desse livro primeiro, o autor, reportando-se a noções gregas, circunscreve o domínio peculiar de cada uma das seis partes. Não vou desdobrar-me em todas as polêmicas. Lembro, com muita brevidade, que ele remete a ordenação à quantidade – posótes – e a disposição à qualidade – poiótes. Isso corroborou a interpretação de que a ordenação era equivalente à simetria e que o arquiteto desconhecia os termos gregos, confundindo-os, repetindo-os. Ou seja, ordenação e simetria corresponderiam a definições quantitativas de relações modulares, proporcionais. Disposição seria a apreensão dessas proporções tal como estão dadas aos olhos, demandando, portanto, correções, retificações desse domínio da quantidade para assegurar a harmonia e a beleza no domínio visual, qualitativo. Mas esta era a definição dada à eurritmia.

Ora, Louis Callebat, em seu estudo sobre os empréstimos vitruvianos da Retórica, demarcou as diferenças de significado, o sentido de uma e outra palavra [ordenação e disposição] no De Oratore de Cícero, inquirindo sobre uma similar distinção na página do De Architectura. Para o orador, uma vez encontrados os argumentos adequados a determinado discurso (ordinatio), seria necessário reparti-los segundo os seus graus de importância, dispô-los pertinentemente (dispositio). Na construção de um discurso, portanto, seria preciso selecionar argumentos consagrados, máximas, lugares-comuns, e, tendo em vista a finalidade do discurso e o público receptor, dispô-los de modo a enfatizar uns, diminuir outros, usando de amplificações, mensurando grandeza. Além da ordem dos argumentos, seria preciso, portanto, a estruturação, a disposição peculiar, segundo a finalidade do discurso.

Embora Callebat tenha equacionado a origem e pertinência da terminologia empregada por Vitrúvio, pouco aprofundou seus vínculos com a arquitetura. No mesmo colóquio, foi Herman Geertman quem trouxe elementos novos e bastante esclarecedores sobre a diferença entre ordenação e disposição. Vou fazer um breve volteio; logo chego à questão da firmitas, utilitas e venustas. Geertman observa o seguinte: quando Vitrúvio se refere à ordenação, trata das doctrinæ, de soluções consagradas, daquilo que o senso comum estabeleceu como as mais convenientes; soluções consolidadas e validadas pelos sumos autores, pelas autoridades (por exemplo, as formas típicas de templos: frontispício com quatro ou seis colunas, duas fileiras de colunas abraçando a cela, etc.). Quando o arquiteto fala da disposição, observa ainda Geertman, refere-se à adequação das soluções canônicas, ao trabalho efetivo de projeto.

É aqui que se dá a passagem de um esquema modular abstrato para o dimensionamento real da obra. No livro III, Vitrúvio recomenda ao arquiteto, incumbido de construir um templo, principiar pela medida da frontada do terreno; a partir dela, seguindo relações modulares de proporção, poderá definir a profundidade, a altura, realizando os ajustes necessários de um esquema tipológico abstrato. No livro VI, ao falar dos edifícios privados, adverte que a melhor medida para definir as dimensões reais do edifício é o comprimento. A disposição, em síntese, consiste na passagem dos lugares-comuns, das soluções canônicas, abstratas, para as conveniências do projeto, suas exigências específicas. A dispositio implica numa série de ajustes com respeito ao lugar, à natureza, ao clima, ao destinatário. Embora Geertman não leve adiante a hipótese de um diálogo entre retórica e arquitetura, seu estudo traz novos insumos à hipótese de Callebat, de quem criticava a generalidade dos vínculos propostos.

Em 1982, num texto muito lido e citado sobre as ordens, tratando de se foram inventadas ou descobertas no Renascimento, o historiador Christof Thoenes chama igualmente a atenção para o paralelo entre os gêneros de elocução retóricos e as ordens arquitetônicas – vou usar esta expressão recorrente, porém imprópria; Vitrúvio fala sempre de gêneros e modos de colunas – o paralelo, digo, entre as ordens dórica, jônica e coríntia e os gêneros de elocução severo, médio e elevado. Cito um trecho do De Architectura em que Vitrúvio fala do emprego das ordens nos templos; nele, os empréstimos da retórica ficam evidentes. A passagem refere-se à definição vitruviana do decoro (decor): "a Juno, Diana, Baco e outras divindades similares, tenha-se sempre em conta a sua posição de meio, construindo-lhes templos jônicos, pois o princípio peculiar desses edifícios colocar-se-á em equilíbrio seja com a severidade do dórico, seja com a delicadeza do coríntio."

A definição triádica baixo, médio e alto – ou sóbrio, intermediário e elevado – encontra, pois, seu paralelo na arquitetura. Por outra parte, isso sugere nova comparação, igualmente relevante. Assim como a ordenação e a disposição não coincidem com a simetria e a eurritmia, respectivamente, quando Vitrúvio colhe da retórica a noção de decoro talvez também demarque as suas diferenças com o "momento" da ordenação/disposição. Para ter eficácia no discurso, adverte Cícero, é preciso saber o que dizer e em que ordem, por uma parte (isto é, pela parte da inventio), e como dizer, por outra (pela parte da elocutio). No De Architectura identificamos duas lógicas similares, parelhas às da argumentação e da exposição peculiares à retórica. A noção de decoro se refere, sobretudo, à exposição. Curiosamente, Cícero, quando afirma ser preciso saber não só o que dizer, mas como dizer, emprega uma imagem colhida da arquitetura. Através dela, chego à tríade de firmeza, utilidade e beleza.

No De Oratore lemos: "no discurso, como na maior parte das coisas, a natureza mesma, com incrível habilidade, faz com que as obras, em maior medida úteis, sejam ao mesmo tempo as mais dignas e, freqüentemente, as mais belas." E, logo adiante, o autor conclui: "as colunas sustentam os lintéis dos templos e dos pórticos, mas sua utilidade é igual à sua dignidade. Não foi, certamente, a busca da beleza, mas a necessidade que fez o célebre frontão de nosso Capitólio e de outros edifícios religiosos. De fato, uma vez cogitado o modo que permite escoar as águas de um e outro lado do teto, a dignidade veio se unir à utilidade do frontão."

De que fala Cícero quando enfatiza a diferença entre a lógica da argumentação e a lógica da exposição? Para saber como dizer, pondera, convém seguir o bom exemplo dos arquitetos. O que nos ensinam os arquitetos? Que a beleza nasce da necessidade. Trata-se de um antigo mito grego, então atualizado pelos romanos. A beleza nasce da necessidade. Nos comentários aos livros III e IV do De Architectura, Pierre Gros enfatiza o quanto essa visão ciceroniana será cara a Vitrúvio.

Vejam que aqui a nudez, a ausência de ornamento, a presença apenas dos elementos construtivos, como nas edificações dóricas, é considerada sempre no domínio da visibilidade. Pode-se apreender visualmente a necessidade, a utilidade de cada um dos elementos. É isso que Cícero nos fala. Repudiando arquitetos que transgridem normas, que confundem elementos próprios dos entablamentos dóricos e jônicos, como as combinações de mútulos e dentículos, Vitrúvio adverte: prestem atenção nos templos antigos, porque eles são a transposição em mármore das construções originais em madeira; vendo-os, é possível apreender os lógoi da construção lígnea, a pertinência, a coerência, a utilidade de cada elemento!

Mas a esbeltez das colunas de um templo dedicado a Vênus, por exemplo, não poderá jamais ficar "desnuda", por assim dizer. Essas colunas precisam de ornamento, como de vestes o corpo feminil; precisam de ornamento não como algo que esconda a sua esbeltez, e sim como algo que a realize, que realize a própria finalidade (utilitas). A coluna mais feminina, a mais graciosa, a mais esbelta, precisa de ornamento para mostrar a sua razão de ser. Ornamento aqui não se caracteriza como um adereço, um acréscimo que camufla a estrutura, antes, permite vê-la, consuma a sua finalidade, seu uso.

Seria interessante ler como Vitrúvio define as colunas no livro IV do De Architectura. Ele fala o seguinte: "as colunas devem ser aptas a portar o peso e devem ter na aparência uma reconhecida beleza. Os antigos as fizeram, uma de aparência nua, sem ornamentos, viril. Outra, seja por ornamento, seja por relações modulares, caracterizada pela sutileza mulheril." Eu aproximo essa passagem de Vitrúvio a outra, extraída da Institutio Oratoria de Quintiliano, na qual o orador adverte que "[em certos casos] os argumentos possuirão mais força e mais graça e decoro se não mostrarmos os seus membros nus e, por assim dizer, despidos da carne." Os ornamentos são como os músculos da ossatura.

Quando, em remissão a Vitrúvio, falamos que a arquitetura tem de ser sólida, útil e bela, pensamos, quase sempre, na compatibilidade de expedientes, de domínios que possuem demandas próprias. Mas, na economia do De Architectura, é a utilitas que se consuma plenamente na venustas, na beleza. A utilidade alcança plena realização na e com a beleza.

Essa é uma visão muito bonita de utilidade e muito distante da nossa. É bem verdade que, sobretudo depois de Michelângelo, de suas colunas que descansam em mísulas, de seus fustes invertidos, suas escadarias que se derramam feito lava sobre os transeuntes, constrangendo-os a subi-las como que na contramão; depois do derrogo neoclássico, em suma, nós desconfiamos da conexão entre firmeza, utilidade e beleza. Há tempos aprendemos a desacreditar em sua ordem de necessidade. E, sem dúvida, muito poderíamos dizer das limitações que essa ordem impõe à arte. Mas eu quero realçar outro aspecto.

Nos dias de hoje, em que a arquitetura se converte cada vez mais num invólucro estranho ao próprio corpo, em que o mercado usa e abusa de artifícios "retóricos", em que a arquitetura, sob variadas formas, "voltou a falar", mas a falar "qualquer coisa", no momento em que o pragmatismo utilitarista cedeu lugar a frenéticas cenografias urbanas, talvez seja singularmente profícua a leitura do De Architectura.

Ouvir Vitrúvio... Céticos quanto aos liames que outrora alentaram a confecção de seu tratado, o De Architectura nos convida sempre a pensar em formas possíveis de diálogo, formas possíveis de convivência amistosa, de consórcios entre a firmeza, a utilidade e a beleza. É basicamente isso o que quero lembrar.


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