|
No
último dia 25/11/10, a Polícia Federal desencadeou a “Operação
Podium”, onde cumpriu mandados de busca e apreensão, além de prisão
no Ceará, São Paulo e Rio de Janeiro. A ação se deu em virtude de
investigações realizadas entre 2005 e 2008 sobre lavagem de
dinheiro, fraude, evasão de divisas, crime contra o sistema
financeiro, corrupção ativa, passiva e sonegação fiscal. Segundo as
investigações da PF o esquema funcionava na Federação Cearense de
Automobilismo e movimentou cerca de R$ 50 milhões, dos quais R$ 15
teriam sido enviados ilegalmente para o exterior. Nove pessoas foram
presas, diversos computadores apreendidos.
A notícia foi destaque,
claro, na imprensa cearense nas edições do dia 26/11/10.
Nos dias seguintes nenhuma linha mais sobre o caso, em
todos os jornais.
As matérias
veiculadas pelos telejornais locais também traziam as mesmas,
digamos, informações: a prisão de envolvidos, apreensão de
computadores, como o esquema agia, etc., mas em nenhum dos
casos – na Imprensa escrita e imprensa televisiva - nada foi
dito sobre os presos, empresas envolvidas, etc. Mais um triste
episódio da maneira omissa, hipócrita, covarde, desidiosa,
irresponsável, descompromissada e não profissional como a
imprensa cearense se porta.
Na coletiva
convocada pela PF não foi citado pela
Instituição nenhum nome de preso ou de empresa, e a mídia,
convenientemente, resolveu apegar-se apenas às informações oficiais
para pautar seu trabalho.
Não é a mesma
forma, entretanto, que agem quando envolvem bandidos “pés de
chinelo”, sendo amplamente divulgados nomes e imagens.
Foi necessário que a imprensa de fora do
Estado fizesse o trabalho que deveria ser feito,
primordialmente ou também, pela imprensa cearense. E ficaram
evidentes os motivos pelos quais ocorreu essa “omissão”:
dentre
os envlvidos estão
cinco políticos cearenses e as
empresas Newland e a Marquise.
A Newland, cujo
proprietário é Luiz Teixeira de
Carvalho, é uma concessionária Toyota, sediada em Fortaleza
com duas lojas, com filiais em Juazeiro do Norte, Teresina e
Brasília. A empresa é a
mesma que foi, digamos, “aquinhoada” com o fornecimento das
Hilux para as patamos do Ronda do Quarteirão, sem licitação, pelo
Governo do Estado. Foi agraciada com isso com mais de R$ 170 milhões
do contribuinte, sem fazer esforço.
Outra das empresas envolvidas é o Grupo
Marquise, conglomerado cearense presente em dezessete
estados, que atua no ramo da construção civil – construtora Marquise –, hotelaria – Gran
Marquise Hotel –, recolhimento de lixo – Fortaleza (Ecofor),
Aquiraz, Caucaia, São Paulo e Porto Velho/RO –, financeira – Múltipla Financeira no
Ceará e em São Paulo – e comunicação – TV Tambaú, retransmissora do
SBT na Paraíba e Rádio Tambaú FM, naquele Estado.
O conglomerado é controlado por
José
Carlos Ponte (presidente)
e
Erivaldo Arrais
(presidente). Ambos são habitués de colunas sociais, também são
grandes anunciantes da mídia local e doadores de recursos para
campanhas políticas.
Não é difícil
imaginar o motivo pelo qual o nome das duas empresas foi omitido das
matérias jornalísticas veiculadas. O interesse corporativo se
sobrepôs ao mister jornalístico.
Mais fácil e cômodo dizer que por
“segredo de Justiça” os nomes dos políticos, dos empresários e das
empresas envolvidas não foram divulgados.
Dentre
os presos estão o presidente da Federação Cearense de Automobilismo,
Haroldo Scipião Borges; o piloto Hybernon Cysne e Armando Campos,
cunhado do ministro do Superior Tribunal de Justiça, César Asfor
Rocha, que está em campanha por uma vaga no Supremo Tribunal
Federal. Asfor, que presidiu o STJ até setembro do corrente
ano, é figurinha também carimbada nas colunas – sociais ou não –,
onde puxadores de saco o incensam. Foi o primeiro cearense a
presidir o STJ. Também não é
difícil entender o motivo pelo qual a mídia omitiu
o nome do cunhado do ministro.
Foi
necessário que a imprensa de outros estados divulgasse nome de
empresas e presos, porque a cearense preferiu omitir-se, calar-se
covardemente.
A
valentia da imprensa cearense vai somente até a posição social de
envolvidos em ilícitos. Quando o caso envolve gente simples,
sem instrução ou com condição social baixa logo há a
divulgação do nome, imagem, escárnio. Entretanto, quando se trata de gente bem
posicionada e que possui dinheiro para influir – a ponto de ser
incluído em relação de cearenses mais influentes – fica todo mundo
pianinho, mudo, surdo e cego.
O processo está
correndo na 11ª Vara Federal. Evidentemente com o batalhão de
advogados que possuem – dentre eles ex-presidentes da OAB –
os acusados logo estarão em liberdade. Receberão solidariedade dos
habitués borra-botas, posarão de vítimas e continuarão
figurinhas fáceis nas colunas e eventos sociais.
Hipócrita, omissa e
provinciana é o high society e a imprensa
cearense.
Existe um axioma segundo o
qual “por
trás de uma grande fortuna há sempre um grande
crime”. Infelizmente no Brasil as grandes fortunas,
os grandes negócios encobrem ações ilícitas que desaguaram na
acumulação do dinheiro. Tudo com uma fonte em comum: a corrupção de
agentes públicos. Afinal, nosso País é capitalista quanto à
acumulação de dinheiro, mas socialista na divisão dos prejuízos.
A relação
permissiva e omissa do aparelho policial com a mídia também é
contribuinte para esse ciclo vicioso. Apresentadores,
repórteres e policiais fazem um escambo: trocam a promoção pessoal,
de um lado para galgar patentes e postos melhores, do outro
trampolim para obtenção de vantagens pessoais, como mandatos
eletivos e outros “privilégios” menores. São abutres que
militam nos programas policiais de TV, rádio, jornais que não estão
preocupados em cumprir o mister jornalístico ou na discussão dos
problemas e das soluções dos problemas de segurança, mas na
manutenção do caos. Afinal, se a Polícia fosse eficiente e a
criminalidade diminuída a níveis mínimos, o que esse bando iria
fazer?
A imprensa também
se omite no questionamento dos que defendem a descriminalização da
maconha e a defesa dos direitos humanos.
A
forma como o crime não se sustenta sem a omissão da imprensa e dos
agentes públicos foi bem descrita pelo relator da CPI dos grupos de
extermínio, ex-deputado Paulo Duarte, quando afirmou não saber se
containeres discriminados como contendo camarão e/ou lagosta
foram exportados sem que fossem fiscalizados pela Cia. Docas
por força de liminar. A imprensa em geral nada disse a
respeito da liminar. Os containeres tanto podiam conter mariscos
quanto drogas e armas.Um pequeno micro do macrocosmo que dá
sustentação ao crime: bandidagem, advogados que servem ao crime,
magistrados que prestam igual serviço, Estado que não recorre
das decisões, tudo regado a corrupção.
E se a imprensa
cearense não investiga, não denuncia, e se omite, não é
isenta.
|