ANÁLISE SÓCIO-FILOSÓFICA DA POLÍTICA BRASILEIRA - PARA ALÉM DA "TERCEIRA VIA" - distributiva: o resgate da cultura ambiental "Seduzidos pelo canto-de-sereia da justiça social, muita gente que vibra mais próxima da Natureza e da Espiritualidade termina embarcando numa ideologia pobre como o marxismo feita apenas para remediar ou compensar os males sociais gritantes do capitalismo, ignorando porém o nobre conjunto de valores embutidos e até derivados do ambientalismo tradicional."

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Luiz Antonio Vieira Spinola

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Oct 6, 2014, 2:11:26 PM10/6/14
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PARA ALÉM DA "TERCEIRA VIA

por Luís A. W. Salvi, filósofo e escritor


O avanço das ideologias do mundo moderno (e não apenas neste)
correspondem notadamente aos movimentos da Filosofia Dialética -
sujeitos inclusive a certos calendários como são os períodos de 200
anos que pautam os ciclos sociais de transformação, reunindo cada um
deles os esforços de três gerações para: implantar, consolidar e
adaptar uma dada etapa ideológica.

A formulação mais "retumbante" desta dialética pertence ao marxismo
(ainda que tenha as suas raizes em Hegel), onde encontramos a
contraposição entre Capitalismo ("tese") e Socialismo ("antítese")
sustestando a teoria da luta-de-classes.

Para superar os impasses e os conflitos gerados nesta oposição, e
ainda visando retomar os principios sociais comprometidos pela crise
da Socialismo Histórico, foi criada a microvisão da Terceira Via na
política mundial, que não chega a merecer o nome de "síntese" embora,
sim, faça parte disto.

Esta Terceira Via histórica pretende ser uma espécie de "caminho
médio" de atuação sócio-econômica, caracterizada pelo Distributismo e
pela Social-Democracia visando "reconciliar a direita e a esquerda,
através de uma política econômica ortodoxa e de uma política social
progressista." (http://pt.wikipedia.org/wiki/Terceira_via)

Ambas as concepções remontam ao século XIX. O Distributismo nasceu no
seio da Igreja Católica refletindo as tendências "cristãs"
assistencialistas, numa compensação para a forma "lavada" de viver a
religião no mundo profano. Ao passo que a Social-Democracia foi criada
por marxistas que entenderam que a via democrática deveria ser usada
como transição para o Socialismo - ainda que a olhos vistos sempre que
esta tese avança muito na prática termina em golpes-de-direita
(provavelmente mesmo após a Guerra Fria, caso alguém busque
ressuscitar mais seriamente o Socialismo), de modo que sua tendência
seria permanecer mesmo no pragmatismo assistencial convertido em
instrumento de perpetuação no poder. Podemos por isto tentar dizer que
o socialismo-de-mercado (inclusive na versão chinesa) pode virar o
novo ópio-de-povo, caso não haja um aprofundamento nas coisas.

Já u'a macrovisão mais "justa e perfeita" da síntese teria outros
contornos. O terceiro fator dialético não representa apenas o encontro
dos anteriores no meio de uma linha, e sim uma triangulazição com os
anteriores. Aquele meio-de-caminho representa tirar os excessos dos
opostos, o que já pode ser positivo. Porém, o verdadeiro
caminho-do-meio corresponde a uma superação criativa daqueles meios
implantando ou resgatando outros valores.

Tal coisa se inscreve melhor, pois, no universo da Filosofia
Nacionalista, onde os valores humanos adquirem crescentes cores
telúricas valorizando a identidade cultural (naturalmente passível de
refino e de melhorias) e o meio-ambiente nativo como matriz cultural e
base de saúde integral, inclusive espiritual- e é claro, de rica
expressão estética. Ali, naturalmente temos o equilíbrio entre o
progresso e a justiça.

O Nacionalismo contrapõe a dignidade e a integridade dos costumes
tradicionais, à dupla hybris da antítese dialética que reúne
exploração humana e materialismo. A idealização da via nacionalista
-em si mesma pragmática e histórica- nunca foi proeminente na esfera
filosófica, porque não raro se misturou com as artes e as tradições
dos povos. Permaneceu ativa de maneira natural como na versão
latino-americana de caudilhismo heróico, emergindo intuitivamente como
uma "alternativa" ao marxismo através do fascismo, teve seus arroubos
em expressões fanáticas racistas como o Nazismo que representou também
o seu canto-de-cisne, terminando por ser a grande vítima "incidental"
(sic) da Guerra Fria capitaneada pelo Materialismo Histórico que reune
Capitalismo e Socialismo (Marxismo), quando ainda buscava emergir
sobranceira como no Brasil de Getúlio Vargas e até o seu final
melancólico sob as iniciativas grandiloquentes de Juscelino
Kubitschek.

Depois disto tivemos quase apenas as caricaturas nacionalistas dos
Regimes Militares ("Brasil: ame-o ou deixe-o") que se alastrou pela
América Latina e pelo mundo. Sob as sombras da Guerra Fria, a
juventude contudo se rebelou duplamente contra os seus grandes atores,
buscando intuitivamente caminhos alternativos (inclusive
comunitários), e não raro indo bater às portas das culturas
tradicionais em busca do misticismo ou do primitivismo. De forma
natural, o Nacionalismo também se aproximou da Social-Democracia, como
sob Brizola mantendo ainda a chama do legado varguista.

Tudo isto se manteve todavia abafado e permaneceu sob as brasas da
Guerra Fria aparentemente extinta em 1990, quando voltou a emergir na
esfera dos países e continentes até então oprimidos. Na América Latina
ainda prevalece este mix de Nacionalismo/Social-Democracia (no Brasil
por ora com maior tendência para o último sob o PT), mas nos países
antes reunidos pela União Soviética temos um esforço pelo resgate dos
valores nacionais mais tradicionais, após uma fase de transição que
conheceu o peso da decadência ocidental.

Assim, um dos aspectos mundialmente relevantes desses movimentos de
renovação política se dá hoje pela revalorização das culturas
tradicionais e pelo multiculturalismo -tal como tem emergido
espontânea e até algo "incidentalmente" no Fórum Social Mundial a
partir de 2001-, apontando para um resgate de hábitos e costumes
tradicionais, com destaque para os vínculos do telurismo e da
espiritualidade natural. Tal coisa convive é claro com as habituais
manifestações socialistas, nos seus esforços pela "domesticação" do
sistema mais que a sua negação pura e simples que as vias tradicionais
se inclinariam melhor por buscar, nisto indo ao encontro das
tendências "primitivistas" da juventude da Guerra Fria e após.

Contudo, o final do período de exceção viu o recrudescer dos já
incipientes experimentos comunitários, como se se sentisse um cansaço
a este respeito - mas também, pergunta-se, como se já não fossem
necessários por estar restabelecida a via democrática?
Nisto tudo existe pois uma mistura de valores algo complicada, porque
as inclinações materialistas do socialismo destroem o meio-ambiente e
com ele as culturas autócnes. Seduzidos pelo canto-de-sereia da
justiça social, muita gente que vibra mais próxima da Natureza e da
Espiritualidade termina embarcando numa ideologia pobre como o
marxismo feita apenas para remediar ou compensar os males sociais
gritantes do capitalismo, ignorando porém o nobre conjunto de valores
embutidos e até derivados do ambientalismo tradicional.

A grande solução seria, pois, incrementar e radicalizar o nacionalismo
integral pelo retorno à terra de forma mais massiva e valorizar os
costumes nativos. Ao mesmo tempo, caberia olhar para o futuro, não
apenas através da necessária justiça social, mas para os valores
espirituais mais avançados como uma expressão de nação ou de
humanidade em evolução.
A ideia é equacionar as raízes telúricas com o avanço cultural, mais
ou menos como fez a Índia clássica refinando antigos valores
naturalistas (pecuários, por exemplo) numa espiritualidade mais
naturista, enquanto adotava massivamente o modelo econômico da
organização social em vilas. Esta deve emergir pois como uma meta
paralela e alternativa para as metas socialistas da cultura-de-massa,
a qual deve ser paulatinamente substituída e aperfeiçoada por aquela.

A cultura-de-massa representa uma herança colonialista, então pode ter
parcialmente tratada com remédios criados no Velho Mundo. Porém a
verdadeira cura e saúde resultará isto sim da adoção de um novo modelo
civilizatório onde se harmonize meio-ambiente e civilização através da
criação de redes de cidades sustentáveis de pequeno porte. A esta nova
práxis fundada na síntese nós chamamos de QUARTA VIA, aquela da Matese
ou da praxis integral.

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