Como foi o início da sua vivência religiosa? A religião vem por parte de mãe Baiana, feita lá, filha de Oyá Igbalé e Omulu. Desde muito pequeno eu entrava em lojas de artigos religiosos e ficava encantado com aquelas imagens enormes, mas principalmente com a das mulheres negras, sempre com o dorso desnudo, que eram capazes de segurar rios, peixes e sempre tão enfeitadas com uma coroa de franjas (o adê), e tão altivas, me fascinava. Isso fez com que, desde cedo, eu respeitasse o feminino como um igual.
Adorava as histórias de Oyá-Iansã, do quão era impetuosa, forte e autossuficiente, pois minha mãe é assim e sempre foi uma presença forte pra mim. Conheci pela Umbanda, quando me apaixonei por Iemanjá, da forma branca, com vestido azul, cabelos grandes e longo; queria me casar com ela… como era linda, acho que toda criança já foi apaixonada por Iemanjá. Eu sentia um amor por aquela entidade que não era de mim, que eu não entendia, a ponto de no ano novo, em Copacabana, querer me jogar no barco que ia para o mar no romper do ano, com apenas 10 anos. Mais para frente fui saber que era seu filho, e de Logunedé, a quem dedico TANTA criatividade.
Sempre soube desenhar, e sempre amei desenhá-los, o que me rendeu na adolescência o título de “macumbeiro” na escola. Alguns tinham medo, outros se benziam, outros nem falavam comigo, mas eu adorava os curiosos que vinham saber mais. Adorava falar de Exu, pois todos tinham tanto medo, e para mim era tão natural”... Sempre gostei de desmistificar as coisas, de entendê-las e tentar passá-las de outra forma. Uma vez um professor me ouvindo falar de Exu, em alto e bom som, mandou que eu o fizesse no banheiro de minha casa, para parar de falar “m…”; eu adorei e falei mais ainda! Talvez isso tenha me motivado a saber sempre mais para retrucar o que tentavam mal falar de minha fé. E apesar de algumas pessoas serem contra o sincretismo – próprio da Umbanda – eu adoro. Concordo que ele nasceu de uma opressão, mas a interação desses deuses pode promover a paz entre nós.
É lindo ver nos comentários pessoas dizendo que são de diversas religiões, mas que apesar de qual Deus fosse, a mensagem de paz chegou aos seus corações. Foi a partir daí que nos dias de sincretismo faço imagens com essa interação, para buscar essas pessoas. Outro caso foi esse ano, no dia de Oxóssi – São Sebastião para os católicos – quando a Pastoral da Juventude – Arquidiocese de Fortaleza compartilhou a imagem acima em sua linha do tempo propondo a paz entre os cultos e as pessoas. Parte dos católicos foi contra, outra parte a favor, e acho que é isso: a arte tem esse poder de fazer refletir sem agredir. |