Publicação: 21/04/2009 08:37
Atualização: 21/04/2009 08:38
Fazer uma tesourinha para pegar o Eixão até o Setor de Autarquias Sul é
um dos roteiros mais corriqueiros para o brasiliense, mas pode ser um
terror para os turistas que tiverem apenas essas indicações como
referência. Brasília é uma cidade diferente de qualquer outra no mundo.
Baseada numa lógica matemática, a capital do Brasil deveria ser
facilmente compreendida por qualquer forasteiro que pusesse o pé no
Plano Piloto. Mas os setores e siglas em que a cidade está dividida
demoram para ser decifrados. Pelo menos até agora. Uma pesquisadora da
Universidade de Brasília (UnB) decidiu acabar com a agonia de quem se
perde pela capital e reuniu em um dicionário siglas e nomes que só se
escutam no Distrito Federal.
A
professora de português Flávia de Oliveira Maia Pires sentiu
dificuldades para se situar quando chegou a Brasília há 15 anos, mas a
carioca só percebeu como era difícil entender a cidade quando seus
alunos estrangeiros começaram a lhe pedir informações sobre endereços.
“Nem soube explicar, nem encontrei material sobre o assunto”, lembra a
professora. Flávia dá aulas particulares para diplomatas de todo o
mundo — de norte-americanos a ucranianos — e decidiu elaborar uma
ferramenta que auxiliasse quem vem de fora.
A dissertação de
mestrado defendida por Flávia neste mês no Departamento de Linguística,
Português e Línguas Clássicas (LIP) da UnB deve ser publicada em
formato de dicionário até abril de 2010, quando Brasília completa 50
anos. O livro Glossário de Termos da Organização Urbana de Brasília vai
descrever e explicar o que é uma tesourinha e apontar onde fica o
Eixão, ou Eixo Rodoviário-Residencial, como a via foi nomeada
inicialmente. O glossário também conta com uma lista de siglas, terror
de quem pretende encontrar um endereço e não faz a mínima ideia do que
elas significam.
CoordenadasInicialmente o manual
serviria apenas para estrangeiros, mas uma pesquisa rápida pelas ruas
de Brasília mostra que mesmo os moradores da capital se enrolam ao
tentar traduzir as siglas da cidade. “SEPN? Setor Esportivo%u2026 essa
eu não sei, não”, admite o taxista Moacir Antônio dos Santos, 59 anos,
que dirige pela capital há 26. “Mexer com essas siglas é difícil”,
concorda o colega Carlos Rafael, 38. Carlos comenta que os brasilienses
não costumam utilizar as siglas quando solicitam uma corrida. “O
problema é com os estrangeiros. Um dicionário como esse ia ajudar
muito, porque eles dariam as coordenadas de uma forma mais simples”,
considera.
Para compor a amostra de 216 verbetes do glossário
(que vêm acompanhados por uma frase que os contextualiza), Flávia
reuniu dados de documentos, materiais de turismo e jornais, e tomou
como ponto de partida o relatório de Lucio Costa sobre a cidade,
escrito em 1957. “Baseado em Le Corbusier, Lucio Costa projetou a
cidade em função do homem. Por isso, está tudo dividido em setores”,
explica a professora. Segundo Flávia, Brasília é uma cidade conceitual,
ou seja, é preciso pensar no conceito de cada setor para se localizar.
ApelidosAs
variantes populares que algumas localidades ganharam ao longo dos anos
não colaboram com os visitantes. O Conic, por exemplo, é o Setor de
Diversões Sul (SDS). A alcunha pela qual o conhecemos é uma apropriação
do nome da empresa responsável por construir os primeiros prédios a
ocupar o setor. Se buscar pelo setor de diversões, o turista pode
encontrar dificuldades para chegar.
O mesmo deve acontecer com o
parque. O que o brasiliense conhece como Parque da Cidade foi planejado
para ser o Setor de Recreação Pública Sul (SRPS). E o que seria o Setor
de Habitações Coletivas Econômicas Sul (SHCES)? Localizado ao lado do
Sudoeste, o Cruzeiro Novo foi rebatizado devido a sua proximidade do
cruzeiro onde foi rezada a primeira missa da capital (próximo ao
Memorial JK).
As alterações de nome são tantas que, antes de ser
publicado, o dicionário vai receber todos os apelidos. “Tem gente que
conhece a SQS 107 como Rua da Igrejinha”, diz a professora Enilde
Faulstich, da UnB. Orientadora da dissertação, ela conta que a meta é
distribuir o glossário em forma de catálogo para moradores e visitantes
do DF. “Queremos prestar um serviço social”, diz. Quando for publicado,
o dicionário também vai contar com informações sobre a arquitetura de
Brasília.

ain