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Date: 2009/11/15
Subject: Associação Paulista de Busólogos
To:
Busólogos, os loucos por ônibus
Eles passam horas em terminais rodoviários e nas ruas, até mesmo no Natal, em busca de raridades sobre rodas
É tipo um RRRRRRRRRRRR forte assim, contínuo, alto. Nada dos
rrrrrrrrrrrrrrrrrrrr minúsculos e sem graça que se ouvem por aí,
segundo ensina o auxiliar de administração Marcos Paulo da Silva, de 21
anos, com suas onomatopeias um tanto difíceis de entender. "O barulho
do motor entrega quase tudo, é como se fosse a respiração do ônibus. Dá
também para saber a história do ônibus pela carroceria, pelos faróis,
pelas rodas, pelo para-choque. É incrível. A gente vê beleza em coisas
que, para a imensa maioria das pessoas, não passam de uma obrigação, um
suplício diário."
Com
seus barulhinhos esganiçados de motor e jeito um tanto encabulado de
explicar as paixões, Marcos Paulo da Silva é presidente da Associação
Paulista de Busólogos, um grupo que sabe todas as variações dos
"RRRRRRR" de São Paulo. Enquanto algumas pessoas idolatram Ferraris,
Maseratis, Mitsubishis e Lamborghinis, os busólogos babam mesmo é por
marcas como Busscar, Marcopolo, Caio Induscar e Comil Ônibus. "Sim,
gostamos mesmo de ônibus, mas não pergunte o porquê", resume Humberto
Linhares, de 28 anos, que mantém um blog com 182 fotos de coletivos
diferentes da cidade. "Até achei que eu fosse louco, mas, quando vi que
várias pessoas também são assim, pelo menos fiquei mais tranquilo."
Sem
sequer existir nos dicionários, os busólogos paulistanos são aqueles
que, por puro hobby, acompanham absolutamente tudo que se refere aos
14.759 coletivos que transportam 78,3 milhões de passageiros por ano
apenas na cidade de São Paulo. Eles adoram fotografar os veículos,
frequentam rodoviárias e acumulam horas e horas dentro de veículos
lotados de gente. Não só conseguem adivinhar o modelo do ônibus apenas
ouvindo o barulho do motor, como também sabem as especificações de cada
coletivo e quais modelos operam em quais linhas.
Os busólogos
ainda estudam a evolução histórica da utilização do ônibus no
transporte público e colecionam informações sobre os vários modelos que
existem desde o século 18 na Europa - o nome do veículo vem de omnibus,
que em latim significa "para todos". Somando os grupos de discussão na
internet e os blog de associações, dá para estimar que existam pelo
menos 20 mil busólogos pelo País. Em São Paulo, esse número de
fanáticos chega a 5 mil. Esses em especial podem recitar de cor, por
exemplo, que o serviço de bondes elétricos em São Paulo começou
exatamente no dia 7 de maio de 1900, com a linha São Bento-Barra Funda
(os bondes com tração animal circularam na capital paulista de 1872 a
1907). Também sabem que os ônibus começaram a tomar conta da paisagem
paulistana a partir de 1926 e até hoje mais de 5 mil modelos já andaram
pelas ruas.
"São Paulo teve até double decker em 1987, aqueles
veículos de dois andares idênticos aos de Londres. Mas não pegou porque
eram muito altos e as vias não comportavam", ensina Marcos. "Atualmente
há inúmeros modelos rodando, mas é só prestar atenção para descobrir os
detalhes. Tipo, se você vê a inscrição 17230 na lateral sob a porta do
ônibus, dá para saber que o ônibus suporta 17 toneladas e tem potência
de 230 cavalos. A gente vai aprendendo esses macetes."
A paixão
de Marcos por ônibus começou ainda quando criança, aos 3 anos, quando
fez uma viagem (de ônibus, claro) com a mãe para o Nordeste. A partir
daí, passou a ter quase uma fixação por aqueles veículos gigantes,
colecionando recortes de jornal, revistas, miniaturas e muitas, mas
muitas viagens dentro de coletivos. Em julho do ano passado, depois de
perceber que na internet havia centenas de busólogos como ele, resolveu
montar a Associação Paulista de Busólogos, que conta hoje com 54
sócios. "Tem gente que acha que ônibus é tudo igual, mas há inúmeras
diferenças", conta. "A gente tenta fotografar todos os ônibus que
encontramos por aí e depois nos reunimos para contar as histórias e
analisar os coletivos. A parte ruim é que a gente sofre muito
preconceito, as pessoas realmente acham estranho."
Busólogo
adora feriado, mas não pelos mesmos motivos do restante da população.
São nessas datas - em especial no Natal, ensinam - que as empresas de
transporte experimentam um grande aumento da demanda de passageiros. E
isso significa que diversos ônibus extras são colocados nas ruas para
atender o movimento. "Dá para encontrar várias raridades, até ônibus
estrangeiros", conta Marcos. "Eu já fiquei dez horas no Terminal do
Tietê num feriado de carnaval vendo os ônibus partirem e tirando
fotos", completa Humberto Linhares. "Sabe quando você é pequeno,
coleciona figurinhas e aí consegue achar no pacotinho aquela figurinha
rara que faltava? Então, é igualzinho hoje quando vejo um ônibus
diferente."
AMOROs busólogos ainda têm seus
ônibus preferidos pela cidade. Marcos, por exemplo, adora os
biarticulados de 27 metros de extensão que andam em alguns corredores
da zona sul. "São os maiores do mundo! A China está tentando fazer um
projeto maior, mas ainda não conseguiu", diz ele, que, aliás, ainda não
pensa em comprar um carro para se livrar do transporte coletivo. "Não,
não, carro ainda não. Até tem vários busólogos que possuem carro, mas a
maioria gosta de andar de ônibus. Isso sim é prova de amor."
[Agência Estado]